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terça-feira, 10 de março de 2026

A Morte de Khamenei

Câmaras ‘hackeadas’, décadas de espionagem e um ataque cirúrgico: os bastidores da morte de Ali Khamenei

por Pedro Gonçalves - Março 3, 2026
Israel passou anos a infiltrar-se nas infraestruturas de vigilância e comunicações de Teerã antes de avançar para o ataque aéreo que matou o aiatolá Ali Khamenei, numa operação que conjugou espionagem tecnológica, fontes humanas e uma decisão política tomada ao mais alto nível.
Segundo informações reveladas pelo Financial Times, a campanha de coleta de dados foi longa e meticulosa, permitindo às autoridades israelitas conhecerem a capital iraniana com um grau de detalhe descrito por um responsável de informações como equivalente a “conhecer Jerusalém. E quando conhecemos [um lugar] tão bem como a rua onde crescemos, percebemos quando algo não está certo”, afirmou um atual responsável dos serviços de informações israelitas.

Câmaras de trânsito hackeadas durante anos
De acordo com duas fontes familiarizadas com a operação, praticamente todas as câmaras de trânsito de Teerã foram pirateadas ao longo de vários anos. As imagens, além de seguirem o circuito normal, eram criptografadas e transmitidas para servidores em Telavive e no sul de Israel.
Uma dessas câmaras revelou-se particularmente estratégica, ao permitir observar os locais onde os motoristas e guarda-costas das mais altas figuras do regime estacionavam os seus veículos junto à rua Pasteur, nas imediações do complexo onde Khamenei foi atingido no sábado. Esse ângulo oferecia uma janela para rotinas aparentemente banais de um espaço fortemente protegido.
Algoritmos avançados alimentavam dossiês detalhados sobre membros da segurança do líder supremo, incluindo moradas, horários de serviço, percursos para o trabalho e, sobretudo, as personalidades que habitualmente protegiam e transportavam. O objetivo era construir aquilo que os oficiais de informações designam como “padrão de vida”, um retrato comportamental minucioso.
Esta corrente de dados em tempo real integrava centenas de fluxos de informação distintos, não sendo o único meio utilizado por Israel e pela CIA para determinar com precisão a hora a que o líder iraniano, de 86 anos, estaria no seu gabinete naquela manhã e quem o acompanharia.

Interferência nas comunicações
Além da vigilância visual, Israel conseguiu interferir em componentes de cerca de uma dúzia de torres de telecomunicações móveis nas imediações da rua Pasteur. Segundo as mesmas fontes, a operação fez com que os telefones aparentassem estar ocupados quando chamados, impedindo que a equipe de proteção de Khamenei recebesse eventuais alertas.
Muito antes de as bombas caírem, o quadro de informações acumulado era descrito como denso e abrangente. O conhecimento detalhado da capital iraniana resultou de uma coleta laboriosa de dados, sustentada pela unidade de informações de sinais Unit 8200, pela rede de ativos humanos recrutados pelo Mossad e pela capacidade da inteligência militar de transformar enormes volumes de dados em relatórios operacionais diários.
Israel recorreu ainda a um método matemático conhecido como análise de redes sociais para cruzar milhares de milhões de pontos de dados, identificar centros improváveis de decisão e selecionar novos alvos de vigilância e eliminação. “Na cultura dos serviços de informações israelitas, a inteligência de alvos é a questão tática mais essencial — foi concebida para permitir uma estratégia”, explicou Itai Shapira, General de Brigada na reserva e veterano de 25 anos da direção de Informações Militares. “Se o decisor político determina que alguém deve ser assassinado, em Israel o costume é: ‘Forneceremos a inteligência necessária’.”

Uma decisão política no momento oportuno
Apesar da sofisticação tecnológica, mais de meia dúzia de atuais e antigos responsáveis de informações sublinharam que a eliminação de Khamenei foi, acima de tudo, uma decisão política.
Quando a CIA e Israel confirmaram que o líder iraniano realizaria uma reunião no sábado de manhã no seu gabinete perto da rua Pasteur, a oportunidade foi considerada particularmente favorável. Avaliou-se que, após o início formal de uma guerra, os dirigentes iranianos adotariam rapidamente práticas evasivas pré-planejadas, deslocando-se para bunkers subterrâneos imunes às bombas israelitas.
Khamenei, ao contrário do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah — que viveu anos escondido em bunkers até ser morto em 2024 num bombardeamento israelita em Beirute — não residia permanentemente na clandestinidade. Embora tivesse refletido publicamente sobre a possibilidade de morrer, desvalorizando a própria vida face ao destino da República Islâmica, tomava precauções em tempo de guerra. “Era invulgar que não estivesse no seu bunker — tinha dois — e, se lá estivesse, Israel não o teria conseguido atingir com as bombas de que dispõe”, referiu uma das fontes.
Ainda assim, mesmo durante a guerra de 12 dias em junho de 2025, Israel não tentou, de forma conhecida, bombardear Khamenei, concentrando-se antes na liderança da Guarda Revolucionária, lançadores de mísseis, arsenais e instalações nucleares.

Coordenação com Washington
Embora Donald Trump tenha ameaçado repetidamente atacar o Irã nas semanas anteriores e concentrado forças navais na região, estavam previstas novas negociações entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano. Omã, mediador do processo, descrevera o último encontro como produtivo e indicara que o Irã estaria disposto a concessões.
Em público, Trump manifestava frustração com a lentidão das conversações. Em privado, segundo uma fonte citada pelo jornal britânico, estaria “insatisfeito com as respostas iranianas”, criando condições para a escalada.
A operação final terá sido planeada durante meses, mas ajustada quando a inteligência norte-americana e israelita confirmou a realização da reunião. Além das informações de sinais — incluindo câmaras hackeadas e redes móveis penetradas —, os Estados Unidos dispunham, segundo duas fontes, de uma fonte humana com informação direta sobre o encontro. A CIA recusou comentar.
Isso permitiu que aviões israelitas, que já voavam há horas para sincronizar a chegada, disparassem até 30 munições de precisão. As forças israelitas indicaram que o ataque em pleno dia proporcionou surpresa tática, mesmo perante forte preparação iraniana.

Duas décadas de prioridade estratégica
Sima Shine, antiga responsável do Mossad especializada no dossiê iraniano, enquadrou o desfecho como culminar de dois momentos decisivos. O primeiro remonta a 2001, quando o então primeiro-ministro Ariel Sharon ordenou ao chefe do Mossad, Meir Dagan, que tornasse o Irã a prioridade central da agência. “‘Tudo o que o Mossad faz é importante’, teria dito Sharon, segundo Shine. ‘O que eu preciso é do Irã. Esse é o teu alvo.’”
Desde então, Israel sabotou o programa nuclear iraniano, eliminou cientistas e combateu aliados regionais de Teerã. O segundo momento, segundo Shine, foi o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023, que alterou uma restrição de longa data em Israel: apesar de infiltrar círculos de líderes inimigos, a eliminação de chefes de Estado permanecera tabu, mesmo em guerra.
A sucessão de êxitos operacionais — incluindo a morte do líder do Hamas Ismail Haniyeh em Teerã, em 2024, e um projeto clandestino de 300 milhões de dólares para sabotar milhares de pagers e rádios do Hezbollah — reforçou essa dinâmica. “Em hebraico dizemos: ‘Com a comida vem o apetite’”, afirmou Shine. “Ou seja, quanto mais se tem, mais se quer.”

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

Em Nome de Allah

Reportagem especial do Metrópoles.
Primeiro vieram os católicos, depois os evangélicos e, agora, o grupo Asham catequiza dezenas de crianças e adolescentes de São Gabriel da Cachoeira (AM) para convertê-los em muçulmanos.
O corre-corre era intenso em uma das maiores escolas públicas de Manaus (AM). Diante do fim do ciclo escolar, uma professora decidiu chamar os formandos do ensino médio para uma roda de conversa. O objetivo era falar sobre os planos para o futuro e qual faculdade pretendiam fazer, mas o assunto ali discutido acabou culminando em uma operação de resgate da Polícia Federal.
Entre os estudantes, havia um grupo formado por indígenas, que tinha entrado recentemente na escola. Em resposta à pergunta sobre o futuro, e para a surpresa da professora, um deles disse: “O tio falou que ano que vem a gente já vai para a Turquia”.
Abdulhakim Tokdemir leva indígenas de São Gabriel da Cachoeira até Manaus desde 2019
O tio em questão era Abdulhakim Tokdemir, chefe de um grupo islâmico que, desde 2019, tem catequizado dezenas de crianças e adolescentes indígenas da Amazônia para seguir o islã. Não há registro de islamização de indígenas antes disso na história do Brasil.
Além da doutrinação em território brasileiro, esses adolescentes são levados de suas comunidades, em São Gabriel da Cachoeira (AM), cidade mais indígena do Brasil e que fica na divisa com a Colômbia e a Venezuela, e enviados para Manaus, com parada em São Paulo e destino final na Turquia, quando completam a maioridade.

Da Amazônia para a Turquia
Na capital amazonense, crianças e adolescentes vivem em um sobrado transformado em internato, onde ganham nomes em árabe. Lá, eles ficam diariamente em contato com o idioma turco e árabe. Os internos são ensinados ainda sobre o Alcorão e seguem uma rotina religiosa, que inclui cinco orações diárias e respeito ao jejum do Ramadã, mês sagrado dos muçulmanos.
Alguns frequentam escolas de ensino regular, outros nem isso. Em São Paulo, ficam mais um tempo em outro tipo de internato, e os mais velhos são enviados para as cidades de Kütahya e Tarsus, interior da Turquia, onde são matriculados em escolas religiosas.
Pelo menos cinco indígenas já foram retirados do Brasil e levados para território turco de 2019 para cá. O grupo islâmico que comanda a doutrinação se autointitula Associação Solidária Humanitária do Amazonas (Asham), e só se interessa por garotos indígenas. Nenhuma menina indígena foi levada pela organização.
Os pais dos alunos assinam uma autorização informal para a entrada dos filhos nesse grupo islâmico, com a promessa de fazer faculdade. Para famílias em situação de vulnerabilidade, em uma das cidades mais remotas do Brasil, a possibilidade de uma vida com mais oportunidades é um grande atrativo.
A autorização, no entanto, não vale nada na prática. A instituição islâmica não tem cadastro para funcionar como abrigo nem a guarda das crianças e dos adolescentes. De olho no grupo, a polícia desconfia das boas intenções pregadas.

Da Mata para o Islã
Mais jovem de 10 irmãos, Ângelo (*nome fictício) nasceu e viveu até os 14 anos em Cucura Manaus, uma comunidade indígena no meio da Floresta Amazônica, perto da fronteira com a Colômbia, cerca de 4 Km ao norte da Comunidade Maracajá (às margens do rio Tiquié).
Filho de mãe do povo Tukano e pai Desana, o garoto indígena cresceu sob os cuidados dos irmãos mais velhos. Culturalmente, os indígenas da região recebem a responsabilidade de cuidar dos irmãos mais novos.
Em Cucura Manaus, a maior parte das moradias é de barro e de palha, interligadas por trilhas que cortam a mata. Os ribeirinhos, de diferentes etnias, vivem da roça e da pesca. O estreito igarapé Macacu passa pela comunidade e deságua no rio Tiquié, que, por sua vez, segue ziguezagueando no sentido leste até os rios Uaupés e Negro.
Foi nesse lugar que Ângelo ficou sabendo de uma história vinda da cidade mais próxima, São Gabriel da Cachoeira (AM). “Minha tia disse que uma associação ajudava as pessoas carentes”, resumiu Irene, de 28 anos, uma das irmãs de Ângelo, que mora no município.
Duas irmãs de Ângelo já tinham deixado a comunidade para estudar e trabalhar na cidade, assim como tios e primos, mas o caçula da família saiu da aldeia por um motivo bastante atípico: ele foi enviado para ser educado por um grupo de turcos islâmicos.
Um familiar de Ângelo negociou diretamente com Abdulhakim Tokdemir a ida do sobrinho para a Asham em Manaus (AM). O caminho é longo e feito pela água. Em linha reta, são mais de mil quilômetros.
Voadeira - Imagem de Vinícius Schmidt/Metrópoles
O caçula da família foi acomodado na chamada voadeira (uma canoa de metal) com um pequeno motor atrás (a rabetinha). O trajeto até São Gabriel da Cachoeira, local de onde partem embarcações para Manaus dura cinco dias.
A gente tem que levar mosquiteiros porque tem muito carapanã e pinhõ [tipos de mosquito]. Dá medo um pouco, por causa das cachoeiras. É muito cansativo”, lembra Irene, que só fez essa viagem duas vezes em toda sua vida.
Depois, são mais três dias de deslocamento até Manaus em um ferry boat (tipo de balsa) ou 24 horas em um barco menor chamado de “expresso”. A passagem custa cerca de R$ 500 por pessoa.

O caminho de Ângelo
Durante o caminho entre Cucura Manaus e São Gabriel da Cachoeira, Ângelo e seus familiares acampam na beira do rio para descansar e dormir.
As paradas são feitas, de preferência, em praias naturais e sob a proteção de árvores maiores, onde realizam as refeições que levam embaladas ou que pescam ali mesmo. As refeições também podem ser oferecidas pelos parentes (outros indígenas) de comunidades que ficam no caminho. Os pratos mais comuns são beiju, mingau e quinhãpira (um caldo de peixe apimentado).
Também é preciso fazer paradas em caso de chuva. Durante tempestades, ondas grandes são formadas no rio e podem naufragar embarcações.
A segunda parte da viagem é entre São Gabriel e Manaus. Essa parte pode ser feita de balsa ou em um barco maior, durando entre 24 horas e três dias. Na balsa, os viajantes dormem em redes, na parte superior.
Os turcos pagam a passagem e recebem o novo integrante no porto manauara de São Raimundo.

Vai e volta
Depois de um ano morando na associação islâmica em Manaus, na tarde do dia 28 de fevereiro de 2023, Ângelo foi um dos 14 adolescentes e uma criança resgatados no sobrado em que eles ficavam em Manaus, em uma operação com apoio da Polícia Federal por causa de irregularidades na documentação e nas condições do imóvel.
Equipes de conselheiros tutelares, com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), constataram três freezers cheios de carnes vencidas desde 2021 — o alimento era consumido pelos adolescentes.
Os agentes também identificaram que a instituição muçulmana não tinha a guarda das crianças e dos adolescentes, o que seria necessário para mantê-los longe das famílias. Além disso, o registro do CNPJ da Asham não era para abrigo e não havia cadastro na prefeitura.
Todos os adolescentes e crianças resgatados voltaram para a casa dos pais, entre eles Ângelo. Os conselheiros tutelares e a polícia não têm um número exato de quantos indígenas passaram pela instituição, mas sabem que são dezenas.
Em outubro, eram oito abrigados com idades entre nove e 15 anos. No começo de fevereiro, havia 18 adolescentes e crianças.
Ângelo, que atualmente tem 16 anos, recebeu a reportagem em sua atual casa, no bairro Miguel Quirino, na periferia de São Gabriel da Cachoeira, duas semanas após ter deixado o centro islâmico.
A maior parte das crianças, dos adolescentes e jovens levados pelo grupo islâmico é desse bairro. Um parente de Ângelo, que mora na mesma vizinhança, ajuda a escolher os adolescentes e as crianças que vão ingressar no grupo muçulmano. Um primo de Ângelo já está na Turquia há dois anos.
Ângelo vive agora com duas irmãs mais velhas e dois sobrinhos em uma casa cercada de pés de açaí e terra batida. As paredes externas da moradia são feitas por blocos de cimento, e os cômodos, divididos por paredes improvisadas, fabricadas com tecidos e uma placa de madeira pintada com uma ilustração do Fuleco, o mascote da Copa do Mundo de 2014.
Diferentemente dos outros membros da casa, o garoto recém-chegado de Manaus não tem um quarto privativo. Ele dorme em uma cama na cozinha, dividindo espaço com geladeira, fogão e alimentos.

Obrigado a rezar
Com sorriso tímido e olhar inicialmente desconfiado, Ângelo contou que até gostava de viver em Manaus com outros garotos da idade dele e os “abi” (irmão em turco), que é a forma como eram chamados os três turcos, assistentes de Abdulhakim Tokdemir, que vivem na instituição com os meninos indígenas. No entanto, o que ele não gostava era das rezas diárias, que no começo eram opcionais, mas, depois, passaram a ser obrigatórias.
O responsável acordava a gente às cinco da madrugada. Nós, então, arrumávamos as nossas camas, limpávamos a casa e tomávamos o café. Depois do banho, os professores nos davam aulas de árabe e turco. As classes de línguas eram seguidas de um momento de oração. Em seguida, a gente lavava os uniformes da escola. Nós rezávamos antes da janta e de novo antes de dormir. Essa era a nossa rotina todos os dias, contou o adolescente Desana na língua Tukano.
Ângelo fala português, mas só se sentiu à vontade para contar mais sobre a situação da instituição islâmica falando em tukano, língua materna de diferentes povos da região do rio Uaupés, onde fica Cucura Manaus, na parte de baixo da chamada Cabeça do Cachorro. A região noroeste do Amazonas é conhecida por esse nome por causa do formato do mapa — que lembra a cabeça de um animal.

Além do português, São Gabriel da Cachoeira tem outras três línguas oficiais
TUKANO

Além do povo Tukano, a língua tukano é usada por outros povos dos rios Uaupés, Tiquié e Papuri. O idioma acabou se transformando em língua franca nessa região para que diferentes povos se comuniquem

BANIWA

Nome dado aos povos que falam diferentes línguas da família Aruak, na região do rio Içana. No fim dos anos 1990, a gramática do idioma foi unificada — a língua também é falada pelo povo Koripako

NHEENGATU

Conhecida como Língua Geral ou Tupi Moderno, criada a partir do Tupinambá. O idioma é falado pelos Baré e Warekena dos rios Xié e Alto Rio Negro


Vergonha de rezar
No dia a dia dessa espécie de internato islâmico criado em Manaus, as atividades religiosas aconteciam com mais intensidade durante a manhã. Parte dos alunos ia para a escola regular à tarde. Por falta de documentação, oito estavam sem matrícula na rede estadual neste ano.
As aulas de árabe, por exemplo, eram repetições de páginas do Alcorão que deveriam ser decoradas em detalhes. Nas sextas-feiras, os jovens eram levados para uma reza especial na mesquita. Durante feriados e folgas prolongadas, os alunos tinham intensivão de árabe e turco. Nas férias, voltavam para a casa dos pais em São Gabriel da Cachoeira.
Foi tentado contato com a mesquita, que funciona no Instituto Islâmico de Manaus, mas os pedidos de entrevista não foram atendidos.
Durante uma visita à instituição islâmica em janeiro de 2023, conselheiros tutelares de Manaus relataram que se depararam com um local insalubre: um quarto com beliches e “muitas carnes expostas penduradas”. “Para ser um abrigo, precisa melhorar muito”, escreveram os conselheiros em um relatório.
Imagem
Polícia Federal verifica a qualidade da comida refrigerada durante operação que retirou jovens indígenas da Asham

No islamismo, o abate dos animais para consumo deve ser feito de um jeito específico, evocando o nome de Deus (Alá). As carnes exportadas para países muçulmanos, por exemplo, são produzidas seguindo essa forma de corte.
Por conta disso, os turcos que moravam com crianças e adolescentes indígenas compravam frangos e bovinos vivos. Eles mesmos matavam os animais. As aves eram abatidas na própria instituição, e os bovinos sacrificados atrás de um açougue de Manaus. Isso explicaria as carnes penduradas no quarto com beliches.
No mês do Ramadã, o almoço não era servido, e os adolescentes tinham apenas café da manhã e jantar reforçados. Nesse período, os muçulmanos celebram a data em que Mohammad recebeu a revelação da palavra de Alá. Eles realizam um jejum do nascer ao pôr do sol.
Mesmo quando não era época do Ramadã, a alimentação dos indígenas abrigados era inadequada, segundo o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA).
De acordo com o conselho, o cardápio da instituição ficava longos períodos sem proteína. Durante uma visita em outubro de 2022, os turcos serviram um almoço apenas com feijão, arroz, farofa e refrigerante. Uma criança disse que sentia vontade de comer peixe e farinha, base da alimentação nas comunidades ribeirinhas da fronteira com a Colômbia.
Abdulhakim diz que apenas os adultos eram obrigados a seguir o Ramadã, mas os pais e adolescentes disseram que todos eram incluídos no jejum. O líder da Asham também diz que houve um período em 2022 sem carne de gado, por falta de fornecedor, mas que havia frango e peixe. Sobre a carne vencida, seria uma doação de São Paulo, que não teria sido consumida, mas os internos dizem que comeram.
Nos fins de semana, os jovens podiam jogar futebol em um campo de grama sintética, comer pizza e, às vezes, passear pela Praia de Ponta Negra, mas não tinham autorização para entrar na água, só era permitido molhar as pernas e as mãos.
Eles levavam a gente na Ponta Negra para jogar bola. No fim do jogo, antes de retornar para casa, faziam reza com a gente. Eu ficava com vergonha nesse momento de reza em público”, relata Ângelo, dando uma risada. “Me dá vergonha só de contar.
Outros dois adolescentes que viveram na instituição acrescentaram que era proibido tomar banho no rio porquenão podia mostrar as partes e ficar sem roupa, ... porque é a religião deles.

Dupla doutrinação
No quarto da irmã mais velha de Ângelo, o guarda-roupa de madeirite é enfeitado com uma porção de símbolos católicos: uma imagem de Nossa Senhora de Fátima grudada com fita adesiva, Jesus Cristo crucificado, São Jorge sobre o cavalo branco matando o dragão e um terço de cruz branca com bolinhas coloridas.
Eu não sei se os turcos querem que a gente seja igual a eles… Eu acho. Porque a gente é católico e não sei qual a religião deles, pontua Rosa, a dona do quarto, ao comentar a diferença religiosa.
A comunidade de onde a família de Ângelo veio passou por um processo de catequização católica, desde o começo do século 20, por missionários da Congregação Salesiana. A família, que é Desana, se converteu ao catolicismo desde antes de seus avós.
Meu pai começou a trabalhar com os missionários para ajudar a catequizar o povo Hupda quando eu era pequena. Aí ele foi ajudando e ficou. Até hoje meu pai catequiza. Ele pega a estrada por meia hora e pouco. Ele acorda 6h da manhã e chega lá às 7h, conta Irene.
O povo Hupda fala maku, uma língua totalmente diferente de tukano, baniwa ou nheengatu, os idiomas oficiais do município. Eles são considerados de recente contato com não indígenas. Muitos não falam português e não têm habitação fixa.
Para realizar esse trabalho de catequização católica, o pai de Ângelo sai de sua moradia, em Cucura Manaus, por volta das 6h e caminha por cerca de 45 minutos até Fundação Nova, uma comunidade mais ao norte para dentro da floresta, onde vive o povo dessa etnia.

Mosaico da Fé
A população estimada de São Gabriel da Cachoeira era de 46,3 mil habitantes em 2020. Desse total, mais de 75% são indígenas. Isso fica evidente andando pelas ruas da cidade. O prefeito é indígena, o dono do supermercado é indígena, o padeiro é indígena. O pastor e o padre também.
O município fica na região denominada como Médio e Alto do Rio Negro e é composto por uma área urbana com mais infraestrutura e 750 comunidades e povoados espalhados nas beiras dos rios e nas matas, que englobam 23 etnias.
A área do município é gigantesca, maior que a do estado de Santa Catarina e da Guatemala, por exemplo. Navegar de uma comunidade para outra depende de embarcações e gasolina, um insumo valioso e motivo de disputa.

Município mais indígena do país é o terceiro com mais território
O valor do litro da gasolina chega a R$ 15 nas aldeias mais longínquas, três vezes mais que o preço médio no Brasil. Em algumas áreas, o insumo é adquirido mediante troca por objetos e alimentos.

“Eu não vendi meu filho”
Embora São Gabriel da Cachoeira tenha um território tão amplo, as informações já circulam rapidamente no município, ainda mais com o aumento de comunidades com sinal de internet e a propagação dos smartphones.
A ida de dezenas de crianças e adolescentes para uma instituição islâmica que leva indígenas à Turquia não passou batida pelo sistema informal de notícias, mais conhecido como “fofoca”.
Não foi difícil encontrar moradores de São Gabriel da Cachoeira que diziam saber alguma coisa sobre a associação turca que levava filhos dos moradores, mas os comentários costumam estar acompanhados de estigmas e preconceitos.
“Relação com terrorismo”, “obrigados a usar drogas”, “iam transformar os meninos em homens-bomba” e “venda de crianças” são alguns dos relatos ouvidos. Inclusive autoridades e agentes públicos, ao conversar com a reportagem de forma reservada, mencionaram comentários semelhantes, embora não se tenha nenhum indício de terrorismo ou tráfico humano.
Os rumores se intensificaram depois que os garotos indígenas foram retirados da instituição em uma operação envolvendo a PF, conselhos tutelares e a Funai. Uma comitiva, incluindo o prefeito, foi para o porto de São Gabriel receber as crianças e os adolescentes, que chegaram de ferry boat no dia 4 de março, acompanhados de uma assistente social.
A fofoca que mais ouvimos era que os turcos iam vender as nossas crianças. Muita gente falava na minha cara: ‘Certeza que está recebendo dinheiro’. Eu não ganho dinheiro com isso. Mas eu não me preocupo, sei que meu filho vai voltar. Eu não vendi meu filho”, conta em tom melancólico o carpinteiro do povo Tuyuka Osvaldo Dias Sanches, de 43 anos.
Osvaldo é o principal articulador da ida dos indígenas para a Asham em Manaus. Ele organizou a viagem de Ângelo, por exemplo, que é seu parente. O filho de Osvaldo, o jovem Edney, hoje com 19 anos, fez parte do primeiro grupo a ir para a capital amazonense e também foi o primeiro a se mudar para a Turquia, ainda com 16 anos.
Em dias difíceis, quando chega a faltar comida, Osvaldo pede ajuda para Abdulhakim Tokdemir, que envia pequenas quantias de dinheiro, como, por exemplo, um montante de R$ 200. Um pai de um outro jovem que foi levado para fora do país ganhou uma cirurgia de catarata.
Diretora na Funai, Lúcia Alberta Baré vê com desconfiança esse assistencialismo da instituição islâmica. Ela reconhece a eficiência de uma política de assistência para povos em situação vulnerável, como a entrega de cestas básicas, mas, no caso da Asham, entende que há má-fé e que o objetivo real do grupo é o proselitismo religioso.
O que se tem de conhecimento sobre esse grupo islâmico é que eles usavam a questão da cesta de alimentos e a doação de dinheiro como uma forma de manipular esses pais, para que eles não fizessem denúncias e não buscassem mais informações sobre essas ações que esse grupo desenvolve.

Autorização inválida
Ao lado da esposa, Nazária, de 52 anos, Osvaldo contou que recebe demandas de Abdulhakim Tokdemir sobre a quantidade de garotos que deve selecionar. Muitos dos escolhidos são amigos e familiares do mesmo bairro, o Miguel Quirino.
Eu falava com os pais deles, se estavam interessados em enviar seus filhos para estudar em Manaus, São Paulo e fora do Brasil. Eu explico para os pais: ‘Como a gente não tem dinheiro para pagar os estudos, na instituição deles ninguém gasta nada, ninguém paga, tu não vai gastar nada, eles vão comprar tudinho — roupa, comida, tudo que precisar é com eles, explica Osvaldo.
Nos relatos dos familiares ouvidos pela reportagem, é comum a citação do nome de Osvaldo. A ida de Edney para a Turquia costuma ser usada como um exemplo de que o esquema dá certo. “Se o filho do Osvaldo conseguiu ir e está tudo bem, então meu filho também pode conseguir”, diz um dos familiares ouvidos pela reportagem.
De acordo com o carpinteiro, Tokdemir costuma ser específico nos pedidos: “Este ano eu vou querer 10 alunos”. Por conta das exigências, houve uma dificuldade inicial para conseguir levar os filhos dos moradores. O turco ainda exige a autorização assinada pela mãe e pelo pai. Nos casos dos filhos registrados apenas pela matriarca, basta uma assinatura.
A autorização é chamada de “termo de consentimento” e tem a assinatura dos pais da criança reconhecida em cartório. No entanto, segundo as autoridades, esse documento não tem validade jurídica para a Asham manter a guarda dos garotos.
O texto tira a responsabilidade da associação islâmica e de seus integrantes de qualquer incidente que aconteça com as crianças e os adolescentes. Mas perante a lei, a cláusula não vale nada.
Mesmo com esse documento, tanto a instituição quanto os pais podem ser responsabilizados em caso de violência contra a integridade das crianças e dos adolescentes. É o que explica a advogada Luiza Simonetti, presidente da Comissão de Direito de Família e Adoção da OAB do Amazonas.
O consentimento dos pais não é suficiente para institucionalizar uma criança. Eles precisam formalizar essa vontade para o Judiciário”, explica a advogada. Segundo Luiza Simonetti, esse processo passa pelo Ministério Público e pelo Juizado da Infância. Um magistrado deve autorizar o ingresso da pessoa com menos de 18 anos em uma instituição.

Pioneiro
O primeiro grupo a ir para a Asham em Manaus foi formado por cinco adolescentes, entre eles o filho de Osvaldo, Edney, que está atualmente na Turquia. Os outros quatro “não se adaptaram” à instituição e voltaram para São Gabriel da Cachoeira.
Desde que a instituição islâmica passou a atuar no Amazonas, crianças e adolescentes retornaram para a casa dos pais por opção ou, segundo a Asham, por mau comportamento.
De acordo com Abdulhakim, houve um caso de um adolescente que teria assaltado um posto de gasolina com colegas da escola. Também há relatos dos pais de alunos sobre um garoto que teria aplicado pasta de dente no rosto dos colegas enquanto eles dormiam, como forma de brincadeira.
Uma mãe disse que o filho foi expulso porque malinava muito (fazia travessuras) e ficava rindo do sotaque dos assistentes turcos, que não falam bem português. Assim, a instituição vem mantendo apenas os adolescentes que consideram mais adequados e comportados.
Essas características fazem parte, inclusive, das exigências de Abulhakim a Osvaldo, na escolha dos novos alunos. A preferência é por adolescentes com idade entre 12 e 15 anos, que seriam obedientes e que realmente quisessem estudar.

Uma nova perspectiva
No início de 2023, em paralelo à investigação da Polícia Civil, outros integrantes da Polícia Federal do Amazonas começaram a se debruçar novamente sobre o caso da Asham.
Membros recém-empossados do governo federal, mais especificamente da Funai e do Ministério de Direitos Humanos, em Brasília, começaram a articular uma solução junto à PF, ao conselho tutelar de Manaus e a assistentes sociais de São Gabriel da Cachoeira.
Conselheiros tutelares das duas cidades realizaram pelo menos quatro visitas na instituição durante o mês de fevereiro, quando constataram que a associação não teria nenhum respaldo judicial para funcionar, além de questões sanitárias envolvendo alimentação e limpeza.
Todas as informações que os conselheiros colheram foram repassadas à PF. Em uma operação conjunta, as crianças acabaram retiradas do local e levadas de volta para São Gabriel da Cachoeira.
Procurada pela reportagem, a corporação disse que não passa informações sobre investigações em andamento.

Bastidores
O novo desdobramento sobre o caso dos indígenas levados pelo grupo islâmico começou no alto de um prédio de Brasília, com vista para o Parque da Cidade, na sede da Fundação Nacional do Indígena (Funai).
A atual coordenadora de Gênero, Assuntos Geracionais e Participação Social da Funai, Lídia Lacerda, voltou cismada de uma viagem de rotina que fez a São Gabriel da Cachoeira em outubro de 2022. Aos prantos, uma conselheira tutelar do Alto do Rio Negro contou sobre a situação dos turcos que levavam crianças e adolescentes.
Lídia então ajudou a articular a retirada das crianças junto ao Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), do novo Ministério dos Direitos Humanos.
Por mais que a instituição [Asham] pense em apresentar documentação e regularizar a sua atuação, antes desse processo, as crianças devem ser retiradas. O modo como elas estavam lá é totalmente ilegal. É ilegal do ponto de vista não só da criança indígena, mas é ilegal para qualquer criança e adolescente”, frisa a servidora.

Negação da cultura
Acima de Lídia, a diretora de Promoção ao Desenvolvimento Sustentável da Funai, Lúcia Alberta, acompanhou a situação, que a fez relembrar sua infância difícil. Lúcia é do povo Baré e nasceu na região da Cabeça do Cachorro, em uma comunidade na divisa com a Venezuela.
A gestora Baré recebeu a reportagem na sede da Funai usando brincos com desenhos indígenas que contam a história da região de onde ela veio. Um dos brincos tem o desenho da “cobra-canoa”, que, segundo a cosmologia do Alto do Rio Negro, serviu de transporte para os primeiros seres humanos e saiu espalhando as comunidades nas margens do rio.
Lúcia ficou espantada ao saber que adolescentes indígenas estavam sendo proibidos de mergulhar no rio, tendo permissão apenas para molhar as mãos e os pés. Segundo ela, isso é a negação da própria cultura.
Somos povos ribeirinhos, o Rio Negro e os seus afluentes são nossa vida. Consegue imaginar um indígena da região do Rio Tiquié proibido de tomar banho no rio? Essa é uma das maiores afrontas, porque, para nós, o mergulho na água, além da limpeza do corpo, é limpeza da nossa alma”, pondera.
Assim como as crianças e os adolescentes levados pela Asham, Lúcia deixou sua comunidade quando tinha apenas 9 anos de idade para poder estudar na cidade.
Quando não tem escolas na comunidade, as pessoas procuram escolas na cidade. E lá na cidade não tem escolas indígenas específicas e diferenciadas. Se as escolas não dão resposta para os projetos de vida dos povos indígenas, eles vão procurar outras alternativas, analisa Lúcia Alberta.
Em entrevista ao pesquisador Gersem Baniwa, em 2011, Lúcia Alberta Baré definiu a escola indígena “como espaço de diálogo possível entre os conhecimentos indígenas e os conhecimentos da sociedade moderna”.
A diretora da Funai defende que as escolas indígenas devem ter uma pedagogia própria, com professores que falam as línguas dos povos dos alunos, para ter uma comunicação melhor com eles, mas também deve ter um bom ensino formal.
A estratégia deve ser de levar conhecimentos não indígenas  ou mesmo de outros povos indígenas , mas de forma harmônica e respeitosa, sem colocar aquele conhecimento como melhor ou superior.
No entanto, além de não ter escolas indígenas com esse diferencial, as instituições de ensino de São Gabriel da Cachoeira passam por outros tipos de precariedade, como professores com salários baixos e contratos temporários que chegam a ser interrompidos antes do fim do ano letivo. A falta de atividades esportivas e culturais para os jovens também é uma questão.
A vulnerabilidade desses povos, tanto social como educacional, os levou a serem cooptados por esses turcos, que ofereceram educação melhor para os filhos, mas por trás tinha outra coisa, que nós estamos acompanhando, mais ligado ao proselitismo religioso.

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Fonte:  Metrópoles

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Sobre as Influências Árabes nas Origens da Cultura Gaúcha

Como os muçulmanos expulsos da Espanha no século XVI deram origem a cultura gaúcha
por Shamsuddin Elía
As primeiras correntes mouriscas instalaram-se no Rio da Prata durante os séculos XVI e XVII. Entre outras coisas, eles nos trouxeram a cultura equestre e a origem da palavra "gaúcho".
Nossa tese, baseada em extensa e detalhada bibliografia, é que o gaúcho tem sua origem na civilização de Al-Andalus, a Espanha muçulmana (711-1492), berço dos povos ibero-americanos, de onde recebemos legados como a língua castelhana, na sua versão andaluza, com o seseo (pronúncia com um s assobiado ao invés do som de ce) e o yeísmo (que consiste em pronunciar tanto ll como y soando iguais em "llave" ou em "yerba", tão comuns entre os rio-platenses), ambos de origem mourisca.
A palavra mourisco (1) comumente designa os muçulmanos do Reino Nacérida de Granada  rendido pelos Reis Católicos em 2 de janeiro de 1492, quando liderado por Maomé XII (Boabdil),  que, após a rebelião do bairro de Albaicín (1501), foram forçados a se converter ao Cristianismo (2).
Este nome também seria aplicado aos mudéjares, do árabe mudayyan: "aqueles que ficaram", ou Al-ad-dayn: "pessoas que permanecem, que se dominam"; por extensão, "domesticados", "dominados”. Estes "mouros submetidos" gozaram de períodos de tolerância nos reinos hispano-cristãos do século XI,  sob a égide de soberanos como Afonso X, o Sábio (1221-1284), e Pedro I, "O Justiceiro" (1334-1369). Estes mudéjares desenvolveriam uma arte que transformaria o perfil da Espanha cristã e seriam a base fundamental da chamada "arte colonial espanhola" na América (3).
Após a rebelião malsucedida de 1568  afogada em sangue por Felipe II e seu meio-irmão João da Áustria , a nobreza da Espanha, mais germânica do que espanhola, obcecada pela "pureza de sangue" e pelo medo de um levante mouro apoiado pelos turcos otomanos (4), pressionou o rei Filipe III a prosseguir com a expulsão em massa dos mouriscos. A operação foi realizada entre 1609 e 1614 (5). Os mouriscos fixaram-se então no Norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia). Alguns permaneceram vivendo em Espanha e em Portugal, fingindo-se cristãos-novos ou ciganos, mas mantendo-se fiéis à fé islâmica (6). O restante emigrou para a América em condições clandestinas semelhantes.
Os mouriscos que vieram para a América chegaram camuflados com os conquistadores e fugindo do estigma imposto pelo inquisidor. Aqui, na América, eles forjaram culturas equestres: a dos gaúchos (Argentina, Uruguai e Brasil), huasos (Chile) e llaneros (Colômbia e Venezuela), com múltiplas influências na música, costumes e estilos, do folclore argentino à escola mexicana de Guadalajara (talapatía). Elas simbolizava sua fé, sua tradição e seu tremendo desejo de independência e liberdade. Também construíram igrejas, catedrais e residências mudéjares que ainda nos impressionam, pequenas Alhambras (palacetes) que tinham como berço a magnífica e exuberante geografia aninhada entre a Cordilheira dos Andes e o Caribe (7).
O tradicionalista e jurista argentino Carlos Molina Massey (1884-1964), que estudou a origem do gaúcho, questiona: “Os oito séculos de conquista moura colocaram sua marca racial característica na população ibérica: oitenta por cento da população peninsular que chegou em nossas praias trazia sangue mourisco. O gaúcho era por isso como um avatar, como uma reencarnação da alma das mourarias fundida com a alma indígena no grande ambiente libertário da América ” (8)
A etimologia da palavra "gaúcho"
A palavra "gaúcho" também aparece no vasto e rico legado andaluz. O jurisconsulto de origem francesa e estudioso dos gaúchos por excelência, Emilio Honório Daireaux (1843-1916), faz esta reconstrução:
Na época das primeiras populações na América, o domínio dos árabes na Espanha estava terminando por expulsão ou submissão; muitos destes derrotados emigraram. Nos pampas encontraram um ambiente onde puderam dar continuidade às tradições da vida pastoril de seus ancestrais. Foram os primeiros a sair das muralhas da cidade para cuidar dos primeiros rebanhos. Isso é tão verdade que muitos costumes e artefatos empregados lá são designados por palavras árabes: o poço, em espanhol, é chamado de jagüel, uma desinência árabe; e a água é retirada deles à maneira árabe.
Gaúcho é uma palavra árabe desfigurada.
É fácil encontrar sua relação com a palavra "chauch", que em árabe significa "condutor de gado". Ainda em Sevilha (na Andaluzia), mesmo em Valência, o boiadeiro chama-se “chaucho(9). O primeiro grande teórico sobre as origens hispano-árabes do gaúcho, o jurisconsulto, escritor e jornalista Federico Tobal (1840-1898), diz:
O traje gaúcho nada mais é do que uma degeneração do traje árabe e é até possível confundi-lo, à primeira vista. O chiripá, o poncho, a jaqueta, o tirador, o lenço na cabeça e embaixo do chapéu nada mais são do que modificações das peças do vestuário árabe; mas modificações pequenas, que não constituem um traje à parte, como o nosso, europeu. (...) Tudo no gaúcho é oriental e árabe: sua casa, sua comida, seus trajes, suas paixões, seus vícios e virtudes e até suas crenças. (...) Seria interminável esgotar essa tese. As coisas, os fatos e os acidentes de relacionamento que confirmam a origem são oferecidos em todos os lugares. A semelhança é tão vívida que a menor atenção é suficiente para percebê-la. Ela nos segue como uma sombra ao seu corpo (...) Por mais indolente que o gaúcho se torne, mesmo se em sua casa faltar árvores ou pomar, mas nunca lhe faltara o poço que é a cisterna (jagüel ou aljibe) para abluções frequentes, altamente necessários no seu estilo de vida e que é especialmente perceptível entre os povos paraguaios e correntinos, que certamente não é de origem indígena(10).
Os conceitos reveladores de Lugones
O escritor e político argentino Leopoldo Lugones (1874-1938) é um dos grandes defensores da alma gaúcha, da cultura dos pampas e de seu legado andaluz. Nas citações a seguir resumimos suas reflexões sobre o assunto:
Ginete por excelência, era impossível concebê-lo desmontado e, portanto, o arreio de montar era a base de seu traje. A sua forma de encilhar o cavalo teve, sem dúvida, origem mourisca. (...) As rédeas e o jáquima (11) ou buçal, muito finos, abrandavam ao máximo os arreios (jaezes) (12), cujo propósito não era conter ou dominar servilmente o animal, mas apenas uni-lo ao cavaleiro, permitindo grande liberdade de movimentos (...) Ademais, sabe-se que a arte de cavalgar e de lutar a la [à moda] jineta, bem como o seu arreio, foi introduzida na Espanha pelos mouros, cujos zenetes  ou cavaleiros da tribo berbere de Banu Marín  deram-lhe o seu nome específico. Assim, jinete, a pronúncia castelhana de zenete, era por excelência o indivíduo hábil na equitação. (...) As largas cinchas de tecido ornadas (taraceadas(13) com tafiletes [tiras de pelica] coloridos (14) são até hoje à moda mourisca. (...) Assim, também, são os enfeites entalhados na madeira usados ​​para enfeitar os portões dos gaúchos da região serrana; aquele avental duplo de couro cru, que amarrado à parte dianteira da sela, abria dos dois lados, protegendo as pernas e o corpo até o peito, nada mais é do que a adaptação da armadura mourisca (15) para combate, que tinha os mesmos adornos e acabamento quase idêntico: eram rígidos na metade superior e flexíveis na parte inferior, de modo que podiam se curvar sobre o quadril do animal ."(16)
Bombachas gaúchas
E assim como a tradição e a herança cavalheiresca eram muçulmanas, as roupas do gaúcho também eram muçulmanas. As mais evidentes delas são as famosas bombachas (as calças por excelência em todas as regiões islâmicas, do Marrocos ao Paquistão) e a faixa à volta da cintura (típica dos mouros para esconder a gumia ou adaga).
É por isso que Lugones diz com razão:
Chiripá
Mais tarde perceber-se-ia que aquela bombacha aberta (o chiripá), facilita montar no cavalo bravio. A peça adquiriu uma largura adequada; e as franjas e listras que esvoaçam sobre os pés foram a adaptação dos aventais de linho e renda com que os cavaleiros do século XVII cobriam os canos de suas botas de campanha (...) como os árabes sempre utilizaram (...) De onde se originaram os "zaraguéis" (17)  calções grandes, largos e mal feitos  chamados de Valência e de Murcia, por sua origem e fabricação. A camisa larga, a jaqueta andaluz, o sombrero ou chapéu de meia copa, o poncho herdado dos vegueros (pequenos agricultores) de Valência (18), completavam aquele conjunto de soltura e flexibilidade” (19).
Assim como Daireaux, Lugones demonstra a origem árabe da palavra "gaucho", mas derivando-a de uahsh ou uahshi, que em árabe significa montanhoso, bravo, ranzinza, carrancudo; da mesma forma, explica como sua variação fonética atinge termos como huaso, guaso, guácharo, guacho, etc (20).
Moharras
A terminologia gaúcha que deriva do árabe é vasta. Basta nomear a alpargata (Al-bargat="o sapato"), o aljibe (Al-yubb="o poço"), a guitarra ou violão (Al-qitar="a corda"), a moharra (mohárrib="afiado", o crescente de ferro (21) com uma ponta que era colocada na base das pontas das lanças gaúchas), e o gadual: aquele argentinismo que identifica um terreno que se encharca quando chove e que deriva do árabe uadi ("rio"), termo que deu origem a uma infinidade de topônimos no mundo hispano-americano (Guadalquivir, Guadalajara, Guadalcanal, Guadiana, etc.). Os exemplos não faltam. A especialista espanhola Dolores Oliver Pérez, em artigo, explica a origem de ¡arre!, arriar, arriero, do árabe harrik, harraka, haraka, harakat, que dá a ideia de mover-se, de movimento, de viajante (22).
Jogos e destrezas hispano-árabes
Os estudos do desportista, camponês e gaúcho Justo P. Saénz (1892-1970) mostraram a enorme influência da escola de cavalaria andaluza (23) na equitação gaúcha, na montada a la jineta e nos jogos de destreza:
É conhecida a importância que a equitação berbere desenvolveu na Espanha. Sua famosa escola de "la jineta" revolucionou o sul da Europa desde sua adoção. Durante a Conquista da América, esta escola atingiu seu apogeu (...) Dom Leopoldo Lugones dá como etimologia da palavra recado a palavra árabe "rekab" e esta é uma observação que se deve ter em conta (...) O juego de cañas que foi praticado pelos espanhóis desde o tempo da dominação árabe, foi exportado para suas colônias na América como parte de seus costumes(24). Os gaúchos do Brasil futuramente seriam agregados às pesquisas comprovando essa linhagem andaluza. Manoelito de Ornellas (1903-1969), por exemplo, etnógrafo e fazendeiro brasileiro, escreveu várias monografias acadêmicas no início da década de 1950 comprovando fascínios semelhantes no gaúcho rio-grandense (25).
E o fato é que o gaúcho mouro nunca foi exclusividade do Rio da Prata ou dos pampas da Argentina, Uruguai e Brasil, mas de toda a América: dos vales do Chile às pradarias da Califórnia e do México, passando pelas imensas planícies do Orinoco na Colômbia e Venezuela, com todas as suas denominações relacionadas e convenientes: huaso (26), o llanero (27) colombiano e venezuelano, e o charro (28) mexicano. 
Os huasos chilenos
Assim, como pode ser vista a influência árabe e mourisca nos gaúchos dos pampas argentinos, uruguaios e brasileiros, também se encontra “nas roupas e trajes do huaso chileno, na ornamentação de seus estribos e esporas repletas de arabescos, em seu modo de cavalgar a la jineta, em seus jogos e alegrias, no romance espanhol conhecido como "corrido", como em al-Andaluz.
Uma curiosa "jarcha" da última estrofe de uma muwashshaha (moaxaja) do popular cancioneiro árabe do século IX, encontrado na compilação e restauração feita pelo professor Sayed Ghazi, em sua obra "Diván de Muwashshahas Andaluzas", apresenta-nos a pintura plástica coreográfica do homem e da mulher dançando a cueca ... A importância desta jarcha árabe consiste em fazer parte de um conjunto de cantos e danças populares, o que nos faria supor a origem árabe-andaluza da cueca.
A esse respeito, deve-se notar que a etimologia da palavra cueca indicaria a possibilidade de uma origem árabe desta dança: cueca, zamacueca e sua conexão viável com o termo árabe samakuk que se origina do espanhol zamacuco: malicioso (29), homem rude, nome derivado do verbo árabe Kauka, que indica a ação sedutora realizada pelo galo para conquistar a galinha que, coincidentemente, carregaria o simbolismo da cueca ... (30)Outro exemplo da marca da cultura árabe na nossa seria uma grande variedade de jogos equestres praticados na colônia, como a corrida de picadeiro, as cañas, o jogo de patos, as corridas, e muitas derivações destas, magnificamente descritas na obra de Don Eugenio Pereira Salas, "Jogos Coloniais e Alegrias no Chile" (31).
É perceptível que al-Andalus foi uma civilização privilegiada, fundada graças à miscigenação de múltiplos povos e tradições.
Desde o primeiro momento, os recém-chegados berberes e árabes muçulmanos começaram a se casar com mulheres hispânicas (hispano-romanas, celtiberas, góticas). O resultado é um admirável tipo de cultura que deve ser apropriadamente chamada de andaluza. Quando esses hispano-muçulmanos foram conquistados por seus vizinhos ao norte da Península  primeiro se tornando mudéjares e depois mouriscos  e forçados a emigrar, muitos vieram para a América em condições clandestinas. Ali se daria uma nova e generosa miscigenação, desta vez com mulheres indígenas, cujo ponto culminante é o biótipo do gaúcho, o huaso, o llanero, com seus traços mouriscos, mas também com todas as suas novas aquisições e originalidades típicas da América.
O que queremos assinalar aqui não é que os cavaleiros dos pampas ou das planícies fossem de raça árabe, seria um equívoco tão grande como dizer que os andaluzes também eram árabes (não existem raças, e sim línguas e culturas), ao contrário, os gaúchos, huasos, llaneros ou charros eram portadores de uma herança que  muitas vezes a despeito de si mesmos  marcavam padrões de conduta, costumes e pensamento.
Todas as citações e fragmentos que enumeramos até agora nos mostram com segurança que os imigrantes sírios e libaneses  que chegaram em sua maioria ao Rio da Prata a partir de 1900  não foram os primeiros a apontar os sinais mudéjares desse biótipo dos pampas — consequência do cruzamento de índios e mouros, ou da imigração de mouros de linhagem pura como os Maragatos (32)  —, mas dos argentinos de raça pura ou mesmo estrangeiros, na sua maioria europeus, que tiveram a sorte de conhecer pessoalmente os últimos gaúchos que ainda cavalgaram a la jineta e usavam lenços como capuzes sob seus chapéus.
As limitações deste artigo não nos permitem aprofundar certas questões direta ou indiretamente ligadas às origens hispano-muçulmanas das culturas equestres da América. É o caso dos mouriscos no Peru, como "las tapadas de Lima", mencionadas pelo historiador e filólogo espanhol Américo Castro (1885-1972) (33), que deram origem a uma riquíssima cultura de miscigenação, e no México, onde a influência moura foi projetada de Chiapas até a costa norte da Califórnia (34). Outra é o profundo monoteísmo ligado à mais pura tradição muçulmana descrito em Martín Fierro, a "Bíblia gaúcha" do poeta José Hernández, e as mil e uma tradições camufladas na cultura argentina que devem ser reveladas mais cedo ou mais tarde.

Bibliografia e Notas:
(1) Parece que a palavra "mourisco" se forma como "berberisco", em um diminutivo, que mais tarde foi usado para identificar o hispano-muçulmano que permaneceu na Península após a queda de Granada.
(2) O responsável por esta medida foi o Inquisidor Geral e confessor da Rainha Isabel la Católica, o Cardeal Francisco Jiménez de Cisneros (1436-1517), o mesmo que em 18 de dezembro de 1499 havia queimado à porta de Bib Rambla em Granada, as bibliotecas dos mouros; mais de oitenta mil manuscritos árabes da Espanha muçulmana foram perdidos para sempre.
(3) "Se o sentido estrito da palavra "mudéjar" for respeitado  diz o arquiteto e islamólogo espanhol Leopoldo Torres Balbás (1888-1960) , esse nome seria dado exclusivamente à arte dos muçulmanos que habitavam o território cristão (Leopoldo Torres Balbás. Arte almóada, arte nasrid, arte mudéjar, Ars Hispaniae-história universal da arte hispânica, vol. 4, Editorial Plus Ultra, Madrid, 1949, pp. 237-238). Checar vários autores: El arte mudéjar. La estética islámica en el arte cristiano, Museo Sin Fronteras/Electa (Grijalbo Mondadori), Viena, 2001.
(4) Apesar das repetidas teorias que falam de conspirações incubadas entre mouriscos e otomanos  como é o caso das teses de vários autores: Andrew C. Hess: Os mouriscos: uma quinta coluna otomana na Espanha do século XVI, The American Historical Review 74, Nova York, outubro de 1968, pp. 1-25; e Charles Petrie: Don John of Austria, London, 1967 (cap. 4 sobre a rebelião dos mouros) , os otomanos nunca estiveram em posição de ajudar o sultanato de Granada no século 15 ou os mouros no século 16 porque eles nunca conseguiram estabelecer um poder naval sólido, mesmo no Mediterrâneo oriental. O avanço de uma frota otomana em direção à Espanha teria sido um suicídio em face do poder concentrado dos Habsburgos, do Papado e de Veneza (Solimão, o Magnífico, falhou miseravelmente em sua invasão de Malta em maio-setembro de 1565). A intenção dos ousados ​​corsários berberes  Jairuddin Barbarroja (m. 1546) e outros  ao aproximarem seus navios da costa peninsular era apenas resgatar os refugiados mouros que buscavam se estabelecer no norte da África. As especulações em torno de uma hipotética ajuda dos mouros aragoneses pelos huguenotes liderados por Henrique IV, rei de Navarra (1562-1610) e da França (1589-1610) foram ampliadas, porém é interessante analisar os contatos entre ambos (cfr . Duc de La Force: Le maréchal de La Force. Un serviteur de sept rois, 1558-1652, Paris, 1950; Louis Cardaillac: Morisques et protestants, Al-Andalus, XXXVI, 1971, pp. 29-63). Para tirar dúvidas e esclarecer o panorama sobre este assunto, recomendamos o estudo de Francisco Márquez Villanueva: "O mito da grande conspiração mourisca", Atas do II Simpósio Internacional do CIEM sobre religião, identidade e fontes documentares sobre os Mouriscos Andaluses, Institut Supérieur de Documentation, Tunis, 1984, 2, pp. 267-284.
(5) Ver Francisco Márquez Villanueva: O problema dos Mouros (De outras encostas), Coleção Al-Quibla, Libertarias, Madrid, 1991; Míkel de Epalza: Os mouros antes e depois da expulsão, Mapfre, Madrid, 1992; Julio Caro Baroja: Os mouros do Reino de Granada, Istmo, Madrid, 1991 (4ª ed.); Anais do III Simpósio Internacional de Estudos Mouros "As práticas muçulmanas dos mouros da Andaluzia (1492-1609)", sob a direção do Professor Abdejelil Temimi, Zaghouan (Tunísia) 1989.
(6) O escritor de Málaga e líder andaluz Blas Infante (1885-1936)  assassinado pelos rebeldes com a eclosão da Guerra Civil Espanhola  aponta que estes "mouros, estes andaluzes ferozmente perseguidos, refugiados em cavernas, alienados da sociedade espanhola, encontravam no território andaluz um meio de legalizar, por assim dizer, a sua existência, evitando a morte ou a expulsão. Alguns bandos errantes, perseguidos ferozmente, mas sobre as quais não pesava o anátema de expulsão e de morte, vagam agora de lugar para lugar, constituindo comunidades organizadas por caudilhos e abertas a todos os peregrinos desesperados (...) Para entrar neles basta realizar um rito de iniciação. Os andaluzes entraram neles em rebanhos, estes últimos descendentes daqueles homens que dominavam as mais belas culturas do mundo, mas que agora não passavam de fazendeiros refugiados (em árabe, trabalhador fugido ou expulso significa "fellahmengu"). Compreendes agora por que os ciganos da Andaluzia constituem, segundo os escritores, o povo cigano mais numeroso da Terra?" (Blas Infante: El Ideal andaluz, Madrid, 1976, pp. 107-108).
(7) Sobre a preponderante presença da arte islâmico-mudéjar na mal denominada "arte colonial espanhola", ver as obras de J. Mariano Filho: Influenças muçulmanas na architectura tradicional brasileira, A. Noite, Rio de Janeiro, 1943; F. Prat Puig: El prebarroco en Cuba. Una escuela criolla de arquitectura morisca, La Habana, 1947; Varios Autores: El mudéjar iberoamericano. Del Islam al Nuevo Mundo, Lunwerg, Barcelona, 1995; Varios Autores: El Arte Mudéjar, Ediciones UNESCO, Zaragoza, 1996; Rafael López Guzmán: Arquitectura Mudéjar, Manuales Arte Cátedra, Cátedra, Madrid, 2000; Varios Autores: El arte mudéjar. La estética islámica en el arte cristiano, Museo Sin Fronteras, Viena, 2000.
(8) Marcos Estrada: Apuntes sobre el gaucho argentino, Ediciones Culturales Argentinas, Subsecretaría de Cultura, Ministerio de Cultura y Educación, Buenos Aires, 1981, pp. 9-10.
(9) E. Daireaux: Vida y Costumbres en el Plata. Vol I, Cap. II: "Caracteres étnicos de la Nación Argentina", Félix Lajouane Editor, Buenos Aires/París, 1888, p. 32.
(10) F. Tobal: Los libros de Eduardo Gutiérrez: El gaucho y el árabe, artículo publicado em capítulos no jornal La Nación, Buenos Aires, nos dias 16, 23, e 28 de fevereiro, e em 2 e 4 de março de 1886.
(11) Do árabe sakima, artefato de corda que funciona como cabresto.
(12) Do árabe yehez, qualquer adorno colocado nos cavaleiros (neste caso, as jaeces).
(13) Do árabe tar'zi, incrustação.
(14) De tafilelt berbere, couro polido e lustroso, muito mais fino que o cordovês.
(15) Do árabe al-darqa, escudo de couro, oval ou em forma de coração.
(16) L. Lugones: The payador, Ayacucho Library, Caracas, 1991, pp. 31-33.
(17) Do árabe sarauil, uma espécie de calça larga com pregas.
(18) Lugones insere a seguinte nota: “Os monges beneditinos usavam na Idade Média, para proteger o hábito do trabalho rural, verdadeiros ponchos de pano cuja memória meramente simbólica persiste nos escapulários e casulas (vestes religiosas) atuais. Vestimentas rudimentares como o poncho, o chiripá e a bota [garrão] de potro pertencem mais ou menos a todos os povos de pouca civilização. Às vezes, há retrocessos, como o chiripá em relação à bombacha mourisca. Acrescento que a clássica aba (kandora) dos árabes, nada mais é do que uma peça de pano listrado aberto no meio para passar a cabeça. Daí viria a peça análoga dos vegueros valencianos, bem como os mencionados escapulários. (idem, p. 35).
(19) L. Lugones: El payador, Biblioteca Ayacucho, Caracas, 1991, pp. 34-35.
(20) L. Lugones: Voces americanas de procedencia arábiga, V nota, en La Nación, Buenos Aires, domingo 9 de marzo de 1924, 3ª sección, p. 8.
(21) A lua hilal ou crescente é um símbolo tradicional entre os muçulmanos que reflete o calendário lunar que regula sua vida religiosa. A lua crescente anuncia o mês sagrado do Ramadã. A tribo árabe Banu Hilal (Filhos do Crescente) ou Hilali, até então estacionada a leste do Nilo, foi enviada pelo califa fatímida al-Mustansir (r. 1036-1094) para espalhar e consolidar o Islã entre os berberes do Norte da África. O hilal tornou-se especialmente importante entre os otomanos. A tradição diz que a bandeira turca mostra o crescente com uma estrela no centro porque o sultão Mehmet II Fatih (o Conquistador) entrou em Constantinopla (agora Istambul) sob uma lua semelhante na madrugada de 29 de maio de 1453. Foi assim como esta dinastia turca adotou esse símbolo como um emblema oficial. O fato de que por quinhentos anos o Império Otomano conteve numerosas nações muçulmanas dentro de suas fronteiras, bem como sua influência sobre os povos muçulmanos de língua turca da Ásia Central, influenciou a decisão das nações islâmicas que surgiram ao longo do século XX de inserir em suas bandeiras o hilal e a estrela como símbolo de fé e tradição. Assim, podemos citar os da Argélia, Azerbaijão, Comores, Federação da Malásia, Maldivas, Mauritânia, Paquistão, Cingapura, Tunísia, Turcomenistão e Uzbequistão.
(22) D. Oliver Pérez: Dos arabismos nacidos de un imperativo árabe... en la Revista Al-Qantara, vol. XIV, Fasc. 1, Madrid, 1993, pp. 163-176.
(23) Cfr. Varios autores: Al-Ándalus y el caballo, Lunwerg Editores, Barcelona, 1995.
(24) J. P. Saénz: Equitación gaucha en la Pampa y Mesopotamia, Emecé, Buenos Aires, 1997, pp. 15, 50 e 157.
(25) Manoelito de Ornellas: Gaúchos e Beduínos. A origem étnica e a formação social do Rio Grande do Sul, Livraria José Olympio Editôra, Rio de Janeiro, 1948 y 1956; A Filigrana Árabe nas Tradições Gaúchas, Edição "Arte do Livro", Porto Alegre, 1950; A cruz e o alfanje. A expansão da cultura árabe, Livraria Progresso Editora, Bahia, 1960.
(26) "Sua vestimenta e o implemento de seu cavalo são uma mistura de elementos hispano-mouriscos e indígenas (...) ... o huaso descende dos andaluzes ..." René León Echaiz: Interpretacion histórica del huaso chileno, Editorial Francisco de Aguirre, Buenos Aires, 1971, pp. 28 y 32.
(27) Cfr. Daniel Mendoza y José E. Machado: El llanero. Estudio de sociología venezolana con un estudio sobre el gaucho y el llanero, El Ateneo, Buenos Aires, 1944.
(28) Cfr. J. Álvarez del Villar: Historia de la charrería, México, 1941; C. Rincón Gallardo: El libro del charro mexicano, México, 1946.
(29) Zamacuco é também uma pessoa dissimulada, que se cala e age conforme a sua própria vontade, características dos perseguidos e clandestinos, como os mouros e os gaúchos.
(30) Eugenio Chahuán Chahuán: Presencia Árabe en Chile, Revista Chilena de Humanidades, Nº 1, 1983, Facultad de Filosofía, Humanidades y Educación, Universidad de Chile, Santiago de Chile, pp. 40-41.
(31) Cfr. S. Claro Vilches: Cueca chilena, cueca tradicional, Universidad Católica de Chile, Santiago de Chile, 1986.
(32) Sessenta quilômetros ao sul de Asyut (Egito), a meio caminho entre as cidades de Tahta e Suhaj, está a cidade de al-Maraghat (em árabe: caverna, gruta). No início do século VIII, um grupo de maragatos (maragatún) juntou-se ao contingente de 18 mil homens que o árabe Musa Ibn Nusair (640-714) conduziu à Península Ibérica por volta de 712 para consolidar as posições que o seu tenente berbere Tariq Ibn Ziad (m. 720) havia conquistado no ano anterior. O islamólogo holandês Reinhart Dozy (1820-1883), em sua detalhada obra Recherches sur l'histoire et la littérature des arabes d'Espagne pendant le Moyen Age (3ª ed., Paris, 1881) e o antropólogo espanhol Dr. Aragón e Escacena em sua obra Estudo Antropológico do Povo Maragato (Anales de la Soc. Esp. de HN, XXX, Madrid, 1902) consideram os Maragatos descendentes da imigração berbere. Os Maragatos se estabeleceram desde o início nas terras de León, norte da Espanha, em uma área montanhosa que seria chamada de Maragatería (350 km2), localizada entre Astorga e o pico Teleno, a sudoeste da cidade de León. Séculos depois passam para Portugal e depois para os Açores onde uma das aldeias da Ilha do Pico ostenta a marca da sua passagem: Maragaia. Posteriormente, durante os séculos XVII e XVIII, chegaram ao Prata numerosas famílias de maragatos de Leão, do porto de La Corunha, e muitas outras dos Açores. Eles se instalaram principalmente nos departamentos de Soriano e San José da Banda Oriental (atual Uruguay). Como os Maragatos sempre se destacaram por serem excelentes areeiros, em breve irão desenvolver este e outros ofícios no país. No final do século 18 eles serão identificados com os gaúchos da região. Os maragatos impuseram alguns pilchas gaúchos, como o calzoncillo crivado (semelhante ao chiripá com franjas).
Ao longo do século XIX, os Maragatos participaram ativamente da política. No sul do Brasil, as forças gaúchas do Rio Grande se unirão na chamada Guerra dos Farrapos e na revolta federalista de 1893-1894. Na República Oriental do Uruguai, eles se juntarão às montoneras do libertador José Gervásio Artigas (1764-1850) e às do Partido Branco dos caudilhos nacionalistas Timóteo Aparício (1814-1882), Gumercindo Saraiva (1852-1894) e Aparício Saraiva (1855-1904) até a trágica batalha de Masoller (1º de setembro de 1904). Uma anedota que fala claramente dessa identidade é que um desses personagens "encurralado por alguns montoneros, tenta fazer valer sua condição de homem branco mencionando sua origem maragato, já que San José sempre foi um reduto oribista: "nu mi mate qui soy maragato di San Cusé!" (Cf. Abdón Arozteguy: A revolução de 1870, Félix Lajouane Editor, Buenos Aires, 1889, volume 1, página 158; Carlos Machado: Historia de los Orientales, Ediciones de la Banda Oriental, Montevidéu, 1973, p. 252).
Manuel Gálvez (1882-1962), o famoso historiador revisionista argentino, fornece uma informação-chave e esclarece a questão: "Popularmente, cada bando deu ao seu oposto um apelido: para federalistas ou revolucionários, os apoiadores do governo são os "picapaus ", o nome de um pássaro, e eles chamam assim porque, como o picapote ou o carpinteiro, na árvore, eles estão sempre "picando" as pessoas com impostos e taxas, e para eles, os federalistas são os "maragatos". porque há entre eles alguns uruguaios de San José, chamados "maragatos". Na Espanha os habitantes de Las Hurdes recebem esse nome (Las Hurdes é o nome de uma região espanhola natural que se estende pelas províncias de Cáceres e Salamanca), que são considerados descendentes puros dos mouros e muito lutadores" (Manuel Gálvez: Vida de Aparicio Saravia. El gaucho de la libertad. Editorial Tor, Buenos Aires, 1957, p. 62). A longa e lendária peregrinação dos Maragatos produzirá o estabelecimento de uma colônia nos arredores de Carmen de Patagones, às margens do Rio Negro, na província de Buenos Aires. A toponímia da região também fala de sua presença: há uma ilha de Maragatas, no departamento uruguaio de San José, e uma lagoa de Maragato, no distrito de Villarino, na província de Buenos Aires.
(33) Cfr. Américo Castro: España en su historia. Cristianos, moros y judíos, Grijalbo Mondadori, Barcelona, 1996, pp. 82-103. Vemos sobre este fenômeno, por exemplo, a tese do professor Ángel Santisteban Mendevil (Universidad de Lima): Sabores hispano-árabes en la tradición culinaria del Perú, Terceras Jornadas de Cultura Árabe "Al-Ándalus allende los Andes", Coloquio Interdisciplinario del Mudéjar Iberoamericano, Centro de Estudios Árabes de la Facultad de Filosofía y Humanidades, Universidad de Chile, (Santiago, agosto de 1999), Santiago, 2001.
(34) Cfr. A. Garrido Aranda: Moriscos e indios. Precedentes hispánicos de la evangelización en México, UNAM, Mexico, 1980; Elizabeth McMillian: Casa California. Spanish-Style Houses from Santa Barbara to San Clemente, Rizzoli, Nueva York, 1996.
Fonte: tradução livre de Raíces de Tradición
e revisão do texto de História Islâmica