Mostrando postagens com marcador inversão de valores. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador inversão de valores. Mostrar todas as postagens

sábado, 18 de julho de 2026

Disciplina e Alienação

por Maynard Marques de Santa Rosa
A disciplina militar prestante/Não se aprende, Senhor, na fantasia, /Sonhando, imaginando ou estudando, /Senão vendo, tratando e pelejando 
(Camões em Os Lusíadas, canto X, estrofe 153).

No diálogo, o realismo de Aníbal ironiza a presunção do filósofo, ao ensinar que a disciplina consciente é a que presta, por se firmar no discernimento e na vivência e por ter sido testada na luta. A disciplina que se adquire por estudo e hábito é inconsciente; logo, não presta.
O soldado da Pátria tem na disciplina o maior desafio à própria coragem moral. Pela tradição prussiana do Exército alemão, o soldado expressa a verdade “até mesmo em presença do rei. A coragem, porém, vai depender do valor intrínseco do homem e pode fraquejar, como ocorreu após a Operação Valquíria (20 Jul 1944), quando Hitler determinou que fossem enforcados os conspiradores. O regulamento militar impedia a punição da forca aos generais, mas um tribunal de honra foi instalado, sob a presidência do Mal de Campo veterano Gerd von Rundstedt, ex-comandante do Gp Ex Sul na campanha da Rússia, e os réus foram condenados à perda do posto, para que se fizesse cumprir a ordem suprema.
As Forças Armadas se regem por protocolos disciplinares que previnem a ingerência militar indevida. Se, por um lado previnem possíveis abusos, por outro servem de escudo para a omissão e o carreirismo internos que cega as instituições para os desvios governamentais, como se guarda pretoriana fossem do regime.
Recentemente, o jornalista americano Glenn Greenwald resumiu a conjuntura brasileira, declarando-se espantado com a permanência do ministro Alexandre de Moraes, mesmo após o vazamento das suas ligações familiares com o banqueiro Daniel Vorcaro. Greenwald, portador dos vazamentos ilegais aceitos pelo STF para liberar os corruptos arrolados na operação lava-jato, destacou que Moraes acumula os papéis de juiz, investigador e vítima, opera fora dos padrões democráticos tradicionais e instala um clima de medo no Brasil. Só que a sua denúncia, desta vez, parece ter caído no vazio.
De fato, a impunidade dos escândalos que ecoam rotineiramente no noticiário desafia a consciência nacional. Em contraste, sobreleva-se o rigor da condenação do ex-presidente da República e generais assessores, baseada na delação duvidosa do seu ajudante de ordens e em rascunhos anônimos de um planejamento hipotético. Um julgamento que, por sua gravidade, deveria ocorrer no pleno do STF, foi conduzido pela 1ª Turma, cuja composição é notoriamente tendenciosa. Os acusados pelo 8 de janeiro de 2023 terminaram condenados sem prova convincente de crime e sem instância de apelação.
No Brasil atual, há jornalista perseguido, rede social censurada e parlamentar condenado, tudo por crime de opinião, mas em alegada defesa da democracia.
O que mais surpreende, do que o espanto do jornalista, é a anomia das instituições garantes da lei e da ordem, rendidas de armas na mão à prepotência e à tirania, por aparente submissão ao falso jugo da disciplina conveniente.
COMENTO: Já em 2017, o desembargador Ledio Rosa de Andrade, do TJSC, dizia que a ditadura da toga é pior que a ditadura militar, porque “vem travestida de justiça, como se estivesse fazendo o bem e não o mal. Ela perdura um tempo como algo bom e legitimado. Uma ditadura que consegue, através de um discurso falso, de um discurso ideológico alienante e enganador, ter a complacência e até o aplauso da população é uma ditadura que não será combatida até que as pessoas se deem conta de que foram enganadas. Me parece que esta descoberta chegou tarde!

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Lula Quebra o Brasil Para se Reeleger

“Quebrei o Banespa, mas elegi meu sucessor.” Essa frase, atribuída ao ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia, resume uma forma de usar os instrumentos à disposição do governo não para o bem comum, mas para proveito próprio. É amplamente sabido que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva vem patrocinando uma série de medidas para tentar levantar sua popularidade e ajudar em sua reeleição. Mas ninguém, até o momento, havia tido a paciência de somar todas as “pequenas bondades eleitorais” que, tomadas uma a uma, parecem inofensivas. O economista Marcos Mendes, em relatório da XP Investimentos, fez esse trabalho para o cidadão brasileiro. E o retrato não é nada bonito.
Segundo o economista, somente neste ano foram nada menos do que 33 medidas diferentes, somando a incrível marca de R$ 215 bilhões em aumento de despesas ou redução de receitas
Tramitação de uma Emenda à Constituição:
Apresentada em novembro e aprovada em
21 de dezembro de 2022!
Em comparação, a malfadada PEC 126/2022, a chamada “PEC da gastança”, liberou R$ 168 bilhões de gastos no ano seguinte por fora do teto dos gastos, o que já foi um escândalo. Pelo visto, o governo Lula perdeu a pouca vergonha que ainda tinha.
Há uma ficção em curso no Brasil chamada “novo arcabouço fiscal”, que substituiu o finado teto de gastos. Segundo essa ficção, o País está com suas contas em ordem porque o novo arcabouço fiscal está sendo obedecido à risca. Pois bem, de acordo com o relatório de Marcos Mendes, somente 4% dos R$ 215 bilhões aprovados afetam os indicadores do arcabouço. Não, caro leitor, o senhor não leu errado: mais de R$ 200 bilhões em despesas extras ou renúncias de arrecadação simplesmente não aparecem nas contas públicas.
Mendes lista três truques usados pelo governo para maquiar as contas. O primeiro são as linhas de crédito subsidiadas, que não impactam a despesa primária e, portanto, não consomem espaço do arcabouço. É o caso, por exemplo, do subsídio para a compra de caminhões. Como esses gastos saem do Orçamento, mas continuam “pertencendo” ao Tesouro (são empréstimos), não são considerados despesas. Na prática, no entanto, esses recursos nunca voltam para o Tesouro, sendo reutilizados para outros “pacotes de bondades”. O resultado é o aumento da dívida pública, apesar de não serem uma despesa primária.
O segundo truque é o uso de fundos públicos para financiar programas de incentivo. Esses recursos, que saíram do orçamento no passado, poderiam ser usados para abater a dívida, diz Mendes. E, obviamente, estes gastos não afetam as métricas do arcabouço. Um exemplo escandaloso foi a transferência do “dinheiro público esquecido” pelos correntistas diretamente para o Fundo de Garantia de Operações (FGO), usado para turbinar o Desenrola. Esses recursos deveriam passar pelo Tesouro, para daí serem encaminhados ao FGO, mas isso afetaria o resultado primário, o que impactaria as medidas do arcabouço fiscal. Nem pensar.
Por fim, o terceiro truque é abrir crédito extraordinário, gasto que fica de fora do arcabouço. As subvenções aos combustíveis, segundo o economista, provavelmente seguirão esse caminho.
Tudo isso parece um déjà vu das pedaladas fiscais do trevoso governo de Dilma Rousseff. Estamos diante dos mesmos truques para gastar mais sem nenhuma transparência. Não se discute a conveniência desses gastos — todos parecem bastante justificados quando analisados um a um, ainda que se possa questionar a incrível coincidência de todos estarem sendo feitos justamente em ano eleitoral. O problema está em escamotear esses gastos da sociedade, fazendo parecer que o arcabouço fiscal continua em pé e saudável. Esses truques servem apenas para cumprir formalmente as regras fiscais, mas não são suficientes para fazer o dinheiro aparecer do nada.
Hoje, sem espaço de manobra, com o Orçamento tomado por decisões populistas do passado e do presente, o governo Lula lança mão dos mesmos expedientes do governo Dilma. O final dessa história já conhecemos. Mas Lula poderá dizer, lembrando Quércia, que quebrou o Brasil, mas reelegeu-se.
Fonte: Estadão
COMENTO: Enquanto isto, faltando vinte dias para alcançarmos a metade do ano, já ultrapassamos o valor de Um Trilhão e Oitocentos Bilhões, retirados dos bolsos de quem trabalha, produz e é rapinado no dia a dia, de todas as formas possíveis (a imagem atualizada pode ser vista ao lado)! O futuro? Ora o futuro, em janeiro de 2027, é só colocar a culpa da quebradeira nos tridores da pátria que conseguiram manipular o presidente dos EUA a nos prejudicar de forma irrecuperável! Por outro lado, temos que, o grande fator de inquietação dos brasileiros é a conformação da Seleção que irá "defender" o Brasil na Copa!  Vai Braza!!

ATUALIZAÇÃO EM 27 DE JUNHO: Enquanto a patuleia fica em frente aos seus enormes televisores, comprados em incontáveis prestações, vendo e ouvido os "ispissialista" analisarem as possibilidades de alcançar o "équissa", o Bêbado Sem Vergonha alcança um record "nuncantisvistu" no país. Dois TRILHÕES DE REAIS arrecadados, antes de fechar o primeiro semestre!!
Vai, Brazza!

quinta-feira, 26 de março de 2026

O Vendedor de Futuros

Em 2004, o escritor angolano José Eduardo Agualusa publicou o romance O Vendedor de Passados, uma história curiosa narrada por uma osga — uma lagartixa filosófica chamada Eulálio — que observa o estranho ofício de Félix Ventura, um homem que fabrica biografias.
Em uma Luanda que tentava se recompor depois de décadas de guerra civil, surgia uma nova elite que precisava de algo essencial: um passado respeitável. Félix Ventura fornecia exatamente isso. Inventava genealogias, antepassados heroicos, avôs ilustres, bisavós patrióticos. Quem antes fora ninguém, de repente tornava-se descendente de estadistas, intelectuais ou combatentes da liberdade. Era, portanto, um comércio de memórias fictícias, não de fatos.
A genialidade do romance está em revelar uma verdade desconfortável: sociedades inteiras às vezes precisam reorganizar o passado para poder seguir vivendo. O problema começa quando essa reorganização se transforma em propaganda política. Quando o passado deixa de ser lembrança e passa a ser mercadoria ideológica.
No Brasil, essa prática de vender passados assumiu contornos bastante particulares. Durante décadas, grupos políticos da esquerda radical e da esquerda light — aquela, assassina por natureza, esta, a que bate palmas — empenharam-se em reembalar episódios turbulentos da história recente como narrativas heroicas. Não se tratava de inventar genealogias pessoais, como fazia o personagem de Agualusa, mas de reconstruir ideologicamente acontecimentos complexos para que se ajustassem a um roteiro moral simples: o da luta pela democracia.
Nesse roteiro, organizações armadas que atuaram no Brasil nas décadas de 1960 e 1970 passaram a ser apresentadas como movimentos românticos de resistência democrática. Figuras como Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Dom Hélder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns — o Aiatolá de Forquilhinha — foram transformadas em símbolos de uma suposta cruzada pela liberdade.
Essa narrativa, entretanto, omite um aspecto essencial: esses grupos não buscavam restaurar uma democracia liberal nos moldes ocidentais. Inspiravam-se explicitamente em revoluções socialistas e em regimes de partido único. Seus modelos políticos estavam em experiências como a de Fidel Castro em Cuba, no sistema da União Soviética de Josef Stálin e na revolução conduzida por Mao Tsé-Tung na China.
A história do século XX mostrou que esses regimes produziram realidades bastante distantes das utopias prometidas. Prometiam liberdade, mas deixaram mais de 100.000.000 de ossadas pelo caminho, como foi denunciado em O Livro Negro do Comunismo.
Na União Soviética, milhões de pessoas morreram em fomes induzidas por políticas econômicas desastrosas, chegando-se ao absurdo de pais comerem seus filhos no Vale do Volga, como foi denunciado em O Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenítsin (talvez venha daí a frase incômoda 'comunista come criancinha'). Quem não morria de fome passou anos nos campos de trabalho forçado dos Gulags siberianos, administrados pelo aparato repressivo do Estado, onde até existe uma escabrosa Estrada de Ossos, tantos eram os que morriam naquele inferno gelado.
Na China maoísta, campanhas políticas e experimentos econômicos, como o Grande Salto Para a Frente, provocaram uma das maiores catástrofes humanas da história moderna, com dezenas de milhões de mortos, de fome e de perseguição política — além de canibalismo. Durante a Revolução Cultural que ressuscitou Mao Tsé-Tung, houve mais de 10 milhões de mortos, em que coitados ainda vivos tinham seus testículos cortados, assados e comidos. O tal churrasquinho chinês.
Em Cuba, opositores foram presos e executados após a consolidação do regime revolucionário, em 1959. Fala-se em 17.000 mortos no paredón, mas pode chegar a 50.000, segundo alguns historiadores. Vinte por cento da população fugiu do país, especialmente para a Flórida — cerca de 145 km entre o norte de Cuba e Key West, o caminho mais curto para fugir — agarrados em câmaras de ar de pneus de caminhões e em troncos de bananeiras, enfrentando tubarões. Um petisco saboroso em Havana, na época, era filé de fígado. Não de fígado de vaca, nem de ovelha, mas de fígados humanos retirados de mortos no hospital e vendidos como iguaria rara, como foi denunciado no livro Trilogia Suja de Havana, do cubano Pedro Juán Gutiérrez.
Nem é preciso dizer que a Revolução Cubana estuprou toda a América Latina, tentando criar Vietnãs em cada país, para implantar o comunismo. Por isso houve governos militares duros, como deveriam ser, para fazer frente a essa ameaça diabólica, como ocorreu principalmente no Brasil, na Argentina e no Chile. Leia meu trabalho Ações Armadas Comunistas na América Latina.
Vendedores de passados proliferam no Brasil, especialmente os terroristas e seus simpatizantes, que tomaram conta da mídia, da cultura, das universidades ainda no final do governo dos militares, para vender milho podre a inocentes pombinhas, de que lutaram para restaurar a democracia — claro, a democracia de Fidel Castro e seu paredón. Afinal, foi lá, em Pinar del Río, que os terroristas tiveram instrução de armamento e tiro, sabotagem e terrorismo.
Por isso há tantos filmes endeusando terroristas e demonizando os militares que os combateram: Olga, O que é isso companheiro?, Lamarca, Marighella. Na atualidade, há os guerrilheiros da pena, em busca de um Jabuti acasalado com Rouanet, e os guerrilheiros da câmera, como Walter Salles (Ainda Estou Aqui) e Kleber Mendonça Filho (O Agente Secreto), em busca de Kikitos e, eventualmente, um Oscar. Todos vendendo seus passados gloriosos, vítimas da ditadura. Salles e Kleber usaram seus filmes para vender um passado de perseguição, tortura e morte perpetrado pelos militares. O que é próprio de farsantes, contando a História pela metade. No fundo, eles ainda sonham com um Brasil socialista, enquanto passeiam com Rolex e Armani para usufruir o melhor do capitalismo americano. Wagner Moura que o diga.
Uns poucos desses terroristas do passado, hoje passeando garbosamente pelas redações de jornais e TVs, como Fernando Gabeira, admitiram que todos os grupos armados das décadas de 1960 e 70, no Brasil, queriam a ditadura do proletariado, ou seja, a ditadura comunista.
Vender passados — ainda que cuidadosamente editados — sempre foi mais fácil do que encarar a complexidade real da História. E talvez seja por isso que o Brasil continue tão preso a disputas sobre o que aconteceu ontem, enquanto permanece indeciso sobre o que pretende construir amanhã. Estava certo o ministro da Fazenda, Pedro Malan, ao dizer que no Brasil, o passado é cada vez mais incerto.
A história, como se sabe, raramente é um duelo simples entre santos e demônios. Mas narrativas políticas preferem a simplicidade moral. Heróis impecáveis vendem melhor.
O curioso é que esse comércio de passados floresceu justamente em um país que sempre viveu obcecado pelo futuro. Desde o século XIX, repete-se a frase de que o Brasil é o país do futuro. A expressão, celebrizada pelo livro do escritor austríaco Stefan Zweig — Brasil, País do Futuro — tornou-se ao mesmo tempo elogio e ironia.
O futuro brasileiro parecia sempre magnífico. O único problema era que ele nunca chegava, nem durante o milagre brasileiro, em que a economia crescia acima de 10% ao ano. Década após década, a promessa permanecia suspensa no horizonte, como uma placa de obra eterna: Em breve.
Se temos tantos vendedores de passados, talvez precisemos com urgência de vendedores de futuros.
Não se trata de futurologia barata, dessas que prometem carros voadores ou colônias em Marte. O vendedor de futuros brasileiro teria um ofício bem mais pragmático: oferecer projetos plausíveis de civilização.
Ele não venderia lembranças gloriosas. Venderia possibilidades concretas. Seu escritório ficaria em algum lugar discreto, talvez numa sala modesta de Brasília, com uma placa na porta: Consultoria em futuros possíveis.
Os clientes seriam variados: cidadãos cansados, prefeitos desesperados, governadores atônitos, legisladores com algum lampejo de lucidez.
O primeiro produto do catálogo seria algo simples: previsibilidade. Num país onde as leis mudam conforme o vento político, onde processos podem atravessar décadas até encontrar uma conclusão, o vendedor de futuros ofereceria um item raro: a ideia de que regras existem para serem cumpridas. Ele explicaria ao cliente que sociedades estáveis não são necessariamente aquelas com mais leis, mas aquelas onde as leis são claras e aplicadas de forma consistente.
Outro produto do catálogo seria segurança pública. Hoje, em muitas regiões do Brasil, o Estado disputa território com organizações criminosas, como traficantes de drogas e milicianos — que é o caso do município do Rio de Janeiro, onde 60% ou mais de seu território foi perdido para a bandidagem. Em muitos bairros, o poder público é uma presença esporádica, com troca de tiros entre polícia e bandido, enquanto grupos armados exercem autoridade cotidiana. O vendedor de futuros não prometeria milagres, apenas algo que em diversos países já existe: a restauração gradual da autoridade legal. Não por meio de slogans grandiosos, mas por políticas públicas sérias, como a construção de escolas, áreas de lazer e cultura, e delegacias policiais.
Outro item à venda seria responsabilidade penal coerente. Essa é uma discussão delicada e complexa, que envolve direito, psicologia, sociologia e política criminal. Diferentes sociedades adotam diferentes critérios para lidar com jovens envolvidos em crimes graves. O vendedor de futuros não apresentaria soluções simplistas, mas colocaria a pergunta essencial sobre a mesa: como equilibrar prisão do bandido jovem com proteção à sociedade?
É óbvio que uma lei precisa ser urgentemente aprovada no Brasil, diminuindo a idade penal para 16 anos ou menos. Se com 16 anos a pessoa pode votar, engravidar ou ser engravidada — tecnicamente, um adulto —, por que não pode responder por crimes hediondos? Bandido não tem idade, só tem quem o proteja, como é o caso da esquerda em peso.
O vendedor de futuros também teria um produto chamado tempo judicial razoável. No Brasil, processos podem durar tanto que a própria noção de justiça se dissolve. A ideia de que recursos são necessários para garantir direitos é amplamente aceita. Mas a ideia de que processos devem ter um fim também é. Como o famigerado processo das fake news, de um certo Xandão, o qual, no ritmo em que a engrenagem do Sistema Toga Petralha gira, deverá se estender por mais tempo que o AI-5. Nesse futuro possível, crimes graves não passariam décadas deslizando entre recursos e mais recursos, enquanto vítimas envelhecem esperando uma sentença que nunca chega. A execução da pena após condenação em segunda instância voltaria a ser tratada como algo razoável dentro de um sistema que ainda preserva o direito de defesa, mas que também reconhece que justiça excessivamente tardia deixa de ser justiça.
O vendedor de futuros também ofereceria um produto chamado fim da complacência penal automática. Não se trata de abolir garantias jurídicas — que são pilares de qualquer Estado de Direito —, mas de enfrentar a percepção crescente de que certas regras acabam produzindo um sistema onde a punição raramente corresponde à gravidade do crime. Nesse cenário imaginado, progressões de pena seriam discutidas com critérios mais rigorosos e transparência, e não como etapas automáticas de um calendário penitenciário. A ideia seria simples: se a sociedade decide punir o bandido com determinada pena para crimes hediondos, como assassinatos e estupros, essa pena deveria ser cumprida integralmente, não virar apenas uma formalidade burocrática para colocar o vagabundo mais cedo na rua.
Outro produto no catálogo do vendedor de futuros seria a coragem legislativa para enfrentar mecanismos que transformam o sistema penal num permanente vai-e-vem entre prisão e rua. Entre eles estaria a eliminação imediata da chamada saidinha, vista por muitos como um prêmio indevido a condenados. Mesmo diante do argumento jurídico de que a lei penal não pode retroagir senão para beneficiar o réu — como foi o caso do fim da saidinha, aprovada no Congresso Nacional, mas que só vale para novos condenados —, o vendedor de futuros perguntaria se o interesse coletivo e a segurança pública não deveriam pesar mais nessa equação. No país que ele tenta vender, a lei deixaria de ser um labirinto de indulgências para vagabundos e passaria a refletir, com mais clareza, a expectativa de justiça da sociedade.
Outro produto do vendedor de futuros seria o fim imediato de emendas parlamentares, nos âmbitos federal, estadual e municipal. Os congressistas foram eleitos para aprovar o Orçamento da União, não para meter a mão em parte desse orçamento, para atender interesses particulares nos grotões eleitorais. Quem deveria ter o direito e o dever de distribuir os orçamentos seriam apenas os poderes executivos, ninguém mais: o presidente da República, os governadores e os prefeitos.
Um produto importante para harmonia dos Três Poderes seria apresentado pelo vendedor de futuros, ainda que seja um desenho e a explicação do desenho que todos já deveriam ter entendido, por ser autoexplicativo: ao executivo cabe executar, ao legislativo cabe legislar e ao judiciário cabe legislar. Simples assim. É uma aberração o que se vê no STF, que se arvora no direito de legislar, tendo cada ministro recebido apenas um único voto — a indicação do presidente da República — para ser o guardião das leis e da Constituição, não para ficar brincando de ser deputado e senador, e, eventualmente, de poder executivo, ejaculando ordens absurdas para todos os lados.
O Sistema Toga Petralha é o aparelhamento de líderes petistas em todos os órgãos públicos, a começar pelo STF, feito pelo Ogro de Nove Dedos e a Estocadora de Vento. (O jornalista Fernão Lara Mesquita, no programa Pânico da JP News, em 17/03/2017, falou: Eles colonizaram o STF e as universidades.) Assim, não importa quem seja eleito Presidente do Brasil, de direita ou de esquerda, porque quem de fato vai governar são os políticos da extrema esquerda. Jair Bolsonaro está aí para comprovar esse bullying sofrido durante seu governo, com centenas de Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPFs) protocoladas no STF pelo PT e seus genéricos piçolistas e quetais contra atos do Executivo. Esse bullying da extrema esquerda continua, agora é dirigido contra atos do Legislativo, como foi o caso de isenção de IOF e o Marco Temporal, prontamente derrubados pelo STF.
O vendedor de passados também diria que os milhões de cidadãos que recebem o Bolsa Família, o Pé de Meia, Luz grátis e outros mimos federais deveriam ser impedidos de votar para presidente da República, por se tratar de compra descarada de votos. Até o WikiLeaks vazou um cable (telegrama diplomático) americano, em 2010, de que José Dirceu havia demonstrado entusiasmo político com o programa Bolsa Família, de que poderia gerar algo em torno de 40 milhões de votos. (Atualmente, esse número de vira-bostas sustentadas pelos tico-ticos chega à metade da população brasileira, tem mais gente recebendo algum benefício do governo do que trabalhando com carteira assinada.) E o TSE missão dada é missão cumprida, como o Bochechinha de Lula (Benedito Gonçalves) cochichou no ouvido de Alexandre de Moraes? Nem aí. Faz parte do Sistema Toga Petralha.
Outro item do catálogo do vendedor de futuros seria educação institucional. Não apenas educação escolar — embora essa seja essencial —, mas também educação moral e cívica. Uma cultura em que os cidadãos compreendam o funcionamento do Estado, os limites dos seus direitos e de suas obrigações, e o valor das Instituições.
O vendedor de futuros não seria um profeta nem um salvador da Pátria Amada Brasil. Seria apenas um corretor de possibilidades. Ele diria aos clientes uma verdade incômoda: Futuros não são comprados prontos. Eles são construídos.
O máximo que um vendedor de futuros pode fazer é mostrar plantas arquitetônicas plausíveis. O edifício precisa ser erguido pela própria sociedade. E aqui surge a grande diferença entre vender passados e vender futuros. Passados podem ser inventados. Futuros precisam ser reais e funcionar.
Uma genealogia falsa do passado pode enganar a população por algum tempo. Um projeto de país ineficaz revela suas falhas rapidamente. Talvez seja por isso que o comércio de passados seja tão popular na política. Ele exige apenas narrativa. O comércio de futuros exige realidade.
Imagino o vendedor de futuros fechando sua loja no fim do expediente. Ele guarda os catálogos na gaveta, apaga a luz e coloca um pequeno aviso na porta: Volto amanhã.
Do lado de fora, a cidade continua barulhenta, desigual, cheia de problemas antigos. Mas também cheia de possibilidades.
Porque o futuro — ao contrário do passado — ainda não foi escrito. E, como qualquer mercadoria rara, ele só tem valor quando alguém decide finalmente produzi-lo.
Fonte: Piracema II 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Os Expedicionários Brasileiros na Segunda Guerra Mundial

por Ricardo Westin
O Brasil se prepara para comemorar o 81º aniversário de uma das maiores façanhas militares de sua história. Em 21 de fevereiro de 1945 — uma quarta-feira gélida do inverno europeu — os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB), auxiliados por caças da Força Aérea, tomaram Monte Castelo, no norte da Itália.
Soldado brasileiro em ofensiva a Monte Castelo
(foto: Reprodução/Ministério da Defesa)
Fazia meses que a montanha estava ocupada pelas tropas de Adolf Hitler. As quatro tentativas anteriores de expulsar os inimigos haviam fracassado. Dois meses depois da tomada de Monte Castelo, a Alemanha nazista se renderia, pondo fim à Segunda Guerra Mundial na Europa. O Japão ainda prolongaria a guerra na Ásia.
Documentos da época guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que as proezas dos combatentes brasileiros — mais conhecidos como pracinhas ou expedicionários — imediatamente viraram motivo de orgulho nacional. Em fevereiro de 1946, a Assembleia Nacional Constituinte dedicou uma de suas primeiras sessões aos veteranos da guerra. O deputado constituinte Claudino Silva (PCB-RJ) discursou:
— Esses heróis da pátria, filhos do povo, selaram com seu sangue nossa aspiração de sepultar para sempre os horrores do fascismo. Evocamos, por isso, com orgulho patriótico nossos brilhantes feitos contra as armas hitleristas, quer em Monte Castelo, Castelnuovo, Montese ou Zocca — celebrou ele, citando outras batalhas em que os brasileiros tomaram parte.
Na mesma sessão, o deputado Flores da Cunha (UDN-RS) contou ter chorado numa palestra em que um oficial da FEB narrou com detalhes a tomada daquele reduto nazista:
Capa do jornal O Cruzeiro do Sul
(imagem: Biblioteca Nacional)
— O primeiro assalto a Monte Castelo fracassou, mas, renovado no dia seguinte, ou daí a alguns dias, quando a nossa tropa galgou o cume da montanha, foram encontrados pela encosta acima os cadáveres de oito ou dez brasileiros que até lá haviam chegado na primeira investida. Quando ouvi essa narrativa, experimentei emoção até as lágrimas. O homem brasileiro, em qualquer latitude, é sempre um bravo!
A participação do Brasil na guerra mais sangrenta de todos os tempos permaneceu no imaginário dos brasileiros por muitos anos. Em 1959, o senador Caiado de Castro (PTB-DF) lembrou de sua própria atuação na Itália, como coronel, comandando os ataques a Monte Castelo.
— Foi o meu regimento, o glorioso Regimento Sampaio, aquele que maiores baixas sofreu durante a guerra. No primeiro assalto a Monte Castelo, perdeu 33% do seu efetivo e continuou na luta. No Exército francês, a perda de 10% era considerada grande, determinando, não raro, a retirada do contingente em operações. Do meu regimento, baixaram aos hospitais da Itália 1.150 homens feridos por bala. Dos [457] mortos da FEB, 188 a ele pertenciam, além de 98 mutilados.
O presidente Getúlio Vargas enviou para a campanha da Itália 25 mil combatentes, que foram divididos em cinco grupos para atravessar o Atlântico e o Mediterrâneo. O primeiro partiu do Rio de Janeiro em julho de 1944. Embora a FEB tenha permanecido na Itália por pouco mais de um ano, até setembro de 1945, os expedicionários estiveram nos campos de batalha propriamente ditos ao longo de oito meses, de setembro de 1944 a abril de 1945.
Como não tinha nenhuma experiência de guerra, a FEB atuou na campanha da Itália sob o treinamento e o comando dos Estados Unidos. Apesar de o protagonismo ter sido dos brasileiros, os norte-americanos também participaram da conquista de Monte Castelo.
A vitória foi importante porque os brasileiros e os norte-americanos estavam parados naquela posição havia três meses, sem conseguir avançar, o que dava liberdade de ação aos alemães em praticamente toda a região italiana localizada ao norte do monte.
Soldados da FEB saudados por moradores de Massarosa
(foto: Reprodução/Wikimedia Commons)
Em 1943, quando o líder fascista Benito Mussolini foi deposto, a Itália abandonou os nazistas e passou para o lado dos Aliados (Grã-Bretanha, França, União Soviética e Estados Unidos). Hitler, em reação, invadiu o novo inimigo.
Os Aliados, então, agiram para livrar os italianos do jugo nazista, avançando do sul para o norte. Quando os brasileiros chegaram para engrossar a frente aliada, Roma já estava livre. Os expedicionários lutaram no norte, buscando empurrar os alemães para fora do país.
A FEB libertou em torno de 50 localidades italianas. A última a ser tomada dos nazistas, em 29 de abril, foi a pequena Fornovo di Taro, onde nada menos que 15 mil soldados inimigos se entregaram aos brasileiros. A Alemanha se renderia incondicionalmente aos aliados em 7 de maio.
O Brasil foi o único país da América Latina a combater na Europa. O México também se envolveu na Segunda Guerra Mundial, mas seus soldados lutaram nas Filipinas.

<iframe width="560" height="315" src="https://www.youtube.com/embed/iYNw5bBISYE?si=DSPLTlI4PHhczZQu" title="YouTube video player" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>

Vídeo conta a história da FEB, desde a criação até o retorno ao Brasil

Os papéis históricos do Arquivo do Senado, no entanto, revelam que, apesar de todo o heroísmo, os expedicionários foram praticamente esquecidos e abandonados pelo governo brasileiro assim que a Segunda Guerra Mundial terminou.
Em 1958, passados 13 anos do fim da guerra, Caiado de Castro denunciou aos colegas senadores:
— Inúmeros ex-combatentes me procuram diariamente em minha residência, no Senado e na sede do partido a que pertenço solicitando amparo, porque continuam passando necessidade, sem poderem angariar os meios de subsistência para suas famílias. Deles tenho recebido vários pedidos, até de modestos empregos, como o de gari da limpeza pública. Nesse sentido, tenho me dirigido ao prefeito do Distrito Federal [hoje cidade do Rio de Janeiro (RJ)]. Sei que me torno imprudente com as constantes solicitações, mas é a minha obrigação.
Vargas e seus sucessores na Presidência da República não se preocuparam em desenhar uma política pública consistente e abrangente para reincorporar os antigos combatentes à sociedade. Dos civis recrutados, muitos não encontraram trabalho quando regressaram para casa. Acreditava-se que eles não eram capazes nem confiáveis porque seguramente tinham "neurose" — o que hoje se conhece como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Além disso, o governo não concedeu imediatamente aos veteranos nenhuma pensão, ainda que tivessem ficado incapacitados em razão da tal "neurose" ou de alguma deficiência física adquirida nos campos de batalha, como um braço mutilado ou um olho cego.
Numa sessão da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, o deputado Caires de Brito (PCB-SP) resumiu:
— Os ex-combatentes se encontram verdadeiramente num estado de semiesquecimento.
O colega Flores da Cunha acrescentou:
— Não pretendo traçar diretrizes ao governo, mas lamento que até agora não se tenha procurado premiar aqueles que foram a terras estranhas para morrer pelo Brasil. Sei de uma infinidade de expedicionários jovens, alguns de 20 anos, outros de menos, que se acham em completo abandono pelos vários estados.
Soldados da Força Expedicionária Brasileira posam com seus armamentos e munição
(foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Em outra sessão da Constituinte, Claudino Silva deu exemplos concretos do descaso governamental:
— O ex-combatente Mondino Hamilton Ilha, tuberculoso, teve alta do Hospital Militar de Belém. Mas, como não estava curado, teve que recorrer a particulares para obter o seu internamento, já que lhe negavam as autoridades a assistência necessária. O ex-combatente Vespio Manelli, recolhido à enfermaria do Hospital Central do Exército [no Rio de Janeiro], foi transferido para o Pavilhão de Neuróticos e Psicopatas por ter reclamado da pouca assistência ministrada aos enfermos.
O deputado prosseguiu:
— O caso do soldado [Édson] Jatobá é o mais doloroso. Vive esse herói da pátria num leito do Hospital Central do Exército, com a espinha quebrada e a pele colada nos ossos, como um espectro fugido de um campo de concentração. Entrevistado por um jornalista, teve o soldado Jatobá a ideia de reclamar das tristes condições em que se encontra. O resultado é que um oficial, irritado com as declarações, teve a coragem de insultá-lo e castigá-lo, como se ainda vivêssemos nos tempos de Hitler e Mussolini.
Silva concluiu fazendo uma comparação:
— Em países democráticos e avançados, os ex-combatentes têm direitos líquidos e assegurados e todas as honrarias. Assim acontece na América do Norte, na Inglaterra, na União Soviética, na Iugoslávia, na França. Mas, entre nós, não há ainda uma legislação que ampare os ex-combatentes, e as poucas leis existentes são incompletas e, mesmo assim, não se aplicam.
Não foram só os ex-combatentes de origem civil que sofreram no regresso da guerra. Os militares de carreira também enfrentaram dificuldades. Apesar de terem o emprego garantido, eles foram boicotados pelos colegas que haviam permanecido no Brasil durante o conflito. Estes se sentiram enciumados diante dos expedicionários, que chegaram sendo tratados como heróis, recebendo honrarias e ganhando prioridade nas promoções. Em retaliação, procuraram dar-lhes os trabalhos mais enfadonhos e transferi-los para os quartéis mais remotos e desimportantes do território brasileiro.
Em 1960, uma decisão do prefeito do Distrito Federal, Sá Freire Alvim, provocou indignação generalizada. Os parlamentares locais aprovaram uma lei isentando do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) tanto os veteranos da Itália quanto os futebolistas que venceram a Copa do Mundo de 1958. O prefeito aceitou a isenção aos atletas, mas vetou o benefício aos soldados, sob o argumento de que a medida seria prejudicial para os cofres públicos.
Mensagem em que o presidente Getúlio Vargas pede ao Congresso que aprove a liberação de verbas para a construção de um mausoléu destinado a abrigar os restos mortais dos expedicionários mortos na Itália (Arquivo do Senado)
Com o intuito de oferecer ajuda material aos veteranos em dificuldades e pressionar o poder público a tomar medidas, os soldados criaram a Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, ainda em 1945, e o Clube dos Veteranos da Campanha da Itália (depois Associação Nacional dos Veteranos da FEB), em 1963. As organizações tinham unidades espalhadas em praticamente todo o território nacional. Elas ainda existem e, embora sem a capilaridade do passado, dedicam-se a preservar a memória dos soldados.
Em 1960, o senador e ex-combatente Caiado de Castro disse:
Getúlio Vargas visita soldados da FEB durante embarque para a Itália
(foto: Arquivo Nacional/Agência Nacional)
— Enfileirei-me entre esses homens e tenho o orgulho de dizer que eu, homem pobre que vive exclusivamente dos seus ordenados, durante mais de dez anos registrei 10% do que ganhava para sustentar os pracinhas. As Associações dos Ex-Combatentes de Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e outros estados devem atestar que constam de seus anais o que pude fazer por esses homens, dos praças aos oficiais, dando-lhes sanatórios para tuberculosos, casas, tudo comprado a prestação, em benefício dos meus companheiros.
Segundo ele, o Estado brasileiro só se preocupou com os expedicionários que morreram na Itália, garantindo às suas famílias diferentes pensões, e deixou os sobreviventes de lado. O senador arrematou:
— Lamento somente [por] aqueles que não tiveram a ventura de morrer na guerra e voltaram ao Brasil para sofrer, pois a maioria deles está passando grande miséria.
Ao contrário dos soldados, o comandante da FEB, general João Batista Mascarenhas da Moraes — que fora escolhido para esse posto diretamente pelo presidente Getúlio Vargas — recebeu todas as homenagens públicas possíveis de 1945 em diante. Ele, contudo, procurou usar essa influência para obter do governo benefícios para os expedicionários.
Em 1952, em sua segunda passagem pela Presidência da República, Vargas apresentou à Câmara um projeto de lei liberando as verbas necessárias para a construção de um mausoléu destinado a abrigar os restos mortais dos expedicionários que ainda estavam sepultados na Itália. Os deputados, porém, acharam melhor economizar e mudaram o projeto, prevendo a reforma do Monumento ao Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, para que nele fossem depositados os restos mortais.
Furioso, Mascarenhas enviou uma carta aos senadores:
General Mascaranhas De Moraes,
durante a campanha na Itália
(foto: U.S. National Archives/Wikimedia)
"Tendo a Comissão de Repatriamento, por diversas razões, de ordem histórica, militar, política e mesmo estética, decidido pela construção de novo monumento e tendo a Câmara dos Deputados alterado o espírito da mensagem presidencial, venho solicitar que seja restituída ao projeto a faculdade prevista na referida mensagem".
Os senadores atenderam ao ex-comandante da FEB, e o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, mais conhecido como Monumento aos Pracinhas, foi construído no Aterro da Glória, no Rio de Janeiro.
O senador Caiado de Castro não se deixou impressionar. Em tom de ironia, ele discursou:
— Está em construção o monumento aos heróis da FEB, que custará 300 milhões de cruzeiros. Servirá de abrigo aos namorados ou será o ponto onde irão esmolar os militares desprotegidos? Envergonho-me, senhores senadores, quando saio do Senado e encontro à porta um ex-soldado pedido 20 ou 30 cruzeiros para matar a fome.
Em 1960, as urnas dos mortos foram levadas do Cemitério de Pistoia, na Itália, para o novo mausoléu. O presidente Juscelino Kubitschek participou da cerimônia no Rio.
Apenas em 1967 o governo aprovou uma lei dizendo claramente quem eram os ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial e quais deles fariam jus a certos benefícios. Foram incluídos na lista os militares que ficaram no Brasil e, por exemplo, atuaram no monitoramento e na proteção da costa, ameaçada pelos submarinos nazistas.
Em 1988, a Constituição lhes concedeu novos direitos, como o aproveitamento no serviço público sem a necessidade de concurso e a prioridade na aquisição da casa própria. A Carta também estabeleceu que os veteranos passariam a receber uma pensão equivalente ao soldo de um segundo-tenente.
O historiador Daniel Mata Roque, um dos vice-presidentes da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, explica que o poder público, na realidade, criou inúmeras leis, inclusive estaduais e municipais, favorecendo os expedicionários.
— A legislação produzida foi grande, mas por vezes nasceu de forma desordenada e não chegou a ser aplicada. Muitos veteranos morreram sem saber que tinham esses direitos — afirma Roque. O livro A Legislação do Ex-Combatente, produzido no fim dos anos 1970 por um ex-combatente de guerra da Marinha, apontou a existência de quase 300 normas legais assinadas entre 1945 e 1978.
Cartaz produzido pelo DIP exaltando a
participação do Brasil na II GM
(Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Segundo o historiador, uma das razões para o governo não ter elaborado uma verdadeira política pública para os expedicionários é o tamanho proporcional do contingente. Na época da guerra, o Brasil tinha 41 milhões de habitantes. Os 25 mil integrantes da FEB representavam, portanto, apenas 0,06% da população brasileira.
— Países como os Estados Unidos, a União Soviética e a Polônia tiveram ministérios específicos que tratavam dos assuntos relativos aos ex-combatentes. Mas esses foram países que destacaram contingentes enormes para guerras. Os Estados Unidos, por exemplo, contabilizavam 16 milhões de ex-combatentes após o fim da Segunda Guerra Mundial. Com números bem mais modestos, os nossos expedicionários não conseguiram ter o mesmo reconhecimento do governo brasileiro.
Nos primeiros momentos dessa guerra, iniciada em 1939, tanto o Brasil quanto os Estados Unidos se mantiveram neutros. Em 1941, os norte-americanos entraram no conflito e pressionaram o Brasil a fazer o mesmo.
Vargas, porém, resistiu. O presidente flertou com os norte-americanos e os alemães simultaneamente, esperando deles dinheiro e tecnologia para modernizar as Forças Armadas e impulsionar a indústria pesada nacional.
Quem atendeu aos desejos de Vargas foram os Estados Unidos. Em 1941, um decreto presidencial estabeleceu a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), criada com fundos norte-americanos. No ano seguinte, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.
Também pesaram na decisão do presidente o torpedeamento de navios mercantes do Brasil por submarinos alemães e manifestações de rua em diferentes cidades, encabeçadas por entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE), para que o país agisse contra o imperialismo nazista.

Rendição de oficial alemão à FEB após a batalha de Fornovo di Taro
(foto: Reprodução/Wikimedia Commons)
A vitória dos brasileiros na Itália, de acordo com historiadores, teve influência na queda da ditadura do Estado Novo, em outubro de 1945. Vargas governava de forma autoritária desde 1937, quando deu um autogolpe de Estado, extinguiu a Câmara e o Senado e impôs uma Constituição nada democrática.
Vargas foi derrubado por militares, mas eles não pertenciam à FEB. O papel dos expedicionários na redemocratização do Brasil foi, na realidade, indireto e simbólico. O raciocínio é simples: seria incoerente o Brasil continuar com seu regime ditatorial depois de ter entrado numa guerra com o objetivo de derrotar as ditaduras nazifascistas e promover a democracia.
Sargento Oscar Cardoso Garcez, com prisioneiro alemão
(foto: Reprodução/Jornalismo de Guerra)
Diferentes parlamentares já na época faziam essa interpretação. Um deles, o deputado constituinte (e futuro senador) Juracy Magalhães (UDN-BA) disse em 1946:
— Os bravos soldados, aviadores e marinheiros do Brasil facilitaram o processo de recuperação democrática em nossa terra. Tivemos uma campanha eleitoral [para presidente da República], e o prélio das urnas afastou de nossa terra o regime que combatemos em terras alheias e possibilitou a vida desta Assembleia, que dará ao Brasil uma Constituição genuinamente democrática.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, Claudino Silva afirmou:
— Sem a derrota militar de Hitler, não era possível pensar-se na liquidação da ditadura brasileira. Compreendíamos que, ao declarar guerra ao Eixo e ao enviar os soldados expedicionários, o governo do Brasil dava os mais largos passos no caminho da democracia, pois estava tomando posição contra o fator internacional que criara o clima onde puderam medrar os regimes fascistas e as ditaduras, estava tomando posição contra Hitler e Mussolini, que eram, em realidade, os artífices máximos do Estado Novo.
Em 1947, como senador, Getúlio Vargas (PSD-RS) foi atiçado por seus adversários a explicar essa contradição de seu governo, o que gerou uma acalorada discussão no Senado.
— Eu me pergunto: por que lutamos nós? Por que o Brasil mandou seus heróis aos campos de batalha da Europa? — questionou o ex-ditador.
— Para defender a democracia, livrar o Brasil da ditadura e do Estado Novo e nele implantar a democracia — respondeu, provocativo, o senador Arthur Santos (UDN-PR).
— Não acredito que Vossa Excelência esteja enquadrado entre os acusadores do tempo em que se organizou a Força Expedicionária — devolveu, no mesmo tom, Vargas.
— Nós, os democratas, é que fomos os mais entusiastas defensores da colaboração do Brasil junto às nações que desejavam implantar no mundo o regime democrático. Não pode dizer que foi Vossa Excelência quem mandou a Força Expedicionária para combater na Europa o totalitarismo que ameaçava o mundo — reagiu Santos.
— Fui eu quem tomou a iniciativa — assegurou Vargas.
— Foi a nação brasileira, foram as tendências democráticas do nosso povo — insistiu Santos.
— Foi o povo e fui ao encontro dos seus desejos. Felizes os governos que sentem os desejos dos povos e que os atendem. Nunca me envergonhei de ter seguido a orientação do povo brasileiro — afirmou Vargas, usando toda a sua habilidade política para encerrar a discussão.
Criada no papel em 1943, a FEB precisou de um ano para se tornar realidade. A maior dificuldade do governo Vargas foi arregimentar os combatentes civis. As autoridades militares esperavam dispor de 100 mil soldados, a serem agrupados em três divisões militares. Os jovens não atenderam ao chamado, e o Brasil conseguiu criar uma única divisão, com 25 mil expedicionários.
O ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, não escondeu a decepção. Numa carta ao presidente Vargas, ele escreveu que sonhava ter uma tropa de elite composta de combatentes com "espírito cultivado" e "corpo sadio e forte" — isto é, gente branca, educada e oriunda das classes média e alta. Em vez disso, viu a FEB ser criada a partir da "massa analfabeta, inculta e desprotegida do povo".
Chegada de expedicionários ao Brasil, em agosto de 1945
(foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Num discurso em 1947, o senador Luís Carlos Prestes (PCB-DF) fez uma avaliação diferente:
— Nossos soldados na Itália demonstraram as qualidades do nosso povo. Desmentiram, assim, todos os pessimistas, esses senhores que procuravam uma explicação superficial para o nosso atraso nessa teoria anticientífica das raças, baseada num falso "antropologismo". Nossos caboclos provaram no solo da Itália sua grande capacidade de resistência física, de estoicismo, de lealdade, de bravura, de coragem.
Muitos dos expedicionários não gostavam de ser chamados de "pracinhas". O praça, no jargão militar, é o soldado raso e sem qualificação. Para eles, o diminutivo dava uma carga ainda mais negativa à palavra. Os detratores da FEB por muito tempo espalharam que os enviados à Itália eram um grupo de desdentados maltrapilhos que estavam despreparados para o combate, serviram de bucha de canhão e, tendo chegado apenas nos meses finais, não fizeram diferença na guerra.
O historiador Francisco Cesar Ferraz, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e autor do livro A Guerra que não Acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira, discorda dessa descrição:
— Eles foram para uma luta de vida ou morte num ambiente desconhecido e extremamente hostil, ora com calor escaldante, ora com temperaturas caindo a -20ºC. Foram corajosos, libertaram inúmeras cidades dos nazistas e capturaram, ao todo, mais de 20 mil inimigos. Para uma força composta de 25 mil homens, esse não é um feito nada desprezível. É com razão que muitos deles rechaçavam a palavra "pracinha", pois remetia a uma situação de inferioridade que não correspondia à realidade.
Chegada de expedicionários ao Brasil, em agosto de 1945
(foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
O escritor Rubem Braga foi enviado à Itália pelo jornal Diário Carioca para acompanhar as ações da FEB. Numa reportagem escrita no primeiro dia de 1945, o correspondente de guerra narrou o tenso momento em que uma patrulha de expedicionários brasileiros por pouco não foi capturada ou morta por soldados nazistas:
Aconteceu que saiu uma patrulha com dois sargentos, nove soldados e um partigiano. A certa altura ela se dividiu em dois grupos. O sargento José Rodrigues de Oliveira Ribeiro, que chefiava um deles, viu uma casa onde supunha que houvesse alemães. Deixou três homens esperando atrás de um barranco e avançou cautelosamente com o soldado Érico Domingos Porto. Os dois homens andavam a certa distância um do outro — os dois metidos em seus capotes brancos com capuzes brancos. O sargento ia andando com todo cuidado quando viu um soldado a alguns metros de distância. Teve a impressão de que o soldado ia lhe dizer alguma coisa, e, levando um dedo à boca e franzindo a sobrancelha, fez um gesto para que ele não dissesse nada, ficasse em silêncio, para não despertar a atenção do inimigo que devia estar dentro da casa. O soldado fez um gesto que sim com a cabeça e acrescentou baixinho:
— Ya, ya.*
No mesmo instante quase, voltando-se, esse soldado viu Érico e apontou para ele o fuzil. Não teve tempo, porém, de puxar o gatilho: o sargento derrubou-o com uma rajada de metralhadora de mão.
O caso não foi difícil de explicar. Como os alemães também andam encapotados e encapuzados de branco, o engano foi mútuo. Assim como o sargento pensou que o soldado fosse brasileiro, o soldado alemão pensou que o sargento Ribeiro fosse alemão — mesmo porque ele é um homem de tipo sanguíneo e claro. No instante, porém, em que viu o praça Erico — moreno e franzino —, o alemão viu que era inimigo e apontou o fuzil. Mas, nesse segundo, o seu "ya, ya" já havia revelado sua nacionalidade ao sargento.
Foi, de resto, uma patrulha feliz: o sargento matou mais um alemão que ia lhe lançando uma granada e o soldado Érico acertou uma granada no peito de outro alemão que ia saindo da casa com um fuzil na mão. A casa foi atacada com rajadas de metralhadora e três granadas lança-rojão — duas das quais bateram na parede sem produzir efeito e a outra arrebentou a porta. O sargento Pedro Rubim e o soldado José Xavier dos Santos, do outro grupo em que se dividira a patrulha, derrubaram um alemão com rajadas de metralhadora. O homem caiu, não se sabe se morto ou ferido — e depois disso nossa patrulha se retirou. [...]
O soldado Érico, depois de sair na patrulha, notou que sua metralhadora estava engasgada — de fato falhou —, mas assim matou um tedesco [alemão]. Érico foi ferido na perna, mas recusou-se a ser carregado pelos companheiros, voltando à posição andando. Seu ferimento não tem gravidade.
*Ja, ja: "sim" em alemão
A FEB foi extinta no mesmo dia em que o primeiro grupo de expedicionários embarcou na Itália de volta para o Brasil, em julho de 1945.












Monumento ao soldado desconhecido, no Cemitério de Pistoia, na Itália; e Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro
(Giovanni Baldini/Wikimedia e Fernando Dall'Acqua/Wikimedia)
A rapidez se explica pela ebulição política que o país vivia naquele momento. Dados os ventos democráticos vindos da vitória na Europa, a ditadura do Estado Novo estava com os dias contados. Por essa razão, e buscando controlar a transição democrática, Vargas marcou eleição presidencial para dezembro.
O ditador, contudo, dava sinais de que poderia virar a mesa e dar um novo autogolpe de Estado. O principal sinal disso era o "queremismo", movimento político que pedia a sua permanência no governo (o slogan era "Nós queremos Getúlio").
Nesse ambiente instável, a FEB era uma ameaça para os dois lados. A oposição, que desejava a eleição presidencial e o fim da ditadura, temia que Vargas, vitorioso na guerra, empregasse os expedicionários no autogolpe. O presidente, por sua vez, acreditava que era a oposição que contaria com o apoio dos veteranos da Itália, já que eles, teoricamente, tinham aprendido a valorizar a democracia e atenderiam ao chamado para derrubar o ditador.
Supostamente perigosa tanto para o presidente quanto para os seus adversários, a FEB não encontrou quem lhe defendesse. Com uma simples canetada do governo, foi apagada, desaparecendo como se jamais tivesse existido.
O historiador Francisco Cesar Ferraz, da UEL, avalia que, se o apagamento foi forte nas primeiras décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, a situação piorou na década de 1980, com a redemocratização pós-ditadura militar. Nesse momento, os ex-combatentes passaram a ser malvistos pela sociedade. Ele explica:
— Confundiram-se os ex-combatentes com o grupo militar que deu o golpe de Estado em 1964, como se eles tivessem ajudado a impor a ditadura. Essa associação é equivocada. Havia expedicionários de todos os matizes políticos, e um ou outro participou individualmente do golpe, mas a FEB, como instituição, não tinha ideologia. Foi justamente na década de 1980 que ganharam força aquelas histórias que minimizavam e ridiculizavam a participação dos expedicionários na guerra.
Entre os ex-combatentes de direita, aparecem o general Humberto Castello Branco, que depois seria o primeiro presidente da ditadura, e o general Golbery do Couto e Silva, um dos nomes fortes do regime militar.
Dos ex-combatentes de esquerda, destacam-se o historiador Jacob Gorender, que fundaria o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), e o economista Celso Furtado, ministro do Planejamento e da Cultura e um dos principais estudiosos do subdesenvolvimento brasileiro.
Segundo Ferraz, a FEB começou a ser reconhecida apenas em meados de década de 1990, quando as tensões políticas que marcaram a redemocratização praticamente desapareceram. Isso se nota na quantidade crescente de pesquisas acadêmicas sobre o tema que vêm sendo feitas nas universidades.
Para ele, é fundamental que os brasileiros de hoje conheçam a participação dos expedicionários na Segunda Guerra Mundial. Primeiro, porque o alinhamento com os Estados Unidos e o consequente envio da FEB para a Itália foi um divisor de águas para o Brasil tanto em termos econômicos quanto culturais, com reflexos que se veem até hoje.
— Na economia, esse foi o momento em que o Brasil deu início à sua indústria pesada, a partir do financiamento norte-americano. O país, então, se industrializou e se urbanizou. Na cultura, foi o momento em que trocamos a influência francesa, que dominava a sociedade brasileira, pela influência norte-americana, com seu modo de vida consumista — diz.
Ferraz aponta uma segunda razão:
— Nestes dias atuais, em que a ditadura militar tem sido relativizada por muita gente, precisamos nos lembrar que houve um momento em que os brasileiros deixaram a polarização de lado e saíram às ruas para exigir que o governo entrasse na guerra para impedir o avanço das ditaduras fascistas e defender a democracia. Os simpatizantes do nazifascismo chegaram a espalhar fake news dizendo que os navios do Brasil não tinham sido afundados por submarinos da Alemanha, mas por navios dos Estados Unidos. Felizmente essas fake news não convenceram, e os brasileiros entenderam qual era o lado que o país deveria apoiar na guerra.
O historiador Daniel Mata Roque, da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, também defende que a história dos expedicionários seja de conhecimento geral no Brasil de hoje:
— Há mais de dez anos, um veterano me disse o seguinte: "Para que os brasileiros entendessem tudo aquilo que nós passamos na Itália, seria preciso haver uma guerra no Brasil. Por essa razão, prefiro que eles permaneçam na ignorância. Eu não desejo uma guerra aqui". Essa fala dá a ideia do tamanho da bestialidade, do sacrifício e do sofrimento de uma guerra. Quando conhecemos a história da FEB, entendemos que hoje precisamos agir diferente e evitar a guerra a qualquer custo, para que nem nós nem nossos filhos tenhamos que passar por aquilo que os expedicionários passaram.
Roque concorda que o interesse pelos expedicionários tem aumentado nos últimos anos. Ele diz que isso também se nota nos encontros anuais dos veteranos. Embora haja cada vez menos ex-combatentes vivos, o número de participantes é crescente, atraindo pesquisadores acadêmicos e amadores, estudantes, professores, colecionadores de objetos de guerra, militares mais novos e simples curiosos.
Presidente Juscelino Kubitschek no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, em 1960 (foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Atualmente, existem menos de 40 expedicionários vivos, de acordo com informações das duas entidades que os representam. O mais novo tem 100 anos; o mais velho, 107.
O símbolo da FEB é uma cobra fumando um cachimbo. Existem várias explicações possíveis para a imagem. Segundo a mais plausível, trata-se de uma resposta àqueles que diziam que o Brasil não tinha coragem ou capacidade militar e só iria para a guerra no dia em que uma cobra fumasse. Já na guerra, quando algum conflito se aproximava, os soldados diziam: "A cobra vai fumar". O distintivo com a cobra fumando apareceu no uniforme dos expedicionários, costurado na altura do ombro.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

"Passou do ponto de retorno”? Por que só agora?


William Waack afirma que a crise política e institucional do Supremo “passou do ponto de retorno”.
Na verdade, esse ponto de não retorno foi ultrapassado ainda em 2019, quando ministros abriram o inquérito das chamadas “fake news” — iniciativa que a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, criticou duramente e comparou a um tribunal de exceção.
Os primeiros atos de grande repercussão desse inquérito já indicavam seu caráter extraordinário: a decisão que determinou a suspensão imediata de procedimentos investigatórios instaurados na Receita Federal, que envolviam autoridades do Supremo e pessoas próximas, além da censura imposta a uma revista que publicara o depoimento de Marcelo Odebrecht sobre o “Amigo do Amigo do Meu Pai”.
A partir daí, o inquérito — cuja condução passou a ser alvo permanente de críticas por sua elasticidade e por concentrar, na prática, funções típicas de investigar, acusar e julgar — tornou-se o eixo de uma escalada de medidas excepcionais. Vieram ordens de remoção de conteúdo, decisões com efeito-censor e prisões preventivas de críticos e opositores, frequentemente amparadas em interpretações amplas de conceitos como “ataques às instituições” e “desinformação”. A exceção foi sendo normalizada como método.
Enquanto isso, uma parcela expressiva dos réus e condenados da Lava Jato — operação que revelou um dos maiores esquemas de corrupção já expostos no país — viu suas condenações serem anuladas ou revertidas, em decisões que alimentaram a percepção pública de impunidade e de reescrita histórica do maior escândalo político-financeiro da história nacional.
Esse padrão culminou no tratamento judicial dado ao entorno de Jair Bolsonaro: um processo que, para muitos, assumiu contornos abertamente políticos, no qual a narrativa de “tentativa de golpe” passou a operar como verdade institucional, apesar de sua caracterização ser fortemente contestada. As fragilidades dessa construção vieram à tona no voto do ministro Luiz Fux, que registrou objeções graves sobre tipificação, extensão e garantias do devido processo. No mesmo ciclo, centenas de brasileiros foram presos ou condenados por atos ligados ao 8 de janeiro — muitos sob acusações gravíssimas — em decisões acusadas de impor penas desproporcionais, tratar condutas distintas como equivalentes e relativizar garantias elementares.
Somente depois de consolidado esse arranjo — e depois de o Supremo ter normalizado uma lógica de excepcionalidade dirigida sobretudo contra a direita — é que parte da imprensa, que antes justificava arbitrariedades e tratava a corte como intocável, passou a expressar desconforto e a questionar seus métodos.
Agora é tarde. Quero ver colocar esse gênio de volta na garrafa.
Fonte:  Leandro Ruschel