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quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Vaza Toga: A Bruxa, o Infiltrado e o Delator

Novas conversas sugerem que provas foram fabricadas após a operação contra empresários bolsonaristas
Nossa reportagem teve acesso exclusivo a conversas de WhatsApp entre Eduardo Tagliaferro — então chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação (AEED) do TSE — e a jornalista Letícia Sallorenzo, conhecida como “Bruxa”. As mensagens expõem como, em agosto de 2022, durante o auge da campanha eleitoral, dados privados de empresários ligados a Jair Bolsonaro foram repassados clandestinamente ao tribunal, dias depois de Alexandre de Moraes deflagrar uma operação de busca e apreensão contra eles.
Esta operação, de 23 de agosto, justificada apenas com base em uma reportagem, atingiu em cheio o núcleo empresarial que seria responsável tanto pelo financiamento quanto pela amplificação digital do bolsonarismo. Com os bloqueios bancários e de redes sociais, a capacidade de mobilização empresarial foi cortada de maneira abrupta — silenciando vozes de peso justamente às vésperas do primeiro debate presidencial na Band, em 28 de agosto.
A investigação só foi arquivada por Alexandre de Moraes um ano depois, já com Lula na Presidência. O ministro concluiu que, em relação a seis empresários, faltavam elementos mínimos e não havia justa causa para a continuidade. Restaram como alvos Meyer Joseph Nigri e Luciano Hang. No caso de Nigri, a Polícia Federal apontou vínculo direto com Jair Bolsonaro para disseminação de mensagens contra o sistema eleitoral; no de Hang, Moraes alegou que ainda era necessário analisar o conteúdo do celular, protegido por senha. As redes sociais de Hang permaneceram bloqueadas por mais de dois anos, até que em setembro de 2024 o ministro determinou sua reativação. O processo segue em sigilo total.
As conversas reveladas por nossa reportagem mostram que, diante da fragilidade da base probatória e da repercussão negativa da operação, Alexandre de Moraes pressionava seus assessores a produzir documentos retroativos. Para atender à cobrança, Eduardo Tagliaferro recorreu à Letícia Sallorenzo, que funcionava como elo entre o tribunal e um infiltrado no grupo “Empresários & Política”. A Investigação identificou o informante como o jornalista Lucas Mesquita, que hoje atua como assessor no governo Lula,
Ou seja, uma infiltração organizada foi parar diretamente no gabinete do TSE, sem qualquer cadeia formal de custódia. Prints, listas de integrantes e até a exportação completa das conversas foram entregues na noite de 27 de agosto, com o objetivo declarado de “sossegar o amigo — referência ao ministro, ansioso por fazer cessar as críticas.
O episódio expõe uma colaboradora informal, com trânsito até no círculo familiar de Moraes, alimentando diretamente o gabinete do TSE com informações privadas de um grupo fechado. Em vez de provas prévias que justificassem a ofensiva de 23 de agosto, o que se construiu foram fundamentos posteriores, moldados conforme as demandas do ministro.
Mais que um detalhe burocrático, essa confere ainda mais plausibilidade às denúncias de Tagliaferro no Senado de que relatórios datados antes da operação foram, na realidade, montados dias depois, com apoio de uma rede de informantes externos. A chamada “guerra à desinformação” aparece, assim, como pretexto para uma estrutura de vigilância política na qual a fronteira entre Estado e militância ideológica desaparece.

Uma noite daquelas
Na noite de sábado, 27 de agosto de 2022, Alexandre de Moraes estava inquieto. E não era para menos. Quatro dias antes, em 23 de agosto, havia determinado uma operação de busca e apreensão contra oito dos maiores empresários do país, mobilizando a Polícia Federal com fuzis e mandados invasivos. A justificativa oficial para uma ação de tal envergadura não veio de relatórios técnicos ou investigações consolidadas, mas de uma reportagem publicada dez dias antes, 17 de agosto, por Guilherme Amado, no Metrópoles. O texto expôs mensagens de um grupo privado de WhatsApp, o “Empresários & Política”, em que alguns integrantes fizeram comentários críticos ao STF e foram acusados de incitar um golpe de Estado caso Lula ganhasse as eleições.
Prefiro golpe a ver o PT de volta. Um milhão de vezes. E, com certeza, ninguém vai deixar de fazer negócios com o Brasil, como acontece com várias ditaduras pelo mundo, escreveu José Koury, dono do Barra World Shopping, que em seguida se tornou o principal alvo de Alexandre de Moraes. Essa foi a declaração mais polêmica usada contra os empresários. Ainda assim, o teor deixa claro que não se tratava de uma defesa explícita de golpe, mas de um desabafo.
Segundo um dos empresários contatados pela nossa reportagem, até os próprios policiais federais que cumpriram os mandados demonstravam incômodo e constrangimento durante a operação. “Eles mesmos não sabiam por que estavam fazendo aquilo”, relatou.
A operação contra os empresários — especialmente Luciano Hang, um dos principais apoiadores de Jair Bolsonaro — irritou o governo e acendeu o alerta político. O episódio ocorreu em plena campanha eleitoral, já fortemente polarizada e a poucos dias do primeiro debate na TV. O desconforto aumentou porque, no mesmo dia, Alexandre de Moraes recebeu no TSE o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, em reunião de cerca de uma hora para discutir as sugestões das Forças Armadas para as eleições — especialmente ajustes no teste de integridade das urnas e a coordenação de segurança do pleito.
O ministro, ciente de que a narrativa pública podia desmoronar, pressionava seus assessores para produzir documentos que servissem como lastro retroativo à decisão. Segundo o ex-assessor Eduardo Tagliaferro, hoje delator de todo o esquema, Moraes exigia que na segunda-feira seguinte, 29 de agosto, tivesse em mãos material atualizado sobre os alvos. Naquele mesmo dia, o ministro retiraria o sigilo do processo para tentar acalmar a opinião pública.
Tagliaferro, então chefe do núcleo de enfrentamento à desinformação (AEED) do TSE, recorreu à colaboradora externa conhecida como “Bruxa”, que A Investigação já identificou como a jornalista Letícia Sallorenzo. Esta atuava como ponte entre o TSE e uma fonte infiltrada no grupo dos empresários. Segundo ela, a mesma fonte que abasteceu o jornalista Guilherme Amado do Metrópoles.
Sallorenzo contatou Tagliaferro logo no início da conversa, às 20h30, para pedir censura contra o deputado Marcos Pollon (PL-MS), então um advogado e ativista pró-armas. Ela indicou um texto do site "Come Ananás" como referência. O procedimento de censura já normalizado não necessitava de instruções detalhadas: “Todo seu!”, disse Sallorenzo. O texto indicado contra Pollon, deletado do site, mas recuperado pela reportagem em um serviço de arquivamento, destacava uma crítica do advogado a Moraes: “supremo ditador”.
No entanto, Tagliaferro a avisa de que está muito ocupado, pois trabalha para o ministro em uma investigação sigilosa. Mesmo assim, ele pede que ela vasculhe publicações antigas ligadas aos “empresários”. Sallorenzo, já sabendo do que se trata, responde que tem novidades e começa a enviar capturas de tela do grupo, onde aparecem nomes como Nelson Piquet, Flávio Rocha e Luciano Hang.
Sallorenzo então afirma que enviou mais informações no aplicativo Signal ao que Tagliaferro diz que ele não tem conta neste aplicativo. Ou seja, Salorenzo atuando como assessora informal do TSE enviou informações privadas a uma conta do Signal que ela nem sabia de quem era.

Os principais alvos
Ao longo da conversa, o assessor não apenas recebia o material enviado por Sallorenzo, mas orientava o fluxo de informações de acordo com os interesses imediatos do gabinete. Ele deixa claro quais pessoas e organizações eram os principais focos da operação. Primeiro, direciona a atenção para Meyer Nigri, incorporador da Tecnisa e um dos alvos mais visados. Em seguida, pede dados sobre José Koury, dono do Barra World Shopping.
Tagliaferro diz que também precisa de informações do juiz Melek. Trata-se de Marlos Augusto Melek, que à época atuava na Vara do Trabalho de Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba (RMC). No ano seguinte, o magistrado seria afastado de suas funções pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), acusado de integrar e se manifestar no grupo de WhatsApp “Empresários & Política. Para o CNJ, essa conduta teria violado os valores éticos da magistratura. Depois, Tagliaferro passa listas com diversos alvos entre pessoas e empresas.

A “PF confiável”
Em determinado momento, Sallorenzo pergunta se era possível acessar o conteúdo do celular de Meyer Nigri, apreendido pela PF — em especial as mensagens que teriam sido recebidas e enviadas por Jair Bolsonaro em listas de transmissão. Tagliaferro responde que seria possível, mas admite que ainda não havia recebido o dispositivo. Letícia então pergunta se Tagliaferro conseguiria “colocar suas mãos no celular”. O perito responde que isso ainda iria demorar.
É então que surge a passagem mais reveladora. Sallorenzo questiona se o aparelho estava sob custódia de uma “PF confiável”. Tagliaferro confirma que sim, sugerindo a existência de um circuito paralelo dentro da corporação, formado por delegados e agentes considerados extremamente leais a Alexandre de Moraes.
Entre esses nomes aparece o delegado Fábio Shor, figura de confiança do ministro, que se tornaria central em investigações de caráter político conduzidas pela PF. Foi o próprio Shor o responsável por assinar o relatório usado para justificar a ofensiva contra os empresários — relatório este que, segundo Tagliaferro, foi produzido depois da operação já ter sido executada.

A amiga da esposa do ministro
Cada solicitação vinha acompanhada de uma expectativa de novos prints ou listas de contatos, que Letícia se apressava em obter junto à sua fonte infiltrada. O objetivo não era apenas obter provas, mas também acalmar o chefe: Moraes precisava do material até segunda-feira.
O ministro falou agora que precisa até segunda de manhã na mão dele. Falou inclusive [que] o bom seria o comentário depois da operação e o pessoal saindo do grupo, escreveu Tagliaferro, sugerindo que se tratava de uma orientação do próprio ministro.
Letícia diz que sua fonte deixou o grupo, mas teria material até o momento da “debandada”. Tagliaferro respondeu que isso já era bom, mas o difícil seria convencer o ministro a esperar. Estou falando com eles para conseguir mais prazo. Estou tentando convencer o ministro. Mas ele tem que esperar. Isso é muito bom para ele, escreveu Tagliaferro.
Já passava das 23h quando Letícia Sallorenzo sugeriu uma saída ousada: recorrer à própria esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci, para tentar obter mais prazo na entrega do material. A proposta reforçava a proximidade da jornalista com o círculo íntimo do ministro. Em depoimento ao Senado, Eduardo Tagliaferro relatou que Sallorenzo tinha acesso a festas e cerimônias privadas do gabinete às quais nem os juízes instrutores eram convidados. Para ele, tratava-se de uma atuação movida por devoção pessoal, que descreveu como “fanatismo”.
A confiança era tanta que, como a própria Letícia admitiu, a esposa de Moraes tinha seu telefone. Mas, ainda assim, demonstrou cautela: “Ele não ficaria ‘p da vida’ por vocês envolverem a mulher dele nessa história, não?”. Tagliaferro concordou: “Melhor não falar mesmo”.
A preocupação não era sem motivo — outros episódios mostraram que envolver familiares do ministro podia gerar reações duras. Foi o que ocorreu no aeroporto de Roma, em julho de 2023, quando Moraes e seus parentes se envolveram em uma confusão e troca de xingamentos com a família Mantovani, brasileiros que viajavam no mesmo voo. O episódio acabou transformado em perseguição judicial: o STF barrou a divulgação integral dos vídeos das câmeras de segurança do aeroporto, a Polícia Federal realizou busca e apreensão contra os Mantovani e produziu relatórios que, mais tarde, foram contestados por peritos independentes, levantando suspeitas de manipulação.
Mesmo assim, Sallorenzo insistiu na proximidade, oferecendo-se para ser acionada diretamente: Se ele quiser falar comigo, estou à disposição também. Diz pra ele que se ele quiser me ligar, a mulher dele tem meu telefone. A ‘Letícia Bruxa’ da UnB…, escreveu. A mensagem, entre o deboche e a vanglória, escancara o lugar privilegiado que ela ocupava na rede informal de confiança do ministro.

A entrega dos arquivos
Ao longo da conversa, Tagliaferro faz uma série de pedidos específicos: queria capturas de tela que mostrassem discurso de ódio, menções a golpe, referências ao 7 de setembro, falas de Meyer Nigri, críticas a ministros do STF ou ataques às urnas eletrônicas. Na sequência, ele insiste que a fonte deveria entregar algo que pudesse ser interpretado como indício de “golpe”, mesmo que de outro lugar. Essa cobrança marca um ponto de virada: a busca já não era apenas por registros do grupo, mas por qualquer material que pudesse sustentar uma narrativa previamente estabelecida.
Esse detalhe é crucial, porque as falas sobre golpe divulgadas na reportagem de Guilherme Amado, no Metrópoles, foram justamente apresentadas como estopim para a operação de busca e apreensão contra os empresários. O problema é que a medida foi deflagrada sem que a origem dos prints tivesse sido periciada ou certificada — ou seja, o ministro baseou-se em material sem validação formal. Por isso, encontrar novos trechos que mencionassem “golpe” se tornava uma espécie de salvação para Moraes: reforçar, ainda que retroativamente, a justificativa de uma operação já sob forte questionamento.
Diante da pressão, Letícia parece ter perdido a paciência. Até então, atuava como ponte entre o infiltrado  que A Investigação identificou como o jornalista Lucas Mesquita, que hoje atua como assessor no governo Lula , e o gabinete de Moraes, repassando fragmentos do grupo “Empresários & Política”. Mas, ao perceber a insistência de Tagliaferro, decide encerrar a intermediação: às 23h55, Letícia envia a íntegra das conversas em um arquivo de 3 MB no formato “.txt”. Junto, pede apenas a garantia de que sua identidade como fonte fosse preservada.
Antes mesmo de perceber que já tinha recebido o material, Tagliaferro encaminha uma mensagem, possivelmente de um interlocutor de Moraes, com instruções adicionais. Pelas denúncias anteriores da Vaza Toga, ele recebia orientações de dois magistrados: Marco Antônio Vargas, juiz auxiliar no TSE, que em mensagens chegou a dizer que gostaria de “mandar uns jagunços” capturar o jornalista Allan dos Santos — então nos Estados Unidos após ser incluído no inquérito das fake news —; e Airton Vieira, juiz instrutor do gabinete de Moraes no STF e seu braço direito. Foi justamente a Vieira que Tagliaferro apontou, em audiência no Senado, como responsável por ordenar a fraude nos relatórios usados para dar aparência de legalidade à operação contra os empresários.
Segundo o ex-assessor, Moraes não teria ciência de que a tarefa havia sido delegada a ele por Vieira. Tagliaferro acrescentou ainda que o juiz instrutor lhe pediu para não comentar nada sobre isso. “Se ele conseguisse ao menos os prints da conversa do grupo, a gente podia [sic] procurar nos nossos inquéritos se conseguiríamos ligar mais alguém para reforçar os fatos. Sim. Fale com o Eduardo. Daí analisamos se vale a pena esperar”, dizia a mensagem.
Esse recado é revelador. Indica que, mesmo após a operação já ter sido cumprida, o gabinete de Moraes ainda buscava elementos retroativos para dar mais corpo às acusações. Em outras palavras, os prints do grupo de WhatsApp não eram apenas um complemento, mas a matéria-prima para tentar encaixar novos nomes em inquéritos em andamento e, com isso, justificar a decisão de 23 de agosto.

Possíveis ilegalidades
O advogado Richard Campanari, especialista em direito eleitoral e civil e membro da ABRADEP (Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político), afirma que o caso revela uma falha séria: a ruptura da cadeia de custódia da prova, prevista nos artigos 158-A a 158-F do Código de Processo Penal. Esse mecanismo, explica, foi criado justamente para assegurar que qualquer vestígio — documentos, objetos ou mídias digitais — seja coletado, preservado e rastreado até sua apresentação em juízo, evitando manipulações.
O relato mostra exatamente o oposto: prints de WhatsApp teriam sido entregues informalmente a um gabinete ministerial, sem auto de apreensão (violando o art. 158-B do CPP), sem perícia oficial, sem hash de integridade e sem qualquer protocolo formal. Em outras palavras, não há como garantir que aquilo que se apresentou como prova seja autêntico e não tenha sido adulterado”, diz.
Segundo Campanari, quando materiais desse tipo embasam decisões restritivas — como bloqueios de redes sociais, buscas e apreensões ou constrições financeiras —, há violação ao dever de fundamentação (art. 93, IX, da Constituição), ao devido processo legal, à ampla defesa e ao contraditório (art. 5º, LIV e LV, da CF). Do ponto de vista prático, esses elementos são nulos de pleno direito (art. 157 do CPP) e contaminam tudo o que deles deriva, pela chamada teoria dos frutos da árvore envenenada.
O advogado ressalta que a denúncia de relatórios produzidos retroativamente agrava ainda mais o quadro. Criar documentos posteriores e datá-los como anteriores afronta a legalidade (CF, art. 5º, II) e a lealdade processual (art. 5º do CPC, aplicado ao processo penal). Se confirmada, essa prática pode configurar falsidade ideológica (art. 299 do Código Penal) e abuso de autoridade (Lei 13.869/2019), já que decisões judiciais teriam se baseado em peças artificiais.
Em síntese, o episódio não é apenas uma questão formal. Quando a Justiça se vale de provas sem custódia adequada e de relatórios produzidos depois dos fatos, não apenas compromete investigações específicas, mas fere a espinha dorsal do Estado de Direito. Afinal, sem prova legítima, o processo deixa de ser instrumento de justiça e passa a ser campo de arbitrariedade, afirma.
Por fim, Campanari observa que, se ficar comprovado que o ministro tinha ciência da ilegalidade e ainda assim utilizou tais provas, as consequências podem ir da nulidade dos processos à responsabilização penal, chegando até a um eventual impeachment por crime de responsabilidade. “Mais do que uma irregularidade, trata-se de uma violação grave que atinge a legitimidade do Judiciário, conclui.

O que dizem os envolvidos
Até o momento desta publicação, não recebemos retorno de Letícia Sallorenzo, Lucas Mesquita, e da assessoria do STF e do TSE. Entretanto, incluímos uma resposta genérica à imprensa feita pelo gabinete do ministro Alexandre de Moraes diante das denúncias feitas por Tagliaferro no Senado.
“O gabinete do Ministro Alexandre de Moraes esclarece que, no curso das investigações dos Inq 4781 (Fake News) e Inq 4878 (milícias digitais), nos termos regimentais, diversas determinações, requisições e solicitações foram feitas a inúmeros órgãos, inclusive ao Tribunal Superior Eleitoral, que, no exercício do poder de polícia, tem competência para a realização de relatórios sobre atividades ilícitas, como desinformação, discursos de ódio eleitoral, tentativa de golpe de Estado e atentado à Democracia e às Instituições.
Os relatórios simplesmente descreviam as postagens ilícitas realizadas nas redes sociais, de maneira objetiva, em virtude de estarem diretamente ligadas as [sic] investigações de milícias digitais.
Vários desses relatórios foram juntados nessas investigações e em outras conexas e enviadas à Polícia Federal para a continuidade das diligências necessárias, sempre com ciência à Procuradoria Geral da República. Todos os procedimentos foram oficiais, regulares e estão devidamente documentados nos inquéritos e investigações em curso no STF, com integral participação da Procuradoria Geral da República.
COMENTO: na publicação original podem ser vistas as imagens de diversas cópias de mensagens, encaminhadas por Tagliaferro ao Senado brasileiro, como comprovantes das acusações que fez. As conclusões que se chega, com base nas explanações do advogado Richard Campanari são claras e objetivas: a sociedade não deve exigir "anistia", mas sim a completa anulação dos processos e responsabilização criminal de seus responsáveis! Mas, para isso, tem que contar com o apoio de seus representantes eleitos, que estão no Congresso Nacional! 

domingo, 25 de setembro de 2022

Armas em Funeral — Tenente Jose Conegundes do Nascimento

por Felix Maier
Faleceu em 22/09/2022 o Tenente Jose Conegundes do Nascimento, depois de sérios problemas relacionados à saúde.
Pudera! Herói da Guerrilha do Araguaia, onde atuou com risco da própria vida, o Tenente Conegundes enfrentou guerrilheiros fanáticos do PCdoB nas selvas de Xambioá, na região do Bico do Papagaio, no atual Estado de Tocantins.
A exemplo dos militares que combateram grupos terroristas e guerrilheiros de esquerda nas décadas de 1960 e 1970, como Ustra, Avólio, Lício Maciel, Curió, "Chico Dólar", o Tenente Conegundes foi deixado à própria sorte pelo Exército, que não deu o devido apoio jurídico, nem psicológico, a quem simplesmente cumpriu seu dever de defender a pátria contra o comunismo, carregando pesadelos pelo resto da vida. 
Vale lembrar que o Tenente José Vargas Jimenez, o "Chico Dólar", autor dos livros "BACABA" e "BACABA II", suicidou-se em Campo Grande, MS, em 2017. Por quê?
Em 2012, o Coronel Lício Ribeiro Maciel — também combatente na Guerrilha do Araguaia — e o Tenente Conegundes publicaram em livro físico o "ORVIL - TENTATIVAS DE TOMADA DO PODER", que já estava digitalizado e disponibilizado na internet no site A Verdade Sufocada, de Joseita Ustra, esposa do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra — confira em https://www.averdadesufocada.com/images/orvil/orvil_completo.pdf.
O "ORVIL" ("Livro", lendo-se ao contrário) foi uma obra feita por militares do Centro de Informações do Exército (CIE), na década de 1980, que seria uma resposta ao livro "Brasil: Nunca Mais", um livreco-panfleto patrocinado pelo bispo vermelho Dom Paulo Evaristo Arns, com documentos surrupiados do Superior Tribunal Militar (STM), de modo a beatificar terroristas e demonizar as Forças Armadas. No entanto, o "ORVIL", que seria publicado pela Biblioteca do Exército Editora (Bibliex), jamais foi levado ao prelo, por ordem do Governo Sarney e aquiescência do Ministro do Exército, General Leônidas Pires Gonçalves.
Em 2014, na ânsia petista de colocar militares atrás das grades, o Tenente Conegundes foi convocado pela malfadada Comissão Nacional da Verdade (CNV), para prestar depoimento aos Torquemadas do Governo Dilma Rousseff, mas não compareceu ao picadeiro petralha, demonstrando sua hombridade. "Não vou comparecer. Se virem! Não  colaboro com o inimigo" — escreveu o bravo Veterano de Xambioá no documento que o intimou.
Parabéns, Tenente Conegundes, pelo belo trabalho realizado no Exército, em combate contra guerrilheiros comunistas, na defesa da democracia. Que a sua memória não seja assassinada, calada, diminuída, esquecida de vez, como quer a esquerda assassina, derrotada e revanchista.
Deus o guarde em bom lugar e conforte a alma de seus familiares!
Missão cumprida!
Selva!
Brasil Acima de Tudo!
Fonte: adaptado de 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Crimes das FARC em Julgamento

Assim foi a atuação de cada gangue das FARC
por Colômbia em Transição
Os sete blocos da narco-guerrilha, cometeram sequestros de forma indiscriminada. A Justiça Especial para a Paz (JEP) documentou sequestros de crianças e adolescentes; execuções de sequestrados e cobranças pela devolução de corpos.
Em 20 Fev 2002, as FARC sequestraram um avião para sequestrar Jorge Géchem Turbay.  Imagem: AP/ALEJANDRO SAAVEDRA
Em sua acusação contra o Secretariado das FARC pela captura de reféns ou sequestro, a Justiça Especial para a Paz (JEP) foi enfática em que esta foi uma política que implementaram desde sua origem, para financiar suas operações. Segundo a Vara de Reconhecimento, isso convertia os seres humanos em coisas cujo valor não consistia na dignidade humana, mas no valor de barganha por dinheiro.
No Processo 0092 de 2021, a JEP documentou o que buscava cada um dos sete blocos que conformaram a narco-guerrilha das FARC, por meio do sequestro: fortalecer suas finanças, exercer domínio territorial ou forçar uma “troca de prisioneiros” com o Estado.
A Vara também revelou as principais zonas donde mantiveram os sequestrados. O Bloco Nor-ocidental, nos limites entre Antioquia, Chocó e a fronteira com Panamá; o Bloco Sul e o Ocidente, no planalto Pacífico de Cauca, Nariño e a bacia do rio Patía; o Bloco Caribe, na Serra de Perijá (fronteira com Venezuela) e o Bloco Oriental, em Meta, quando lá estava a Zona de Distensão, ou nas bacias dos rios Tunia, em Chiribiquete, Inírida, Vaupés e Apaporis.
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Bloco Oriental
Foi o maior bloco das FARC e tinha o objetivo de tomar Bogotá. Atuou em Arauca, Boyacá, Vichada, Guanía, Casanare, Cundinamarca, Tolima, Meta, Guaviare, parte de Caquetá e teve domínio nas vias que ligam Bogotá com Villavicencio, Medellín, Tunja, Melgar e Chiquinquirá.
Sua principal modalidade de sequestro foram as “pescas milagrosas”, especialmente entre 1997 e 2003. Esse termo se refere a bloqueios ilegais instalados pela insurgência nos quais sequestravam de maneira aleatória.
Também sequestraram pessoas que estavam em suas chácaras de descanso, como ocorreu com Carlos Upegui Zapata, membro da junta administrativa da Organização Ardila Lülle, e o jornalista Guillermo la Chiva Cortés.
O Bloco Oriental se aliou com bandos delinquenciais e, inclusive, membros da Força Pública para sequestrar. Em sua declaração voluntaria, Julián Gallo, vulgo Carlos Antonio Lozada, reconheceu que algumas estruturas dessa unidade executaram operações com um bando chamado os Calvos (Carecas) para realizar sequestros nas cidades. Um dos casos conhecidos pelos magistrados foi o do cidadão japonês, Chikao Muramatsu, vice-presidente de uma companhia japonesa de autopeças para veículos. Foi rendido na esquina da Calle 102 com Autopista Norte, em Bogotá, e ficou dois anos e meio no cativeiro, apesar do governo japonês ter pago por sua liberdade. Em 2003 foi encontrado, sem vida e trajado de camuflado, em San Juan de Rioseco (Cundinamarca).
Este bloco executou trocas de vitimas por familiares, pediu pagamento para devolver cadáveres de pessoas sequestradas e, também, em vários casos se negou a dar informação às famílias sobre o destino dos retidos. Sequestraram menores de idade, como no caso de uma menina de 10 anos em Fortul (Arauca) e adultos idosos, como ocorreu com Gerardo Angulo e sua esposa Carmen Rosa Castañeda, ambos de 68 anos. O casal foi assassinado por seus captores após a instrução de que se não podiam caminhar, deviam ser executados.
Comando Conjunto Central
Esta estrutura funcionou em parte do Valle, Quindío, Risaralda, Tolima, Huila, Caldas e Cundinamarca. Foi desarticulada pela Força Pública em 2000. Se financiou especialmente de sequestros após o não pagamento de extorsões e criou um grupo exclusivamente para preparar os sequestros: a Companhia Financeira Manuelita Sáenz.
Os bandoleiros do Comando Central asseguraram em depoimentos à JEP que “comprar e vender gente” foi uma pressão dos órgãos superiores por dar resultados financeiros. Um dos declarantes, Víctor Silva Eric, vulgo el Chivo reconheceu que sequestraram até bebês para cobrar por sua liberdade. Este bando também se caracterizou, segundo a JEP, por cobrar os resgates “em prestações”, e exigir pagamentos “em especie” ou com a troca do sequestrado por um familiar como garantia de pagamento.
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Bloco Sul
Há registradas ante a JEP, 21 vítimas de sequestros perpetrados pelo bloco Sul, que agia em Caquetá, Huila, Cauca, Nariño, Putumayo e Amazonas. Em uma conferencia do Estado Maior do dito bloco, em 1995, foi estabelecido que as “retenções” eram uma forma de financiamento. Também sequestraram para cumprir as metas financeiras impostas pelo Secretariado, máxima instancia de decisão da guerrilha. Assim reconheceram Milton de Jesús Toncel, conhecido como Joaquín Gómez, e Milton de Floresmiro Burbano, vulgo Martín Corena, os quais comandaram essa unidade.
A JEP estabeleceu que o bloco Sul sequestrava as pessoas que se negavam a pagar extorsões. “Duas vítimas reportaram, terem sido castigadas por não pagar as cotas, não só com a privação da liberdade, mas também com outros castigos como violência sexual e trabalhos forçados”, se lê nos autos.
Dito bloco também sequestrou políticos sob o argumento de realizar um “julgamento político”. Foi o caso de Carlos Velázquez, ex-prefeito de Funes (Putumayo), sequestrado em 14 de janeiro de 2002 e liberado quatro dias depois, quando sua esposa pagou por sua libertação.
A Coluna Móvel Teófilo Forero, uma estrutura conhecida no país por perpetrar o atentado contra o Club El Nogal, sequestrava personas que iam vender bens.As vítimas contam que as faziam dirigir-se até uma propriedade oferecida como parte do pagamento e, ao ir visitar tal propriedade, eram sequestradas”, pontualiza o documento.
A JEP também assinalou que dita unidade contava com ajuda de milicianos para tomar edifícios urbanos. Um caso lembrado é a tomada do edifício Miraflores, em Neiva (Huila), em 2001, em meio da qual foram sequestradas 16 pessoas.
Hernán Darío Velásquez, que comandou por anos a Teófilo, faz parte da dissidência Segunda Marquetalia.
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Bloco Magdalena Médio
O Bloco Magdalena Médio (BMM) era comandado por Rodrigo Londoño, Timochenko, e por Pastor Alape. Fazia presença em Santander, Norte de Santander, Antioquia e Magdalena, Cesar e Bolívar. A JEP registra 12 vítimas de sequestros cometidos por esse bloco.
Os sequestros eram uma maneira de pressionar as empresas para que pagassem extorsões. Os pecuaristas também foram continuamente extorquidos. Duas vitimas efetivas descrevem como, depois de efetuado o pagamento e a liberação, o grupo armado as continuava fustigando e ameaçando para que desembolsassem mais dinheiro, sob a ameaça de serem detidas novamente no caso de não obedecer”, consta nos autos.
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Bloco Ocidental
Esta estrutura, que era comandada por Guillermo León Sáenz, Alfonso Cano e Pablo Catatumbo, foi responsável pelo sequestro  e posterior assassinato — dos 12 deputados do Valle del Cauca, em 11 de abril de 2002. O Bloco Ocidental atuava nesse departamento, em Chocó, Nariño e Cauca. Os sequestros imputados a essa quadrilha ocorreram em sua maioria nas proximidades de Cali, Popayán e na rodovia que comunica Cali com Buenaventura.
Tinham duas maneiras de sequestrar: mediante prévia investigação financeira sobre as vitimas; ou de maneira fortuita nas retenções ilegais de tráfego. A JEP também estabeleceu que o Bloco Ocidental reteve menores de idade.Três casos são narrados pelas vitimas conferidas, incluindo uma jovem de 15 anos e um menor de três anos”, se lê no documento. Também ocorreram execuções em cativeiro, como a de Oswaldo Díaz Cifuentes, fato que foi reconhecido pelas FARC em 2013.
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Bloco Caribe
Este bando, que operou em La Guajira, Atlántico, Cesar, Bolívar, Magdalena e Sucre, sequestrou a maioria de suas vítimas (pecuaristas, agricultores e trabalhadores de empresas) em retenções, em suas granjas ou nos lugares de trabalho ou de trânsito. A JEP registrou 65 vítimas. As retenções, ainda, foram usadas para deter caminhões de carga e saquear os bens transportados em troca de não sequestrar os condutores.Serviam também para abastecer-se de alimentos, materiais de higiene e medicamentos, entre outras coisas”, está registrado.
Como a segunda modalidade mais usada por esta quadrilha, a JEP identificou o sequestro de membros de famílias donas de fazendas de gado e agro-produtivas. As informações, segundo Abelardo Caicedo, vulgo Solís Almeida, ex-chefe da frente 59, vinham de unidades de inteligência financeira que estavam inseridas nas comissões financeiras das frentes e se dedicavam de maneira exclusiva a essa tarefa.
Roberto Lacouture foi sequestrado em 6 de outubro de 1989 pela frente 41. Os guerrilheiros instalaram um bloqueio em uma estrada de Becerril (Cesar), fizeram o pecuarista regressar a sua fazenda e, em lombo de mula, o levaram para a Cordilheira de Perijá. Esteve mês e meio amarrado a uma árvore, era ameaçado constantemente e, depois de sua família ter pago o resgate, foi libertado em 24 de dezembro. Este fato, unido ao constante roubo de gado e as ameaças, o obrigaram a se mudar”. Uma vítima relatou:Fomos 15, os sequestrados na forma de Lacouture, e nos mataram um tio”.
O sequestro de trabalhadores de empresas mineradoras do sul de Bolívar, e carvoeiras de La Guajira e Magdalena, também foi uma prática comum do Bloco Caribe. Este é o testemunho de uma vítima: “(…) estávamos na qualidade de sequestrados e a empresa devia pagar um resgate por nós e pela maquinaria que utilizávamos, mas a companhia nunca aceitou”.
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Bloco Nor-ocidental
Esta gangue, presente em Chocó, Córdoba, Caldas, Risaralda e Antioquia, utilizou três modalidades principais:Através de retenções na via, onde as pessoas eram selecionadas de maneira fortuita; para obrigar agricultores, pecuaristas e empresas a pagar extorsões; e através da seleção de pessoas que tinham chácaras de recreio nas zonas próximas às cidades principais, especialmente Medellín”.
Na primeira modalidade, a JEP identificou que se realizavam em vias principais e, ainda, que se cometeram, inclusive, contra menores de idade. Como foi o caso da menina Luisa Cano Madrid, de 5 anos. Quando ia com sua mãe em um ônibus para Urrao (Antioquia), em 15 de abril de 2000, desembarcaram elas e as sequestraram. Para libera-las, a família aceitou pagar o exigido. No entanto, para a frente 34 pareceu pouco dinheiro e somente a mãe foi liberada em 10 de junho. Em 22 de junho, finalmente, a menina foi liberada. O fato foi reconhecido pelos depoentes. Outro caso em que houve menores de idade, e que se enquadra na segunda modalidade usada, foi o sequestro de Luz González Pérez e Andrea Gil González. Luz, a mãe, foi levada pela Frente 36 em 9 de junho de 2002 de seu sítio na zona rural de Carolina del Príncipe (Antioquia). Para que a liberassem, a família teve que entregar Andrea, sua filha de 14 anos, “como garantia de pagamento”. Andrea ficou 40 dias sequestrada e só a liberaram quando foi pago o resto do dinheiro que as FARC exigiu. No total, 100 milhões de pesos (cerca de R$ 100 mil).
A Vara de Reconhecimento destaca que, apesar das “pescas milagrosas” serem cometidas por esta quadrilha, os bandidos tinham dificuldades para obter informação exata sobre a situação econômica das vítimas. Inclusive, chegaram a usar os bloqueios só para recolher informações. Assim, dois depoimentos de vítimas descrevem que foram detidas para que dessem informação à guerrilha sobre possíveis vítimas
Criadores de gado e comerciantes também foram privados de liberdade. Como foi o caso de Danilo Conta Marinelli, em 4 de agosto de 1996 em Samaná (Caldas), e de Alberto Duque Gutiérrez, em 23 de novembro de 2002 em Pacora (Caldas).
Outro fato de grande impacto foi o sequestro e assassinato do comerciante Jesús Antonio Higuita, privado da liberdade em 9 de setembro de 2004 em uma retenção na via Sonsón-La Unión (Antioquia). Sua família se negou a negociar sua libertação. “Finalmente se adotou a decisão de fuzilar o senhor e informar à família para que fossem recolher o corpo, disse um depoente. Ao local foi uma equipe de bombeiros voluntários e um motorista. Os bombeiros William Alejandro Correa e Juan Fernando Oquendo foram assassinados e o motorista teve que levar os três cadáveres. Segundo as FARC, as vítimas estavam fazendo investigações, mas as famílias negam rotundamente essa acusação.
Fonte: tradução livre de El Espectador
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Assim funcionou a macabra máquina dos sequestros das FARC
Ex-guerrilheiros dizem que havia normas para proteger os cativos. Dossiê revela até violações.
Abusos sexuais e violações. Maus tratos permanentes. Tortura psicológica através de falsos fuzilamentos. Cobrança de resgate por cadáveres. Sequestros indiscriminados, inclusive de mulheres grávidas e crianças. Trabalhos forçados. Assassinatos e desaparecimentos.
Esses crimes de lesa humanidade contra vítimas das FARC foram documentados pela JEP no extenso dossiê do Caso 001, que pôs oito antigos membros da cúpula a responder ante a justiça transicional pelos milhares de sequestros perpetrados por essa guerrilha durante mais de duas décadas.
Com uma documentação histórica que recolhe testemunhos de vítimas e desmobilizados, investigações da Procuradoria e da Justiça e Paz, além de informes de ONGs, a JEP marca o inicio dos processos contra os maiores responsáveis da narco-guerrilha que se submeteram à sua jurisdição para o cumprimento da paz.
Os magistrados reconstruíram como o sequestro indiscriminado foi uma estrategia ordenada desde a cúpula das FARC como parte de uma política que convertia os seres humanos em coisas cujo valor não radicava na dignidade humana, mas no valor da troca pelo dinheiro que tinham e que poderiam repassar à organização”.
Ainda que os ex-chefes tenham assegurado em sua defensa que os Estatutos da quadrilha proibiam as “retenções” (sic) indiscriminadas e os maus tratos aos cativos, dezenas de casos referenciados pela JEP em seu informe de 322 páginas demonstram o contrario. Assim, dizem os magistrados, a organização central (o Secretariado e o Estado Maior conjunto) focava em controlar o gasto, pedindo orçamentos e relatórios detalhados dos gastos e castigando os que davam mau uso ao dinheiro ou se o roubassem, não em disciplinar os que tratavam mal os cativos ou cometiam “erros” na seleção de vítimas”.
Os cálculos da JEP sobre o número de pessoas sequestradas pelas FARC chegam às 21.396 desde os anos 80 (o mais alto até agora, realizado por uma autoridade colombiana). Delas, 1.860 estão reportadas como vítimas de desaparição forçada e outras 627, como assassinadas.
O que diz a Justiça Especial para a Paz é que a ordem que tinham todas as frentes era, sem importar como, conseguir recursos para o secretariado.A Vara determinou, a partir da comparação de fontes, que cada comandante de frente tomava as decisões relativas à seleção da vitima e as decisões próprias do tratamento dado às pessoas sequestradas, assim como as decisões sobre a seleção das pessoas que as custodiavam, a negociação das liberações e o desfecho do cativeiro”.
E prossegue:O funcionamento das FARC dava a esses comandantes uma grande discricionalidade nesses assuntos, já que o interesse da organização a nível central era no dinheiro e não na forma em que se conseguía”.
Segundo o documento, vários grupos acostumaram a ‘negociar’ pessoas sequestradas por delinquentes comuns, e a ‘tarifa’ era de entre 10 a 15 por cento do resgate obtido.
Raúl Medina Agudelo, um ex-chefe de frente, assinalou: “O secretariado jamais dizia 'sequestre dez pessoas', somente me diziam: tem que cumprir a meta estabelecida”.
Negar-se a pagar o resgate conduzia a um só resultado: a morte, que em todos os casos era, sim “consultada a instâncias superiores”. Mas a informação sobre o propósito final do corpo e os contatos posteriores com as famílias ficavam nas mãos de chefes locais. Isto dava margem a novos delitos.
Outra modalidade especialmente grave identificada pela Vara para este Bloco (o Oriental) é a cobrança pelo cadáver — diz o documento — (...) Algumas das vítimas de privações da liberdade levadas a cabo pela Frente 22 narraram fatos relacionados com a cobrança de pagamento para recuperação do cadáver de seu familiar sequestrado e morto em cativeiro”. Isso ocorreu com a família de Rafael Moreno, a quem pediram 199.510 milhões de pesos (+/- 200 mil reais) pelo corpo.
O dossiê recolhe as denuncias de maus tratos e abusos cometidos por guerrilheiros:Dos 1.480 fatos reportados por vítimas registradas, 38 incluem violência sexual de maneira explícita, com e sem acesso carnal”.
Até mesmo a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt denunciou ante a JEP que “foi vítima de toques e gestos obscenos que não eram castigados, mas sim celebrados pelos comandantes”. Ela também foi vítima “de golpes na cabeça, com as coronhas de fuzis e socos em diferentes partes de seu corpo”. Outros sequestrados denunciaram que, para aterroriza-los, os guerrilheiros fingiam falsos fuzilamentos.
Os membros do secretariado e o Estado Maior são apontados pela JEP como máximos responsáveis dos crimes cometidos pelos homens a seu comando.
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¿Foi sequestro ou tomada de reféns?
Não tem faltado polêmica após a decisão da Jurisdição Especial para a Paz (JEP) de trocar o nome do Caso 01, que passou deRetenção ilegal de pessoas por parte das FARCpara Tomada de reféns e outras privações graves de liberdade.
A decisão, segundo explicou a magistratura dessa jurisdição, se deu para fixar o termo jurídico que recibe o delito de sequestro à luz do Direito Penal Internacional. Mas, algumas vozes manifestaram seu repúdio.
A JEP não pode minimizar a gravidade do que foi o sequestro por parte das FARC chamando agora ‘tomada de reféns e privações de liberdade’, isso é inaudito, quando o que houve foram graves violações à dignidade humana”, escreveu em seu Twitter a senadora do Centro Democrático, María del Rosario Guerra.
Por sua parte, a senadora Paloma Valencia disse:Se bem que se inclui como delito de lesa humanidade, não me agrada o nome. Foram sequestros extorsivos, com os quais as FARC tiraram mais de $5 bilhões em recursos das famílias.
Advogados especialistas no tema, coincidiram em explicar que, ao contrario das críticas, a denominação de ‘toma de reféns’ eleva a gravidade dos fatos. Para Juana Acosta, professora de Direito Internacional da Universidade de La Sabana, os fatos  analisados se referem a privações graves de liberdade, que no direito nacional tem sido qualificadas tradicionalmente como sequestros. No entanto, explica, quando estas condutas incluem certos elementos de contexto, como ser sistemáticas e/ou generalizadas, ou estão relacionadas com o conflito armado,podem e devem ser qualificadas, não como delitos nacionais, mas sim como crimes internacionais, de guerra e de lesa humanidade.
Segundo a advogada, dada a gravidade destes crimes, se não fossem investigados pelos próprios Estados, poderiam ser investigados pela Corte Penal Internacional e poderiam ativar o exercício da jurisdição universal por Estados diferentes a Colômbia.
Nessa mesma linha, Juan Felipe García, diretor do departamento de Filosofia e Historia do Direito da Javeriana, assegurou que chamar no Caso 01 toma de reféns, em lugar de sequestro,não é uma redução, mas sim, amplia o espectro de condutas”.
Frente à denominação deste delito no sistema de Justiça e Paz, pelo qual se desmobilizaram os Paramilitares, García assegurou que essa jurisdiçãotinha a limitante de circunscrever suas imputações à linguajem do ordenamento jurídico colombiano, por isso ali se manteve o termo de sequestro.Um dos aprendizados é que se necessitava dar competência à JEP para que seu marco jurídico se ampliasse. E se ampliou à linguajem do Direito Penal Internacional, indicou García.
Fonte: tradução livre de El Tiempo

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

A Intentona Comunista no Rio de Janeiro — 1935

por Clynson Oliveira
Coronel Inativo do EB
(Monumento aos Mortos na Intentona Comunista de 1935)
[..] Na madrugada do dia 27 de novembro de 1935, alguns sediciosos sublevaram-se no Rio de Janeiro, na Escola de Aviação, no Campo dos Afonsos e no 3º Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, onde vários militares foram mortos por seus próprios companheiros. [..]   (Exército Brasileiro, 1990).
Recebi, em 2014, a missão de comandar o Batalhão de Infantaria de Selva mais jovem do Exército Brasileiro, o 3º BIS, herdeiro das tradições e guardião das memórias do 3º Regimento de Infantaria, cuja honra fora manchada por integrantes comunistas de suas fileiras.
Contar esta história é mais que uma obrigação, mas um dever de eternizar e manter viva a chama da verdade em homenagem aos heróis mortos e suas famílias.
Na madrugada de 27 de novembro, insurgia-se, no Distrito Federal (Rio de Janeiro), parte das guarnições do 3º Regimento de Infantaria (3º RI), na Praia Vermelha, e da Escola de Aviação, no Campo dos Afonsos.
O capitão Agildo Barata Ribeiro, expulso do Exército em 1932 por insubordinação, exilado em Portugal até 1934 e readmitido ao Exército Brasileiro, após a anistia geral decretada pela Assembleia Constituinte foi o líder da insurreição no 3º RI.
Agildo Barata Ribeiro já havia sido punido com 25 dias de prisão por desenvolver intensa atividade política. Foi transferido para o Rio de Janeiro para cumprir a punição e, em conluio com o Tenente Francisco Antônio Leivas Otero, chefe da célula local do PC e da ANL, articulou o levante no 3º RI.
O 3º RI era a unidade militar de maior prestígio do Exército, completa em equipamento e pessoal, contava com mais de 1700 militares subordinados. Também, foi a unidade do Exército Brasileiro onde a doutrinação de oficiais e praças atingiu seu ápice.
Na calada da noite, Leivas Otero iniciou o levante encurralando seus camaradas. Foram recebidos a fogo pelos militares das companhias de metralhadoras. O primeiro a morrer foi o Major Mendonça, atingido pelos insurgentes que tinham como intenção dominar o Regimento e marchar em direção ao Palácio do Catete, sede do governo brasileiro, para destituir o então presidente Getúlio Vargas.
Ao mesmo tempo, do outro lado da cidade, a escola de Aviação do Campo dos Afonsos, se insurgia sob o comando do capitão Agliberto, que assassinou a sangue frio seus subordinados, tenentes Bragança e Paladini e capitão Souza Melo.
O heroico Tenente Coronel Eduardo Gomes foi o comandante da reação aos revoltosos, que manteve o fogo até a chegada dos reforços de tropas da Vila Militar, comandadas pelo General José Joaquim de Andrade.
Em clima de guerra, o 3º RI foi bombardeado por terra, céu e mar. As instalações do Regimento na Praia vermelha foram destruídas por completo. O saldo em baixas foi de 19 mortos e 167 feridos.
(Frente do 3º RI após ser bombardeado)
Os comunistas, obcecados pelo poder a qualquer custo, fanáticos comandados pela matriz internacional da subversão tentaram implantar um regime totalitário, de inspiração marxista-leninista. O povo brasileiro, atônito e chocado, viu-se pela vez primeira ante a verdadeira face do comunismo liberticida e materialista”. (Exército Brasileiro, 1985).
Lembrar sempre desta data é uma advertência à nossa geração, não para enfatizar uma vitória, mas, tristemente, para lembrar-se do que fere a sensibilidade do profissional militar, sempre e até hoje.
A incitação ao levante pelas armas, promovido por ideólogos marxistas, tem que ser combatida e reprimida, para que esta chacina promovida no passado, não ocorra nem no presente e nem no futuro.
Eis porque desejo que os civis e o País sejam informados e absorvam a versão correta de um trágico fato que envergonha a nossa história.
Após os fatos narrados, as consequências para o Brasil foram a decretação da clandestinidade do Partido Comunista Brasileiro e a prisão dos líderes. Entretanto, eles todos, voltaram ao PODER no cenário nacional em diversas ocasiões.

Insurgentes de Natal
Lauro Lago, José Macedo e João Galvão foram presos e são personagens do livro as Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos. Foram anistiados em 1945, após a segunda Guerra Mundial.
José Praxedes fugiu à pé e se escondeu no meio da mata por quase dois anos. Após ser localizado por agentes do PCB, recebeu nova identidade e se internou no interior da Bahia até 1984 quando veio a falecer.
O “Santa”, líder e assessor do PCB, foi preso com um relatório detalhado sobre a Insurreição. Inexplicavelmente não foi identificado nem nos inquéritos do Rio de Janeiro e nem no de Recife. Anistiado em 1945, até hoje não se sabe a identidade e o paradeiro de um dos maiores nomes da Revolução.
Todos os demais envolvidos na Insurreição foram presos por mais de 8 anos, sendo todos anistiados em 1945.

Insurgentes de Recife
Gregório Bezerra foi preso e anistiado em 1945. Tornou-se um político famoso, sendo eleito deputado pela constituinte de 1946, sendo cassado em 1948. Viveu na clandestinidade organizando ligas camponesas armadas no interior de Pernambuco e núcleos sindicais no Paraná e Goiás.
Foi preso novamente em 1964 por estar envolvido com a luta armada e a subversão, tendo sido solto em 1969 em troca da devolução do embaixador Charles Elbrick, sequestrado por terroristas. Viveu no México e na Rússia tendo retornado ao Brasil em 1979 após a promulgação da Lei da Anistia. Morreu em 1983.

Insurgentes do Rio de Janeiro
Luis Carlos Prestes foi preso e condenado por assassinato, logo após a tentativa frustrada da Intentona Comunista. Foi anistiado em 1945 e eleito Senador de 1946 a 1948, além de ser o secretário Geral do Partido Comunista Brasileiro até 1980.
Durante o período do Regime Militar, se auto exilou na União Soviética, tendo retornado ao Brasil, voluntariamente, após a promulgação da Lei da Anistia em 1979, vindo a falecer em 1990.
Agildo Barata Ribeiro foi preso e condenado por subversão após o insucesso da Intentona Comunista, sendo anistiado em 1945.
Foi eleito vereador pelo Rio de Janeiro de 1947 a 1948, quando seu mandato foi cassado e o PCB colocado na ilegalidade no Brasil.
Desligou-se do PCB quando descobriu, após o relatório de Nikita Krushev, os crimes hediondos e contra a humanidade cometidos por Stalin. Morreu em 1968.
Infelizmente a bandidolatria no Brasil não é uma prerrogativa do século XXI, mas é sim, um triste legado. As tentativas dos “isentões” da época em anistiar e reintegrar esses contumazes ideólogos da liberdade, amantes do terrorismo e da violência, não os recuperou da insana vontade eterna de tomar o PODER.
Que estes eventos nos lembrem sempre que o “o Preço da Liberdade é a eterna vigilância”.
Fonte:  Medium
COMENTO:  Ivis Bezerra, médico e professor da UFRN publicou um minucioso relato sobre os fatos ocorridos em Natal, citando diversos outros nomes que não contam no texto acima. Nesse relato, o autor cita que o misterioso "Santa" seria um mestre de obras com nome de João Lopes e o relatório que ele havia feito foi apreendido com Luis Carlos Prestes por ocasião da prisão deste. Na mesma página da Internet, há a transcrição de um depoimento que teria sido dado por João Lopes, o "Santa"  e "Marisa", sua companheira  que se restringe à sua ida para o Nordeste e ao período em que esteve preso. Neste relato, percebe-se que ele não foi identificado como o membro do PCB enviado a Natal para organizar a revolução. Tudo isto só reforça a minha impressão, já expressa no comentário publicado aqui, aqui e aqui, de que, o "Partidão" sempre teve um agente duplo em sua alta direção.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Sequestros, Esta é a Palavra Correta

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SEQUESTROS, COM LETRA E SANGUE
Ofende às vítimas saber que as FARC falam ante a JEP de "retenções".
Como se fosse pouco para um ser humano estar meses ou anos acorrentado, humilhado. 
A reparação também é moral.
Os discursos justificatórios das FARC, agora Partido FARC, minimizando as atrocidades cometidas por seus guerrilheiros enquanto estiveram imersos no conflito armado contra o Estado colombiano, não conhecem limites.
Ofende a centenas de milhares de vitimas seu discurso nas audiências da JEP (Jurisdição Especial de Paz) “suavizando” o teor humilhante e desumano de seus crimes.
Denominar “retenções” a sequestros que demoraram meses e anos, dos quais muitas vitimas nunca regressaram ou após os quais suas vidas foram afundadas em traumas e recordações de horrores é mais um dos malabarismos verbais que se chocam contra a necessidade, e a obrigação  segundo os acordos firmados com o Estado , de dizer a verdade, de garantir a não repetição e de reparar não só economicamente mas também moralmente a esteira de vitimas que deixaram.
O idioma e suas acepções oferecem claridade: uma retenção talvez poderia aludir a que um dos bandos de uma confrontação prive da liberdade transitoriamente a civis em circunstancias de combate, de hostilidade, de comprovação de informações de Inteligencia, mas os sequestros das FARC contra diferentes personalidades do país fizeram parte de uma rede de cálculos criminais de intimidação da sociedade, de crueldade, de ostentação de “poder” e humilhação aos cidadãos, que se prolongaram com implacável desprezo pela vida e a humanidade.
Nos acordos de Havana com as FARC, assim como na sua evolução normativa, os compromissos da ex-guerrilha são claros: incluem a não re-vitimização. Se os reincorporados não os cumprirem, podem ter revogados os múltiplos benefícios jurídicos concedidos.
Por sua parte, a Jurisdição Especial de Paz (JEP) não é espectadora passiva do que queiram indigitar os responsáveis de crimes tão cruéis como o sequestro. Embora em uma primeira etapa processual devam ser registrados os testemunhos, chegará o momento em que devem valorar, contrastar, contra-interrogar, questionar e, finalmente, julgar. Julgar com a lei nas mãos, com as definições precisas sob as quais as normas tipificam os crimes de guerra e delitos de lesa humanidade.
A carta da líder política Ingrid Betancur para a JEP retrata essa indignação, em dupla via: a primeira, porque se inteirou das categorias e do relato manipulado dos ex-combatentes, nas audiências, por versões dos meios de comunicação, não dos magistrados e do sistema de justiça transicional.
O segundo, que é o mais profundo e que é a substância deste editorial, porque a historia de sofrimento e ignominia que padeceram as vitimas dessa guerrilha, em especial os sequestrados (hoje vivos ou mortos), pode ser enterrada e seus efeitos jurídicos e judiciais diluídos no esquecimento e na impunidade.
Varias linhas da carta de Íngrid descrevem a surpresa e o mal estar: “O agrilhoamento era parte de sua obsessão com o castigo para nos quebrar psicologicamente (...) Se apropriaram de minha vida, de meu tempo familiar e laboral (...) para me usar como escudo militar, moeda de troca e plataforma midiática”. Por isso, adverte ela com razão que “perdão não é esquecimento. Tampouco é impunidade”.
Se o Partido FARC e os desmobilizados pretendem se insertar realmente na vida do país, e na civilidade, deverão entender que sua aceitação não significa esquecimento nem este relato lânguido e eufemístico de suas atrocidades.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

50 Anos do Assassinato do Capitão Chandler — Esquecer Também é Trair

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Em 12 de outubro de 1968, foi assassinado, friamente, na frente da família, quando saía de casa, em São Paulo, o Capitão do Exército dos Estados Unidos Charles Rodney Chandler, vítima de sua cidadania (ver relato completo no ORVIL  Tentativas de Tomada do Poder, pag. 285, 306, 308, 309, 310, 311 e 312).
Charles Rodney Chandler cursava a Escola de Sociologia e Política da Fundação Álvares Penteado, foi morto na porta de sua residência, no Sumaré, na frente da esposa e de um filho de 9 anos, a tiros de metralhadora, por Marco Antonio Brás de Carvalho, Pedro Lobo de Oliveira e Diógenes José Carvalho de Oliveira, todos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Marco Antonio Braz de Carvalho, o “Marquito”, era o homem de confiança de Marighella, que dirigia o Agrupamento Comunista de São Paulo e que fazia ligação com a VPR. Em setembro, ele levou para Onofre Pinto, então coordenador-geral da VPR, a possibilidade de ser realizada a ação de “justiçamento” do Capitão do Exército dos Estados Unidos da América, Charles Rodney Chandler, aluno bolsista da Escola de Sociologia e Política, da Fundação Alvares Penteado, e que morava em São Paulo com a esposa e dois filhos pequenos. Segundo os “guerrilheiros”, Chandler era um “agente da CIA” e “encontrava-se no Brasil com a missão de assessorar a ditadura militar na repressão”.
No início de outubro, um “tribunal revolucionário”, integrado por três dirigentes da VPR, ou seja, Onofre Pinto, como presidente, João Carlos Kfouri Quartim de Morais e Ladislas Dowbor, como membros, condenou o Capitão Chandler à morte. Graças a levantamentos realizados por Dulce de Souza Maia, sobre a vítima apurou-se os horários habituais de entrada e saída de casa, costumes, roupas que costumava usar, aspectos da personalidade, dados sobre os familiares e sobre o local em que residia, na casa da Rua Petrópolis no 375, no tranquilo bairro do Sumaré, em São Paulo.
Escolhido o “grupo de execução”, integrado por Pedro Lobo de Oliveira, Diógenes José Carvalho de Oliveira e Marco Antonio Braz de Carvalho, nada é mais convincente, para demonstrar a frieza do assassinato do que transcrever trechos do depoimento de Pedro Lobo de Oliveira, um dos criminosos, publicado no livro — Caso, Antonio: “A Esquerda Armada no Brasil”, Moraes Editores, Lisboa-Portugal, 1976, pág 162:
“Como já relatei, o grupo executor ficou integrado por três companheiros: um deles levaria uma pistola-metralhadora INA, com três carregadores de trinta balas cada um; o outro, um revólver; e eu, que seria o motorista, uma granada e outro revólver. Além disso, no carro, estaria também uma carabina M-2, a ser utilizada se fôssemos perseguidos pela força repressiva do regime. Consideramos desnecessária cobertura armada para aquela ação. 

Tratava-se de uma ação simples. Três combatentes revolucionários decididos são suficientes para realizar uma ação de ‘justiçamento’ nessas condições. Considerando o nível em que se encontrava a repressão, naquela altura, entendemos que não era necessária a cobertura armada”.
A data escolhida para o crime foi o dia 8 de outubro, que assinalava o primeiro aniversário da morte de Guevara. Entretanto, nesse dia, Chandler não saiu de casa, e os três terroristas decidiram suspender a ação. Quatro dias depois, em 12 de outubro de 1968, chegaram ao local às 7 horas. Às 8 horas e 15 minutos, Chandler dirigiu-se para a garagem e retirou o seu carro, em macha à ré. Enquanto seu filho, de 9 anos, abria o portão, sua esposa aguardava na porta da casa, para dar-lhe adeus. Não sabia que seria o último.
Os terroristas avançaram com o Volkswagen, roubado antes, e bloquearam o caminho do carro de Chandler. No relato de Pedro Lobo (idem, pag. 164),nesse instante, um de meus companheiros saltou do Volks, revólver na mão, e disparou contra Chandler”. Era Diógenes José Carvalho de Oliveira, que descarregava, à queima roupa, os seis tiros do seu Taurus de calibre .38.
E prossegue Pedro Lobo (ibidem, pag. 164-165), que dirigia o carro:
Quando o primeiro companheiro deixou de disparar, o outro aproximou-se com a metralhadora INA e desferiu uma rajada. Foram catorze tiros. A décima quinta bala não deflagrou, e o mecanismo automático da metralhadora engasgou (deixou de funcionar). Não havia necessidade de continuar disparando. Chandler já estava morto. Quando recebeu a rajada de metralhadora, emitiu uma espécie de ronco, um estertor, e então demo-nos conta de que estava morto”.
Quem portava a metralhadora era Marco Antonio Braz de Carvalho.
A esposa e o filho de Chandler gritaram. Diógenes apontou o revólver para o menino que, apavorado, fugiu correndo para a casa da vizinha. Após Pedro Lobo ter lançado os panfletos, nos quais era dito que o assassinato fora cometido em nome da revolução brasileira, os três terroristas fugiram no Volks, em desabalada carreira.

É interessante observarmos o destino dos sete envolvidos no crime:
— Marco Antonio Braz de Carvalho (“Marquito”), que deu a rajada de metralhadora, viria a falecer, em 26 de janeiro de 1969, após troca de tiros com a polícia.
 Onofre Pinto, o presidente do “tribunal revolucionário” que condenou Chandler à morte. Ex-sargento do Exército, foi preso em 2 de março de 1969 e banido para o México, em 5 de setembro, trocado pelo Embaixador dos Estados Unidos, que havia sido sequestrado. Em outubro, foi a Cuba onde ficou quase dois anos, tendo feito cursos de guerrilha. Em junho de 1971, foi para o Chile, com cerca de 20 mil dólares. Em maio de 1973, foi expulso da VPR, tendo sido acusado de “conivência com a infiltração policial no nordeste”, com referência às quedas dessa organização em dezembro de 1972. Temendo ser “justiçado” pela VPR, fugiu para a Argentina onde desapareceu, misteriosamente, em meados de 1974.
— João Carlos Kfouri Quartim de Morais, um dos membros do “tribunal revolucionário”, foi expulso da VPR, em janeiro de 1969, alguns meses depois, fugiu do Brasil, com dinheiro da organização. Radicou-se em Paris, onde foi um dos fundadores da revista “Debate”. Professor universitário e jornalista, ele regressou a São Paulo após a anistia, sendo um dos diretores da sucursal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Em 1983, foi nomeado Secretário de Imprensa do Governo de Franco Montoro, em São Paulo.
— Ladislas Dowbor (“Jamil”), também membro do “tribunal”, foi preso, em 21 de abril de 1970, e banido, em 15 de junho, para a Argélia, em troca do Embaixador alemão, outro sequestrado. No exterior, casou-se com Maria de Fátima da Costa Freire, filha do educador comunista Paulo Freire. Após passar por vários países, dentre os quais, Suíça, Itália, Polônia, Chile, Portugal, Cuba e Guiné-Bissau, retornou ao Brasil, após a anistia, e aqui leciona Economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e na Universidade de Campinas.
— Dulce de Souza Maia, que realizou os levantamentos sobre Chandler, foi presa, em 27 de janeiro de 1969, e banida para a Argélia, em 15 de junho. Tem curso em Cuba e percorreu diversos países, tais como, Chile, México, Itália e Guiné-Bissau, onde passou a trabalhar para o seu governo. Retornou a São Paulo em agosto de 1979, passando a desenvolver atividades em movimentos pacifistas, tendo sido eleita, em 1980, presidente do “Comitê de Solidariedade aos Povos do Cone Sul”.
— Pedro Lobo de Oliveira, o motorista da ação criminosa, foi preso em 23 de janeiro de 1969, quando pintava um caminhão com as cores do Exército, para o assalto ao quartel do 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna. Em 15 de julho de 1970, foi banido para a Argélia, em troca do Embaixador alemão. Em fins daquele ano, foi para Cuba, onde fez curso de guerrilha. Após passar por vários países, dentre os quais Chile, Peru, Portugal e República Democrática alemã, ele voltou a São Paulo, em novembro de 1980, indo trabalhar como gerente de um sítio em Pariquera-Açú, de propriedade da família de Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado de subversivos e um dos dirigentes nacionais do Partido dos Trabalhadores.
— Finalmente, Diógenes José Carvalho de Oliveira (“Luiz”), que descarregou o seu revólver em Chandler, foi preso em 30 de janeiro de 1969, quando desenvolvia um trabalho de campo em Paranaíba, em Mato Grosso. Em 14 de março, foi banido para o México, trocado pelo Cônsul japonês (mais um dos diplomatas estrangeiros sequestrados), indo, logo após, para Cuba. Em junho de 1971, radicou-se no Chile. Com a queda de Allende, em setembro de 1973, foi para o México e, daí para a Itália, Bélgica e Portugal. Em 1976, passou a trabalhar para o governo da Guiné-Bissau, junto com Dulce de Souza Maia, sua amásia. Após a anistia, retornou ao Brasil, indo residir em Porto Alegre, onde vive com a advogada Marilinda Fernandes. Trabalhou como assessor do vereador do Partido Democrático Trabalhista (PDT), Valneri Neves Antunes, antigo companheiro de militância da VPR, até outubro de 1986, quando este faleceu, vítima de acidente de auto.
Fonte: adaptado do Blog do Lício Maciel