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terça-feira, 10 de março de 2026

A Morte de Khamenei

Câmaras ‘hackeadas’, décadas de espionagem e um ataque cirúrgico: os bastidores da morte de Ali Khamenei

por Pedro Gonçalves - Março 3, 2026
Israel passou anos a infiltrar-se nas infraestruturas de vigilância e comunicações de Teerã antes de avançar para o ataque aéreo que matou o aiatolá Ali Khamenei, numa operação que conjugou espionagem tecnológica, fontes humanas e uma decisão política tomada ao mais alto nível.
Segundo informações reveladas pelo Financial Times, a campanha de coleta de dados foi longa e meticulosa, permitindo às autoridades israelitas conhecerem a capital iraniana com um grau de detalhe descrito por um responsável de informações como equivalente a “conhecer Jerusalém. E quando conhecemos [um lugar] tão bem como a rua onde crescemos, percebemos quando algo não está certo”, afirmou um atual responsável dos serviços de informações israelitas.

Câmaras de trânsito hackeadas durante anos
De acordo com duas fontes familiarizadas com a operação, praticamente todas as câmaras de trânsito de Teerã foram pirateadas ao longo de vários anos. As imagens, além de seguirem o circuito normal, eram criptografadas e transmitidas para servidores em Telavive e no sul de Israel.
Uma dessas câmaras revelou-se particularmente estratégica, ao permitir observar os locais onde os motoristas e guarda-costas das mais altas figuras do regime estacionavam os seus veículos junto à rua Pasteur, nas imediações do complexo onde Khamenei foi atingido no sábado. Esse ângulo oferecia uma janela para rotinas aparentemente banais de um espaço fortemente protegido.
Algoritmos avançados alimentavam dossiês detalhados sobre membros da segurança do líder supremo, incluindo moradas, horários de serviço, percursos para o trabalho e, sobretudo, as personalidades que habitualmente protegiam e transportavam. O objetivo era construir aquilo que os oficiais de informações designam como “padrão de vida”, um retrato comportamental minucioso.
Esta corrente de dados em tempo real integrava centenas de fluxos de informação distintos, não sendo o único meio utilizado por Israel e pela CIA para determinar com precisão a hora a que o líder iraniano, de 86 anos, estaria no seu gabinete naquela manhã e quem o acompanharia.

Interferência nas comunicações
Além da vigilância visual, Israel conseguiu interferir em componentes de cerca de uma dúzia de torres de telecomunicações móveis nas imediações da rua Pasteur. Segundo as mesmas fontes, a operação fez com que os telefones aparentassem estar ocupados quando chamados, impedindo que a equipe de proteção de Khamenei recebesse eventuais alertas.
Muito antes de as bombas caírem, o quadro de informações acumulado era descrito como denso e abrangente. O conhecimento detalhado da capital iraniana resultou de uma coleta laboriosa de dados, sustentada pela unidade de informações de sinais Unit 8200, pela rede de ativos humanos recrutados pelo Mossad e pela capacidade da inteligência militar de transformar enormes volumes de dados em relatórios operacionais diários.
Israel recorreu ainda a um método matemático conhecido como análise de redes sociais para cruzar milhares de milhões de pontos de dados, identificar centros improváveis de decisão e selecionar novos alvos de vigilância e eliminação. “Na cultura dos serviços de informações israelitas, a inteligência de alvos é a questão tática mais essencial — foi concebida para permitir uma estratégia”, explicou Itai Shapira, General de Brigada na reserva e veterano de 25 anos da direção de Informações Militares. “Se o decisor político determina que alguém deve ser assassinado, em Israel o costume é: ‘Forneceremos a inteligência necessária’.”

Uma decisão política no momento oportuno
Apesar da sofisticação tecnológica, mais de meia dúzia de atuais e antigos responsáveis de informações sublinharam que a eliminação de Khamenei foi, acima de tudo, uma decisão política.
Quando a CIA e Israel confirmaram que o líder iraniano realizaria uma reunião no sábado de manhã no seu gabinete perto da rua Pasteur, a oportunidade foi considerada particularmente favorável. Avaliou-se que, após o início formal de uma guerra, os dirigentes iranianos adotariam rapidamente práticas evasivas pré-planejadas, deslocando-se para bunkers subterrâneos imunes às bombas israelitas.
Khamenei, ao contrário do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah — que viveu anos escondido em bunkers até ser morto em 2024 num bombardeamento israelita em Beirute — não residia permanentemente na clandestinidade. Embora tivesse refletido publicamente sobre a possibilidade de morrer, desvalorizando a própria vida face ao destino da República Islâmica, tomava precauções em tempo de guerra. “Era invulgar que não estivesse no seu bunker — tinha dois — e, se lá estivesse, Israel não o teria conseguido atingir com as bombas de que dispõe”, referiu uma das fontes.
Ainda assim, mesmo durante a guerra de 12 dias em junho de 2025, Israel não tentou, de forma conhecida, bombardear Khamenei, concentrando-se antes na liderança da Guarda Revolucionária, lançadores de mísseis, arsenais e instalações nucleares.

Coordenação com Washington
Embora Donald Trump tenha ameaçado repetidamente atacar o Irã nas semanas anteriores e concentrado forças navais na região, estavam previstas novas negociações entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano. Omã, mediador do processo, descrevera o último encontro como produtivo e indicara que o Irã estaria disposto a concessões.
Em público, Trump manifestava frustração com a lentidão das conversações. Em privado, segundo uma fonte citada pelo jornal britânico, estaria “insatisfeito com as respostas iranianas”, criando condições para a escalada.
A operação final terá sido planeada durante meses, mas ajustada quando a inteligência norte-americana e israelita confirmou a realização da reunião. Além das informações de sinais — incluindo câmaras hackeadas e redes móveis penetradas —, os Estados Unidos dispunham, segundo duas fontes, de uma fonte humana com informação direta sobre o encontro. A CIA recusou comentar.
Isso permitiu que aviões israelitas, que já voavam há horas para sincronizar a chegada, disparassem até 30 munições de precisão. As forças israelitas indicaram que o ataque em pleno dia proporcionou surpresa tática, mesmo perante forte preparação iraniana.

Duas décadas de prioridade estratégica
Sima Shine, antiga responsável do Mossad especializada no dossiê iraniano, enquadrou o desfecho como culminar de dois momentos decisivos. O primeiro remonta a 2001, quando o então primeiro-ministro Ariel Sharon ordenou ao chefe do Mossad, Meir Dagan, que tornasse o Irã a prioridade central da agência. “‘Tudo o que o Mossad faz é importante’, teria dito Sharon, segundo Shine. ‘O que eu preciso é do Irã. Esse é o teu alvo.’”
Desde então, Israel sabotou o programa nuclear iraniano, eliminou cientistas e combateu aliados regionais de Teerã. O segundo momento, segundo Shine, foi o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023, que alterou uma restrição de longa data em Israel: apesar de infiltrar círculos de líderes inimigos, a eliminação de chefes de Estado permanecera tabu, mesmo em guerra.
A sucessão de êxitos operacionais — incluindo a morte do líder do Hamas Ismail Haniyeh em Teerã, em 2024, e um projeto clandestino de 300 milhões de dólares para sabotar milhares de pagers e rádios do Hezbollah — reforçou essa dinâmica. “Em hebraico dizemos: ‘Com a comida vem o apetite’”, afirmou Shine. “Ou seja, quanto mais se tem, mais se quer.”

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Como Israel Atacou o Hezbollah Usando "Pagers"

Durante dois dias, a Inteligência israelense levou a cabo um ataque sem precedentes: a explosão simultânea de 'beepers' e 'walkie-talkies' que provocou 37 mortos e mais de 3.000 feridos.

Funeral de duas das pessoas que morreram nas explosões de 17 de setembro em Beirute, Líbano. 

Foto: EFE

Desliguem isso! Coloquem-no em uma caixa de ferro trancada e enterre-o! O celular que está nas suas mãos, e nas das suas esposas e filhos, é um assassino — disse o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, num discurso em fevereiro passado.
Nasrallah estava convencido de que Israel — o seu maior inimigo — estava utilizando as redes de telefonia celular para localizar membros do seu movimento. É por isso que há vários anos insiste na necessidade de recorrer a uma tecnologia de comunicação mais simples, até ultrapassada: pediu para voltar ao beeper. Seu uso já havia começado a se espalhar entre os membros da milícia libanesa, convencidos de que ali suas informações e localização eram mais seguras. O que nem Nasrallah nem qualquer membro do Hezbollah esperavam era que estes pequenos dispositivos se transformassem em breve em verdadeiros cavalos de Tróia.
A primeira coisa que sentiram, na terça-feira, 17 de setembro, foi o som que anunciava uma mensagem. Eram 3h30 da tarde no Líbano. Alguns estavam no mercado comprando frutas, outros andavam de moto pela rua, alguns descansavam em casa ou faziam fila no supermercado. Houve alguém que, naquele momento, pediu à filha que lhe trouxesse o aparelho que estava começando a tocar. Talvez eles pensassem que era uma mensagem urgente dos seus chefes. Mas em vez disso, ao tocar no pager, tira-lo do bolso ou o aproximarem do rosto para vê-lo melhor, o que veio foi uma explosão. Uma, duas, três, centenas de explosões inundaram o país, especialmente em áreas que são redutos do Hezbollah. Alguns vídeos os mostram contorcendo-se no chão, gritando, enquanto a fumaça sai de seus bolsos ou pastas.
Sirenes de ambulâncias tocavam em todas as esquinas e os serviços médicos colapsaram devido ao número de pessoas que chegavam com ferimentos, principalmente no rosto, nas mãos e nos quadris, dependendo de onde estavam o beeper. Porta-vozes médicos relataram mais de quatrocentas cirurgias realizadas somente naquele dia como resultado do ataque. Houve onze mortos e mais de três mil feridos. Duas crianças perderam a vida. Fátima Abdullah, de 9 anos, foi quem saiu em busca do bipe para levá-lo ao pai.
Um dos feridos, segundo a mídia local, era o embaixador iraniano no Líbano, Mojtaba Amani. Não se sabe se ele estava com um dos dispositivos ou se estava perto de alguém que o carregava. O Hezbollah reconheceu que oito dos mortos eram combatentes. Até aquele momento a identidade de seus membros era segredo até mesmo de seus familiares. Este ataque quebrou esse sigilo e deixou claro que qualquer vizinho poderia ser um deles.
Os bipes de milhares de membros da milícia xiita explodiram em uníssono: não poderia ser coincidência. Era evidente que estavam carregados com algum tipo de explosivo. Isso poderia acontecer com outros dispositivos? O pânico tomou conta das pessoas em geral, que correram para desligar seus celulares, desconectar seus eletrodomésticos, seus laptops e suas babás eletrônicas. Se um pager pode causar tanto dano, qualquer coisa poderia ser uma arma letal.
O Hezbollah iniciou uma revisão dos seus sistemas de comunicações, mas não conseguiu concluí-la antes que ocorresse o segundo ataque. Foi no dia seguinte, quando centenas de pessoas compareceram aos funerais de algumas das vítimas de terça-feira. Nesse momento começaram as novas explosões, não dos bipes, mas dos walkie-talkies. As pessoas correram em busca de abrigo. Ouviam-se gritos pedindo que se afastassem dos aparelhos, e para desligá-los. Este segundo ataque causou vinte e cinco mortes — aparentemente, os dispositivos continham mais explosivos e portanto eram mais letais — e pelo menos seiscentos feridos.

Uma empresa fantasma e um poderoso explosivo
Ao pensar nos responsáveis, os olhos imediatamente se voltaram para Israel. O Hezbollah e Israel têm uma história de conflito — desde o nascimento da milícia pró-Irã na década de 1980 — que aumentou no último ano. Ao longo destes meses os seus confrontos têm sido constantes devido à solidariedade que o Hezbollah tem prestado ao Hamas.
Israel — através da sua famosa e temida agência de inteligência, o Mossad — já estava a calcular um ataque destas dimensões. A inteligência israelense estava ciente da propensão da milícia xiita para usar beepers e elaborou um plano sofisticado para interceptá-los. De acordo com especialistas em segurança consultados pelo The New York Times, Israel já havia criado há muito tempo uma empresa de fachada que se oferecia para fabricar esses dispositivos. A BAC Consulting, com sede na Hungria, era na verdade uma fachada que produzia este tipo de dispositivos para diversos clientes. Embora estivessem interessados ​​​​apenas em um deles: o Hezbollah.
O grupo libanês encomendou mais de três mil bipes para distribuí-los entre os seus membros no Líbano e alguns no Irã e na Síria. Os aparelhos, a maioria modelo AR924, contavam com o selo Gold Apollo, empresa taiwanesa de alta tecnologia com a qual a BAC Consulting havia negociado permissão para uso da marca.
Durante a fabricação, os dispositivos foram manipulados para esconder, junto com a bateria alguns gramas de PENT — ​​um explosivo dos mais poderosos —, bem como um interruptor que permitiria sua operação remota.
O envio de beepers ao Hezbollah começou em 2022 e foi reforçado no início deste ano, quando o líder do movimento lançou o seu pedido para “enterrar os celulares” e mudar para o pager. Segundo fonte próxima da milícia, consultada pela agência AFP, “os que explodiram correspondiam a um carregamento recente”. Agentes de inteligência israelenses os enviaram através de sua fábrica fantasma, esperando o momento exato chegar para explodi-los.
Na quarta-feira, após os ataques, a mídia de Taipei foi aos escritórios da Gold Apollo para investigar o que aconteceu. Membros do Ministério Público de Taiwan já estavam no local fazendo perguntas ao presidente e fundador da firma, Hsu Ching-kuang. Pediram-lhe todos os tipos de detalhes sobre seus sócios e seus contratos. “Não são nossos produtos”, apressou-se em dizer Hsu Ching-kuang e esclareceu que estes dispositivos foram fabricados pela BAC Consulting, que tinha autorização para utilizar a sua marca e distribuí-los em diferentes regiões. O Governo da Hungria, por seu lado, afirmou que os dispositivos não tinham sido fabricados no seu território. Os detalhes deste caso levarão tempo para serem conhecidos. Suas consequências, porém, começaram a ser percebidas imediatamente.

“O acerto de contas vai acontecer”
“Isto é puro terrorismo. Vamos chamá-los de massacre de terça e massacre de quarta. É uma declaração de guerra”, disse o líder do Hezbollah na quinta-feira passada. E veio o aviso de “punição justa”: “Não vou falar do lugar, do momento, do local. Você descobrirá quando isso acontecer. O acerto de contas acontecerá.”
Nasrallah também reconheceu que foi um ataque “sem precedentes” na história do seu movimento. Em geral, todos os tipos de adjetivos foram usados para descrever o evento: audaz, atrevido, engenhoso, preciso, “coisa de filme”. Não é de forma alguma a primeira vez que a Mossad demonstra sua capacidade particular. Tanto o Hezbollah como outros grupos apoiados pelo Irã — e o próprio Irã — têm sido alvo da inteligência israelita em ações que envolvem a tecnologia mais avançada.
Este caso trouxe à mente o do cientista iraniano Mohsen Fakhrizadeh, que, segundo Israel, liderou o programa nuclear daquele país e era uma ameaça à sua segurança. Fakhrizadeh foi assassinado em 2020 num ataque que, dizem, teve a assinatura da Mossad e foi executado por um robô gerido com inteligência artificial.
Os serviços israelenses já haviam atacado explodindo celulares. Mas até agora estes tinham sido casos isolados em que estava envolvido um único dispositivo. A ação massiva e simultânea realizada com beepers e walkie-talkies esteve em outro patamar e, além da surpresa, gerou debate. Uma das críticas é que foi realizado em locais onde civis poderiam ser afetados. “As explosões no Líbano parecem ter sido direcionadas, mas causaram sérios danos colaterais indiscriminados entre os civis. Houve crianças mortas”, disse o alto representante da União Europeia, Josep Borrell. O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, disse ao Conselho de Segurança que está “consternado com o impacto dos ataques. ... É um crime de guerra cometer atos de violência destinados a semear o terror entre a população civil.”
Este tipo de observações não parece afetar as intenções de nenhuma das partes. O Ministro da Defesa israelita, Yoav Gallan, anunciou “o início de uma nova fase nesta guerra”, que aparentemente tem como alvo o Líbano, com esforço até mesmo maior que Gaza. O Hezbollah, por seu lado, acusou o golpe — a humilhação, como o definiram, o seu “maior fracasso de contraespionagem em décadas” — mas isso não o vai levar a recuar da sua intenção de guerra.
A reação de ambos os lados, após os ataques de terça e quarta-feira, tem sido acelerar as ofensivas. Na sexta-feira, 20, o Hezbollah disparou dezenas de foguetes contra bases militares israelitas e, por seu lado, Israel respondeu com ataques mais intensos e afirmou ter matado um dos seus líderes estratégicos, Ibrahim Aqil, chefe das forças de elite. O que muitos temem, diante deste novo panorama, é que as águas se tornem ainda mais turbulentas e acabem provocando um confronto mais amplo, uma guerra regional com consequências terríveis.
Fonte: tradução livre de El Tiempo
COMENTO: Uma Operação de Inteligência perfeita, usando o principal objetivo do terrorismo, tão usado pelas eventuais vítimas do dia 17, semear o medo!! Espanta a hipocrisia dos "altos representantes" da União Europeia e dos Direitos Humanos da ONU, ao falarem sobre vítimas civis. Quando os autores do terrorismo são os fanáticos malucos do Hamas e do Hezbollah, civis judeus são um mero detalhe. O mais irônico de tudo foi a Operação ter aproveitado o discurso do principal líder do "Partido de Deus", contra as novas tecnologias. Enfim, o sucesso está representado no "levar o terror aos terroristas, ou servi-los o mesmo cardápio que oferecem". Pior que as mortes causadas e a quantidade de feridos, é a incerteza sobre o que pode acontecer no momento seguinte, esse é o principal fator das Ações Psicológicas! Parabéns, Israel! 

sábado, 10 de agosto de 2024

Lavender — O Novo Sistema de Inteligência Artificial de Israel


por Roberto Mansilla Blanco
Este sistema de inteligência artificial (IA) foi desenvolvido por seis oficiais do departamento de Ciência de Dados e Inteligência Artificial da Unidade 8200. Esta é uma divisão de Inteligência de elite das Forças de Defesa de Israel (IDF). O software permite que grandes quantidades de dados sejam rapidamente processadas, a fim de gerar milhares de “alvos” potenciais para ataques militares durante uma guerra. O sistema facilita a localização e a tomada de decisão para agir.
Lavender opera através do processamento massivo de dados coletados através de sistemas de vigilância. Ele usa algoritmos de aprendizado de máquina para avaliar e classificar a probabilidade de cada indivíduo estar ativo nas alas militares mencionadas. A IA procura padrões e características que se correlacionem com perfis militantes conhecidos. Isso pode incluir participação em grupos específicos do WhatsApp, mudanças frequentes de número de telefone ou padrões de movimento incomuns.
Os responsáveis ​​que trabalharam na criação do Lavender afirmaram que este sistema permite “fazer um trabalho essencial para identificar rapidamente potenciais agentes de ataque. Graças a este sistema, os objetivos nunca terminam. A máquina funciona friamente”.
Além disso, Lavender é complementado por outro sistema de IA: “The Gospel” (“O Evangelho”) cuja diferença fundamental está na definição do objetivo. Enquanto "O Evangelho" marca os edifícios e estruturas a partir dos quais os militares dizem que os militantes operam, Lavender marca as pessoas e adiciona-as a uma 'lista negra'.
A sua utilização inédita num conflito militar como a atual guerra de Gaza permitiu a detecção de um total de 37 mil alvos potenciais de acordo com as suas ligações com os movimentos islâmicos palestinos Hamas e Jihad Islâmica, ambos considerados grupos terroristas por Israel, pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Em Gaza, Lavender foi fundamental durante as fases iniciais da guerra na identificação desses alvos.
Especialistas e fontes de inteligência afirmam que o uso de Lavender ajudou o exército israelense a destruir alvos inimigos de forma mais rápida e menos custosa economicamente, através do uso das chamadas “bombas tontas”, munições não guiadas, diferentes das “bombas inteligentes” com maior precisão.
No entanto, o software também levou a um aumento no número de mortes. Segundo estatísticas das Nações Unidas, as vítimas até agora são perto de 34 mil pessoas. De acordo com dados de dezembro de 2023 dos serviços de inteligência dos EUA, cerca de 45% das munições usadas pela força aérea israelense em Gaza eram "bombas tontas". Estas causam mais danos colaterais do que as bombas guiadas. A elevada taxa de danos colaterais em Gaza é superior à das guerras no Iraque, na Síria e no Afeganistão.
Lavender analisa informações recolhidas através de visão, celulares, redes sociais, contatos telefônicos, dados de campos de batalha e fotografias sobre a maioria dos 2,3 milhões de residentes da Faixa de Gaza através de um sistema de vigilância em massa. Em seguida, avalia e classifica a probabilidade de cada pessoa pertencer ao braço armado do Hamas ou da Jihad Islâmica Palestina.
Fontes israelenses estimam aproximadamente 10% de erros. Às vezes, sinalizando pessoas que têm apenas uma ligeira ligação com grupos militantes ou nenhuma ligação. Pouco depois da invasão de Gaza, os resultados de Lavender alcançaram 90% de precisão na identificação de pessoas que pertenciam ao grupo islâmico. Portanto, o exército autorizou o uso generalizado do sistema.
Após o ataque do Hamas a Israel em 7 de Outubro de 2023, os militares israelitas adoptaram uma abordagem radicalmente diferente. No âmbito da "Operação Iron Swords" (Operação Espadas de Ferro), o exército decidiu designar todos os agentes da ala militar do Hamas como alvos humanos, independentemente da sua posição ou importância militar.
Esta estratégia representou um problema técnico para os serviços de inteligência israelitas. Nas guerras anteriores, para autorizar a morte de um único alvo humano, um oficial tinha de passar por um processo complexo e demorado de “incriminação”. Tinha de verificar se a pessoa era de fato um membro de alto escalão da ala militar do Hamas, descobrir onde morava, os seus dados de contato e, finalmente, saber quando estava em casa em tempo real. Quando a lista de alvos continha apenas algumas dezenas de oficiais de alta patente, o pessoal dos serviços de informação poderia empreender individualmente o trabalho de incriminá-los e localizá-los.
No entanto, quando a lista se expandiu para incluir dezenas de milhares de agentes de patente inferior, os militares israelitas pensaram que tinham de confiar em software automatizado e Inteligência Artificial. O resultado é que o papel do pessoal humano na incriminação dos combatentes palestinianos foi descartado e, no seu lugar, a IA faz a maior parte do trabalho.
A utilização desta tecnologia no campo de batalha também abre portas ao debate sobre a legalidade deste tipo de armamento e a sua relação com os militares. As Nações Unidas denunciaram o uso de IA em Gaza. Várias fontes de informação cunharam seu uso como “domicídio”. O termo refere-se ao fato dos seus alvos atingirem casas, edifícios e outras casas de supostos militantes do Hamas.
Estima-se que esta tecnologia tenha pouca supervisão humana. Na verdade, segundo fontes de inteligência, ela influenciou as operações militares a tal ponto que basicamente trataram os resultados de Lavender “como se fosse uma decisão humana”.
Na primeira fase da guerra, o Exército Israelense autorizou os oficiais a assumirem como legítimas as listas de alvos geradas por Lavender. Sem a necessidade de verificar minuciosamente por que o software tomou essas decisões ou analisar as informações. Os oficiais não eram obrigados a revisar de forma independente as avaliações do sistema de IA. Tudo isso para economizar tempo e permitir a produção em massa, sem obstáculos, dos objetivos humanos.
Uma fonte afirmou que a equipe humana muitas vezes servia apenas como um “carimbo” para aprovar automaticamente as decisões das máquinas. Além disso, eles geralmente gastavam pessoalmente apenas cerca de “20 segundos” para cada alvo antes de autorizar um bombardeio. Apenas para ter certeza de que o alvo marcado por Lavender era um homem. O instrumento era aplicado geralmente à noite, quando os alvos estavam em suas residências.
Segundo estas fontes, milhares de palestinos — a maioria deles mulheres e crianças ou pessoas que não participaram nos combates — foram aniquilados por ataques aéreos israelitas, especialmente durante as primeiras semanas da guerra. Numa medida sem precedentes, durante as primeiras semanas da guerra, o Exército também decidiu que por cada militante júnior do Hamas marcado por Lavender seria permitido matar até 15 ou 20 civis. No caso de o alvo ser um alto funcionário do Hamas com a patente de comandante de batalhão ou de brigada, o Exército autorizou, em diversas ocasiões, a morte de mais de 100 civis na execução de um comandante. Segundo fontes da inteligência israelense, “na prática, o princípio da proporcionalidade não existia”.
Outra fonte dos serviços de inteligência confirmou a pressão constante recebida dos comandantes superiores do exército para expandir o número de objetivos e eliminá-los rapidamente através da IA. Assim, dados coletados de funcionários do Ministério de Segurança Interna administrado pelo Hamas, que não são considerados militantes, foram inseridos no software. A utilização do termo “agente do Hamas” incluía pessoas que trabalhavam na defesa civil.
No entanto, em contraste com as declarações oficiais do exército israelita, fontes explicaram que uma das principais razões para o número sem precedentes de mortes causadas pelos atuais bombardeios de Israel é o fato de terem sido atacados, sistematicamente alvos nas suas casas, os indivíduos e suas famílias. Segundo dados das Nações Unidas, durante o primeiro mês da guerra, mais de metade das vítimas mortais — 6.120 pessoas — pertenciam a 1.340 famílias, muitas das quais foram completamente exterminadas enquanto estavam dentro das suas casas.
Nas anteriores guerras intermitentes em Gaza, de 2009 a 2021, após a morte de alvos humanos, os serviços de inteligência israelitas realizaram procedimentos de avaliação de danos causados ​​por bombas, uma verificação de rotina pós-ataque para ver se comandantes superiores tinham sido mortos e quantos civis tinham morrido com isso.
No entanto, na guerra atual, pelo menos em relação aos militantes de baixo escalão marcados com IA, fontes dizem que este procedimento foi abolido para poupar tempo. Também não sabiam quantos civis foram mortos em cada ataque e, no caso de supostos agentes de baixa patente do Hamas e da Jihad Islâmica sinalizados pela IA, nem sequer sabiam se os próprios alvos tinham sido mortos.
Fonte: tradução livre de Boletim LISA
COMENTO: impressiona a hipocrisia dos analistas ao citarem o morticínio de civis no conflito Israel-Hamas. Sempre desconsideram o fato de que existe um confronto onde os civis fazem parte de um dos lados. Em outras palavras: os tais analistas não contabilizam os civis israelenses mortos nos ataques dos terroristas — que sempre contam com o fanático apoio da população que dizem representar —, mas os adversários de Israel, estando em trajes civis, não são considerados combatentes e possíveis alvos das armas sionistas. E os "guerreiros" do Hamas, assim como do Hezbollah ou da Jihad Islâmica nunca usam uniformes!

quinta-feira, 21 de março de 2024

Estados Unidos Anunciam que Israel Matou o nº 3 do Hamas

por Laura Ruiz Sancho
Estados Unidos afirmaram que o líder do Hamas, Marwan Issa, foi morto numa ofensiva israelita.
O Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, confirmou que forças israelenses mataram Marwan Issa, o vice-comandante da ala militar do Hamas em Gaza e um dos mentores dos ataques de 7 de outubro. O presidente dos Estados Unidos “afirmou que Israel tem o direito de perseguir o Hamas, os autores do pior massacre do povo judeu desde o Holocausto”, disse Sullivan. Da mesma forma, indicou que “Biden indicou repetidamente que a continuação das operações militares deve estar ligada a um fim estratégico claro, razão pela qual ele precisava de uma estratégia coerente e sustentável para que isso acontecesse”. No entanto, o conselheiro dos EUA alertou que “um plano militar não pode ter sucesso sem um plano humanitário integrado e um plano político”.
Nem o Hamas nem Israel comentaram oficialmente estes relatórios. Embora, em 11 de março, o Contra-Almirante israelense Daniel Hagari tenha afirmado que aviões militares israelenses haviam atacado Issa e outro alto funcionário do Hamas em um complexo subterrâneo no centro de Gaza.
Segundo o jornal britânico The Guardian, todos os sistemas de comunicação entre os líderes do Hamas ficaram em silêncio por mais de 72 horas após o ataque, como já aconteceu em diversas ocasiões em que altos líderes do Hamas foram mortos.
A mídia israelense informou que Issa foi morto em um ataque a um complexo de túneis sob o campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza. O Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Hervi Halevi, informou que uma operação das FDI (Forças de Defesa de Israel) em conjunto com o Shin Bet permitiu “a eliminação de altos funcionários clandestinos”. Da mesma forma, o Conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, sustentou que o resto dos altos funcionários do Hamas estão escondidos na profunda rede de túneis do Hamas.
As declarações do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA surgiram depois do presidente dos EUA, Joe Biden, ter conversado por telefone com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, pela primeira vez em mais de um mês. Nessa conversa discutiram a crise humanitária na Faixa de Gaza e uma possível operação israelense na cidade de Ráfah, que Washington considera um “erro”.
Especialistas disseram que o ataque a Issa sugere que Israel está obtendo informações de uma fonte importante da organização. "Israel precisaria saber onde e quando Issa estava escondido, e que ele permaneceria lá o tempo necessário  para que o gabinete aprovasse e [o exército israelense] lançasse a operação, necessitando, ainda confirmar que não havia prisioneiros israelenses detidos nas proximidades", disse Avi Melamed, ex-funcionário da inteligência israelense e analista regional.
Marwan Issa, que tinha 58 ou 59 anos no momento da sua morte, servia desde 2012 como substituto de Mohammed Deif, o líder das Brigadas Ezedin al-Kasem, o braço militar do Hamas. Issa serviu, ainda, no Conselho Militar do Hamas e no seu gabinete político em Gaza, supervisionado por Yahya Sinwar, o oficial de mais alta patente do grupo no enclave.
Fonte: tradução livre do Boletim LISA News

terça-feira, 5 de março de 2024

A Historia do Narcoterrorismo, da Guerra do Ópio aos Grupos Jihadistas

O narcoterrorismo representa um dos principais desafios para a segurança global e, desde o século XIX, impacta de diferentes formas e proporções em todos os países e regiões do mundo. Neste artigo, o professor do Curso de Experto en Análisis e Investigación de Narcoterrorismo de LISA (Learning Institute of Security Advisors), Raúl González, explica como o narcoterrorismo se desenvolve como uma estrategia híbrida oferecendo exemplos concretos desde as guerras do opio, passando pelas FARC e ETA na década dos sessenta, até como hoje os grupos Hezbolah, ISIS e Hamas tem fortes conexões com grupos delitivos narcotraficantes em toda América Latina.
Narcoterrorismo: uma ameaça permanente
O narcoterrorismo representa um dos principais desafios para a segurança global, pois tem a capacidade de impactar todos os países e regiões do mundo de diferentes formas e proporções, além das consequências que são geradas nos territórios em que essas ações ocorrem.
O narcoterrorismo é considerado uma estratégia de guerra híbrida em que, tanto a violência como a corrupção são utilizadas para atingir um ou mais objetivos. Estes objetivos incluem o controle territorial, o financiamento de atividades terroristas, a desestabilização e a subversão do Estado de direito.
A ligação entre os flagelos do tráfico ilícito de drogas e do terrorismo teve um impacto significativo na comunidade internacional. Esta relação baseia-se na simbiose entre organizações terroristas e grupos criminosos organizados envolvidos no tráfico de droga. As primeiras se beneficiam de enormes recursos provenientes do tráfico ilícito de drogas para financiar as suas atividades e ampliar a sua influência. No caso dos traficantes de droga, estes aproveitam-se da violência e da corrupção para manter o seu poder e expandir-se.
As implicações deste fenômeno são extremamente graves para a segurança internacional. Todas as suas ações têm o potencial de gerar instabilidade política, social e econômica. Pode também transcender os territórios diretamente afetados pela violência gerada, com consequências que vão além da própria ação criminosa.
O seu impacto é tão amplo que os seus efeitos podem mesmo acabar por afetar gravemente as relações diplomáticas entre os países. São capazes de gerar lacunas nas economias em diferentes escalas, causando ou agravando problemas sociais de vários tipos e tornando-se uma fonte inesgotável de violência e corrupção.
Adicionalmente, baseado na tríade do poder econômico dos lucros ilícitos do tráfico de drogas, do impacto das ações terroristas e do tráfico de armas que se combinam com outras ações criminosas organizadas, o narcoterrorismo também promove conflitos de diversas dimensões e é capaz de prolongá-los por longos períodos.
Embora esteja presente na agenda internacional há décadas, a multiplicidade de fatores e variáveis ​​envolvidas (políticas, sociais, culturais e econômicas) têm forte impacto na forma como governos, instituições, organizações internacionais e a sociedade em geral percebem e enfrentam esse problema. Por esta razão, não foi possível desenvolver uma definição de narcoterrorismo que seja globalmente aceita e para a qual se gere uma dinâmica de mudança a uma velocidade muito elevada, no que diz respeito ao seu reconhecimento e tratamento.

¿Qual é a origem do narcoterrorismo?
As origens do narcoterrorismo são incertas. No entanto, apesar das diferenças em relação às guerras do ópio, poderíamos considerá-las como as suas precursoras. Acima de tudo, com base na análise crítica das suas causas, consequências, impacto e elementos característicos.
Ressaltamos, em primeiro lugar, que ambos destacam a complexidade da abordagem deste tipo de conflito. São situações em que convergem a relação entre as drogas e o seu impacto nas dinâmicas políticas, sociais e econômicas. Portanto, acabam afetando gravemente a estabilidade interna dos países e as relações internacionais.
As Guerras do Ópio ocorreram durante o século XIX (entre 1839 e 1860) e tiveram como principais protagonistas a China e o Reino Unido. A introdução de enormes quantidades de ópio (mesmo contrabandeado) na China permitiu ao Reino Unido reduzir o déficit fiscal. Déficit que ocorreu devido à grande demanda por produtos chineses (chá, seda e porcelana), além de gerar recursos para financiar a guerra com a Índia. Por outro lado, o consumo excessivo de ópio pela população foi um fator desestabilizador interno que contribuiu para o enfraquecimento da dinastia chinesa.
Estas guerras tiveram implicações importantes para a geopolítica internacional, afetando em primeira instância as relações entre a Europa e a Ásia. Os efeitos da comercialização do ópio (lícita e ilícita) geraram posteriormente as bases para a implementação do sistema internacional de controle de drogas que é aplicado em todo o mundo. Por outro lado, o narcoterrorismo inclui uma ampla e variada gama de ações criminosas, que têm vindo a desenvolver-se e a evoluir de acordo com as mudanças impostas ao espectro internacional pela Primeira e Segunda Guerras Mundiais.
É assim que vários relatórios oficiais afirmam que, desde meados da década de 1950 do século XX, estratégias não convencionais foram utilizadas pela China e pela União Soviética contra os países ocidentais, que incorporaram o tráfico de drogas como forma de guerra química e fonte de financiamento para movimentos subversivos.

Expansão internacional do narcoterrorismo: das FARC na Colômbia ao ETA na Espanha
A partir da década de 1960, grupos guerrilheiros e subversivos na América Latina começaram a financiar as suas atividades através do narcoterrorismo. Assim, envolveram-se e estabeleceram relações com organizações criminosas dedicadas ao tráfico ilícito de drogas. Estas proporcionaram-lhes proteção em troca de recursos que lhes permitiram avançar nos seus objetivos.
Na década de 1970, as organizações de tráfico de drogas começaram a estabelecer redes internacionais de tráfico de drogas, principalmente de cocaína, para os Estados Unidos e a Europa. Dessa forma, na década de 1980, os grupos guerrilheiros se fortaleceram e se expandiram. Alguns dos exemplos mais notáveis ​​são as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) na Colômbia e o Sendero Luminoso no Peru. Ambas as organizações utilizaram os rendimentos do tráfico de droga para financiar as suas atividades terroristas. Entre eles, destacam-se sequestros, assassinatos, extorsões e outros atos violentos para promover os seus objetivos políticos e econômicos.
Paralelamente, o narcoterrorismo espalhou-se para além da América Latina. Na Europa, os grupos mafiosos usaram a violência e estratégias terroristas para proteger as suas operações de tráfico de drogas. Com isso, buscaram extorquir empresas locais e pressionar os operadores do sistema judiciário.
Na Espanha, organizações como a Euskadi Ta Askatasuna (ETA) tinham a extorsão e outros meios ilegais como principais fontes de financiamento. Além disso, recebiam dinheiro dos narcotraficantes galegos para financiar as suas atividades em troca de proteção e apoio na introdução de grandes quantidades de drogas na zona norte do país ibérico.
Além disso, está amplamente documentado que o ETA assessorou Pablo Escobar, Capo do Cartel de Medellín, na execução de táticas terroristas contra a Colômbia. Tudo isto, no âmbito da luta contra a extradição de traficantes de droga para os Estados Unidos da América. Além disso, ele teve uma ligação comprovada durante muitos anos com a organização narcoterrorista colombiana FARC.

Conexões do narcotráfico com os grupos jihadistas
À medida que as organizações de tráfico de drogas e os grupos guerrilheiros se tornaram mais poderosos e sofisticados, a sua capacidade de influenciar a política e a economia dos seus países de origem também cresceu. Muitos políticos e funcionários públicos foram subornados ou ameaçados por estes grupos, e a corrupção espalhou-se por vários níveis do governo e da sociedade.
A partir de 1990, o narcoterrorismo expandiu-se através da ligação entre organizações terroristas islâmicas e grupos criminosos dedicados ao tráfico de drogas. O Talibã no Afeganistão, por exemplo, envolveu-se no tráfico de ópio para financiar as suas atividades terroristas. Desde os ataques de 11 de Setembro de 2001, estas ligações intensificaram-se. Com isto, outras organizações terroristas como a Al Qaeda (ligada ao Talibã) ou o Estado Islâmico (ISIS), entre outras, apareceram na cena pública.
Atualmente, vários grupos terroristas, incluindo o Hezbollah, o ISIS e o Hamas, têm fortes ligações com grupos criminosos de tráfico de drogas em toda a América Latina. Participam diretamente em atividades ilícitas de tráfico de droga, recebem financiamento para aconselhar traficantes de droga sobre táticas terroristas e trabalham em conjunto noutras atividades ilegais, como a mineração e a exploração de recursos naturais.
Para ilustrar esta última afirmação, vamos nos referir ao caso específico do Hamas. Alguns especialistas afirmam que ele tem ligações comprovadas com o Cartel de Sinaloa, no qual ambas as organizações se beneficiam. O Hamas teria assessorado o Cartel de Sinaloa na construção de túneis na fronteira com os Estados Unidos (de estrutura semelhante aos construídos pelo Hamas para superar as barreiras com Israel em Gaza).
Além disso, o Hamas oferece proteção aos carregamentos de metanfetaminas que atravessam ou têm como destino o Oriente Médio para este Cartel Mexicano, de quem recebe dinheiro do tráfico de drogas para se sustentar e também para financiar ataques terroristas e conflitos como o que ocorre atualmente. na faixa de Gaza.

Outros casos de narcoterrorismo em âmbito internacional
A máfia italiana ainda desempenha um papel no tráfico de drogas na Europa e tem sido acusada de ter ligações com organizações criminosas na América Latina. Mesmo assim, o uso da violência diminuiu (embora continue a ser um vetor de exercício de influência), sendo em grande parte substituído pela dissuasão através da corrupção e da participação na esfera política.
Na América Latina, organizações criminosas dedicadas ao tráfico ilícito de drogas de diversas origens, porte e abrangência; continuam a utilizar táticas terroristas que geram migrações forçadas, desaparecimentos e homicídios. Um exemplo foi o assassinato de um candidato presidencial no Equador ou o de um promotor antidrogas no Paraguai. Os homicídios são comparáveis ​​às ações violentas do passado que chamaram a atenção mundial, como os notórios casos de assassinatos de candidatos presidenciais, ministros e diretores de imprensa na Colômbia, bem como de magistrados na Itália.
As acusações das autoridades dos Estados Unidos da América à China e ao México, de serem os grandes responsáveis ​​pelos problemas que afetam a sua população em diversas cidades devido ao abuso do consumo de fentanil, acusando-os de usarem isso como estratégia para desestabilizar o sistema interno ordem e saúde naquele país; têm também grandes semelhanças com os acontecimentos que levaram às guerras do ópio e que envolveram a China, o Reino Unido e a Índia.
Estas são demonstrações confiáveis ​​das dimensões e do impacto que o narcoterrorismo tem na segurança global, bem como nas relações internacionais, na saúde pública e no comportamento dos mercados econômicos e financeiros. Também destaca o perigo implícito na ação silenciosa mas continuada deste fenômeno.
Fonte: tradução livre do Boletim LISA News
(Learning Institute of Security Advisors)

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Ponto Sem Retorno ou Pontes Queimadas

“Agitaram-se as nações, vacilaram os reinos; apenas ressoou sua voz, tremeu a terra. Está conosco o Senhor dos Exércitos, nosso protetor é o Deus de Jacó.”
(Salmo 45: 7-8)

por Joanisval Gonçalves
Nesta noite de domingo, passadas cerca de 48 horas dos ataques do Hamas a Israel, e após muito ver, refletir e orar, decidi trazer para Frumentarius minhas primeiras impressões disso tudo. Serão breves e objetivas. Vamos a elas.
Se houvesse um único termo para definir toda essa terrível crise é “sem precedentes”. Sim, Israel sofreu um ataque sem precedentes em sua história de 75 anos de conflitos. Além dos já “costumeiros” ataques com foguetes (contra os quais o Domo de Ferro garantia proteção), e diferentemente de tudo que acontecera antes, o Hamas atacou por terra: os “combatentes” da organização (terroristas sim, sem qualquer sombra de dúvida) avançaram contra populações civis dentro do território israelense. Massacraram homens, mulheres, crianças e idosos indistintamente, centenas de pessoas trucidadas em alguns poucos minutos (nunca o Hamas havia causado tantas baixas à população Israel). De fato, o que perpetraram sem qualquer pudor contra os civis israelenses me remonta ao que os nazistas fizeram com populações que pretendiam exterminar há mais de oito décadas — a maioria das vítimas, judeus.
Também sem precedentes foram as dezenas de pessoas tomadas como reféns pelo Hamas. No conflito com os palestinos, já houve cidadãos israelenses cativos, mas nunca nesse número tão significativo. E, na era das redes sociais e dos smartphones, o mundo já assistiu chocado a imagens de famílias executadas em suas casas enquanto comiam, de moças sendo forçadas a entrar em caminhonetes, à idosa ao lado de seu algoz com um fuzil no colo e fazendo um “v” com a mão (o que evidencia algum problema de senilidade da pobre senhora, a qual autoridades norte-americanas já teriam dito ser sobrevivente do Holocausto), ou ao vídeo aterrador de crianças pequenas dentro de gaiolas/jaulas sob a risada debochada dos facínoras que as capturaram. Esses registros de brutalidades contra civis aumentam a cada hora, e se mostram cada vez mais aterradores. Nada, absolutamente nada, justifica semelhantes ações, e aqueles que as cometeram fizeram com que sua causa perdesse qualquer legitimidade.
Os ataques diretos a guarnições israelenses, com a execução fria de soldados e tomadas de oficiais (alguns de alta patente) como reféns também surpreenderam. Até ontem, quando um soldado israelense era capturado pelos palestinos, todos os protocolos de segurança do Estado de Israel eram alterados, e o país entrava em alerta máximo. Nesse sábado, repito, foram dezenas de soldados capturados — dificilmente serão tratados como “prisioneiros de guerra”. Some-se a isso cenas de blindados israelenses sendo destruídos por mísseis (não me pareceram foguetes, mas não sou especialista) e de tripulações sendo arrancadas de seus carros de combate e trucidadas, com seus corpos jogados ao chão e vilipendiados. E tudo isso sendo gravado e transmitido em tempo real para o mundo.
Sim, o ataque do Hamas a Israel neste sábado, 7 de outubro de 2023, exatos 50 anos após o início da ofensiva que desencadeou a Guerra do Yom Kippur, foi algo sem precedentes. E a organização demonstrou capacidade operacional, planejamento, coordenação e controle também sem precedentes. Evidenciou um poder de fogo quase que inimaginável. E conseguiu causar danos a Israel e à sua população de intensidade e profundidade como nunca acontecera antes.
Sem precedentes também será a resposta de Israel. O país foi “jogado nas cordas”, e ainda se recupera para reagir. Mas reagirá. O Leão mostrará sua força, e atacará como nunca se viu. Os israelenses, unidos, não medirão esforços para vingar suas vítimas e aniquilar o cruel inimigo. Infelizmente, como aconteceu com a população do sul de Israel, milhares de palestinos inocentes em Gaza também sofrerão as consequências dos contra-ataques israelenses. Não me surpreenderia que se fizesse ali o que Roma vez com Cartago ao final da 3ª Guerra Púnica. Vae victis!
Israel não vai descansar até vingar seus mortos, feridos e sequestrados, e acabar com a existência do Hamas. Não lhe resta outra opção. Não à toa, Tel Aviv declarou estado de guerra. Se não reagir à altura, quem deixará de existir será a nação judaica.
Ao desencadear a operação desse sábado, o Hamas selou seu destino. Não deixou alternativa ao “inimigo”, pois o atacou naquilo que tinha de mais precioso. Também reiterou o que sempre pregara como seu maior objetivo: a extinção de Israel e da nação judaica — em outras palavras, o genocídio do povo judeu (posicionamento bem distinto do que prega a Autoridade Nacional Palestina, a qual governa a Cisjordânia e defende a criação de um Estado palestino livre e soberano).
O Hamas queimou as pontes, como se diz no jargão dos que estudam polemologia. As ações desencadeadas ontem levaram a um ponto sem volta (point of no return). E se isso se aplica para o Hamas, também cabe para a resposta que Israel terá que dar contra os terroristas e contra a Faixa de Gaza e os dois milhões de palestinos que ali vivem em condições dificílimas. Qualquer reação israelense, repito, que não seja dura, firme e efetiva, implicará em demonstração de fraqueza e sinalizará a possibilidade de colapso iminente do Estado de Israel perante os antagonistas que o cercam.
Talvez escreva nos próximos dias sobre o que vislumbro da reação israelense. A possibilidade dessa resposta envolver alvos além do Hamas não deve ser negligenciada, sobretudo se outros atores, não-estatais (como o Hesbollah) ou estatais (certos países do Oriente Médio, por exemplo), estiverem envolvidos no planejamento e na execução dos ataques iniciados ontem ou vierem a apoiar os palestinos. Nesse caso, o risco de o conflito escalar é alto, inclusive com o recurso de Tel Aviv a seu armamento não-convencional — aí se terá também um conflito verdadeiramente sem precedentes.
O mundo mudou muito (infelizmente para pior) desde sábado, 7 de outubro de 2023. Quero realmente estar enganado, mas as pontes parecem já ter sido queimadas entre as partes diretamente envolvidas no conflito. Talvez ainda não se tenha chegado ao ponto sem volta no que diz respeito à escalada da guerra, mas acredito que se está muito próximo dele.
Ontem à noite, conversando com uma amiga judia muito querida, ela me disse que “há certas derrotas que têm gosto de vitória, mas na guerra até o vitorioso sai derrotado”. Impossível discordar dessa afirmação. Espero ter errado em minhas reflexões, mas nesta guerra que começou ontem, a única possibilidade de vitória que percebo para cada um dos oponentes, exatamente porque as pontes foram queimadas nos primeiros momentos por um deles, é a aniquilação total do outro. E, assim, todos sairão derrotados.
Resta-nos, ao término deste segundo dia de conflito, orar por todos os que estão sofrendo com ele, pelos mortos e feridos de ambos os lados, por aquelas dezenas de pessoas que estão no cativeiro dos terroristas, e pelas famílias dos envolvidos nesse confronto. E resta-nos orar para que o Senhor dos Exércitos não permita que essa guerra escale e que a paz seja restaurada na região. Só nos resta, neste fim de dia, orar para que os que sofrem sejam confortados.

PS: As reflexões aqui são personalíssimas e fruto de uma tristeza imensa em testemunhar essa tragédia, da qual todos sairão derrotados — não por acaso vivemos em um mundo de provas e expiações. Acredito que nos próximos dias teremos uma chuva de “especialistas” convidados a falar nos meios de comunicação e nas redes sociais sobre o conflito entre Israel e o Hamas. São os mesmos que sabiam tudo sobre Covid, depois passaram à condição de doutores em vacinas, em seguida profundos conhecedores de Rússia e catedráticos aptos a discorrer sobre a Guerra na Ucrânia, para posteriormente analisar com profundidade (de pires) o problema da fome crônica no Brasil (com os 700 milhões de brasileiros que disseram vagar pelo País), e, mais recentemente, mostraram-se conhecedores de terrorismo, crimes contra a humanidade e Tribunal Penal Internacional. Assim, recomendo a meus 8 (oito) leitores (talvez esse número tenha diminuído com a pandemia) moderação aos buscarem opiniões de especialistas — como diria Ésquilo, “na guerra, a primeira vítima é a verdade”. E, mesmo que não me tenham perguntado, indico as análises sérias, embasadas e confiáveis de Alessandro Visacro e de Leo Mattos (ainda não tive como fazê-lo, mas vou ler — e ouvir —, nos próximos dias, o que eles têm a dizer sobre essa crise). Recomendo muito os dois professores.

sábado, 15 de setembro de 2018

Alemanha: Ascensão dos Salafistas

por Soeren Kern
Tradução: Joseph Skilnik
Milhares de pessoas ouvem com atenção o pregador salafista Pierre Vogel discursar em um comício para simpatizantes em 9 de julho de 2011 em Hamburgo, Alemanha. (Foto: Christian Augustin/Getty Images)
O número de salafistas localizados na Alemanha mais que dobrou nos últimos cinco anos, ultrapassando pela primeira vez a marca dos 10 mil, de acordo com a Agência de Inteligência Interna da BfV da Alemanha. A BfV calcula que haja na Alemanha mais de 25 mil islamistas, dos quais praticamente 2 mil representam uma ameaça iminente.
Os dados fazem parte do último relatório anual do Departamento Federal para a Proteção da Constituição (Bundesamt für Verfassungsschutz, BfV), apresentado pelo ministro do interior, Horst Seehofer e pelo presidente do BfV, Hans-Georg Maaßen em Berlim em 24 de julho.
O relatório, considerado o mais importante indicador de segurança interna da Alemanha, desenha um quadro sombrio. O BfV calcula que o número de islamistas presentes na Alemanha aumentou de 24.425 em 2016 para no mínimo 25.810 por volta do final de 2017.
Causa espécie que o relatório não forneça nenhuma estimativa quanto aos dados no tocante aos seguidores do Estado Islâmico ou da al-Qaeda que vivem na Alemanha. Consequentemente, a verdadeira dimensão do número real de islamistas presentes na Alemanha é, indubitavelmente, maior do que 25.810.
Segundo o relatório, os salafistas formam o maior grupo islamista da Alemanha. O número de salafistas presentes na Alemanha saltou para 10.800 em 2017, dos 9.700 em 2016, 8.350 em 2015, 7.000 em 2014, 5.500 em 2013 e 4.500 em 2012.
O relatório do BfV ressalta:
"Os salafistas se veem como guardiões do Islã original, puro. Eles modelam sua prática religiosa e seu estilo de vida exclusivamente nos princípios do Alcorão, do Profeta Maomé e das três primeiras gerações muçulmanas, os assim chamados antepassados justos (Al-Salaf al-Salih em árabe). Como consequência, os salafistas querem implantar uma "teocracia" de acordo com a sua interpretação das diretrizes da Lei Islâmica (Sharia), na qual não se aplica mais a ordem democrática liberal.
"Os jihadistas salafistas e os políticos salafistas nutrem basicamente a mesma ideologia. A diferença primordial são os meios para atingirem seu objetivo, a "teocracia salafista". Os políticos salafistas disseminam a ideologia islamista fazendo uso de intensa propaganda, que eles retratam como 'trabalho missionário' (Dawa), para transformar a sociedade por meio de um processo de longo prazo, segundo as normas salafistas.
Muitos políticos salafistas se posicionam contra o terrorismo. Eles enfatizam a natureza pacífica do Islã e rejeitam o chamamento aberto à violência. No entanto, vale a pena lembrar que o salafismo político tem uma relação ambivalente com a violência porque, em princípio, não exclui a violência inspirada na religião como meio de atingir seus objetivos.
Ao interpretarem o Islã, os políticos salafistas fazem uso seletivo das obras clássicas da literatura jurídica islâmica, que sustenta profunda afinidade com a violência quando se trata de lidar com não muçulmanos. Os salafistas acreditam que a reivindicação universal do Islã, devido à sua superioridade como plano divino de salvação para toda a humanidade, deve ser imposta por meio da força, se necessário, portanto, no cerne, a aprovação do uso da violência é parte intrínseca da ideologia salafista.
"As duas correntes salafistas têm visões diferentes, mas passíveis de conciliação à luz do pré-requisito, a violência pode ser usada. Isso explica porque a transição do salafismo político para o salafismo jihadista é acomodável".
O relatório do BfV assinala que os salafistas estão concentrando seus esforços proselitistas e de recrutamento em migrantes que buscam refúgio na Alemanha:
"Sob o pretexto de ajuda humanitária, os islamistas conseguiram radicalizar inúmeros migrantes. No passado, os salafistas em particular, procuraram estender a mão aos migrantes. Eles visitavam abrigos para refugiados para esse fim, oferecendo assistência. O grupo alvo não era apenas o dos migrantes adultos, era também o dos adolescentes desacompanhados que, devido à sua situação e idade, são particularmente suscetíveis às práticas missionárias salafistas".
As diversas práticas propagandísticas dos salafistas, que eles minimizam como se fosse 'proselitismo' ou 'convite para as pessoas conhecerem o Islã', é na verdade uma doutrinação sistemática e muitas vezes o início da radicalização, com bons resultados: o salafismo islamista está em voga e é o que mais cresce na Alemanha.
O ambiente salafista representa o ponto nevrálgico do recrutamento para a Jihad. Todos que têm alguma conexão alemã, com raríssimas exceções, que se juntaram à jihad estiveram anteriormente em contato com o ambiente salafista."
Segundo o BfV, o crescimento do movimento salafista na Alemanha está sendo alimentado em parte por migrantes da Tchetchênia:
"No ambiente salafista da Alemanha, os atores de origem caucasiana do Norte, em especial os da República da Tchetchênia, ganharam maior importância. Os estados mais afetados são os estados federais da Alemanha Oriental e da região Norte, assim como o estado do Reno, Norte da Westphalia.
O ambiente islamista do Cáucaso do Norte é caracterizado pela disseminação de peculiaridades e redes espalhadas por toda a Europa. Em grande medida é ambiente fechado para o mundo exterior. O fator crítico para a radicalização é um espectro de contato pessoal que conecta elementos da religião e da estrutura tradicional do clã. O islamista do Cáucaso do Norte estabeleceu contatos com grupos jihadistas do Oriente Médio devido aos 'sucessos' dos combatentes do Cáucaso do Norte na Síria e no Iraque."
O relatório do BfV mostra uma ligação direta entre o aumento do antissemitismo na Alemanha e a ascensão dos movimentos islamistas no país:
"A propaganda islamista frequentemente mistura motivações religiosas, territoriais e/ou políticas nacionais com uma visão de mundo antissemita. A 'imagem inimiga do judaísmo', portanto, forma o pilar central da propaganda de todos os grupos islamistas.
O BfV registrou um número enorme de incidentes antissemitas em 2017. O espectro dos incidentes ia desde banners anti-israelenses em eventos públicos e sermões antissemitas a postagens antissemitas nas redes sociais e ataques verbais e até físicos contra judeus.
O BfV constatou que todos os grupos islamistas ativos na Alemanha disseminam e nutrem ideias antissemitas. Isso representa uma ameaça significativa à coexistência pacífica e à tolerância na Alemanha."
De acordo com o BfV, o segundo maior movimento islamista da Alemanha é o Millî Görüş (em turco "Visão Nacional"), que conta com cerca de 10 mil integrantes. O movimento se opõe categoricamente à integração muçulmana na sociedade europeia:
"O movimento acredita que uma ordem política 'justa' é aquela fundamentada na 'revelação divina', ao passo que os sistemas concebidos pelos humanos são 'fúteis'. No momento, a civilização ocidental 'fútil' predomina, baseada na violência, injustiça e na exploração dos mais fracos. Esse sistema 'fútil' deve ser substituído por uma 'ordem justa', baseada exclusivamente nos princípios islâmicos e não nos princípios concebidos pelo homem, portanto, com 'leis arbitrárias'. Todos os muçulmanos devem colaborar para a concretização da 'ordem justa'. Para tanto, os muçulmanos devem adotar uma determinada visão (Görüş) do mundo, a saber: uma visão nacional/religiosa ('Milli'), um Millî Görüş".
Além dos salafistas e o Millî Görüş, os cálculos do BfV indicam que a Alemanha já abriga 1.040 membros da Irmandade Muçulmana, 950 membros do Hezbolah e 320 membros do Hamas.
Após a apresentação do relatório do BfV, o ministro do interior Horst Seehofer exigiu que o governo acelere as deportações dos islamistas. "Nós não temos nada sob controle em nenhuma área", concluiu ele.
Soeren Kern é membro do Gatestone Institute de Nova Iorque.
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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Ameaça Iraniana no Uruguai? E Nós Com Isso?

por Andrés Oppenheimer
Duas recentes ameaças de bomba próximas à Embaixada de Israel no Uruguai, e a misteriosa saída do país de um diplomata iraniano que foi filmado próximo a um dos incidentes, estão levantando novas suspeitas sobre as atividades terroristas do Irã na América Latina.
Os detalhes sobre o descobrimento dos pacotes com materiais explosivos em 24 de novembro e em 8 de janeiro próximos à Embaixada israelense são pouco claros, porém estão sendo divulgados aos poucos desde que o jornal israelense Haaretz informou que o Uruguai havia expulsado um diplomata persa em função do incidente de novembro.
Tanto Uruguai como Irã negaram a expulsão do diplomata, e o governo de José Mujica - criticado pela oposição por haver minimizado os fatos - negou que haja uma "ameaça iraniana".
Porém, depois, o governo disse que o diplomata iraniano (Ahmed Sabatgold, de 32 anos) havia abandonado o país em 7 de dezembro, três dias antes que o Chanceler uruguaio convocasse o Embaixador persa para expressar-lhe a preocupação a respeito de um vídeo que identificava seu funcionário nas cercanias do fato.
Políticos da oposição no Uruguai dizem que o Chanceler Luis Almagro - atual principal candidato ao cargo de Secretário-geral da OEA - forjou estreitos laços com o Irã durante os cinco anos em que esteve na Embaixada do Uruguai em Teerã, de 1991 a 1996. Almagro tem sido um duro crítico de Israel e tratou de minimizar a importância do incidente com o Irã, dizem seus críticos.
Os oposicionistas acrescentam que Almagro demorou mais de duas semanas depois da primeira ameaça de bomba para convocar o Embaixador iraniano, inclusive quando já era conhecido o vídeo que mostra o automóvel com o diplomata persa próximo ao local do incidente. Funcionários uruguaios afirmaram que o falso explosivo provavelmente foi deixado ali para medir o tempo de resposta da Embaixada de Israel.
Em uma entrevista telefônica nesta semana, Almagro me disse que não há elementos probatórios de que o Irã ou algum diplomata iraniano estejam vinculados a estas ameaças de bomba. Disse que, longe de minimizar o fato, ele até exagerou ao convocar o Embaixador persa em 10 de dezembro, porque somente havia "casualidades" que podiam conduzir à suspeita sobre uma possível conexão iraniana.
"Quem sabe me excedi um pouco no meu cuidado profissional e atuei além do que os elementos me permitiam, porque não me agradou a coincidência de que houvesse alguém da Embaixada do Irã justamente próximo à Embaixada de Israel quando a tal maleta foi encontrada", me disse Almagro. "Porém foi uma coincidência da qual não gostei, e por isso trabalhei para que esse tipo de coincidência não ocorra mais no futuro".
Almagro qualificou sua mensagem ao Embaixador do Irã, de 10 de dezembro, como "uma advertência. Lhe adverti que estas casualidades não me agradam, e que as considero inadmissíveis". O Irã alegou que o diplomata se encontrava naquela área porque havia ido a uma consulta médica.
Quanto a ter demorado mais de duas semanas para convocar o Embaixador persa, disse que estava em uma visita oficial ao México, e que agiu ao regressar a seu país.
Perguntado por que não tornou público o fato imediatamente, Almagro disse que "isto é algo que manejamos de maneira reservada, só os países envolvidos: Irã, Israel e Uruguai". Acrescentou que se tivesse evidencias para fazer uma denúncia pública "a teria feito, como fiz quando um Embaixador iraniano negou a ocorrência do Holocausto".
Minha opinião (A.O.): Almagro tem razão em que a mera presença de um diplomata persa próxima ao lugar onde se encontrou a maleta com materiais de uma bomba não prova que tenha havido uma responsabilidade iraniana.
Mas o Irã tem uma larga história de terrorismo no estrangeiro, incluindo o ataque de 1994 ao Centro Comunitário Israelita AMIA, na Argentina, no qual morreram 85 argentinos e outros 300 resultaram feridos. A Argentina solicitou que a INTERPOL prendesse vários funcionários persas suspeitos de terem planejado o ataque.
Em anos recentes, além de financiar grupos terroristas do HAMAS e HEZBOLLAH, o Irã foi acusado de envolvimento, pela Polícia da Índia, em um atentado terrorista contra um diplomata israelense, naquele país, em 2012; e por funcionários búlgaros pelo ataque suicida que matou seis turistas judeus em Burgas, Bulgária, naquele mesmo ano.
Estas ameaças de bomba no Uruguai não deveriam ser menosprezadas: parecem seguir um padrão muito habitual de um regime teocrático que vê o terrorismo como uma outra forma de fazer avançar sua guerra santa.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: este tipo de incidente, aliado ao "asilo" que o Uruguai deu aos seis ex detentos de Guantánamo, acusados de terrorismo, nos faz lembrar as deficiências no controle da entrada de estrangeiros por nossas fronteiras, assunto já tratado aqui. Felizmente, temos passado incólumes, em termos de terrorismo internacional, por grandes eventos mundiais como os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Encontro Mundial da Juventude Católica de 2013 e a Copa do Mundo de 2014. A atuação "suspeita" de agentes iranianos no Cone Sul não é novidade. Após vinte anos de protelações, surge agora a denúncia de "acordo" entre os governos iraniano e argentino para "abafar o caso" AMIA. A repercussão do caso e o possível indiciamento da presidente argentina por tentar atrapalhar as investigações em troca de petróleo persa podem radicalizar ações violentas como forma de pressão. Somado ao nosso caos político-econômico - com reflexos negativos na capacidade defensiva do país -, temos previsto para 2016 o evento das Olimpíadas. Será que continuaremos tendo a sorte de não sermos vítimas de atentados terroristas em função de "todos amarem o Brasil" (e servirmos de base de refúgio para bandidos de todos os naipes, inclusive terroristas procurados na Europa e Oriente Médio, que para cá se dirigem até "baixar a poeira")? Ou podemos confiar em nossos dispositivos de segurança? Ou podemos nos preparar para somar mais um desastre na nossa lista de fiascos internacionais?
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