Mostrando postagens com marcador Oriente Médio. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Oriente Médio. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de março de 2026

A Morte de Khamenei

Câmaras ‘hackeadas’, décadas de espionagem e um ataque cirúrgico: os bastidores da morte de Ali Khamenei

por Pedro Gonçalves - Março 3, 2026
Israel passou anos a infiltrar-se nas infraestruturas de vigilância e comunicações de Teerã antes de avançar para o ataque aéreo que matou o aiatolá Ali Khamenei, numa operação que conjugou espionagem tecnológica, fontes humanas e uma decisão política tomada ao mais alto nível.
Segundo informações reveladas pelo Financial Times, a campanha de coleta de dados foi longa e meticulosa, permitindo às autoridades israelitas conhecerem a capital iraniana com um grau de detalhe descrito por um responsável de informações como equivalente a “conhecer Jerusalém. E quando conhecemos [um lugar] tão bem como a rua onde crescemos, percebemos quando algo não está certo”, afirmou um atual responsável dos serviços de informações israelitas.

Câmaras de trânsito hackeadas durante anos
De acordo com duas fontes familiarizadas com a operação, praticamente todas as câmaras de trânsito de Teerã foram pirateadas ao longo de vários anos. As imagens, além de seguirem o circuito normal, eram criptografadas e transmitidas para servidores em Telavive e no sul de Israel.
Uma dessas câmaras revelou-se particularmente estratégica, ao permitir observar os locais onde os motoristas e guarda-costas das mais altas figuras do regime estacionavam os seus veículos junto à rua Pasteur, nas imediações do complexo onde Khamenei foi atingido no sábado. Esse ângulo oferecia uma janela para rotinas aparentemente banais de um espaço fortemente protegido.
Algoritmos avançados alimentavam dossiês detalhados sobre membros da segurança do líder supremo, incluindo moradas, horários de serviço, percursos para o trabalho e, sobretudo, as personalidades que habitualmente protegiam e transportavam. O objetivo era construir aquilo que os oficiais de informações designam como “padrão de vida”, um retrato comportamental minucioso.
Esta corrente de dados em tempo real integrava centenas de fluxos de informação distintos, não sendo o único meio utilizado por Israel e pela CIA para determinar com precisão a hora a que o líder iraniano, de 86 anos, estaria no seu gabinete naquela manhã e quem o acompanharia.

Interferência nas comunicações
Além da vigilância visual, Israel conseguiu interferir em componentes de cerca de uma dúzia de torres de telecomunicações móveis nas imediações da rua Pasteur. Segundo as mesmas fontes, a operação fez com que os telefones aparentassem estar ocupados quando chamados, impedindo que a equipe de proteção de Khamenei recebesse eventuais alertas.
Muito antes de as bombas caírem, o quadro de informações acumulado era descrito como denso e abrangente. O conhecimento detalhado da capital iraniana resultou de uma coleta laboriosa de dados, sustentada pela unidade de informações de sinais Unit 8200, pela rede de ativos humanos recrutados pelo Mossad e pela capacidade da inteligência militar de transformar enormes volumes de dados em relatórios operacionais diários.
Israel recorreu ainda a um método matemático conhecido como análise de redes sociais para cruzar milhares de milhões de pontos de dados, identificar centros improváveis de decisão e selecionar novos alvos de vigilância e eliminação. “Na cultura dos serviços de informações israelitas, a inteligência de alvos é a questão tática mais essencial — foi concebida para permitir uma estratégia”, explicou Itai Shapira, General de Brigada na reserva e veterano de 25 anos da direção de Informações Militares. “Se o decisor político determina que alguém deve ser assassinado, em Israel o costume é: ‘Forneceremos a inteligência necessária’.”

Uma decisão política no momento oportuno
Apesar da sofisticação tecnológica, mais de meia dúzia de atuais e antigos responsáveis de informações sublinharam que a eliminação de Khamenei foi, acima de tudo, uma decisão política.
Quando a CIA e Israel confirmaram que o líder iraniano realizaria uma reunião no sábado de manhã no seu gabinete perto da rua Pasteur, a oportunidade foi considerada particularmente favorável. Avaliou-se que, após o início formal de uma guerra, os dirigentes iranianos adotariam rapidamente práticas evasivas pré-planejadas, deslocando-se para bunkers subterrâneos imunes às bombas israelitas.
Khamenei, ao contrário do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah — que viveu anos escondido em bunkers até ser morto em 2024 num bombardeamento israelita em Beirute — não residia permanentemente na clandestinidade. Embora tivesse refletido publicamente sobre a possibilidade de morrer, desvalorizando a própria vida face ao destino da República Islâmica, tomava precauções em tempo de guerra. “Era invulgar que não estivesse no seu bunker — tinha dois — e, se lá estivesse, Israel não o teria conseguido atingir com as bombas de que dispõe”, referiu uma das fontes.
Ainda assim, mesmo durante a guerra de 12 dias em junho de 2025, Israel não tentou, de forma conhecida, bombardear Khamenei, concentrando-se antes na liderança da Guarda Revolucionária, lançadores de mísseis, arsenais e instalações nucleares.

Coordenação com Washington
Embora Donald Trump tenha ameaçado repetidamente atacar o Irã nas semanas anteriores e concentrado forças navais na região, estavam previstas novas negociações entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano. Omã, mediador do processo, descrevera o último encontro como produtivo e indicara que o Irã estaria disposto a concessões.
Em público, Trump manifestava frustração com a lentidão das conversações. Em privado, segundo uma fonte citada pelo jornal britânico, estaria “insatisfeito com as respostas iranianas”, criando condições para a escalada.
A operação final terá sido planeada durante meses, mas ajustada quando a inteligência norte-americana e israelita confirmou a realização da reunião. Além das informações de sinais — incluindo câmaras hackeadas e redes móveis penetradas —, os Estados Unidos dispunham, segundo duas fontes, de uma fonte humana com informação direta sobre o encontro. A CIA recusou comentar.
Isso permitiu que aviões israelitas, que já voavam há horas para sincronizar a chegada, disparassem até 30 munições de precisão. As forças israelitas indicaram que o ataque em pleno dia proporcionou surpresa tática, mesmo perante forte preparação iraniana.

Duas décadas de prioridade estratégica
Sima Shine, antiga responsável do Mossad especializada no dossiê iraniano, enquadrou o desfecho como culminar de dois momentos decisivos. O primeiro remonta a 2001, quando o então primeiro-ministro Ariel Sharon ordenou ao chefe do Mossad, Meir Dagan, que tornasse o Irã a prioridade central da agência. “‘Tudo o que o Mossad faz é importante’, teria dito Sharon, segundo Shine. ‘O que eu preciso é do Irã. Esse é o teu alvo.’”
Desde então, Israel sabotou o programa nuclear iraniano, eliminou cientistas e combateu aliados regionais de Teerã. O segundo momento, segundo Shine, foi o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023, que alterou uma restrição de longa data em Israel: apesar de infiltrar círculos de líderes inimigos, a eliminação de chefes de Estado permanecera tabu, mesmo em guerra.
A sucessão de êxitos operacionais — incluindo a morte do líder do Hamas Ismail Haniyeh em Teerã, em 2024, e um projeto clandestino de 300 milhões de dólares para sabotar milhares de pagers e rádios do Hezbollah — reforçou essa dinâmica. “Em hebraico dizemos: ‘Com a comida vem o apetite’”, afirmou Shine. “Ou seja, quanto mais se tem, mais se quer.”

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Como Israel Atacou o Hezbollah Usando "Pagers"

Durante dois dias, a Inteligência israelense levou a cabo um ataque sem precedentes: a explosão simultânea de 'beepers' e 'walkie-talkies' que provocou 37 mortos e mais de 3.000 feridos.

Funeral de duas das pessoas que morreram nas explosões de 17 de setembro em Beirute, Líbano. 

Foto: EFE

Desliguem isso! Coloquem-no em uma caixa de ferro trancada e enterre-o! O celular que está nas suas mãos, e nas das suas esposas e filhos, é um assassino — disse o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, num discurso em fevereiro passado.
Nasrallah estava convencido de que Israel — o seu maior inimigo — estava utilizando as redes de telefonia celular para localizar membros do seu movimento. É por isso que há vários anos insiste na necessidade de recorrer a uma tecnologia de comunicação mais simples, até ultrapassada: pediu para voltar ao beeper. Seu uso já havia começado a se espalhar entre os membros da milícia libanesa, convencidos de que ali suas informações e localização eram mais seguras. O que nem Nasrallah nem qualquer membro do Hezbollah esperavam era que estes pequenos dispositivos se transformassem em breve em verdadeiros cavalos de Tróia.
A primeira coisa que sentiram, na terça-feira, 17 de setembro, foi o som que anunciava uma mensagem. Eram 3h30 da tarde no Líbano. Alguns estavam no mercado comprando frutas, outros andavam de moto pela rua, alguns descansavam em casa ou faziam fila no supermercado. Houve alguém que, naquele momento, pediu à filha que lhe trouxesse o aparelho que estava começando a tocar. Talvez eles pensassem que era uma mensagem urgente dos seus chefes. Mas em vez disso, ao tocar no pager, tira-lo do bolso ou o aproximarem do rosto para vê-lo melhor, o que veio foi uma explosão. Uma, duas, três, centenas de explosões inundaram o país, especialmente em áreas que são redutos do Hezbollah. Alguns vídeos os mostram contorcendo-se no chão, gritando, enquanto a fumaça sai de seus bolsos ou pastas.
Sirenes de ambulâncias tocavam em todas as esquinas e os serviços médicos colapsaram devido ao número de pessoas que chegavam com ferimentos, principalmente no rosto, nas mãos e nos quadris, dependendo de onde estavam o beeper. Porta-vozes médicos relataram mais de quatrocentas cirurgias realizadas somente naquele dia como resultado do ataque. Houve onze mortos e mais de três mil feridos. Duas crianças perderam a vida. Fátima Abdullah, de 9 anos, foi quem saiu em busca do bipe para levá-lo ao pai.
Um dos feridos, segundo a mídia local, era o embaixador iraniano no Líbano, Mojtaba Amani. Não se sabe se ele estava com um dos dispositivos ou se estava perto de alguém que o carregava. O Hezbollah reconheceu que oito dos mortos eram combatentes. Até aquele momento a identidade de seus membros era segredo até mesmo de seus familiares. Este ataque quebrou esse sigilo e deixou claro que qualquer vizinho poderia ser um deles.
Os bipes de milhares de membros da milícia xiita explodiram em uníssono: não poderia ser coincidência. Era evidente que estavam carregados com algum tipo de explosivo. Isso poderia acontecer com outros dispositivos? O pânico tomou conta das pessoas em geral, que correram para desligar seus celulares, desconectar seus eletrodomésticos, seus laptops e suas babás eletrônicas. Se um pager pode causar tanto dano, qualquer coisa poderia ser uma arma letal.
O Hezbollah iniciou uma revisão dos seus sistemas de comunicações, mas não conseguiu concluí-la antes que ocorresse o segundo ataque. Foi no dia seguinte, quando centenas de pessoas compareceram aos funerais de algumas das vítimas de terça-feira. Nesse momento começaram as novas explosões, não dos bipes, mas dos walkie-talkies. As pessoas correram em busca de abrigo. Ouviam-se gritos pedindo que se afastassem dos aparelhos, e para desligá-los. Este segundo ataque causou vinte e cinco mortes — aparentemente, os dispositivos continham mais explosivos e portanto eram mais letais — e pelo menos seiscentos feridos.

Uma empresa fantasma e um poderoso explosivo
Ao pensar nos responsáveis, os olhos imediatamente se voltaram para Israel. O Hezbollah e Israel têm uma história de conflito — desde o nascimento da milícia pró-Irã na década de 1980 — que aumentou no último ano. Ao longo destes meses os seus confrontos têm sido constantes devido à solidariedade que o Hezbollah tem prestado ao Hamas.
Israel — através da sua famosa e temida agência de inteligência, o Mossad — já estava a calcular um ataque destas dimensões. A inteligência israelense estava ciente da propensão da milícia xiita para usar beepers e elaborou um plano sofisticado para interceptá-los. De acordo com especialistas em segurança consultados pelo The New York Times, Israel já havia criado há muito tempo uma empresa de fachada que se oferecia para fabricar esses dispositivos. A BAC Consulting, com sede na Hungria, era na verdade uma fachada que produzia este tipo de dispositivos para diversos clientes. Embora estivessem interessados ​​​​apenas em um deles: o Hezbollah.
O grupo libanês encomendou mais de três mil bipes para distribuí-los entre os seus membros no Líbano e alguns no Irã e na Síria. Os aparelhos, a maioria modelo AR924, contavam com o selo Gold Apollo, empresa taiwanesa de alta tecnologia com a qual a BAC Consulting havia negociado permissão para uso da marca.
Durante a fabricação, os dispositivos foram manipulados para esconder, junto com a bateria alguns gramas de PENT — ​​um explosivo dos mais poderosos —, bem como um interruptor que permitiria sua operação remota.
O envio de beepers ao Hezbollah começou em 2022 e foi reforçado no início deste ano, quando o líder do movimento lançou o seu pedido para “enterrar os celulares” e mudar para o pager. Segundo fonte próxima da milícia, consultada pela agência AFP, “os que explodiram correspondiam a um carregamento recente”. Agentes de inteligência israelenses os enviaram através de sua fábrica fantasma, esperando o momento exato chegar para explodi-los.
Na quarta-feira, após os ataques, a mídia de Taipei foi aos escritórios da Gold Apollo para investigar o que aconteceu. Membros do Ministério Público de Taiwan já estavam no local fazendo perguntas ao presidente e fundador da firma, Hsu Ching-kuang. Pediram-lhe todos os tipos de detalhes sobre seus sócios e seus contratos. “Não são nossos produtos”, apressou-se em dizer Hsu Ching-kuang e esclareceu que estes dispositivos foram fabricados pela BAC Consulting, que tinha autorização para utilizar a sua marca e distribuí-los em diferentes regiões. O Governo da Hungria, por seu lado, afirmou que os dispositivos não tinham sido fabricados no seu território. Os detalhes deste caso levarão tempo para serem conhecidos. Suas consequências, porém, começaram a ser percebidas imediatamente.

“O acerto de contas vai acontecer”
“Isto é puro terrorismo. Vamos chamá-los de massacre de terça e massacre de quarta. É uma declaração de guerra”, disse o líder do Hezbollah na quinta-feira passada. E veio o aviso de “punição justa”: “Não vou falar do lugar, do momento, do local. Você descobrirá quando isso acontecer. O acerto de contas acontecerá.”
Nasrallah também reconheceu que foi um ataque “sem precedentes” na história do seu movimento. Em geral, todos os tipos de adjetivos foram usados para descrever o evento: audaz, atrevido, engenhoso, preciso, “coisa de filme”. Não é de forma alguma a primeira vez que a Mossad demonstra sua capacidade particular. Tanto o Hezbollah como outros grupos apoiados pelo Irã — e o próprio Irã — têm sido alvo da inteligência israelita em ações que envolvem a tecnologia mais avançada.
Este caso trouxe à mente o do cientista iraniano Mohsen Fakhrizadeh, que, segundo Israel, liderou o programa nuclear daquele país e era uma ameaça à sua segurança. Fakhrizadeh foi assassinado em 2020 num ataque que, dizem, teve a assinatura da Mossad e foi executado por um robô gerido com inteligência artificial.
Os serviços israelenses já haviam atacado explodindo celulares. Mas até agora estes tinham sido casos isolados em que estava envolvido um único dispositivo. A ação massiva e simultânea realizada com beepers e walkie-talkies esteve em outro patamar e, além da surpresa, gerou debate. Uma das críticas é que foi realizado em locais onde civis poderiam ser afetados. “As explosões no Líbano parecem ter sido direcionadas, mas causaram sérios danos colaterais indiscriminados entre os civis. Houve crianças mortas”, disse o alto representante da União Europeia, Josep Borrell. O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, disse ao Conselho de Segurança que está “consternado com o impacto dos ataques. ... É um crime de guerra cometer atos de violência destinados a semear o terror entre a população civil.”
Este tipo de observações não parece afetar as intenções de nenhuma das partes. O Ministro da Defesa israelita, Yoav Gallan, anunciou “o início de uma nova fase nesta guerra”, que aparentemente tem como alvo o Líbano, com esforço até mesmo maior que Gaza. O Hezbollah, por seu lado, acusou o golpe — a humilhação, como o definiram, o seu “maior fracasso de contraespionagem em décadas” — mas isso não o vai levar a recuar da sua intenção de guerra.
A reação de ambos os lados, após os ataques de terça e quarta-feira, tem sido acelerar as ofensivas. Na sexta-feira, 20, o Hezbollah disparou dezenas de foguetes contra bases militares israelitas e, por seu lado, Israel respondeu com ataques mais intensos e afirmou ter matado um dos seus líderes estratégicos, Ibrahim Aqil, chefe das forças de elite. O que muitos temem, diante deste novo panorama, é que as águas se tornem ainda mais turbulentas e acabem provocando um confronto mais amplo, uma guerra regional com consequências terríveis.
Fonte: tradução livre de El Tiempo
COMENTO: Uma Operação de Inteligência perfeita, usando o principal objetivo do terrorismo, tão usado pelas eventuais vítimas do dia 17, semear o medo!! Espanta a hipocrisia dos "altos representantes" da União Europeia e dos Direitos Humanos da ONU, ao falarem sobre vítimas civis. Quando os autores do terrorismo são os fanáticos malucos do Hamas e do Hezbollah, civis judeus são um mero detalhe. O mais irônico de tudo foi a Operação ter aproveitado o discurso do principal líder do "Partido de Deus", contra as novas tecnologias. Enfim, o sucesso está representado no "levar o terror aos terroristas, ou servi-los o mesmo cardápio que oferecem"Pior que as mortes causadas e a quantidade de feridos, é a incerteza sobre o que pode acontecer no momento seguinte, esse é o principal fator das Ações Psicológicas! Parabéns, Israel! 

sábado, 10 de agosto de 2024

Lavender — O Novo Sistema de Inteligência Artificial de Israel


por Roberto Mansilla Blanco
Este sistema de inteligência artificial (IA) foi desenvolvido por seis oficiais do departamento de Ciência de Dados e Inteligência Artificial da Unidade 8200. Esta é uma divisão de Inteligência de elite das Forças de Defesa de Israel (IDF). O software permite que grandes quantidades de dados sejam rapidamente processadas, a fim de gerar milhares de “alvos” potenciais para ataques militares durante uma guerra. O sistema facilita a localização e a tomada de decisão para agir.
Lavender opera através do processamento massivo de dados coletados através de sistemas de vigilância. Ele usa algoritmos de aprendizado de máquina para avaliar e classificar a probabilidade de cada indivíduo estar ativo nas alas militares mencionadas. A IA procura padrões e características que se correlacionem com perfis militantes conhecidos. Isso pode incluir participação em grupos específicos do WhatsApp, mudanças frequentes de número de telefone ou padrões de movimento incomuns.
Os responsáveis ​​que trabalharam na criação do Lavender afirmaram que este sistema permite “fazer um trabalho essencial para identificar rapidamente potenciais agentes de ataque. Graças a este sistema, os objetivos nunca terminam. A máquina funciona friamente.
Além disso, Lavender é complementado por outro sistema de IA: “The Gospel” (“O Evangelho”) cuja diferença fundamental está na definição do objetivo. Enquanto "O Evangelho" marca os edifícios e estruturas a partir dos quais os militares dizem que os militantes operam, Lavender marca as pessoas e adiciona-as a uma 'lista negra'.
A sua utilização inédita num conflito militar como a atual guerra de Gaza permitiu a detecção de um total de 37 mil alvos potenciais de acordo com as suas ligações com os movimentos islâmicos palestinos Hamas e Jihad Islâmica, ambos considerados grupos terroristas por Israel, pelos Estados Unidos e pela União Europeia. Em Gaza, Lavender foi fundamental durante as fases iniciais da guerra na identificação desses alvos.
Especialistas e fontes de inteligência afirmam que o uso de Lavender ajudou o exército israelense a destruir alvos inimigos de forma mais rápida e menos custosa economicamente, através do uso das chamadas “bombas tontas”, munições não guiadas, diferentes das “bombas inteligentes” com maior precisão.
No entanto, o software também levou a um aumento no número de mortes. Segundo estatísticas das Nações Unidas, as vítimas até agora são perto de 34 mil pessoas. De acordo com dados de dezembro de 2023 dos serviços de inteligência dos EUA, cerca de 45% das munições usadas pela força aérea israelense em Gaza eram "bombas tontas". Estas causam mais danos colaterais do que as bombas guiadas. A elevada taxa de danos colaterais em Gaza é superior à das guerras no Iraque, na Síria e no Afeganistão.
Lavender analisa informações recolhidas através de visão, celulares, redes sociais, contatos telefônicos, dados de campos de batalha e fotografias sobre a maioria dos 2,3 milhões de residentes da Faixa de Gaza através de um sistema de vigilância em massa. Em seguida, avalia e classifica a probabilidade de cada pessoa pertencer ao braço armado do Hamas ou da Jihad Islâmica Palestina.
Fontes israelenses estimam aproximadamente 10% de erros. Às vezes, sinalizando pessoas que têm apenas uma ligeira ligação com grupos militantes ou nenhuma ligação. Pouco depois da invasão de Gaza, os resultados de Lavender alcançaram 90% de precisão na identificação de pessoas que pertenciam ao grupo islâmico. Portanto, o exército autorizou o uso generalizado do sistema.
Após o ataque do Hamas a Israel em 7 de Outubro de 2023, os militares israelitas adoptaram uma abordagem radicalmente diferente. No âmbito da "Operação Iron Swords" (Operação Espadas de Ferro), o exército decidiu designar todos os agentes da ala militar do Hamas como alvos humanos, independentemente da sua posição ou importância militar.
Esta estratégia representou um problema técnico para os serviços de inteligência israelitas. Nas guerras anteriores, para autorizar a morte de um único alvo humano, um oficial tinha de passar por um processo complexo e demorado de “incriminação”. Tinha de verificar se a pessoa era de fato um membro de alto escalão da ala militar do Hamas, descobrir onde morava, os seus dados de contato e, finalmente, saber quando estava em casa em tempo real. Quando a lista de alvos continha apenas algumas dezenas de oficiais de alta patente, o pessoal dos serviços de informação poderia empreender individualmente o trabalho de incriminá-los e localizá-los.
No entanto, quando a lista se expandiu para incluir dezenas de milhares de agentes de patente inferior, os militares israelitas pensaram que tinham de confiar em software automatizado e Inteligência Artificial. O resultado é que o papel do pessoal humano na incriminação dos combatentes palestinianos foi descartado e, no seu lugar, a IA faz a maior parte do trabalho.
A utilização desta tecnologia no campo de batalha também abre portas ao debate sobre a legalidade deste tipo de armamento e a sua relação com os militares. As Nações Unidas denunciaram o uso de IA em Gaza. Várias fontes de informação cunharam seu uso como domicídio. O termo refere-se ao fato dos seus alvos atingirem casas, edifícios e outras casas de supostos militantes do Hamas.
Estima-se que esta tecnologia tenha pouca supervisão humana. Na verdade, segundo fontes de inteligência, ela influenciou as operações militares a tal ponto que basicamente trataram os resultados de Lavendercomo se fosse uma decisão humana”.
Na primeira fase da guerra, o Exército Israelense autorizou os oficiais a assumirem como legítimas as listas de alvos geradas por Lavender. Sem a necessidade de verificar minuciosamente por que o software tomou essas decisões ou analisar as informações. Os oficiais não eram obrigados a revisar de forma independente as avaliações do sistema de IA. Tudo isso para economizar tempo e permitir a produção em massa, sem obstáculos, dos objetivos humanos.
Uma fonte afirmou que a equipe humana muitas vezes servia apenas como um “carimbo” para aprovar automaticamente as decisões das máquinas. Além disso, eles geralmente gastavam pessoalmente apenas cerca de “20 segundos” para cada alvo antes de autorizar um bombardeio. Apenas para ter certeza de que o alvo marcado por Lavender era um homem. O instrumento era aplicado geralmente à noite, quando os alvos estavam em suas residências.
Segundo estas fontes, milhares de palestinos — a maioria deles mulheres e crianças ou pessoas que não participaram nos combates — foram aniquilados por ataques aéreos israelitas, especialmente durante as primeiras semanas da guerra. Numa medida sem precedentes, durante as primeiras semanas da guerra, o Exército também decidiu que por cada militante júnior do Hamas marcado por Lavender seria permitido matar até 15 ou 20 civis. No caso de o alvo ser um alto funcionário do Hamas com a patente de comandante de batalhão ou de brigada, o Exército autorizou, em diversas ocasiões, a morte de mais de 100 civis na execução de um comandante. Segundo fontes da inteligência israelense, “na prática, o princípio da proporcionalidade não existia”.
Outra fonte dos serviços de inteligência confirmou a pressão constante recebida dos comandantes superiores do exército para expandir o número de objetivos e eliminá-los rapidamente através da IA. Assim, dados coletados de funcionários do Ministério de Segurança Interna administrado pelo Hamas, que não são considerados militantes, foram inseridos no software. A utilização do termo “agente do Hamas” incluía pessoas que trabalhavam na defesa civil.
No entanto, em contraste com as declarações oficiais do exército israelita, fontes explicaram que uma das principais razões para o número sem precedentes de mortes causadas pelos atuais bombardeios de Israel é o fato de terem sido atacados, sistematicamente alvos nas suas casas, os indivíduos e suas famílias. Segundo dados das Nações Unidas, durante o primeiro mês da guerra, mais de metade das vítimas mortais — 6.120 pessoas — pertenciam a 1.340 famílias, muitas das quais foram completamente exterminadas enquanto estavam dentro das suas casas.
Nas anteriores guerras intermitentes em Gaza, de 2009 a 2021, após a morte de alvos humanos, os serviços de inteligência israelitas realizaram procedimentos de avaliação de danos causados ​​por bombas, uma verificação de rotina pós-ataque para ver se comandantes superiores tinham sido mortos e quantos civis tinham morrido com isso.
No entanto, na guerra atual, pelo menos em relação aos militantes de baixo escalão marcados com IA, fontes dizem que este procedimento foi abolido para poupar tempo. Também não sabiam quantos civis foram mortos em cada ataque e, no caso de supostos agentes de baixa patente do Hamas e da Jihad Islâmica sinalizados pela IA, nem sequer sabiam se os próprios alvos tinham sido mortos.
Fonte: tradução livre de Boletim LISA
COMENTO: impressiona a hipocrisia dos analistas ao citarem o morticínio de civis no conflito Israel-Hamas. Sempre desconsideram o fato de que existe um confronto onde os civis fazem parte de um dos lados. Em outras palavras: os tais analistas não contabilizam os civis israelenses mortos nos ataques dos terroristas — que sempre contam com o fanático apoio da população que dizem representar —, mas os adversários de Israel, estando em trajes civis, não são considerados combatentes e possíveis alvos das armas sionistas. E os "guerreiros" do Hamas, assim como do Hezbollah ou da Jihad Islâmica nunca usam uniformes!

quinta-feira, 21 de março de 2024

Estados Unidos Anunciam que Israel Matou o nº 3 do Hamas

por Laura Ruiz Sancho
Estados Unidos afirmaram que o líder do Hamas, Marwan Issa, foi morto numa ofensiva israelita.
O Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Jake Sullivan, confirmou que forças israelenses mataram Marwan Issa, o vice-comandante da ala militar do Hamas em Gaza e um dos mentores dos ataques de 7 de outubro. O presidente dos Estados Unidos afirmou que Israel tem o direito de perseguir o Hamas, os autores do pior massacre do povo judeu desde o Holocausto, disse Sullivan. Da mesma forma, indicou que Biden indicou repetidamente que a continuação das operações militares deve estar ligada a um fim estratégico claro, razão pela qual ele precisava de uma estratégia coerente e sustentável para que isso acontecesse. No entanto, o conselheiro dos EUA alertou que um plano militar não pode ter sucesso sem um plano humanitário integrado e um plano político.
Nem o Hamas nem Israel comentaram oficialmente estes relatórios. Embora, em 11 de março, o Contra-Almirante israelense Daniel Hagari tenha afirmado que aviões militares israelenses haviam atacado Issa e outro alto funcionário do Hamas em um complexo subterrâneo no centro de Gaza.
Segundo o jornal britânico The Guardian, todos os sistemas de comunicação entre os líderes do Hamas ficaram em silêncio por mais de 72 horas após o ataque, como já aconteceu em diversas ocasiões em que altos líderes do Hamas foram mortos.
A mídia israelense informou que Issa foi morto em um ataque a um complexo de túneis sob o campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza. O Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Hervi Halevi, informou que uma operação das FDI (Forças de Defesa de Israel) em conjunto com o Shin Bet permitiu a eliminação de altos funcionários clandestinos. Da mesma forma, o Conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca, Jake Sullivan, sustentou que o resto dos altos funcionários do Hamas estão escondidos na profunda rede de túneis do Hamas.
As declarações do conselheiro de Segurança Nacional dos EUA surgiram depois do presidente dos EUA, Joe Biden, ter conversado por telefone com o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, pela primeira vez em mais de um mês. Nessa conversa discutiram a crise humanitária na Faixa de Gaza e uma possível operação israelense na cidade de Ráfah, que Washington considera um “erro”.
Especialistas disseram que o ataque a Issa sugere que Israel está obtendo informações de uma fonte importante da organização. "Israel precisaria saber onde e quando Issa estava escondido, e que ele permaneceria lá o tempo necessário  para que o gabinete aprovasse e [o exército israelense] lançasse a operação, necessitando, ainda confirmar que não havia prisioneiros israelenses detidos nas proximidades", disse Avi Melamed, ex-funcionário da inteligência israelense e analista regional.
Marwan Issa, que tinha 58 ou 59 anos no momento da sua morte, servia desde 2012 como substituto de Mohammed Deif, o líder das Brigadas Ezedin al-Kasem, o braço militar do Hamas. Issa serviu, ainda, no Conselho Militar do Hamas e no seu gabinete político em Gaza, supervisionado por Yahya Sinwar, o oficial de mais alta patente do grupo no enclave.
Fonte: tradução livre do Boletim LISA News

terça-feira, 5 de março de 2024

A Historia do Narcoterrorismo, da Guerra do Ópio aos Grupos Jihadistas

O narcoterrorismo representa um dos principais desafios para a segurança global e, desde o século XIX, impacta de diferentes formas e proporções em todos os países e regiões do mundo. Neste artigo, o professor do Curso de Experto en Análisis e Investigación de Narcoterrorismo de LISA (Learning Institute of Security Advisors), Raúl González, explica como o narcoterrorismo se desenvolve como uma estrategia híbrida oferecendo exemplos concretos desde as guerras do opio, passando pelas FARC e ETA na década dos sessenta, até como hoje os grupos Hezbolah, ISIS e Hamas tem fortes conexões com grupos delitivos narcotraficantes em toda América Latina.
Narcoterrorismo: uma ameaça permanente
O narcoterrorismo representa um dos principais desafios para a segurança global, pois tem a capacidade de impactar todos os países e regiões do mundo de diferentes formas e proporções, além das consequências que são geradas nos territórios em que essas ações ocorrem.
O narcoterrorismo é considerado uma estratégia de guerra híbrida em que, tanto a violência como a corrupção são utilizadas para atingir um ou mais objetivos. Estes objetivos incluem o controle territorial, o financiamento de atividades terroristas, a desestabilização e a subversão do Estado de direito.
A ligação entre os flagelos do tráfico ilícito de drogas e do terrorismo teve um impacto significativo na comunidade internacional. Esta relação baseia-se na simbiose entre organizações terroristas e grupos criminosos organizados envolvidos no tráfico de droga. As primeiras se beneficiam de enormes recursos provenientes do tráfico ilícito de drogas para financiar as suas atividades e ampliar a sua influência. No caso dos traficantes de droga, estes aproveitam-se da violência e da corrupção para manter o seu poder e expandir-se.
As implicações deste fenômeno são extremamente graves para a segurança internacional. Todas as suas ações têm o potencial de gerar instabilidade política, social e econômica. Pode também transcender os territórios diretamente afetados pela violência gerada, com consequências que vão além da própria ação criminosa.
O seu impacto é tão amplo que os seus efeitos podem mesmo acabar por afetar gravemente as relações diplomáticas entre os países. São capazes de gerar lacunas nas economias em diferentes escalas, causando ou agravando problemas sociais de vários tipos e tornando-se uma fonte inesgotável de violência e corrupção.
Adicionalmente, baseado na tríade do poder econômico dos lucros ilícitos do tráfico de drogas, do impacto das ações terroristas e do tráfico de armas que se combinam com outras ações criminosas organizadas, o narcoterrorismo também promove conflitos de diversas dimensões e é capaz de prolongá-los por longos períodos.
Embora esteja presente na agenda internacional há décadas, a multiplicidade de fatores e variáveis ​​envolvidas (políticas, sociais, culturais e econômicas) têm forte impacto na forma como governos, instituições, organizações internacionais e a sociedade em geral percebem e enfrentam esse problema. Por esta razão, não foi possível desenvolver uma definição de narcoterrorismo que seja globalmente aceita e para a qual se gere uma dinâmica de mudança a uma velocidade muito elevada, no que diz respeito ao seu reconhecimento e tratamento.

¿Qual é a origem do narcoterrorismo?
As origens do narcoterrorismo são incertas. No entanto, apesar das diferenças em relação às guerras do ópio, poderíamos considerá-las como as suas precursoras. Acima de tudo, com base na análise crítica das suas causas, consequências, impacto e elementos característicos.
Ressaltamos, em primeiro lugar, que ambos destacam a complexidade da abordagem deste tipo de conflito. São situações em que convergem a relação entre as drogas e o seu impacto nas dinâmicas políticas, sociais e econômicas. Portanto, acabam afetando gravemente a estabilidade interna dos países e as relações internacionais.
As Guerras do Ópio ocorreram durante o século XIX (entre 1839 e 1860) e tiveram como principais protagonistas a China e o Reino Unido. A introdução de enormes quantidades de ópio (mesmo contrabandeado) na China permitiu ao Reino Unido reduzir o déficit fiscal. Déficit que ocorreu devido à grande demanda por produtos chineses (chá, seda e porcelana), além de gerar recursos para financiar a guerra com a Índia. Por outro lado, o consumo excessivo de ópio pela população foi um fator desestabilizador interno que contribuiu para o enfraquecimento da dinastia chinesa.
Estas guerras tiveram implicações importantes para a geopolítica internacional, afetando em primeira instância as relações entre a Europa e a Ásia. Os efeitos da comercialização do ópio (lícita e ilícita) geraram posteriormente as bases para a implementação do sistema internacional de controle de drogas que é aplicado em todo o mundo. Por outro lado, o narcoterrorismo inclui uma ampla e variada gama de ações criminosas, que têm vindo a desenvolver-se e a evoluir de acordo com as mudanças impostas ao espectro internacional pela Primeira e Segunda Guerras Mundiais.
É assim que vários relatórios oficiais afirmam que, desde meados da década de 1950 do século XX, estratégias não convencionais foram utilizadas pela China e pela União Soviética contra os países ocidentais, que incorporaram o tráfico de drogas como forma de guerra química e fonte de financiamento para movimentos subversivos.

Expansão internacional do narcoterrorismo: das FARC na Colômbia ao ETA na Espanha
A partir da década de 1960, grupos guerrilheiros e subversivos na América Latina começaram a financiar as suas atividades através do narcoterrorismo. Assim, envolveram-se e estabeleceram relações com organizações criminosas dedicadas ao tráfico ilícito de drogas. Estas proporcionaram-lhes proteção em troca de recursos que lhes permitiram avançar nos seus objetivos.
Na década de 1970, as organizações de tráfico de drogas começaram a estabelecer redes internacionais de tráfico de drogas, principalmente de cocaína, para os Estados Unidos e a Europa. Dessa forma, na década de 1980, os grupos guerrilheiros se fortaleceram e se expandiram. Alguns dos exemplos mais notáveis ​​são as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) na Colômbia e o Sendero Luminoso no Peru. Ambas as organizações utilizaram os rendimentos do tráfico de droga para financiar as suas atividades terroristas. Entre eles, destacam-se sequestros, assassinatos, extorsões e outros atos violentos para promover os seus objetivos políticos e econômicos.
Paralelamente, o narcoterrorismo espalhou-se para além da América Latina. Na Europa, os grupos mafiosos usaram a violência e estratégias terroristas para proteger as suas operações de tráfico de drogas. Com isso, buscaram extorquir empresas locais e pressionar os operadores do sistema judiciário.
Na Espanha, organizações como a Euskadi Ta Askatasuna (ETA) tinham a extorsão e outros meios ilegais como principais fontes de financiamento. Além disso, recebiam dinheiro dos narcotraficantes galegos para financiar as suas atividades em troca de proteção e apoio na introdução de grandes quantidades de drogas na zona norte do país ibérico.
Além disso, está amplamente documentado que o ETA assessorou Pablo Escobar, Capo do Cartel de Medellín, na execução de táticas terroristas contra a Colômbia. Tudo isto, no âmbito da luta contra a extradição de traficantes de droga para os Estados Unidos da América. Além disso, ele teve uma ligação comprovada durante muitos anos com a organização narcoterrorista colombiana FARC.

Conexões do narcotráfico com os grupos jihadistas
À medida que as organizações de tráfico de drogas e os grupos guerrilheiros se tornaram mais poderosos e sofisticados, a sua capacidade de influenciar a política e a economia dos seus países de origem também cresceu. Muitos políticos e funcionários públicos foram subornados ou ameaçados por estes grupos, e a corrupção espalhou-se por vários níveis do governo e da sociedade.
A partir de 1990, o narcoterrorismo expandiu-se através da ligação entre organizações terroristas islâmicas e grupos criminosos dedicados ao tráfico de drogas. O Talibã no Afeganistão, por exemplo, envolveu-se no tráfico de ópio para financiar as suas atividades terroristas. Desde os ataques de 11 de Setembro de 2001, estas ligações intensificaram-se. Com isto, outras organizações terroristas como a Al Qaeda (ligada ao Talibã) ou o Estado Islâmico (ISIS), entre outras, apareceram na cena pública.
Atualmente, vários grupos terroristas, incluindo o Hezbollah, o ISIS e o Hamas, têm fortes ligações com grupos criminosos de tráfico de drogas em toda a América Latina. Participam diretamente em atividades ilícitas de tráfico de droga, recebem financiamento para aconselhar traficantes de droga sobre táticas terroristas e trabalham em conjunto noutras atividades ilegais, como a mineração e a exploração de recursos naturais.
Para ilustrar esta última afirmação, vamos nos referir ao caso específico do Hamas. Alguns especialistas afirmam que ele tem ligações comprovadas com o Cartel de Sinaloa, no qual ambas as organizações se beneficiam. O Hamas teria assessorado o Cartel de Sinaloa na construção de túneis na fronteira com os Estados Unidos (de estrutura semelhante aos construídos pelo Hamas para superar as barreiras com Israel em Gaza).
Além disso, o Hamas oferece proteção aos carregamentos de metanfetaminas que atravessam ou têm como destino o Oriente Médio para este Cartel Mexicano, de quem recebe dinheiro do tráfico de drogas para se sustentar e também para financiar ataques terroristas e conflitos como o que ocorre atualmente. na faixa de Gaza.

Outros casos de narcoterrorismo em âmbito internacional
A máfia italiana ainda desempenha um papel no tráfico de drogas na Europa e tem sido acusada de ter ligações com organizações criminosas na América Latina. Mesmo assim, o uso da violência diminuiu (embora continue a ser um vetor de exercício de influência), sendo em grande parte substituído pela dissuasão através da corrupção e da participação na esfera política.
Na América Latina, organizações criminosas dedicadas ao tráfico ilícito de drogas de diversas origens, porte e abrangência; continuam a utilizar táticas terroristas que geram migrações forçadas, desaparecimentos e homicídios. Um exemplo foi o assassinato de um candidato presidencial no Equador ou o de um promotor antidrogas no Paraguai. Os homicídios são comparáveis ​​às ações violentas do passado que chamaram a atenção mundial, como os notórios casos de assassinatos de candidatos presidenciais, ministros e diretores de imprensa na Colômbia, bem como de magistrados na Itália.
As acusações das autoridades dos Estados Unidos da América à China e ao México, de serem os grandes responsáveis ​​pelos problemas que afetam a sua população em diversas cidades devido ao abuso do consumo de fentanil, acusando-os de usarem isso como estratégia para desestabilizar o sistema interno ordem e saúde naquele país; têm também grandes semelhanças com os acontecimentos que levaram às guerras do ópio e que envolveram a China, o Reino Unido e a Índia.
Estas são demonstrações confiáveis ​​das dimensões e do impacto que o narcoterrorismo tem na segurança global, bem como nas relações internacionais, na saúde pública e no comportamento dos mercados econômicos e financeiros. Também destaca o perigo implícito na ação silenciosa mas continuada deste fenômeno.
Fonte: tradução livre do Boletim LISA News
(Learning Institute of Security Advisors)

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Via Dolorosa

por Alexandre Garcia
Segunda-feira reabre o Congresso. Ao arrepio da Constituição, que manda reabrir a 2 de fevereiro. Mas quem se importa hoje com a Constituição? Não custa lembrar Thomas Sowell: A Constituição não pode nos proteger se não protegemos a Constituição. Enfim, é um risco que todos corremos, com nossos direitos. No dia 5 reabre o Congresso e o presidente da República vai ver que o duro janeiro vai ser o melhor dos meses deste 2024.
De cara, a Frente Parlamentar Evangélica espera, revoltada, por mais um atrito que o governo criou sem precisar. A despeito do que diz o art. 150 da Constituição, a Receita fez uma interpretação para cobrar imposto dos evangélicos.
Cerca de 300 milhões de reais. Mais uma frente a se unir à bancada do agro e das armas, contra decisões que só afastam o governo dos votos de que precisa no Congresso. Esse ambiente favorece a emenda negociada por Campos Neto, para consolidar a autonomia do Banco Central — o governo quer o Banco Central pendurado na fiscalização do Conselho Monetário.
Janeiro foi cheio de revezes para o governo, embora a propaganda oficial se esforce para mostrar o contrário. O mês começou com o Diário Oficial mostrando a lei do marco temporal, em que 374 derrubaram os vetos do presidente. Se o governo entrar no Supremo, o desgaste vai continuar, e não apenas com a imensa bancada do Agro.
O 8 de janeiro, que era para ser uma festa da Democracia Inabalável, teve as significativas ausências do presidente da Câmara e de 15 governadores.
Dois dias depois, por vontade de Lula, o Brasil aderiu à denúncia de genocídio contra Israel.
O Tribunal Internacional não aceitou e ainda sugeriu que o Hamas deva libertar os reféns. Depois, o New York Times mostrou que funcionários da Agência da ONU em Gaza participaram do massacre de israelenses. O governo do Brasil fica com cara de quem apoia terrorista.
No dia 18, em Pernambuco, Lula reavivou a Refinaria Abreu e Lima, cujo preço se multiplicou várias vezes. O presidente acusou o Departamento de Justiça dos Estados Unidos de prejudicar a Petrobras, provocando mais um atrito.
Anunciou que o Brasil vai tocar a obra mesmo sem o aporte enganoso de Chavez. A isso somou-se à perplexidade do mercado quando o BNDEs anunciou 300 bilhões de reais para ajudar o setor industrial, soando como o velho protecionismo, e derrubou a Bolsa.
Além disso, com a promessa de facilitar licenças ambientais para a Vale, o governo tentou impor Guido Mantega como CEO da Vale, empresa privatizada há 27 anos. O mercado levou um susto e as ações despencaram. O governo não entende que o Previ, com 8,6% das ações da Vale, é dos funcionários do Banco do Brasil, e não do Tesouro.
E antes que janeiro terminasse, saíram os números do Tesouro, com um rombo de 230 bilhões de reais em 2023. A receita subiu 2,12% e os gastos 12,55%. A medida provisória que tenta revogar a decisão de 438 congressistas sobre a prorrogação da desoneração da folha é outro símbolo das fricções que o governo tem provocado.
O Congresso reabre e não vai aceitar a MP. Neste reinício ainda vai vir a reação de deputados e senadores ao veto a mais da metade dos ONZE BILHÕES de reais de emendas, no orçamento deste ano. Emendas já anunciadas pelos autores a seus prefeitos e suas bases.
Não deve ser uma reação branda, mas fisiológica e dura como uma pedra. A via dolorosa de Lula vem sendo pavimentada pelo próprio presidente, não com as pedras da oposição.
Alexandre Garcia é jornalista

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Ponto Sem Retorno ou Pontes Queimadas

Agitaram-se as nações, vacilaram os reinos; apenas ressoou sua voz, tremeu a terra. Está conosco o Senhor dos Exércitos, nosso protetor é o Deus de Jacó.
(Salmo 45: 7-8)

por Joanisval Gonçalves
Nesta noite de domingo, passadas cerca de 48 horas dos ataques do Hamas a Israel, e após muito ver, refletir e orar, decidi trazer para Frumentarius minhas primeiras impressões disso tudo. Serão breves e objetivas. Vamos a elas.
Se houvesse um único termo para definir toda essa terrível crise é “sem precedentes”. Sim, Israel sofreu um ataque sem precedentes em sua história de 75 anos de conflitos. Além dos já “costumeiros” ataques com foguetes (contra os quais o Domo de Ferro garantia proteção), e diferentemente de tudo que acontecera antes, o Hamas atacou por terra: os “combatentes” da organização (terroristas sim, sem qualquer sombra de dúvida) avançaram contra populações civis dentro do território israelense. Massacraram homens, mulheres, crianças e idosos indistintamente, centenas de pessoas trucidadas em alguns poucos minutos (nunca o Hamas havia causado tantas baixas à população Israel). De fato, o que perpetraram sem qualquer pudor contra os civis israelenses me remonta ao que os nazistas fizeram com populações que pretendiam exterminar há mais de oito décadas — a maioria das vítimas, judeus.
Também sem precedentes foram as dezenas de pessoas tomadas como reféns pelo Hamas. No conflito com os palestinos, já houve cidadãos israelenses cativos, mas nunca nesse número tão significativo. E, na era das redes sociais e dos smartphones, o mundo já assistiu chocado a imagens de famílias executadas em suas casas enquanto comiam, de moças sendo forçadas a entrar em caminhonetes, à idosa ao lado de seu algoz com um fuzil no colo e fazendo um “v” com a mão (o que evidencia algum problema de senilidade da pobre senhora, a qual autoridades norte-americanas já teriam dito ser sobrevivente do Holocausto), ou ao vídeo aterrador de crianças pequenas dentro de gaiolas/jaulas sob a risada debochada dos facínoras que as capturaram. Esses registros de brutalidades contra civis aumentam a cada hora, e se mostram cada vez mais aterradores. Nada, absolutamente nada, justifica semelhantes ações, e aqueles que as cometeram fizeram com que sua causa perdesse qualquer legitimidade.
Os ataques diretos a guarnições israelenses, com a execução fria de soldados e tomadas de oficiais (alguns de alta patente) como reféns também surpreenderam. Até ontem, quando um soldado israelense era capturado pelos palestinos, todos os protocolos de segurança do Estado de Israel eram alterados, e o país entrava em alerta máximo. Nesse sábado, repito, foram dezenas de soldados capturados — dificilmente serão tratados como “prisioneiros de guerra”. Some-se a isso cenas de blindados israelenses sendo destruídos por mísseis (não me pareceram foguetes, mas não sou especialista) e de tripulações sendo arrancadas de seus carros de combate e trucidadas, com seus corpos jogados ao chão e vilipendiados. E tudo isso sendo gravado e transmitido em tempo real para o mundo.
Sim, o ataque do Hamas a Israel neste sábado, 7 de outubro de 2023, exatos 50 anos após o início da ofensiva que desencadeou a Guerra do Yom Kippur, foi algo sem precedentes. E a organização demonstrou capacidade operacional, planejamento, coordenação e controle também sem precedentes. Evidenciou um poder de fogo quase que inimaginável. E conseguiu causar danos a Israel e à sua população de intensidade e profundidade como nunca acontecera antes.
Sem precedentes também será a resposta de Israel. O país foi “jogado nas cordas”, e ainda se recupera para reagir. Mas reagirá. O Leão mostrará sua força, e atacará como nunca se viu. Os israelenses, unidos, não medirão esforços para vingar suas vítimas e aniquilar o cruel inimigo. Infelizmente, como aconteceu com a população do sul de Israel, milhares de palestinos inocentes em Gaza também sofrerão as consequências dos contra-ataques israelenses. Não me surpreenderia que se fizesse ali o que Roma vez com Cartago ao final da 3ª Guerra Púnica. Vae victis!
Israel não vai descansar até vingar seus mortos, feridos e sequestrados, e acabar com a existência do Hamas. Não lhe resta outra opção. Não à toa, Tel Aviv declarou estado de guerra. Se não reagir à altura, quem deixará de existir será a nação judaica.
Ao desencadear a operação desse sábado, o Hamas selou seu destino. Não deixou alternativa ao “inimigo”, pois o atacou naquilo que tinha de mais precioso. Também reiterou o que sempre pregara como seu maior objetivo: a extinção de Israel e da nação judaica — em outras palavras, o genocídio do povo judeu (posicionamento bem distinto do que prega a Autoridade Nacional Palestina, a qual governa a Cisjordânia e defende a criação de um Estado palestino livre e soberano).
O Hamas queimou as pontes, como se diz no jargão dos que estudam polemologia. As ações desencadeadas ontem levaram a um ponto sem volta (point of no return). E se isso se aplica para o Hamas, também cabe para a resposta que Israel terá que dar contra os terroristas e contra a Faixa de Gaza e os dois milhões de palestinos que ali vivem em condições dificílimas. Qualquer reação israelense, repito, que não seja dura, firme e efetiva, implicará em demonstração de fraqueza e sinalizará a possibilidade de colapso iminente do Estado de Israel perante os antagonistas que o cercam.
Talvez escreva nos próximos dias sobre o que vislumbro da reação israelense. A possibilidade dessa resposta envolver alvos além do Hamas não deve ser negligenciada, sobretudo se outros atores, não-estatais (como o Hesbollah) ou estatais (certos países do Oriente Médio, por exemplo), estiverem envolvidos no planejamento e na execução dos ataques iniciados ontem ou vierem a apoiar os palestinos. Nesse caso, o risco de o conflito escalar é alto, inclusive com o recurso de Tel Aviv a seu armamento não-convencional — aí se terá também um conflito verdadeiramente sem precedentes.
O mundo mudou muito (infelizmente para pior) desde sábado, 7 de outubro de 2023. Quero realmente estar enganado, mas as pontes parecem já ter sido queimadas entre as partes diretamente envolvidas no conflito. Talvez ainda não se tenha chegado ao ponto sem volta no que diz respeito à escalada da guerra, mas acredito que se está muito próximo dele.
Ontem à noite, conversando com uma amiga judia muito querida, ela me disse que há certas derrotas que têm gosto de vitória, mas na guerra até o vitorioso sai derrotado. Impossível discordar dessa afirmação. Espero ter errado em minhas reflexões, mas nesta guerra que começou ontem, a única possibilidade de vitória que percebo para cada um dos oponentes, exatamente porque as pontes foram queimadas nos primeiros momentos por um deles, é a aniquilação total do outro. E, assim, todos sairão derrotados.
Resta-nos, ao término deste segundo dia de conflito, orar por todos os que estão sofrendo com ele, pelos mortos e feridos de ambos os lados, por aquelas dezenas de pessoas que estão no cativeiro dos terroristas, e pelas famílias dos envolvidos nesse confronto. E resta-nos orar para que o Senhor dos Exércitos não permita que essa guerra escale e que a paz seja restaurada na região. Só nos resta, neste fim de dia, orar para que os que sofrem sejam confortados.

PS: As reflexões aqui são personalíssimas e fruto de uma tristeza imensa em testemunhar essa tragédia, da qual todos sairão derrotados — não por acaso vivemos em um mundo de provas e expiações. Acredito que nos próximos dias teremos uma chuva de “especialistas” convidados a falar nos meios de comunicação e nas redes sociais sobre o conflito entre Israel e o Hamas. São os mesmos que sabiam tudo sobre Covid, depois passaram à condição de doutores em vacinas, em seguida profundos conhecedores de Rússia e catedráticos aptos a discorrer sobre a Guerra na Ucrânia, para posteriormente analisar com profundidade (de pires) o problema da fome crônica no Brasil (com os 700 milhões de brasileiros que disseram vagar pelo País), e, mais recentemente, mostraram-se conhecedores de terrorismo, crimes contra a humanidade e Tribunal Penal Internacional. Assim, recomendo a meus 8 (oito) leitores (talvez esse número tenha diminuído com a pandemia) moderação aos buscarem opiniões de especialistas — como diria Ésquilo, “na guerra, a primeira vítima é a verdade”. E, mesmo que não me tenham perguntado, indico as análises sérias, embasadas e confiáveis de Alessandro Visacro e de Leo Mattos (ainda não tive como fazê-lo, mas vou ler — e ouvir —, nos próximos dias, o que eles têm a dizer sobre essa crise). Recomendo muito os dois professores.

domingo, 20 de outubro de 2019

Como os EUA "Hackearam" o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS)

.
Neal na sala com os Operadores Cibernéticos militares da Força-Tarefa Conjunta ARES no lançamento da Operação que se tornaria uma das maiores e mais longas Operações Cibernéticas ofensivas da história militar dos EUA. 
Arte de Josh Kramer para NPR
A sala lotada aguardava uma palavra: "Fogo".
Todos estava uniformizados; havia diversos briefings programados, discussões de última hora, ensaios finais. "Eles queriam me olhar nos olhos e dizer: 'Você tem certeza de que isso vai funcionar?'" disse o Operador chamado Neal. "Toda vez, eu tinha que dizer que sim, não importa o que eu pensasse." Ele estava nervoso, mas confiante. O Comando Cibernético dos EUA e a NSA (Agência de Segurança Nacional) nunca haviam trabalhado juntos em algo tão grande antes.
Quatro equipes estavam sentadas em estações de trabalho montadas como carteiras de escolas do ensino médio. Os Sargentos estavam sentados diante dos teclados; analistas de inteligência de um lado, linguistas e equipe de apoio do outro. Cada estação estava armada com quatro monitores de computador de tela plana com braços ajustáveis ​​e uma pilha de listas de alvos, endereços IP e pseudônimos online. Eles eram guerreiros cibernéticos e estavam todos sentados no tipo de cadeiras de escritório de tamanho grande que os jogadores da Internet instalam antes de uma longa noite.
"Eu senti que havia mais de 80 pessoas na sala, entre membros das equipes e outros junto à parede dos fundos que queriam assistir", lembrou Neal  ele pediu que se usasse apenas seu primeiro nome para proteger sua identidade. "Não tenho certeza de quantas pessoas há nos telefones ouvindo ou nas salas de bate-papo".
Do seu ponto privilegiado em uma pequena baía um pouco acima na parte de trás do piso de operações, Neal tinha uma linha de visão nítida em todas as telas dos operadores. E o que eles continham não eram linhas de código brilhantes: em vez disso, Neal podia ver telas de login  as telas de login reais dos membros do ISIS a meio mundo de distância. Cada um cuidadosamente pré-selecionado e colocado em uma lista de alvos que, no dia da operação, havia se tornado tão longa que estava em um pedaço de papel de 1,5m x 1,5m, pendurado na parede.
Parecia um cartão gigante de bingo. Cada número representava um membro diferente da operação de mídia ISIS. Um número representava um editor, por exemplo, e todas as contas e endereços IP associados a ele. Outro poderia ser o designer gráfico do grupo. Enquanto os membros do grupo terrorista dormiam, uma sala cheia de operadores cibernéticos militares em Fort Meade, Maryland, perto de Baltimore, estava pronta para assumir suas contas e quebrá-las.
Tudo o que eles estavam esperando era Neal, para dizer uma palavra: "Fogo".
Em agosto de 2015, a NSA e o Comando Cibernético dos EUA  o principal braço cibernético dos militares  estavam numa encruzilhada sobre como responder a um novo grupo terrorista que havia entrado em cena com ferocidade e violência incomparáveis. A única coisa na qual todos pareciam concordar é que o Estado Islâmico do Iraque e Síria (ISIS) havia encontrado uma maneira de fazer algo que outras organizações terroristas não tinham: transformou a Web em uma arma. O ISIS costumava usar aplicativos criptografados, mídias sociais e revistas e vídeos on-line para espalhar sua mensagem, encontrar recrutas e lançar ataques.
Uma resposta ao ISIS exigia um novo tipo de guerra, e assim a NSA e o Comando Cibernético dos EUA criaram uma força-tarefa secreta, uma missão especial e uma operação que se tornaria uma das maiores e mais longas operações cibernéticas ofensivas da história militar dos EUA. Poucos detalhes sobre a Força Tarefa Conjunta (JTF ARES) e a Operação Glowing Symphony (Sinfonia Brilhante) foram publicados.
"Era um castelo de cartas"
Steve Donald, um capitão da Reserva Naval, é especialista em operações criptográficas e cibernéticas e, quando não está de uniforme, está lançando startups de segurança cibernética fora de Washington, DC.. Na primavera de 2016, ele recebeu um telefonema do líder de sua unidade de reserva. Ele convidava Donald para um encontro.
"Eu disse, bem, não estou de uniforme [e ele disse] não importa — se você tem um distintivo", disse Donald. "Não acredito que posso dizer isso, mas eles estavam construindo uma força-tarefa para conduzir operações cibernéticas ofensivas contra o ISIS".
Donald teve que montar uma equipe de especialistas para fazer algo que nunca havia sido feito antes  invadir a operação de mídia de uma organização terrorista e derrubá-la. A maioria do efetivo veio da sede das Forças Conjuntas, uma operação cibernética do Exército na Geórgia. Donald também trouxe especialistas em contraterrorismo que entendiam o ISIS e o viram evoluir de uma equipe desorganizada de islâmicos iraquianos para algo maior. Havia operadores  as pessoas que estariam nos teclados encontrando servidores-chave na rede do ISIS e desativando-os  e especialistas em engenharia digital que tinham profundo conhecimento dos sistemas operacionais de computadores.
"Eles podem dizer o que é bom, isso é ruim, é aqui que estão os arquivos que nos interessam", disse ele. Ele encontrou analistas, especialistas em malware, "comportamentalistas" e pessoas que passaram anos estudando os menores hábitos dos principais atores do ISIS. A missão, explicou a eles, era apoiar a derrota do ISIS  negar acesso, degradar e atrapalhá-los no ciberespaço.

Isso foi mais complicado do que parecia.
A batalha contra o grupo havia sido esporádica até então. O Comando Cibernético dos EUA vinha montando ataques à rede de computadores do grupo, mas assim que um servidor era desativado, novos hubs de comunicação reapareciam. Os alvos do ISIS estavam sempre em movimento e o grupo possuía boa segurança operacional. Apenas derrubar fisicamente os servidores do ISIS não era suficiente. Precisava haver um componente psicológico para que qualquer operação contra o grupo funcionasse bem.
"Esse ambiente cibernético envolve pessoas", disse Neal. "Envolve os hábitos deles. A maneira como eles operam; a maneira como nomeiam suas contas. Quando eles entram durante o dia, quando saem, que tipos de aplicativos eles têm no telefone. Eles clicam em tudo o que entra em suas caixas de entrada das contas? Ou eles são muito rígidos e restritivos no que usam? Todas essas peças eram o que procurávamos, não apenas o código ".
Neal é um reservista da Marinha de aproximadamente 30 anos, e não seria exagero dizer que a Operação Sinfonia Brilhante foi ideia dele. "Estávamos no porão da NSA e tivemos uma inspiração", disse ele. Ele acompanhava o departamento de propaganda do ISIS há meses  rastreando meticulosamente o caminho reverso de vídeos e revistas enviados, até suas fontes, procurando padrões para revelar como eles foram distribuídos ou quem os estava postando. Então ele percebeu algo que ninguém havia percebido antes: o ISIS estava usando apenas 10 contas e servidores principais para gerenciar a distribuição de seu conteúdo em todo o mundo.
"Toda conta, todo IP, todo domínio, toda conta financeira, toda conta de e-mail ... tudo", disse Neal. Os administradores de rede do grupo não foram tão cuidadosos quanto deveriam. Eles pegaram um atalho e continuaram voltando às mesmas contas para gerenciar toda a rede de mídia ISIS. Eles compraram coisas online através desses nós; eles carregaram mídia ISIS; eles fizeram transações financeiras. Eles até tinham compartilhamento de arquivos através deles. "Se pudermos assumir o controle", disse Neal, sorrindo, "ganharemos tudo".
O jovem fuzileiro correu para o seu escritório no Quartel General da NSA, pegou um marcador e começou a desenhar círculos e linhas malucas em um quadro branco. "Eu estava apontando para todos os lugares e dizendo: 'Está tudo conectado; esses são os pontos principais. Vamos lá", lembrou. "Eu me senti como se estivesse em It's Always Sunny, in Philadelphia, quando estavam investigando misteriosamente Pepe Silvia. Fotos na parede e fios vermelhos em todos os lugares e ninguém estava me entendendo".
Mas, enquanto Neal ia explicando e desenhando, podia ver os chefes começarem a assentir. "Eu desenhei este pneu de bicicleta com raios e todas as coisas que estavam ligadas a este nó e depois havia outro", disse ele. "Era um castelo de cartas."
Confirmamos este relato com três pessoas que estavam lá na época. E a partir desses rabiscos, a missão conhecida como Operação Sinfonia Brilhante começou a tomar forma. O objetivo era formar uma equipe e uma operação que desmentissem, degradassem e interrompessem a operação de mídia do ISIS.
A missão - conduzida por uma unidade especial do Comando Cibernético dos EUA e a NSA - era entrar na rede ISIS e interromper a operação de mídia da organização terrorista.
Arte: Josh Kramer para NPR
O equivalente cibernético de um ataque cirúrgico
A primavera e o verão de 2016 foram gastos nos preparativos para o ataque. E embora os membros da JTF ARES não tenham revelado tudo o que fizeram para invadir a rede do ISIS, uma coisa que eles usaram desde o início foi uma isca de hackers: um e-mail de phishing. Os membros do ISIS "clicaram em algo ou fizeram algo que nos permitiu ganhar controle e começar o movimento", disse o General Edward Cardon, o primeiro Comandante da JTF ARES.
Quase toda "invasão" começa com a "quebra" de um ser humano, a quebra de uma senha ou a descoberta de alguma vulnerabilidade não corrigida de baixo nível no software. "A primeira coisa que você faz quando consegue um acesso é ter persistência e se espalhar", disse Cardon, acrescentando que o ideal é obter uma conta de administrador. "Você pode operar livremente dentro da rede porque se parece com uma pessoa normal de TI." (O ISIS não tinha apenas pessoal de TI; tinha todo um departamento de TI.)
Uma vez que os operadores da ARES estavam dentro da rede ISIS, começaram a abrir back doors (portas dos fundos) e soltar malwares nos servidores enquanto procuravam pastas que continham coisas que poderiam ser úteis mais tarde, como chaves de criptografia ou pastas com senhas. Quanto mais a ARES entrava na rede do ISIS, mais parecia que a teoria sobre os 10 "entroncamentos" estava correta.
Mas havia um problema. Esses entroncamentos não estavam na Síria e no Iraque. Eles estavam por toda parte  em servidores ao redor do mundo, instalados ao lado de conteúdo civil. E que coisas complicadas. "Em todos os servidores pode haver coisas de outras entidades comerciais", disse o General da Força Aérea Tim Haugh, o primeiro vice-comandante da JTF ARES trabalhando sob Cardon. "Nós apenas tocaríamos aquela pequena fatia do espaço adversário e não perturbaríamos mais ninguém".
O pessoal da ARES teve que mostrar aos funcionários do Departamento de Defesa e membros do Congresso que, se o ISIS houvesse armazenado algo na nuvem ou em um servidor localizado, na França, por exemplo, os Operadores Cibernéticos dos EUA tinham habilidade suficiente para fazer o equivalente cibernético de um ataque cirúrgico: atacar o material do ISIS em um servidor sem remover o material civil armazenado ao lado dele.
Eles passaram meses lançando pequenas missões que mostravam que podiam atacar o conteúdo do ISIS em um servidor que também continha algo vital como registros hospitalares. Ser capaz de fazer isso significava que eles poderiam ter como alvo o material do ISIS fora da Síria e do Iraque. "E olhei para esse jovem fuzileiro naval e disse: 'Até onde podemos ir?' e ele disse: 'Senhor, nós podemos fazer em âmbito global'. Eu disse: 'É isso aí  escreva, vamos levar para o general Cardon'. "
O fuzileiro citado era Neal. Ele começou a estimular a liderança com idéias. E conversou com eles sobre não hackear somente uma pessoa ... ou o ISIS na Síria e no Iraque, mas como derrubar toda a rede global da operação de mídia. "É assim que esses ataques funcionam", disse Neal. "Eles começam muito simples e se tornam mais complexos".
Havia outra coisa na JTF ARES que era diferente: operadores jovens como Neal estavam instruindo os Generais diretamente. "Muitas [idéias] surgem dessa maneira, quando alguém diz: 'Bem, podemos obter acesso e fazer isso com os arquivos.' Sério? Você pode fazer isso? 'Oh, sim.' Alguém notaria? 'Bem, talvez, mas as chances são baixas.' É como, hummm, isso é interessante, coloque isso na lista. "
Cardon explica que os jovens operadores da JTF ARES entendiam o hackeamento de modo arraigado e, em muitos aspectos, entendiam melhor que os Comandantes o que era possível no ciberespaço; portanto, ter uma linha direta com as pessoas que tomavam as decisões era fundamental.

"Uma corrida incrível"
No outono de 2016, já havia uma equipe, a JTF ARES; havia um plano chamado Operação Sinfonia Brilhante, e havia briefings  que haviam chegado diretamente ao presidente. Foi só então que, finalmente, houve uma chance. O relato da primeira noite da Operação Glowing Symphony é baseado em entrevistas com meia dúzia de pessoas diretamente envolvidas.
Depois de meses analisando páginas da web estáticas e catando caminhos através das redes do ISIS, a força-tarefa começou a fazer login como o inimigo. Eles deletaram arquivos; alteraram senhas. "Clique aqui", dizia um especialista forense digital. "Estamos dentro", o operador responderia.
Houve alguns momentos involuntariamente cômicos. Seis minutos nos quais pequenas coisas aconteceram, lembra Neal. "A Internet estava um pouco lenta", disse ele sem ironia. "E então você sabe que o minuto sete, oito, nove, dez começaram a fluir e meu coração começou a bater novamente."
Eles começaram a explorar as redes do ISIS que haviam mapeado por meses. Os participantes descrevem que foi como assistir a ação de uma equipe limpando uma casa, exceto que tudo estava online. Entrar nas contas que eles seguiram. Usando senhas que eles descobriram. Então, no momento em que sua movimentação pelos alvos começou a acelerar, um obstáculo: uma questão de segurança. Uma pergunta de segurança do tipo "qual era o seu mascote do ensino médio".
A pergunta: "Qual é o nome do seu animal de estimação?"
A sala ficou em silêncio.
"Estamos presos em nossa trilha", disse Neal. "Todos olhamos um para o outro, pensando: o que podemos fazer? Não temos como entrar. Isso vai nos fazer perder uns 20 ou 30 alvos depois disso".
Então, um analista se levantou no fundo da sala.
— "Senhor, 1-2-5-7", disse ele.
— "Como é que é?" Neal diz.
— "Senhor, 1-2-5-7."
— "Como você sabe disso? [E ele disse] 'Eu estou observando esse cara há um ano. Ele usa isso para tudo.' E nós somos assim, sistemáticos ... seu animal de estimação favorito é 1-2-5-7.
— "E bum, estávamos dentro."
Depois disso, a coisa começou a crescer. Uma equipe obtinha imagens de telas, reunindo informações para mais tarde; outra impedia o acesso dos video-makers do ISIS à suas próprias contas.
— "Redefinido com êxito" dizia uma tela.
— "Diretório de pastas excluído", dizia outra.
As telas que eles estavam vendo na Sala de Operações no campus da NSA eram as mesmas que alguém na Síria poderia estar olhando em tempo real, até que alguém na Síria as recarregasse. Uma vez que ele fizesse isso, ele veria: "404 erro: Destino ilegível".
— "O alvo 5 está pronto", alguém gritaria.
Outra pessoa atravessaria a sala e riscaria o número correspondente na grande folha de alvos na parede. "Estamos tirando nomes da lista. Estamos excluindo contas da lista. Estamos eliminando IPs da lista", disse Neal. E toda vez que um número diminuía, eles gritavam uma palavra: "Jackpot (Bingo)!"
"Nós fazíamos o traço e eu tinha pilhas de papel no canto da minha mesa", disse Neal. "Eu sabia nos primeiros 15 minutos que estávamos no ritmo de realizar exatamente o que precisamos realizar."
Depois de assumir o controle das dez junções e apartar as pessoas-chave de suas contas, os operadores do ARES continuaram a percorrer a lista de alvos. "Passamos as próximas cinco ou seis horas apenas pescando peixes em um barril", disse Neal. "Estávamos esperando muito tempo para fazer isso e vimos muitas coisas ruins acontecerem e ficamos felizes em fazê-las desaparecer".
E havia algo mais que Neal disse que era difícil de descrever. "Quando você pesquisa por um computador e encontra do outro lado uma organização terrorista, e você chega tão próximo que toca em algo que é deles, que eles possuem, que dedicam muito tempo e esforço para ferir você, é um avanço incrível", disse ele. "Você vê que tem a capacidade de tirar o controle das mãos deles."

O suficiente para deixá-lo louco
O Brigadeiro-general Jennifer Buckner foi uma das pessoas que assumiram o comando da JTF ARES após o início da Glowing Symphony. E depois daquela primeira noite, a missão passou para uma segunda fase, que visava manter a pressão sobre o ISIS com essencialmente cinco linhas de esforço: manter o trabalho da mídia terrorista sob pressão; dificultar a operação do ISIS na Web de maneira geral; usar a cibernética para ajudar as forças no terreno a combater o ISIS, diminuir sua capacidade de arrecadar dinheiro e trabalhar com outras agências nos EUA e aliados no exterior.
A segunda fase da Operação Sinfonia Brilhante se concentrou em semear confusão no ISIS. Os operadores da Força Tarefa ARES trabalharam para fazer com que o ataque parecesse problemas de TI cotidianos: baterias descarregadas, downloads lentos, senhas esquecidas.
Arte: Josh Kramer para NPR
Depois que os centros de distribuição foram interrompidos, a segunda fase da missão foi mais criativa. Os operadores da JTF ARES começaram a fazer que todas aquelas coisas da tecnologia atual que nos enlouquecem  downloads lentos, queda de conexões, acesso negado, falhas no programa  começassem a acontecer com os combatentes do ISIS. "Alguns desses efeitos não são sofisticados, mas não precisam ser", disse Buckner. "A ideia de que ontem eu poderia entrar na minha conta do Instagram e hoje não posso é confusa".
E potencialmente enfurecedor. Quando você não consegue acessar uma conta de e-mail, o que você faz? Você pensa: Talvez eu tenha digitado errado o login ou a senha. Então você o coloca novamente e ele ainda não funciona. Então você digita mais cuidadosamente. E toda vez que você digita, pressiona enter e o acesso é negado, você fica um pouco mais frustrado. Se você estiver no trabalho, liga para o Departamento de TI, explica o problema e eles perguntarão se você tem certeza de que digitou seu login e senha corretamente. É o suficiente para te deixar louco. Pode nunca acorrer para você, ou para o ISIS, que isso pode fazer parte de um ataque cibernético.
Era com isso que as fases subsequentes da Operação Glowing Symphony contavam. Psy-ops (Operações Psicológicas) com um toque de alta tecnologia. Um membro do ISIS ficava acordado a noite toda editando um filme e pedia a um colega da organização que o postasse na rede. Operadores da JTF ARES faziam com que o arquivo não chegasse exatamente ao seu destino. O membro do ISIS que ficou acordado a noite toda começa a perguntar ao outro membro do ISIS por que ele não fez o que havia pedido. Ele fica com raiva. E assim por diante.
"Nós tivemos que entender: como tudo isso funciona?" disse Buckner. "E então, concluir: qual é a melhor maneira de causar confusão online?"
As idéias que surgiram de operadores como Neal eram infinitas. Vamos descarregar suas baterias de celular; ou inserir fotografias em vídeos que não deveriam estar lá. A Força-Tarefa ARES observaria, reagiria e ajustaria seus planos. Eles mudavam as senhas ou compravam nomes de domínio, excluíam o conteúdo, tudo de uma maneira que fazia com que parecesse (na maioria das vezes) apenas problemas comuns de TI.
"Rosquinhas da morte; a rede está funcionando muito devagar", Cardon não pôde deixar de sorrir enquanto percorria a lista. "Os caras estão ficando frustrados."
De acordo com três pessoas que estavam a par dos relatórios pós-ação, a estrutura de mídia do ISIS já era uma sombra do que era seis meses depois que Neal disse "Fire" iniciando a Operação Glowing Symphony. A maioria dos servidores de operações da organização estava inoperante e o grupo não conseguiu reconstituí-los.
Havia muitas razões para isso, e não menos importante: não é fácil conseguir um novo servidor no meio de uma zona de guerra no interior da Síria. O ISIS tinha muito dinheiro, mas poucos cartões de crédito, contas bancárias ou e-mails respeitáveis ​​que permitiriam solicitar novos servidores de fora do país. Comprar novos nomes de domínio, usados ​​para identificar endereços IP, também é complicado.
A popular revista on-line do ISIS, Dabiq, começou a perder prazos e acabou sendo subjugada. Os sites em língua estrangeira do grupo  em diversos idiomas, do bengali ao urdu  também nunca mais voltaram. O aplicativo móvel da Agência Amaq, o serviço de notícias oficial do grupo, desapareceu.
"Nos primeiros 60 minutos, eu sabia que estávamos tendo sucesso", disse o general Paul Nakasone, diretor da NSA, em entrevista à NPR. "Nós víamos os alvos começarem a cair. É difícil descrever, mas você pode sentir que, na atmosfera, os operadores sabem que estão indo muito bem. Eles não  diziam isso, mas você está lá e você sabe disso."
Nakasone estava lá porque era o chefe da JTF ARES quando a Operação Glowing Symphony realmente foi lançada. Nakasone disse que antes do ARES a luta contra o ISIS no ciberespaço era episódica. O JTF ARES garantiu que ela fosse contínua. "Nós estávamos conseguindo garantir que, sempre que o ISIS levantasse dinheiro ou se comunicasse com seus seguidores, estaríamos lá".
Alguns críticos disseram que o simples fato de o ISIS ainda estar na Web significa que a Operação Glowing Symphony não funcionou. Nakasone, naturalmente, vê de forma diferente. Ele diz que o ISIS teve que mudar sua maneira de operar. Já não é tão forte no ciberespaço como era. Ainda está lá, sim, mas não da mesma maneira.
"Estávamos vendo um adversário que foi capaz de alavancar o ciberespaço para arrecadar uma quantidade enorme de dinheiro para fazer proselitismo", disse ele. "Estávamos vendo uma série de vídeos e postagens e produtos de mídia sofisticados. Não vimos mais isso recentemente. ... Quando o ISIS mostra sua cabeça ou mostra uma nova forma de agir, estamos lá . "
Três anos depois que Neal disse "Fire", o ARES ainda está nas redes ISIS. O general Matthew Glavy é agora o comandante da JTF ARES. Ele diz que seus operadores ainda agem nas operações de mídia do ISIS; o grupo ainda está tendo muitos problemas para operar livremente na web. Mas é difícil ter certeza do motivo disso. Além da ARES ter invadido o ISIS no ciberespaço, forças no terreno expulsaram o grupo da maior parte da Síria e do Iraque.
O próprio ISIS se espalhou. Agora, tem combatentes na Líbia e Mali e até nas Filipinas. Glavy diz que seus operadores ainda estão atentos. "Não podemos permitir que eles voltem a ter o impeto que vimos no passado", ele me disse. "Temos que aprender essa lição."

"O objetivo da máquina do dia do juízo final"
Durante a maior parte do governo Obama, as autoridades se recusaram a falar sobre ataques cibernéticos. Agora, os EUA não apenas confirmaram a existência de armas cibernéticas, mas começaram a contar a jornalistas  como os da NPR  sobre como eles atuam. Os ataques cibernéticos, que antes eram tabus para discussões, estão se tornando assuntos comuns. Em seu projeto de autorização militar no ano passado, o Congresso abriu caminho para o secretário de Defesa autorizar alguns ataques cibernéticos sem ir à Casa Branca.
Mas há um lado sombrio nesse novo arsenal. Os EUA não são o único país que se voltou para o ciberespaço. Considere o caso do jornalista do Washington Post Jamal Khashoggi, que foi assassinado em uma Embaixada saudita no final do ano passado; suspeita-se que cyber-ferramentas foram usadas nesse caso. "Grande parte da preparação para isso e as orientações tiveram a ver com a Arábia Saudita usando armas ofensivas", disse Ron Deibert, diretor do Laboratório de Cidadania da Munk School of Global Affairs da Universidade de Toronto.
Os pesquisadores de Deibert encontraram ferramentas virtuais ofensivas rastreando o jornalista e seu círculo interno. "Quando falamos de operações cibernéticas ofensivas, acho que é importante entender que nem sempre existe um sabor", disse Deibert, acrescentando que o caso Khashoggi está longe de ser a exceção. Somente no México, o Laboratório de Cidadania encontrou 27 casos desse tipo de armas virtuais ofensivas contra rivais políticos, repórteres e advogados de direitos civis. Seis anos atrás, descobriu-se que a China estava invadindo as redes de computadores do Dalai Lama.
Deibert está preocupado com a amplificação. "Você realmente cria condições para a escalada de uma corrida armamentista no ciberespaço que realmente poderia assombrar os Estados Unidos a longo prazo", disse Deibert. "Há um efeito de exibicionismos. O equipamento, o software, os métodos, os recursos proliferam". Deibert diz que a relutância dos EUA em usar ciberataques ofensivos desapareceu. "Agora ... o que estamos falando é como tornar algo mais eficiente", disse ele.
Nakasone deixou claro que as coisas haviam mudado quando ele conversou com a NPR, alguns meses atrás, no campus da NSA em Fort Meade. Ele usa termos como "engajamento persistente" e "avançar na defesa". Ele diz que eles são "parte da estratégia cibernética do DoD que fala sobre agir fora de nossas fronteiras para garantir que mantemos contato com nossos adversários no ciberespaço".
Em outras palavras, você não espera para ser atacado no ciberespaço. Você faz coisas que lhe permitirão revidar se houver um ataque no futuro. Isso poderia ser feito implantando uma pequena equipe em outro país que peça ajuda ou "buscando em nossas redes a procura de malwares, ou poderia ser, como fizemos na Operação Glowing Symphony, adquirir a percepção de poder impactar uma infraestrutura em qualquer parte do mundo", afirmou ele.
Tudo isso é importante agora, porque você pode traçar uma linha reta da JTF ARES até uma nova unidade do NSA e do Comando Cibernético dos EUA: algo chamado Pequeno Grupo da Rússia. Assim como a JTF ARES se concentrou no ISIS, o Pequeno Grupo da Rússia está organizado da mesma maneira em torno dos ciberataques russos.
A missão contra o ISIS no ciberespaço continua, embora exista um lado sombrio na luta com esse novo arsenal: os EUA não são o único país que usa esse tipo de arma e os especialistas se preocupam com a proliferação.
Arte: Josh Kramer para NPR
Em junho, o New York Times informou que os EUA invadiram a rede elétrica russa e plantaram malwares lá. Nakasone não confirmou a história do Times, mas não é difícil ver que semear malwares, antecipando a sua necessidade posterior, se encaixaria nas operações do Pequeno Grupo da Rússia se ele foi modelado no ARES.
Nakasone disse que a primeira coisa que ele fez quando se tornou diretor da NSA em 2018 foi revisar o que os russos haviam feito antes da eleição presidencial dos EUA, para que o Cyber ​​Command dos EUA pudesse aprender com isso e fazer engenharia reversa para ver como funciona. "Isso nos forneceu um roteiro muito, muito bom do que eles poderiam fazer no futuro", disse Nakasone. Ele disse que o Comando Cibernético está pronto para agir se os russos tentarem invadir as eleições de 2020. "Imporemos custos", disse ele, "aos adversários que tentam impactar nossas eleições. Acho importante que o público americano entenda que, como em qualquer domínio  aéreo, terrestre, marítimo ou espacial  no ciberespaço é da mesma maneira; nossa nação tem força".

Então, por que Nakasone está falando sobre isso agora?
Deibert acha que isso faz parte de uma justificativa de dissuasão. "Você não pode ter operações cibernéticas para deter significativamente seus adversários, a menos que eles saibam que você tem esses recursos", afirmou. "Mas o que provavelmente não está sendo discutido ou apreciado é até que ponto há um efeito sistêmico do uso dessas operações. Outros países observam".
No final do filme de Stanley Kubrick, Dr. Strangelove [no Brasil, Dr Fantástico], há uma cena icônica em que a bomba do dia do juízo final é vista como o maior impedimento desse final, mas só funcionaria como um impedimento se as pessoas soubessem que ele existia. Se você não contar a ninguém sobre sua existência, de que serve? "Todos os pontos obtidos com a máquina do dia do juízo final serão perdidos se você a guardar em segredo", conclui Peter Sellers no filme.
Você poderia dizer o mesmo sobre as operações cibernéticas ofensivas americanas. Eles são tão furtivos há tanto tempo que talvez as pessoas não percebam que elas existem.
Ouvimos tudo sobre as campanhas de influência da Rússia e os roubos de propriedade intelectual chineses e hackers iranianos que controlam a infraestrutura americana, mas raramente ouvimos de maneira detalhada a resposta americana. Nakasone parece estar começando a resolver isso.
A ironia é que o alvo mais rico da cyber ofensiva somos nós. "Os Estados Unidos são o país mais dependente dessas tecnologias", disse Deibert. "E sem dúvida, o mais vulnerável a esse tipo de ataque. Acho que deveria haver muito mais atenção dedicada ao pensamento sobre sistemas adequados de segurança, à defesa".
Isso significaria tentar encontrar uma maneira de fortalecer metas flexíveis em todo o país, fazendo com que empresas privadas aumentassem sua segurança cibernética, fazendo com que o governo dos EUA exigisse padrões. Os ataques cibernéticos ofensivos, neste momento, podem parecer muito fáceis.
Adelina Lancianese, da NPR, contribuiu para esta história.
Fonte: tradução livre de National Public Radio