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terça-feira, 30 de junho de 2026

A Farda e a Palavra: Sobre a Liberdade de Expressão dos Militares

por Amilcar Fagundes Freitas Macedo
Uma vez, um velho oficial da Brigada Militar me disse algo que nunca mais esqueci: “Quando um brigadiano veste sua farda, ele leva para a rua não apenas o seu nome, mas o nome da instituição inteira”.
Na época, a frase me pareceu exagerada, até mesmo pela minha tenra idade. Com o passar dos anos, porém, percebi que ela continha uma verdade difícil de ignorar. Poucas profissões aproximam tanto a vida pessoal da função pública quanto a carreira militar. O cidadão continua existindo. Continua tendo opiniões, convicções políticas, crenças religiosas, frustrações e expectativas. Mas a sociedade passa a enxergá-lo também como representante permanente de uma instituição.
É justamente dessa tensão que nasce um dos debates constitucionais mais delicados dos nossos tempos: até onde vai a liberdade de expressão de um militar?
A pergunta parece simples. Mas não é.
Nos últimos tempos, as redes sociais transformaram profundamente a forma como as pessoas se comunicam. Antes, uma crítica dirigida a amigos numa mesa de bar morria ali mesmo (Umberto Ecco). Atualmente, um comentário feito em poucos segundos pode alcançar milhares de pessoas. Um compartilhamento, uma fotografia ou mesmo uma simples curtida podem gerar consequências que ninguém imaginava no momento em que apertou um botão na tela do celular.
Quando o protagonista dessa interação é um militar, a discussão ganha contornos ainda mais complexos.
De um lado está um princípio que nenhuma democracia séria pode abandonar: a liberdade de expressão. Não existe sociedade livre sem o direito de manifestar ideias, formular críticas e participar do debate público. O silêncio imposto pelo Estado nunca foi um bom companheiro da democracia.
De outro lado estão valores igualmente protegidos pela Constituição. Hierarquia e disciplina não são meras formalidades burocráticas. São as vigas que sustentam instituições encarregadas da defesa do Estado e da preservação da ordem pública. Sem elas, a própria lógica da organização militar perde sentido.
A questão, portanto, não está em escolher entre liberdade ou disciplina. A vida constitucional raramente oferece dilemas tão simples.
O constitucionalista alemão Konrad Hesse enfrentou esse problema ao estudar aquilo que a doutrina passou a chamar de relações especiais de sujeição. Sua conclusão foi ao mesmo tempo simples e profunda: os direitos fundamentais não desaparecem dentro dos quartéis. O militar não deixa de ser cidadão quando veste a farda. Continua sendo titular das mesmas garantias constitucionais asseguradas a qualquer pessoa.
Mas isso não significa que sua situação jurídica seja exatamente igual à de quem não assumiu deveres especiais perante o Estado.
Aqui talvez resida o principal equívoco de muitos debates contemporâneos. Costuma-se imaginar que reconhecer limites à liberdade de expressão dos militares equivaleria a negar-lhes direitos fundamentais. Não é disso que se trata.
Luiz Fernando Calil de Freitas, falando sobre os limites e restrições dos direitos fundamentais, lembra que nenhum direito fundamental existe sozinho. A Constituição protege simultaneamente diversos valores que, em determinados momentos, entram em rota de colisão. É por isso que os conflitos constitucionais não podem ser resolvidos por slogans nem por frases de efeito. Exigem ponderação, contexto e prudência.
A liberdade de expressão merece proteção. Mas também merecem proteção a disciplina militar, a autoridade legítima e a confiança que a sociedade deposita em suas instituições.
Ronald Dworkin costumava dizer que os direitos fundamentais funcionam como trunfos contra o poder estatal. A imagem é poderosa e continua atual. O Estado não pode restringir a liberdade apenas porque considera determinada opinião inconveniente ou desagradável.
Mas nem mesmo Dworkin defenderia que toda manifestação individual está automaticamente imune a qualquer consequência jurídica. A Constituição é mais complexa do que isso.
Jeremy Waldron acrescenta outra dimensão ao problema. Instituições públicas não são abstrações. Elas constituem patrimônio coletivo construído ao longo de décadas e dependem, em grande medida, da confiança social para cumprir suas funções. Quando essa confiança é abalada, os efeitos ultrapassam os interesses individuais de quem fala ou de quem ouve.
O verdadeiro desafio está em identificar quando essa linha é efetivamente cruzada.
E talvez seja justamente aí que resida a principal lição desse debate.
Nem toda crítica feita por um militar representa ameaça à disciplina. Nem toda manifestação em rede social compromete a imagem institucional. Nem toda opinião divergente constitui ato de insubordinação.
Mas também não parece razoável imaginar que a condição militar seja juridicamente irrelevante quando essas manifestações ocorrem.
A democracia exige liberdade. A vida militar exige responsabilidade. Entre uma e outra não existe uma muralha. Existe uma fronteira móvel, construída caso a caso, à luz das circunstâncias concretas.
Talvez por isso a melhor resposta não esteja nem no silêncio absoluto nem na liberdade sem limites.
Afinal, quem veste uma farda continua carregando consigo a palavra. Mas cada palavra, gostemos ou não, continua carregando consigo o peso da farda.
Amilcar Fagundes Freitas Macedo
é Desembargador do TJM/RS
COMENTO:  me parece que o limite entre a liberdade de expressão e a crítica reside no cabimento desta, isto é, na sua procedência ou adequação à realidade, além da forma como essa crítica é formulada. Muitos enfatizam a aceitação de "críticas construtivas". 
E para isso elas devem ter um cunho corretivo de equívocos observados. A imagem ao lado é de uma placa que havia em frente ao prédio do DAER, em Porto Alegre, por onde eu passava, de ônibus em direção ao quartel. 
Durante anos, eu Soldado (depois Cabo) via a placa e pensava a respeito. E me impus a regra de não aceitar passivamente determinações que não me parecessem corretas. Obviamente, as poderações eram apresentadas de forma educada, sem deixar margem a que fossem confundidas como ofensas à disciplina e hierarquia. Mas sempre de forma firme, com argumentos. Esse procedimento, a princípio, me pareceu causar indisposições com superiores, todavia isso não me motivou a desprezar minha forma de pensar e agir. Bem depois, fiquei sabendo que minhas contestações forjaram, a meu respeito, nos chefes que tive, a imagem de "auxiliar que realmente auxilia com lealdade". Alguns anos atrás, procurei a placa inspiradora e ela havia sido retirada da posição de destaque em frente ao prédio e colocada no jardim da estatal, aparentemente não recebendo a devida manutenção contra as intempéries. A placa foi rebaixada em seu status, mas resiste. Minha atitude também se manteve e, penso, me proporcionou respeito e consideração na vida profissional.

sábado, 20 de dezembro de 2025

É Sempre Uma Alegria Ouvir Falar de Lulinha

É sempre uma alegria ouvir falar de Lulinha, o filho mais velho do companheiro Lula. Ele surgiu para o mundo lá se vão vinte anos, quando eu era redator-chefe da Veja. Era outro mundo, mas Lulinha continua o mesmo.
O nome do filho mais velho do presidente da República apareceu no âmbito das investigações sobre as fraudes perpetradas no INSS contra aposentados e pensionistas. Uma testemunha na investigação disse à PF que Lulinha teria recebido do Careca do INSS o equivalente a R$ 25 milhões, além de uma mesada de R$ 300 mil. O rapaz nega tudo e avisou que vai processar quem o acusa.
A testemunha também afirmou à PF que Careca e Lulinha viajavam juntos às expensas do fraudador. Há prova de que ambos estavam na 1ª classe de um avião da Latam que os levou de São Paulo para Lisboa, em 8 de novembro do ano passado, como publicou o colega André Shalders, da coluna de Andreza Matais.
Eu disse que Lulinha continua o mesmo, porque há sempre quem insista em associá-lo ao recebimento de boladas formidáveis, não exatamente fruto de trabalho árduo.
Ele surgiu para o mundo depois que a Veja revelou, em 2005, que Lulinha, monitor de zoológico até dois anos antes, era sócio de uma empresa de produção de conteúdos de jogos eletrônicos, a Gamecorp, que havia levado uma baba de dinheiro da Telemar/Oi, concessionária de telefonia pública.
Entre investimentos, contratos de serviços e de publicidade, a Telemar/Oi repassou, entre 2004 e 2016, R$ 132 milhões ao que se tornou o grupo Gamecorp/Gol. Essa dinheirama teria sido transferida a uma empresa de porte idêntico cujo sócio não fosse filho de Lula?
Desde o início, levantou-se a desconfiança de que tudo era pagamento por vantagens regulatórias, como a aprovação da fusão da Oi com a Brasil Telecom, que viria a ocorrer em 2008. Em outras palavras, remuneração por tráfico de influência. Mas nada ficou provado na base do batom na cueca, com o perdão do meu francês.
Em 2019, Lulinha também seria investigado pela Lava Jato, como suposto financiador de reformas no famoso sítio de Atibaia. O caso acabou arquivado.
A História é uma Istória, como dizia Millôr Fernandes, e antes de publicarmos a primeira reportagem sobre o incrível sucesso do filho do presidente, Lula telefonou para a Veja, pedindo para que não a chamássemos na capa da revista, porque a sua mulher, Marisa, morreria de desgosto. Fizemos esse favor.
Lulinha, no entanto, continuou na mira dos repórteres da Veja. Pouco tempo depois, a sucursal de Brasília descobriu que o filho do presidente mantinha parceria com um lobista brasiliense.
Ao ser comunicado sobre a nossa apuração, o Palácio do Planalto tanto fez para que a revista não publicasse a segunda reportagem sobre Lulinha, que ela permaneceu engavetada durante meses.
Até que Lula deu uma entrevista à Folha. Indagado pelos repórteres do jornal sobre a carreira empresarial fulgurante do filho mais velho, o presidente disse que não tinha culpa de Lulinha ser um “Ronaldinho dos negócios”.
A declaração que soou cínica foi a gota d’água para que nós, editores da revista, finalmente publicássemos, no final de 2006, em plena campanha presidencial, a reportagem sobre a parceria de Lulinha com o lobista. Dessa vez, na capa. Roberto Civita, dono da Veja, chegou a ter fibrilação cardíaca, já antecipando o problemão que isso causaria.
De fato, entre outras delicadezas endereçadas a nós, a Veja foi acusada de ter publicado a reportagem para tentar evitar a reeleição de Lula. A verdade é que só não o fizemos antes porque o próprio Lula fez pressão para que a segurássemos.
Agora, temos Lulinha no noticiário outra vez. Mas a alegria que ele costuma nos proporcionar será ainda mais efêmera, porque o jornalismo mudou para pior e o rapaz mudou-se para Madri, em meados deste ano, a pretexto de prestar consultorias para empresas espanholas. A História é uma Istória, e até hoje há quem acredite ser verdadeira a anedota de que Rui Barbosa deu aulas de inglês em Londres.
Fonte: Metropoles

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O Infiltrado no Grupo de WhatsApp dos Empresários de Direita

Lucas Mesquita, jornalista de Brasília trabalha para o governo Lula e já registrou encontros com Flávio Dino e Alexandre de Moraes
Na audiência transmitida ao vivo no Senado na terça-feira, 2 de setembro, o perito Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Alexandre de Moraes, fez revelações que colocam em xeque a legalidade de uma das operações mais controversas do Supremo Tribunal Federal (STF): a busca e apreensão, às vésperas das eleições de 2022, contra empresários acusados de trocar mensagens em grupos de WhatsApp supostamente favoráveis a um golpe de Estado.
A sessão ocorreu na Comissão de Segurança Pública do Senado, convocada pelo senador Magno Malta (PL-ES) e presidida por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no mesmo horário em que o STF julgava o ex-presidente Jair Bolsonaro por abuso de poder político.
Segundo Tagliaferro, o que foi apresentado como ação amparada por investigação técnica e provas consistentes, na verdade teria sido montado a posteriori — depois da operação já realizada. Ele afirma que foi coagido a produzir documentos com datas retroativas, incluindo mapas mentais, relatórios e pareceres que dariam aparência de legalidade à decisão de Moraes, quando na verdade, segundo ele, tudo havia sido feito com base apenas na reportagem do jornalista Guilherme Amado, do Metrópoles.
À nossa reportagem, Tagliaferro afirmou que as mensagens do grupo foram enviadas diretamente para ele pela “Bruxa” da Vaza Toga, que A Investigaçãoidentificou anteriormente como a jornalista Letícia Sallorenzo.
Entretanto, nossa reportagem analisou os registros apresentados por Tagliaferro na audiência, e conseguiu identificar o infiltrado responsável pelo envio das informações a Sallorenzo. Trata-se de Lucas Mesquita, documentarista e jornalista de Brasília, militante de esquerda que já ficou conhecido por infiltrações em grupos de WhatsApp de figuras de direita.
Na reportagem da Vaza Toga 2, revelamos que o ministro Alexandre de Moraes autorizou o acionamento de “parceiros externos” para estruturar as investigações relacionadas aos eventos de 8 de janeiro de 2023. Agora, a vigilância em massa da população ganha novos contornos: arapongas passaram a coletar informações de cidadãos comuns e a repassá-las diretamente ao Judiciário, muitas vezes sem qualquer indício concreto de crime.

Quem é o infiltrado
Lucas Mesquita, 35 anos, é jornalista e documentarista radicado em Brasília. A sua carreira começou nos bastidores do poder, como assessor de imprensa da chapa Dilma-Temer nas eleições de 2010. A experiência lhe deu acesso precoce ao centro das decisões políticas.
Flamenguista convicto, Mesquita se envolveu em uma disputa com a então presidente do clube, Patrícia Amorim, em 2012. Produziu conteúdos satíricos contra a gestão e, após pressões da diretoria, quase foi expulso do quadro associativo. Com o tempo, abandonou a militância esportiva e mergulhou na produção audiovisual. Fundou uma microempresa de produção fotográfica e cinematográfica em Brasília e, junto ao irmão Gabriel Mesquita, passou a dirigir e roteirizar documentários políticos.
Em 2022, dirigiu o curta “Contra Golpe”, que documentou os atos pela “defesa da democracia” realizados na Faculdade de Direito da USP. A produção, que teve apoio do Grupo Prerrogativas, registrou a leitura da “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito”, divulgada como reação à candidatura de Jair Bolsonaro.
No mesmo ano, lançou o documentário “Eles Poderiam Estar Vivos”, também apoiado pelo Prerrogativas. A peça atribuía ao “negacionismo do governo” a responsabilidade por metade das mortes na pandemia. A narrativa baseou-se em depoimentos alinhados ao campo político da esquerda ou críticos de Bolsonaro, como a infectologista Luana Araújo e o epidemiologista Pedro Hallal, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenador do estudo Epicovid-19, ambos participantes da CPI da Covid.
Foi Hallal quem projetou a ideia de que 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas, caso o Brasil tivesse a mesma taxa de mortalidade da média global. A estimativa viralizou nas redes e se tornou instrumento político contra Bolsonaro. O argumento, no entanto, ignorava fatores determinantes como desigualdade, infraestrutura de saúde, subnotificação, política de testagem e dinâmica regional da pandemia. A cifra, embora impactante, se sustentava mais em pressupostos militantes do que em rigor científico.

O modus operandi
Em pelo menos duas ocasiões, Lucas Mesquita se infiltrou em grupos privados de WhatsApp que reuniam empresários, políticos e juristas ligados à direita. O conteúdo extraído por ele serviu tanto como base para decisões judiciais quanto como munição em reportagens de grandes veículos.
Um desses espaços foi o Parlatório, criado pelo jornalista Carlos Marques, diretor editorial das revistas IstoÉ e IstoÉ Dinheiro e ligado ao LIDE, grupo empresarial fundado pelo ex-governador João Doria. O Parlatório reunia cerca de 250 empresários, intelectuais, jornalistas, publicitários e políticos — entre eles o ex-ministro e então candidato ao Senado Sergio Moro. Mesquita permaneceu nesse ambiente por cerca de dois ou três anos, em silêncio, apenas observando.
A ruptura veio em outubro de 2022, quando Mesquita criticou abertamente a reaproximação de Moro com Jair Bolsonaro. Publicou um vídeo e um texto duros — chamando o ex-juiz de “tchutchuca de miliciano” — e acabou expulso, segundo ele por pressão de Moro. Na GloboNews, a jornalista Andréia Sadi apresentou o episódio como se o vazamento tivesse partido de “participantes desconfortáveis”, mas tudo indica que a operação foi cuidadosamente planejada para ter a repercussão midiática.
O mesmo modus operandi foi aplicado ao chamado “grupo dos empresários”, cujas mensagens foram obtidas de forma semelhante e repassadas ao portal Metrópoles. As mensagens do grupo que nossa reportagem teve acesso mostram que Lucas fez de tudo para dissimular sua militância de esquerda, tentando se fazer passar por alguém de centro para ganhar a confiança do grupo.
Infelizmente vai ser segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Mas ainda tenho esperança de alguém conseguir aglutinar as forças de centro e ir pro segundo turno, para aí sim derrotar Lula ou Bolsonaro, escreveu Lucas no dia 24 de abril de 2022.
Em maio, Guilherme Amado publicou a primeira reportagem com vazamento do grupo dos empresários mirando declarações de Luciano Hang sobre o padre Julio Lancellotti. Na ocasião, os integrantes do grupo tentaram encontrar quem seria o “X9” (delator infiltrado), excluindo alguns integrantes inativos, mas não suspeitaram de Lucas. Por causa da reportagem, Hang foi condenado pela Justiça de São Paulo a pagar danos morais a Lancellotti por ter chamado o religioso de “bandido”. A juíza Eliana Adorno de Toledo Tavares determinou que Hang pagasse R$ 8 mil de indenização.
Pessoal aqui no grupo temos um X9, um dedo duro. Olha só onde foi parar a nossa conversa aqui no grupo. O membro que teve coragem de passar as mensagens para a imprensa também deveria ter a coragem de se posicionar agora e dizer o porquê fez isso. O que quis deixar bem claro na minha posição foi a militância do Lancellotti em apoiar um líder que defende o comunismo pelo mundo e pela América Latina que são geradores da miséria. Não sou contra a parte social, falei dele, desse caso específico, da militância de esquerda, escreveu Hang no grupo após o primeiro vazamento.
No dia 17 de agosto, dia da publicação da reportagem do Metrópoles, a equipe de Amado enviou mensagens aos integrantes do grupo solicitando declarações sobre as acusações. Muitos compartilharam no próprio grupo as demandas recebidas, entre eles Lucas, que perguntava o que deveria fazer.
Meses depois, em janeiro de 2024, Lucas foi nomeado para um cargo comissionado como assessor no recém-criado Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, comandado por Márcio França.
Nas redes sociais, Lucas mantém uma presença discreta, mas não invisível. Registra encontros com figuras como Lula, Flávio Dino e Alexandre de Moraes. Em comentários e interações, chegou a dialogar com Letícia Sallorenzo, mais conhecida pelo codinome “Bruxa” — a mesma que atuava como colaboradora informal do TSE no monitoramento de opositores.

A operação contra os empresários
Voltando à audiência do Senado. Por videoconferência, Tagliaferro narrou que, em agosto de 2022, recebeu ordens do assessor Airton Vieira, braço-direito de Alexandre de Moraes, para montar documentos que dariam lastro à operação contra os empresários. Disse que havia pressa no gabinete: o plano era executar as buscas numa segunda-feira; elas ocorreram na terça, 23 de agosto.
Na semana anterior, em 17 de agosto, o Metrópoles tinha publicado reportagem com diálogos atribuídos a integrantes do grupo “Empresários & Política”, entre eles Luciano Hang (Havan), Meyer Nigri (Tecnisa) e Afrânio Barreira (Coco Bambu). Entre as diversas mensagens e comentários de cunho político — a peça citou, por exemplo, a frase Prefiro golpe do que a volta do PT. Um milhão de vezes, atribuída a um participante. Não havia qualquer fala criminosa de Hang no material publicado, mesmo assim, ele foi alvo de busca e apreensão e teve os perfis bloqueados apenas por participar do grupo.
A operação contra os empresários foi cumprida em cinco estados no dia 23 de agosto de 2022. Foram alvos nomes de peso do empresariado nacional. A Polícia Federal apreendeu celulares, promoveu quebras de sigilo e bloqueou contas nas redes — inclusive as de Hang, que ficaram mais de dois anos fora do ar, com reativação só em setembro de 2024. Em agosto de 2023, cerca de um ano depois, o STF arquivou o inquérito em relação a seis dos oito empresários por “ausência de justa causa”, mantendo Hang e Nigri por mais 60 dias. Até hoje não há denúncia formal apresentada nesse caso.
A operação contra os empresários foi deflagrada apenas dez dias antes do primeiro debate presidencial na Band. A medida atingiu em cheio a base de apoio de Jair Bolsonaro: além de apreensões e quebras de sigilo, empresários tiveram suas redes bloqueadas, como Luciano Hang, um dos principais amplificadores digitais do bolsonarismo. A ausência dessas vozes reduziu a capacidade de mobilização nas redes e serviu como aviso ao setor privado de que manifestações públicas em favor do presidente poderiam gerar retaliações judiciais, produzindo um efeito de intimidação que limitou o engajamento empresarial durante a campanha.
Ao mesmo tempo, a operação foi explorada politicamente. A narrativa do “golpismo empresarial” se consolidou no noticiário e deu munição ao discurso de Lula nos debates, reforçando a ideia de que Bolsonaro e seus aliados representavam uma ameaça à democracia. Com vozes empresariais censuradas e a narrativa adversária amplificada, Bolsonaro entrou no horário eleitoral e nos debates em desvantagem estratégica, tanto em termos de recursos financeiros quanto de alcance digital.
Até então, suspeitava-se que a medida havia sido deflagrada a partir da série do Metrópoles — a própria decisão tornada pública pelo STF menciona as reportagens. No dia 23, porém, a então âncora da CNN Daniela Lima teria “apurado” que a ação teve como fundamento um pedido da PF que apurava a organização e o financiamento de atos antidemocráticos, conhecido como inquérito das milícias digitais.
Entretanto, segundo Tagliaferro, esta informação era falsa: a única base da decisão foi a reportagem do Metrópoles. O que aconteceu foi que Moraes determinou que seus assessores extraíssem as falas da matéria e as formatassem em um relatório. Só que aquilo era um grupo privado de WhatsApp. Seria criminoso da minha parte atestar a autenticidade daquelas conversas, afirmou.
A denúncia de Tagliaferro deve abrir espaço para novas apurações, dentro e fora do Congresso. Senadores da oposição já pediram acesso aos arquivos citados e prometem convocar Airton Vieira e autoridades da PF para explicações.

A ação retroativa
A parte mais grave da denúncia veio em seguida. Tagliaferro declarou que, depois da operação já executada, ele foi procurado por Airton Vieira, que não sabia usar computador, para “ajudar a construir uma história”. O objetivo: forjar a existência de uma investigação prévia que justificasse a ação do STF.
Ele contou que recebeu arquivos com “PETs” já marcadas e instruções para produzir mapas mentais ligando os empresários a supostos financiadores de atos antidemocráticos e redigir um relatório com data de dias antes da operação. Tudo isso, afirma ele, para que Moraes pudesse retirar o sigilo do processo e mostrar à imprensa que havia embasamento além da matéria jornalística.
Assinei como se fosse um relatório do Supremo Tribunal Federal. Mas eu não era servidor nomeado. Fiz porque fui instruído. E está tudo documentado: os arquivos, as datas de criação, os metadados, os hashes. Tudo com perícia técnica, garantiu.
Durante a audiência, Tagliaferro exibiu capturas de tela, datas de criação de documentos e o próprio mapa mental que, segundo ele, foi usado por Moraes para justificar as medidas. Nele, os empresários apareciam ligados a nomes como “Custer”, “Bezerra” e “Álvaro dos Santos”, todos conectados por setas a um suposto centro de financiamento de atos golpistas.
Segundo o ex-assessor, esse documento foi criado em 28 de agosto de 2022, seis dias após a operação — mas foi incluído no processo como se tivesse sido feito em 22 de agosto. Outro relatório foi juntado aos autos em 29 de agosto, embora também tenha sido confeccionado depois da operação, não antes, como o STF teria afirmado.
Essa fraude é gravíssima. Se isso foi feito nesse processo, o que não pode ter sido feito em outros, todos físicos, todos guardados a sete chaves no gabinete do ministro?, questionou.
Fonte:    A Investigação

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Vaza Toga: A Bruxa, o Infiltrado e o Delator

Novas conversas sugerem que provas foram fabricadas após a operação contra empresários bolsonaristas
Nossa reportagem teve acesso exclusivo a conversas de WhatsApp entre Eduardo Tagliaferro — então chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED) do TSE — e a jornalista Letícia Sallorenzo, conhecida como “Bruxa”. As mensagens expõem como, em agosto de 2022, durante o auge da campanha eleitoral, dados privados de empresários ligados a Jair Bolsonaro foram repassados clandestinamente ao tribunal, dias depois de Alexandre de Moraes deflagrar uma operação de busca e apreensão contra eles.
Esta operação, de 23 de agosto, justificada apenas com base em uma reportagem, atingiu em cheio o núcleo empresarial que seria responsável tanto pelo financiamento quanto pela amplificação digital do bolsonarismo. Com os bloqueios bancários e de redes sociais, a capacidade de mobilização empresarial foi cortada de maneira abrupta — silenciando vozes de peso justamente às vésperas do primeiro debate presidencial na Band, em 28 de agosto.
A investigação só foi arquivada por Alexandre de Moraes um ano depois, já com Lula na Presidência. O ministro concluiu que, em relação a seis empresários, faltavam elementos mínimos e não havia justa causa para a continuidade. Restaram como alvos Meyer Joseph Nigri e Luciano Hang. No caso de Nigri, a Polícia Federal apontou vínculo direto com Jair Bolsonaro para disseminação de mensagens contra o sistema eleitoral; no de Hang, Moraes alegou que ainda era necessário analisar o conteúdo do celular, protegido por senha. As redes sociais de Hang permaneceram bloqueadas por mais de dois anos, até que em setembro de 2024 o ministro determinou sua reativação. O processo segue em sigilo total.
As conversas reveladas por nossa reportagem mostram que, diante da fragilidade da base probatória e da repercussão negativa da operação, Alexandre de Moraes pressionava seus assessores a produzir documentos retroativos. Para atender à cobrança, Eduardo Tagliaferro recorreu à Letícia Sallorenzo, que funcionava como elo entre o tribunal e um infiltrado no grupo “Empresários & Política”. A Investigação identificou o informante como o jornalista Lucas Mesquita, que hoje atua como assessor no governo Lula,
Ou seja, uma infiltração organizada foi parar diretamente no gabinete do TSE, sem qualquer cadeia formal de custódia. Prints, listas de integrantes e até a exportação completa das conversas foram entregues na noite de 27 de agosto, com o objetivo declarado de “sossegar o amigo — referência ao ministro, ansioso por fazer cessar as críticas.
O episódio expõe uma colaboradora informal, com trânsito até no círculo familiar de Moraes, alimentando diretamente o gabinete do TSE com informações privadas de um grupo fechado. Em vez de provas prévias que justificassem a ofensiva de 23 de agosto, o que se construiu foram fundamentos posteriores, moldados conforme as demandas do ministro.
Mais que um detalhe burocrático, essa confere ainda mais plausibilidade às denúncias de Tagliaferro no Senado de que relatórios datados antes da operação foram, na realidade, montados dias depois, com apoio de uma rede de informantes externos. A chamada “guerra à desinformação” aparece, assim, como pretexto para uma estrutura de vigilância política na qual a fronteira entre Estado e militância ideológica desaparece.

Uma noite daquelas
Na noite de sábado, 27 de agosto de 2022, Alexandre de Moraes estava inquieto. E não era para menos. Quatro dias antes, em 23 de agosto, havia determinado uma operação de busca e apreensão contra oito dos maiores empresários do país, mobilizando a Polícia Federal com fuzis e mandados invasivos. A justificativa oficial para uma ação de tal envergadura não veio de relatórios técnicos ou investigações consolidadas, mas de uma reportagem publicada dez dias antes, 17 de agosto, por Guilherme Amado, no Metrópoles. O texto expôs mensagens de um grupo privado de WhatsApp, o “Empresários & Política”, em que alguns integrantes fizeram comentários críticos ao STF e foram acusados de incitar um golpe de Estado caso Lula ganhasse as eleições.
Prefiro golpe a ver o PT de volta. Um milhão de vezes. E, com certeza, ninguém vai deixar de fazer negócios com o Brasil, como acontece com várias ditaduras pelo mundo, escreveu José Koury, dono do Barra World Shopping, que em seguida se tornou o principal alvo de Alexandre de Moraes. Essa foi a declaração mais polêmica usada contra os empresários. Ainda assim, o teor deixa claro que não se tratava de uma defesa explícita de golpe, mas de um desabafo.
Segundo um dos empresários contatados pela nossa reportagem, até os próprios policiais federais que cumpriram os mandados demonstravam incômodo e constrangimento durante a operação. “Eles mesmos não sabiam por que estavam fazendo aquilo”, relatou.
A operação contra os empresários — especialmente Luciano Hang, um dos principais apoiadores de Jair Bolsonaro — irritou o governo e acendeu o alerta político. O episódio ocorreu em plena campanha eleitoral, já fortemente polarizada e a poucos dias do primeiro debate na TV. O desconforto aumentou porque, no mesmo dia, Alexandre de Moraes recebeu no TSE o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, em reunião de cerca de uma hora para discutir as sugestões das Forças Armadas para as eleições — especialmente ajustes no teste de integridade das urnas e a coordenação de segurança do pleito.
O ministro, ciente de que a narrativa pública podia desmoronar, pressionava seus assessores para produzir documentos que servissem como lastro retroativo à decisão. Segundo o ex-assessor Eduardo Tagliaferro, hoje delator de todo o esquema, Moraes exigia que na segunda-feira seguinte, 29 de agosto, tivesse em mãos material atualizado sobre os alvos. Naquele mesmo dia, o ministro retiraria o sigilo do processo para tentar acalmar a opinião pública.
Tagliaferro, então chefe do núcleo de enfrentamento à desinformação (AEED) do TSE, recorreu à colaboradora externa conhecida como “Bruxa”, que A Investigação já identificou como a jornalista Letícia Sallorenzo. Esta atuava como ponte entre o TSE e uma fonte infiltrada no grupo dos empresários. Segundo ela, a mesma fonte que abasteceu o jornalista Guilherme Amado do Metrópoles.
Sallorenzo contatou Tagliaferro logo no início da conversa, às 20h30, para pedir censura contra o deputado Marcos Pollon (PL-MS), então um advogado e ativista pró-armas. Ela indicou um texto do site "Come Ananás" como referência. O procedimento de censura já normalizado não necessitava de instruções detalhadas: “Todo seu!”, disse Sallorenzo. O texto indicado contra Pollon, deletado do site, mas recuperado pela reportagem em um serviço de arquivamento, destacava uma crítica do advogado a Moraes: “supremo ditador”.
No entanto, Tagliaferro a avisa de que está muito ocupado, pois trabalha para o ministro em uma investigação sigilosa. Mesmo assim, ele pede que ela vasculhe publicações antigas ligadas aos “empresários”. Sallorenzo, já sabendo do que se trata, responde que tem novidades e começa a enviar capturas de tela do grupo, onde aparecem nomes como Nelson Piquet, Flávio Rocha e Luciano Hang.
Sallorenzo então afirma que enviou mais informações no aplicativo Signal ao que Tagliaferro diz que ele não tem conta neste aplicativo. Ou seja, Salorenzo atuando como assessora informal do TSE enviou informações privadas a uma conta do Signal que ela nem sabia de quem era.

Os principais alvos
Ao longo da conversa, o assessor não apenas recebia o material enviado por Sallorenzo, mas orientava o fluxo de informações de acordo com os interesses imediatos do gabinete. Ele deixa claro quais pessoas e organizações eram os principais focos da operação. Primeiro, direciona a atenção para Meyer Nigri, incorporador da Tecnisa e um dos alvos mais visados. Em seguida, pede dados sobre José Koury, dono do Barra World Shopping.
Tagliaferro diz que também precisa de informações do juiz Melek. Trata-se de Marlos Augusto Melek, que à época atuava na Vara do Trabalho de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). No ano seguinte, o magistrado seria afastado de suas funções pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), acusado de integrar e se manifestar no grupo de WhatsApp “Empresários & Política. Para o CNJ, essa conduta teria violado os valores éticos da magistratura. Depois, Tagliaferro passa listas com diversos alvos entre pessoas e empresas.

A “PF confiável”
Em determinado momento, Sallorenzo pergunta se era possível acessar o conteúdo do celular de Meyer Nigri, apreendido pela PF — em especial as mensagens que teriam sido recebidas e enviadas por Jair Bolsonaro em listas de transmissão. Tagliaferro responde que seria possível, mas admite que ainda não havia recebido o dispositivo. Letícia então pergunta se Tagliaferro conseguiria “colocar suas mãos no celular”. O perito responde que isso ainda iria demorar.
É então que surge a passagem mais reveladora. Sallorenzo questiona se o aparelho estava sob custódia de uma “PF confiável”. Tagliaferro confirma que sim, sugerindo a existência de um circuito paralelo dentro da corporação, formado por delegados e agentes considerados extremamente leais a Alexandre de Moraes.
Entre esses nomes aparece o delegado Fábio Shor, figura de confiança do ministro, que se tornaria central em investigações de caráter político conduzidas pela PF. Foi o próprio Shor o responsável por assinar o relatório usado para justificar a ofensiva contra os empresários — relatório este que, segundo Tagliaferro, foi produzido depois da operação já ter sido executada.

A amiga da esposa do ministro
Cada solicitação vinha acompanhada de uma expectativa de novos prints ou listas de contatos, que Letícia se apressava em obter junto à sua fonte infiltrada. O objetivo não era apenas obter provas, mas também acalmar o chefe: Moraes precisava do material até segunda-feira.
O ministro falou agora que precisa até segunda de manhã na mão dele. Falou inclusive [que] o bom seria o comentário depois da operação e o pessoal saindo do grupo, escreveu Tagliaferro, sugerindo que se tratava de uma orientação do próprio ministro.
Letícia diz que sua fonte deixou o grupo, mas teria material até o momento da “debandada”. Tagliaferro respondeu que isso já era bom, mas o difícil seria convencer o ministro a esperar. Estou falando com eles para conseguir mais prazo. Estou tentando convencer o ministro. Mas ele tem que esperar. Isso é muito bom para ele, escreveu Tagliaferro.
Já passava das 23h quando Letícia Sallorenzo sugeriu uma saída ousada: recorrer à própria esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci, para tentar obter mais prazo na entrega do material. A proposta reforçava a proximidade da jornalista com o círculo íntimo do ministro. Em depoimento ao Senado, Eduardo Tagliaferro relatou que Sallorenzo tinha acesso a festas e cerimônias privadas do gabinete às quais nem os juízes instrutores eram convidados. Para ele, tratava-se de uma atuação movida por devoção pessoal, que descreveu como “fanatismo”.
A confiança era tanta que, como a própria Letícia admitiu, a esposa de Moraes tinha seu telefone. Mas, ainda assim, demonstrou cautela: “Ele não ficaria ‘p da vida’ por vocês envolverem a mulher dele nessa história, não?”. Tagliaferro concordou: “Melhor não falar mesmo”.
A preocupação não era sem motivo — outros episódios mostraram que envolver familiares do ministro podia gerar reações duras. Foi o que ocorreu no aeroporto de Roma, em julho de 2023, quando Moraes e seus parentes se envolveram em uma confusão e troca de xingamentos com a família Mantovani, brasileiros que viajavam no mesmo voo. O episódio acabou transformado em perseguição judicial: o STF barrou a divulgação integral dos vídeos das câmeras de segurança do aeroporto, a Polícia Federal realizou busca e apreensão contra os Mantovani e produziu relatórios que, mais tarde, foram contestados por peritos independentes, levantando suspeitas de manipulação.
Mesmo assim, Sallorenzo insistiu na proximidade, oferecendo-se para ser acionada diretamente: Se ele quiser falar comigo, estou à disposição também. Diz pra ele que se ele quiser me ligar, a mulher dele tem meu telefone. A ‘Letícia Bruxa’ da UnB…, escreveu. A mensagem, entre o deboche e a vanglória, escancara o lugar privilegiado que ela ocupava na rede informal de confiança do ministro.

A entrega dos arquivos
Ao longo da conversa, Tagliaferro faz uma série de pedidos específicos: queria capturas de tela que mostrassem discurso de ódio, menções a golpe, referências ao 7 de setembro, falas de Meyer Nigri, críticas a ministros do STF ou ataques às urnas eletrônicas. Na sequência, ele insiste que a fonte deveria entregar algo que pudesse ser interpretado como indício de “golpe”, mesmo que de outro lugar. Essa cobrança marca um ponto de virada: a busca já não era apenas por registros do grupo, mas por qualquer material que pudesse sustentar uma narrativa previamente estabelecida.
Esse detalhe é crucial, porque as falas sobre golpe divulgadas na reportagem de Guilherme Amado, no Metrópoles, foram justamente apresentadas como estopim para a operação de busca e apreensão contra os empresários. O problema é que a medida foi deflagrada sem que a origem dos prints tivesse sido periciada ou certificada — ou seja, o ministro baseou-se em material sem validação formal. Por isso, encontrar novos trechos que mencionassem “golpe” se tornava uma espécie de salvação para Moraes: reforçar, ainda que retroativamente, a justificativa de uma operação já sob forte questionamento.
Diante da pressão, Letícia parece ter perdido a paciência. Até então, atuava como ponte entre o infiltrado  que A Investigação identificou como o jornalista Lucas Mesquita, que hoje atua como assessor no governo Lula , e o gabinete de Moraes, repassando fragmentos do grupo “Empresários & Política”. Mas, ao perceber a insistência de Tagliaferro, decide encerrar a intermediação: às 23h55, Letícia envia a íntegra das conversas em um arquivo de 3 MB no formato “.txt”. Junto, pede apenas a garantia de que sua identidade como fonte fosse preservada.
Antes mesmo de perceber que já tinha recebido o material, Tagliaferro encaminha uma mensagem, possivelmente de um interlocutor de Moraes, com instruções adicionais. Pelas denúncias anteriores da Vaza Toga, ele recebia orientações de dois magistrados: Marco Antônio Vargas, juiz auxiliar no TSE, que em mensagens chegou a dizer que gostaria de “mandar uns jagunços” capturar o jornalista Allan dos Santos — então nos Estados Unidos após ser incluído no inquérito das fake news —; e Airton Vieira, juiz instrutor do gabinete de Moraes no STF e seu braço direito. Foi justamente a Vieira que Tagliaferro apontou, em audiência no Senado, como responsável por ordenar a fraude nos relatórios usados para dar aparência de legalidade à operação contra os empresários.
Segundo o ex-assessor, Moraes não teria ciência de que a tarefa havia sido delegada a ele por Vieira. Tagliaferro acrescentou ainda que o juiz instrutor lhe pediu para não comentar nada sobre isso. “Se ele conseguisse ao menos os prints da conversa do grupo, a gente podia [sic] procurar nos nossos inquéritos se conseguiríamos ligar mais alguém para reforçar os fatos. Sim. Fale com o Eduardo. Daí analisamos se vale a pena esperar”, dizia a mensagem.
Esse recado é revelador. Indica que, mesmo após a operação já ter sido cumprida, o gabinete de Moraes ainda buscava elementos retroativos para dar mais corpo às acusações. Em outras palavras, os prints do grupo de WhatsApp não eram apenas um complemento, mas a matéria-prima para tentar encaixar novos nomes em inquéritos em andamento e, com isso, justificar a decisão de 23 de agosto.

Possíveis ilegalidades
O advogado Richard Campanari, especialista em direito eleitoral e civil e membro da ABRADEP (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), afirma que o caso revela uma falha séria: a ruptura da cadeia de custódia da prova, prevista nos artigos 158-A a 158-F do Código de Processo Penal. Esse mecanismo, explica, foi criado justamente para assegurar que qualquer vestígio — documentos, objetos ou mídias digitais — seja coletado, preservado e rastreado até sua apresentação em juízo, evitando manipulações.
O relato mostra exatamente o oposto: prints de WhatsApp teriam sido entregues informalmente a um gabinete ministerial, sem auto de apreensão (violando o art. 158-B do CPP), sem perícia oficial, sem hash de integridade e sem qualquer protocolo formal. Em outras palavras, não há como garantir que aquilo que se apresentou como prova seja autêntico e não tenha sido adulterado”, diz.
Segundo Campanari, quando materiais desse tipo embasam decisões restritivas — como bloqueios de redes sociais, buscas e apreensões ou constrições financeiras —, há violação ao dever de fundamentação (art. 93, IX, da Constituição), ao devido processo legal, à ampla defesa e ao contraditório (art. 5º, LIV e LV, da CF). Do ponto de vista prático, esses elementos são nulos de pleno direito (art. 157 do CPP) e contaminam tudo o que deles deriva, pela chamada teoria dos frutos da árvore envenenada.
O advogado ressalta que a denúncia de relatórios produzidos retroativamente agrava ainda mais o quadro. Criar documentos posteriores e datá-los como anteriores afronta a legalidade (CF, art. 5º, II) e a lealdade processual (art. 5º do CPC, aplicado ao processo penal). Se confirmada, essa prática pode configurar falsidade ideológica (art. 299 do Código Penal) e abuso de autoridade (Lei 13.869/2019), já que decisões judiciais teriam se baseado em peças artificiais.
Em síntese, o episódio não é apenas uma questão formal. Quando a Justiça se vale de provas sem custódia adequada e de relatórios produzidos depois dos fatos, não apenas compromete investigações específicas, mas fere a espinha dorsal do Estado de Direito. Afinal, sem prova legítima, o processo deixa de ser instrumento de justiça e passa a ser campo de arbitrariedade, afirma.
Por fim, Campanari observa que, se ficar comprovado que o ministro tinha ciência da ilegalidade e ainda assim utilizou tais provas, as consequências podem ir da nulidade dos processos à responsabilização penal, chegando até a um eventual impeachment por crime de responsabilidade. “Mais do que uma irregularidade, trata-se de uma violação grave que atinge a legitimidade do Judiciário, conclui.

O que dizem os envolvidos
Até o momento desta publicação, não recebemos retorno de Letícia Sallorenzo, Lucas Mesquita, e da assessoria do STF e do TSE. Entretanto, incluímos uma resposta genérica à imprensa feita pelo gabinete do ministro Alexandre de Moraes diante das denúncias feitas por Tagliaferro no Senado.
“O gabinete do Ministro Alexandre de Moraes esclarece que, no curso das investigações dos Inq 4781 (Fake News) e Inq 4878 (milícias digitais), nos termos regimentais, diversas determinações, requisições e solicitações foram feitas a inúmeros órgãos, inclusive ao Tribunal Superior Eleitoral, que, no exercício do poder de polícia, tem competência para a realização de relatórios sobre atividades ilícitas, como desinformação, discursos de ódio eleitoral, tentativa de golpe de Estado e atentado à Democracia e às Instituições.
Os relatórios simplesmente descreviam as postagens ilícitas realizadas nas redes sociais, de maneira objetiva, em virtude de estarem diretamente ligadas as [sic] investigações de milícias digitais.
Vários desses relatórios foram juntados nessas investigações e em outras conexas e enviadas à Polícia Federal para a continuidade das diligências necessárias, sempre com ciência à Procuradoria Geral da República. Todos os procedimentos foram oficiais, regulares e estão devidamente documentados nos inquéritos e investigações em curso no STF, com integral participação da Procuradoria Geral da República.
COMENTO: na publicação original podem ser vistas as imagens de diversas cópias de mensagens, encaminhadas por Tagliaferro ao Senado brasileiro, como comprovantes das acusações que fez. As conclusões que se chega, com base nas explanações do advogado Richard Campanari são claras e objetivas: a sociedade não deve exigir "anistia", mas sim a completa anulação dos processos e responsabilização criminal de seus responsáveis! Mas, para isso, tem que contar com o apoio de seus representantes eleitos, que estão no Congresso Nacional! 

quarta-feira, 30 de julho de 2025

A Miséria Moral dos Militares

"Antigamente, minha mãe, mulher de olhos atentos ao mundo e de palavras tão simples quanto justas, chamava a vida militar de "miséria dourada". Era uma expressão carregada de resignação, mas também de honra: sabíamos que ganhávamos pouco, mas carregávamos no peito a insígnia do dever, do serviço à Pátria, da nobreza de um ideal. 
Ser militar não era apenas profissão, era destino. E esse destino nos distinguia. Havia sacrifício, havia disciplina, mas havia também prestígio, respeito público, e sobretudo um orgulho silencioso, intrínseco, que nos fazia suportar privações com a altivez de quem serve a algo maior do que si mesmo. 
Por diversas vezes, ao longo da história nacional, foi esse espírito de serviço que conduziu as Forças Armadas a desempenharem o papel de braço forte e mão amiga da Nação, sem hesitar diante dos momentos mais críticos. Em tragédias naturais, em colapsos institucionais, em ameaças à ordem ou à soberania, coube ao militar, muitas vezes em silêncio e com recursos escassos, restituir a paz, socorrer o povo e reconstruir pontes — físicas e morais — que haviam ruído. Esse protagonismo sereno, quase sempre ignorado pelos manuais da política, era a expressão máxima do pacto entre a farda e a sociedade: um compromisso não com partidos, mas com o povo brasileiro em suas horas de maior aflição. 
Hoje, contudo, o que resta dessa dignidade? As Forças Armadas atravessam um período sombrio de desprestígio inédito. Não porque tenham deixado de cumprir sua missão constitucional, mas porque permitiram que essa missão fosse associada, por conveniência ou omissão, a um governo marcado pela corrupção, pelo despreparo e pela impostura moral. O povo, cansado de promessas e farsas, nos enxerga, não mais como reserva moral da Nação, mas como cúmplices silenciosos do desgoverno. E isso nos custa mais do que qualquer corte orçamentário: custa-nos a alma institucional. 
O soldo, que nunca foi exuberante, tornou-se um insulto em comparação com os salários nababescos de outras esferas do funcionalismo público. Como aceitar que um ascensorista do Congresso Nacional — sem responsabilidades estratégicas, sem risco, sem formação técnica especializada — receba mais do que um piloto de caça operacional, treinado para missões de vida ou morte em aeronaves de primeira linha como o F-5 ou o Gripen? 
Como justificar que um juiz de primeira instância comece sua carreira com vencimentos superiores aos de um coronel com trinta anos de serviço, responsável por dezenas de vidas e equipamentos de milhões de dólares? A resposta não está apenas nos números: está no valor simbólico que a sociedade e o Estado atribuem a cada função. E é justamente aí que a degradação se torna mais evidente. 
Porque não se trata apenas de uma desproporção econômica, mas de uma inversão de valores. Hoje, paga-se mais a quem representa privilégios do que a quem representa sacrifício. A hierarquia do mérito foi substituída pela lógica da conveniência, da burocracia e da política rasteira. O militar, que deveria ser a expressão da virtude republicana, do dever e da abnegação, vê-se convertido em funcionário mal remunerado, exposto ao escárnio dos que jamais compreenderão o sentido da palavra serviço. 
Pior: vê-se confundido com os oportunistas de plantão que instrumentalizam a farda para projetos pessoais de poder. Essa associação espúria tem sido devastadora. E, no entanto, até o momento nenhum militar da ativa em função de liderança teve a coragem de nomeá-la, de enfrentá-la e de estancar a sangria moral que esvazia o espírito da tropa. 
A exemplo do governo desgovernado, vejo as forças armadas empenhadas em tentar mudar sua imagem através de bem elaboradas campanhas de marketing. Mas, não se reconstrói o prestígio das Forças Armadas com gritos de guerra, ou com bravatas em redes sociais. 
Reconstrói-se com a restauração do mérito, com a justa remuneração, com o afastamento inequívoco de um regime espúrio, e, sobretudo, com a reafirmação de sua identidade histórica: a de defensora da Nação, da soberania e da ordem constitucional, não de governos transitórios. 
A imprensa noticiou recentemente uma reunião entre o Presidente da República, o Ministro da Defesa e o Comandante da Aeronáutica, na qual se discutiu o alarmante nível de evasão de quadros técnicos altamente qualificados na Força Aérea Brasileira. Segundo relatos da mídia, sempre prestativa em suavizar os contornos da realidade quando se trata de proteger o governo de esquerda, cogita-se a concessão de um aumento seletivo de soldo como medida para conter a debandada. 
Fico a pensar no quanto se equivocam essas autoridades ao reduzirem a crise a uma simples questão pecuniária... Compreendo o raciocínio do político — e até do ébrio — habituados a comprar consciências no varejo congressual. Mas no caso do Comandante da Aeronáutica, a perplexidade é maior: trata-se de um oficial aviador que, supostamente, deveria conhecer a alma de sua tropa. Talvez a explicação resida em sua trajetória pouco afeita à dureza da atividade operacional e demasiadamente moldada pelos macios tapetes dos gabinetes. 
E, nesse contexto, não é de surpreender que se ignore o essencial: que a verdadeira evasão não é apenas de salários, mas de espírito; não é de contracheques, mas de propósito. Ninguém, em sã consciência, entra nas forças armadas pelo salário. Hoje, a perspectiva moral de carreira para um oficial de elite, como os aviadores, ou mesmo para um técnico de altíssimo nível, como os graduados formados com rigor e excelência pela Escola de Especialistas da FAB, é sombria — para não dizer desesperançada. E não se trata apenas de estagnação salarial, mas de degradação simbólica. 
Que horizonte pode vislumbrar um jovem que arrisca a vida diariamente, operando vetores de combate de primeira linha, quando vê a Força Aérea reduzida a mera prestadora de transporte a caravanas governamentais, em animados passeios pelo país e pelo mundo? Ou, pior, a redução do Exército Brasileiro à condição humilhante de capitão do mato do Supremo Tribunal Federal, prendendo, ilegalmente, mulheres, velhos e crianças? 
Que dignidade resta quando se ouve um juiz — amparado pela toga e pela impunidade — chamar um general de mentiroso em público, sem que haja qualquer resposta institucional à altura? E o que dizer da ignomínia ainda maior: ver militares presos sem o devido processo legal, sem voz, sem defesa, enquanto seus comandantes silenciam como cúmplices ou se escondem atrás de notas evasivas? 
É nesse caldo de omissão, oportunismo e servilismo que se afoga o espírito de corpo, corroído não pelo inimigo externo, mas pela rendição interna ao poder de turno. Se a "miséria dourada" de outrora era, ao menos, redimida pelo orgulho de servir, a miséria de hoje é agravada pela vergonha de ser confundido com o que há de pior na política nacional
Aos militares de bem, digo que ainda há tempo de romper esse ciclo. É tempo de lembrar que o ouro da farda não está no metal de suas estrelas, mas no brilho moral de quem a veste com honra.
por Flavio C. Kauffmann
Piloto de Caça

terça-feira, 20 de maio de 2025

O Brasil de Cabeça Para Baixo

por Paulo Filho
O IBGE acaba de divulgar um novo mapa-múndi em que o Brasil aparece no centro do planisfério e com o Sul voltado para o topo da página. Dessa forma, o mapa representa o mundo “de cabeça para baixo” quando comparado às representações convencionais da cartografia, nas quais o Norte ocupa sempre a parte superior.
O novo mapa destaca em cores os países que integram os BRICS, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o Mercosul e o Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).
Do ponto de vista técnico, a opção por uma representação invertida por parte de um órgão oficial é, no mínimo, controversa. Mapas são tradicionalmente norteados não por convenção aleatória, mas com base em acordos cartográficos internacionais respaldados por critérios geográficos cientificamente aceitos. Alterar essa lógica arbitrariamente pode gerar confusão e comprometer a clareza informativa, especialmente em contextos educacionais.
Mas o que está em jogo aqui são razões essencialmente políticas — e é sobre elas que me proponho a refletir. A inversão foi justificada pelo presidente do IBGE, Márcio Pochmann, em suas redes sociais: A novidade busca ressaltar a posição atual de liderança do Brasil em importantes fóruns internacionais como no BRICS e Mercosul e na realização da COP 30 no ano de 2025.
A justificativa de Pochmann revela o intento simbólico do mapa: transmitir dois recados. O primeiro, de que o Brasil está “no centro do mundo”; o segundo, de que o chamado “Sul Global” seria agora uma espécie de “novo Norte”, apto a liderar o restante do planeta.
É inegável que mapas embutem visões de mundo e hierarquias simbólicas. A projeção de Mercator — com a qual fomos familiarizados desde os primeiros anos escolares — é uma projeção cilíndrica que mantém as formas dos países, mas distorce suas proporções. Como resultado, os países localizados em altas latitudes, majoritariamente no Hemisfério Norte, parecem maiores do que realmente são. A Groenlândia, com seus 2,1 milhões de km², muitas vezes aparenta ser maior do que a Austrália, que tem 7,7 milhões de km² — mais de três vezes seu tamanho real. Pensando bem, talvez tenha sido essa representação que inspirou a fixação de Donald Trump pela Groenlândia.
Outras nações também moldam os mapas segundo sua própria cosmovisão. Os chineses, por exemplo, utilizam representações em que a China ocupa o centro do mundo — algo coerente com seu nome nativo: Zhōngguó (中国), ou “País do Meio”. O primeiro caractere, 中 (zhōng), significa “meio” ou “centro”; o segundo, 国 (guó), quer dizer “país” ou “nação”. Historicamente, o nome reflete a auto percepção da China como o epicentro civilizacional do mundo conhecido, sobretudo durante os períodos imperiais. Essa centralidade tem sentido não apenas geográfico, mas também cultural, simbólico e político. Porém, nesse tipo de mapa, o Atlântico Sul — tão relevante para o Brasil — praticamente desaparece. Um navegador brasileiro que usasse essa carta para alcançar Angola provavelmente teria dificuldades.
Uma definição simples de geopolítica é que ela trata da aplicação do poder sobre um espaço geográfico. Sob essa ótica, não há novidade na intenção do presidente do IBGE ao usar uma representação cartográfica para transmitir uma mensagem política.
É justamente aí que reside, a meu ver, o erro do mapa. Ao colocar o Brasil voltado para o Sul, ele simbolicamente nos posiciona de costas para o Norte. Isso é problemático por diversas razões — culturais, econômicas e estratégicas. Mas escolho aqui uma motivação simbólica e histórica, relacionada à data da divulgação do mapa: 7 de maio de 2025, véspera do 80º aniversário da vitória aliada na Segunda Guerra Mundial.
O Brasil enviou 25 mil soldados ao “Norte Global” — mais especificamente à Itália — para combater o nazifascismo. Centenas deles não retornaram. Se o mapa do IBGE destacasse os países aliados na Segunda Guerra, muitos daqueles representados em tons neutros teriam de ser coloridos para marcar os que, juntamente com o Brasil, derramaram o sangue de seus cidadãos em defesa da liberdade e da democracia.
Aliás, se o critério fosse destacar os países democráticos, talvez também houvesse uma inversão inesperada: o IBGE teria que apagar a cor de muitos dos países hoje realçados, justamente por não promoverem a democracia que o Brasil, em sua Constituição, se compromete a promover e defender.
Paulo Filho é oficial do Exército, formado na AMAN, em 1990.
Seus textos são fruto de suas reflexões, estudos e experiências,
pessoais e profissionais. Não fala em nome do Exército.
COMENTO: Essa mudança do mapa-múndi pelo IBGE de Lula me parece ser muito mais do que uma prestidigitação para distrair a atenção da população dos problemas que o Brasil está enfrentando. É uma mostra de como o IBGE pode estar sendo usado para, também, maquiar os dados oficiais do país de acordo com os interesses de quem está no governo, particularmente os números da inflação e do crescimento econômico. Notícias de desconforto dos funcionários do órgão com as atitudes do atual chefe ratificam essa intuição. Aparentemente, para o PT, além da democracia, a matemática também é relativa.
Resta saber como o Meridiano de Greenwich e as bússolas receberão a novidade brasileira.