sexta-feira, 22 de março de 2019

Base Espacial Chinesa na Patagônia Preocupa.

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A desproporcional base espacial que o governo nacionalista-populista de Cristina Kirchner concedeu à China na Patagônia causa cada vez mais preocupação na Argentina e no mundo, como pode se ver em reportagem do jornal portenho La Nación”.
Base Chinesa na Patagônia não é só civil, diz Exército dos EUA
Teme-se cada vez mais sobre sua verdadeira finalidade. Recentes fatos, como o pouso de uma nave chinesa no lado escuro da Lua multiplicaram os temores.
A base dirigida pelo Exército Vermelho comunista teria também um objetivo militar.
Durante milênios as guerras e as hegemonias imperiais tinham como objetivo supremo o domínio da superfície terrestre.
Em séculos recentes, os impérios coloniais como o inglês privilegiaram o controle dos mares, e dos estreitos que controlam a navegação.
A II Guerra Mundial transferiu essa importância ao controle do ar.
As forças aéreas os aviões primeiro, e os mísseis posteriormente passaram a ser determinantes para o domínio do mundo ou de continentes inteiros.
Hoje o controle do espaço e das comunicações via satélite para usos militares é campo de luta primordial para as potências.
Nesse contexto foi posta em funcionamento num local desértico e afastado uma estação espacial chinesa de observação e exploração que diz ter finalidades “pacíficas”. E isso é o que cada vez menos se acredita.
Pequim ganhou de mão beijada uma área de 200 hectares, perto do povoado de Bajada del Agrio, na província de Neuquén, na estepe patagônica.
A área é na prática um enclave soberano chinês. Funciona sem supervisão das autoridades argentinas, leia-se só vigora a lei chinesa, os trabalhadores e cientistas só são chineses, que não falam espanhol, quase não se fazem ver e obedecem a um general do Exército vermelho.
Infografia publicada pela imprensa argentina
A agência Reuters obteve acesso a centenas de páginas de documentos oficiais dos acordos, aliás secretos, assinados por Kirchner. A documentação foi revista por especialistas em direito internacional.
Os EUA consideram que a China está “militarizando” o espaço e que a estação da Patagônia, acordada secretamente com um governo corrupto é mais um exemplo de táticas chinesas predatórias da soberania das nações, explicou Garrett Marquis, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca.
Por sua vez, Tony Beasley, diretor do Observatório Nacional de Radioastronomia dos EUA avala que a dita base pode “escutar” os satélites de outros países para surrupiar dados confidenciais. 
Trinta empregados chineses trabalham e moram na base que não admite argentinos, disse a prefeita local, Maria Espinosa. Os habitantes da zona rara vez veem alguém na cidade.
Alberto Hugo Amarilla, dono de um pequeno hotel, conta que um funcionário chinês o saudou com entusiasmo pois tinha sabido que era oficial retirado do exército. O chinês era general...
Base funciona como território soberano chinês.
Apresentando seu informe anual, no Congresso, o chefe do Comando Sul dos EUA, o Almirante Craig S. Faller, manifestou sua “preocupação” porque a base chinesa pode “monitorar alvos estadunidenses”, escreveu o quotidiano Clarin de Buenos Aires. 
Os perigos da penetração informática militar da China na Argentina atingem toda a América do Sul. 
Eles são acrescidos à expansão de empresas engajadas com a telefonia celular, como a Huawei e a ZTE que “penetraram agressivamente na região”, com uma estratégia que “põe em risco a propriedade intelectual, dados privados e segredos de governo”. 
O Pentágono considera, além do mais, que essas empresas incluem dispositivos nos smartphones que comercializam para grampeá-los e repassar os dados à China.
De maneira análoga, segundo a agencia britânica Reuters a base chinesa age como uma “caixa preta” para registrar toda espécie de informações sensíveis. 
Segundo militares citados pela revista Foreign Policy a forma do imenso radar revela que é usado para reunir informação sobre a posição e as atividades dos satélites militares americanos. E sublinham que a China fala muito de um espaço livre de armas, mas é a primeira em não respeitar o que diz. 
No Congresso estadunidense, o almirante Faller elencou entre as “principais ameaças” à paz mundial, a Rússia, a China, o Irã, e seus “aliados autoritários” de Cuba, Nicarágua e Venezuela.
O jornal portenho Clarín publicou fac-símiles do tratado secreto que confirmam esses temores. 
O tratado cria “uma zona de exclusão”, que tem um raio de até 100 kms em volta dos 200 hectares. Nessa “zona de exclusão”, os civis argentinos não poderão acionar aparelhos que usem ondas de rádio “como equipamentos domésticos, dispositivos para carros,” etc.
O prefeito de Bajo del Agrio, a localidade mais próxima à base, Ricardo Fabián Esparza, usou uma metáfora caseira para dizer que tudo se passa como se os chineses quisessem espionar até as peças íntimas de nosso vestuário.
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domingo, 10 de março de 2019

A Espionagem Venezuelana em Bogotá

por Unidad Investigativa
Na foto, Carlos Pino em Bogotá na companhia de Royland Belisario, membro do SEBIN.
Foto:    Arquivo particular
Organismos de Inteligência dizem que há US$ 5 milhões para atos de desestabilização na Colômbia.
Vários dos mais de 700 militares venezuelanos que se entregaram na fronteira com Colômbia vem advertindo a membros de organismos de Inteligência que ao menos dois deles não estão dizendo a verdade sobre o cargo e Unidades a que supostamente pertencem.
Ainda que não se descarte que estejam mentindo para proteger-se das represálias do regime de Nicolás Maduro, está sendo verificado se fazem parte do plano de espionagem que a Venezuela ordenou iniciar há uns meses nas ruas de Bogotá.
El Tiempo teve conhecimento de uma diretriz que organismos de Inteligência colombianos atribuem ao Comando Estratégico Operacional das Forças Armadas da Venezuela (CEOFANB), datado em 10 de agosto de 2017, na qual se ordenou um deslocamento de “redes de Inteligência exterior em território colombiano, para efetuar operações encobertas em torno a interesses militares e ameaças provenientes de Colômbia e de Estados Unidos”.
O epicentro da espionagem é Bogotá, mas informação de Inteligência assinala que há pelo menos 50 membros do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN) dispersos em pelo menos oito regiões do país.
Além disso, asseguram que sua missão se ampliou a controles e vigilâncias a opositores refugiados na Colômbia, a membros de missões diplomáticas de países que apoiam a saída do poder de Maduro e a funcionários colombianos de alto nível.
O dado mais recente que há sobre essa investida assinala que existe um orçamento de 5 milhões de dólares para executar atos de desestabilização na Colômbia, que incluem desde a infiltração nas marchas e protestos, até ações contra Juan Guaidó, o presidente interino de Venezuela.
Com base nessa informação, no final de fevereiro, o chanceler Carlos Holmes Trujillo responsabilizou Maduro por qualquer agressão que possa ocorrer contra Guaidó, que passa pela Colômbia para assistir à reunião do Grupo de Lima.
Há evidencias de que a ordem de planos de espionagem na Colômbia ganhou maior força depois que Duque assumiu a bandeira do bloco de países que exigem a saída imediata de Maduro e o reconhecimento de Guaidó como presidente de transição para que ocorram eleições presidenciais livres.
Assim se lê em documentos de Inteligência, nos quais inclusive, aparecem varias fotos tiradas do embaixador dos Estados Unidos em Bogotá, Kevin Whitaker, por um agente do SEBIN.
O espião foi revelado ao aproximar-se demais do custodiado diplomata durante um foro sobre migração venezuelana, em 16 de outubro de 2018, a que também assistiu o chanceler Trujillo.


Coletivos chavistas e ELN
As fotos de Whitaker – cujo governo não descarta uma intervenção militar na Venezuela – foram enviadas em tempo real (3:44 da tarde) a Royland Belisario, membro do SEBIN, que esteve no serviço diplomático venezuelano em Bogotá e foi visto rondando Cúcuta.

Estas foram as fotos que percebidos membros do SEBIN tiraram do embaixador de EUA e do chanceler Trujillo em Bogotá.  Foto: Arquivo particular
Belisario já havia aparecido em informes de Inteligência, de dezembro passado, que serviram de base para que a Migração Colombiana ordenasse a expulsão imediata do venezuelano Carlos Manuel Pino García, por espionagem. Trata-se de um assessor da missão diplomática de Caracas em Bogotá, casado com Gloria Flórez, ex-congressista do Polo Democrático e secretaria de Governo do governo municipal de Gustavo Petro, entre 2014 e 2015.
Ainda que a ex-congressista tenha interposto uma ação legal desmentindo as acusações, qualificando-as de montagem e exigindo que seu esposo seja devolvido, autoridades judiciais tem evidencias (incluindo áudios), de que Pino mantinha contatos com membros das desmobilizadas estruturas das FARC, e que trabalhava na obtenção de apoios a favor do regime de Maduro.

El Tiempo obteve uma foto na qual ele é visto caminhando por uma rua de Bogotá ao lado de Royland Belisario (no topo da postagem).
Além disso, ele foi relacionado a seguimentos (vigilância) feitos a membros do Tribunal Supremo de Justiça Venezuelano no exílio. Um deles, Zair Mundaray, denunciou fustigamentos durante sua estadia em Bogotá e depois se soube que membros dos violentos coletivos chavistas foram encarregados dessa operação. Ainda, há evidencias de que o SEBIN está em contato com membros do ELN, autores dos mais recentes atentados com explosivos em Bogotá.

A informação do General
O SEBIN e os coletivos chavistas firmam alianças com setores favoráveis à defesa do regime, para criar cenários de crise na Colômbia, como os distúrbios em marchas e as ações do ELN”, explicaram fontes de Inteligência.
Inclusive se sabe que, no primeiro sábado de cada mês, se reúnem com membros da Inteligência de outros países afins a Maduro, para intercambiar informação sobre os objetivos em Bogotá.
Nos últimos três meses, Colômbia já localizou e expulsou pelo menos uma dezena de explícitos espiões e infiltrados do regime de Maduro. Porém os alarmes seguem ativos inclusive em um tema que se acreditava sepultado: um atentado contra o presidente Iván Duque.

El Tiempo constatou que o Major-General Hugo Carvajal – homem forte da Inteligência de Hugo Chávez e de Maduro – já ofereceu entregar informação sigilosa sobre este tipo de planos do regime de Maduro contra a Colômbia.

Migração Colombiana reconsidera a expulsão de "Pau Pau"
Apesar de que, no momento de sua expulsão chorou e insistiu que não era uma espiã do regime de Nicolás Maduro, a Inteligência do Exército colombiano ratificou que a venezuelana Tania Pérez tentou se passar como um dos membros das forças armadas do país vizinho que abandonavam o atual governo.
De fato, foi confirmado que ela responde ao codinome de "Pau Pau" e que sua verdadeira intenção era recolher informação sobre como estão sendo recebidos os uniformizados que abandonam as filas do regime, com a finalidade de envia-la a Caracas para tentar frear as deserções. “É uma ameaça para a segurança nacional”, indicou a Inteligência colombiana.
Entretanto, a Migração Colombiana informou neste sábado (2/3/19) que, com base em novo documento dos organismos de Inteligência, tomou a decisão de não expulsar 'Pau Pau'. El Tiempo obteve de fontes do Governo que a mulher ofereceu entregar informação para “ajudar a restituir a democracia na Venezuela”.
Assim, mesmo que inicialmente não tenha atendido os protocolos de verificação que a Colômbia implementou para atender os desertores venezuelanos, agora ela colaborará com as autoridades colombianas, aportando informação relevante. A decisão de que a mulher permaneça na Colômbia está sustentada em um documento em que deixou formalizada sua vontade de contribuir com a normalização da institucionalidade em seu país.
Tania Pérez, de alcunha "Pau Pau" – de 28 anos –, era membro da Polícia Estatal venezuelana e possui informação sobre movimentos na fronteira com Colômbia por parte do regime de Nicolás Maduro.
O cancelamento da medida de expulsão coincide com a decisão do Governo venezuelano de descender os mais de 700 membros de suas Forças Armadas que se entregaram na Colômbia. Assim consta em um boletim oficial publicado recentemente, onde acrescenta que eles foram expulsos pelos delitos de deserção e traição à Pátria.


Cúcuta, o outro ponto sensível da tensão com Caracas
Para organismos de Inteligência colombianos a melhor evidencia de que há espiões venezuelanos cumprindo missão na Colômbia foi a captura de cinco pessoas, em 19 de fevereiro em Cúcuta, quando se preparava o grande concerto pela paz e a mobilização de ajuda humanitária na fronteira.
Os detidos haviam se hospedado no Hotel Hampton, o mesmo em que permaneciam vários deputados da ala de Juan Guaidó. A SIJIN 
(Seccional de Investigação Judiciária e Interpol) comprovou que o grupo estava acompanhando os movimentos dos deputados, gravando  videos e tomando fotos deles.
Segundo um relatório oficial, conhecido por El Tiempo, no momento de sua retenção disseram ser turistas, que não portavam documentos e que estavam fazendo compras no centro comercial Unicentro.
Mas com um deles, identificado como Oberto Junior Bohórquez Camejo, acharam em sua maleta um passaporte venezuelano, com visto americano. O sujeito é um intermediário na compra de faturas e portfólios, atividade que está sendo exercida para dar liquidez ao regime.
Seus acompanhantes, que portavam cartões de fronteira falsos, foram identificados como Luis Enrique Duarte Moreno, Erwin Javier Flórez, Jesús María Bohórquez e Laura Elena Carroz.

Temos a certeza de que a mulher é do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN) e que todos estão ligados a um programa que se chama ‘Grande Missão de Lares da Pátria’, que depende da vice-presidência venezuelana”, explicou a este diário um investigador.
Embora Laura Elena Carroz não tenha registro de movimentos migratórios legais para a Colômbia, apareceu hospedada anteriormente no Hotel Casino e já tinha outra entrada no Hampton.
Não vamos permitir que cidadãos estrangeiros ingressem em nosso país para afetar a ordem e a tranquilidade social. Sabemos que há um interesse manifesto por parte da ditadura de Maduro para afetar a segurança nacional diante os eventos que estão próximos a realizar-se”, indicou no fim de semana passado Christian Krüger, diretor da Migração Colombiana.
Nessa jornada, que terminou em distúrbios e até na polêmica queima de ajudas, houve outra captura. A de Crober Elías Paraco Silvera, membro ativo da velha Polícia Técnico Judicial de Venezuela (PTJ). O sujeito tomou fotos no posto fronteiriço e, quando interpelado, disse que ia buscar provisões para sua família.
Por enquanto, os alarmes estão ativos no Norte de Santander, Arauca e La Guajira, a fronteira porosa entre Colômbia e Venezuela, por onde estão ingressando os mal chamados desertores do regime. Mas também está sob vigilância outra passagem: a fronteira com o Brasil onde no fim de semana passado (23/2/19) se registraram graves distúrbios. 


Fogo amigo
O que os organismos de Inteligência e agencias de outros países pretendem é habilitar uma plataforma de informação que permita identificar a todos os uniformizados que busquem passar para Colômbia. Além do ingresso de potenciais espiões, o que tentam evitar é que militares venezuelanos e coletivos chavistas os alvejem a tiros, como ocorreu há alguns dias na fronteira com Brasil.

Unidad Investigativa
u.investigativa@eltiempo.com
Twitter: @uinvestigativa
 Fonte:  tradução livre de El Tiempo
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domingo, 3 de março de 2019

Jornalismo Sob Pressão

por Renato Sant'Ana
Da infinidade de virtudes imagináveis, qual será a mais desejável em um jornalista? Na era da ciberfrivolidade, uma pergunta assim é "ponto fora da curva" (permitido o lugar comum). E também por isso será válida.
A morte do jornalista Ricardo Boechat, em 11/02/19, causou grande comoção, quer pelas circunstâncias do fato, quer por ser ele muito querido e admirado por colegas e pelo grande público. Mas não é dele que se trata aqui, senão de uma fala recorrente entre seus pares, ao lamentar sua partida.
Desde militantes da Folha de S. Paulo até rapazes da equipe de esportes da Rádio Gaúcha, jornalistas articularam o discurso do vitimismo: "Ele nos deixou num momento crítico em que o jornalismo tanto precisa de alguém que denuncie o que está acontecendo", eis o que se repetiu numa abordagem cuja síntese é a afirmação de a imprensa estar vivendo dias de cerceamento, o que, no Brasil, não é verdade.
Mas uma parcela da imprensa deve estar mesmo desconfortável em razão de mudanças que, do ponto de vista da sociedade, são bem positivas: a população mais escolarizada já não engole qualquer coisa que saia nos noticiários. E uma das causas é o contraponto que as "mídias alternativas" fazem às mídias tradicionais (rádio, TV e jornal), inclusive desmascarando jornalistas favoráveis a causas revolucionárias.
Até 2013, quando atingimos o ponto de saturação e o país começou a mudar, os queixosos de agora tinham a vida mais folgada: era mais fácil engrupir o público. Quer dizer, a militância ideológica travestida de jornalismo não tinha, como hoje, o desconforto de uma enérgica e amplamente compartilhada contestação.
Mas as redes sociais ganharam corpo e a moleza acabou. Hoje, se black blocs destroem automóveis de uma loja de carros importados, se o MST põe fogo em tratores e plantações de uma fazenda altamente produtiva, se o movimento dos sem-teto cobra aluguel em um prédio invadido e tranca as portas para controlar as pessoas, não adianta a mídia tradicional se omitir nem querer dourar a pílula. Haverá sempre um abelhudo para gravar imagens no smartphone e mandar às redes.
Em suma, especialmente a partir de 2013, o núcleo hegemônico da imprensa, cabresteado pelo Foro de S. Paulo (organização que esse núcleo finge ignorar), vem sendo desmascarado e repelido.
À parte de excessos e fake news, as redes sociais tiveram a faculdade de revelar o que todo mundo via sem ver: "o rei está nu!". Os que hoje se queixam assistiram, no passado recente, à instituição da corrupção como método de poder, ao aparelhamento do Estado e à imposição de um projeto de subversão das instituições concebido com cinismo revolucionário. Mas não denunciaram! Terá sido por ignorância ou por conveniência? Tanto faz! Merecem repúdio. E hoje o têm! E se queixam.
Mas as mídias tradicionais vão acabar? Em essência não! Pode até desaparecer a impressão em papel, por exemplo, mas não o jornalismo profissional. Haverá sempre uma busca de credibilidade, inexistente no mundo anárquico das mídias sociais. E quem tiver competência e independência de caráter é que vai granjear a confiança do público.
E assim chegamos a um esboço de resposta à pergunta inicial. Sem dúvidas, uma das virtudes mais apreciáveis num jornalista - e, de resto, em qualquer pessoa - é "honestidade intelectual", que é a materialização do irrefreável desejo de buscar a verdade, sobre si mesmo e sobre a realidade do mundo.
Renato Sant'Ana é Psicólogo e Advogado.
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domingo, 24 de fevereiro de 2019

A Tomada de La Serra: 74 Anos

por Sérgio Pinto Monteiro*
Há setenta e quatro anos um pelotão do Regimento Sampaio escreveu, nos campos de batalha da Itália, páginas gloriosas da história da Força Expedicionária Brasileira. Seu comandante era o Primeiro-Tenente da reserva convocado Apollo Miguel Rezk.
Apollo nasceu no Rio de Janeiro em 09 de fevereiro de 1918. Era filho de imigrantes: pai libanês e mãe síria. Fez seus estudos no Colégio Pedro II. Em 1935 tentou, sem êxito, entrar para a Escola Militar do Realengo. Seus pés planos e uma reprovação em Física impediram a realização do sonho de ingressar na carreira militar.
A idade de prestação do serviço militar obrigatório conduziu o jovem Apollo ao CPOR do Rio de Janeiro. Aprovado nos exames médico, físico e intelectual, após os três anos do curso do CPOR foi declarado Aspirante a Oficial da Reserva e classificado em 10º lugar entre os setenta concludentes da Arma de Infantaria, turma de 1939.
Em 1940 formou-se Perito-Contador na Escola Superior de Comércio do Rio de Janeiro. No ano seguinte foi convocado para realizar o Estágio de Instrução no Regimento Sampaio, promovido a Segundo-Tenente e desligado do serviço ativo do Exército. Em 1942 foi convocado para o Estágio de Serviço, novamente no Regimento Sampaio. Estudioso, concluiu em 1943 o bacharelado em Ciências Econômicas na Faculdade de Administração e Finanças da Escola de Comércio do Rio de Janeiro.
Ainda nesse ano foi promovido a Primeiro-Tenente e convocado para a Força Expedicionária Brasileira, em fase de formação e adestramento.
Apollo embarcou para a Itália como oficial subalterno, Comandante de pelotão da 6ª Companhia do II Batalhão do Regimento Sampaio. O 2º escalão da FEB seguiu para o Teatro de Operações no navio transporte de tropas americano “U.S. General W. A. Mann”, que partiu do armazém nº 11 do porto do Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1944, ancorando em Nápoles no dia 06 de outubro.
Na noite de 23 e madrugada de 24 de fevereiro de 1945, atuando em apoio à 10ª Divisão de Montanha americana no ataque a La Serra, o pelotão comandado pelo tenente Apollo, após ultrapassar um extenso campo minado, atacou as posições fortificadas alemãs. Apesar do intenso fogo inimigo, o pelotão Apollo cercou o objetivo, investiu contra a posição e pôs em fuga os alemães, fazendo cinco prisioneiros. Ferido em combate por volta das 23 horas, o tenente Apollo, cercado e contra-atacado, manteve a posição durante toda a madrugada e manhã do dia 24.

19.05.45 – Ten Apollo, único brasileiro 
agraciado com a Cruz de Serviços Notáveis,
 dos  EUA, é condecorado pelo
Gen Truscott – Alessandria, Itália.
Por esta missão foi condecorado pelo governo americano, em 19 de maio de 1945, com a “Distinguished-Service Cross”, único brasileiro agraciado com essa importante medalha de bravura:
“... por heroísmo extraordinário ... a despeito de campos de minas desconhecidos, terreno excessivamente difícil e forte oposição, o Primeiro-Tenente Rezk conduziu galhardamente os seus homens através de uma cortina de fogo de metralhadoras, morteiros e artilharia, para assaltar e arrebatar o objetivo do inimigo. Embora gravemente ferido quando dirigia o ataque, o Primeiro-Tenente Rezk nunca hesitou: pelo contrário, continuou firmemente o avanço ... repeliu três fortes contra-ataques, infligindo pesadas perdas aos alemães pela sua habilidade na condução do tiro. Depois, embora em posição vulnerável ao fogo das casamatas do inimigo circundante e a despeito das bombas que caiam e da gravidade dos seus ferimentos, o Primeiro-Tenente Rezk defendeu resolutamente La Serra contra todas as tentativas fanáticas dos alemães para retomar a posição. Pelo seu heroísmo, comando inspirado e persistente coragem, o Primeiro-Tenente Rezk praticou feitos que refletem as mais altas tradições do serviço militar.”
(tradução de trechos do documento original em inglês feita pela Seção Especial do Comando da FEB).
O comandante da FEB, General João Baptista Mascarenhas de Moraes, em Citação de Combate de 09 de abril de 1945, assim se manifestou quanto às ações do tenente Apollo na conquista de La Serra:
“... a personalidade forte, o espírito de sacrifício, a combatividade, a tenacidade, o destemor do tenente Apollo constituem belos exemplos, dignos da tropa brasileira.”
30.03.45 - Ten Apollo recebe a "Silver Star" 
do Cmt do V Exército americano, Gen Lucian 
Truscott, Lizano de Belvedere – Itália.
Anteriormente, graças ao seu desempenho no ataque a Monte Castelo em 12 de dezembro de 1944, o Tenente Apollo já havia sido agraciado pelos Estados Unidos com a medalha “Silver Star”. Terminada a Campanha da Itália, o Tenente Apollo recebeu quatro condecorações brasileiras: Cruz de Combate de 1ª Classe, Medalha de Sangue, Medalha de Campanha e Medalha de Guerra.
Quando da promoção do Tenente Apollo ao posto de Capitão, em 03 de setembro de 1951, assim se expressou o Ministro da Guerra no despacho em que deferiu a proposta:
“Deferido. A promoção se justifica, sobretudo, em virtude da conduta excepcional desse Oficial no Teatro de Operações da Itália, onde, entre diversas condecorações recebidas por bravura, lhe foi conferida a medalha “Distinguished-Service Cross” do Exército Americano, por heroísmo extraordinário em ação, distinção máxima somente concedida a este combatente brasileiro...”.
O destino, que no passado não permitira ao jovem Apollo a realização do sonho de ingressar na carreira militar através da Escola do Realengo, ainda haveria de, novamente, pregar-lhe outra peça. A tão sonhada carreira, que finalmente lhe chegara não pela via da Escola Militar, mas através do CPOR e da própria guerra, como também, e principalmente, por sua bravura e eficácia no cumprimento do dever, seria interrompida precocemente. 
Seus pés planos não resistiram ao esforço do combate e ao congelamento nas trincheiras da Itália. O Capitão Apollo, em 12 de dezembro de 1957, aos 39 anos, depois de vinte anos no exército, foi julgado inapto para o serviço ativo e reformado no posto de Major.
Conheci o nosso herói já no ocaso de sua vida. Era um bravo. Foram muitos sábados e domingos de intermináveis conversas. Jamais o Major Apollo admitiu o seu heroísmo. Pessoa simples, culta e educada era, sobretudo, um gentleman. Absorvi, voraz e intensamente, cada relato de suas ações na guerra. O Exército era realmente a sua paixão. E a Pátria, o seu bem maior. Ficamos amigos, o que me enche de orgulho e gratidão.
A nação, na tristeza daquele 21 de janeiro de 1999, perdeu um filho exemplar. E o Exército viu partir um de seus grandes guerreiros. A filha Nádia comunicou-me o falecimento do pai pela manhã, bem cedo. Desloquei-me rapidamente para a sede do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva, no quartel do CPOR/RJ, de onde fiz os contatos relativos ao passamento do Major Apollo. Enviei um necrológio aos jornais, avisei ao CComSEx, aos comandantes do Regimento Sampaio e do Batalhão de Guardas - onde ele servira no após guerra - bem como à Embaixada dos Estados Unidos, já que era ele detentor de duas condecorações americanas. Informei, também, à Comunicação Social da Presidência da República e aos governos estadual e municipal do Rio de Janeiro.
O sepultamento foi no cemitério do Caju. Presentes, familiares, ex-combatentes da FEB e amigos do nosso herói, bem como quase uma centena de oficiais R/2. Um pelotão do Regimento Sampaio executou as honras fúnebres. O governo americano enviou, de Brasília, um oficial superior, fardado, para representá-lo. Os governos federal, estadual e municipal não enviaram representantes, nem formularam condolências à família enlutada. Jamais esquecerei o constrangimento que senti ao ouvir o Oficial americano dizer aos filhos do major Apollo:
“Eu não entendo vocês brasileiros. Na minha terra, alguém com as importantes condecorações de guerra do Major Apollo, teria recebido, ao longo de sua vida, as homenagens, o respeito e a gratidão do seu povo.”
Na tristeza daquele momento, assumi, intimamente, o compromisso - como missão - de divulgar a história do Major Apollo. Nesses dezenove anos desde o seu falecimento, tenho viajado pelo nosso país ministrando palestras - nos meios militar e civil - relatando os seus atos de bravura e heroísmo. O meu livro “O Resgate do Tenente Apollo”, escrito em parceria com o tenente Orlando Frizanco, terá a 2ª edição publicada ainda este ano. Há, também, disponível, embora não biográfico, o livro do tenente Luiz Mergulhão “Major Apollo Miguel Rezk: O Herói Esquecido”. O Conselho Nacional de Oficiais da Reserva criou a Medalha Major Apollo Miguel Rezk, para homenagear personalidades que se destaquem no apoio aos oficiais da reserva.


Revista Manchete - Ed 2426 - 03 Out 1998
Um dos desejos não realizados do herói era ser promovido a Tenente-Coronel, a exemplo de alguns de seus companheiros que obtiveram a promoção por via judicial. Quem sabe o Exército Brasileiro, ou mesmo o Congresso Nacional, lhe concedam, ainda que tardiamente, essa honraria, como derradeira homenagem póstuma, já que em vida não logrou recebê-la sob a forma de promoção por bravura, o que teria sido, inquestionavelmente, um ato de inteira justiça.
Os feitos do Tenente Apollo ultrapassaram os limites de sua existência física. Na verdade, já não mais lhe pertenciam quando, naquela madrugada de 21 de janeiro de 1999 foi vencido pelo inexorável. São episódios gloriosos da história militar de um país que teima em não cultuar seus heróis.
A Força Expedicionária Brasileira - e seus bravos - não pode ser esquecida. Ela simboliza a pujança e o valor de um povo. A nação lhe deve eterno respeito e imorredoura gratidão.
*o autor é historiador, Oficial da Reserva do Exército, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis. É presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB. É fundador e ex-presidente do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva - CNOR.
Fonte:  Informativo O Tuiuti nº 278-Jun-2018,
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domingo, 10 de fevereiro de 2019

A Nova 'Catástrofe' Palestina: Um Shopping Center Contratando Palestinos

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Foto: um supermercado da rede Rami Levy em Jerusalém Ocidental.
(Imagem: Yoninah/Wikimedia Commons)
Os dirigentes da facção FATAH do presidente Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina reagiram à inauguração de um novo shopping center em Jerusalém Oriental, no qual a maioria dos funcionários e clientes é árabe, de uma maneira que escancara como os líderes palestinos continuam torpedeando o que for positivo ao seu povo.
por Bassam Tawil
Os dirigentes da facção FATAH do presidente Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina estão furiosos. Tudo porque um empresário judeu israelense acabou de construir um shopping center em Jerusalém Oriental e a maioria dos funcionários e clientes são árabes.
Os líderes da FATAH apregoaram o boicote ao shopping.
A FATAH, que via de regra é retratada como uma facção moderada pela mídia ocidental, reagiu ao empreendimento do shopping de modo a escancarar a maneira pela qual os líderes palestinos continuam torpedeando o que for positivo ao seu povo.
Onde já se viu um líder condenar um projeto que fornece empregos a centenas de pessoas de seu povo? Onde já se viu um líder convocar seu povo a boicotar um shopping ou um supermercado que oferece preços competitivos em roupas e alimentos? Onde já se viu um líder retratar a abertura de um projeto comercial que beneficiará seu povo como catástrofe ("nakba")?
Rami Levy, empresário e proprietário da terceira maior rede de supermercados de Israel, investiu mais de US$50 milhões na construção de um shopping no Parque Industrial Atarot, na região nordeste de Jerusalém. Apesar do chamamento ao boicote, alguns palestinos alugaram lojas dentro do shopping, considerado um modelo de convivência entre árabes e judeus. O novo shopping também possui um espaçoso supermercado pertencente à rede de supermercados de Levy.
Os supermercados de Levy tanto em Jerusalém quanto na Cisjordânia são muito procurados pelos consumidores palestinos. Eles dizem que os preços de lá são mais baixos do que os das empresas árabes. Talvez seja por esta razão que centenas de palestinos tenham se dirigido ao recém inaugurado supermercado no shopping quando da sua inauguração em 8 de janeiro. Os supermercados israelenses contratam centenas de palestinos da Cisjordânia, bem como residentes árabes de Jerusalém, que trabalham lado a lado dos colegas judeus.
Segundo Levy, metade de seus 4 mil funcionários são palestinos ou árabes israelenses. "Comecei a dar emprego a palestinos e árabes israelenses no primeiro empreendimento Rami Levy, uma barraca no mercado Mahane Yehuda, em Jerusalém, inaugurado em 1976. Os árabes já faziam parte dos primeiros funcionários", salientou ele.
"Os funcionários continuam trabalhando na Rami Levy Hashikma, nossos atacadões, e muitos subiram na carreira, juntamente com a empresa. O primeiro funcionário que contratei há 35 anos é um homem chamado Ibrahim, árabe de Jerusalém Oriental, que permanece na Rami Levy, atualmente é diretor de logística. Outros funcionários árabes israelenses e palestinos que se juntaram à equipe de Rami Levy também foram promovidos a cargos de direção e gerência. Rami Levy não discrimina o candidato conforme a etnia, gênero ou religião ao contratar e promover funcionários. Todos os funcionários, sejam eles palestinos ou israelenses, são tratados igualmente e recebem os mesmos benefícios. O salário se baseia unicamente no cargo e desempenho do funcionário. A meta da Rami Levy é dar a mesma oportunidade a todos os funcionários de alcançarem o sucesso. Tal objetivo só pode ser alcançado se o princípio da igualdade for implementado em todos os ofícios da empresa".
Para os funcionários do alto escalão da FATAH de Abbas, no entanto, a imagem de palestinos e judeus trabalhando em harmonia é repugnante. Eles não gostam da ideia de trabalhadores palestinos estarem recebendo bons salários e serem tratados com respeito pelo empregador israelense. Eles também não gostam de ver consumidores palestinos fazendo fila para comprar alimentos e mercadorias de melhor qualidade oferecidos a preços competitivos. As autoridades da FATAH preferem ver seu povo desempregado ou pagar mais caro no mercado palestino do que fazer as compras em um shopping center de propriedade de um judeu.
Em vez de comemorar a inauguração do shopping que oferece oportunidades de emprego a dezenas de palestinos além de praticar preços mais baixos, as autoridades da FATAH veem nisso um plano israelense para "debilitar" a economia palestina. "Foi um dia triste para Jerusalém", realçou Hatem Abdel Qader Eid, funcionário de alto calibre da FATAH, ao se referir à inauguração do novo shopping. "Este projeto visa minar o comércio árabe em Jerusalém e subordiná-lo à economia israelense."
As centenas de palestinos que se acotovelavam no novo shopping no dia da inauguração, no entanto, ao que tudo indica, discordam da imagem sombria pintada por Abdel Qader Eid. O enorme número de pessoas que lá se aglomeravam, é sem sombra de dúvida positivo: mostra que os palestinos são clientes como em qualquer país do mundo que preferem produtos de melhor qualidade a preços mais baixos. Para eles, esse não foi um "dia triste", como disse o representante da FATAH, mas sim empolgante. Finalmente um shopping foi inaugurado perto da casa deles, oferecendo uma ampla gama de produtos a preços competitivos.
Não obstante, Abdel Qader Eid estava certo em relação a uma coisa: seu lamento com respeito à ausência de investidores e capital palestinos. "Os capitalistas palestinos são covardes", ressaltou ele. Os investidores palestinos, salientou Eid, bem que poderiam ter inibido Rami Levy de construir o novo shopping se eles tivessem investido na construção de um shopping palestino. "É verdade que há empresários palestinos com muito dinheiro. Mas apesar de serem muito ricos, são medíocres quando se trata de disposição e formação".
Lamentavelmente o representante da FATAH está dizendo que os empresários palestinos não botam fé no povo, preferindo investir seu dinheiro em outro lugar.
Osama Qawassmeh, outro cacique da FATAH, foi ainda mais eloquente quanto ao incitamento. Ele advertiu que qualquer palestino que faça compras ou alugue algum espaço no novo shopping será acusado de "trair a terra natal". Ele continuou com a velha ladainha das calúnias palestinas, segundo as quais, comprar produtos israelenses é um ato de "apoio aos assentamentos e ao exército israelense".
O incitamento da FATAH contra o novo shopping center não caiu no vazio. No dia em que o shopping foi inaugurado, palestinos lançaram um sem-número de bombas incendiárias no complexo, forçando os compradores (palestinos) a fugirem para salvar a própria pele. Por sorte ninguém ficou ferido, nem houve prejuízos materiais às lojas ou veículos que se encontravam no estacionamento.
A campanha de incitamento contra o shopping de Levy começou há vários meses, quando ainda estava em fase de construção, continuando até hoje. Já que a campanha deu com os burros n'água não conseguindo impedir a abertura do shopping, a FATAH e seus seguidores apelaram para ameaças e violência. As ameaças estão sendo dirigidas a consumidores e comerciantes palestinos que alugaram algum espaço no novo shopping. Os vândalos que atacaram o shopping com bombas incendiárias poderiam ter ferido ou matado palestinos. Os vândalos, que segundo consta são afiliados à FATAH, preferem que seu povo morra do que deixar que se divirtam ou comprem produtos a preços atraentes em um shopping israelense.
Ao liderar a campanha de incitamento e intimidação, a FATAH de Abbas está mais uma vez mostrando a sua verdadeira cara. Como é possível imaginar que Abbas ou algum de seus subordinados da FATAH venham algum dia a fazer a paz com Israel, quando não conseguem sequer tolerar a ideia de palestinos e judeus trabalharem juntos para o simples bem comum?
Se um palestino que compra leite israelense é considerado traidor aos olhos da FATAH, não é difícil imaginar o destino de qualquer palestino que ouse ponderar sobre um entendimento com Israel. Se ele tiver sorte, terá um encontro íntimo com uma bomba incendiária. Se ele não tiver sorte, será enforcado em praça pública. Como isso se reflete na disposição palestina de participar de um processo de paz com Israel?

Bassam Tawil, árabe muçulmano, radicado no Oriente Médio.
Tradução: Joseph Skilnik

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Hezbollah na Tríplice Fronteira - O Bazar da Mentira

O grupo terrorista libanês mantêm suas conexões na fronteira argentino-brasileiro-paraguaia. Desde lá, seus agentes lavam dinheiro, traficam cocaína e enviam recursos às organizações de apoio. 
Um encontro com o homem considerado o máximo agente do Hezbollah na América Latina em Ciudad del Este. 
O cruzamento com o narcotráfico. As manobras através dos cassinos.
por Gustavo Sierra

"¡Entre! ¡Veja! ¡Aqui não temos nada que ocultar!", grita o nervoso Mohammad Youssef Abdallah, enquanto sobe as escadas da Mesquita Verde dos xiitas de Ciudad del Este. Se move como o dono do lugar, que é. Também, como o "líder espiritual e comandante regional do Hezbollah", a qualificação que lhe da a justiça estadunidense. E - de acordo com acusação do assassinado fiscal Alberto Nisman -, um dos envolvidos no atentado contra a AMIA.
"¡Venha, venha!", insiste enquanto caminha dando voltas, e acomoda as pastilhas de Turbah - as cerâmicas redondas que os xiitas usam para rezar e colocam no chão onde tocam com a fronte ao prostrar-se -, fecha um exemplar do Corão e olha ao redor buscando ajuda. Chama a um dos homens que acaba de terminar sua reza e lhe diz algo em árabe. Tenta convence-lo a que fale conosco. O homem, impertérrito, repete "não, não, não, não" e se vai. "Bueno", se resigna Abdallah, "eu vou te responder". Me tira o microfone da mão e não espera nenhuma pergunta. Começa a recitar em voz alta e com um forte acento de Médio Oriente em seu portuñol básico. "¿Quê vês aqui? ¿Vê algum terrorista? ¡Nós não somos terroristas! ¡Aqui não ocultamos nada!", diz olhando para todos lados como se temesse que alguém se acercasse para golpeá-lo. "¡Pergunte, pergunte, pergunte!", repete sem esperar nenhuma pergunta.
"Dizem que somos assim ou não sei como. Mas tu podes ver: somos gente de paz. Viemos aqui para rezar. Esta mesquita fui eu quem a fez. ¿Quê? ¿Financiamos o Hezbollah? Aqui não fazemos política. ¡Pergunte, pergunte, pergunte! ¿Acusados pela justiça de Estados Unidos? ¿Quê justiça é essa? ¡Inventam tudo! Nós estamos aqui já faz 40 anos. Eu construí esta mesquita. Hezbollah está no Médio Oriente. Não aqui. ¿Quê? ¿Lavamos dinheiro para Hezbollah? Todas acusações falsas. ¡Sim, há vários integrantes de nossa comunidade presos! Porém são todas acusações falsas. Sim, o mesmo que isso do atentado da AMIA. Outra mentira … Agora, me vou. ¡Filme o que quiser!".
Abdallah desaparece. É pequeno e, apesar de seus 66 anos se move com agilidade. Só se escuta o ruído dele descendo as escadas "chancleteando" (NT: ruído ao caminhar usando galochas)  com velocidade. Nos deixa no silêncio desta simples mesquita situada dentro de um edifício de 19 pisos na Rua Boquerón, no lado paraguaio da Tríplice Fronteira.

Mohammad Youssef Abdallah, líder da Mesquita Verde de Ciudad del Este. Segundo a justiça estadunidense, também é Comandante regional do Hezbollah e arrecadador do grupo terrorista na região (Lihueel Althabe)
Há três homens rezando, que olham surpresos mas não parecem preocupados em serem filmados. A galeria superior, a das mulheres, está vazia. Descendo pela escada está o setor da ablução, onde os fiéis se lavam antes de rezar. Mais adiante os sapatos, todos acomodados como em uma sapataria antiga. Ninguém pode pisar o tapete da mesquita se não estiver descalço. A saída é por uma galeria que transporta de imediato ao clima de uma viela da cidade antiga de Jerusalém, Bagdá ou Beirute. Uma barbearia com dois grandes televisores onde cantam e bailam artistas libanesas, um local com vitrais cobertos que parece uma "caverna" de transações financeiras e o restaurante "Mezquita", considerado como o mais autêntico dos de comida árabe desta segunda cidade paraguaia. Comemos um kibe cozido de carne picada e trigo burgol enquanto ao nosso redor vários homens tomam café com rolinhos doces de baklava e soltam fumaça dos narguiles. As mulheres só passam com seus filhos para tomar o elevador que as leva até seus apartamentos. De todos modos, o dia já terminava. São apenas quatro da tarde, mas nesse incrível e sofisticado "mercado persa" de Ciudad del Este se trabalha desde o amanhecer e pelo meio da tarde as ruas ficam desertas, cobertas de papelão e lixo.
Enquanto avançávamos entre essa rede de vendedores, aparatos de altíssima tecnologia, a maior variedade imaginável de garrafas térmicas para mate ou tereré e painéis de LED como em Times Square, perguntar pelas atividades de Abdallah e sua mesquita é inútil. Todos fazem cara de bobo, sorriem e perguntam se gostamos da comida árabe.
O informe do Departamento do Tesouro estadunidense – Ato de Prevenção do Financiamento Internacional do Hezbollah, 2015/2016 - diz que Abdallah é o principal arrecadador do grupo terrorista na região. Possui dezenas de propriedades e comércios em Ciudad del Este. Seu domicilio legal está na avenida Presidente Kubitscheck de Foz do Iguaçu, cruzando a Ponte da Amizade sobre o rio Paraná. Nasceu em junho de 1952 no povoado de Khalia do Líbano. Tem dupla nacionalidade paraguaio-libanesa. Está casado e tem dois filhos e uma filha que vivem em Foz e trabalham, como ele, em Ciudad del Este. É um contribuinte permanente de fundos para as associações de beneficência que o Hezbollah controla para manter as famílias de menores recursos do sul do Líbano e o Vale do Bekaa. Através da agência Piloto Turismo teria facilitado passaportes falsos e uma base de comunicações para os agentes libaneses que em 1994 colocaram a bomba na AMIA. Também, de acordo com o Departamento do Tesouro, foi o organizador de uma reunião de alto nível que se realizou em 2004 em Foz com arrecadadores do grupo terrorista libanês de toda América Latina. Viaja frequentemente a Beirute onde se registraram vários encontros com os líderes mais importantes do Hezbollah.

Abdallah também é o dono da Galeria Uniamérica (ex Pagé) assinalada como o centro das atividades dos agentes do Partido de Deus libanês por vinte anos. Hoje, o lugar é só mais uma das muitas espeluncas desse enorme mercado ao ar livre integrado por shoppings de primeira qualidade, como as tendas Paris, Mona Lisa e China, até os milhares de postos armados nas veredas com lonas e suportes de cano. O nome na entrada está bastante descascado. E ao olharmos para cima só vemos quatro pisos de chapas enferrujadas e janelas em ruínas. Vários locais vendem tabaco aromático para fumar com cachimbo de água. Não faltam os comércios de celulares e outros eletrônicos de duvidosa procedência. Os donos dos locais são todos libaneses que falam espanhol com um forte sotaque. Alguns são muito amáveis e até convidam o cliente com um café. O edifício é uma construção muito elementar de três pisos. Ao final do segundo piso há outra saída para a rua. Esse é o caminho que percorrem, ao menos uma vez ao dia, milhares destes comerciantes muçulmanos xiitas para chegar até a mesquita do Profeta Mohammed, duas quadras adiante. Em geral, as outras quatro rezas são feitas em seus próprios negócios. Os sunitas vão a outra mesquita situada a umas quinze quadras, a de Alkhaulafa Al-Rashdeen, na avenida Alejo Garcia. Um domo branco imponente de 18 metros de altura e dois minaretes. O sheik Mohamed Khalid está em seu outro trabalho. Atende sua loja no Shebai Center. É só mais uma das milhares de lojas de vendas de celulares.
Quando conseguimos contornar os turistas brasileiros e argentinos em busca de ofertas, perguntamos pelo Sheik a uma das vendedoras. Khalid sai irritado de seu diminuto escritório para nos dizer que não podia nos atender por falta de tempo e só quer deixar claro que "somos sunitas, não xiitas, e não temos nada que ver com terrorismo". A divisão da comunidade está clara.
A mesquita sunita é a mais imponente de Ciudad del Este. Ali se esforçam por destacar que não tem nada que ver com os xiitas e o terrorismo
Ninguém quer parecer ligado aos personagens que nos últimos meses foram detidos na Tríplice Fronteira conectados com o financiamento do Hezbollah, a lavagem de dinheiro, o contrabando e o narcotráfico. Assad Ahmad Barakat, considerado o maior arrecadador do grupo terrorista na América Latina, esteve fugitivo por quase uma década até que a Polícia de Foz o deteve em 21 de setembro de 2018 a pedido da justiça paraguaia. Formalmente, é acusado de falsificação de passaporte. Mas há muito mais. Em 2004, o Departamento do Tesouro o incluiu na lista de financiadores do terrorismo. "É capaz de por em prática todas as manobras de crimes financeiros que já pudemos detetar", foi a conclusão naquela ocasião de um dos funcionários do edifício vizinho à Casa Branca, em Washington. Na única entrevista que deu, Assad Barakat admitiu ante um repórter da Associated Press em 2001 que era um "simpatizante e contribuinte" do Hezbollah. Emanuele Ottolenghi da Fundação para Defesa das Democracias, um dos maiores especialistas internacionais nas atividades da organização libanesa, assegura que Barakat "é o líder do clã que inclui dezenas de familiares com os quais operou durante anos a nível internacional triangulando remessas desde a Tríplice Fronteira para o Líbano apesar das sanções que pesavam contra ele".
O prestigiado Centro Simon Wiesenthal ficou satisfeito com a detenção de Barakat. "Temos monitorado as atividades terroristas na Tríplice Fronteira há 20 anos. Esta detenção é um sinal de que os três países começaram a trabalhar para erradicar o Hezbollah da América Latina". Assad Barakat está encarcerado no Brasil esperando a extradição ao Paraguai ou diretamente a Nova York onde é responsabilizado em vários casos por lavagem de dinheiro. Assad nasceu em 1967 no sul do Líbano. Depois de perder um irmão e vários outros parentes na guerra civil naquele país emigrou para o Paraguai em 1985. Logo apareceu à frente de varias companhias de importação e exportaçãoApollo, Mondial Constructions – junto a seus irmãos Hatem e Hamzi que operavam na Tríplice Fronteira e na zona franca de Arica, no Chile. Na época viajava com regularidade a Beirute e Teerã para levar dinheiro e manter reuniões com Hassan Nasrrallah, o principal líder do Hezbollah. Nessas viagens teria passado informações vitais para os comandos que depois atacaram a AMIA. Em 2001 foi acusado no Paraguai por evasão de impostos e associação criminosa. Em junho de 2002 foi preso em Foz e extraditado para Assunção onde cumpriu uma sentença de seis anos e meio. Em 2009 regressou ao Brasil de onde continuou operando nas sombras até sua nova detenção. 
Assad Ahmad Barakat foi preso em 21 de setembro de 2018. É investigado por lavagem de dinheiro, contrabando, narcotráfico e inúmeras manobras financeiras para financiar o Hezbollah.

Um de seus sócios é Sobhi Mahmoud Fayad, que chegou a Ciudad del Este vindo do Líbano em meados da década de 90. A policia paraguaia o prendeu em 1999 quando realizava uma tarefa de vigilância frente à embaixada dos Estados Unidos em Assunção. Era membro de uma rede que planejava um atentado. Ele cooperou na investigação e deu dados substanciais nos interrogatórios dos agentes da CIA. Ele foi liberado um ano mais tarde. Depois se descobriu que Fayad enviou ao menos 3,5 milhões de dólares à Organização de Mártires do Hezbollah (al-Shahid), pelo que recebeu uma carta de agradecimento do comandante supremo Sayyed Hassan Nasrallah.
O Departamento Antiterrorista da Policia Nacional paraguaia (DAT) acredita que Sobhi Fayad, Assad Barakat e Ali Hassan Abdallah foram os três principais captadores de fundos do Hezbollah designados para a região. O Comitê contra o Terrorismo das Nações Unidas divulgou um informe indicando que o clã arrecada mais de 200 milhões de dólares ao ano para enviar a Beirute.
Outro personagem importante do clã foi Ali Khalil Mehri, um libanês naturalizado paraguaio, residente em Ciudad del Este. Mehri foi acusado pela policia paraguaia de vender milhões de dólares em software falsificado e canalizar os ganhos para o Hezbollah e suas organizações paralelas al-Muqawama e al-Shahid. Também produziu varias películas de propaganda para o Partido de Deus. Mehri fugiu em 2000 e se acredita que morreu 15 anos mais tarde na guerra civil síria enquanto comandava um grupo de assalto do Hezbollah.
Outro Barakat, Mahmoud Ali, foi extraditado pela justiça paraguaia aos Estados Unidos em novembro de 2018. Está acusado de lavagem de dinheiro do narcotráfico. E de transferir parte desses fundos a contas em um paraíso fiscal do Caribe relacionadas com o Hezbollah. Foi detido em 25 de junho em sua casa no segundo piso do edifício Líder 4, na rua Estrella quase esquina com O'Leary, de Assunção. Na mesma operação também caiu Nader Mohamad Farhat, sócio deste Barakat, que manejava as transferências através das sucursais da casa de cambio Unique S.A.
em Ciudad del Este, da qual era dono junto a sua esposa taiwanesa Wu Pei Yu. O fiscal Marcelo Pecci, da Unidade de Luta contra o Crime Organizado paraguaia, acredita que esses homens formavam parte de uma rede mais ampla por meio da qual enviavam drogas e recursos ilícitos à Europa e Oriente Médio. Eles teriam realizado operações superiores a 1.300 milhões de dólares. De acordo com uma fonte judicial paraguaia, sua extradição a Miami – onde é buscado por narcotráfico - está sofrendo forte resistência da Embaixada libanesa em Assunção. "Evidentemente, é um homem com contatos poderosos no Líbano", comenta.
Mahmoud Ali Barakat, extraditado em novembro passado aos EUA onde será julgado por lavar dinheiro do narcotráfico e transferir o dinheiro a uma conta do Hezbollah no  Caribe (Ministério Público do Paraguai)
Em agosto de 2018, se descobriu outra manobra do Clã Barakat e sua colaboração com o Hezbollah: a lavagem de dinheiro através dos cassinos de Porto Iguaçu, no lado argentino. Desta vez era Hassan Ali Barakat, sobrinho de Assad, que trocou fichas no valor de 3.750.000 dólares e introduziu o valor no sistema bancário brasileiro sem o declarar ao fisco. Ele cruzou as fronteiras 620 vezes entre 1º de janeiro de 2015 e 19 de outubro de 2017, incluindo 332 entradas na Argentina. Houve ocasiones em que viajou até três vezes em um dia a Porto Iguaçu. Em geral, era acompanhado por seu irmão Hussein. Ao detetar a manobra, a Unidade de Inteligência Financeira da Argentina (UFI) emitiu um alerta a 50 bancos, casas de câmbio, cassinos e financeiras de todo o mundo onde haviam circulado "ativos relacionados com o crime organizado ou o financiamento do terrorismo" deste grupo. Foram detidas 14 pessoas, todas de origem libanesa. Três com dupla nacionalidade paraguaia e o resto brasileiros.
Dois meses antes, em junho de 2018, foi desbaratada outra grande operação dos Barakat pela qual pretendiam apoderar-se do estratégico aeroporto municipal de Capitão Bado, em território paraguaio e bem próximo da fronteira com o Brasil. Em uma manobra fraudulenta, o Instituto Nacional de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert) do Paraguai cedeu o imóvel por apenas 5 milhões de Guaranis (menos de 1.000 dólares) a Alí Hatem Barakat, um jovem de 24 anos, sobrinho de Assad Barakat. Na manobra esteve implicado o então presidente do Indert, Luis Ortigoza, que entregou os nove hectares onde se encontra a pista de 1.100 metros,  pavimentada com cascalho, onde podem aterrissar aviões de pequeno porte como os que diariamente transportam cocaína da Bolívia para Argentina e Brasil. O imóvel está situado a metros da fronteira seca paraguaio-brasileira e junto a estrada que une Capitão Bado à cidade de Pedro Juan Caballero. Segundo os dados do caso, Alí Hatem Barakat nasceu em Ciudad del Este em 13 de janeiro de 1990. Na solicitação de compra do lote CH-92 se declarou "agricultor com cinco anos de ocupação do imóvel". Mas em seu perfil no Facebook assegura que reside em Santiago de Chile e viaja permanentemente a Foz do Iguaçu. Pelas fotos se pode ver que Alí Hatem leva uma vida muito melhor que a de um pequeno agricultor. É filho de Hatem Barakat, irmão de Assad, que vive atualmente em Iquique, Chile, onde se dedica ao comercio na zona franca dessa cidade. Segundo o portal da embaixada estadunidense em Assunção, Hatem foi investigado pela Interpol de Buenos Aires por sua vinculação com células do Hezbollah. Um terceiro irmão, Hamze Ahmad Barakat, também comerciante que integrava a sociedade que ia ficar com o aeroporto, foi detido em maio passado em Curitiba, Brasil, acusado de perpetrar uma fraude milionária.

Apesar das evidencias, a comunidade xiita assegura que tudo é uma manobra para desprestigia-los. "Isso é o que fazem habitualmente com a gente da Tríplice Fronteira para vincula-la ao Hezbollah e montar a imagem de que há tráfico de drogas, de que há lavagem de dinheiro e que se ajuda o Hezbollah com as finanças. Isso é irreal e falso", diz Galeb Moussa, um jornalista de origem libanesa correspondente do serviço em espanhol da rede iraniana HispanTV e vinculado à mesquita xiita do bairro de Flores em Buenos Aires. A especialista em segurança e inteligência venezuelano-estadunidense, Vanessa Newmann, coloca isso em contexto: "Na Tríplice Fronteira todo está misturado. A maioria da comunidade libanesa nos três países faz negócios, alguns lícitos e outros nem tanto. Mas entre eles há outros comerciantes que mantém suas conexões com o Hezbollah e estão fortemente comprometidos através de suas famílias. Fazem negócios um pouco para eles e outro pouco para o Partido de Deus que protege a seus parentes no Líbano. E a isto há que somar alguns agentes operativos diretamente relacionados com o grupo terrorista".
A mesquita xiita Husseiniyya Iman Al-Khomeini de Foz do Iguaçu permaneceu fechada na semana em que estivemos na zona. O sheik Khalid está viajando, me informa seu filho Mortadha. Foi visitar seus colegas de Curitiba e São Paulo. Ali há uma ampla comunidade árabe xiita. Em todo Brasil há uns oito milhões de libaneses e seus descendentes. Como no resto do mundo, 80% são sunitas e uns 15% xiitas. Ninguém quer falar dos Barakat ou do Hezbollah. "Para nós é um tema com o qual não temos nada que ver", diz uma pessoa que me responde do outro lado do interfone e que não quer informar seu nome. Na outra mesquita sunita de Omar Ibn Al-Khattab, na rua Meca de Foz, Mohamed Beha Rahal, presidente do Centro de Beneficência Muçulmana
nos recebe. "Somos mais ou menos 20.000 libaneses aqui em Foz, quase 10% do total da população. E somos brasileiros. Estamos aqui desde 1949 quando tudo isto era uma enorme selva", explica com voz amável em seu melhor portuñol. "Eu respondo por minha comunidade sunita. E tenho a certeza de que nenhum de nós está envolvido com nada que tenha que ver com o terrorismo. … Eles que respondam por si mesmos. Eu não posso responder por eles", agrega. Aqui também se sente a cisão e o rancor pelos que operam para o Hezbollah. E o jornalista Ali Farhat, chega a atribuir essa má imagem ao presidente eleito Jair Bolsonaro que ganhou em Foz com 56% dos votos. "Se aproveitou do assunto. Usou como propaganda. Disse que estava ameaçado pelo Hezbollah. E todo mundo sabe que isso é mentira", diz com voz firme e atitude aborrecida.
O sol vai caindo e o Paraná parece dourado desde o marco que assinala esta frágil fronteira. Um barquinho vai de uma margem à outra em apenas cinco minutos. A Ponte da Amizade adquire uma calma momentânea que se romperá em apenas umas horas. Será quando dezenas de milhares de pessoas voltem a cruzar desde Foz para Ciudad del Este antes do amanhecer e em sentido contrario ao meio da tarde. E entre eles, camuflados, agachados, disfarçados entre a maré de comerciantes, carregadores, compradores e curiosos, os agentes do Hezbollah dispostos a encontrar alguma nova brecha para lavar dinheiro, envia-los aos combatentes de Beirute ou preparar toda a infraestrutura para o momento que se decida atacar.
Fonte:  tradução livre de InfoBae-América
COMENTO: de tempos em tempos, surgem publicações como esta, citando locais e personagens da Tríplice Fronteira suspeitos de ligação com o terrorismo internacional. Tenho a suspeita de que os serviços de Inteligência com interesse no assunto incentivam essas publicações para que autoridades dos três países citados investiguem as supostas atividades suspeitas. 
Por outro lado, o cuidado com nossas fronteiras deve ter um destaque nos planos do novo governo. Não podemos continuar nessa situação de enormes deficiências no controle da entrada de estrangeiros por nossas extensas fronteiras, assunto já tratado aqui
Em 13 de maio de 2014, a coluna do jornalista Claudio Humberto, publicou uma nota preocupante. Segundo ele, o Itamaraty, emitiu a circular telegráfica nº 94443/375, de 7 de maio daquele ano, instruindo embaixadas e consulados a darem vistos – sem consulta prévia ao Brasil – para nacionais do Afeganistão, Irã, Iraque, Jordânia, Líbano, Líbia, Palestina, Paquistão e Síria, regiões tomadas por grupos terroristas.
Essa decisão irresponsável do Itamaraty, que afeta a crítica área de segurança, é agravada pela falta de estrutura e pessoal qualificado nas embaixadas e consulados, que se valem de contratados locais para analisar os pedidos de vistos.
Há quem afirme que esse ingresso aparentemente desorganizado de haitianos e naturais do denominado "Mundo Islâmico", somados aos cubanos do "mais médicos" - programa já extinto mas cujo efetivo foi denunciado estar infiltrado por muitos médicos militares com experiência de combate na África -, colombianos ligados à narcoguerrilha e paraguaios do mesmo naipe, na realidade serve para uma muito bem organizada invasão de "cumpanhêrus" revolucionários.
Quero destacar que nada há aqui contra os seguidores do Islã, somente usei o termo "Mundo Islâmico" para referir geograficamente os nacionais cujo ingresso no Brasil foi facilitado de forma inusual
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Felizmente, temos passado incólumes, em termos de terrorismo internacional, por grandes eventos mundiais como os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Encontro Mundial da Juventude Católica de 2013, a Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016 além da posse do novo Presidente da República no último dia 1º de janeiro. A atuação "suspeita" de agentes iranianos no Cone Sul não é novidade. Após muitos anos de protelações, ressurge periodicamente a denúncia de "acordo" entre os governos iraniano e argentino para "abafar o caso" AMIA. Será que continuaremos tendo a sorte de não sermos vítimas de atentados terroristas em função de "todos amarem o Brasil" (e servirmos de base de refúgio para bandidos de todos os naipes, inclusive terroristas procurados na Europa e Oriente Médio, que para cá se dirigem até "baixar a poeira")? Ou podemos confiar em nossos dispositivos de segurança?
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