quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ne Nuntium Necare — Não Mate o Mensageiro

Alexandre III da Macedônia (356–323 aC), também conhecido como Alexandre Magno, foi rei do antigo reino grego da Macedônia e um membro da dinastia argéada (1).
Nascido na cidade de Pela, então capital do antigo reino grego da Macedônia, o jovem príncipe sucedeu a seu pai — o rei Filipe II —, e ocupou o trono com vinte anos de idade.
Ele passou a maior parte de seu tempo no poder, em uma série de campanhas militares sem precedentes através da Ásia e nordeste da África.
Até os trinta anos havia criado um dos maiores impérios do mundo antigo, que se estendia da Grécia para o Egito e ao noroeste da Índia. Morreu invicto em batalhas e é considerado um dos comandantes militares mais bem-sucedidos da história.
Na juventude, Alexandre foi orientado pelo filósofo grego Aristóteles, até os 16 anos. Depois que Filipe II foi assassinado em 336 a.C., Alexandre sucedeu a seu pai no trono e herdou um reino forte e um exército experiente.
Havia sido premiado com o generalato da Grécia e usou essa autoridade para lançar o projeto pan-helênico de seu pai liderando os gregos na conquista da Pérsia.
Em 334 a.C., Alexandre invadiu o Império Aquemênida (2), governando assim a Ásia Menor, e começou uma série de campanhas que durou dez anos.
Quebrou o poder da Pérsia em uma série de batalhas decisivas, mais notavelmente as de Issos e Gaugamela.
Em seguida, derrubou o rei persa Dario III e conquistou a Pérsia em sua totalidade. Nesse ponto, seu império se estendia do mar Adriático ao rio Indo.
Sobre Dario III, na Pérsia (de Parsus), a sequência dinástica foi a seguinte: Ciro, Cambises II, Dario I, Xerxes I, Artaxerxes I, Xerxes II, Dario II, Artaxerxes II, Artaxerxes III, Artaxerxes IV, Dario III e posteriores.
Dario III foi mandado matar por Besso, seu parente próximo, que assumiu como Artaxerxes V. A dinastia continua, mas nos interessa aqui o período de Dario III.

As derrotas de Dario III ante Alexandre Magno da Macedônia

Dario III enfrentou Alexandre em diversas ocasiões e foi derrotado em todas. As principais batalhas foram as seguintes:
— Granico, em 334 aC, contra as forças dos sátrapas persas aliados de Dario III;
— Issos, em 333 aC; 
— Cerco de Tiro, em 332 aC;
— Gaugamelas (ou Arbelas), em 1º de outubro de 331 aC, a batalha decisiva;

A Batalha de Issos e o episódio do suposto mensageiro
Batalha de Issos em pintura de Jan Brueghel, o Velho (Museu do Louvre).

Alexandre venceu Dario III em Issos em 05 de novembro de 333 aC.
Dados obtidos na Internet dão conta de que Alexandre contava com 41 mil homens e Dario com 61 mil. Mas a derrota persa foi flagrante. O esquema da batalha está abaixo.
Dispositivo inicial da batalha de Issus, ocorrida em 333 aC. Fonte: Internet.

Ne nuntium necare”: não mate o mensageiro
Dario III havia se afastado do campo de batalha em Issos. Conforme as versões inverídicas encontradas em muitas fontes, principalmente na Internet, Alexandre mandou-lhe um emissário, um mensageiro, para informar ao persa que seu exército tinha sido totalmente derrotado.
E qual teria sido a reação de Dario na frente de Charidemos, o suposto mensageiro? Com raiva, o persa mandou executá-lo, por não ter gostado da notícia.
Conta-se, sem confirmação, que Charidemos, além de narrar a derrota para o governante persa, ousou dizer que a culpa pelo desastre diante de Alexandre Magno passava por erros estratégicos do Aquemênida.
Dario III, em vez de confrontar a realidade, determinou a execução do suposto mensageiro.
Uma tentativa inútil de ocultar seu próprio fracasso. De nada adiantava mandar matar o mensageiro.
Na verdade, não foi isto que aconteceu. Mas o contexto do episódio comporta muitos ensinamentos. Vamos aos fatos, conforme o relato da insuspeita Encyclopaedia Brittanica.
"Charidemus, ou CARIDEMO, de Oreu, na Eubeia, foi um líder mercenário grego. Por volta de 367 aC, lutou sob o comando do general ateniense Ifícrates contra Anfípolis.
Recebendo ordens de Ifícrates para levar os reféns anfipolitanos para Atenas, permitiu que retornassem ao seu próprio povo e juntou-se a Cótis, rei da Trácia, contra Atenas.
Logo depois, caiu nas mãos dos atenienses e aceitou a oferta de Timóteo para retornar ao seu serviço.
Tendo sido demitido por Timóteo (362), juntou-se aos sátrapas revoltados Mêmnon e Mentor na Ásia, mas logo perdeu a confiança deles e foi obrigado a buscar a proteção dos atenienses.
Descobrindo, no entanto, que não tinha nada a temer dos persas, juntou-se novamente a Cótis, após cujo assassinato foi nomeado guardião de seu jovem filho Cersobleptes.
Em 357, com a chegada de Carés com forças consideráveis, o Quersoneso foi restituído a Atenas.
Os apoiadores de Caridemo representaram isso como devido aos seus esforços e, apesar da oposição de Demóstenes, ele foi honrado com uma coroa de ouro e a franquia da cidade.
Foi ainda decidido que sua pessoa deveria ser inviolável.
Em 351, ele comandou as forças atenienses em Quersoneso contra Filipe II da Macedônia e, em 349, substituiu Carés como comandante na Guerra Olímpica.
Ele obteve pouco sucesso, mas se tornou detestado por sua insolência e devassidão, e foi por sua vez substituído por Carés.
Depois de Queroneia, o grupo de guerra teria confiado a Caridemo o comando contra Filipe, mas o grupo de paz garantiu a nomeação de Fócion.
Ele foi um daqueles cuja rendição foi exigida por Alexandre após a destruição de Tebas, mas escapou com o banimento.
Ele fugiu para Dario III, que o recebeu com distinção.
Mas, tendo expressado (espontaneamente) sua insatisfação com os preparativos feitos pelo rei pouco antes da batalha de Isso (333), ele foi condenado à morte e executado.
Ou seja, a execução de Charidemus está relacionada aos seguintes fatos:
— a execução foi antes da batalha (alegoria abaixo);
— ele não foi enviado por Alexandre à presença de Dario III;
— ele era assessor de combate do comandante persa;
— tinha grande experiência de combate; 
— Dario III não o ouviu, e perdeu a batalha; e
— as narrativas atuais de que Charidemus teria sido enviado a Dario III por Alexandre APÓS a batalha de Issos são totalmente carentes de verdade."

Sobre Gengis Khan
Por outro lado, existem narrativas de que Gengis Khan mandava executar mensageiros que chegassem portando más notícias, para que estas não se alastrassem no seio da tropa.

Sobre a imprensa
Entre os órgãos de imprensa é comum os mesmos se defenderem de acusações de parcialidade, reportagens erradas, más interpretações, etc. Defendem-se dizendo que são somente “mensageiros”, que os fatos estão à mostra e os jornalistas, repórteres, cinegrafistas, etc. somente mostram ao público a realidade. E alegam “não mate o mensageiro”.
(*) Coronel de Infantaria e Estado-Maior Veterano do EB.
NOTAS:
(1) A Dinastia Argéada (em Grego: Ἀργεάδαι, Argeádai) era uma antiga casa real Grega Macedônica. Eles foram os fundadores e a dinastia governante da Macedônia de cerca de 700 a 310 AC. A sua tradição, como descrita na historiografia grega antiga, traçou suas origens para Argos, no Peloponeso, daí o nome Argeads ou Argives (Wikipédia).
(2) Primeiro Império Persa, foi um império iraniano fundado no século VI a.C. por Ciro, o Grande, que derrubou a Confederação Meda. As guerras entre persas e gregos até hoje são chamadas Guerras Médicas. O nome é oriundo de Aquêmenes, antigo rei mitológico persa.