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sexta-feira, 20 de março de 2026

Serviços de inteligência na América Latina

As principais agências da região
Os serviços de inteligência na América Latina surgiram em contextos de ditaduras, conflitos e criminalidade. Embora alguns países tenham caminhado rumo a modelos mais profissionalizados, a opacidade e os abusos de poder persistem. A inteligência continua sendo um pilar estratégico para o enfrentamento de ameaças internas e externas.
A principal função dos serviços de inteligência é obter, analisar e distribuir informações relevantes para a tomada de decisões estratégicas, antecipando ameaças e oportunidades em ambientes caracterizados pela incerteza.
Na América Latina, a evolução desses serviços foi profundamente marcada pela instabilidade política, conflitos internos, ditaduras militares, intervenção estrangeira e, em última instância, pela expansão do crime organizado regional.
Diferentemente de outras regiões, onde os serviços de inteligência se desenvolveram progressivamente e foram vinculados a marcos legais estabelecidos, na América Latina as agências de inteligência oscilaram entre fases de repressão estatal e deslegitimação pública, com estágios mais recentes de reestruturação e profissionalização.
Durante grande parte do século XX, especialmente no contexto da Guerra Fria, essas organizações atuaram como instrumentos de controle político interno, participando ativamente da perseguição de opositores, da repressão ideológica e da coordenação de outras atividades ilícitas.
Com o estabelecimento de sistemas democráticos nas décadas de 1980 e 1990, a região enfrentou o desafio de reformar suas instituições de inteligência profundamente desacreditadas. No entanto, em alguns casos, esses processos de reforma foram incompletos.
Atualmente, os serviços de inteligência da América Latina operam em um ambiente instável e repleto de ameaças, incluindo tráfico de drogas, terrorismo regional, crime organizado, corrupção estrutural, instabilidade política e influência de potências internacionais.

Serviços de Inteligência Argentinos
A Secretaria de Inteligência de Estado (SIDE), criada em 1946, consolidou sua posição como ator-chave durante os sucessivos governos militares que governaram a Argentina ao longo do século XX. Durante a ditadura cívico-militar conhecida como Processo de Reorganização Nacional (1976-1983), a SIDE desempenhou um papel central na repressão interna, atuando em coordenação com as forças armadas e outros serviços de inteligência da região.
Após a restauração da democracia, o SIDE (Secretaria de Inteligência do Estado) não foi submetido a uma reforma profunda e, durante décadas, manteve amplos poderes, orçamentos opacos e significativa autonomia em relação à supervisão civil. Além disso, seu envolvimento em escândalos de espionagem política, manipulação judicial e corrupção estatal minou progressivamente sua legitimidade.
Em 2015, o governo de Cristina Fernández de Kirchner decidiu dissolver o SIDE (Secretaria de Inteligência de Estado) e criar a Agência Federal de Inteligência (AFI). Essa reforma visava modernizar o sistema, aumentar o controle parlamentar e redefinir as prioridades em direção à inteligência estratégica. No entanto, a AFI continua sendo criticada por sua politização e por ser usada como instrumento em disputas internas de poder.

Serviços de Inteligência Brasileiros
O Brasil possui uma vantagem competitiva significativa em relação a outros países da região. Sua dimensão, população, economia e alcance internacional o tornam uma potência regional com aspirações globais, notadamente como membro do BRICS. Nesse contexto, a inteligência desempenha um papel fundamental na formulação de sua política externa e de defesa.
A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) foi criada em 1999 como parte do Sistema Brasileiro de Inteligência de Segurança (SISBIN), com o objetivo de superar o passado autoritário do país. O Brasil se destacou como um dos primeiros países da América Latina a tentar construir um sistema de inteligência civil e profissional voltado para a produção de inteligência estratégica.
As prioridades da ABIN incluem a proteção do território brasileiro, o monitoramento de recursos naturais estratégicos, a segurança energética, a segurança cibernética e o acompanhamento da dinâmica geopolítica global. A inteligência militar brasileira complementa esse trabalho, especialmente no controle de fronteiras e em operações de segurança interna.
O Brasil também se destaca pelo investimento em capacitação, tecnologia e cooperação internacional, além de manter laços estreitos com os serviços de inteligência ocidentais, ao mesmo tempo em que desenvolve uma política externa independente. Apesar disso, a polarização interna gerou tensões devido ao suposto uso partidário do ABIN em determinados momentos.

Serviços de Inteligência Mexicanos
Num contexto totalmente influenciado pelo crime organizado, fomentado por cartéis, narcotráfico e corrupção sistêmica, o sistema de inteligência mexicano conseguiu evoluir lenta, mas positivamente. Durante o século XX e parte do século XXI, o Centro de Investigação e Segurança Nacional (CISEN) foi a principal agência de inteligência civil.
Seu desempenho combinou inteligência política, experiência em segurança interna e análise estratégica. No entanto, ele recebeu críticas significativas por seus laços estreitos com o sistema político, que durante a maior parte desse período foi dominado pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI).
Em 2018, o governo substituiu o CISEN pelo Centro Nacional de Inteligência (CNI), que foi integrado à Secretaria de Segurança e Proteção ao Cidadão.
Essa medida visava redirecionar os esforços de inteligência para o combate ao narcotráfico e ao crime organizado, as principais ameaças à segurança nacional mexicana, e melhorar a imagem de certas instituições governamentais. No entanto, o sistema de inteligência mexicano é claramente fragmentado.
As forças armadas, a polícia e as agências financeiras conduzem operações de inteligência em paralelo, nem sempre com alto nível de coordenação. Além disso, a infiltração do crime organizado nas instituições estatais ainda não foi eliminada, o que mina seriamente a confiança e a eficácia do sistema.
O México possui capacidades técnicas relevantes, especialmente em inteligência financeira e cooperação internacional, mas enfrenta uma ameaça estrutural que reduz significativamente seus resultados.

Serviços de Inteligência Colombianos
A Colômbia desenvolveu um dos sistemas de inteligência mais experientes da região, fruto de mais de meio século de conflito armado interno com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O antigo Departamento Administrativo de Segurança (DAS) foi, durante anos, a principal agência de inteligência civil, mas seu envolvimento em graves escândalos levou à sua dissolução em 2011.
A criação da Direção Nacional de Inteligência (DNI) teve como objetivo estabelecer um modelo mais limitado e controlado, focado no desenvolvimento de inteligência estratégica. Ao mesmo tempo, a inteligência militar e policial manteve um papel central, especialmente em operações contra guerrilheiros, narcotraficantes e grupos armados ilegais.
A Colômbia se destaca por seu alto nível de inteligência operacional e tática, com capacidades avançadas em analisar redes criminosas, identificar líderes e conduzir operações conjuntas. Após os acordos de paz com as FARC, o sistema de inteligência colombiano entrou em uma fase de adaptação a novas ameaças híbridas e à manutenção da legitimidade democrática.

Serviços de Inteligência Chilenos
O Chile é um dos países da América Latina mais marcados por regimes ditatoriais. Por essa razão, o governo criou a Agência Nacional de Inteligência (ANI) em 2004 para prevenir os abusos de seu passado autoritário.
A Agência Nacional de Inteligência (ANI) carece de capacidades operacionais diretas, o que limita seu potencial repressivo, e concentra-se na produção de inteligência estratégica para o Poder Executivo. Essa estrutura favorece o controle civil e reduz o risco de politização da organização.
No entanto, o Chile enfrenta novos desafios, como o crescimento do crime organizado, a radicalização no conflito Mapuche, as ameaças cibernéticas e a proliferação da desinformação.

Serviços de Inteligência Peruanos
Após o governo turbulento de Alberto Fujimori (1990-2000), o Serviço Nacional de Inteligência (SIN) perdeu credibilidade devido ao seu envolvimento em casos de corrupção, manipulação política e abuso de poder.
Isso levou à criação do Sistema Nacional de Inteligência (SINA) e da Diretoria Nacional de Inteligência (DINI), com o objetivo de construir uma nova infraestrutura de inteligência baseada na legislação do país. Apesar disso, a instabilidade política persistente no Peru tem dificultado consideravelmente esse processo, deixando o governo com problemas significativos de coordenação e profissionalização institucional.

Serviços de Inteligência Venezuelanos
Na Venezuela, os serviços de inteligência evoluíram para um modelo voltado para o controle político. O Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN) e a Direção-Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM) desempenharam um papel fundamental no monitoramento e na neutralização da oposição aos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
Além disso, a inteligência venezuelana mantém laços estreitos com países como Cuba, Irã, China e Rússia, consolidando-se como um dos pilares fundamentais para a sobrevivência do regime.

Serviços de Inteligência em Cuba
Por sua vez, Cuba possui um dos serviços de inteligência mais eficazes da América Latina. A Direção-Geral de Inteligência (DGI) desenvolveu notáveis ​​capacidades em inteligência estrangeira e contra-inteligência, conseguindo compensar a escassez de recursos materiais. Além da Venezuela, a inteligência cubana tem exercido influência significativa em outros países da região, como Honduras e Nicarágua, graças à formação de uma rede de cooperação ideológica.

Conclusão
Na maioria dos casos, os serviços de inteligência latino-americanos desenvolveram-se sob a influência direta das forças armadas, num contexto em que a segurança nacional era considerada fundamental para os governos da região. Atualmente, essas agências de inteligência refletem as tensões estruturais vivenciadas pela maioria dos países da área.
Embora alguns governos tenham avançado em direção a modelos mais institucionalizados e profissionalizados, problemas como a falta de transparência, o abuso de poder e a ausência de visão estratégica persistem em muitos casos. Além disso, em um contexto internacional cada vez mais complexo e volátil, o desenvolvimento de uma infraestrutura de inteligência robusta e coordenada é essencial. Somente assim será possível enfrentar as ameaças internas e externas.
Especialista em Análises de Inteligência
 com Mestrado Profissional de Analista de Inteligência
 do Instituto LISA. Tem experiencia em distintos setores como Cibersegurança Corporativa e análises de dados.
Fonte: Boletim Semanal LISA News
(Learning Institute of Security Advisors)
COMENTO: O autor do texto, um europeu impelido por ideias preconcebidas sobre o passado recente da América Latina, redigiu um breve resumo histórico dos serviços de Inteligência oficiais latino americanos mas, na minha opinião, cometeu alguns lapsos ao relacionar a atualidade a procedimentos dos tempos de governos militares. Incorreu, também, no equívoco de omitir que serviços de inteligência, tiveram sua origem para atender as necessidades militares. Nos dias atuais, tem sua essência no atendimento dos  interesses nacionais mas, destes, os objetivos militares tem primazia, no sentido de que a defesa de um país, mesmo sendo uma atividade conjunta de todos os campos de poder nacional, tem no aspecto militar a sua base fundamental.

terça-feira, 10 de março de 2026

A Morte de Khamenei

Câmaras ‘hackeadas’, décadas de espionagem e um ataque cirúrgico: os bastidores da morte de Ali Khamenei

por Pedro Gonçalves - Março 3, 2026
Israel passou anos a infiltrar-se nas infraestruturas de vigilância e comunicações de Teerã antes de avançar para o ataque aéreo que matou o aiatolá Ali Khamenei, numa operação que conjugou espionagem tecnológica, fontes humanas e uma decisão política tomada ao mais alto nível.
Segundo informações reveladas pelo Financial Times, a campanha de coleta de dados foi longa e meticulosa, permitindo às autoridades israelitas conhecerem a capital iraniana com um grau de detalhe descrito por um responsável de informações como equivalente a “conhecer Jerusalém. E quando conhecemos [um lugar] tão bem como a rua onde crescemos, percebemos quando algo não está certo”, afirmou um atual responsável dos serviços de informações israelitas.

Câmaras de trânsito hackeadas durante anos
De acordo com duas fontes familiarizadas com a operação, praticamente todas as câmaras de trânsito de Teerã foram pirateadas ao longo de vários anos. As imagens, além de seguirem o circuito normal, eram criptografadas e transmitidas para servidores em Telavive e no sul de Israel.
Uma dessas câmaras revelou-se particularmente estratégica, ao permitir observar os locais onde os motoristas e guarda-costas das mais altas figuras do regime estacionavam os seus veículos junto à rua Pasteur, nas imediações do complexo onde Khamenei foi atingido no sábado. Esse ângulo oferecia uma janela para rotinas aparentemente banais de um espaço fortemente protegido.
Algoritmos avançados alimentavam dossiês detalhados sobre membros da segurança do líder supremo, incluindo moradas, horários de serviço, percursos para o trabalho e, sobretudo, as personalidades que habitualmente protegiam e transportavam. O objetivo era construir aquilo que os oficiais de informações designam como “padrão de vida”, um retrato comportamental minucioso.
Esta corrente de dados em tempo real integrava centenas de fluxos de informação distintos, não sendo o único meio utilizado por Israel e pela CIA para determinar com precisão a hora a que o líder iraniano, de 86 anos, estaria no seu gabinete naquela manhã e quem o acompanharia.

Interferência nas comunicações
Além da vigilância visual, Israel conseguiu interferir em componentes de cerca de uma dúzia de torres de telecomunicações móveis nas imediações da rua Pasteur. Segundo as mesmas fontes, a operação fez com que os telefones aparentassem estar ocupados quando chamados, impedindo que a equipe de proteção de Khamenei recebesse eventuais alertas.
Muito antes de as bombas caírem, o quadro de informações acumulado era descrito como denso e abrangente. O conhecimento detalhado da capital iraniana resultou de uma coleta laboriosa de dados, sustentada pela unidade de informações de sinais Unit 8200, pela rede de ativos humanos recrutados pelo Mossad e pela capacidade da inteligência militar de transformar enormes volumes de dados em relatórios operacionais diários.
Israel recorreu ainda a um método matemático conhecido como análise de redes sociais para cruzar milhares de milhões de pontos de dados, identificar centros improváveis de decisão e selecionar novos alvos de vigilância e eliminação. “Na cultura dos serviços de informações israelitas, a inteligência de alvos é a questão tática mais essencial — foi concebida para permitir uma estratégia”, explicou Itai Shapira, General de Brigada na reserva e veterano de 25 anos da direção de Informações Militares. “Se o decisor político determina que alguém deve ser assassinado, em Israel o costume é: ‘Forneceremos a inteligência necessária’.”

Uma decisão política no momento oportuno
Apesar da sofisticação tecnológica, mais de meia dúzia de atuais e antigos responsáveis de informações sublinharam que a eliminação de Khamenei foi, acima de tudo, uma decisão política.
Quando a CIA e Israel confirmaram que o líder iraniano realizaria uma reunião no sábado de manhã no seu gabinete perto da rua Pasteur, a oportunidade foi considerada particularmente favorável. Avaliou-se que, após o início formal de uma guerra, os dirigentes iranianos adotariam rapidamente práticas evasivas pré-planejadas, deslocando-se para bunkers subterrâneos imunes às bombas israelitas.
Khamenei, ao contrário do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah — que viveu anos escondido em bunkers até ser morto em 2024 num bombardeamento israelita em Beirute — não residia permanentemente na clandestinidade. Embora tivesse refletido publicamente sobre a possibilidade de morrer, desvalorizando a própria vida face ao destino da República Islâmica, tomava precauções em tempo de guerra. “Era invulgar que não estivesse no seu bunker — tinha dois — e, se lá estivesse, Israel não o teria conseguido atingir com as bombas de que dispõe”, referiu uma das fontes.
Ainda assim, mesmo durante a guerra de 12 dias em junho de 2025, Israel não tentou, de forma conhecida, bombardear Khamenei, concentrando-se antes na liderança da Guarda Revolucionária, lançadores de mísseis, arsenais e instalações nucleares.

Coordenação com Washington
Embora Donald Trump tenha ameaçado repetidamente atacar o Irã nas semanas anteriores e concentrado forças navais na região, estavam previstas novas negociações entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano. Omã, mediador do processo, descrevera o último encontro como produtivo e indicara que o Irã estaria disposto a concessões.
Em público, Trump manifestava frustração com a lentidão das conversações. Em privado, segundo uma fonte citada pelo jornal britânico, estaria “insatisfeito com as respostas iranianas”, criando condições para a escalada.
A operação final terá sido planeada durante meses, mas ajustada quando a inteligência norte-americana e israelita confirmou a realização da reunião. Além das informações de sinais — incluindo câmaras hackeadas e redes móveis penetradas —, os Estados Unidos dispunham, segundo duas fontes, de uma fonte humana com informação direta sobre o encontro. A CIA recusou comentar.
Isso permitiu que aviões israelitas, que já voavam há horas para sincronizar a chegada, disparassem até 30 munições de precisão. As forças israelitas indicaram que o ataque em pleno dia proporcionou surpresa tática, mesmo perante forte preparação iraniana.

Duas décadas de prioridade estratégica
Sima Shine, antiga responsável do Mossad especializada no dossiê iraniano, enquadrou o desfecho como culminar de dois momentos decisivos. O primeiro remonta a 2001, quando o então primeiro-ministro Ariel Sharon ordenou ao chefe do Mossad, Meir Dagan, que tornasse o Irã a prioridade central da agência. “‘Tudo o que o Mossad faz é importante’, teria dito Sharon, segundo Shine. ‘O que eu preciso é do Irã. Esse é o teu alvo.’”
Desde então, Israel sabotou o programa nuclear iraniano, eliminou cientistas e combateu aliados regionais de Teerã. O segundo momento, segundo Shine, foi o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023, que alterou uma restrição de longa data em Israel: apesar de infiltrar círculos de líderes inimigos, a eliminação de chefes de Estado permanecera tabu, mesmo em guerra.
A sucessão de êxitos operacionais — incluindo a morte do líder do Hamas Ismail Haniyeh em Teerã, em 2024, e um projeto clandestino de 300 milhões de dólares para sabotar milhares de pagers e rádios do Hezbollah — reforçou essa dinâmica. “Em hebraico dizemos: ‘Com a comida vem o apetite’”, afirmou Shine. “Ou seja, quanto mais se tem, mais se quer.”

domingo, 1 de março de 2026

Qual Será a Arma Secreta Usada na Captura de Nicolás Maduro?

Trump cita publicamente o "descombobulador"
No dia 3 de janeiro, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram presos e levados para Nova York para serem julgados por tráfico de drogas.
O presidente dos EUA, Donald Trump, em reunião com os soldados das Forças Especiais que capturaram Nicolás Maduro. Foto: AFP
O presidente dos EUA, Donald Trump, mencionou pela primeira vez, em um evento público, uma misteriosa arma que teria sido usada para atordoar as defesas do deposto chavista Nicolás Maduro no dia de sua captura.
Trata-se do "discombobulator" ("desorientador"), uma arma que, segundo o presidente, consegue bloquear os sistemas de defesa russos e chineses.
Em 3 de janeiro, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e levados para Nova York. Durante os momentos iniciais da chamada Operação Resolução Absoluta, que envolveu drones, helicópteros e Forças Especiais, os sistemas de radar venezuelanos ficaram inoperantes antes que uma tecnologia desconhecida atingisse os defensores do regime.
A operação resultou na morte de 83 pessoas, incluindo 32 cubanos, e deixou mais de 112 feridos.
Nenhum militar americano morreu, mas Trump disse que três pilotos de helicóptero ficaram feridos.
O presidente dos EUA afirmou, no dia 12 de fevereiro passado, para soldados na base de Fort Bragg, na Carolina do Norte, que as defesas venezuelanas "não conseguiram disparar um único tiro".
"A equipe russa não funcionou. A equipe chinesa não funcionou. Todos estão tentando descobrir por que não funcionou. Algum dia eles saberão", disse ele com um sorriso.
Em entrevista ao New York Post em janeiro, Trump havia dito que "não tinha permissão para falar sobre isso (o "descompressor")", mas observou que a arma fazia com que o equipamento inimigo "não funcionasse""Eles tinham foguetes russos e chineses, e nunca lançaram nenhum. Chegamos, eles apertaram botões e nada funcionou. Estavam prontos para nos confrontar", acrescentou ele ao veículo de comunicação.
Trump, que estava acompanhado de sua esposa Melania, discursou para soldados e familiares de militares na sexta-feira (13/2/26), antes de se reunir a portas fechadas com tropas das Forças Especiais envolvidas na incursão em Caracas e outras regiões da Venezuela.

Base da Unidade de Reação Rápida, no Forte Tiuna, destruída após a operação dos EUA. 
Foto: AFP
Maduro está detido em Nova Iorque, onde enfrenta acusações de tráfico de drogas e outros crimes, dos quais se declarou inocente.
Sua próxima audiência está marcada para 17 de março.
O presidente dos EUA elogiou repetidamente a operação contra Maduro como um exemplo do poderio militar de seu país.
Fonte: tradução livre de El Tiempo
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O 'desconcertante': Os EUA usaram uma 'arma secreta' no sequestro de Maduro?
O presidente dos EUA, Donald Trump, se refere a uma "arma sônica" que ele descreve como um "descompressor", mas do que ele está falando?
O ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino López (à direita), cumprimenta o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez Padilla, em 8 Jan 2026, ao receber uma homenagem aos cubanos mortos durante a operação dos EUA
[Arquivo: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters]
Em 26 Jan 2026
O ministro da Defesa da Venezuela acusou os Estados Unidos de usar o país como um “laboratório de armas” durante o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em 3 de janeiro.
Vladimir Padrino Lopez afirmou na semana passada que os EUA usaram a Venezuela como campo de testes para “tecnologias militares avançadas” que se baseiam em inteligência artificial e armamentos nunca antes utilizados, de acordo com o jornal venezuelano El Universal.
Em 25 de janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse ao New York Post que as forças americanas de fato usaram uma arma à qual se referiu como "o descompassador".
"Não me é permitido falar sobre isso", disse ele, acrescentando que a arma "interferiu no funcionamento do equipamento" durante a operação.
Os detalhes da missão militar dos EUA para sequestrar Maduro não foram divulgados, mas sabe-se que os EUA já usaram armas para desorientar soldados e guardas ou para desativar equipamentos e infraestrutura no passado.

O que disse o ministro da Defesa da Venezuela?
Em 16 de janeiro, Padrino López afirmou que 47 soldados venezuelanos foram mortos durante o ataque dos EUA a Caracas. Trinta e dois soldados cubanos, alguns dos quais protegiam Maduro, também foram mortos.
Na semana passada, ele fez as acusações sobre o “laboratório de armas” e foi citado pelo El Universal dizendo: “O presidente dos Estados Unidos admitiu que eles usaram armas que nunca foram usadas em campos de batalha, armas que ninguém no mundo possuía. Eles usaram essa tecnologia contra o povo venezuelano em 3 de janeiro de 2026.”
Ele parecia estar se referindo a uma entrevista que Trump concedeu ao canal de notícias americano NewsNation, na qual afirmou que uma "arma sônica" havia sido usada.

O que Trump disse sobre as "armas secretas" dos EUA?
Dias após o sequestro de Maduro, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, republicou comentários que pareciam ter sido postados no X por um guarda de segurança venezuelano. Ele escreveu que os EUA haviam "lançado algo" durante a operação que "era como uma onda sonora muito intensa".
“De repente, senti como se minha cabeça fosse explodir por dentro”, escreveu o segurança. “Todos começamos a sangrar pelo nariz. Alguns vomitaram sangue. Caímos no chão, sem conseguir nos mexer.”
A Al Jazeera não conseguiu verificar essa conta.
“Ninguém mais tem isso. E nós temos armas que ninguém conhece”, disse Trump. “E eu digo que provavelmente é melhor não falar sobre elas, mas nós temos algumas armas incríveis. Aquele foi um ataque incrível. Não se esqueçam que aquela casa ficava no meio de uma fortaleza e base militar.”
Então, no domingo, Trump foi citado pelo New York Post dizendo que os EUA usaram uma arma projetada para desativar equipamentos de defesa.
“O desconcertante”, adjetivou ele. “Não me é permitido falar sobre isso.”

Que armas "sônicas" ou outras armas incapacitantes os EUA já utilizaram no passado?
Os sistemas “sônicos” mais conhecidos usados ​​pelos EUA são os dispositivos direcionais de comunicação e alerta acústico, especialmente o dispositivo acústico de longo alcance (Long Range Acoustic Device=LRAD), disse à Al Jazeera o analista militar e político Elijah Magnier, baseado em Bruxelas.
“Essas não são armas tradicionais. Em vez disso, são projetores de som potentes e focados, usados ​​para coisas como parar navios, proteger bases, proteger comboios, gerenciar pontos de controle e, às vezes, controlar multidões”, disse ele.
O principal objetivo desses dispositivos é controlar o comportamento enviando comandos de voz a longas distâncias e em alto volume. Eles podem causar desconforto e são projetados para forçar as pessoas a obedecerem aos comandos ou a saírem de uma área.
“Os LRADs têm sido implantados em navios para dissuasão da pirataria, na segurança portuária e por agências de aplicação da lei”, explicou Magnier. “Em configurações de alta potência, esses dispositivos podem causar dor, vertigem, náusea ou danos à audição, o que torna seu uso delicado e sujeito a escrutínio.”
Os LRADs não são projetados para desativar eletrônicos ou redes de comunicação.
Outra arma usada para desorientar pessoas é o sistema de negação ativa (Active Denial System=ADS), que muitas vezes é erroneamente chamado de arma "sônica", mas não usa som.
“Em vez disso, utiliza energia de ondas milimétricas para criar uma forte sensação de aquecimento na pele, fazendo com que as pessoas se afastem”, disse Magnier. “O ADS foi enviado ao Afeganistão em 2010, mas foi retirado sem ser usado em combate. Assim como o LRAD, o ADS foi projetado para afetar pessoas, não máquinas.”

Como funcionam esses dispositivos?
O sistema LRAD consegue concentrar o som em uma onda estreita. Em uma configuração baixa, permite que as vozes sejam ouvidas com clareza a longas distâncias. Em uma configuração mais alta, no entanto, pode ser fisicamente debilitante.
“Esses efeitos são apenas físicos e mentais”, disse Magnier. “Ao contrário das ferramentas eletromagnéticas, o LRAD não pode desligar mísseis, radares, computadores ou sistemas de comunicação.
O rápido aquecimento que o ADS causa na camada externa da pele provoca um desconforto intenso e obriga as pessoas a se afastarem. "É uma ferramenta não letal de negação de área destinada ao controle de multidões e à defesa de perímetro", disse Magnier.
“Nenhum desses sistemas consegue, de forma realista, desativar sistemas de defesa aérea, redes de comunicação ou equipamentos militares”, afirmou. “Se algum equipamento parar de funcionar, é muito mais provável que seja devido a métodos de interferência eletromagnética, cibernética ou de negação de energia.”

O que os EUA usam para desativar sistemas e equipamentos?
Magnier afirmou que as forças armadas dos EUA são conhecidas por usar diversos tipos de ferramentas “não cinéticas” e “pré-cinéticas”. Entre elas:
— A guerra eletrônica (GE), que pode interferir em sistemas de radar, bloquear comunicações, enganar o GPS e ludibriar sensores, é uma estratégia eficaz. "Essas ações ajudam a controlar o espectro eletromagnético", afirmou. "A GE dificulta que os oponentes compreendam o que está acontecendo e coordenem suas defesas antes ou durante ataques."
 — Operações ciberfísicas envolvem a sabotagem de redes e sistemas de controle industrial. "O exemplo mais conhecido é a campanha Stuxnet, que teve como alvo os controladores de centrífugas nucleares iranianas e causou danos físicos ao alterar seu software" em 2009, disse Magnier.
— Armas de contra-eletrônica, armas de energia dirigida, que são principalmente sistemas de micro-ondas de alta potência projetados para desativar eletrônicos inundando seus circuitos com pulsos de micro-ondas. "O principal projeto dos EUA para isso é o CHAMP (Projeto Avançado de Mísseis de Micro-ondas de Alta Potência para Contra-eletrônica), que foi criado para desativar eletrônicos sem o uso de força física", disse Magnier.
— Munições de grafite ou fibra de carbono capazes de provocar curto-circuito em redes elétricas e causar apagões generalizados sem destruir todos os equipamentos.
“Essas ferramentas são uma parte fundamental da abordagem militar dos EUA para obter uma 'vantagem informacional' e controlar diferentes áreas de conflito”, disse Magnier.

Como esses sistemas funcionam e quando foram implantados?
A guerra eletrônica altera ou bloqueia o ambiente eletromagnético. Ela pode desorientar sistemas de radar, fazendo-os "enxergar" ruídos ou alvos falsos. Também pode causar a interrupção do funcionamento de rádios e afetar sistemas de GPS e sensores.
“O objetivo é cegar, confundir e desestabilizar o inimigo para criar uma oportunidade de ação”, disse Magnier.
Na campanha cibernética Stuxnet, em 2009, um vírus de computador foi instalado em um computador de uma instalação nuclear iraniana para causar danos mecânicos, assumindo o controle de sistemas de controle industrial. "Acredita-se amplamente que essa operação foi realizada pela inteligência dos EUA e de Israel contra o programa nuclear do Irã", disse Magnier.
Sistemas de micro-ondas de alta potência também podem desativar componentes eletrônicos inundando seus circuitos com energia de micro-ondas, fazendo com que parem de funcionar sem causar danos visíveis. "Testes públicos realizados no início da década de 2010 mostraram que esses sistemas podem desativar seletivamente alvos eletrônicos", disse Magnier.
As munições de grafite ou fibra de carbono espalham minúsculas fibras condutoras que podem causar curto-circuito em partes das redes elétricas. "Essas armas foram associadas a grandes apagões no Iraque em 1991, na Sérvia em 1999 e novamente no Iraque em 2003", disse Magnier.
“A estratégia básica permanece a mesma: primeiro, derrubar a energia, as comunicações, os sensores e a coordenação, depois iniciar os ataques físicos.”

Os Estados Unidos testaram novas armas em outros países?
“Sim, e isso não é algo que apenas os Estados Unidos fazem. As guerras modernas muitas vezes se tornam o primeiro teste no mundo real para novas tecnologias, assim que elas estão prontas para serem usadas”, disse Magnier.
A Guerra do Golfo de 1991 foi a primeira vez que aeronaves furtivas, bombas guiadas com precisão e guerra eletrônica foram usadas em larga escala.
O ciberataque ao Irã em 2009 foi a primeira vez que uma arma ciberfísica foi usada em nível estratégico.
A GBU-43/B MOAB, apelidada de "a mãe de todas as bombas", foi usada pela primeira vez em combate pelos EUA no Afeganistão em 2017. Trata-se de um explosivo não nuclear utilizado em ataques de precisão contra alvos subterrâneos fortificados, como túneis, que produz uma enorme onda de choque.
“É importante saber que testar geralmente não significa realizar testes secretos de dispositivos”, disse Magnier. “Em vez disso, significa usar novas ferramentas em situações reais e aprimorá-las com base no que acontece e no feedback recebido.”
Ele explicou que todos os principais países também testam novos sistemas em segredo, especialmente em áreas como guerra eletrônica, operações cibernéticas, ataques espaciais, inteligência de sinais e operações especiais.
“A principal diferença não reside no grau de sigilo das ferramentas, mas sim na abrangência de seu uso, na localização de suas bases e na disposição dos países em utilizá-las.”
Alguns exemplos, como o ataque Stuxnet, envolvem vários países trabalhando juntos.
“Os EUA usam Israel como vários campos de teste para diferentes tipos de armas e outros equipamentos bélicos de todos os tipos, principalmente contra os palestinos, no Líbano e no Irã”, disse Magnier.
Os EUA também acusaram outros países de usar "armas sônicas" contra seu próprio pessoal. Em 2017, exigiram uma investigação sobre um suposto ataque sônico que deixou vários de seus diplomatas precisando de tratamento médico e os obrigou a deixar Havana.
O então secretário de Estado americano, Rex Tillerson, afirmou que a missão dos EUA na capital cubana havia sido alvo de "ataques sanitários" que deixaram alguns funcionários com perda auditiva.
O governo do Canadá também afirmou que pelo menos um diplomata canadense em Cuba recebeu tratamento para perda auditiva.

O que Trump quer dizer com "desconcertante"?
Não existe uma definição verificada de um "descombobulador" específico.
“Esses termos não são técnicos e parecem estar sendo usados ​​como rótulos políticos para ferramentas já existentes”, disse Magnier.
“A visão mais razoável é que esse termo se refere a um grupo de ferramentas não cinéticas conhecidas, e não a um novo dispositivo.”
Estas podem ser:
— Interrupção cibernética visando redes de comando
— Ataques cinéticos direcionados contra antenas, repetidores e nós sensores, além de negação localizada de energia.
Para observadores em terra, isso pareceria como se os sistemas repentinamente "parassem de funcionar", disse Magnier. No entanto, é altamente improvável que um dispositivo sônico tenha sido o responsável por afetar os equipamentos dessa maneira, acrescentou ele.
“Relatórios indicam que os sistemas de defesa aérea de fabricação russa da Venezuela falharam, o que pode significar que não estavam bem integrados ou prontos para uso. Isso pode acontecer devido à guerra eletrônica, supressão de nós, ataques cibernéticos ou operações deficientes, sem necessidade de explicações mirabolantes. Já vimos isso acontecer na Síria com armas russas antes dos ataques de Israel.”
Uma arma sônica poderia ter afetado soldados e guardas. Se as pessoas apresentaram sintomas físicos durante a operação em Caracas, isso não indica que uma nova "arma sônica" estava sendo usada.
“Esses efeitos podem ser causados ​​pela pressão da explosão, por dispositivos de efeito moral ou por outras ferramentas comuns de desorientação”, disse Magnier. “Não há evidências públicas de um novo tipo de arma.”
Fonte: tradução livre de Al Jazeera
COMENTO:  o avanço da tecnologia, particularmente, a voltada para os conflitos entre países tem tido um desenvolvimento incomum, nos dias de hoje, aproveitando todos os ramos possíveis. Os novos tipos de armamento (drones, artifícios eletromagnéticos, uso de laser, etc.) estão modificando e tornando obsoletas as antigas técnicas e táticas de guerra. Mas só tecnologia não é suficiente.
O militar condecorado no vídeo foi um dos feridos na operação de captura do ditador venezuelano.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A Geografia Social da Espionagem da Antiguidade à Era Digital

Ao longo da história, e devido à natureza social da humanidade, os espaços e pontos de encontro, juntamente com o comércio, desempenharam um papel fundamental. Eles facilitaram o fluxo de informações, a espionagem e a economia subterrânea.
Das tabernas romanas aos fóruns digitais do século XXI, esses locais funcionaram como territórios estratégicos. Lazer, comércio e segredo convergem neles.
Sua importância reside na capacidade de gerar diversas estruturas sociais com um fluxo constante de informações e relativo anonimato. Isso permitiu que fossem utilizadas para coletar informações, realizar comércio com menor intervenção das autoridades e exercer influência informal desde a antiguidade até os dias atuais, ilustrando a continuidade e a evolução histórica dessas funções.

Antiguidade: as tabernas como epicentro de rumores e segredos.
Na Antiguidade, as tabernas romanas não eram meros estabelecimentos para comer e beber, mas centros vitais de informação não oficial. Soldados, mercadores, escravos e funcionários públicos frequentavam esses espaços. Suas conversas, muitas vezes descontraídas pelo álcool e pela dinâmica social, constituíam uma importante fonte de informação. Essa informação era útil para informantes do Estado e outras partes interessadas.
Representação de uma taberna romana em Pompeia. Fonte: Ciência Histórica
Os donos de pousadas e garçons daquela época (e os garçons da nossa época) desempenhavam um papel crucial. Eles eram testemunhas involuntárias de conversas, ideias e rumores. Sua posição como representantes físicos do estabelecimento permitia que eles tomassem conhecimento de assuntos privados, vigiassem os viajantes e, em muitos casos, trocassem informações por dinheiro ou favores.
Na Roma antiga, a inteligência dependia tanto dos canais oficiais quanto desses locais de socialização, onde o fluxo de notícias podia fornecer indícios sutis sobre mudanças políticas e militares.
Por outro lado, os mercados e as ágoras eram tão importantes quanto, ou até mais, do que as tabernas. Em Atenas, a ágora servia não apenas como local de comércio, mas também como espaço onde os cidadãos discutiam política, recebiam notícias de outras cidades-estados (e regiões) e compartilhavam rumores sobre conflitos.
As caravanas de mercadores, por sua vez, eram portadoras de informações sobre rotas, reinos vizinhos e novos acontecimentos. No Império Persa (e, em menor escala, no Egito), mercados e postos de correio conectavam cidades distantes e facilitavam a espionagem.
Os agentes podiam se mover discretamente, misturando-se aos viajantes ou à população local, e coletar informações sobre fortalezas, tropas e economias regionais. Vale ressaltar também como os terrenos baldios em docas e cais funcionavam como centros de informação. Marinheiros, mercadores e piratas compartilhavam notícias de outras cidades e culturas, criando uma rede de informações informal, porém precisa, que podia ser explorada por atores em conflito.

A Idade Média: Estalagens, mercados e bordéis como centros de informações.
Durante a Idade Média, a queda do Império Romano fragmentou a rede formal de comunicação, mas tabernas, hospedarias e mercados continuaram sendo centros essenciais de informação. Viajantes compartilhavam notícias sobre estradas, bandidos e impostos.
Representação gráfica de uma taverna medieval. Fonte : KCD2 Fandom Wiki
As hospedarias medievais não apenas acomodavam peregrinos e mercadores, mas também reuniam espiões e diplomatas disfarçados de viajantes comuns. Além disso, os estalajadeiros, por conhecerem as rotas e os hábitos dos visitantes, tornavam-se confidentes dos senhores locais ou das autoridades religiosas, oferecendo informações sobre movimentações de tropas ou comércio ilícito.
Os mercados e feiras medievais cresceram em tamanho, tornando-se pontos de encontro internacionais. Mercadores de diferentes regiões do mundo traziam consigo produtos e mercadorias, mas também rumores sobre epidemias, guerras dinásticas ou secas.
Por exemplo, as feiras de Champagne, na França, reuniam mercadores de toda a Europa e se tornavam locais ideais para agentes secretos se infiltrarem entre os vendedores, observando o fluxo de mercadorias, avaliando preços e mensurando a riqueza regional. Os reinos e cidades-estados italianos (como Veneza, Florença e Gênova) aproveitavam essas oportunidades para enviar representantes e mercadores espiões.
Essa inteligência permitiu-lhes negociar tratados mais favoráveis, controlar rotas comerciais, antecipar os movimentos estratégicos dos rivais e planejar investimentos políticos e militares. Assim, o que pareciam ser simples feiras comerciais transformaram-se em centros de espionagem econômica e política, onde a informação fluía das mesas dos mercadores para os corredores do governo nos reinos europeus.
Por fim, os bordéis eram centros de informação altamente privilegiados durante o Renascimento. As cortesãs tinham acesso a informações confidenciais sobre funcionários, comerciantes, mercenários e nobres, e governos ou senhores feudais podiam usá-las como agentes indiretos.
Em cidades como Veneza e Florença, há registros de que as cortesãs desempenhavam funções de espionagem, obtendo segredos políticos, financeiros e militares. A interação íntima permitia que elas adquirissem informações que seriam inacessíveis por meio de canais oficiais ou interações informais sem qualquer grau de vulnerabilidade, transformando esses espaços em verdadeiros centros de inteligência secreta.

A Era Moderna: cafés e diplomacia secreta
Com o surgimento do comércio global entre os séculos XVI e XVIII, os cafés europeus adquiriram um novo papel estratégico. Em Paris, Londres e Berlim, os cafés tornaram-se centros de encontros sociais, debates políticos e troca de informações não oficiais.
Café Lloyd's, Londres, 1798, 1947. Por William Holland.
Intelectuais, revolucionários e diplomatas convergiam nesses espaços, trocando notícias, rumores e opiniões que podiam influenciar a política nacional e a economia.
Um excelente exemplo disso foi o Lloyd's Coffee House em Londres, que não só deu origem à seguradora marítima Lloyd's, como também funcionou como um centro de inteligência naval. Capitães, corsários e marinheiros compartilhavam informações sobre rotas, piratas, batalhas navais e riscos comerciais — informações cobiçadas por governos e agentes privados. Dessa forma, o café tornou-se um espaço onde lazer, economia e espionagem convergiam.
Os cafés de Viena e Paris também eram espaços onde movimentos políticos e conspirações eram tramados.
A facilidade de acesso, a interação social e a relativa liberdade de expressão tornaram esses locais espaços ideais para o planejamento de revoluções e movimentos reformistas. Eles também eram úteis para o recrutamento de agentes secretos. As elites aprenderam a observar e enviar informantes infiltrados. Isso consolidou a ideia de que a informação circula melhor em ambientes sociais do que por meio de canais burocráticos.
Além disso, o comércio e a diplomacia passaram a depender cada vez mais de rumores obtidos em cafés e tabernas. Informações sobre tratados, preços de mercadorias e empreendimentos comerciais circulavam por meio desses "refúgios" sociais, permitindo que diversos atores antecipassem riscos e oportunidades.

Século XX e Guerra Fria: bares, cabarés e espionagem no cotidiano.
Durante o século XX, bares, cabarés e hotéis se consolidaram como centros estratégicos para a espionagem. Eles herdaram o papel histórico dos espaços sociais na circulação de informações.
Cabaré em Berlim, década de 30.
 
FonteWeimarberlin
Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados, marinheiros e comerciantes trocavam conversas em tabernas e cafés portuários. Detalhes sobre rotas logísticas e atividades inimigas circulavam nesses locais.
Durante a Segunda Guerra Mundial, locais como os cabarés de Lisboa, Paris, Berlim e Viena combinavam lazer e vigilância. Agentes de diversas nacionalidades trocavam informações sob o pretexto de entretenimento. Enquanto isso, a Resistência Francesa utilizava os cabarés parisienses como refúgio e centro de coordenação.
Esses estabelecimentos também eram frequentados por artistas, aristocratas, burgueses e trabalhadores, criando um ambiente ideal para a circulação clandestina de informações. Os bordéis continuaram a desempenhar um papel crucial, pois as trabalhadoras do sexo ainda obtinham fragmentos de segredos estratégicos inacessíveis pelos canais oficiais.
Durante a Guerra Fria, essa tradição se expandiu para uma escala global. Em Berlim, os cafés da zona ocidental ofereciam um refúgio seguro para diplomatas e espiões, enquanto hotéis e clubes em cidades neutras como Viena, Estocolmo e Zurique se tornaram pontos de encontro para agentes de diversos países.
Até mesmo os mercados e bazares do Oriente Médio, da Ásia e da África serviram como fontes indiretas de informações. Rumores sobre conflitos, armas e mudanças políticas circulavam entre civis, comerciantes e viajantes.
Assim, a coleta de informações não se baseava apenas em canais oficiais. Também se fundamentava em observações da vida cotidiana e da interação social em espaços públicos. Isso demonstrava que o tempo livre podia ser transformado em uma ferramenta estratégica para a espionagem.

Transição para o século XXI: a digitalização dos nós de informação
Com o advento da era digital, os antigos nós físicos começaram a ter equivalentes virtuais. Plataformas digitais, redes sociais, fóruns online e aplicativos de mensagens tornaram-se espaços de interação onde circulam informações valiosas, rumores, notícias e transações econômicas. A coleta de dados tornou-se mais sofisticada por meio de algoritmos, monitoramento de metadados e análise de comportamento online.
Os espaços digitais funcionam como bares virtuais: os usuários compartilham experiências, notícias e opiniões; muitas vezes sem perceber que estão criando registros de informações úteis para o Estado, empresas ou outros atores.
Assim como em um cabaré berlinense, a aparência de lazer e entretenimento online mascara um fluxo de dados estratégicos. Agências de inteligência, corporações e grupos clandestinos usam essas plataformas para monitorar tendências, recrutar informantes e detectar ameaças.
Os mercados digitais, desde plataformas de criptomoedas a fóruns de negociação ilícita, replicam a economia subterrânea dos antigos mercados medievais.
Transações anônimas, troca de mercadorias proibidas e venda de informações confidenciais ocorrem nesses espaços, que funcionam como um equivalente virtual de antigos bordéis, tabernas e bazares. Além disso, sistemas de anonimato criptografados facilitam a espionagem e a infiltração, permitindo que agentes internacionais circulem sem serem detectados.

Um padrão de continuidade histórica
O que une todas essas eras é uma característica recorrente e contínua: os espaços sociais (sejam físicos ou digitais) são elos de informação, interação e transação. Em cada período histórico, das tabernas romanas aos fóruns online modernos, os seguintes elementos se repetem:
1. Diversidade de atores: viajantes, comerciantes, soldados, diplomatas, espiões, mercenários, intelectuais ou usuários digitais  convergem nos mesmos espaços.
2. Anonimato relativo: o fluxo constante de participantes permite que a pessoa passe despercebida, facilitando a coleta de informações.
3. Troca de informações não oficiais: rumores, notícias, segredos e estratégias circulam sem passar pelos canais formais.
4. Economia subterrânea: pagamentos em espécie, transações anônimas e comércio informal ocorrem paralelamente ao fluxo formal de bens e serviços.
5. Oportunidades de recrutamento: a observação e a participação nessas ligações permitem recrutar informantes ou colaboradores, seja em uma taverna medieval ou em uma sala de bate-papo criptografada moderna.
Esses padrões demonstram que, embora a tecnologia mude, a dinâmica social que facilita a espionagem e o mercado negro permanece, adaptando-se a cada contexto histórico.
Fonte: LISA News