sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Os Expedicionários Brasileiros na Segunda Guerra Mundial

por Ricardo Westin
O Brasil se prepara para comemorar o 81º aniversário de uma das maiores façanhas militares de sua história. Em 21 de fevereiro de 1945 — uma quarta-feira gélida do inverno europeu — os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB), auxiliados por caças da Força Aérea, tomaram Monte Castelo, no norte da Itália.
Soldado brasileiro em ofensiva a Monte Castelo
(foto: Reprodução/Ministério da Defesa)
Fazia meses que a montanha estava ocupada pelas tropas de Adolf Hitler. As quatro tentativas anteriores de expulsar os inimigos haviam fracassado. Dois meses depois da tomada de Monte Castelo, a Alemanha nazista se renderia, pondo fim à Segunda Guerra Mundial na Europa. O Japão ainda prolongaria a guerra na Ásia.
Documentos da época guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que as proezas dos combatentes brasileiros — mais conhecidos como pracinhas ou expedicionários — imediatamente viraram motivo de orgulho nacional. Em fevereiro de 1946, a Assembleia Nacional Constituinte dedicou uma de suas primeiras sessões aos veteranos da guerra. O deputado constituinte Claudino Silva (PCB-RJ) discursou:
— Esses heróis da pátria, filhos do povo, selaram com seu sangue nossa aspiração de sepultar para sempre os horrores do fascismo. Evocamos, por isso, com orgulho patriótico nossos brilhantes feitos contra as armas hitleristas, quer em Monte Castelo, Castelnuovo, Montese ou Zocca — celebrou ele, citando outras batalhas em que os brasileiros tomaram parte.
Na mesma sessão, o deputado Flores da Cunha (UDN-RS) contou ter chorado numa palestra em que um oficial da FEB narrou com detalhes a tomada daquele reduto nazista:
Capa do jornal O Cruzeiro do Sul
(imagem: Biblioteca Nacional)
— O primeiro assalto a Monte Castelo fracassou, mas, renovado no dia seguinte, ou daí a alguns dias, quando a nossa tropa galgou o cume da montanha, foram encontrados pela encosta acima os cadáveres de oito ou dez brasileiros que até lá haviam chegado na primeira investida. Quando ouvi essa narrativa, experimentei emoção até as lágrimas. O homem brasileiro, em qualquer latitude, é sempre um bravo!
A participação do Brasil na guerra mais sangrenta de todos os tempos permaneceu no imaginário dos brasileiros por muitos anos. Em 1959, o senador Caiado de Castro (PTB-DF) lembrou de sua própria atuação na Itália, como coronel, comandando os ataques a Monte Castelo.
— Foi o meu regimento, o glorioso Regimento Sampaio, aquele que maiores baixas sofreu durante a guerra. No primeiro assalto a Monte Castelo, perdeu 33% do seu efetivo e continuou na luta. No Exército francês, a perda de 10% era considerada grande, determinando, não raro, a retirada do contingente em operações. Do meu regimento, baixaram aos hospitais da Itália 1.150 homens feridos por bala. Dos [457] mortos da FEB, 188 a ele pertenciam, além de 98 mutilados.
O presidente Getúlio Vargas enviou para a campanha da Itália 25 mil combatentes, que foram divididos em cinco grupos para atravessar o Atlântico e o Mediterrâneo. O primeiro partiu do Rio de Janeiro em julho de 1944. Embora a FEB tenha permanecido na Itália por pouco mais de um ano, até setembro de 1945, os expedicionários estiveram nos campos de batalha propriamente ditos ao longo de oito meses, de setembro de 1944 a abril de 1945.
Como não tinha nenhuma experiência de guerra, a FEB atuou na campanha da Itália sob o treinamento e o comando dos Estados Unidos. Apesar de o protagonismo ter sido dos brasileiros, os norte-americanos também participaram da conquista de Monte Castelo.
A vitória foi importante porque os brasileiros e os norte-americanos estavam parados naquela posição havia três meses, sem conseguir avançar, o que dava liberdade de ação aos alemães em praticamente toda a região italiana localizada ao norte do monte.
Soldados da FEB saudados por moradores de Massarosa
(foto: Reprodução/Wikimedia Commons)
Em 1943, quando o líder fascista Benito Mussolini foi deposto, a Itália abandonou os nazistas e passou para o lado dos Aliados (Grã-Bretanha, França, União Soviética e Estados Unidos). Hitler, em reação, invadiu o novo inimigo.
Os Aliados, então, agiram para livrar os italianos do jugo nazista, avançando do sul para o norte. Quando os brasileiros chegaram para engrossar a frente aliada, Roma já estava livre. Os expedicionários lutaram no norte, buscando empurrar os alemães para fora do país.
A FEB libertou em torno de 50 localidades italianas. A última a ser tomada dos nazistas, em 29 de abril, foi a pequena Fornovo di Taro, onde nada menos que 15 mil soldados inimigos se entregaram aos brasileiros. A Alemanha se renderia incondicionalmente aos aliados em 7 de maio.
O Brasil foi o único país da América Latina a combater na Europa. O México também se envolveu na Segunda Guerra Mundial, mas seus soldados lutaram nas Filipinas.
Vídeo conta a história da FEB, desde a criação até o retorno ao Brasil
Os papéis históricos do Arquivo do Senado, no entanto, revelam que, apesar de todo o heroísmo, os expedicionários foram praticamente esquecidos e abandonados pelo governo brasileiro assim que a Segunda Guerra Mundial terminou.
Em 1958, passados 13 anos do fim da guerra, Caiado de Castro denunciou aos colegas senadores:
— Inúmeros ex-combatentes me procuram diariamente em minha residência, no Senado e na sede do partido a que pertenço solicitando amparo, porque continuam passando necessidade, sem poderem angariar os meios de subsistência para suas famílias. Deles tenho recebido vários pedidos, até de modestos empregos, como o de gari da limpeza pública. Nesse sentido, tenho me dirigido ao prefeito do Distrito Federal [hoje cidade do Rio de Janeiro (RJ)]. Sei que me torno imprudente com as constantes solicitações, mas é a minha obrigação.
Vargas e seus sucessores na Presidência da República não se preocuparam em desenhar uma política pública consistente e abrangente para reincorporar os antigos combatentes à sociedade. Dos civis recrutados, muitos não encontraram trabalho quando regressaram para casa. Acreditava-se que eles não eram capazes nem confiáveis porque seguramente tinham "neurose" — o que hoje se conhece como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Além disso, o governo não concedeu imediatamente aos veteranos nenhuma pensão, ainda que tivessem ficado incapacitados em razão da tal "neurose" ou de alguma deficiência física adquirida nos campos de batalha, como um braço mutilado ou um olho cego.
Numa sessão da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, o deputado Caires de Brito (PCB-SP) resumiu:
— Os ex-combatentes se encontram verdadeiramente num estado de semiesquecimento.
O colega Flores da Cunha acrescentou:
— Não pretendo traçar diretrizes ao governo, mas lamento que até agora não se tenha procurado premiar aqueles que foram a terras estranhas para morrer pelo Brasil. Sei de uma infinidade de expedicionários jovens, alguns de 20 anos, outros de menos, que se acham em completo abandono pelos vários estados.
Soldados da Força Expedicionária Brasileira posam com seus armamentos e munição
(foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Em outra sessão da Constituinte, Claudino Silva deu exemplos concretos do descaso governamental:
— O ex-combatente Mondino Hamilton Ilha, tuberculoso, teve alta do Hospital Militar de Belém. Mas, como não estava curado, teve que recorrer a particulares para obter o seu internamento, já que lhe negavam as autoridades a assistência necessária. O ex-combatente Vespio Manelli, recolhido à enfermaria do Hospital Central do Exército [no Rio de Janeiro], foi transferido para o Pavilhão de Neuróticos e Psicopatas por ter reclamado da pouca assistência ministrada aos enfermos.
O deputado prosseguiu:
— O caso do soldado [Édson] Jatobá é o mais doloroso. Vive esse herói da pátria num leito do Hospital Central do Exército, com a espinha quebrada e a pele colada nos ossos, como um espectro fugido de um campo de concentração. Entrevistado por um jornalista, teve o soldado Jatobá a ideia de reclamar das tristes condições em que se encontra. O resultado é que um oficial, irritado com as declarações, teve a coragem de insultá-lo e castigá-lo, como se ainda vivêssemos nos tempos de Hitler e Mussolini.
Silva concluiu fazendo uma comparação:
— Em países democráticos e avançados, os ex-combatentes têm direitos líquidos e assegurados e todas as honrarias. Assim acontece na América do Norte, na Inglaterra, na União Soviética, na Iugoslávia, na França. Mas, entre nós, não há ainda uma legislação que ampare os ex-combatentes, e as poucas leis existentes são incompletas e, mesmo assim, não se aplicam.
Não foram só os ex-combatentes de origem civil que sofreram no regresso da guerra. Os militares de carreira também enfrentaram dificuldades. Apesar de terem o emprego garantido, eles foram boicotados pelos colegas que haviam permanecido no Brasil durante o conflito. Estes se sentiram enciumados diante dos expedicionários, que chegaram sendo tratados como heróis, recebendo honrarias e ganhando prioridade nas promoções. Em retaliação, procuraram dar-lhes os trabalhos mais enfadonhos e transferi-los para os quartéis mais remotos e desimportantes do território brasileiro.
Em 1960, uma decisão do prefeito do Distrito Federal, Sá Freire Alvim, provocou indignação generalizada. Os parlamentares locais aprovaram uma lei isentando do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) tanto os veteranos da Itália quanto os futebolistas que venceram a Copa do Mundo de 1958. O prefeito aceitou a isenção aos atletas, mas vetou o benefício aos soldados, sob o argumento de que a medida seria prejudicial para os cofres públicos.
Mensagem em que o presidente Getúlio Vargas pede ao Congresso que aprove a liberação de verbas para a construção de um mausoléu destinado a abrigar os restos mortais dos expedicionários mortos na Itália (Arquivo do Senado)
Com o intuito de oferecer ajuda material aos veteranos em dificuldades e pressionar o poder público a tomar medidas, os soldados criaram a Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, ainda em 1945, e o Clube dos Veteranos da Campanha da Itália (depois Associação Nacional dos Veteranos da FEB), em 1963. As organizações tinham unidades espalhadas em praticamente todo o território nacional. Elas ainda existem e, embora sem a capilaridade do passado, dedicam-se a preservar a memória dos soldados.
Em 1960, o senador e ex-combatente Caiado de Castro disse:
Getúlio Vargas visita soldados da FEB durante embarque para a Itália
(foto: Arquivo Nacional/Agência Nacional)
— Enfileirei-me entre esses homens e tenho o orgulho de dizer que eu, homem pobre que vive exclusivamente dos seus ordenados, durante mais de dez anos registrei 10% do que ganhava para sustentar os pracinhas. As Associações dos Ex-Combatentes de Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e outros estados devem atestar que constam de seus anais o que pude fazer por esses homens, dos praças aos oficiais, dando-lhes sanatórios para tuberculosos, casas, tudo comprado a prestação, em benefício dos meus companheiros.
Segundo ele, o Estado brasileiro só se preocupou com os expedicionários que morreram na Itália, garantindo às suas famílias diferentes pensões, e deixou os sobreviventes de lado. O senador arrematou:
— Lamento somente [por] aqueles que não tiveram a ventura de morrer na guerra e voltaram ao Brasil para sofrer, pois a maioria deles está passando grande miséria.
Ao contrário dos soldados, o comandante da FEB, general João Batista Mascarenhas da Moraes — que fora escolhido para esse posto diretamente pelo presidente Getúlio Vargas — recebeu todas as homenagens públicas possíveis de 1945 em diante. Ele, contudo, procurou usar essa influência para obter do governo benefícios para os expedicionários.
Em 1952, em sua segunda passagem pela Presidência da República, Vargas apresentou à Câmara um projeto de lei liberando as verbas necessárias para a construção de um mausoléu destinado a abrigar os restos mortais dos expedicionários que ainda estavam sepultados na Itália. Os deputados, porém, acharam melhor economizar e mudaram o projeto, prevendo a reforma do Monumento ao Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, para que nele fossem depositados os restos mortais.
Furioso, Mascarenhas enviou uma carta aos senadores:
General Mascaranhas De Moraes,
durante a campanha na Itália
(foto: U.S. National Archives/Wikimedia)
"Tendo a Comissão de Repatriamento, por diversas razões, de ordem histórica, militar, política e mesmo estética, decidido pela construção de novo monumento e tendo a Câmara dos Deputados alterado o espírito da mensagem presidencial, venho solicitar que seja restituída ao projeto a faculdade prevista na referida mensagem".
Os senadores atenderam ao ex-comandante da FEB, e o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, mais conhecido como Monumento aos Pracinhas, foi construído no Aterro da Glória, no Rio de Janeiro.
O senador Caiado de Castro não se deixou impressionar. Em tom de ironia, ele discursou:
— Está em construção o monumento aos heróis da FEB, que custará 300 milhões de cruzeiros. Servirá de abrigo aos namorados ou será o ponto onde irão esmolar os militares desprotegidos? Envergonho-me, senhores senadores, quando saio do Senado e encontro à porta um ex-soldado pedido 20 ou 30 cruzeiros para matar a fome.
Em 1960, as urnas dos mortos foram levadas do Cemitério de Pistoia, na Itália, para o novo mausoléu. O presidente Juscelino Kubitschek participou da cerimônia no Rio.
Apenas em 1967 o governo aprovou uma lei dizendo claramente quem eram os ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial e quais deles fariam jus a certos benefícios. Foram incluídos na lista os militares que ficaram no Brasil e, por exemplo, atuaram no monitoramento e na proteção da costa, ameaçada pelos submarinos nazistas.
Em 1988, a Constituição lhes concedeu novos direitos, como o aproveitamento no serviço público sem a necessidade de concurso e a prioridade na aquisição da casa própria. A Carta também estabeleceu que os veteranos passariam a receber uma pensão equivalente ao soldo de um segundo-tenente.
O historiador Daniel Mata Roque, um dos vice-presidentes da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, explica que o poder público, na realidade, criou inúmeras leis, inclusive estaduais e municipais, favorecendo os expedicionários.
— A legislação produzida foi grande, mas por vezes nasceu de forma desordenada e não chegou a ser aplicada. Muitos veteranos morreram sem saber que tinham esses direitos — afirma Roque. O livro A Legislação do Ex-Combatente, produzido no fim dos anos 1970 por um ex-combatente de guerra da Marinha, apontou a existência de quase 300 normas legais assinadas entre 1945 e 1978.
Cartaz produzido pelo DIP exaltando a
participação do Brasil na II GM
(Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Segundo o historiador, uma das razões para o governo não ter elaborado uma verdadeira política pública para os expedicionários é o tamanho proporcional do contingente. Na época da guerra, o Brasil tinha 41 milhões de habitantes. Os 25 mil integrantes da FEB representavam, portanto, apenas 0,06% da população brasileira.
— Países como os Estados Unidos, a União Soviética e a Polônia tiveram ministérios específicos que tratavam dos assuntos relativos aos ex-combatentes. Mas esses foram países que destacaram contingentes enormes para guerras. Os Estados Unidos, por exemplo, contabilizavam 16 milhões de ex-combatentes após o fim da Segunda Guerra Mundial. Com números bem mais modestos, os nossos expedicionários não conseguiram ter o mesmo reconhecimento do governo brasileiro.
Nos primeiros momentos dessa guerra, iniciada em 1939, tanto o Brasil quanto os Estados Unidos se mantiveram neutros. Em 1941, os norte-americanos entraram no conflito e pressionaram o Brasil a fazer o mesmo.
Vargas, porém, resistiu. O presidente flertou com os norte-americanos e os alemães simultaneamente, esperando deles dinheiro e tecnologia para modernizar as Forças Armadas e impulsionar a indústria pesada nacional.
Quem atendeu aos desejos de Vargas foram os Estados Unidos. Em 1941, um decreto presidencial estabeleceu a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), criada com fundos norte-americanos. No ano seguinte, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.
Também pesaram na decisão do presidente o torpedeamento de navios mercantes do Brasil por submarinos alemães e manifestações de rua em diferentes cidades, encabeçadas por entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE), para que o país agisse contra o imperialismo nazista.

Rendição de oficial alemão à FEB após a batalha de Fornovo di Taro
(foto: Reprodução/Wikimedia Commons)
A vitória dos brasileiros na Itália, de acordo com historiadores, teve influência na queda da ditadura do Estado Novo, em outubro de 1945. Vargas governava de forma autoritária desde 1937, quando deu um autogolpe de Estado, extinguiu a Câmara e o Senado e impôs uma Constituição nada democrática.
Vargas foi derrubado por militares, mas eles não pertenciam à FEB. O papel dos expedicionários na redemocratização do Brasil foi, na realidade, indireto e simbólico. O raciocínio é simples: seria incoerente o Brasil continuar com seu regime ditatorial depois de ter entrado numa guerra com o objetivo de derrotar as ditaduras nazifascistas e promover a democracia.
Sargento Oscar Cardoso Garcez, com prisioneiro alemão
(foto: Reprodução/Jornalismo de Guerra)
Diferentes parlamentares já na época faziam essa interpretação. Um deles, o deputado constituinte (e futuro senador) Juracy Magalhães (UDN-BA) disse em 1946:
— Os bravos soldados, aviadores e marinheiros do Brasil facilitaram o processo de recuperação democrática em nossa terra. Tivemos uma campanha eleitoral [para presidente da República], e o prélio das urnas afastou de nossa terra o regime que combatemos em terras alheias e possibilitou a vida desta Assembleia, que dará ao Brasil uma Constituição genuinamente democrática.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, Claudino Silva afirmou:
— Sem a derrota militar de Hitler, não era possível pensar-se na liquidação da ditadura brasileira. Compreendíamos que, ao declarar guerra ao Eixo e ao enviar os soldados expedicionários, o governo do Brasil dava os mais largos passos no caminho da democracia, pois estava tomando posição contra o fator internacional que criara o clima onde puderam medrar os regimes fascistas e as ditaduras, estava tomando posição contra Hitler e Mussolini, que eram, em realidade, os artífices máximos do Estado Novo.
Em 1947, como senador, Getúlio Vargas (PSD-RS) foi atiçado por seus adversários a explicar essa contradição de seu governo, o que gerou uma acalorada discussão no Senado.
— Eu me pergunto: por que lutamos nós? Por que o Brasil mandou seus heróis aos campos de batalha da Europa? — questionou o ex-ditador.
— Para defender a democracia, livrar o Brasil da ditadura e do Estado Novo e nele implantar a democracia — respondeu, provocativo, o senador Arthur Santos (UDN-PR).
— Não acredito que Vossa Excelência esteja enquadrado entre os acusadores do tempo em que se organizou a Força Expedicionária — devolveu, no mesmo tom, Vargas.
— Nós, os democratas, é que fomos os mais entusiastas defensores da colaboração do Brasil junto às nações que desejavam implantar no mundo o regime democrático. Não pode dizer que foi Vossa Excelência quem mandou a Força Expedicionária para combater na Europa o totalitarismo que ameaçava o mundo — reagiu Santos.
— Fui eu quem tomou a iniciativa — assegurou Vargas.
— Foi a nação brasileira, foram as tendências democráticas do nosso povo — insistiu Santos.
— Foi o povo e fui ao encontro dos seus desejos. Felizes os governos que sentem os desejos dos povos e que os atendem. Nunca me envergonhei de ter seguido a orientação do povo brasileiro — afirmou Vargas, usando toda a sua habilidade política para encerrar a discussão.
Criada no papel em 1943, a FEB precisou de um ano para se tornar realidade. A maior dificuldade do governo Vargas foi arregimentar os combatentes civis. As autoridades militares esperavam dispor de 100 mil soldados, a serem agrupados em três divisões militares. Os jovens não atenderam ao chamado, e o Brasil conseguiu criar uma única divisão, com 25 mil expedicionários.
O ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, não escondeu a decepção. Numa carta ao presidente Vargas, ele escreveu que sonhava ter uma tropa de elite composta de combatentes com "espírito cultivado" e "corpo sadio e forte" — isto é, gente branca, educada e oriunda das classes média e alta. Em vez disso, viu a FEB ser criada a partir da "massa analfabeta, inculta e desprotegida do povo".
Chegada de expedicionários ao Brasil, em agosto de 1945
(foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Num discurso em 1947, o senador Luís Carlos Prestes (PCB-DF) fez uma avaliação diferente:
— Nossos soldados na Itália demonstraram as qualidades do nosso povo. Desmentiram, assim, todos os pessimistas, esses senhores que procuravam uma explicação superficial para o nosso atraso nessa teoria anticientífica das raças, baseada num falso "antropologismo". Nossos caboclos provaram no solo da Itália sua grande capacidade de resistência física, de estoicismo, de lealdade, de bravura, de coragem.
Muitos dos expedicionários não gostavam de ser chamados de "pracinhas". O praça, no jargão militar, é o soldado raso e sem qualificação. Para eles, o diminutivo dava uma carga ainda mais negativa à palavra. Os detratores da FEB por muito tempo espalharam que os enviados à Itália eram um grupo de desdentados maltrapilhos que estavam despreparados para o combate, serviram de bucha de canhão e, tendo chegado apenas nos meses finais, não fizeram diferença na guerra.
O historiador Francisco Cesar Ferraz, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e autor do livro A Guerra que não Acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira, discorda dessa descrição:
— Eles foram para uma luta de vida ou morte num ambiente desconhecido e extremamente hostil, ora com calor escaldante, ora com temperaturas caindo a -20ºC. Foram corajosos, libertaram inúmeras cidades dos nazistas e capturaram, ao todo, mais de 20 mil inimigos. Para uma força composta de 25 mil homens, esse não é um feito nada desprezível. É com razão que muitos deles rechaçavam a palavra "pracinha", pois remetia a uma situação de inferioridade que não correspondia à realidade.
Chegada de expedicionários ao Brasil, em agosto de 1945
(foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
O escritor Rubem Braga foi enviado à Itália pelo jornal Diário Carioca para acompanhar as ações da FEB. Numa reportagem escrita no primeiro dia de 1945, o correspondente de guerra narrou o tenso momento em que uma patrulha de expedicionários brasileiros por pouco não foi capturada ou morta por soldados nazistas:
Aconteceu que saiu uma patrulha com dois sargentos, nove soldados e um partigiano. A certa altura ela se dividiu em dois grupos. O sargento José Rodrigues de Oliveira Ribeiro, que chefiava um deles, viu uma casa onde supunha que houvesse alemães. Deixou três homens esperando atrás de um barranco e avançou cautelosamente com o soldado Érico Domingos Porto. Os dois homens andavam a certa distância um do outro — os dois metidos em seus capotes brancos com capuzes brancos. O sargento ia andando com todo cuidado quando viu um soldado a alguns metros de distância. Teve a impressão de que o soldado ia lhe dizer alguma coisa, e, levando um dedo à boca e franzindo a sobrancelha, fez um gesto para que ele não dissesse nada, ficasse em silêncio, para não despertar a atenção do inimigo que devia estar dentro da casa. O soldado fez um gesto que sim com a cabeça e acrescentou baixinho:
— Ya, ya.*
No mesmo instante quase, voltando-se, esse soldado viu Érico e apontou para ele o fuzil. Não teve tempo, porém, de puxar o gatilho: o sargento derrubou-o com uma rajada de metralhadora de mão.
O caso não foi difícil de explicar. Como os alemães também andam encapotados e encapuzados de branco, o engano foi mútuo. Assim como o sargento pensou que o soldado fosse brasileiro, o soldado alemão pensou que o sargento Ribeiro fosse alemão — mesmo porque ele é um homem de tipo sanguíneo e claro. No instante, porém, em que viu o praça Erico — moreno e franzino —, o alemão viu que era inimigo e apontou o fuzil. Mas, nesse segundo, o seu "ya, ya" já havia revelado sua nacionalidade ao sargento.
Foi, de resto, uma patrulha feliz: o sargento matou mais um alemão que ia lhe lançando uma granada e o soldado Érico acertou uma granada no peito de outro alemão que ia saindo da casa com um fuzil na mão. A casa foi atacada com rajadas de metralhadora e três granadas lança-rojão — duas das quais bateram na parede sem produzir efeito e a outra arrebentou a porta. O sargento Pedro Rubim e o soldado José Xavier dos Santos, do outro grupo em que se dividira a patrulha, derrubaram um alemão com rajadas de metralhadora. O homem caiu, não se sabe se morto ou ferido — e depois disso nossa patrulha se retirou. [...]
O soldado Érico, depois de sair na patrulha, notou que sua metralhadora estava engasgada — de fato falhou —, mas assim matou um tedesco [alemão]. Érico foi ferido na perna, mas recusou-se a ser carregado pelos companheiros, voltando à posição andando. Seu ferimento não tem gravidade.
*Ja, ja: "sim" em alemão
A FEB foi extinta no mesmo dia em que o primeiro grupo de expedicionários embarcou na Itália de volta para o Brasil, em julho de 1945.












Monumento ao soldado desconhecido, no Cemitério de Pistoia, na Itália; e Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro
(Giovanni Baldini/Wikimedia e Fernando Dall'Acqua/Wikimedia)
A rapidez se explica pela ebulição política que o país vivia naquele momento. Dados os ventos democráticos vindos da vitória na Europa, a ditadura do Estado Novo estava com os dias contados. Por essa razão, e buscando controlar a transição democrática, Vargas marcou eleição presidencial para dezembro.
O ditador, contudo, dava sinais de que poderia virar a mesa e dar um novo autogolpe de Estado. O principal sinal disso era o "queremismo", movimento político que pedia a sua permanência no governo (o slogan era "Nós queremos Getúlio").
Nesse ambiente instável, a FEB era uma ameaça para os dois lados. A oposição, que desejava a eleição presidencial e o fim da ditadura, temia que Vargas, vitorioso na guerra, empregasse os expedicionários no autogolpe. O presidente, por sua vez, acreditava que era a oposição que contaria com o apoio dos veteranos da Itália, já que eles, teoricamente, tinham aprendido a valorizar a democracia e atenderiam ao chamado para derrubar o ditador.
Supostamente perigosa tanto para o presidente quanto para os seus adversários, a FEB não encontrou quem lhe defendesse. Com uma simples canetada do governo, foi apagada, desaparecendo como se jamais tivesse existido.
O historiador Francisco Cesar Ferraz, da UEL, avalia que, se o apagamento foi forte nas primeiras décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, a situação piorou na década de 1980, com a redemocratização pós-ditadura militar. Nesse momento, os ex-combatentes passaram a ser malvistos pela sociedade. Ele explica:
— Confundiram-se os ex-combatentes com o grupo militar que deu o golpe de Estado em 1964, como se eles tivessem ajudado a impor a ditadura. Essa associação é equivocada. Havia expedicionários de todos os matizes políticos, e um ou outro participou individualmente do golpe, mas a FEB, como instituição, não tinha ideologia. Foi justamente na década de 1980 que ganharam força aquelas histórias que minimizavam e ridiculizavam a participação dos expedicionários na guerra.
Entre os ex-combatentes de direita, aparecem o general Humberto Castello Branco, que depois seria o primeiro presidente da ditadura, e o general Golbery do Couto e Silva, um dos nomes fortes do regime militar.
Dos ex-combatentes de esquerda, destacam-se o historiador Jacob Gorender, que fundaria o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), e o economista Celso Furtado, ministro do Planejamento e da Cultura e um dos principais estudiosos do subdesenvolvimento brasileiro.
Segundo Ferraz, a FEB começou a ser reconhecida apenas em meados de década de 1990, quando as tensões políticas que marcaram a redemocratização praticamente desapareceram. Isso se nota na quantidade crescente de pesquisas acadêmicas sobre o tema que vêm sendo feitas nas universidades.
Para ele, é fundamental que os brasileiros de hoje conheçam a participação dos expedicionários na Segunda Guerra Mundial. Primeiro, porque o alinhamento com os Estados Unidos e o consequente envio da FEB para a Itália foi um divisor de águas para o Brasil tanto em termos econômicos quanto culturais, com reflexos que se veem até hoje.
— Na economia, esse foi o momento em que o Brasil deu início à sua indústria pesada, a partir do financiamento norte-americano. O país, então, se industrializou e se urbanizou. Na cultura, foi o momento em que trocamos a influência francesa, que dominava a sociedade brasileira, pela influência norte-americana, com seu modo de vida consumista — diz.
Ferraz aponta uma segunda razão:
— Nestes dias atuais, em que a ditadura militar tem sido relativizada por muita gente, precisamos nos lembrar que houve um momento em que os brasileiros deixaram a polarização de lado e saíram às ruas para exigir que o governo entrasse na guerra para impedir o avanço das ditaduras fascistas e defender a democracia. Os simpatizantes do nazifascismo chegaram a espalhar fake news dizendo que os navios do Brasil não tinham sido afundados por submarinos da Alemanha, mas por navios dos Estados Unidos. Felizmente essas fake news não convenceram, e os brasileiros entenderam qual era o lado que o país deveria apoiar na guerra.
O historiador Daniel Mata Roque, da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, também defende que a história dos expedicionários seja de conhecimento geral no Brasil de hoje:
— Há mais de dez anos, um veterano me disse o seguinte: "Para que os brasileiros entendessem tudo aquilo que nós passamos na Itália, seria preciso haver uma guerra no Brasil. Por essa razão, prefiro que eles permaneçam na ignorância. Eu não desejo uma guerra aqui". Essa fala dá a ideia do tamanho da bestialidade, do sacrifício e do sofrimento de uma guerra. Quando conhecemos a história da FEB, entendemos que hoje precisamos agir diferente e evitar a guerra a qualquer custo, para que nem nós nem nossos filhos tenhamos que passar por aquilo que os expedicionários passaram.
Roque concorda que o interesse pelos expedicionários tem aumentado nos últimos anos. Ele diz que isso também se nota nos encontros anuais dos veteranos. Embora haja cada vez menos ex-combatentes vivos, o número de participantes é crescente, atraindo pesquisadores acadêmicos e amadores, estudantes, professores, colecionadores de objetos de guerra, militares mais novos e simples curiosos.
Presidente Juscelino Kubitschek no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, em 1960 (foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Atualmente, existem menos de 40 expedicionários vivos, de acordo com informações das duas entidades que os representam. O mais novo tem 100 anos; o mais velho, 107.
O símbolo da FEB é uma cobra fumando um cachimbo. Existem várias explicações possíveis para a imagem. Segundo a mais plausível, trata-se de uma resposta àqueles que diziam que o Brasil não tinha coragem ou capacidade militar e só iria para a guerra no dia em que uma cobra fumasse. Já na guerra, quando algum conflito se aproximava, os soldados diziam: "A cobra vai fumar". O distintivo com a cobra fumando apareceu no uniforme dos expedicionários, costurado na altura do ombro.

sábado, 10 de janeiro de 2026

2026: Sobrevivência ou Liberdade?

Por Leandro Ruschel
Uma das características humanas mais prevalentes é a adaptabilidade.
Essa característica traz consequências positivas e negativas.
A consequência positiva é a capacidade de sobreviver em qualquer ambiente, especialmente do ponto de vista psicológico.
A consequência negativa é a acomodação — ou seja, a aceitação de uma situação cada vez mais desfavorável.
No caso brasileiro, o problema é ainda mais grave, porque a destruição do país aconteceu aos poucos. Somos o sapo sendo cozido em fogo baixo.
Primeiro, foram degradando os padrões morais e subvertendo a Justiça, que passou a tratar bandidos como “vítimas da sociedade” e as verdadeiras vítimas como “opressores”, produzindo uma sociedade disfuncional e estimulando a explosão da criminalidade, do topo à base da pirâmide social.
Para conter a revolta da parcela decente da sociedade, o establishment retirou nossas liberdades básicas, criminalizando qualquer oposição.
E não foi de um dia para o outro.
Foi um processo lento, ao longo dos últimos sete anos. Primeiro, veio a censura para combater as “fake news” e o “discurso de ódio”.
Depois vieram as prisões para “proteger as instituições” e “defender a democracia”. Em paralelo, a elite envolvida no saque ao país, exposto na Lava Jato, foi na prática anistiada e consolidou o poder, enquanto seus opositores foram criminalizados sob a acusação de “tentativa de golpe”, numa inversão completa da realidade.
A devastação moral provocada pela passada de borracha em um dos maiores escândalos de corrupção do mundo é incalculável — e vai muito além da simples normalização do desvio de recursos públicos como algo inerente ao sistema brasileiro. A mensagem é clara: no Brasil, o crime VALE A PENA! Não por acaso, a criminalidade é percebida hoje como o maior problema do país, segundo diversas pesquisas de opinião.
Tudo isso sob o aplauso de boa parte dos nossos “intelectuais” e de empresários amigos do rei.
Agora, o medo e a desconfiança reinam, e 2025 vai se encerrando com a explosão de um conflito interno do establishment político, econômico e midiático — como sempre acontece na fase de acomodação de um regime autoritário. O nível de degradação do sistema está exposto, e até mesmo setores da imprensa que antes justificavam um mar de arbitrariedades começam a reconhecer: a suposta “proteção” da democracia foi a máscara barata para enriquecimento e concentração de poder sem limites.
Antes, havia corrupção e crime nas ruas, mas pelo menos tínhamos liberdade para criticar políticos, nos organizar e apresentar projetos alternativos de poder. Hoje, nem isso.
O medo reina. Fazer oposição é um ato arriscado, capaz de gerar consequências terríveis para a vida pessoal e profissional dos opositores.
Nesse cenário, a adaptação começa a jogar a favor do sistema. A maioria das pessoas passa a praticar autocensura para evitar problemas, criando a famosa Espiral do Silêncio — base de qualquer regime autoritário e o caminho para o totalitarismo.
Amorais vão mais longe e passam a colaborar com o regime em troca de vantagens. Seja o empresário que se beneficia de empréstimos subsidiados, contratos e regulações favoráveis; seja o artista favorecido por patrocínios; sejam os jornais mantidos por verbas publicitárias; seja o cidadão comum que troca seu voto por uma bolsa-esmola — todos contribuem para sustentar as engrenagens de um sistema corrompido e cada vez mais autoritário.
Só há um problema: a aparente segurança de se afastar do debate público — ou de colaborar com o regime — é uma miragem. A história mostra que NINGUÉM ESTÁ SEGURO em um regime autoritário, nem mesmo aqueles que hoje mandam. Não há dinheiro, cargo ou influência que impeça que você vire alvo do próprio sistema — ou de um criminoso comum, capaz de tirar sua vida num piscar de olhos.
Que em 2026 os brasileiros possam recuperar seus direitos fundamentais — a liberdade de expressão, a livre associação, a liberdade religiosa e o direito de ser julgado diante da lei de forma igualitária, e não pelos desígnios de tiranos que se colocam ACIMA DA LEI. Que as pessoas de bem neste país possam se organizar e iniciar um processo de refundação e reconstrução.
Feliz 2026 para os que não se calam, não se dobram e não se adaptam ao inaceitável!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

"Passou do ponto de retorno”? Por que só agora?


William Waack afirma que a crise política e institucional do Supremo “passou do ponto de retorno”.
Na verdade, esse ponto de não retorno foi ultrapassado ainda em 2019, quando ministros abriram o inquérito das chamadas “fake news” — iniciativa que a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, criticou duramente e comparou a um tribunal de exceção.
Os primeiros atos de grande repercussão desse inquérito já indicavam seu caráter extraordinário: a decisão que determinou a suspensão imediata de procedimentos investigatórios instaurados na Receita Federal, que envolviam autoridades do Supremo e pessoas próximas, além da censura imposta a uma revista que publicara o depoimento de Marcelo Odebrecht sobre o “Amigo do Amigo do Meu Pai”.
A partir daí, o inquérito — cuja condução passou a ser alvo permanente de críticas por sua elasticidade e por concentrar, na prática, funções típicas de investigar, acusar e julgar — tornou-se o eixo de uma escalada de medidas excepcionais. Vieram ordens de remoção de conteúdo, decisões com efeito-censor e prisões preventivas de críticos e opositores, frequentemente amparadas em interpretações amplas de conceitos como “ataques às instituições” e “desinformação”. A exceção foi sendo normalizada como método.
Enquanto isso, uma parcela expressiva dos réus e condenados da Lava Jato — operação que revelou um dos maiores esquemas de corrupção já expostos no país — viu suas condenações serem anuladas ou revertidas, em decisões que alimentaram a percepção pública de impunidade e de reescrita histórica do maior escândalo político-financeiro da história nacional.
Esse padrão culminou no tratamento judicial dado ao entorno de Jair Bolsonaro: um processo que, para muitos, assumiu contornos abertamente políticos, no qual a narrativa de “tentativa de golpe” passou a operar como verdade institucional, apesar de sua caracterização ser fortemente contestada. As fragilidades dessa construção vieram à tona no voto do ministro Luiz Fux, que registrou objeções graves sobre tipificação, extensão e garantias do devido processo. No mesmo ciclo, centenas de brasileiros foram presos ou condenados por atos ligados ao 8 de janeiro — muitos sob acusações gravíssimas — em decisões acusadas de impor penas desproporcionais, tratar condutas distintas como equivalentes e relativizar garantias elementares.
Somente depois de consolidado esse arranjo — e depois de o Supremo ter normalizado uma lógica de excepcionalidade dirigida sobretudo contra a direita — é que parte da imprensa, que antes justificava arbitrariedades e tratava a corte como intocável, passou a expressar desconforto e a questionar seus métodos.
Agora é tarde. Quero ver colocar esse gênio de volta na garrafa.
Fonte:  Leandro Ruschel

sábado, 20 de dezembro de 2025

É Sempre Uma Alegria Ouvir Falar de Lulinha

É sempre uma alegria ouvir falar de Lulinha, o filho mais velho do companheiro Lula. Ele surgiu para o mundo lá se vão vinte anos, quando eu era redator-chefe da Veja. Era outro mundo, mas Lulinha continua o mesmo.
O nome do filho mais velho do presidente da República apareceu no âmbito das investigações sobre as fraudes perpetradas no INSS contra aposentados e pensionistas. Uma testemunha na investigação disse à PF que Lulinha teria recebido do Careca do INSS o equivalente a R$ 25 milhões, além de uma mesada de R$ 300 mil. O rapaz nega tudo e avisou que vai processar quem o acusa.
A testemunha também afirmou à PF que Careca e Lulinha viajavam juntos às expensas do fraudador. Há prova de que ambos estavam na 1ª classe de um avião da Latam que os levou de São Paulo para Lisboa, em 8 de novembro do ano passado, como publicou o colega André Shalders, da coluna de Andreza Matais.
Eu disse que Lulinha continua o mesmo, porque há sempre quem insista em associá-lo ao recebimento de boladas formidáveis, não exatamente fruto de trabalho árduo.
Ele surgiu para o mundo depois que a Veja revelou, em 2005, que Lulinha, monitor de zoológico até dois anos antes, era sócio de uma empresa de produção de conteúdos de jogos eletrônicos, a Gamecorp, que havia levado uma baba de dinheiro da Telemar/Oi, concessionária de telefonia pública.
Entre investimentos, contratos de serviços e de publicidade, a Telemar/Oi repassou, entre 2004 e 2016, R$ 132 milhões ao que se tornou o grupo Gamecorp/Gol. Essa dinheirama teria sido transferida a uma empresa de porte idêntico cujo sócio não fosse filho de Lula?
Desde o início, levantou-se a desconfiança de que tudo era pagamento por vantagens regulatórias, como a aprovação da fusão da Oi com a Brasil Telecom, que viria a ocorrer em 2008. Em outras palavras, remuneração por tráfico de influência. Mas nada ficou provado na base do batom na cueca, com o perdão do meu francês.
Em 2019, Lulinha também seria investigado pela Lava Jato, como suposto financiador de reformas no famoso sítio de Atibaia. O caso acabou arquivado.
A História é uma Istória, como dizia Millôr Fernandes, e antes de publicarmos a primeira reportagem sobre o incrível sucesso do filho do presidente, Lula telefonou para a Veja, pedindo para que não a chamássemos na capa da revista, porque a sua mulher, Marisa, morreria de desgosto. Fizemos esse favor.
Lulinha, no entanto, continuou na mira dos repórteres da Veja. Pouco tempo depois, a sucursal de Brasília descobriu que o filho do presidente mantinha parceria com um lobista brasiliense.
Ao ser comunicado sobre a nossa apuração, o Palácio do Planalto tanto fez para que a revista não publicasse a segunda reportagem sobre Lulinha, que ela permaneceu engavetada durante meses.
Até que Lula deu uma entrevista à Folha. Indagado pelos repórteres do jornal sobre a carreira empresarial fulgurante do filho mais velho, o presidente disse que não tinha culpa de Lulinha ser um “Ronaldinho dos negócios”.
A declaração que soou cínica foi a gota d’água para que nós, editores da revista, finalmente publicássemos, no final de 2006, em plena campanha presidencial, a reportagem sobre a parceria de Lulinha com o lobista. Dessa vez, na capa. Roberto Civita, dono da Veja, chegou a ter fibrilação cardíaca, já antecipando o problemão que isso causaria.
De fato, entre outras delicadezas endereçadas a nós, a Veja foi acusada de ter publicado a reportagem para tentar evitar a reeleição de Lula. A verdade é que só não o fizemos antes porque o próprio Lula fez pressão para que a segurássemos.
Agora, temos Lulinha no noticiário outra vez. Mas a alegria que ele costuma nos proporcionar será ainda mais efêmera, porque o jornalismo mudou para pior e o rapaz mudou-se para Madri, em meados deste ano, a pretexto de prestar consultorias para empresas espanholas. A História é uma Istória, e até hoje há quem acredite ser verdadeira a anedota de que Rui Barbosa deu aulas de inglês em Londres.
Fonte: Metropoles

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Toffoli e o Supremo Sem Vergonha

A vergonha mudou de lugar no Brasil. Ela já não mora no Código Penal, na tipificação fria dos crimes, mas na percepção pública de que a cúpula do Judiciário perdeu o pudor. Quando um ministro do Supremo Tribunal Federal aceita embarcar num jato particular ao lado do advogado de um investigado de um caso que cedo ou tarde iria parar no Supremo, não é preciso ser criminalista para perceber que alguma coisa está profundamente errada.
No dia 28 de novembro, pela manhã, Dias Toffoli embarcou rumo a Lima, no Peru, para assistir à final da Libertadores num avião de um empresário e ex-senador. Na mesma aeronave viajava Augusto de Arruda Botelho, advogado de Luiz Antônio Bull, diretor de compliance do Banco Master, hoje em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. À noite, o mesmo Toffoli foi sorteado relator do caso Master, após uma reclamação da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro. Na volta da viagem, colocou sigilo absoluto sobre o processo, puxou o caso inteiro para si no Supremo e decidiu que tudo o que disser respeito ao Master precisa, antes de mais nada, passar por sua caneta.
O ministro diz que não conversou sobre o processo no voo, que o recurso foi protocolado depois, que está tudo dentro da liturgia. Pode até ser. Mas o problema aqui não é apenas o que se prova em juízo. É o que se vê a olho nu. Um juiz que já anda há anos na borda da suspeição — “o amigo do amigo do meu pai” —, que acumula decisões controversas em favor de empreiteiras e delatados ilustres, não se constrange em misturar vida social e caso bilionário que abala o sistema financeiro. Vira uma espécie de garoto-propaganda do “deixa comigo que eu resolvo”, como se o Supremo fosse balcão de atendimento personalizado para quem tem jato, bons contatos e advogado influente.
Diante deste escárnio todo, há quem ainda tente acreditar no funcionamento dos freios e contrapesos. Minha colega Rosane de Oliveira, bem mais elegante do que eu, lembrou que esta seria a hora de o procurador-geral da República agir, pedindo a suspeição ou o impedimento de Toffoli. Em teoria, faz todo sentido. Na prática, o roteiro é outro. Quando o PGR pede a suspeição de um ministro, quem decide primeiro é o próprio ministro acusado. Ele é quem diz, antes de qualquer coisa, se se considera suspeito ou não. Se tivesse esse pudor, já teria se declarado impedido de ofício. Se não se considera suspeito, o caso vai para o julgamento dos seus dez colegas. E aí começa o verdadeiro pacto de autodefesa.
Não é hipótese.
O ex-procurador-geral da República dos bambus, Rodrigo Janot, tentou, mais de uma vez, pedir a suspeição de Gilmar Mendes. Quando o supremo ministro supremo do Supremo concedeu habeas corpus ao empresário Jacob Barata Filho, cujo casamento da filha teve Gilmar como padrinho, o então procurador-geral enxergou o conflito óbvio. A Corte não viu problema. Em seguida, no mesmo episódio da máfia dos transportes no Rio, Janot tentou outra vez arguir a suspeição de Gilmar, agora em relação a Lélis Teixeira e novas alegações de relações pessoais. Mais uma vez, o Supremo olhou para o lado. Janot ainda tentou uma terceira vez em outro caso, o de Eike Batista, em que a ex-esposa de Gilmar era sócia do escritório que defendia o empresário. De novo, nada a declarar. Em todas essas situações, a mensagem foi a mesma: aqui dentro ninguém mexe com ninguém.
É justamente esse histórico que torna ainda mais escandalosa a decisão da semana passada, na qual o mesmo Gilmar Mendes resolveu que só o procurador-geral da República pode protocolar pedidos de impeachment contra ministros do Supremo. O único personagem que não consegue — ou não quer — levar adiante uma suspeição evidente passa a ser também o porteiro único do condomínio. Deputados, senadores, entidades de classe, cidadãos comuns: todo mundo é empurrado para fora da porta. Só o PGR pode tocar a campainha. E, como a história mostra, ele quase nunca toca e quando toca, ninguém atende.
O resultado é uma distorção completa da ideia de República. Em vez de poderes que se limitam e se vigiam, temos uma Corte que concentra para si o direito de errar sem ser incomodada. Um ministro pode viajar em jatinho de empresário, conviver socialmente com advogado de investigado, centralizar um escândalo bilionário sob sigilo máximo e ainda assim seguir julgando como se fosse apenas mais um dia no fórum. O órgão que poderia reagir, a Procuradoria-Geral da República, é o mesmo que agora detém o monopólio dos pedidos de impeachment. O jogo se fecha e o círculo se protege.
Num país com vergonha, um ministro sequer cogitaria entrar nesse avião. Se, por algum desvario, entrasse, se declararia impedido de julgar o caso, por respeito ao tribunal e a si mesmo. Num país com vergonha, a Corte não teria transformado em rotina a negação de suspeições escandalosamente justificadas.
Aqui, não. Aqui o Supremo é duríssimo com o réu de sandália de borracha, mas cheio de compreensão com o réu que chega de terno bem cortado e jato à disposição.
No fim, quem perde a vergonha não são os ministros. Somos nós. Nós, que assistimos a tudo isso, ouvimos explicações burocráticas sobre “normalidade institucional” e ainda somos convidados a aceitar que está tudo dentro das regras. Nós, que olhamos para um tribunal que deveria ser o guardião da Constituição e enxergamos um clube fechado que se auto absolve enquanto reescreve a lei. Se eles já não têm vergonha do que fazem, o mínimo que nos resta é não perder a nossa ao chamar esse estado de coisas pelo nome: um Supremo descontrolado e autoritário em um país que se acostumou demais a viver sem vergonha.
COMENTO: o pior de tudo é haver quem apoie e justifique essa patifaria relatada, indagando se um ministro de corte superior não pode ter "vida social", ter amizades, viajar para torcer pelo seu time?
A esses, só podemos responder que, é obvio que não! Quando um sujeito é alçado a uma função relevante de interesse público, seu cargo é monumentalmente remunerado — no presente caso, a remuneração do cargo citado é oficialmente tida como teto do funcionalismo público — exatamente para compensar os limites impostos à vida privada do designado, de forma que ele se sinta compelido a bem cumprir sua função na maneira que seja e pareça ser a mais honesta possível! 
Imagem buscada na Internet, para representar o que ocorre com a Justiça e o povo brasileiros.
Mas infelizmente, não é o que se vê nos escolhidos desde o início de Século XXI. Salvo raríssimas exceções, o que se vê são nomeações por amizade, de rábulas incompetentes e deslumbrados que aproveitam o cargo público para usufruírem ao máximo as mordomias e sinecuras proporcionadas pelas verbas públicas — inclusive segurança física e moral, proporcionadas pelos órgãos estatais , e buscarem holofotes, portando-se como "socialaites", na pior forma do significado dessa merda! Além de montarem suspeitíssimas armações, com escritórios de advocacia de parentes próximos, que defendem descaradamente causas julgadas por eles. Mesmo às custas do sacrifício da imagem do Poder Judiciário, da Constituição Federal, das leis dela derivadas e da Justiça em geral; e sempre em detrimento dos que pagam a esbórnia. Mas tudo com a complacência dos ditos representantes do povo, homiziados no valhacouto que denominam Congresso Nacional; e da mídia prostituída pelos cofres públicos.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A Geografia Social da Espionagem da Antiguidade à Era Digital

Ao longo da história, e devido à natureza social da humanidade, os espaços e pontos de encontro, juntamente com o comércio, desempenharam um papel fundamental. Eles facilitaram o fluxo de informações, a espionagem e a economia subterrânea.
Das tabernas romanas aos fóruns digitais do século XXI, esses locais funcionaram como territórios estratégicos. Lazer, comércio e segredo convergem neles.
Sua importância reside na capacidade de gerar diversas estruturas sociais com um fluxo constante de informações e relativo anonimato. Isso permitiu que fossem utilizadas para coletar informações, realizar comércio com menor intervenção das autoridades e exercer influência informal desde a antiguidade até os dias atuais, ilustrando a continuidade e a evolução histórica dessas funções.

Antiguidade: as tabernas como epicentro de rumores e segredos.
Na Antiguidade, as tabernas romanas não eram meros estabelecimentos para comer e beber, mas centros vitais de informação não oficial. Soldados, mercadores, escravos e funcionários públicos frequentavam esses espaços. Suas conversas, muitas vezes descontraídas pelo álcool e pela dinâmica social, constituíam uma importante fonte de informação. Essa informação era útil para informantes do Estado e outras partes interessadas.
Representação de uma taberna romana em Pompeia. Fonte: Ciência Histórica
Os donos de pousadas e garçons daquela época (e os garçons da nossa época) desempenhavam um papel crucial. Eles eram testemunhas involuntárias de conversas, ideias e rumores. Sua posição como representantes físicos do estabelecimento permitia que eles tomassem conhecimento de assuntos privados, vigiassem os viajantes e, em muitos casos, trocassem informações por dinheiro ou favores.
Na Roma antiga, a inteligência dependia tanto dos canais oficiais quanto desses locais de socialização, onde o fluxo de notícias podia fornecer indícios sutis sobre mudanças políticas e militares.
Por outro lado, os mercados e as ágoras eram tão importantes quanto, ou até mais, do que as tabernas. Em Atenas, a ágora servia não apenas como local de comércio, mas também como espaço onde os cidadãos discutiam política, recebiam notícias de outras cidades-estados (e regiões) e compartilhavam rumores sobre conflitos.
As caravanas de mercadores, por sua vez, eram portadoras de informações sobre rotas, reinos vizinhos e novos acontecimentos. No Império Persa (e, em menor escala, no Egito), mercados e postos de correio conectavam cidades distantes e facilitavam a espionagem.
Os agentes podiam se mover discretamente, misturando-se aos viajantes ou à população local, e coletar informações sobre fortalezas, tropas e economias regionais. Vale ressaltar também como os terrenos baldios em docas e cais funcionavam como centros de informação. Marinheiros, mercadores e piratas compartilhavam notícias de outras cidades e culturas, criando uma rede de informações informal, porém precisa, que podia ser explorada por atores em conflito.

A Idade Média: Estalagens, mercados e bordéis como centros de informações.
Durante a Idade Média, a queda do Império Romano fragmentou a rede formal de comunicação, mas tabernas, hospedarias e mercados continuaram sendo centros essenciais de informação. Viajantes compartilhavam notícias sobre estradas, bandidos e impostos.
Representação gráfica de uma taverna medieval. Fonte : KCD2 Fandom Wiki
As hospedarias medievais não apenas acomodavam peregrinos e mercadores, mas também reuniam espiões e diplomatas disfarçados de viajantes comuns. Além disso, os estalajadeiros, por conhecerem as rotas e os hábitos dos visitantes, tornavam-se confidentes dos senhores locais ou das autoridades religiosas, oferecendo informações sobre movimentações de tropas ou comércio ilícito.
Os mercados e feiras medievais cresceram em tamanho, tornando-se pontos de encontro internacionais. Mercadores de diferentes regiões do mundo traziam consigo produtos e mercadorias, mas também rumores sobre epidemias, guerras dinásticas ou secas.
Por exemplo, as feiras de Champagne, na França, reuniam mercadores de toda a Europa e se tornavam locais ideais para agentes secretos se infiltrarem entre os vendedores, observando o fluxo de mercadorias, avaliando preços e mensurando a riqueza regional. Os reinos e cidades-estados italianos (como Veneza, Florença e Gênova) aproveitavam essas oportunidades para enviar representantes e mercadores espiões.
Essa inteligência permitiu-lhes negociar tratados mais favoráveis, controlar rotas comerciais, antecipar os movimentos estratégicos dos rivais e planejar investimentos políticos e militares. Assim, o que pareciam ser simples feiras comerciais transformaram-se em centros de espionagem econômica e política, onde a informação fluía das mesas dos mercadores para os corredores do governo nos reinos europeus.
Por fim, os bordéis eram centros de informação altamente privilegiados durante o Renascimento. As cortesãs tinham acesso a informações confidenciais sobre funcionários, comerciantes, mercenários e nobres, e governos ou senhores feudais podiam usá-las como agentes indiretos.
Em cidades como Veneza e Florença, há registros de que as cortesãs desempenhavam funções de espionagem, obtendo segredos políticos, financeiros e militares. A interação íntima permitia que elas adquirissem informações que seriam inacessíveis por meio de canais oficiais ou interações informais sem qualquer grau de vulnerabilidade, transformando esses espaços em verdadeiros centros de inteligência secreta.

A Era Moderna: cafés e diplomacia secreta
Com o surgimento do comércio global entre os séculos XVI e XVIII, os cafés europeus adquiriram um novo papel estratégico. Em Paris, Londres e Berlim, os cafés tornaram-se centros de encontros sociais, debates políticos e troca de informações não oficiais.
Café Lloyd's, Londres, 1798, 1947. Por William Holland.
Intelectuais, revolucionários e diplomatas convergiam nesses espaços, trocando notícias, rumores e opiniões que podiam influenciar a política nacional e a economia.
Um excelente exemplo disso foi o Lloyd's Coffee House em Londres, que não só deu origem à seguradora marítima Lloyd's, como também funcionou como um centro de inteligência naval. Capitães, corsários e marinheiros compartilhavam informações sobre rotas, piratas, batalhas navais e riscos comerciais — informações cobiçadas por governos e agentes privados. Dessa forma, o café tornou-se um espaço onde lazer, economia e espionagem convergiam.
Os cafés de Viena e Paris também eram espaços onde movimentos políticos e conspirações eram tramados.
A facilidade de acesso, a interação social e a relativa liberdade de expressão tornaram esses locais espaços ideais para o planejamento de revoluções e movimentos reformistas. Eles também eram úteis para o recrutamento de agentes secretos. As elites aprenderam a observar e enviar informantes infiltrados. Isso consolidou a ideia de que a informação circula melhor em ambientes sociais do que por meio de canais burocráticos.
Além disso, o comércio e a diplomacia passaram a depender cada vez mais de rumores obtidos em cafés e tabernas. Informações sobre tratados, preços de mercadorias e empreendimentos comerciais circulavam por meio desses "refúgios" sociais, permitindo que diversos atores antecipassem riscos e oportunidades.

Século XX e Guerra Fria: bares, cabarés e espionagem no cotidiano.
Durante o século XX, bares, cabarés e hotéis se consolidaram como centros estratégicos para a espionagem. Eles herdaram o papel histórico dos espaços sociais na circulação de informações.
Cabaré em Berlim, década de 30.
 
FonteWeimarberlin
Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados, marinheiros e comerciantes trocavam conversas em tabernas e cafés portuários. Detalhes sobre rotas logísticas e atividades inimigas circulavam nesses locais.
Durante a Segunda Guerra Mundial, locais como os cabarés de Lisboa, Paris, Berlim e Viena combinavam lazer e vigilância. Agentes de diversas nacionalidades trocavam informações sob o pretexto de entretenimento. Enquanto isso, a Resistência Francesa utilizava os cabarés parisienses como refúgio e centro de coordenação.
Esses estabelecimentos também eram frequentados por artistas, aristocratas, burgueses e trabalhadores, criando um ambiente ideal para a circulação clandestina de informações. Os bordéis continuaram a desempenhar um papel crucial, pois as trabalhadoras do sexo ainda obtinham fragmentos de segredos estratégicos inacessíveis pelos canais oficiais.
Durante a Guerra Fria, essa tradição se expandiu para uma escala global. Em Berlim, os cafés da zona ocidental ofereciam um refúgio seguro para diplomatas e espiões, enquanto hotéis e clubes em cidades neutras como Viena, Estocolmo e Zurique se tornaram pontos de encontro para agentes de diversos países.
Até mesmo os mercados e bazares do Oriente Médio, da Ásia e da África serviram como fontes indiretas de informações. Rumores sobre conflitos, armas e mudanças políticas circulavam entre civis, comerciantes e viajantes.
Assim, a coleta de informações não se baseava apenas em canais oficiais. Também se fundamentava em observações da vida cotidiana e da interação social em espaços públicos. Isso demonstrava que o tempo livre podia ser transformado em uma ferramenta estratégica para a espionagem.

Transição para o século XXI: a digitalização dos nós de informação
Com o advento da era digital, os antigos nós físicos começaram a ter equivalentes virtuais. Plataformas digitais, redes sociais, fóruns online e aplicativos de mensagens tornaram-se espaços de interação onde circulam informações valiosas, rumores, notícias e transações econômicas. A coleta de dados tornou-se mais sofisticada por meio de algoritmos, monitoramento de metadados e análise de comportamento online.
Os espaços digitais funcionam como bares virtuais: os usuários compartilham experiências, notícias e opiniões; muitas vezes sem perceber que estão criando registros de informações úteis para o Estado, empresas ou outros atores.
Assim como em um cabaré berlinense, a aparência de lazer e entretenimento online mascara um fluxo de dados estratégicos. Agências de inteligência, corporações e grupos clandestinos usam essas plataformas para monitorar tendências, recrutar informantes e detectar ameaças.
Os mercados digitais, desde plataformas de criptomoedas a fóruns de negociação ilícita, replicam a economia subterrânea dos antigos mercados medievais.
Transações anônimas, troca de mercadorias proibidas e venda de informações confidenciais ocorrem nesses espaços, que funcionam como um equivalente virtual de antigos bordéis, tabernas e bazares. Além disso, sistemas de anonimato criptografados facilitam a espionagem e a infiltração, permitindo que agentes internacionais circulem sem serem detectados.

Um padrão de continuidade histórica
O que une todas essas eras é uma característica recorrente e contínua: os espaços sociais (sejam físicos ou digitais) são elos de informação, interação e transação. Em cada período histórico, das tabernas romanas aos fóruns online modernos, os seguintes elementos se repetem:
1. Diversidade de atores: viajantes, comerciantes, soldados, diplomatas, espiões, mercenários, intelectuais ou usuários digitais  convergem nos mesmos espaços.
2. Anonimato relativo: o fluxo constante de participantes permite que a pessoa passe despercebida, facilitando a coleta de informações.
3. Troca de informações não oficiais: rumores, notícias, segredos e estratégias circulam sem passar pelos canais formais.
4. Economia subterrânea: pagamentos em espécie, transações anônimas e comércio informal ocorrem paralelamente ao fluxo formal de bens e serviços.
5. Oportunidades de recrutamento: a observação e a participação nessas ligações permitem recrutar informantes ou colaboradores, seja em uma taverna medieval ou em uma sala de bate-papo criptografada moderna.
Esses padrões demonstram que, embora a tecnologia mude, a dinâmica social que facilita a espionagem e o mercado negro permanece, adaptando-se a cada contexto histórico.
Fonte: LISA News