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sábado, 30 de abril de 2016

Uma Dor Que Ninguém Vê - Um Tabu a Ser Enfrentado


Uma dor que ninguém vê
Em 17 anos, foram 19.295 pessoas mortas. É como se a população inteira de um município da serra gaúcha desaparecesse. São Francisco de Paula tem 20.224 habitantes. O DATASUS (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde) confirma: são 10,2 casos de suicídio a cada 100 mil habitantes. Este índice coloca o RS no topo do ranking nacional para mortes deste tipo. Em seguida vem Roraima, com 8,3 e Mato Grosso do Sul, com 8,1.
O estado que tem o menor índice é o Rio de Janeiro, uma média de 2,4 mortes para cada 100 mil habitantes. Os números não são de hoje e vem aumentando. De acordo com Ricardo Nogueira, psiquiatra do Hospital Mãe de Deus que pesquisa ansiedade, depressão e prevenção ao suicídio, os maiores índices de casos suicidas acontecem na região nordeste do estado.
De acordo com o Mapa da Violência, o RS ainda tem 11 das 20 cidades brasileiras que mais tiveram casos. Três Passos (2º), Três de Maio (5º), Nova Prata (6º), Santa Cruz do Sul (11º), Tupanciretã (11º), Santiago (12º), Canguçu (13º), Lajeado (14º), Venâncio Aires (15º), Encruzilhada do Sul (18º) e Osório (19º).
Os municípios com maior incidência de suicídio no estado são de colonização alemã. Por isso, a ascendência é um fator considerado pela Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS). No entanto, o coordenador do departamento de psiquiatria no estado, Marco Antonio Caldieraro, diz que isso não é determinante: “A gente tenta não valorizar muito essa questão porque se você está atendendo um paciente de uma etnia que tem menos incidência em suicídio não quer dizer que é um motivo para não se preocupar.”
Para a Doutora em Ciências Médicas, Rosa Maria Martins Almeida, da UFRGS, que estudou o suicídio em homens e mulheres, o tema deve ser tratado como um problema de saúde pública e o governo deveria criar programas e campanhas de prevenção, assim como as diversas campanhas que existem para prevenção da AIDS, tuberculose, gripe, HPV, entre outros. “É necessária uma discussão mais aberta sobre este problema na sociedade e o estabelecimento de estratégias para a precaução, considerando as particularidades regionais”, concorda a professora da Unisinos Fernanda Barcellos Serralta. A tese de doutorado da psicóloga foi sobre os riscos de suicídio em pacientes deprimidos.
A APRS entende que o suicídio, na maioria das vezes, está relacionado a algum tipo de transtorno psiquiátrico muitas vezes não diagnosticado e não tratado de forma adequada. Os mais comuns são: depressão, bipolaridade, dependência química, transtornos de personalidade e a esquizofrenia.
Marco Antonio Caldieraro salienta que é possível tratar os pacientes com consultas frequentes, sem a necessidade de internação. Contudo, para aqueles que possuem tendências suicidas o melhor é que o tratamento seja realizado onde não exista a possibilidade dele tentar algo contra si mesmo. O suicídio ocupa a 3ª colocação entre as mortes violentas no RS, ficando atrás dos homicídios (1ª) e dos acidentes de trânsito (2ª), segundo o DATASUS.
Aumenta o suicídio entre jovens
Diversos jovens sofrem em silêncio e as famílias só ficam sabendo dos problemas depois que o fato está consumado. De acordo com dados do Mapa da Violência, do Ministério da Saúde, o índice de jovens que tiraram a própria vida aumentou 40% em 10 anos. Para a doutora em psicologia, que defendeu uma tese sobre as motivações para esta violência, Fernanda Serralta, o suicídio na adolescência associa-se a fatores como a depressão, baixa autoestima, disfunção familiar, abuso sexual, maus tratos, negligência e o uso de substâncias psicoativas.
O médico Ricardo Nogueira confirma o aumento de suicídios entre os jovens. Segundo seus estudos, os abusadores de álcool e drogas estão na liderança com 33% seguido dos jovens depressivos com 28%. Esquizofrênicos, jovens com transtorno de personalidade e ansiedade completam a lista. Porém, outro sinal que preocupa é o crescimento do número de mortes entre as mulheres jovens, “principalmente meninas dos 15 aos 19 anos, usuárias de álcool e drogas ou que estão em gestação”, destaca Nogueira.
Como vai você?
Todos os especialistas consultados pela reportagem apontaram o CVV (Centro de Valorização da Vida) como a principal referência na prevenção de suicídio no Brasil. A organização não governamental é, inclusive, citada pelo Google quando busca-se informações sobre o assunto.
O slogan “como vai você” é uma alusão à forma com que eles trabalham. No ano passado, no Brasil, o CVV atendeu um milhão de pessoas que buscavam ajuda, o equivalente a uma ligação a cada 33 segundos. Fundado em 1962, em São Paulo, o CVV atende pelo número 141. O coordenador nacional, o gaúcho Anildo Fernandes, explica que o atendimento prioriza o ato de ouvir as pessoas: “Nós procuramos oferecer uma escuta compreensiva. Sabemos que, à medida que a pessoa começa a falar dos seus problemas, ela começa a se sentir aliviada e, assim, encontra forças dentro dela própria para reagir”, explica. Conforme Anildo, a perda é a maior motivação das ligações para o 141. Ela pode estar relacionada ao falecimento de um ente querido, a demissão de um emprego ou até mesmo a morte de animais de estimação.
No Rio Grande do Sul, nos primeiros quatro meses de 2015 foram atendidas 19.350 ligações. Uma média de 4.837 ligações por mês, de acordo com o coordenador. A organização dispõe de atendimento presencial, via internet, pelo telefone e até mesmo por carta. E há também os grupos de apoio aos “sobreviventes”, denominação dada às pessoas que já tentaram tirar a própria vida ou àqueles que são parentes de vítimas.
Mesmo com a ajuda, o Centro de Valorização da Vida não promete terapia a quem procura o serviço. “Não é um trabalho terapêutico. Nós somos pessoas da comunidade, cada um com a sua profissão”, explica Anildo, contador, especializado em controladoria. Ele divide seu tempo entre atividades profissionais e tarefas que possui no CVV. Apesar de reconhecida por lei como entidade de utilidade pública federal, o Centro de Valorização à Vida não recebe verbas do governo. Toda a renda que o centro arrecada para a sua manutenção é proveniente dos próprios voluntários, a partir da realização de “vaquinhas” e brechós que a entidade organiza. O coordenador entende que o Centro cumpre uma lacuna deixada pelo Estado, tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul: “O estado, por mais que tente fazer, não encontra mecanismos para atender a demanda. A gente procura então suprir essa necessidade”, afirma.
Não diga que a canção está perdida
A especialista Rosa Maria Almeida salienta que os familiares que notarem mudanças de comportamento como o desejo de não sair de casa, isolamento, impulsividade, agressividade, vontade de chamar a atenção, falta de controle, níveis de depressão, perda de motivação e falta de convivência com amigos, devem ficar constantemente em alerta porque são indícios que podem levar ao ato de tirar a própria vida.
A Secretaria Estadual de Saúde do RS (SES-RS) reconhece que o suicídio é um grave problema de saúde pública. De acordo com a assistente social da SES –RS, Andreia Volkmer, o estado tem feito campanhas em duas frentes: de valorização da vida, sem citar o termo suicídio, e publicando um guia de bolso com informações para os profissionais da saúde. Conforme a assistente social, está nos planos do governo capacitar os profissionais da saúde no interior do estado. Entretanto, em função da contenção de despesas, as viagens estão suspensas.
O psiquiatra Ricardo Nogueira relembra que em 2007 o estado criou o Programa de Prevenção de Suicídio dentro de uma ação chamada PPV (Programa Prevenção Da Violência) envolvendo várias secretarias. Nas 10 cidades onde este tipo de morte era mais constante foram oferecidos programas de tratamento à depressão e orientação à população. Os números de suicídio se reduziram em 12% durante o programa. No entanto, de 2011 a 2014 não houve continuidade deste projeto: “Vimos que até 2010, das 20 cidades com maior índice suicida no Brasil, metade eram gaúchas, segundo dados do DATASUS. De 2011 para 2014, já são 13 cidades. É um aumento de 30%. Então vamos trabalhar nas cidades onde estão as maiores incidências”, afirma o psiquiatra.
Nogueira revelou que uma parceria conjunta envolvendo a Secretaria Estadual de Saúde, o Centro Estadual de Vigilância de Saúde, o Centro de Informações Toxicológicas, e o Hospital Mãe de Deus foi criada para lançar um novo projeto de prevenção ao suicídio em setembro. “No momento estamos na fase do geoprocessamento, um levantamento do número de suicídios ocorridos e de tentativas mal sucedidas. Houve no Rio Grande do Sul, 1500 tentativas de suicídios por intoxicação de medicamentos, de material de limpeza e de venenos, de acordo com o Centro de Informação Toxicológicas. Então estamos fazendo esse geoprocessamento de quais são os tipos de suicídios para combatermos.” A intenção, segundo o médico, é começar por Porto Alegre, por ter o maior número absoluto de mortes e ser a cidade mais populosa.
Mas os maiores percentuais de casos suicidas ocorrem na região nordeste do estado. O atual deputado Federal Osmar Terra integra o grupo que está organizando o novo programa. Ele era o secretário da saúde em 2007, quando foi criado o Programa de Prevenção ao Suicídio. Terra, que também é médico, afirma que para enfrentar o problema é preciso combater o uso de drogas e diagnosticar os transtornos mentais, acompanhando de perto os grupos de maior risco.
Para o deputado, uma solução seria o governo contratar psiquiatras nas regiões onde os índices são maiores, e identificar os grupos de risco, ou seja, aqueles que já tentaram o suicídio ou apresentam depressão grave. “Nós precisamos de uma política de diagnóstico. A pessoa que tem borderline (transtorno de personalidade), por exemplo, precisa ser acompanhada, ela é um suicida em potencial. Nós temos bons psiquiatras, bons profissionais, mas a população não tem acesso a estes especialistas”, explica Osmar Terra.
Um tabu para a imprensa
Apesar dos dados alarmantes de suicídio no Brasil e no Rio Grande do Sul, o assunto é pouco tratado pela imprensa com a justificativa de que a visibilidade do tema pode influenciar quem está predisposto.
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros ainda não aborda a questão do suicídio diretamente. Conforme o documento, os profissionais da imprensa tem a responsabilidade de preservar o direito à privacidade, a imagem e à honra das fontes. Também é proibido divulgação de informações de caráter pessoal, mórbido e sensacionalista.
O jornalista Carlos Etchichury foi o autor de uma série de reportagens sobre suicídio no jornal Zero Hora, em 2008. Etchichury entende que ao não divulgar o problema, o jornalismo está se omitindo da sua função: “ao não publicar matérias sobre suicídio, o jornal deixa de abordar uma das três principais causas de morte violenta no Estado — um assunto de alto interesse social. E não abordando este assunto, o jornal não cobra do Estado (uma das atribuições da imprensa é fiscalizar o Estado) políticas públicas capazes de combater o suicídio”.
De acordo com o jornalista, que defende mais publicações sobre o assunto, há manuais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Associação Brasileira de Psiquiatria que auxiliam os profissionais da comunicação na divulgação do suicídio. “Não sei se a publicação de reportagens teria, como consequência imediata, a redução das ocorrências. Mas os veículos poderiam, por exemplo, prestar um serviço público relevante para a população, orientando familiares e amigos de suicidas ou pessoas que tentaram se matar e cobrando políticas públicas do Estado.
Um pedido de ajuda: quando o apresentador vira ouvinte
Apresentador do programa “Pijama Show”, na Rádio Atlântida (Agora na Rádio Farroupilha), em Porto Alegre, Éverton Cunha é conhecido por Mr. Pi. Acostumado a atender ouvintes no ar durante a madrugada, o radialista foi pego de surpresa há quase 15 anos, quando recebeu a ligação vinda de um jovem de Chapecó/SC. O ouvinte não queria pedir música, muito menos comentar algum assunto do programa: ele havia ligado para anunciar que estava prestes a tirar a própria vida.
“Eu atendi e logo de cara ele disse que estava pensando em se matar. Eu fiquei surpreso muito mais pela ligação do que pela ideia. Eu já fui jovem, a maioria do meu público é jovem. Eu sei que muita gente pensa nisso e eu sei que, na madrugada, as pessoas ficam muito mais sensíveis, pensativas. Não tinha como julgar se aquilo era sério ou se era alguma brincadeira, então deixei ele falar”, conta o apresentador.
A ligação durou alguns minutos. Mr. Pi escutou o jovem falar dos problemas e tentou fazê-lo mudar de ideia. “Quando ele falou aquilo eu pensei exatamente o inverso: se ele está me propondo o fim, eu vou tentar propor um recomeço.” No final da conversa, Mr. Pi colocou no ar a canção de Raul Seixas, Tente Outra Vez.
Depois da conversa, o ouvinte manteve contato quase que diariamente com o apresentador, a seu pedido. O jovem catarinense contava como estava a sua vida e Mr. Pi, algumas vezes, lia as mensagens no ar. Meses depois, o rapaz afirmou que tinha desistido da ideia de suicídio. Mais tarde, encontrou o comunicador pessoalmente, em um evento em Chapecó, e lhe agradeceu.
O radialista não quer ser visto como “herói” na história. Ele ressalta que apenas tratou de escutar uma pessoa que estava com problemas: “Não acredito que eu tenha feito algo de extraordinário. Mas a gente nunca sabe, posso ter feito a diferença ou não. Ele precisava falar, eu apenas escutei. Essa história foi marcante, diversos ouvintes lembram até hoje. É um assunto delicado, eu acho que nós temos que ter muito cuidado quando tratamos de suicídio. Temos que fortalecer nas pessoas a ideia da vida”, diz Mr. Pi.
Redação: Caroline Garske, Douglas Demoliner, Guilherme Moscovitch, Laís Albuquerque, Luana Schranck, Maurício Trilha e Stéphany Franco.
Fotografias: Laís Albuquerque
Edição e supervisão: Luciana Kraemer.
*Texto produzido pelos alunos de Jornalismo da Unisinos/RS para a disciplina de Jornalismo Investigativo

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O Shortinho, o Cunha e a Camille Paglia

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por Izaura Franqui da Silva
Nos últimos dias temos tido a oportunidade de acompanhar fatos que são representativos da nossa sociedade: as notícias sobre corrupção, a criminalidade crescente e a foto de belos adolescentes sendo recepcionados em sua volta às aulas, em um ambiente que parece uma festa, com banho de espuma e meninas vestidas com pequenos shorts. Nos dias subsequentes sobrevém a polêmica: as estudantes, e vários de seus pais, protestando contra as medidas tomadas pela escola de proibir roupas muito curtas no ambiente escolar. A questão que se impõe é entender que tais aspectos, por impactante que possa parecer, podem estar estreitamente relacionados.
Nossa prática profissional tem permitido constatar a assustadora e prevalente dificuldade atual da família e demais instituições formadoras em estabelecer limites, claros e bem fundamentados, para nossas crianças e adolescentes, parecendo mais fácil gratificá-las para que não "incomodem". Sobre isso, um célebre pensador em saúde mental ressaltou que amar e frustrar uma criança deve ser como colocar água em uma planta: os dois não podem faltar nem ser excessivos, pois em ambos os casos a planta não cresce, ou mesmo chega a morrer.
O que constatamos é uma sociedade refém da criança, do belo e do pagante. A criança com direitos ilimitados, o belo como um padrão discriminatório e o pagante com todos os direitos e poderes que a criança e o belo possuem e muito, muito mais. O que isso poderá se relacionar com corrupção, com criminalidade? Infeliz e assustadoramente, existe muita relação, pois esses enormes problemas sociais refletem a falência das figuras paternas (de autoridade), o individualismo (meu desejo acima do desejo do outro), o narcisismo (o próprio desconhecimento do outro como um sujeito) e a atrofia de uma geração que entende que precisa ser gratificada sempre. Protestar é saudável na juventude, mas interessante refletir que até isso só ocorre quando se recebe limites.
E a Camille Paglia? A polêmica feminista, que discute se a mulher moderna, ao se expor em demasia não estaria presa, ainda, ao velho paradigma de ser somente um corpo. Mas isso é, como dizem os antigos, outro "angu de caroço".
Izaura Franqui da Silva é
psicoterapeuta e professora universitária
Fonte:  Zero Hora
COMENTO: não entendi a referência ao Cunha, no título, mas não quis modificar o texto, por isso, nem comento!  Compartilho o comentário que explica o "movimento", coloca os devidos pingos nos ii e com o qual concordo ipsis litteris.
"Sobre o shortinho no Anchieta:
Minha filha, você está indo estudar, não está indo cavalgar num canavial de jeba. A escola é o lugar de absorver conhecimento para o seu futuro. E nessa escola há ar condicionado, material, bons professores, ou seja, o ambiente perfeito e bem caro pra que isso ocorra. Você só tem a obrigação de estudar e mais nada e chega na escola já no ar condicionado do carro do papai. Usar short é uma coisa e tanga jeans é outra. Além disso, queridinha, estudar no Anchieta e fazer parte de liderança de movimento do PSOL é bem a cara desse partidinho furreca. Já pesquei a politicagem da coisa pelo discurso vazio de sempre, com as palavras decoradas da cartilha vermelhinha. Sabe, querida, o mundo lá fora é diferente do que esses coletivos ensinam e diferente do Audi do papai; lá, te exigem conduta, pois há trajes adequados para cada ambiente. Assim como se você for empresária não chegará numa reunião com o mesmo short atolado no meio do rabo, você também não vai pra escola porque não é o ambiente pra tal roupa. Deixe pra ir assim no shopping pegar os modinhas que você sustenta sem sua mãe saber. Além disso, você deveria saber que se seu colégio é uma instituição privada, eles fazem o regimento que quiserem. Agradeça de não ter de ir de saia plissada e gravatinha de Rebeldes. Se quiser usar uma roupinha que atravesse seu útero, seja bem vinda à escola pública, onde o pessoal faz jus à realidade e à justiça que tu pregas. Mas não torra, caralho. Vai estudar."

domingo, 21 de junho de 2015

A Miséria da Educação e a Educação da Miséria

por Percival Puggina
Todo dia, leitores me enviam relatos sobre a hegemonia marxista nos ambientes acadêmicos. Há exceções, claro, mas são isso mesmo. A coisa funciona mais ou menos assim:
1) cursos voltados para Educação intoxicam universitários com conteúdo marxista e explicações simplistas da realidade;
2) professores licenciados, elevados à condição de intelectuais orgânicos, vão para as salas de aula do ensino fundamental e médio ensinar o que aprenderam.
É a miséria da Educação. Ao longo do curso foram instruídos para serem agentes de uma “educação libertadora”, na qual o adjetivo é muito mais importante do que o substantivo. Aprenderam direitinho a conduzir seus alunos através dos estágios da investigação, da tematização e da problematização, tendo em vista fazê-los protagonistas da transformação da sociedade. Desde essa perspectiva, atividades escolares que enfatizem o conteúdo das disciplinas são uma rendição às “exigências do mercado” e indisfarçada posição de direita, certo? Então, ensinam-se convenientes versões da história, uma geografia política muito política, pouca matemática e se reverencia a linguagem própria do aluno. Consequência: mais de meio milhão tiram zero na redação do ENEM. Tais professores julgam perfeitamente honesto serem pagos para isso. Consideram absurdo que lhes pretendam cobrar desempenho. Julgam-se titulares do direito de fazer a cabeça dos alunos. Desculpem-me se repeti o que todos sabem, mas era necessário ao que segue.
Qual o produto dessa fraude custeada pelos impostos que pagamos como contribuintes à rede pública ou como pais à rede privada de ensino? Se você pensa que seja preparar jovens para realizarem suas potencialidades e sua dignidade, cuidando bem de si mesmos e de suas famílias, numa integração produtiva e competente na vida social, enganou-se. Ou melhor, foi enganado. O objetivo é formar indivíduos com repulsa ao “sistema”, a toda autoridade (inclusive à da própria família) e às “instituições opressoras impostas pelo maldito mercado”. Se possível, recrutar e formar transgressores mediante anos de tolerância e irresponsabilidade legalmente protegida, prontos para fazer revolução com muita pedrada e nenhuma ternura.
Se tudo der certo, o tipo se completa com um boné virado para trás, um baseado na mochila e uma camiseta do Che. A pergunta é: quem quer alguém assim na sua empresa ou local de trabalho? Em poucos meses, essa vítima de seus maus professores, pedagogos e autoridades educacionais terá feito a experiência prática do que lhe foi enfiado na cabeça. Ele estará convencido de que “o sistema” o rejeita de um modo que não aconteceria numa sociedade igualitária, socialista, onde todos, sem distinção de mérito ou talento, sentados no colo do Estado, fazem quase nada e ganham a mesma miséria.
É a educação da miséria. Os intelectuais orgânicos que comandam o processo não se importam com o para-efeito do que fazem. O arremedo de ensino que criaram cristaliza a desigualdade, atrasa o país, frustra o desenvolvimento humano de milhões de jovens e lhes impõe um déficit de formação dificilmente recuperável ao longo da vida. De outro lado, quem escapa à sua rede de captura e vai adiante estudará mais e melhor, lerá mais e melhor, investirá tempo no próprio futuro e, muito certamente, criará prosperidade para si e para a comunidade. O mercado separará o joio do trigo. No tempo presente, as duas maiores causas dos nossos grandes desníveis sociais são: a drenagem de 40% do PIB para o setor público e a incompetência que a tal “educação libertadora” e a respectiva ideologia impuseram ao ensino no Brasil.
Fonte:  Blog do Puggina
COMENTO: eis mais um dos muitos motivos para que o pessoal da "zisquerda" procurem destruir o Sistema Colégios Militares e outros de fundamentação religiosa, onde são mantidos os parâmetros de respeito ao mérito. Eles sabem que os jovens formados nestas instituições serão os verdadeiros líderes de amanhã, por sua capacidade de bem entender o mundo, sobrepondo-se até mesmo aos "líderes esquerdistas" formados no sistema acima descrito. Procuram destruir mas não conseguirão. Não passarão!!
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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Família de General Contesta a Acusação da Comissão da Meia Verdade

O General de Exército, Sérgio Wesphalen Etchegoyen, Chefe do Departamento Geral do Pessoal, assinou nota, em conjunto com a sua família, repudiando o relatório divulgado pela Comissão Nacional da Verdade e classificando seu trabalho como "leviano".
A Comissão responsabilizou o pai do atual chefe do DGP, o General Leo Guedes Etchegoyen, e outros 376 civis e militares, por violações de direitos humanos durante o governo militar, sem apontar os fatos que teriam levado às acusações.
Esta é a primeira vez que um General da ativa condena a conduta da Comissão Nacional da Verdade. 
Oficiais da ativa não costumam se pronunciar em relação a questões políticas, por conta de restrições impostas pelo Regulamento Disciplinar do Exército, deixando este papel, normalmente para os militares inativos. 
A íntegra da carta da família Etchegoyen, contra a Comissão Nacional da Verdade:
A comissão nacional da verdade (CNV) divulgou ontem seu relatório final, onde relaciona 377 nomes sob a qualificação de "autores de graves violações de direitos humanos"Nela consta o nome de Leo Guedes Etchegoyen.  
Sobre o fato, nós, viúva e filhos, manifestamos a nossa opinião. Jamais fomos contatados por qualquer integrante ou representante daquela comissão, nem o Exército recebeu qualquer solicitação de informações ou documentos acerca de Leo G. Etchegoyen. 
Ao apresentar seu nome, acompanhado de apenas três das muitas funções que desempenhou a serviço do Brasil, sem qualquer vinculação a fatos ou vítimas, os integrantes da CNV deixaram clara a natureza leviana de suas investigações e explicitaram o propósito de seu trabalho, qual seja o de puramente denegrir 
Ao investirem contra um cidadão já falecido, sem qualquer possibilidade de defesa, instituíram a covardia como norma e a perversidade como técnica acusatória. 
No seu patético esforço para reescrever a história, a CNV apontou um culpado para um crime que não identifica, sem qualquer respeito aos princípios constitucionais do contraditório e da ampla defesa 
Leo Guedes Etchegoyen representa a segunda geração de uma família de Generais que serve o Brasil, com retidão e patriotismo, há 96 anos. 
Seguiremos defendendo sua honrada memória e responsabilizando os levianos que a atacarem.  
Porto Alegre, RS , 11 de dezembro de 2014 
Lucia Westphalen Etchegoyen, viúva
Sergio Westphalen Etchegoyen, filho
Maria Lucia Westphalen Etchegoyen, filha
Alcides Luiz Westphalen Etchegoyen, filho
Marcos Westphalen Etchegoyen, filho
Roberto Westphalen Etchegoyen, filho
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COMENTO: seria muito conveniente que as famílias das pessoas citadas nessa patifaria movessem uma ação de danos morais contra os cretinos que se propuseram servir como instrumento de tentativa de desmoralização das Forças Armadas, compilando e requentando as canalhices anteriormente publicadas no imoral "Brasil Nunca Mais", uma grande obra - em seu sentido escatológico - fundamentada em cópias de depoimentos de bandidos, feitos em audiências judiciais. 
É sabido que, já naquela época, tal tipo de depoente era (e continua sendo) orientado por seus advogados a negar as acusações e alegar ter sido torturado, a fim de tumultuar o processo, desconsiderar eventuais confissões e anular provas obtidas com base em suas delações. A incompetência e o vezo ideológico dos integrantes desse grupo nomeado para denegrir as Forças Armadas e, quem sabe, proporcionar mais uma boa cota do vil metal às supostas vítimas ainda não agraciadas, fez com que depois do "acurado trabalho", pelo menos uma pessoa gozando excelente estado saúde fosse citada como morta ou desaparecida
Outros casos existem, como o que já foi citado aqui em Agosto de 2013. Ao fim, deve-se destacar no trabalho da "começão", a falta de vontade de buscar a verdade verdadeira (não a verdade forjada que pretendem implantar) sobre os "mortos vivos", não só do Araguaia, mas de todos os episódios da luta subversiva para a implantação do comunismo nas terras brazilis, apesar do fato já ter sido anunciado pela imprensa, em diversas ocasiões, inclusive aqui e aqui, neste blog.
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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Guerra de Bugios na Eleição Gaúcha Ilumina Caso Obscuro de Nossa História

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O problema representado pela existência de filhos fora da união conjugal, ou de filhos cuja paternidade não é reconhecida, é muito mais frequente do que aparenta. Já tivemos divulgados pela imprensa diferentes modelos de comportamento, como o do "Rei" Roberto Carlos, cuja juventude foi pródiga de casos amorosos dos quais alguns geraram filhos que, posteriormente o procuraram e, ele de forma extremamente honesta e louvável, após a comprovação dos laços sanguíneos por exames, não titubeou no reconhecimento de sua prole. Já outro denominado "Rei", conhecido por seu talento futebolístico e por sua "luta em prol das criancinhas", não teve o mesmo comportamento, causando extremo desgosto em uma filha que terminou sucumbindo, atacada por mortal doença, sem ser reconhecida oficialmente por seu pai biológico. Outros casos similares ocorridos com gente famosa são do conhecimento público. Tivemos um ex presidente que, contam, terminou metendo os pés pelas mãos ao não aceitar como seu o filho de uma serviçal de sua casa, mas reconheceu suas obrigações para com o rebento de uma jornalista que, posteriormente, foi comprovado não ser seu filho. Para não prolongar essa lista, também tivemos o caso do Vice-presidente bacanão, grande empresário, que além de não reconhecer oficialmente sua responsabilidade para com uma filha gerada na juventude, teve a atitude covarde e desonrosa de adjetivar como 'prostituta" a genitora da mesma, o que posteriormente foi comprovada como perversa e indecente mentira. O destino soube puni-lo devidamente!
Com um pouco de paciência poderíamos encontrar muitos mais casos semelhantes de dignidade ou de covardia moral.
E as épocas de campanha política são muito propícias para que surjam essas histórias, divulgadas com o propósito de manchar a reputação de candidatos, mesmo que já se tenha comprovado que fatos desse jaez pouco influenciam na decisão dos eleitores.
Até mesmo o atual senador Collor de Melo usou golpe semelhante em campanha contra outro patife cujo nome evito citar em função do asco que me provoca.
Assim, não espanta muito a divulgação do suposto casal de filhos ilegítimos atribuídos a Olívio Dutra, figura política da pior parte da história do Rio Grande do Sul.
Como eu não iria mesmo votar no sujeito, sob hipótese alguma, seus problemas familiares não me interessam. Nem de forma negativa, muito menos positiva. Acredito que seja problema a ser discutido em seu âmbito familiar.
Todavia, o mesmo texto que apresentou ao distinto público essa história, nos trouxe outros dados que estão passando em brancas nuvens ante a importância que está sendo dada ao que alguns pensam tratar-se de uma falha moral merecedora de análise no caso do candidato ao Senado.
Me refiro à afirmação de que "a uruguaia Inês Graciela Abelenda Buzo chegou com nome falso a Porto Alegre em 1982. Era militante do Partido de La Voluntad Del Pueblo (Tupamaros) e veio substituir Lilian Celiberti, que foi sequestrada pelo DOPS gaúcho em 1979. Sua tarefa era a de dar instrução revolucionária a sindicalistas".
Mais detalhes sobre a atuação das uruguaias podem ser lidos no blog Navegando pelos Pensamentos.
Aos mais jovens, conto em resumo que Lilian Celiberti Rosas de Casariego e Universindo Rodriguez Diaz formavam um casal de uruguaios residente em Porto Alegre cuja detenção era solicitada pelas autoridades do Uruguai por envolvimento com a "luta armada" naquele país. Em novembro de 1978, alguns agentes de órgãos de segurança gaúchos resolveram colaborar com seus colegas orientais driblando os procedimentos burocráticos. O casal foi preso em Porto Alegre e entregue a agentes uruguaios na fronteira entre os dois países, que os apresentaram como tendo sido presos naquele país. Não deixava de ser verdadeiro, só estava sendo omitido que o ingresso dos dois na ROU havia ocorrido de forma pouco volitiva, na companhia dos agentes brasileiros.
Por falha na execução ou por acaso do destino, dois jornalistas acabaram descobrindo a "operação" e a revelaram jornalisticamente, causando um enorme rebuliço ao acusarem o "sequestro do casal de refugiados". A imprensa repercutiu a gritaria sobre o gravíssimo crime, reclamando providências diplomáticas para a libertação do inocente casal e punição severa aos sequestradores. Organizações de Direitos Humanos somaram-se aos protestos contra o ato criminoso de entregar os pobres jovens à sanha assassina dos militares orientais. Identificados, dois dos "sequestradores" tiveram suas vidas infernizadas. O caso foi desenterrado incontáveis vezes como forma de crítica ao regime militar que vigeu no Brasil até 1985 e como "prova" de que havia colaboração entre órgãos de segurança sul americanos com o objetivo de perseguir simples cidadãos da região.
Agora, surge um detalhe pequeno no relato da aventura romântica de Olívio Dutra, que ilumina uma parte obscura do caso do casal uruguaio. Lilian Celiberti não era somente uma pobre jovem refugiada em Porto Alegre. Ela era militante de uma organização terrorista e cumpria "tarefas revolucionárias" em solo brasileiro. Com a cumplicidade de organizações sindicais gaúchas. Temos, assim, o típico caso de alguém, no caso o jornalista, que atirou no que viu e atingiu o que não viu.
Como escrevi acima, a responsabilidade assumida ou não da paternidade da prole do velho "Bigode" é um assunto que não me interessa.
Prefiro que me expliquem melhor essa história de dona Lilian Celiberti cumprir tarefas para os Tupamaros no Brasil e ter sido substituída nessas missões pela outra jovem uruguaia. Então, havia uma conexão entre os grupos que realizavam "luta armada" no Uruguai e no Brasil (pena não poder mostrar minha cara de espanto irônico)? Então aquela gritaria feita em função da defenestração do casal uruguaio atendia interesses outros que não os direitos humanitários individuais deles? Então, mesmo depois do episódio do casal, os citados grupos revolucionários continuaram suas práticas além-fronteiras? Com o apoio do PT e sindicatos?
Abstraindo os entraves legais, burocráticos e ideológicos que foram driblados pelos agentes poderíamos concluir que, ao fim e ao cabo, eles agiram corretamente? Ou será que podemos concluir que solidariedade além fronteira para cometer crimes são condenáveis para alguns atores e perdoáveis para outros?

sábado, 14 de setembro de 2013

Ainda Vale a Pena Ser Ético?

“Os maiores males não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”
(HANNAH ARENDT)
por Gustavo Ioschpe
Quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, saía de casa para a escola numa manhã fria do inverno gaúcho. Chegando à portaria, meu pai interfonou, perguntando se eu estava levando um agasalho. Disse que sim. Ele me perguntou qual. “O moletom amarelo, da Zugos”, respondi. Era mentira. Não estava levando agasalho nenhum, mas estava com pressa, não queria me atrasar.
Voltei do colégio e fui ao armário procurar o tal moletom. Não estava lá, nem em nenhum lugar da casa. Gelei. À noite, meu pai chegou em casa de cara amarrada. Ao me ver, tirou da pasta de trabalho o moletom. E me disse: “Eu não me importo que tu não te agasalhes. Mas, nesta casa, nesta família, ninguém mente. Ponto. Tá claro?”. Sim, claríssimo. Esse foi apenas um episódio mais memorável de algo que foi o leitmotiv da minha formação familiar. Meu pai era um obcecado por retidão, palavra, ética, pontualidade, honestidade, código de conduta, escala de valores, menschkeit (firmeza de caráter, decência fundamental, em iídiche) e outros termos que eram repetitiva e exaustivamente martelados na minha cabeça. Deu certo. Quer dizer, não sei. No Brasil atual, eu me sinto deslocado.
Até hoje chego pontualmente aos meus compromissos, e na maioria das vezes fico esperando por interlocutores que se atrasam e nem se desculpam (quinze minutos parece constituir uma “margem de erro” tolerável). Até hoje acredito quando um prestador de serviço promete entregar o trabalho em uma data, apenas para ficar exasperado pelo seu atraso, “veja bem”, “imprevistos acontecem” etc. Fico revoltado sempre que pego um táxi em cidade que não conheço e o motorista tenta me roubar. Detesto os colegas de trabalho que fazem corpo mole, que arranjam um jeitinho de fazer menos que o devido. Tenho cada vez menos visitado escolas públicas, porque não suporto mais ver professores e diretores tratando alunos como estorvos que devem ser controlados. Isso sem falar nas quase úlceras que me surgem ao ler o noticiário e saber que entre os governantes viceja um grupo de imorais que roubam com criatividade e desfaçatez.
Sócrates, via Platão (A República, Livro IX), defende que o homem que pratica o mal é o mais infeliz e escravizado de todos, pois está em conflito interno, em desarmonia consigo mesmo, perenemente acossado e paralisado por medos, remorsos e apetites incontroláveis, tendo uma existência desprezível, para sempre amarrado a alguém (sua própria consciência!) onisciente que o condena. Com o devido respeito ao filósofo de Atenas, nesse caso acredito que ele foi excessivamente otimista. Hannah Arendt me parece ter chegado mais perto da compreensão da perversidade humana ao notar, nos ensaios reunidos no livro Responsabilidade e Julgamento, que esse desconforto interior do “pecador” pressupõe um diálogo interno, de cada pessoa com a sua consciência, que na verdade não ocorre com a frequência desejada por Sócrates. Escreve ela: “Tenho certeza de que os maiores males que conhecemos não se devem àquele que tem de confrontar-se consigo mesmo de novo, e cuja maldição é não poder esquecer. Os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão”. E, para aqueles que cometem o mal em uma escala menor e o confrontam, Arendt relembra Kant, que sabia que “o desprezo por si próprio, ou melhor, o medo de ter de desprezar a si próprio, muitas vezes não funcionava, e a sua explicação era que o homem pode mentir para si mesmo”. Todo corrupto ou sonegador tem uma explicação, uma lógica para os seus atos, algo que justifique o porquê de uma determinada lei dever se aplicar a todos, sempre, mas não a ele(a), ou pelo menos não naquele momento em que está cometendo o seu delito.
Cai por terra, assim, um dos poucos consolos das pessoas honestas: “Ah, mas pelo menos eu durmo tranquilo”. Os escroques também! Se eles tivessem dramas de consciência, se travassem um diálogo verdadeiro consigo e seu travesseiro, ou não teriam optado por sua “carreira” ou já teriam se suicidado. Esse diálogo consigo mesmo é fruto do que Freud chamou de superego: seguimos um comportamento moral porque ele nos foi inculcado por nossos pais, e renegá-lo seria correr o risco da perda do amor paterno.
Na minha visão, só existem, assim, dois cenários em que é objetivamente melhor ser ético do que não. O primeiro é se você é uma pessoa religiosa e acredita que os pecados deste mundo serão punidos no próximo. Não é o meu caso. O segundo é se você vive em uma sociedade ética em que os desvios de comportamento são punidos pela coletividade, quer na forma de sanções penais, quer na forma do ostracismo social. O que não é o caso do Brasil. Não se sabe se De Gaulle disse ou não a frase, mas ela é verdadeira: o Brasil não é um país sério.
Assim é que, criando filhos brasileiros morando no Brasil, estou às voltas com um deprimente dilema. Acredito que o papel de um pai é preparar o seu filho para a vida. Essa é a nossa responsabilidade: dar a nossos filhos os instrumentos para que naveguem, com segurança e destreza, pelas dificuldades do mundo real. E acredito que a ética e a honestidade são valores axiomáticos, inquestionáveis. Eis aí o dilema: será que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria não aprisioná-los na cela da consciência, do diálogo consigo mesmos, da preocupação com a integridade? Tenho certeza de que nunca chegaria a ponto de incentivá-los a serem escroques, mas poderia, como pai, simplesmente ser mais omisso quanto a essas questões. Tolerar algumas mentiras, não me importar com atrasos, não insistir para que não colem na escola, não instruir para que devolvam o troco recebido a mais...
Tenho pensado bastante sobre isso ultimamente. Simplesmente o fato de pensar a respeito, e de viver em um país em que existe um dilema entre o ensino da ética e o bom exercício da paternidade, já é causa para tristeza. Em última análise, decidi dar a meus filhos a mesma educação que recebi de meu pai. Não porque ache que eles serão mais felizes assim - pelo contrário -, nem porque acredite que, no fim, o bem compensa. Mas sim porque, em primeiro lugar, não conseguiria conviver comigo mesmo, e com a memória de meu pai, se criasse meus filhos para serem pessoas do tipo que ele me ensinou a desprezar. E, segundo, tentando um esboço de resposta mais lógica, porque sociedades e culturas mudam. Muitos dos países hoje desenvolvidos e honestos eram antros de corrupção e sordidez 100 anos atrás. Um dia o Brasil há de seguir o mesmo caminho, e aí a retidão que espero inculcar em meus filhos (e meus filhos em seus filhos) há de ser uma vantagem, e não um fardo. Oxalá.
Fonte:  Veja
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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A Tragédia da Chacina Familiar em São Paulo

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Logo completaremos um mês da tragédia que se abateu sobre a família dos Policiais Militares assassinados em São Paulo, supostamente pelo filho adolescente do casal em 5 de agosto.
Em princípio, devemos aceitar as conclusões policiais que apontam o jovem como autor do massacre, com base em exames periciais a que nem sempre se pode ter acesso, por motivos vários. Até mesmo para não alertar potenciais malfeitores sobre como são feitas as investigações.
Mas o que eu quero destacar aqui não se refere diretamente às investigações mas a duas constatações que não tem merecido a atenção da imprensa, ou pelo menos não tem sido explorada com a profundidade que merece em função do "politicamente correto", essa patifaria hipócrita que nos é imposta cotidianamente.
A primeira é quanto a presença de dezenas de policiais militares no imóvel onde ocorreu a chacina, logo após sua descoberta. Essa constatação conduz a duas outras que me parecem de extrema gravidade. Em primeiro lugar, demonstra completa falta de comando sobre as equipes policiais que atuam na cidade. O que faziam tantos policiais na cena do crime, além de saciar a mórbida curiosidade que faz humanos quererem ver com seus próprios olhos alguma tragédia ocorrida? Mesmo os que tinham ligações de amizade com os falecidos, não estando escalado para trabalhar naquela área, não deveriam - até mesmo por não lhes ser novidade a visão de colegas mortos - simplesmente acorrer ao local por solidariedade ou curiosidade. Nada mais havia a ser feito em prol das vítimas. Em compensação, durante bom tempo diversos pontos urbanos que deveriam estar sendo policiados ficaram desprotegidos enquanto os responsáveis pelos mesmos participavam da lamentação coletiva.
O outro efeito negativo da acorrida policial ao local da tragédia foi a inegável contaminação do local, prejudicando uma perícia criminal isenta de erros. Não sou técnico no assunto, mas a grande presença de pessoas certamente criou marcas de pés, impressões digitais e outros vestígios que devem ter se sobreposto a outros que deveriam ser mantidos íntegros para uma perfeita avaliação científica.
Considerando que isso não ocorreu somente nessa cena de crime envolvendo policiais, temos um fato recorrente a ser analisado e corrigido por quem exerce o comando policial, civil ou militar.
A outra constatação cujo destaque tem sido evitado pela imprensa - imagino que para evitar "chocar a audiência" - é a quantidade de jovens adolescentes que tinham conhecimento das "intenções assassinas" do acusado pelas mortes. É bem verdade que o assunto pode ter sido considerado conversa fiada pelos amigos do menino. Mas nenhum deles se animou a comentar o caso em casa?
Ou houve algum comentário que foi sufocado com a velha desculpa covarde de não se envolver com problemas alheios? 
Há tempo venho comentando que a sociedade brasileira encontra-se acovardada. E a covardia se manifesta de forma mais cruel na forma de omissão. Às vezes é um assaltante flagrado em plena atividade e ninguém se move no sentido de lhe tolher a ação, detê-lo ou pelo menos chamar a polícia. Ora são vândalos que se imiscuem em manifestações legítimas deturpando as mesmas, e ninguém se lhes opõem. Daí à corrupção praticada por agentes estatais e políticos à vista e conhecimento de muitos, colegas e funcionários, é uma distância de nada! E todos se queixam de que "ninguém faz nada"! E a velha fábula do guizo no pescoço do gato nos vem à mente.
Voltando aos colegas do menino supostamente assassino e suicida que já tinham escutado algo sobre suas intenções. São muitos, por volta de uma dezena. Há até mesmo um boato de que alguns teriam, com o morto, composto um "grupo de matadores" cujo "ritual de iniciação" seria a morte dos pais. 
Boato ou não, o assunto reforça a discutida - e, em muitos casos, não resolvida - falha na comunicação familiar entre pais e filhos. Esses meninos teriam coragem para tratar sobre o assunto com seus pais? Os pais dariam a devida atenção ao mesmo? Temos conversado suficientemente com nossos filhos?
Estaria a polícia trabalhando também com a hipótese da tragédia ter contado com a presença física de algum colega do suposto assassino/suicida?
Para finalizar: sobre o boato do "grupo de matadores" -  Será algum boato maldoso ou, quem sabe, o jovem Marcelo foi o único - até o momento - a cumprir o proposto? Pelo sim, pelo não, acho bom os pais desses meninos acordarem para a vida e buscarem um contato mais franco com seus filhos!
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PS - antes que me caiam de pau: criei um casal de filhos que me enche de orgulho. São a perfeita expressão de cidadãos de bem!
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sábado, 3 de agosto de 2013

As "Lideranças" do Bloco dos Pelados, que Vandalizou a Câmara de Vereadores de Porto Alegre

Começa a se tornar público o perfil dos invasores que durante dez dias ocuparam a Câmara de Vereadores de Porto Alegre, promovendo atos de vandalismo e de nudismo, além de impedir o funcionamento do Legislativo, porque o editor conseguiu o vídeo em que quarenta deles identificaram-se perante os companheiros instalados no plenário, de onde expulsaram os vereadores. Quinze deles são estudantes, sete são professores e o restante é um conjunto de funcionários públicos.
O sistema de câmeras do circuito interno de TV gravou tudo. As imagens são claras como filme de cinema.
Você poderá examinar cada fala no vídeo disponibilizado pela primeira vez na mídia do RS. 
Os ativistas que admitiram pertencer a Partidos, identificaram-se apenas como militantes do PSOL, PSTU e PT, quase todos ligados a órgãos de ponta dos três Partidos.
Muitos dos que aceitaram se identificar nem são do RS, mas de outros Estados, inclusive Gabriel Antunes, que é estudante de Teatro e Dança da Universidade do Pará.
Dois deles, Tiago, advogado, é servidor da própria Câmara invadida, ocupada e vandalizada, como também é servidor da Câmara o assessor do vereador Marcelo Sgarboza (PT), que se identificou como Beto.
A OAB do RS também esteve com gente sua na ocupação violenta da Câmara. Roberto identificou-se como membro da Comissão de Liberdade Sexual da OAB.
O editor listou cada nome e cada representação:
  • Nome                                    Organização
  • Lorena - Federação Anarquista Gaúcha - Bloco de Lutas
  • João - Frente Nacional dos Torcedores - Bloco de Lutas
  • Andrei Anderson - Frente Nacional dos Torcedores
  • Aia - Bloco de Lutas - Frente Autônoma
  • Vicente - Centro de Cultura Libertária da Azenha - Frente Autônoma e Frente de Estudantes de Ciências Sociais
  • Caio - estudante da UFRGS, do Coletivo Vamos à Luta, da CST - PSOL
  • Gabriel Antunes - estudante de Teatro e Dança da UFPA, natural do Pará, do Movimento Vamos à Luta e do CST - PSOL
  • Roberto - Grupo Desobedeça GLBT de Porto Alegre e da Comissão Especial da Diversidade Sexual da OAB
  • Luane - Coletivo Vamos à Luta, CST - PSOL
  • Paula - Coletivo Vamos à Luta, CST - PSOL
  • Vinícius - Coletivo Vamos à Luta, CST - PSOL
  • Franco - Unidos para Lutar, CST - PSOL
  • Alexandre - professor do Estado
  • Lotas - Movimento Autônomo Utopia e Luta, Frente Autônoma
  • Martina - professora, faz parte do 38° núcleo do CPERS e PSTU
  • Luciano - Sindicato dos Bancários de Porto Alegre, estudante de Sociais na UFRGS, Sexo Coletivo e representa o Coletivo Kizomba
  • Mateus - DCE da UFRGS, Assembleia Nacional dos Estudantes Livres e Coletivo de Estudantes Negros Negração
  • Briza - Frente Autônoma
  • Adriana - professora do Estado
  • Isabela - professora do Estado
  • Fabiana - Funcionária Pública
  • Daniel - Servidor Público, Revista Sinal de Menos e colabora com a comissão de comunicação do Bloco
  • Felipe - estudante de Ciências Sociais na UFRGS, trabalha em cursinho popular e também no Hospital de Clínicas de POA
  • Luana - estudante da UFRGS, Movimento Mudança e da Juventude do PT
  • Juliana - centro Estudantil de Relações Internacionais da UFRGS, Movimento Mudança e da Juventude do PT
  • Tiago - advogado, estudante de Ciências Criminais na PUC e servidor da Câmara
  • Isabela - trabalha na FASE e estudante de História
  • Clara Nanda - estudante de Ciências Sociais na Unisinos e da Juventude do PT
  • Alemão - professor estadual e do Coletivo Resistência Socialista
  • Larissa - professora do Estado
  • Dino - estudante de Teatro na UFRGS, do Coletivo Kizomba e Juventude do PT
  • Tábata - estudante de Direito da PUC do movimento estudantil da PUC e Juventude do PT
  • Juliana - estudante de Direito da PUC do Movimento Mudança do PT
  • Natália - estudante de Serviço Social da UFRGS, do Coletivo Kizomba, da Juventude do PT e da Marcha Mundial de Mulheres
  • Marina - estudante de Jornalismo, do Coletivo Kizomba, da Juventude do PT e da Marcha Mundial de Mulheres
  • Eduardo - estudante de Biologia na UFRGS, da Juventude do PT e do Coletivo da Kizomba
  • Daniel - professor de Sociologia no Julinho e da Juventude do PT
  • Beto - funcionário da Câmara, assessoria do Vereador Marcelo Sgarboza (PT)
  • Tamires - Militante do PSTU
Fonte:  Políbio Braga
COMENTO:  o grande resultado da ação democrática do grupo pode ser vista em fotos como essa aí, abaixo e outras cenas edificantes que podem ser vistas clicando nela:
Imagens:  Blog do Prévidi

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O "Território Livre" Encontra o Construtivismo

por Janaina Conceição Paschoal
Desde que ingressei na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em 1992, intriga-me ouvir que a USP e, por conseguinte, o Largo, constitui território livre. Sempre tentei compreender o que essa liberdade significaria.
Ao compor a diretoria do Centro Acadêmico “XI de Agosto”, já comecei a questionar esse tal território livre, buscando modificar o trote, muitas vezes, humilhante e até perigoso, como ocorria nas Carruagens de Fogo (“brincadeira” em que o calouro era obrigado a beber continuamente e a correr no chão molhado, ao som da música clássica de idêntico nome).
Também me voltei contra o “Pendura”. Eu, que nunca fui comunista, nem lulista nem petista, confesso, não me conformava com o fato de jovens, majoritariamente de classe média, se sentirem no direito de entrar em um restaurante e dizer ao dono, com muita naturalidade, que simplesmente não iriam pagar. E ai da autoridade que lhes dissesse o contrário! Cheguei a participar do tal “Pendura”, mas, imediatamente, senti que aquilo não era direito.
Em 1997, quando iniciei o doutoramento e comecei a auxiliar os professores na graduação, já conversava com os alunos sobre o sentido da “Peruada”. Por que, afinal, eles não podiam fazer seu Carnaval sem beber até cair? À resposta pronta de que se tratava de tradição, instintivamente, passei a responder que tradição também se modifica. Até hoje, meus alunos não acreditam que nunca participei da “Peruada” e, às vezes, me “acusam” de ser evangélica.
Já professora concursada, nas últimas aulas do curso, normalmente, dedico um tempo perguntando aos alunos o que eles querem para as suas vidas. Nessa era dos textos curtos, das mensagens cifradas, da informação fácil, é muito difícil conseguir que eles leiam um artigo de dez páginas, em português.
Há algumas semanas, quando uma de minhas turmas não leu um projeto de lei de três páginas, eu os avisei sobre o perigo de serem manipulados, pois quem não lê, quem não conhece, acredita apenas no mensageiro.
Costumo dizer aos meus alunos que o estudante que realmente crê estar em um território livre será o promotor que acredita que pode denunciar o outro por dirigir embriagado, mas ele próprio está autorizado a beber e baixar um aplicativo da internet para saber onde estão os bloqueios policiais. Esse aluno será o juiz que acredita que ganha pouco e tem direito de viajar para o Nordeste sob o patrocínio de empresas cujas causas julga, e assim por diante.
Quando alguns alunos invadiram e depredaram a Reitoria, e grande parte dos professores achou natural aquele espetáculo de liberdade de expressão, eu escrevi para a Folha de S. Paulo o texto intitulado “Quem é elitista”, apontando que esse tipo de comportamento é decorrente da certeza de que, realmente, a universidade constitui um território livre e que apenas os pobres, que precisam trabalhar e estudar à noite e que têm os seus salários descontados para pagar os estudos do pessoal da USP, podem ser abordados por estarem fumando maconha na esquina.
É interessante. Ao mesmo tempo em que os intelectuais denunciam que o Direito Penal serve apenas para punir pobre, contraditoriamente, aceitam que só pobres sejam penalizados. A lei não diz respeito a eles próprios. Coincidência ou não, os atuais protestos se iniciaram após a rejeição da denúncia referente à invasão da Reitoria da USP.
Pois bem, quando começaram as manifestações, e os discursos dos líderes surgiram, imediatamente, identifiquei o dogma do território livre.
Foram muitas as notícias de violências e abusos, e eu tive relatos de pessoas que estavam, por exemplo, no Shopping Paulista e foram surpreendidas por rapazes encapuzados, que exigiam o fechamento das lojas, sob o brado de que estavam “tocando o terror”.
Chamou minha atenção o fato de uma das pessoas que fizeram tais relatos ter dito que logo percebeu que não seriam criminosos, pois eram pessoas bem vestidas. Para alguém que estuda Direito Penal, há anos, esse tipo de frase dói, pois é a confirmação de que a sociedade não quer mesmo punir atos, mas estereótipos.
Se a garotada da periferia tivesse tomado a Paulista, ninguém acharia exagero a Polícia Militar tomar providências. Percebe-se que mesmo quem estava indignado contemporizava, pois, afinal, amanhã, pode ser seu filho. De novo, o dogma do território livre.
Na véspera do protesto em que a Polícia Militar reagiu, conversei com uma senhora, que julgo esclarecida, e fiquei surpresa com seu encantamento frente ao brilho do neto, que aderira às manifestações a fim de lutar pelos mais necessitados.
Ontem, durante uma reunião com amigos, quando todos cobravam apoio ao movimento, tomei a liberdade de dizer que não acredito ser esse o melhor caminho.
Apesar de destacar estar convencida de que houve excessos da polícia, sobretudo no caso do tiro mirado no olho da jovem jornalista, situação que caracteriza lesão corporal dolosa, de natureza grave, ponderei que devemos ser cautelosos, pois nem toda prisão foi descabida, e os manifestantes podem estar servindo de massa de manobra.
A reação dos colegas foi surpreendente. Alguns, lembrando a importância dos jovens em todas as mudanças sociais, destacando sua própria luta contra a ditadura, chegaram a se emocionar, falando de seus próprios filhos como grandes políticos, verdadeiros heróis, pessoas esclarecidas, apesar dos vinte e poucos anos.
Sendo uma criatura insuportavelmente crítica, sobretudo comigo, passei a noite pensando se não teria sido injusta com os manifestantes e insensível com os colegas. Afinal, se todos estão tocados com a beleza deste momento, parece razoável que os pais estejam orgulhosos da lucidez de suas crias.
Mas essa experiência, sofrida, de magoar os colegas, aos quais, nesta oportunidade, peço desculpas, foi muito importante para eu poder ver algo que ainda não estava claro.
As gerações passadas também tinham esse sentimento arraigado de território livre, de que a lei vale apenas para os outros e não para os iluminados da USP. No entanto, no passado, havia o contraponto de pais que impunham limites; pais que diziam mais NÃOs do que SIMs; pais que ensinavam os deveres antes de falar sobre os direitos.
O fenômeno que nos toma de assalto é preocupante. Une-se o dogma do território livre com a geração “construtivismo”.
Chegam à idade adulta os garotos que nunca ouviram um NÃO, os garotos que sempre puderam se expressar, ainda que agredindo o coleguinha, ou chutando a perna de um adulto em uma loja.
Chegam à idade adulta os garotos cujos pais vão à escola questionar por quais motivos os professores não valorizam a genialidade de seus filhos. Pais que realmente acreditam que seus filhos, aos vinte anos, são verdadeiras sumidades e têm futuro por possuírem vários seguidores no Twitter.
Nossos iluminados já avisaram que, se a tarifa de ônibus não baixar, vão continuar a parar São Paulo. Quem vai lhes dizer não? A Polícia não pode, nem quando estão queimando carros e constrangendo pessoas. Os professores, salvo raras exceções, incentivam, em um saudosismo irresponsável, para dizer o mínimo. E os pais, entorpecidos pela necessidade de constatar o sucesso da educação conferida, acham tudo muito lindo e vão às ruas acompanhar a prole, pedindo algo indefinido e impalpável.
Nestes tempos em que falar em Deus é crime, peço a Deus que eu esteja errada e que, realmente, não tenha alcance para perceber a importância e a beleza deste momento histórico.
Há duas décadas, quando o presidente do Centro Acadêmico “XI de Agosto” me destacou para falar algumas palavrar para recepcionar Lindbergh Farias, pouco antes de sairmos em passeata pela derrubada de Collor, eu peguei o microfone e disse: “Nós vamos a essa passeata porque a causa é justa, mas sua cara bonita não me engana”. Por pouco não fui destituída do cargo. Creio que meus colegas de chapa nunca me perdoaram.
Há alguns anos, durante uma cerimônia em que todos reverenciavam o então ministro da justiça, Márcio Tomaz Bastos, eu o questionei sobre a quebra do sigilo do caseiro Francenildo. Cortaram-me a palavra e, até hoje, há quem não me cumprimente direito pela absurda falta de sensibilidade e educação.
A maior parte dessas pessoas apoia e estimula os atuais protestos e propala que o Mensalão não passou de uma ficção.
Tenho enviado comentários para a Imprensa, dizendo que os grupos que estão estimulando esses jovens a irem para as ruas estão torcendo muito para aparecer um cadáver em São Paulo, pois é só disso que precisam para tentar tomar também o estado.
Eu, por amar todos os meus alunos, os que concordam e os que não concordam comigo, estou bastante preocupada com essas forças ocultas, que manipulam nossos jovens marxistas de twitter.
Quando digo isso, costumo ouvir, mais uma vez, que estou fora da realidade, que é o PT que está na berlinda. Afinal, os protestos não estão apenas em São Paulo, estão no país inteiro.
É verdade, mas tem alguém, que dialoga muito bem com as massas, que precisa de um argumento palatável para voltar em 2014. E, segundo consta, funcionários da Presidência da República, subordinados a Gilberto Carvalho, foram organizadores e fomentadores do protesto. Não é a oposição que Dilma deve temer. A oposição simplesmente não existe. Apenas as cobras que cria no próprio Palácio, ou das quais não pode se livrar, é que, no futuro próximo, têm condições de picá-la.
Algumas pessoas me perguntam como posso ser liberal em alguns aspectos e conservadora em outros. Em regra, quando recebo esse tipo de questionamento, procuro compreender o que o interlocutor entende por “conservador” e por “liberal”.
Não sei como etiquetar, mas acredito que todo educador, seja o de casa, seja o da escola, deve mostrar ao pupilo que existem direitos e existem deveres. E que ninguém pode tudo. Talvez o que esteja prejudicando o país seja justamente esse sentimento generalizado de território livre. Os manifestantes de hoje podem ser os políticos de amanhã. Se não lhes dissermos “não” agora, como impor limites no futuro?
Talvez eu seja apenas uma canceriana pouco romântica. Talvez esteja velha demais para perceber a grandeza dessa novidade que invade o país. Tomara!
Mas esses 21 anos de USP e quase 15 de docência me permitem afirmar que são jovens muito promissores, mas ainda são garotos de vinte anos, que não estão acostumados a ouvir um “não”.
Se não posso pedir razoabilidade aos pais e aos professores, peço, encarecidamente, à imprensa que tenha cautela ao estimulá-los, pois não temos instrumentos para fazê-los parar. Teremos que, pacientemente, aguardar que eles se cansem do que pode ser uma grande brincadeira.
Janaina C. Paschoal é professora de Direito Penal da USP.
Fonte:  Reinaldo Azevedo
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domingo, 25 de novembro de 2012

Cronista Cai no Conto do Documentário

por Janer Cristaldo
Comentei, há mais de ano, filme que estava sendo exibido nas salas de cinema no Brasil, Diário de uma Busca, de Flávia Castro. Segundo a Folha de São Paulo, o filme entusiasmou o público e a crítica franceses. 
Para o jornal, “o filme é um mergulho na história pessoal da diretora, que o realizou para entender as condições obscuras da morte de seu pai. Celso Castro foi encontrado morto em 1984, em Porto Alegre, na casa de um alemão suspeito de fazer parte de uma rede de ex-nazistas. (...) Por meio de cartas de Celso, ela conduz o espectador à realidade da clandestinidade, da militância dos jovens que faziam a luta armada no turbilhão da grande história: o Brasil, a Argentina e o Chile dos anos 60 e 70. Paris é a última etapa antes da anistia de 1979, da volta ao Brasil e do drama da morte do pai, em circunstâncias que o filme se presta a tentar elucidar”. 
Agora foi a vez do emérito cronista Contardo Galligaris cair no conto do documentário. Lemos em sua coluna na Folha de hoje (22/11) crônica sobre uma menina que preferiu ver 007 ao filme de Flávia Castro:
- Assisti, nesses dias, a um documentário bonito e tocante, Diário de uma Busca, de 2011. A autora, Flávia Castro, investiga a morte misteriosa de seu pai, Celso Afonso Gay de Castro. Junto com um amigo, também militante de esquerda durante a ditadura, Celso morreu ou foi morto, em 1984, no apartamento de um alemão que teria sido oficial nazista.
Não morreu nem foi morto. Se suicidou. E o alemão nunca foi oficial nazista. Que tal embuste engane franceses ou paulistas, até que se entende. São jornalistas que não conhecem Porto Alegre e muito menos o que ocorreu naqueles dias. A morte do pai da cineasta não teve mistério algum e nada tem a ver com rede de ex-nazistas. A moça quer transformar um maluco – seu pai – em herói. 
Vivia em Porto Alegre um velhote, obscuro sargento da Wehrmacht – e não oficial da SS, como foi propalado então – que nada tinha a ver com os crimes do nazismo nem era procurado por nenhum tribunal. Corria a lenda de que teria em seu apartamento um tesouro secreto nazista. Castro e mais um outro bobalhão decidiram assaltá-lo. Após tomar um porre – no Fusca que utilizaram havia uma garrafa de uísque quase vazia – invadiram o apartamento do alemão. Quem os recebeu foi sua mulher, que foi agredida. O velhote reagiu com uma bengala. 
Em meio a isso, foi disparado um tiro, que não feriu ninguém. Mas alertou os vizinhos, que chamaram a polícia. Encurralados, Castro e seu assecla se suicidaram. Um matou o outro e depois se suicidou. Dois militantes de esquerda assassinados no apartamento de um nazista, foi a primeira versão a correr nos jornais. Primeira pergunta: que faziam dois militantes de esquerda no apartamento de um nazista? O caso acabou sendo encerrado por Luís Pilla Vares – jornalista da Zero Hora, também trotskista – conhecido por seu itinerário intelectual de Trotsky a Sirostky. Pilla atestou o duplo suicídio e o episódio foi abafado. 
Flávia Castro pode enganar os franceses, mas não engana quem viveu em Porto Alegre na época. O duplo suicídio foi uma besteira de dois desvairados que acreditavam na lenda de gibi de um tesouro secreto nazista. Até aí, estamos no território da vigarice intelectual, e vigarice intelectual nunca foi crime no Brasil. 
O que espanta é ver um jornalista gaúcho, que vive na geografia e história dos fatos, engolir tais potocas. Na ocasião, Daniel Feix escrevia na Zero Hora
Uma das melhores e mais emocionantes crônicas do exílio produzidas pelo cinema nacional – para o mestre do documentário João Moreira Salles trata-se da melhor – Diário de uma Busca estreou em cartaz esta semana no Cine Bancários e no Cine Santander. O filme, que foi premiado em Gramado, no Rio, em Biarritz e em Punta del Este, está começando sua carreira no circuito brasileiro por Porto Alegre. 
Isso porque Diário conta uma história porto-alegrense – com abrangência e interesse internacionais. No filme, a diretora Flávia Castro investiga a misteriosa morte de seu pai, Celso Afonso Gay de Castro, ocorrida em 4 de outubro de 1984. Jornalista e militante de esquerda que viveu muitos anos fora do país fugindo dos militares, ele tinha 41 anos à época. 
A versão inicial da polícia era de que Celso e seu parceiro Nestor Herédia (que também morreu no local) invadiram o apartamento do alemão e ex-cônsul do Paraguai Rudolf Goldbeck, localizado na Rua Santo Inácio, no Moinhos de Vento, para um assalto. Foram encurralados e, por isso, teriam se suicidado. 
O caso, no entanto, nunca foi totalmente esclarecido. Flávia e alguns familiares, sobretudo o seu irmão João Paulo, o Joca, vão fundo na história em busca de respostas. Ouvem amigos de Celso, outros militantes, policiais, peritos e repórteres que investigaram o caso, além de vasculhar documentos e visitar locais onde ele morou no Chile, na Argentina, na Venezuela e na França. Só deparam com mais dúvidas. 
Vamos por partes. É preciso ser muito desinformado para escrever tais bobagens. Não se trata de “uma das melhores e mais emocionantes crônicas do exílio produzidas pelo cinema nacional”. E sim de uma das maiores mentiras do exílio produzidas pelo cinema nacional. Os exilados sempre contaram mentiras, tanto na Europa como na volta, numa tentativa canhestra de justificar suas vidas estúpidas. Todo marxista é, ipso facto, um mentiroso. A mentira é uma segunda natureza de todo comunista. 
Disto não escapou Celso de Castro que cumpriu o que chamávamos em Paris de la grande randonée. Derrotadas no Brasil, as esquerdas foram fazer a revolução na Argentina. Derrotadas na Argentina, foram apoiar o marxista Allende no Chile. Derrotadas no Chile, migraram para Portugal, para apoiar um outro maluco, Otelo Saraiva de Carvalho.
A Celso, só faltou este último passo. De repente, até virou jornalista. Eu o conheci e vivi em sua época. Não tenho notícias de que tenha trabalhado em qualquer jornal de Porto Alegre. Vasculhar documentos e visitar locais onde ele morou no Chile, na Argentina, na Venezuela e na França podem até render um filme com vocação turística, mas jamais trará alguma luz ao gesto de dois malucos, que estavam bêbados na hora do crime. 
Não vi o filme nem pretendo vê-lo. Mas, pelo que leio nos jornais e na crônica de Calligaris, a vítima é fotografada como um nazista, fato que ninguém provou. E os criminosos são vistos como heróis, sabe-se lá de qual causa. 
Nunca foi tão fácil mentir. O século foi perpassado de biografias mentirosas, como as de Lênin, Stalin, Mao, Luís Carlos Prestes, Castro, Che Guevara. O triste nisto tudo é ver uma filha mentindo descaradamente para resgatar a vida estúpida do próprio pai. E um cronista que se pretende inteligente caindo na potoca da moça.
Fonte:  Janer Cristaldo
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