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terça-feira, 30 de junho de 2026

A Farda e a Palavra: Sobre a Liberdade de Expressão dos Militares

por Amilcar Fagundes Freitas Macedo
Uma vez, um velho oficial da Brigada Militar me disse algo que nunca mais esqueci: “Quando um brigadiano veste sua farda, ele leva para a rua não apenas o seu nome, mas o nome da instituição inteira”.
Na época, a frase me pareceu exagerada, até mesmo pela minha tenra idade. Com o passar dos anos, porém, percebi que ela continha uma verdade difícil de ignorar. Poucas profissões aproximam tanto a vida pessoal da função pública quanto a carreira militar. O cidadão continua existindo. Continua tendo opiniões, convicções políticas, crenças religiosas, frustrações e expectativas. Mas a sociedade passa a enxergá-lo também como representante permanente de uma instituição.
É justamente dessa tensão que nasce um dos debates constitucionais mais delicados dos nossos tempos: até onde vai a liberdade de expressão de um militar?
A pergunta parece simples. Mas não é.
Nos últimos tempos, as redes sociais transformaram profundamente a forma como as pessoas se comunicam. Antes, uma crítica dirigida a amigos numa mesa de bar morria ali mesmo (Umberto Ecco). Atualmente, um comentário feito em poucos segundos pode alcançar milhares de pessoas. Um compartilhamento, uma fotografia ou mesmo uma simples curtida podem gerar consequências que ninguém imaginava no momento em que apertou um botão na tela do celular.
Quando o protagonista dessa interação é um militar, a discussão ganha contornos ainda mais complexos.
De um lado está um princípio que nenhuma democracia séria pode abandonar: a liberdade de expressão. Não existe sociedade livre sem o direito de manifestar ideias, formular críticas e participar do debate público. O silêncio imposto pelo Estado nunca foi um bom companheiro da democracia.
De outro lado estão valores igualmente protegidos pela Constituição. Hierarquia e disciplina não são meras formalidades burocráticas. São as vigas que sustentam instituições encarregadas da defesa do Estado e da preservação da ordem pública. Sem elas, a própria lógica da organização militar perde sentido.
A questão, portanto, não está em escolher entre liberdade ou disciplina. A vida constitucional raramente oferece dilemas tão simples.
O constitucionalista alemão Konrad Hesse enfrentou esse problema ao estudar aquilo que a doutrina passou a chamar de relações especiais de sujeição. Sua conclusão foi ao mesmo tempo simples e profunda: os direitos fundamentais não desaparecem dentro dos quartéis. O militar não deixa de ser cidadão quando veste a farda. Continua sendo titular das mesmas garantias constitucionais asseguradas a qualquer pessoa.
Mas isso não significa que sua situação jurídica seja exatamente igual à de quem não assumiu deveres especiais perante o Estado.
Aqui talvez resida o principal equívoco de muitos debates contemporâneos. Costuma-se imaginar que reconhecer limites à liberdade de expressão dos militares equivaleria a negar-lhes direitos fundamentais. Não é disso que se trata.
Luiz Fernando Calil de Freitas, falando sobre os limites e restrições dos direitos fundamentais, lembra que nenhum direito fundamental existe sozinho. A Constituição protege simultaneamente diversos valores que, em determinados momentos, entram em rota de colisão. É por isso que os conflitos constitucionais não podem ser resolvidos por slogans nem por frases de efeito. Exigem ponderação, contexto e prudência.
A liberdade de expressão merece proteção. Mas também merecem proteção a disciplina militar, a autoridade legítima e a confiança que a sociedade deposita em suas instituições.
Ronald Dworkin costumava dizer que os direitos fundamentais funcionam como trunfos contra o poder estatal. A imagem é poderosa e continua atual. O Estado não pode restringir a liberdade apenas porque considera determinada opinião inconveniente ou desagradável.
Mas nem mesmo Dworkin defenderia que toda manifestação individual está automaticamente imune a qualquer consequência jurídica. A Constituição é mais complexa do que isso.
Jeremy Waldron acrescenta outra dimensão ao problema. Instituições públicas não são abstrações. Elas constituem patrimônio coletivo construído ao longo de décadas e dependem, em grande medida, da confiança social para cumprir suas funções. Quando essa confiança é abalada, os efeitos ultrapassam os interesses individuais de quem fala ou de quem ouve.
O verdadeiro desafio está em identificar quando essa linha é efetivamente cruzada.
E talvez seja justamente aí que resida a principal lição desse debate.
Nem toda crítica feita por um militar representa ameaça à disciplina. Nem toda manifestação em rede social compromete a imagem institucional. Nem toda opinião divergente constitui ato de insubordinação.
Mas também não parece razoável imaginar que a condição militar seja juridicamente irrelevante quando essas manifestações ocorrem.
A democracia exige liberdade. A vida militar exige responsabilidade. Entre uma e outra não existe uma muralha. Existe uma fronteira móvel, construída caso a caso, à luz das circunstâncias concretas.
Talvez por isso a melhor resposta não esteja nem no silêncio absoluto nem na liberdade sem limites.
Afinal, quem veste uma farda continua carregando consigo a palavra. Mas cada palavra, gostemos ou não, continua carregando consigo o peso da farda.
Amilcar Fagundes Freitas Macedo
é Desembargador do TJM/RS
COMENTO:  me parece que o limite entre a liberdade de expressão e a crítica reside no cabimento desta, isto é, na sua procedência ou adequação à realidade, além da forma como essa crítica é formulada. Muitos enfatizam a aceitação de "críticas construtivas". 
E para isso elas devem ter um cunho corretivo de equívocos observados. A imagem ao lado é de uma placa que havia em frente ao prédio do DAER, em Porto Alegre, por onde eu passava, de ônibus em direção ao quartel. 
Durante anos, eu Soldado (depois Cabo) via a placa e pensava a respeito. E me impus a regra de não aceitar passivamente determinações que não me parecessem corretas. Obviamente, as poderações eram apresentadas de forma educada, sem deixar margem a que fossem confundidas como ofensas à disciplina e hierarquia. Mas sempre de forma firme, com argumentos. Esse procedimento, a princípio, me pareceu causar indisposições com superiores, todavia isso não me motivou a desprezar minha forma de pensar e agir. Bem depois, fiquei sabendo que minhas contestações forjaram, a meu respeito, nos chefes que tive, a imagem de "auxiliar que realmente auxilia com lealdade". Alguns anos atrás, procurei a placa inspiradora e ela havia sido retirada da posição de destaque em frente ao prédio e colocada no jardim da estatal, aparentemente não recebendo a devida manutenção contra as intempéries. A placa foi rebaixada em seu status, mas resiste. Minha atitude também se manteve e, penso, me proporcionou respeito e consideração na vida profissional.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ne Nuntium Necare — Não Mate o Mensageiro

Alexandre III da Macedônia (356–323 aC), também conhecido como Alexandre Magno, foi rei do antigo reino grego da Macedônia e um membro da dinastia argéada (1).
Nascido na cidade de Pela, então capital do antigo reino grego da Macedônia, o jovem príncipe sucedeu a seu pai — o rei Filipe II —, e ocupou o trono com vinte anos de idade.
Ele passou a maior parte de seu tempo no poder, em uma série de campanhas militares sem precedentes através da Ásia e nordeste da África.
Até os trinta anos havia criado um dos maiores impérios do mundo antigo, que se estendia da Grécia para o Egito e ao noroeste da Índia. Morreu invicto em batalhas e é considerado um dos comandantes militares mais bem-sucedidos da história.
Na juventude, Alexandre foi orientado pelo filósofo grego Aristóteles, até os 16 anos. Depois que Filipe II foi assassinado em 336 a.C., Alexandre sucedeu a seu pai no trono e herdou um reino forte e um exército experiente.
Havia sido premiado com o generalato da Grécia e usou essa autoridade para lançar o projeto pan-helênico de seu pai liderando os gregos na conquista da Pérsia.
Em 334 a.C., Alexandre invadiu o Império Aquemênida (2), governando assim a Ásia Menor, e começou uma série de campanhas que durou dez anos.
Quebrou o poder da Pérsia em uma série de batalhas decisivas, mais notavelmente as de Issos e Gaugamela.
Em seguida, derrubou o rei persa Dario III e conquistou a Pérsia em sua totalidade. Nesse ponto, seu império se estendia do mar Adriático ao rio Indo.
Sobre Dario III, na Pérsia (de Parsus), a sequência dinástica foi a seguinte: Ciro, Cambises II, Dario I, Xerxes I, Artaxerxes I, Xerxes II, Dario II, Artaxerxes II, Artaxerxes III, Artaxerxes IV, Dario III e posteriores.
Dario III foi mandado matar por Besso, seu parente próximo, que assumiu como Artaxerxes V. A dinastia continua, mas nos interessa aqui o período de Dario III.

As derrotas de Dario III ante Alexandre Magno da Macedônia

Dario III enfrentou Alexandre em diversas ocasiões e foi derrotado em todas. As principais batalhas foram as seguintes:
— Granico, em 334 aC, contra as forças dos sátrapas persas aliados de Dario III;
— Issos, em 333 aC; 
— Cerco de Tiro, em 332 aC;
— Gaugamelas (ou Arbelas), em 1º de outubro de 331 aC, a batalha decisiva;

A Batalha de Issos e o episódio do suposto mensageiro
Batalha de Issos em pintura de Jan Brueghel, o Velho (Museu do Louvre).

Alexandre venceu Dario III em Issos em 05 de novembro de 333 aC.
Dados obtidos na Internet dão conta de que Alexandre contava com 41 mil homens e Dario com 61 mil. Mas a derrota persa foi flagrante. O esquema da batalha está abaixo.
Dispositivo inicial da batalha de Issus, ocorrida em 333 aC. Fonte: Internet.

Ne nuntium necare”: não mate o mensageiro
Dario III havia se afastado do campo de batalha em Issos. Conforme as versões inverídicas encontradas em muitas fontes, principalmente na Internet, Alexandre mandou-lhe um emissário, um mensageiro, para informar ao persa que seu exército tinha sido totalmente derrotado.
E qual teria sido a reação de Dario na frente de Charidemos, o suposto mensageiro? Com raiva, o persa mandou executá-lo, por não ter gostado da notícia.
Conta-se, sem confirmação, que Charidemos, além de narrar a derrota para o governante persa, ousou dizer que a culpa pelo desastre diante de Alexandre Magno passava por erros estratégicos do Aquemênida.
Dario III, em vez de confrontar a realidade, determinou a execução do suposto mensageiro.
Uma tentativa inútil de ocultar seu próprio fracasso. De nada adiantava mandar matar o mensageiro.
Na verdade, não foi isto que aconteceu. Mas o contexto do episódio comporta muitos ensinamentos. Vamos aos fatos, conforme o relato da insuspeita Encyclopaedia Brittanica.
"Charidemus, ou CARIDEMO, de Oreu, na Eubeia, foi um líder mercenário grego. Por volta de 367 aC, lutou sob o comando do general ateniense Ifícrates contra Anfípolis.
Recebendo ordens de Ifícrates para levar os reféns anfipolitanos para Atenas, permitiu que retornassem ao seu próprio povo e juntou-se a Cótis, rei da Trácia, contra Atenas.
Logo depois, caiu nas mãos dos atenienses e aceitou a oferta de Timóteo para retornar ao seu serviço.
Tendo sido demitido por Timóteo (362), juntou-se aos sátrapas revoltados Mêmnon e Mentor na Ásia, mas logo perdeu a confiança deles e foi obrigado a buscar a proteção dos atenienses.
Descobrindo, no entanto, que não tinha nada a temer dos persas, juntou-se novamente a Cótis, após cujo assassinato foi nomeado guardião de seu jovem filho Cersobleptes.
Em 357, com a chegada de Carés com forças consideráveis, o Quersoneso foi restituído a Atenas.
Os apoiadores de Caridemo representaram isso como devido aos seus esforços e, apesar da oposição de Demóstenes, ele foi honrado com uma coroa de ouro e a franquia da cidade.
Foi ainda decidido que sua pessoa deveria ser inviolável.
Em 351, ele comandou as forças atenienses em Quersoneso contra Filipe II da Macedônia e, em 349, substituiu Carés como comandante na Guerra Olímpica.
Ele obteve pouco sucesso, mas se tornou detestado por sua insolência e devassidão, e foi por sua vez substituído por Carés.
Depois de Queroneia, o grupo de guerra teria confiado a Caridemo o comando contra Filipe, mas o grupo de paz garantiu a nomeação de Fócion.
Ele foi um daqueles cuja rendição foi exigida por Alexandre após a destruição de Tebas, mas escapou com o banimento.
Ele fugiu para Dario III, que o recebeu com distinção.
Mas, tendo expressado (espontaneamente) sua insatisfação com os preparativos feitos pelo rei pouco antes da batalha de Isso (333), ele foi condenado à morte e executado.
Ou seja, a execução de Charidemus está relacionada aos seguintes fatos:
— a execução foi antes da batalha (alegoria abaixo);
— ele não foi enviado por Alexandre à presença de Dario III;
— ele era assessor de combate do comandante persa;
— tinha grande experiência de combate; 
— Dario III não o ouviu, e perdeu a batalha; e
— as narrativas atuais de que Charidemus teria sido enviado a Dario III por Alexandre APÓS a batalha de Issos são totalmente carentes de verdade."

Sobre Gengis Khan
Por outro lado, existem narrativas de que Gengis Khan mandava executar mensageiros que chegassem portando más notícias, para que estas não se alastrassem no seio da tropa.

Sobre a imprensa
Entre os órgãos de imprensa é comum os mesmos se defenderem de acusações de parcialidade, reportagens erradas, más interpretações, etc. Defendem-se dizendo que são somente “mensageiros”, que os fatos estão à mostra e os jornalistas, repórteres, cinegrafistas, etc. somente mostram ao público a realidade. E alegam “não mate o mensageiro”.
(*) Coronel de Infantaria e Estado-Maior Veterano do EB.
NOTAS:
(1) A Dinastia Argéada (em Grego: Ἀργεάδαι, Argeádai) era uma antiga casa real Grega Macedônica. Eles foram os fundadores e a dinastia governante da Macedônia de cerca de 700 a 310 AC. A sua tradição, como descrita na historiografia grega antiga, traçou suas origens para Argos, no Peloponeso, daí o nome Argeads ou Argives (Wikipédia).
(2) Primeiro Império Persa, foi um império iraniano fundado no século VI a.C. por Ciro, o Grande, que derrubou a Confederação Meda. As guerras entre persas e gregos até hoje são chamadas Guerras Médicas. O nome é oriundo de Aquêmenes, antigo rei mitológico persa.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

“O General Americano que Perdeu Tudo” — E Ensinou os Alemães a Temerem a Escuridão

VALE A PENA ASSISTIR ESTE VÍDEO!!!
General de Divisão Terry de la Mesa Allen, Sr. (1888–1969) foi um Oficial condecorado do Exército dos EUA que serviu na Primeira Guerra Mundial e comandou a 1ª Divisão de Infantaria no Norte da África e na Sicília durante a Segunda Guerra Mundial.
Conhecido por sua liderança destemida em combate, que lhe rendeu o apelido de "Terrible Terry" (Terry Terrível), ele comandou posteriormente a 104ª Divisão de Infantaria até o fim da guerra. Apesar de ter trilhado um caminho não convencional até o comando, tendo sido desligado de West Point, ele era amado por seus soldados e acumulou um dos históricos de combate mais bem-sucedidos de qualquer general americano.

Início da vida e carreira
Nascido em Fort Douglas, Utah, Allen era filho de um oficial de carreira do Exército e cresceu em bases militares. Ele foi indicado para West Point, mas foi desligado em 1911 após reprovar em várias disciplinas, incluindo uma de Artilharia. Ele se formou na Universidade Católica da América e foi nomeado Segundo-Tenente em 1912.

Primeira Guerra Mundial
Allen serviu com distinção na França, comandando um Batalhão de Infantaria aos 30 anos e ganhando reputação de líder destemido, que pessoalmente liderava patrulhas em terra de ninguém. Ele foi ferido duas vezes durante a guerra.

Segunda Guerra Mundial
Allen foi o comandante da 1ª Divisão de Infantaria de maio de 1942 a agosto de 1943, liderando-a nas campanhas do Norte da África e da Sicília. Posteriormente, foi exonerado do comando da 1ª Divisão de Infantaria após o fracasso na captura da cidade de Troina, na Sicília. No entanto, logo recebeu o comando da 104ª Divisão de Infantaria, conhecida como "Timberwolves" (Lobos de Madeira), liderando-a até a Alemanha e tornando-se a primeira divisão americana a alcançar o rio Elba.

Pós-guerra e legado
Allen se aposentou do Exército em 1946 com a patente de Major-General. Ele continuou ativo em organizações de veteranos e na vida civil em El Paso, Texas, até sua morte. É lembrado por sua liderança em combate e pela profunda ligação com seus soldados. A Academia Militar dos EUA concede o "Prêmio General Terry de la Mesa Allen" ao aluno com a maior nota em Ciências Militares. Ele foi sepultado em El Paso, ao lado de seu filho, Terry de la Mesa Allen Jr., um tenente-coronel morto em combate durante a Guerra do Vietnã.
Fonte: You Tube

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Fim do Carisma, Isolamento e Esgotamento da Retórica Socialista

Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Malásia com o velho figurino do “líder progressista” em busca de legitimidade internacional.
Esperava simpatia, visibilidade e talvez um gesto diplomático que reerguesse sua imagem abalada. Saiu, porém, com o silêncio como resposta e um recado inequívoco: o mundo mudou, e a retórica socialista já não encanta ninguém.
Durante anos, Lula foi recebido como símbolo de resistência e esperança pelas elites políticas de esquerda. Mas a lua de mel acabou. A reunião recente com Donald Trump — marcada por frieza e formalidade — representou mais do que um embaraço diplomático: foi um choque de realidade para um presidente acostumado a aplausos ideológicos e indulgência moral.
Trump, pragmático, ouviu, acenou e encerrou o encontro sem concessões, favores ou declarações públicas de apoio. Nenhum “tapinha nas costas”, nenhuma foto de ocasião. O silêncio foi eloquente e corrosivo. Pela primeira vez em muito tempo, Lula percebeu que a narrativa de “vítima do sistema” já não compra simpatia fora de seu próprio círculo político.
Fontes próximas ao Itamaraty afirmam que Lula tentou oferecer “cooperação” em temas sensíveis, inclusive deixando transparecer que o ministro do STF poderia ser “sacrificado” politicamente em nome da diplomacia. A proposta foi recebida com indiferença em Washington.
A mensagem foi clara: os Estados Unidos não pretendem apadrinhar regimes que flertam com o autoritarismo travestido de progressismo. O gesto foi lido como humilhação em Brasília. O “imperador vermelho”, como ironizam os críticos, saiu menor do que chegou.
Lula buscou legitimidade externa. Encontrou indiferença. Prometeu justiça social. Entregou censura. Prometeu paz. Entregou um país sitiado. Garantiu prosperidade aos brasileiros, mas a população vive à base de esmola institucional, sem perspectivas, em especial em termos de economia, saúde e segurança.
O Brasil de 2025 é um país em marcha lenta, sufocado pela burocracia, espantando investidores e vendo seus empreendedores buscarem refúgio no exterior. Mais de 3 milhões de empresas fecharam as portas, a carga tributária atingiu níveis históricos e a fuga de capitais virou um indicador de sobrevivência, não de economia.
Enquanto o governo fala em “justiça social”, o setor produtivo denuncia canibalismo econômico. O Estado engorda, o cidadão empobrece e a iniciativa privada é tratada como inimiga. O resultado é uma nação onde o sucesso é suspeito e o fracasso é política pública.
A retórica vermelha resiste, mas a paciência dos brasileiros não. Segundo consultorias internacionais, mais de 1.200 milionários deixarão o país neste ano, levando empregos, capital e inovação. O êxodo virou manchete global e o Brasil deixou de ser visto como terreno fértil para prosperidade e passou a ser um laboratório de narco-populismo tropical.
Em um episódio recente, tribunais brasileiros ordenaram a remoção de publicações que apenas reproduziam falas literais de Lula, nas quais ele dizia que “traficantes também são vítimas”. A censura foi justificada como “proteção contra desinformação”. Traduzindo: citar o presidente virou crime.
A cena beira o absurdo. A Justiça brasileira, sob a égide de ministros politicamente engajados, parece ter se tornado o departamento de comunicação do Planalto. Censura, multas e perseguição judicial transformaram a crítica em ofensa e o jornalismo em risco.
No Brasil de hoje, a verdade é reescrita por sentença judicial. Criminosos ganham empatia; jornalistas, inquéritos. O discurso oficial é o da compaixão seletiva, onde o traficante é vítima, o cidadão é opressor e o Estado é o juiz da moral pública.
Enquanto o governo do Rio de Janeiro classifica o Comando Vermelho como organização terrorista e busca cooperação internacional, Brasília prefere o silêncio. O mesmo governo federal que censura posts e monitora opositores hesita em chamar traficantes de terroristas.
O contraste é gritante: o Rio tenta sobreviver; Brasília finge que governa. A ausência de uma política nacional de segurança real transformou o país num mosaico de zonas de influência do crime. O resultado é trágico: 27% da população vive sob domínio direto de facções, segundo estimativas do próprio Ministério da Justiça.
O ministro do STF agora mira o governador Cláudio Castro e os policiais que lideraram a megaoperação contra o Comando Vermelho. Em vez de elogiar o combate ao crime, o Supremo pede “esclarecimentos” sobre o sucesso da operação.
A competência para o exame de eventuais irregularidades na operação é da Justiça fluminense. Não há uma linha no art. 102 da Constituição que transforme o Supremo em investigador, acusador e juiz de policiais do RJ.
Os policiais viram réus; os criminosos, vítimas, em uma inversão moral completa. O Rio contabiliza mortos e feridos em confrontos com narcotraficantes armados com granadas e fuzis de uso militar, mas Brasília prioriza debater “proporcionalidade” e “direitos humanos". É o retrato perfeito do Brasil de Lula, um país onde combater o crime é perigoso, mas cometê-lo é politicamente rentável.
Os eleitores de esquerda são os únicos que desaprovam a megaoperação policial realizada no Rio de Janeiro, que resultou na morte de 121 pessoas durante o confronto. De acordo com pesquisa Genial/Quaest, 59% dos eleitores lulistas reprovaram a ação, enquanto entre os não lulistas o percentual chegou a 70%.
A viagem, mais do que uma agenda diplomática frustrada, foi uma radiografia do declínio político de Lula. A gestão interna do país também. O carisma internacional se foi, o apoio doméstico desmorona e a narrativa revolucionária não convence nem seus antigos parceiros ideológicos.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

A Miséria Moral dos Militares

"Antigamente, minha mãe, mulher de olhos atentos ao mundo e de palavras tão simples quanto justas, chamava a vida militar de "miséria dourada". Era uma expressão carregada de resignação, mas também de honra: sabíamos que ganhávamos pouco, mas carregávamos no peito a insígnia do dever, do serviço à Pátria, da nobreza de um ideal. 
Ser militar não era apenas profissão, era destino. E esse destino nos distinguia. Havia sacrifício, havia disciplina, mas havia também prestígio, respeito público, e sobretudo um orgulho silencioso, intrínseco, que nos fazia suportar privações com a altivez de quem serve a algo maior do que si mesmo. 
Por diversas vezes, ao longo da história nacional, foi esse espírito de serviço que conduziu as Forças Armadas a desempenharem o papel de braço forte e mão amiga da Nação, sem hesitar diante dos momentos mais críticos. Em tragédias naturais, em colapsos institucionais, em ameaças à ordem ou à soberania, coube ao militar, muitas vezes em silêncio e com recursos escassos, restituir a paz, socorrer o povo e reconstruir pontes — físicas e morais — que haviam ruído. Esse protagonismo sereno, quase sempre ignorado pelos manuais da política, era a expressão máxima do pacto entre a farda e a sociedade: um compromisso não com partidos, mas com o povo brasileiro em suas horas de maior aflição. 
Hoje, contudo, o que resta dessa dignidade? As Forças Armadas atravessam um período sombrio de desprestígio inédito. Não porque tenham deixado de cumprir sua missão constitucional, mas porque permitiram que essa missão fosse associada, por conveniência ou omissão, a um governo marcado pela corrupção, pelo despreparo e pela impostura moral. O povo, cansado de promessas e farsas, nos enxerga, não mais como reserva moral da Nação, mas como cúmplices silenciosos do desgoverno. E isso nos custa mais do que qualquer corte orçamentário: custa-nos a alma institucional. 
O soldo, que nunca foi exuberante, tornou-se um insulto em comparação com os salários nababescos de outras esferas do funcionalismo público. Como aceitar que um ascensorista do Congresso Nacional — sem responsabilidades estratégicas, sem risco, sem formação técnica especializada — receba mais do que um piloto de caça operacional, treinado para missões de vida ou morte em aeronaves de primeira linha como o F-5 ou o Gripen? 
Como justificar que um juiz de primeira instância comece sua carreira com vencimentos superiores aos de um coronel com trinta anos de serviço, responsável por dezenas de vidas e equipamentos de milhões de dólares? A resposta não está apenas nos números: está no valor simbólico que a sociedade e o Estado atribuem a cada função. E é justamente aí que a degradação se torna mais evidente. 
Porque não se trata apenas de uma desproporção econômica, mas de uma inversão de valores. Hoje, paga-se mais a quem representa privilégios do que a quem representa sacrifício. A hierarquia do mérito foi substituída pela lógica da conveniência, da burocracia e da política rasteira. O militar, que deveria ser a expressão da virtude republicana, do dever e da abnegação, vê-se convertido em funcionário mal remunerado, exposto ao escárnio dos que jamais compreenderão o sentido da palavra serviço. 
Pior: vê-se confundido com os oportunistas de plantão que instrumentalizam a farda para projetos pessoais de poder. Essa associação espúria tem sido devastadora. E, no entanto, até o momento nenhum militar da ativa em função de liderança teve a coragem de nomeá-la, de enfrentá-la e de estancar a sangria moral que esvazia o espírito da tropa. 
A exemplo do governo desgovernado, vejo as forças armadas empenhadas em tentar mudar sua imagem através de bem elaboradas campanhas de marketing. Mas, não se reconstrói o prestígio das Forças Armadas com gritos de guerra, ou com bravatas em redes sociais. 
Reconstrói-se com a restauração do mérito, com a justa remuneração, com o afastamento inequívoco de um regime espúrio, e, sobretudo, com a reafirmação de sua identidade histórica: a de defensora da Nação, da soberania e da ordem constitucional, não de governos transitórios. 
A imprensa noticiou recentemente uma reunião entre o Presidente da República, o Ministro da Defesa e o Comandante da Aeronáutica, na qual se discutiu o alarmante nível de evasão de quadros técnicos altamente qualificados na Força Aérea Brasileira. Segundo relatos da mídia, sempre prestativa em suavizar os contornos da realidade quando se trata de proteger o governo de esquerda, cogita-se a concessão de um aumento seletivo de soldo como medida para conter a debandada. 
Fico a pensar no quanto se equivocam essas autoridades ao reduzirem a crise a uma simples questão pecuniária... Compreendo o raciocínio do político — e até do ébrio — habituados a comprar consciências no varejo congressual. Mas no caso do Comandante da Aeronáutica, a perplexidade é maior: trata-se de um oficial aviador que, supostamente, deveria conhecer a alma de sua tropa. Talvez a explicação resida em sua trajetória pouco afeita à dureza da atividade operacional e demasiadamente moldada pelos macios tapetes dos gabinetes. 
E, nesse contexto, não é de surpreender que se ignore o essencial: que a verdadeira evasão não é apenas de salários, mas de espírito; não é de contracheques, mas de propósito. Ninguém, em sã consciência, entra nas forças armadas pelo salário. Hoje, a perspectiva moral de carreira para um oficial de elite, como os aviadores, ou mesmo para um técnico de altíssimo nível, como os graduados formados com rigor e excelência pela Escola de Especialistas da FAB, é sombria — para não dizer desesperançada. E não se trata apenas de estagnação salarial, mas de degradação simbólica. 
Que horizonte pode vislumbrar um jovem que arrisca a vida diariamente, operando vetores de combate de primeira linha, quando vê a Força Aérea reduzida a mera prestadora de transporte a caravanas governamentais, em animados passeios pelo país e pelo mundo? Ou, pior, a redução do Exército Brasileiro à condição humilhante de capitão do mato do Supremo Tribunal Federal, prendendo, ilegalmente, mulheres, velhos e crianças? 
Que dignidade resta quando se ouve um juiz — amparado pela toga e pela impunidade — chamar um general de mentiroso em público, sem que haja qualquer resposta institucional à altura? E o que dizer da ignomínia ainda maior: ver militares presos sem o devido processo legal, sem voz, sem defesa, enquanto seus comandantes silenciam como cúmplices ou se escondem atrás de notas evasivas? 
É nesse caldo de omissão, oportunismo e servilismo que se afoga o espírito de corpo, corroído não pelo inimigo externo, mas pela rendição interna ao poder de turno. Se a "miséria dourada" de outrora era, ao menos, redimida pelo orgulho de servir, a miséria de hoje é agravada pela vergonha de ser confundido com o que há de pior na política nacional
Aos militares de bem, digo que ainda há tempo de romper esse ciclo. É tempo de lembrar que o ouro da farda não está no metal de suas estrelas, mas no brilho moral de quem a veste com honra.
por Flavio C. Kauffmann
Piloto de Caça

domingo, 11 de maio de 2025

Os Guardiões do Papa: Espionagem, Proteção e Fé

por Artiom Vnebreaci Popa
Dos corredores dos palácios papais aos becos de Roma; da época medieval à Guerra Fria e hoje: uma rede discreta de protetores zela pelos sucessores de São Pedro há séculos. O bem-estar e a segurança do Papa não são uma invenção contemporânea: suas raízes estão na Idade Média, quando cruzados, ordens militares e formas primitivas de inteligência eclesiástica teciam uma rede de defesa em torno do Vigário de Cristo.
Hoje, esse sistema se tornou uma mistura de tradição medieval e tecnologia de ponta: a Guarda Suíça divide espaço com cibercriminosos especializados, analistas de contrainteligência e espiões treinados em todos os tipos de técnicas.
A Igreja Católica, como a mais antiga organização em funcionamento no mundo, sobreviveu a impérios, revoluções e guerras. Embora seus líderes atribuam tal resistência à providência divina, por mais poético que isso possa soar, devemos destacar a existência de uma sofisticada rede de inteligência que se espalhou pelo mundo e permitiu tal atribuição.

Origens: Cruzados, espiões e conspirações
A necessidade da proteção do Papa surgiu em tempos turbulentos. No século VIII, as Scholae Palatinae (um corpo de soldados francos) guardavam o pontífice. Mas foi durante as Cruzadas que surgiram os primeiros "serviços de inteligência" eclesiásticos. Os Cavaleiros Templários agiam como uma rede de inteligência (de forma rudimentar), coletando informações na Terra Santa e protegendo as rotas de peregrinação. Sua rede bancária passou a financiar operações secretas.
Por outro lado, a evolução desse sistema de segurança acompanhou o turbulento século XVI, quando a Igreja Católica, ameaçada pela Reforma Protestante e por múltiplas intrigas geopolíticas, começou a promover a necessidade de profissionalizar suas próprias redes de inteligência. Assim, cardeais e legados começaram a ser empregados como agentes de inteligência, infiltrando-se em tribunais europeus para combater as maquinações de seus oponentes. Mas foi somente no pontificado de Leão XIII que a base moderna do que hoje é conhecido como serviço de inteligência do Vaticano foi estabelecida.

O Vaticano e a Santa Aliança
Após a Revolução Francesa, o Vaticano aliou-se aos poderes conservadores da Santa Aliança (1815), mas também desenvolveu sua própria diplomacia discreta e secreta. Os embaixadores papais não apenas negociaram concordatas, mas também coletaram informações sobre movimentos revolucionários.
Assim, durante o Risorgimento italiano, o Papa Pio IX empregou uma rede de padres para monitorar nacionalistas que buscavam tomar o controle dos Estados Papais. Nessa época, a Guarda Suíça já era um órgão profissional, mas sua função era simbólica. A segurança operacional era responsabilidade da Gendarmaria Pontifícia (que reprimia revoltas e perseguia conspiradores anticlericais).

Século XX: Acordo Duplo, Guerra Fria, Intriga e Mudança
O século XX testou a resiliência do Vaticano. Em 1929 , os históricos Pactos de Latrão marcaram uma virada na estratégia papal. Ao formalizar um acordo político com o governo fascista de Mussolini, a Santa Sé fez mais do que se tornar um estado soberano: trocou seu poder militar tradicional por uma forma de poder muito mais sutil. Enquanto o mundo assistia ao Vaticano abandonar oficialmente suas forças armadas (acreditando que elas estavam enfraquecendo), poucos notaram como ele estava investindo em suas redes de inteligência. A Guarda Suíça continuou a usar seus uniformes simbólicos, enquanto a influência real mudou para estruturas menos visíveis.
Assim, durante o período do fascismo italiano, a Segunda Guerra Mundial e a subsequente Guerra Fria, o Vaticano foi capaz de manobrar com uma liberdade impensável para um Estado convencional do século XX. Enquanto o mundo celebrava a estabilização da Santa Sé, esta era apoiada por uma suposta neutralidade religiosa que lhe permitia estabelecer ligações com múltiplos serviços de inteligência, diplomatas, organizações, estados, grupos e empresas; juntamente com o treinamento de seus clérigos selecionados em técnicas HUMINT.
Dessa forma, eles mantiveram e controlaram fluxos de informação (e dinheiro) por meio de canais discretos, estabelecendo uma nova forma de poder: soft power e sharp power. O menor estado do nosso planeta demonstrou que o verdadeiro poder não está nos quartéis, mas nos corredores onde os segredos estão entrelaçados.
Nos parágrafos acima, alguns pontos chaves podem ser destacados nas ações da Santa Sé ao longo do século XX e início do século XXI: 
— Durante a Segunda Guerra Mundial, o Papa Pio XII usou seus canais diplomáticos para ajudar refugiados, mas também para negociar secretamente com ambos os lados.
— Figuras como Giuseppe Dalla Torre (diretor do jornal do Vaticano L'Osservatore Romano) e Monsenhor Montini (futuro Paulo VI) trabalharam em estreita colaboração com os Aliados, vazando informações cruciais contra o Eixo.
— A Operação La Rete (uma rede de fuga de prisioneiros de guerra) demonstrou a capacidade do Vaticano de operar nas sombras.
— Após a guerra, o relatório Himmerod revelou as preocupações do Vaticano com a reconstrução da Europa e a ameaça comunista. Paulo VI, durante seu pontificado, manteve uma relação ambígua com a CIA, usando padres infiltrados em países do bloco soviético para coletar informações e apoiar movimentos dissidentes, como o Solidariedade na Polônia.
— Apesar de estar parcialmente associado às democracias liberais ocidentais, há outros casos em que situações extraordinárias exigem soluções igualmente surpreendentes: o que explica o Vaticano ter se alinhado à Rússia em sua oposição à primeira Guerra do Golfo.  Isso demonstra a flexibilidade e a resiliência da Santa Sé em responder a conflitos internacionais.

Controvérsias e conflitos
Nas décadas de 1970 e 1980, o Vaticano se envolveu em escândalos financeiros e políticos. O Caso Calvi e o colapso do Banco Ambrosiano expuseram uma rede de lavagem de dinheiro que ligava o Vaticano à máfia siciliana. Roberto Calvi (informalmente apelidado de "Banqueiro de Deus") foi encontrado enforcado sob a Ponte Blackfriars, em Londres, em um suposto suicídio que muitos atribuem a um acerto de contas. Assim, a sombra da máfia siciliana paira sobre o Vaticano há décadas. Da lavagem de dinheiro ao tráfico de influência, a conexão entre a Igreja e o crime organizado tem sido um segredo aberto.
A tentativa de assassinato de João Paulo II em 1981 acrescentou outro capítulo sombrio à história do Vaticano contemporâneo. Mehmet Ali Agca foi o executor material. O ataque revelou falhas críticas: Ağca já havia sido preso na Turquia por outro assassinato, mas a inteligência do Vaticano não conseguiu detectá-lo. Em seguida, foi criado um Serviço de Segurança interno mais sofisticado, com a colaboração da CIA e do Mossad.

Eventos atuais e continuidade
Em 21 de abril de 2025, o Papa Francisco faleceu. Nos últimos anos, o pontificado de Francisco enfrentaram um aumento de ameaças que vão desde ataques físicos até campanhas de difamação orquestradas no ciberespaço. A vulnerabilidade do Papa ficou evidente em 2023, quando as forças de segurança interceptaram um indivíduo armado durante uma audiência pública, enquanto no Iraque um ataque suicida foi frustrado graças à colaboração entre os serviços de inteligência britânicos e unidades especiais do Vaticano.
A eleição do Papa Francisco, com sua abordagem reformista e críticas ao sistema financeiro global, acrescentou uma camada adicional de complexidade, atraindo tanto apoiadores quanto inimigos poderosos. A natureza dessas ameaças reflete os novos desafios do século XXI. A Inteligência Eclesiástica aprimorou suas capacidades para monitorar não apenas riscos tradicionais, mas também ameaças digitais. O Papa se tornou alvo de grupos extremistas de direita que o acusam de ser um "herege" por sua postura reformista, assim como de grupos hacktivistas como o Anonymous, que tentaram violar os sistemas do Vaticano em protesto contra seu conservadorismo.
Tais incidentes revelam um paradoxo na base do aparato de segurança do Vaticano. Embora formalmente leais ao Papa reinante, os serviços de inteligência navegam entre facções religiosas em guerra. O caso Vatileaks demonstrou como setores conservadores dentro da própria Cúria vazaram informações confidenciais para minar a autoridade de Francisco, demonstrando que a lealdade institucional nem sempre é absoluta quando divisões ideológicas entram em jogo. Essa situação representa um dilema de segurança sem precedentes: como proteger um líder quando as ameaças vêm tanto de inimigos externos quanto de setores dissidentes dentro da própria Igreja?

Conclusões
O Papa não é apenas uma figura religiosa, mas um estrategista chave na política global. No Vaticano, o sagrado e o mundano estão interligados, e toda crise exige uma resposta cuidadosamente medida. O verdadeiro poder não emana dos púlpitos, mas dos corredores ocultos onde as decisões são tomadas.
Hoje, diante de crises migratórias, conflitos geopolíticos e divisões sociais, a Santa Sé utiliza sua influência diplomática para defender a paz. Contudo, por trás dessa imagem de neutralidade, suas estruturas de inteligência operam incansavelmente para salvaguardar os interesses da Igreja em um cenário internacional volátil. Essa dupla natureza não é recente: já durante a Segunda Guerra Mundial, líderes como Hitler e Mussolini monitoravam de perto Pio XII, suspeitando que sua neutralidade escondia uma falsa prudência.
O que continua sendo mais intrigante é a capacidade deles de preservar o sigilo. Sua força não está na tecnologia avançada, mas em uma sofisticada rede humana de alianças e lealdades que nenhuma agência secular foi capaz de replicar.
Com a morte do Papa Francisco em 21 de abril de 2025 e a convocação de um novo conclave, surge a pergunta: que direção seu sucessor tomará? Durante seu pontificado, Francisco promoveu reformas progressistas , enfrentando resistência interna de setores conservadores. Agora, as facções do Vaticano estão se reagrupando: de um lado, aqueles que buscam continuar seu legado de abertura e foco social; por outro lado, há tradicionalistas que defendem um retorno a posições mais dogmáticas.
O próximo Papa herdará uma Igreja sob tensão, onde lutas por controle definirão seu pontificado. Manterá o equilíbrio entre modernidade e tradição? Ou isso fará a balança pender a favor de uma das correntes? Uma coisa é certa: enquanto o Vaticano mantiver sua influência global, sua máquina de influência continuará sendo uma das mais eficazes do mundo. A fé move almas, mas nos corredores do poder, são estratégias silenciosas que decidem o futuro dos séculos vindouros.
E como disse o Papa em Os Jovens Papas, de Paolo Sorrentino: "O mundo é esse fluxo que passa rapidamente por nós à medida que envelhecemos; a Igreja é o fundamento sobre o qual esse envelhecimento cai".
Artiom Vnebreaci Popa
é Graduado em Filosofia e Letras
 pela Universidade Autónoma de Barcelona.
Fonte: tradução livre do Boletim LISA News
(Learning Institute of Security Advisors)

quinta-feira, 8 de maio de 2025

Heróis da Segunda Guerra — Antigos Alunos CMPA


Vídeo especialmente feito para as comemorações dos 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial (1945-2025), apresentando alguns heróis brasileiros que foram alunos do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA). 
Todos esses vultos da nossa história foram jovens estudantes dessa centenária instituição de ensino, e lá formaram caráter e civismo que nortearam suas vidas e serviram como base nos seus feitos.
Jamais serão esquecidos!
Fonte:  You Tube
Aproveito para acrescentar a homenagem produzida pelo Comando da 14ª Brigada de Infantaria Motorizada (Florianópolis/SC).


segunda-feira, 31 de março de 2025

Qualquer Semelhança Não é Mera Coincidência

Texto recuperado por Hiram Reis e Silva
Em Primeira Mão
por Hélio Fernandes
Em longas conversas que manteve com seus correligionários em Belo Horizonte, onde deverá passar mais de uma semana em contatos políticos, o senhor Juscelino Kubitschek revelou sua grande preocupação com os destinos do País.
E afirmou categoricamente que o presidente da República está empenhado em criar uma gravíssima situação no campo, com a agitação dos camponeses sem terra, facilmente influenciáveis, a fim de conduzir o País para rumos golpistas.
JK pediu, porém, aos seus correligionários, que mantenham a calma até que as coisas se definam. Acha ele que o senhor João Goulart não tem condições políticas e nem dispositivo militar suficientemente forte para deflagrar uma revolução social no País, ou ocupar definitivamente o poder através do golpe de Estado. Acredita ainda que, a partir de março próximo, com o fortalecimento e a homologação da candidatura Lacerda e da dele mesmo, o senhor João Goulart já não terá meios de golpear as instituições, pois o poder político passará, automaticamente, para a faixa dos candidatos presidenciais.
De qualquer modo o sr. Juscelino Kubitschek revelou suas preocupações, levando em conta principalmente a situação econômico-financeira, que se agrava dia a dia, e pelas providências verdadeiramente suicidas que o sr. João Goulart está tomando no campo econômico e financeiro. Acha JK que o País pode estourar a qualquer momento e que dificilmente as forças mais representativas da Nação terão condições de evitar o colapso financeiro.
Enquanto isto, as esquerdas comandadas por Leonel Brizola afastam-se do sr. João Goulart, e se preparam para tomar uma posição francamente revolucionária em torno do problema brasileiro. O próprio Brizola está a caminho do Norte e Nordeste com discursos preparados pela sua assessoria política. Vai agitar novamente o País a pretexto de combater a política de conciliação de Jango Goulart e defender as reformas de base. Na realidade, segundo a opinião dos mais credenciados líderes oposicionistas, Brizola atua na mesma faixa de Jango Goulart, e como seu principal assessor na questão do golpe de Estado. Explicam: Brizola serve a Jango na medida em que agita o País na faixa política, enquanto o jovem e irresponsável João Pinheiro Neto agita o campo, produz a revolta dos camponeses contra os proprietários, estimula a invasão de fazendas, a fim de criar uma situação em que o Exército seja forçado a intervir.
E em que daria a intervenção rápida e violenta do Exército na crise brasileira? A que levaria essa intervenção? Os líderes oposicionistas calculam que, a esta altura, uma intervenção militar no processo brasileiro, no momento em que as candidaturas presidenciais procuram fixar-se, equivaleria a um golpe de Estado, eliminando as eleições e fornecendo ao senhor João Goulart os elementos de que necessita para liquidar as instituições e tornar–se o chefe absoluto do Estado.
Atento a essa situação, o senador Kubitschek, atendendo a conselhos dos seus companheiros de partido, procurará, a partir das próximas semanas, fixar sua candidatura em termos antilacerdistas a fim de polarizar em torno do seu nome todo o contingente antilacerdista e esquerdista que está órfão de líderes que tenham condições de se candidatarem.
Promete o ex-presidente definições claras e inequívocas sobre a situação política, pois só dessa maneira conseguirá aglutinar as forças que se opõem a Lacerda e, com isto, fortalecer-se como candidato, retirando de Jango Goulart a bandeira do antilacerdismo e do reformismo econômico.
Já existe hoje, nas Forças Armadas, nos meios políticos e nos círculos conservadores a certeza de que o sr. Jango Goulart se atirará realmente contra as instituições. É lógico que não se jogará de frente contra as instituições, não marcará dia e hora para o golpe, não avisará quando se transformará em ditador Procurará mascarar as suas intenções, os seus objetivos, os seus propósitos, caracterizando toda a sua ação golpista como antigolpista.
Existem alguns tolos que consideram que golpe é apenas o fechamento do Congresso, como se Jango fosse estúpido a esse ponto. E aí chegamos a um ponto crucial da questão, e que deve ser definido com urgência para benefício da coletividade e salvação do regime: O que é golpe de Estado?
Greve geral, com objetivo político-pessoal, sem o menor interesse para os trabalhadores, é golpe ou não é? É um crime contra o regime e contra a tranquilidade geral ou não é? Greve na Petrobrás, paralisando o País, inclusive as Forças Ramadas, é golpe ou não é? Infiltração comunista, entregando-se todos os postos chaves civis e militares a eles, é golpe ou não é?
Provocações coletivas como o comício que houve há tempos na Cinelândia e que vai repetir-se agora noutro local proibido, em frente ao Ministério da Guerra, é golpe ou não é? Incitação de classe, jogando-se camponeses contra fazendeiros com o espírito puro de provocar e não de solucionar coisa alguma, é golpe ou não é? Desestímulo, desesperança e desconfiança através de medidas de incentivo à inflação constituem ou não constituem golpe?
Roubo generalizado com o enriquecimento de meia dúzia, que são os chamados reformistas do Governo, com o empobrecimento de toda uma população, é golpe ou não é? Contrabando de armas através da Petrobras e de outros órgãos do Governo é golpe ou não é? Desmoralização da autoridade constituída, diminuição sistemática das lideranças, destruição da hierarquia militar, é golpe ou não é?
A Série de atos deliberadamente desatinados e conscientemente desesperadores é enorme e poderia constituir não uma simples coluna mas um tratado sobre as intenções golpistas do sr. João Goulart e do seu governo. E essa série de fatos mais do que comprovados e verdadeiros leva a uma pergunta que teremos que responder imediatamente, sob pena de não termos, dentro em pouco, a menor possibilidade de respondê-la: até onde irá o sr. João Goulart, até onde vai a limitação constitucional do seu mandato, e até onde as Forças Armadas assistirão, impassíveis e omissas, à destruição da ordem, da lei, e da própria nacionalidade, com o domínio, pelos comunistas, de todos os postos chaves do País? Milhões de brasileiros, que repudiam o comunismo, exigem resposta a essa pergunta.
O padre-deputado Vidigal está dizendo abertamente que vai interpelar o sr. Juscelino Kubitschek, em plena convenção do PSD. Quer explicação de ex-presidente para duas afirmações suas: legalização do PC e reconhecimento e restabelecimento de relações com a China Comunista. As declarações de JK favoráveis ao Partido Comunista e reconhecimento da China tiveram péssima repercussão em Minas e no resto do País. E JK está apavorado, chamando um e outro deputado para desmentir o fato.
O serviço Secreto do Exército possui uma documentação impressionante sobre a entrada de armas no País. Comunica esse fato, sistematicamente, ao Conselho Nacional de Segurança, que naturalmente transmite todas as informações aos comunistas, com a recomendação de mais cautela nas operações.
A propósito de armas: confirmada inteiramente a minha informação de que o Exército iria adquirir armas na Europa. Esse fato trará grande prejuízo e confusão ao Exército, já acostumado e treinado, há longos anos, com as armas que vem dos Estados Unidos. Tudo para favorecer um conhecido negocista, e aos comuno-carreiristas que precisam mostrar que tem “ódio” aos americanos. Por que não experimentamos fabricar as nossas próprias armas?
Sério incidente na Paraíba entre Oficiais do Exército, da guarnição do 15° Regimento de Infantaria, e o deputado estadual comunista, do PRT, Cleto Maia. Quando saia de uma reunião, onde pregara abertamente a subversão, afirmando que o Brasil só “pode melhorar mesmo com uma revolução armada”, o deputado foi preso, levado para o quartel e interrogado. Sabedores do fato, os escalões comunistas do governo já providenciaram punição para os Oficiais do Exército anticomunistas e liberdade de movimento para o comunista que prega a revolta armada.
Isso que parece inacreditável é um fato rigorosamente verdadeiro.
Publicado originalmente no jornal Tribuna da Imprensa,
Rio de Janeiro, edição nº 4.279, de 19 Fev 1964.
Hiram Reis e Silva é Coronel de Engenharia,
 Analista de Sistemas, Professor, Palestrante,
 Historiador, Escritor e Colunista.
COMENTO: o texto, do "visionário" Hélio Fernandes (1920-2021), foi publicado às vésperas do Contragolpe de 1964, como um alerta. Os tempos são outros, os chefes das Forças Armadas já não tem a defesa da Democracia entre seus objetivos, intimidados pelo que viram acontecer com aqueles que, nas palavras do General Walter Pires de Carvalho e Albuquerque, "na hora da agressão e da adversidade, cumpriram o duro dever de se oporem a agitadores e terroristas de armas na mão, para que a Nação não fosse levada à anarquia". Cumprem fielmente o adágio da caserna: "o que mais mata é o excesso de iniciativa (imprudência), a burrice (falta de conhecimento ou imperícia) e o cagaço (omissão ou negligência, proposital ou motivada pelos motivos anteriores)". Nos tempos presentes, eu acrescentaria a conivência. Mas a sincronia dos fatos já não pode ser considerada só coincidência.

domingo, 2 de março de 2025

Simplesmente Brilhante

Trump Foi Simplesmente Brilhante
Se você criticou o “jeito” de Trump sem entender a complexa arte da negociação, pare agora e apague o que escreveu — caso contrário, só estará expondo sua ignorância.
Se você não tem um MBA ou sequer um curso básico de Negociação Estratégica, você é a última pessoa que deveria opinar sobre o assunto. 
Trump, por outro lado, já negociou centenas de vezes ao longo da vida, tem formação sólida e até escreveu The Art of The Deal. Ele sabe que uma boa negociação não pode ser um jogo de soma zero, precisa ser um ganha-ganha, pois, do contrário, o acordo jamais será cumprido.
Zelensky, um comediante sem experiência real em negócios ou diplomacia, não percebeu o que estava acontecendo. Trump estava articulando um substituto para a OTAN, garantindo a segurança da Ucrânia sem amarrar os EUA em um conflito sem fim. 
O acordo comercial que poderia ter sido assinado ontem mesmo foi sabotado por Zelensky, que na última hora tentou incluir novas exigências. Esse erro fatal jogou fora uma oportunidade histórica. 
Enquanto a esquerda acredita no mantra ingênuo de “faça amor, não a guerra”, a direita pragmática segue o princípio de “faça comércio e evite a guerra”. 
Quer um exemplo? Taiwan não foi invadida pela China porque os Estados Unidos dependem economicamente da ilha. Mas a Ucrânia? Para os EUA, sua relevância estratégica é mínima. 
Trump iria substituir OTAN pelo próprio interesse dos Estados Unidos, (não mexam com nossa parceira a Ucrânia), mas Zelensky não percebeu. 
Em vez de aceitar o tratado comercial e garantir a estabilidade do seu país, Zelensky já de início atacou Trump e Vance, acusando-os de não pensarem no povo ucraniano. 
Foi nesse momento que Trump e Vance perceberam que estavam sendo usados. 
Trump também sabe algo que muitos parecem ignorar: a Rússia tem armas nucleares. E um conflito prolongado com Moscou poderia levar a uma Terceira Guerra Mundial, com ogivas voando para todos os lados. 
Zelensky, por sua vez, reagiu com alarmismo, dizendo que Putin não pararia na Ucrânia e que Polônia e Dinamarca seriam os próximos alvos. Claramente, não fez sua lição de casa. Assim como muitos de vocês que repetem esse argumento sem nunca terem lido Alexander Dugin, o principal ideólogo de Putin. Dugin não quer reconstruir a URSS, ele quer reunificar os russos étnicos, muitos dos quais estão na própria Ucrânia. 
Trump e Vance ficaram furiosos. Eles estavam oferecendo uma saída para Zelensky, uma oportunidade para negociar sem ser responsabilizado pelas 45.000 mortes ucranianas e os 360.000 feridos. Zelensky poderia ter saído ileso. “Foi Trump que me obrigou a ceder a Putin, não eu.” 
Os jornalistas, previsivelmente, não entenderam nada do que aconteceu ontem. Mas a verdade é clara: Trump e Vance deram um grande passo para encerrar essa guerra.
COMENTO: o vídeo é só para chamar a atenção dos leitores e alegrar seu dia.