domingo, 1 de março de 2026

Qual Será a Arma Secreta Usada na Captura de Nicolás Maduro?

Trump cita publicamente o "descombobulador"
No dia 3 de janeiro, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram presos e levados para Nova York para serem julgados por tráfico de drogas.
O presidente dos EUA, Donald Trump, em reunião com os soldados das Forças Especiais que capturaram Nicolás Maduro. Foto: AFP
O presidente dos EUA, Donald Trump, mencionou pela primeira vez, em um evento público, uma misteriosa arma que teria sido usada para atordoar as defesas do deposto chavista Nicolás Maduro no dia de sua captura.
Trata-se do "discombobulator" ("desorientador"), uma arma que, segundo o presidente, consegue bloquear os sistemas de defesa russos e chineses.
Em 3 de janeiro, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e levados para Nova York. Durante os momentos iniciais da chamada Operação Resolução Absoluta, que envolveu drones, helicópteros e Forças Especiais, os sistemas de radar venezuelanos ficaram inoperantes antes que uma tecnologia desconhecida atingisse os defensores do regime.
A operação resultou na morte de 83 pessoas, incluindo 32 cubanos, e deixou mais de 112 feridos.
Nenhum militar americano morreu, mas Trump disse que três pilotos de helicóptero ficaram feridos.
O presidente dos EUA afirmou, no dia 12 de fevereiro passado, para soldados na base de Fort Bragg, na Carolina do Norte, que as defesas venezuelanas "não conseguiram disparar um único tiro".
"A equipe russa não funcionou. A equipe chinesa não funcionou. Todos estão tentando descobrir por que não funcionou. Algum dia eles saberão", disse ele com um sorriso.
Em entrevista ao New York Post em janeiro, Trump havia dito que "não tinha permissão para falar sobre isso (o "descompressor")", mas observou que a arma fazia com que o equipamento inimigo "não funcionasse""Eles tinham foguetes russos e chineses, e nunca lançaram nenhum. Chegamos, eles apertaram botões e nada funcionou. Estavam prontos para nos confrontar", acrescentou ele ao veículo de comunicação.
Trump, que estava acompanhado de sua esposa Melania, discursou para soldados e familiares de militares na sexta-feira (13/2/26), antes de se reunir a portas fechadas com tropas das Forças Especiais envolvidas na incursão em Caracas e outras regiões da Venezuela.

Base da Unidade de Reação Rápida, no Forte Tiuna, destruída após a operação dos EUA. 
Foto: AFP
Maduro está detido em Nova Iorque, onde enfrenta acusações de tráfico de drogas e outros crimes, dos quais se declarou inocente.
Sua próxima audiência está marcada para 17 de março.
O presidente dos EUA elogiou repetidamente a operação contra Maduro como um exemplo do poderio militar de seu país.
Fonte: tradução livre de El Tiempo
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O 'desconcertante': Os EUA usaram uma 'arma secreta' no sequestro de Maduro?
O presidente dos EUA, Donald Trump, se refere a uma "arma sônica" que ele descreve como um "descompressor", mas do que ele está falando?
O ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino López (à direita), cumprimenta o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez Padilla, em 8 Jan 2026, ao receber uma homenagem aos cubanos mortos durante a operação dos EUA
[Arquivo: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters]
Em 26 Jan 2026
O ministro da Defesa da Venezuela acusou os Estados Unidos de usar o país como um “laboratório de armas” durante o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em 3 de janeiro.
Vladimir Padrino Lopez afirmou na semana passada que os EUA usaram a Venezuela como campo de testes para “tecnologias militares avançadas” que se baseiam em inteligência artificial e armamentos nunca antes utilizados, de acordo com o jornal venezuelano El Universal.
Em 25 de janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse ao New York Post que as forças americanas de fato usaram uma arma à qual se referiu como "o descompassador".
"Não me é permitido falar sobre isso", disse ele, acrescentando que a arma "interferiu no funcionamento do equipamento" durante a operação.
Os detalhes da missão militar dos EUA para sequestrar Maduro não foram divulgados, mas sabe-se que os EUA já usaram armas para desorientar soldados e guardas ou para desativar equipamentos e infraestrutura no passado.

O que disse o ministro da Defesa da Venezuela?
Em 16 de janeiro, Padrino López afirmou que 47 soldados venezuelanos foram mortos durante o ataque dos EUA a Caracas. Trinta e dois soldados cubanos, alguns dos quais protegiam Maduro, também foram mortos.
Na semana passada, ele fez as acusações sobre o “laboratório de armas” e foi citado pelo El Universal dizendo: “O presidente dos Estados Unidos admitiu que eles usaram armas que nunca foram usadas em campos de batalha, armas que ninguém no mundo possuía. Eles usaram essa tecnologia contra o povo venezuelano em 3 de janeiro de 2026.”
Ele parecia estar se referindo a uma entrevista que Trump concedeu ao canal de notícias americano NewsNation, na qual afirmou que uma "arma sônica" havia sido usada.

O que Trump disse sobre as "armas secretas" dos EUA?
Dias após o sequestro de Maduro, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, republicou comentários que pareciam ter sido postados no X por um guarda de segurança venezuelano. Ele escreveu que os EUA haviam "lançado algo" durante a operação que "era como uma onda sonora muito intensa".
“De repente, senti como se minha cabeça fosse explodir por dentro”, escreveu o segurança. “Todos começamos a sangrar pelo nariz. Alguns vomitaram sangue. Caímos no chão, sem conseguir nos mexer.”
A Al Jazeera não conseguiu verificar essa conta.
“Ninguém mais tem isso. E nós temos armas que ninguém conhece”, disse Trump. “E eu digo que provavelmente é melhor não falar sobre elas, mas nós temos algumas armas incríveis. Aquele foi um ataque incrível. Não se esqueçam que aquela casa ficava no meio de uma fortaleza e base militar.”
Então, no domingo, Trump foi citado pelo New York Post dizendo que os EUA usaram uma arma projetada para desativar equipamentos de defesa.
“O desconcertante”, adjetivou ele. “Não me é permitido falar sobre isso.”

Que armas "sônicas" ou outras armas incapacitantes os EUA já utilizaram no passado?
Os sistemas “sônicos” mais conhecidos usados ​​pelos EUA são os dispositivos direcionais de comunicação e alerta acústico, especialmente o dispositivo acústico de longo alcance (Long Range Acoustic Device=LRAD), disse à Al Jazeera o analista militar e político Elijah Magnier, baseado em Bruxelas.
“Essas não são armas tradicionais. Em vez disso, são projetores de som potentes e focados, usados ​​para coisas como parar navios, proteger bases, proteger comboios, gerenciar pontos de controle e, às vezes, controlar multidões”, disse ele.
O principal objetivo desses dispositivos é controlar o comportamento enviando comandos de voz a longas distâncias e em alto volume. Eles podem causar desconforto e são projetados para forçar as pessoas a obedecerem aos comandos ou a saírem de uma área.
“Os LRADs têm sido implantados em navios para dissuasão da pirataria, na segurança portuária e por agências de aplicação da lei”, explicou Magnier. “Em configurações de alta potência, esses dispositivos podem causar dor, vertigem, náusea ou danos à audição, o que torna seu uso delicado e sujeito a escrutínio.”
Os LRADs não são projetados para desativar eletrônicos ou redes de comunicação.
Outra arma usada para desorientar pessoas é o sistema de negação ativa (Active Denial System=ADS), que muitas vezes é erroneamente chamado de arma "sônica", mas não usa som.
“Em vez disso, utiliza energia de ondas milimétricas para criar uma forte sensação de aquecimento na pele, fazendo com que as pessoas se afastem”, disse Magnier. “O ADS foi enviado ao Afeganistão em 2010, mas foi retirado sem ser usado em combate. Assim como o LRAD, o ADS foi projetado para afetar pessoas, não máquinas.”

Como funcionam esses dispositivos?
O sistema LRAD consegue concentrar o som em uma onda estreita. Em uma configuração baixa, permite que as vozes sejam ouvidas com clareza a longas distâncias. Em uma configuração mais alta, no entanto, pode ser fisicamente debilitante.
“Esses efeitos são apenas físicos e mentais”, disse Magnier. “Ao contrário das ferramentas eletromagnéticas, o LRAD não pode desligar mísseis, radares, computadores ou sistemas de comunicação.
O rápido aquecimento que o ADS causa na camada externa da pele provoca um desconforto intenso e obriga as pessoas a se afastarem. "É uma ferramenta não letal de negação de área destinada ao controle de multidões e à defesa de perímetro", disse Magnier.
“Nenhum desses sistemas consegue, de forma realista, desativar sistemas de defesa aérea, redes de comunicação ou equipamentos militares”, afirmou. “Se algum equipamento parar de funcionar, é muito mais provável que seja devido a métodos de interferência eletromagnética, cibernética ou de negação de energia.”

O que os EUA usam para desativar sistemas e equipamentos?
Magnier afirmou que as forças armadas dos EUA são conhecidas por usar diversos tipos de ferramentas “não cinéticas” e “pré-cinéticas”. Entre elas:
— A guerra eletrônica (GE), que pode interferir em sistemas de radar, bloquear comunicações, enganar o GPS e ludibriar sensores, é uma estratégia eficaz. "Essas ações ajudam a controlar o espectro eletromagnético", afirmou. "A GE dificulta que os oponentes compreendam o que está acontecendo e coordenem suas defesas antes ou durante ataques."
 — Operações ciberfísicas envolvem a sabotagem de redes e sistemas de controle industrial. "O exemplo mais conhecido é a campanha Stuxnet, que teve como alvo os controladores de centrífugas nucleares iranianas e causou danos físicos ao alterar seu software" em 2009, disse Magnier.
— Armas de contra-eletrônica, armas de energia dirigida, que são principalmente sistemas de micro-ondas de alta potência projetados para desativar eletrônicos inundando seus circuitos com pulsos de micro-ondas. "O principal projeto dos EUA para isso é o CHAMP (Projeto Avançado de Mísseis de Micro-ondas de Alta Potência para Contra-eletrônica), que foi criado para desativar eletrônicos sem o uso de força física", disse Magnier.
— Munições de grafite ou fibra de carbono capazes de provocar curto-circuito em redes elétricas e causar apagões generalizados sem destruir todos os equipamentos.
“Essas ferramentas são uma parte fundamental da abordagem militar dos EUA para obter uma 'vantagem informacional' e controlar diferentes áreas de conflito”, disse Magnier.

Como esses sistemas funcionam e quando foram implantados?
A guerra eletrônica altera ou bloqueia o ambiente eletromagnético. Ela pode desorientar sistemas de radar, fazendo-os "enxergar" ruídos ou alvos falsos. Também pode causar a interrupção do funcionamento de rádios e afetar sistemas de GPS e sensores.
“O objetivo é cegar, confundir e desestabilizar o inimigo para criar uma oportunidade de ação”, disse Magnier.
Na campanha cibernética Stuxnet, em 2009, um vírus de computador foi instalado em um computador de uma instalação nuclear iraniana para causar danos mecânicos, assumindo o controle de sistemas de controle industrial. "Acredita-se amplamente que essa operação foi realizada pela inteligência dos EUA e de Israel contra o programa nuclear do Irã", disse Magnier.
Sistemas de micro-ondas de alta potência também podem desativar componentes eletrônicos inundando seus circuitos com energia de micro-ondas, fazendo com que parem de funcionar sem causar danos visíveis. "Testes públicos realizados no início da década de 2010 mostraram que esses sistemas podem desativar seletivamente alvos eletrônicos", disse Magnier.
As munições de grafite ou fibra de carbono espalham minúsculas fibras condutoras que podem causar curto-circuito em partes das redes elétricas. "Essas armas foram associadas a grandes apagões no Iraque em 1991, na Sérvia em 1999 e novamente no Iraque em 2003", disse Magnier.
“A estratégia básica permanece a mesma: primeiro, derrubar a energia, as comunicações, os sensores e a coordenação, depois iniciar os ataques físicos.”

Os Estados Unidos testaram novas armas em outros países?
“Sim, e isso não é algo que apenas os Estados Unidos fazem. As guerras modernas muitas vezes se tornam o primeiro teste no mundo real para novas tecnologias, assim que elas estão prontas para serem usadas”, disse Magnier.
A Guerra do Golfo de 1991 foi a primeira vez que aeronaves furtivas, bombas guiadas com precisão e guerra eletrônica foram usadas em larga escala.
O ciberataque ao Irã em 2009 foi a primeira vez que uma arma ciberfísica foi usada em nível estratégico.
A GBU-43/B MOAB, apelidada de "a mãe de todas as bombas", foi usada pela primeira vez em combate pelos EUA no Afeganistão em 2017. Trata-se de um explosivo não nuclear utilizado em ataques de precisão contra alvos subterrâneos fortificados, como túneis, que produz uma enorme onda de choque.
“É importante saber que testar geralmente não significa realizar testes secretos de dispositivos”, disse Magnier. “Em vez disso, significa usar novas ferramentas em situações reais e aprimorá-las com base no que acontece e no feedback recebido.”
Ele explicou que todos os principais países também testam novos sistemas em segredo, especialmente em áreas como guerra eletrônica, operações cibernéticas, ataques espaciais, inteligência de sinais e operações especiais.
“A principal diferença não reside no grau de sigilo das ferramentas, mas sim na abrangência de seu uso, na localização de suas bases e na disposição dos países em utilizá-las.”
Alguns exemplos, como o ataque Stuxnet, envolvem vários países trabalhando juntos.
“Os EUA usam Israel como vários campos de teste para diferentes tipos de armas e outros equipamentos bélicos de todos os tipos, principalmente contra os palestinos, no Líbano e no Irã”, disse Magnier.
Os EUA também acusaram outros países de usar "armas sônicas" contra seu próprio pessoal. Em 2017, exigiram uma investigação sobre um suposto ataque sônico que deixou vários de seus diplomatas precisando de tratamento médico e os obrigou a deixar Havana.
O então secretário de Estado americano, Rex Tillerson, afirmou que a missão dos EUA na capital cubana havia sido alvo de "ataques sanitários" que deixaram alguns funcionários com perda auditiva.
O governo do Canadá também afirmou que pelo menos um diplomata canadense em Cuba recebeu tratamento para perda auditiva.

O que Trump quer dizer com "desconcertante"?
Não existe uma definição verificada de um "descombobulador" específico.
“Esses termos não são técnicos e parecem estar sendo usados ​​como rótulos políticos para ferramentas já existentes”, disse Magnier.
“A visão mais razoável é que esse termo se refere a um grupo de ferramentas não cinéticas conhecidas, e não a um novo dispositivo.”
Estas podem ser:
— Interrupção cibernética visando redes de comando
— Ataques cinéticos direcionados contra antenas, repetidores e nós sensores, além de negação localizada de energia.
Para observadores em terra, isso pareceria como se os sistemas repentinamente "parassem de funcionar", disse Magnier. No entanto, é altamente improvável que um dispositivo sônico tenha sido o responsável por afetar os equipamentos dessa maneira, acrescentou ele.
“Relatórios indicam que os sistemas de defesa aérea de fabricação russa da Venezuela falharam, o que pode significar que não estavam bem integrados ou prontos para uso. Isso pode acontecer devido à guerra eletrônica, supressão de nós, ataques cibernéticos ou operações deficientes, sem necessidade de explicações mirabolantes. Já vimos isso acontecer na Síria com armas russas antes dos ataques de Israel.”
Uma arma sônica poderia ter afetado soldados e guardas. Se as pessoas apresentaram sintomas físicos durante a operação em Caracas, isso não indica que uma nova "arma sônica" estava sendo usada.
“Esses efeitos podem ser causados ​​pela pressão da explosão, por dispositivos de efeito moral ou por outras ferramentas comuns de desorientação”, disse Magnier. “Não há evidências públicas de um novo tipo de arma.”
Fonte: tradução livre de Al Jazeera
COMENTO:  o avanço da tecnologia, particularmente, a voltada para os conflitos entre países tem tido um desenvolvimento incomum, nos dias de hoje, aproveitando todos os ramos possíveis. Os novos tipos de armamento (drones, artifícios eletromagnéticos, uso de laser, etc.) estão modificando e tornando obsoletas as antigas técnicas e táticas de guerra. Mas só tecnologia não é suficiente.
O militar condecorado no vídeo foi um dos feridos na operação de captura do ditador venezuelano.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Os Expedicionários Brasileiros na Segunda Guerra Mundial

por Ricardo Westin
O Brasil se prepara para comemorar o 81º aniversário de uma das maiores façanhas militares de sua história. Em 21 de fevereiro de 1945 — uma quarta-feira gélida do inverno europeu — os soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB), auxiliados por caças da Força Aérea, tomaram Monte Castelo, no norte da Itália.
Soldado brasileiro em ofensiva a Monte Castelo
(foto: Reprodução/Ministério da Defesa)
Fazia meses que a montanha estava ocupada pelas tropas de Adolf Hitler. As quatro tentativas anteriores de expulsar os inimigos haviam fracassado. Dois meses depois da tomada de Monte Castelo, a Alemanha nazista se renderia, pondo fim à Segunda Guerra Mundial na Europa. O Japão ainda prolongaria a guerra na Ásia.
Documentos da época guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que as proezas dos combatentes brasileiros — mais conhecidos como pracinhas ou expedicionários — imediatamente viraram motivo de orgulho nacional. Em fevereiro de 1946, a Assembleia Nacional Constituinte dedicou uma de suas primeiras sessões aos veteranos da guerra. O deputado constituinte Claudino Silva (PCB-RJ) discursou:
— Esses heróis da pátria, filhos do povo, selaram com seu sangue nossa aspiração de sepultar para sempre os horrores do fascismo. Evocamos, por isso, com orgulho patriótico nossos brilhantes feitos contra as armas hitleristas, quer em Monte Castelo, Castelnuovo, Montese ou Zocca — celebrou ele, citando outras batalhas em que os brasileiros tomaram parte.
Na mesma sessão, o deputado Flores da Cunha (UDN-RS) contou ter chorado numa palestra em que um oficial da FEB narrou com detalhes a tomada daquele reduto nazista:
Capa do jornal O Cruzeiro do Sul
(imagem: Biblioteca Nacional)
— O primeiro assalto a Monte Castelo fracassou, mas, renovado no dia seguinte, ou daí a alguns dias, quando a nossa tropa galgou o cume da montanha, foram encontrados pela encosta acima os cadáveres de oito ou dez brasileiros que até lá haviam chegado na primeira investida. Quando ouvi essa narrativa, experimentei emoção até as lágrimas. O homem brasileiro, em qualquer latitude, é sempre um bravo!
A participação do Brasil na guerra mais sangrenta de todos os tempos permaneceu no imaginário dos brasileiros por muitos anos. Em 1959, o senador Caiado de Castro (PTB-DF) lembrou de sua própria atuação na Itália, como coronel, comandando os ataques a Monte Castelo.
— Foi o meu regimento, o glorioso Regimento Sampaio, aquele que maiores baixas sofreu durante a guerra. No primeiro assalto a Monte Castelo, perdeu 33% do seu efetivo e continuou na luta. No Exército francês, a perda de 10% era considerada grande, determinando, não raro, a retirada do contingente em operações. Do meu regimento, baixaram aos hospitais da Itália 1.150 homens feridos por bala. Dos [457] mortos da FEB, 188 a ele pertenciam, além de 98 mutilados.
O presidente Getúlio Vargas enviou para a campanha da Itália 25 mil combatentes, que foram divididos em cinco grupos para atravessar o Atlântico e o Mediterrâneo. O primeiro partiu do Rio de Janeiro em julho de 1944. Embora a FEB tenha permanecido na Itália por pouco mais de um ano, até setembro de 1945, os expedicionários estiveram nos campos de batalha propriamente ditos ao longo de oito meses, de setembro de 1944 a abril de 1945.
Como não tinha nenhuma experiência de guerra, a FEB atuou na campanha da Itália sob o treinamento e o comando dos Estados Unidos. Apesar de o protagonismo ter sido dos brasileiros, os norte-americanos também participaram da conquista de Monte Castelo.
A vitória foi importante porque os brasileiros e os norte-americanos estavam parados naquela posição havia três meses, sem conseguir avançar, o que dava liberdade de ação aos alemães em praticamente toda a região italiana localizada ao norte do monte.
Soldados da FEB saudados por moradores de Massarosa
(foto: Reprodução/Wikimedia Commons)
Em 1943, quando o líder fascista Benito Mussolini foi deposto, a Itália abandonou os nazistas e passou para o lado dos Aliados (Grã-Bretanha, França, União Soviética e Estados Unidos). Hitler, em reação, invadiu o novo inimigo.
Os Aliados, então, agiram para livrar os italianos do jugo nazista, avançando do sul para o norte. Quando os brasileiros chegaram para engrossar a frente aliada, Roma já estava livre. Os expedicionários lutaram no norte, buscando empurrar os alemães para fora do país.
A FEB libertou em torno de 50 localidades italianas. A última a ser tomada dos nazistas, em 29 de abril, foi a pequena Fornovo di Taro, onde nada menos que 15 mil soldados inimigos se entregaram aos brasileiros. A Alemanha se renderia incondicionalmente aos aliados em 7 de maio.
O Brasil foi o único país da América Latina a combater na Europa. O México também se envolveu na Segunda Guerra Mundial, mas seus soldados lutaram nas Filipinas.

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Vídeo conta a história da FEB, desde a criação até o retorno ao Brasil

Os papéis históricos do Arquivo do Senado, no entanto, revelam que, apesar de todo o heroísmo, os expedicionários foram praticamente esquecidos e abandonados pelo governo brasileiro assim que a Segunda Guerra Mundial terminou.
Em 1958, passados 13 anos do fim da guerra, Caiado de Castro denunciou aos colegas senadores:
— Inúmeros ex-combatentes me procuram diariamente em minha residência, no Senado e na sede do partido a que pertenço solicitando amparo, porque continuam passando necessidade, sem poderem angariar os meios de subsistência para suas famílias. Deles tenho recebido vários pedidos, até de modestos empregos, como o de gari da limpeza pública. Nesse sentido, tenho me dirigido ao prefeito do Distrito Federal [hoje cidade do Rio de Janeiro (RJ)]. Sei que me torno imprudente com as constantes solicitações, mas é a minha obrigação.
Vargas e seus sucessores na Presidência da República não se preocuparam em desenhar uma política pública consistente e abrangente para reincorporar os antigos combatentes à sociedade. Dos civis recrutados, muitos não encontraram trabalho quando regressaram para casa. Acreditava-se que eles não eram capazes nem confiáveis porque seguramente tinham "neurose" — o que hoje se conhece como transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
Além disso, o governo não concedeu imediatamente aos veteranos nenhuma pensão, ainda que tivessem ficado incapacitados em razão da tal "neurose" ou de alguma deficiência física adquirida nos campos de batalha, como um braço mutilado ou um olho cego.
Numa sessão da Assembleia Nacional Constituinte de 1946, o deputado Caires de Brito (PCB-SP) resumiu:
— Os ex-combatentes se encontram verdadeiramente num estado de semiesquecimento.
O colega Flores da Cunha acrescentou:
— Não pretendo traçar diretrizes ao governo, mas lamento que até agora não se tenha procurado premiar aqueles que foram a terras estranhas para morrer pelo Brasil. Sei de uma infinidade de expedicionários jovens, alguns de 20 anos, outros de menos, que se acham em completo abandono pelos vários estados.
Soldados da Força Expedicionária Brasileira posam com seus armamentos e munição
(foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Em outra sessão da Constituinte, Claudino Silva deu exemplos concretos do descaso governamental:
— O ex-combatente Mondino Hamilton Ilha, tuberculoso, teve alta do Hospital Militar de Belém. Mas, como não estava curado, teve que recorrer a particulares para obter o seu internamento, já que lhe negavam as autoridades a assistência necessária. O ex-combatente Vespio Manelli, recolhido à enfermaria do Hospital Central do Exército [no Rio de Janeiro], foi transferido para o Pavilhão de Neuróticos e Psicopatas por ter reclamado da pouca assistência ministrada aos enfermos.
O deputado prosseguiu:
— O caso do soldado [Édson] Jatobá é o mais doloroso. Vive esse herói da pátria num leito do Hospital Central do Exército, com a espinha quebrada e a pele colada nos ossos, como um espectro fugido de um campo de concentração. Entrevistado por um jornalista, teve o soldado Jatobá a ideia de reclamar das tristes condições em que se encontra. O resultado é que um oficial, irritado com as declarações, teve a coragem de insultá-lo e castigá-lo, como se ainda vivêssemos nos tempos de Hitler e Mussolini.
Silva concluiu fazendo uma comparação:
— Em países democráticos e avançados, os ex-combatentes têm direitos líquidos e assegurados e todas as honrarias. Assim acontece na América do Norte, na Inglaterra, na União Soviética, na Iugoslávia, na França. Mas, entre nós, não há ainda uma legislação que ampare os ex-combatentes, e as poucas leis existentes são incompletas e, mesmo assim, não se aplicam.
Não foram só os ex-combatentes de origem civil que sofreram no regresso da guerra. Os militares de carreira também enfrentaram dificuldades. Apesar de terem o emprego garantido, eles foram boicotados pelos colegas que haviam permanecido no Brasil durante o conflito. Estes se sentiram enciumados diante dos expedicionários, que chegaram sendo tratados como heróis, recebendo honrarias e ganhando prioridade nas promoções. Em retaliação, procuraram dar-lhes os trabalhos mais enfadonhos e transferi-los para os quartéis mais remotos e desimportantes do território brasileiro.
Em 1960, uma decisão do prefeito do Distrito Federal, Sá Freire Alvim, provocou indignação generalizada. Os parlamentares locais aprovaram uma lei isentando do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) tanto os veteranos da Itália quanto os futebolistas que venceram a Copa do Mundo de 1958. O prefeito aceitou a isenção aos atletas, mas vetou o benefício aos soldados, sob o argumento de que a medida seria prejudicial para os cofres públicos.
Mensagem em que o presidente Getúlio Vargas pede ao Congresso que aprove a liberação de verbas para a construção de um mausoléu destinado a abrigar os restos mortais dos expedicionários mortos na Itália (Arquivo do Senado)
Com o intuito de oferecer ajuda material aos veteranos em dificuldades e pressionar o poder público a tomar medidas, os soldados criaram a Associação dos Ex-Combatentes do Brasil, ainda em 1945, e o Clube dos Veteranos da Campanha da Itália (depois Associação Nacional dos Veteranos da FEB), em 1963. As organizações tinham unidades espalhadas em praticamente todo o território nacional. Elas ainda existem e, embora sem a capilaridade do passado, dedicam-se a preservar a memória dos soldados.
Em 1960, o senador e ex-combatente Caiado de Castro disse:
Getúlio Vargas visita soldados da FEB durante embarque para a Itália
(foto: Arquivo Nacional/Agência Nacional)
— Enfileirei-me entre esses homens e tenho o orgulho de dizer que eu, homem pobre que vive exclusivamente dos seus ordenados, durante mais de dez anos registrei 10% do que ganhava para sustentar os pracinhas. As Associações dos Ex-Combatentes de Minas, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e outros estados devem atestar que constam de seus anais o que pude fazer por esses homens, dos praças aos oficiais, dando-lhes sanatórios para tuberculosos, casas, tudo comprado a prestação, em benefício dos meus companheiros.
Segundo ele, o Estado brasileiro só se preocupou com os expedicionários que morreram na Itália, garantindo às suas famílias diferentes pensões, e deixou os sobreviventes de lado. O senador arrematou:
— Lamento somente [por] aqueles que não tiveram a ventura de morrer na guerra e voltaram ao Brasil para sofrer, pois a maioria deles está passando grande miséria.
Ao contrário dos soldados, o comandante da FEB, general João Batista Mascarenhas da Moraes — que fora escolhido para esse posto diretamente pelo presidente Getúlio Vargas — recebeu todas as homenagens públicas possíveis de 1945 em diante. Ele, contudo, procurou usar essa influência para obter do governo benefícios para os expedicionários.
Em 1952, em sua segunda passagem pela Presidência da República, Vargas apresentou à Câmara um projeto de lei liberando as verbas necessárias para a construção de um mausoléu destinado a abrigar os restos mortais dos expedicionários que ainda estavam sepultados na Itália. Os deputados, porém, acharam melhor economizar e mudaram o projeto, prevendo a reforma do Monumento ao Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, para que nele fossem depositados os restos mortais.
Furioso, Mascarenhas enviou uma carta aos senadores:
General Mascaranhas De Moraes,
durante a campanha na Itália
(foto: U.S. National Archives/Wikimedia)
"Tendo a Comissão de Repatriamento, por diversas razões, de ordem histórica, militar, política e mesmo estética, decidido pela construção de novo monumento e tendo a Câmara dos Deputados alterado o espírito da mensagem presidencial, venho solicitar que seja restituída ao projeto a faculdade prevista na referida mensagem".
Os senadores atenderam ao ex-comandante da FEB, e o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, mais conhecido como Monumento aos Pracinhas, foi construído no Aterro da Glória, no Rio de Janeiro.
O senador Caiado de Castro não se deixou impressionar. Em tom de ironia, ele discursou:
— Está em construção o monumento aos heróis da FEB, que custará 300 milhões de cruzeiros. Servirá de abrigo aos namorados ou será o ponto onde irão esmolar os militares desprotegidos? Envergonho-me, senhores senadores, quando saio do Senado e encontro à porta um ex-soldado pedido 20 ou 30 cruzeiros para matar a fome.
Em 1960, as urnas dos mortos foram levadas do Cemitério de Pistoia, na Itália, para o novo mausoléu. O presidente Juscelino Kubitschek participou da cerimônia no Rio.
Apenas em 1967 o governo aprovou uma lei dizendo claramente quem eram os ex-combatentes da Segunda Guerra Mundial e quais deles fariam jus a certos benefícios. Foram incluídos na lista os militares que ficaram no Brasil e, por exemplo, atuaram no monitoramento e na proteção da costa, ameaçada pelos submarinos nazistas.
Em 1988, a Constituição lhes concedeu novos direitos, como o aproveitamento no serviço público sem a necessidade de concurso e a prioridade na aquisição da casa própria. A Carta também estabeleceu que os veteranos passariam a receber uma pensão equivalente ao soldo de um segundo-tenente.
O historiador Daniel Mata Roque, um dos vice-presidentes da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, explica que o poder público, na realidade, criou inúmeras leis, inclusive estaduais e municipais, favorecendo os expedicionários.
— A legislação produzida foi grande, mas por vezes nasceu de forma desordenada e não chegou a ser aplicada. Muitos veteranos morreram sem saber que tinham esses direitos — afirma Roque. O livro A Legislação do Ex-Combatente, produzido no fim dos anos 1970 por um ex-combatente de guerra da Marinha, apontou a existência de quase 300 normas legais assinadas entre 1945 e 1978.
Cartaz produzido pelo DIP exaltando a
participação do Brasil na II GM
(Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Segundo o historiador, uma das razões para o governo não ter elaborado uma verdadeira política pública para os expedicionários é o tamanho proporcional do contingente. Na época da guerra, o Brasil tinha 41 milhões de habitantes. Os 25 mil integrantes da FEB representavam, portanto, apenas 0,06% da população brasileira.
— Países como os Estados Unidos, a União Soviética e a Polônia tiveram ministérios específicos que tratavam dos assuntos relativos aos ex-combatentes. Mas esses foram países que destacaram contingentes enormes para guerras. Os Estados Unidos, por exemplo, contabilizavam 16 milhões de ex-combatentes após o fim da Segunda Guerra Mundial. Com números bem mais modestos, os nossos expedicionários não conseguiram ter o mesmo reconhecimento do governo brasileiro.
Nos primeiros momentos dessa guerra, iniciada em 1939, tanto o Brasil quanto os Estados Unidos se mantiveram neutros. Em 1941, os norte-americanos entraram no conflito e pressionaram o Brasil a fazer o mesmo.
Vargas, porém, resistiu. O presidente flertou com os norte-americanos e os alemães simultaneamente, esperando deles dinheiro e tecnologia para modernizar as Forças Armadas e impulsionar a indústria pesada nacional.
Quem atendeu aos desejos de Vargas foram os Estados Unidos. Em 1941, um decreto presidencial estabeleceu a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), criada com fundos norte-americanos. No ano seguinte, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália.
Também pesaram na decisão do presidente o torpedeamento de navios mercantes do Brasil por submarinos alemães e manifestações de rua em diferentes cidades, encabeçadas por entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE), para que o país agisse contra o imperialismo nazista.

Rendição de oficial alemão à FEB após a batalha de Fornovo di Taro
(foto: Reprodução/Wikimedia Commons)
A vitória dos brasileiros na Itália, de acordo com historiadores, teve influência na queda da ditadura do Estado Novo, em outubro de 1945. Vargas governava de forma autoritária desde 1937, quando deu um autogolpe de Estado, extinguiu a Câmara e o Senado e impôs uma Constituição nada democrática.
Vargas foi derrubado por militares, mas eles não pertenciam à FEB. O papel dos expedicionários na redemocratização do Brasil foi, na realidade, indireto e simbólico. O raciocínio é simples: seria incoerente o Brasil continuar com seu regime ditatorial depois de ter entrado numa guerra com o objetivo de derrotar as ditaduras nazifascistas e promover a democracia.
Sargento Oscar Cardoso Garcez, com prisioneiro alemão
(foto: Reprodução/Jornalismo de Guerra)
Diferentes parlamentares já na época faziam essa interpretação. Um deles, o deputado constituinte (e futuro senador) Juracy Magalhães (UDN-BA) disse em 1946:
— Os bravos soldados, aviadores e marinheiros do Brasil facilitaram o processo de recuperação democrática em nossa terra. Tivemos uma campanha eleitoral [para presidente da República], e o prélio das urnas afastou de nossa terra o regime que combatemos em terras alheias e possibilitou a vida desta Assembleia, que dará ao Brasil uma Constituição genuinamente democrática.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, Claudino Silva afirmou:
— Sem a derrota militar de Hitler, não era possível pensar-se na liquidação da ditadura brasileira. Compreendíamos que, ao declarar guerra ao Eixo e ao enviar os soldados expedicionários, o governo do Brasil dava os mais largos passos no caminho da democracia, pois estava tomando posição contra o fator internacional que criara o clima onde puderam medrar os regimes fascistas e as ditaduras, estava tomando posição contra Hitler e Mussolini, que eram, em realidade, os artífices máximos do Estado Novo.
Em 1947, como senador, Getúlio Vargas (PSD-RS) foi atiçado por seus adversários a explicar essa contradição de seu governo, o que gerou uma acalorada discussão no Senado.
— Eu me pergunto: por que lutamos nós? Por que o Brasil mandou seus heróis aos campos de batalha da Europa? — questionou o ex-ditador.
— Para defender a democracia, livrar o Brasil da ditadura e do Estado Novo e nele implantar a democracia — respondeu, provocativo, o senador Arthur Santos (UDN-PR).
— Não acredito que Vossa Excelência esteja enquadrado entre os acusadores do tempo em que se organizou a Força Expedicionária — devolveu, no mesmo tom, Vargas.
— Nós, os democratas, é que fomos os mais entusiastas defensores da colaboração do Brasil junto às nações que desejavam implantar no mundo o regime democrático. Não pode dizer que foi Vossa Excelência quem mandou a Força Expedicionária para combater na Europa o totalitarismo que ameaçava o mundo — reagiu Santos.
— Fui eu quem tomou a iniciativa — assegurou Vargas.
— Foi a nação brasileira, foram as tendências democráticas do nosso povo — insistiu Santos.
— Foi o povo e fui ao encontro dos seus desejos. Felizes os governos que sentem os desejos dos povos e que os atendem. Nunca me envergonhei de ter seguido a orientação do povo brasileiro — afirmou Vargas, usando toda a sua habilidade política para encerrar a discussão.
Criada no papel em 1943, a FEB precisou de um ano para se tornar realidade. A maior dificuldade do governo Vargas foi arregimentar os combatentes civis. As autoridades militares esperavam dispor de 100 mil soldados, a serem agrupados em três divisões militares. Os jovens não atenderam ao chamado, e o Brasil conseguiu criar uma única divisão, com 25 mil expedicionários.
O ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, não escondeu a decepção. Numa carta ao presidente Vargas, ele escreveu que sonhava ter uma tropa de elite composta de combatentes com "espírito cultivado" e "corpo sadio e forte" — isto é, gente branca, educada e oriunda das classes média e alta. Em vez disso, viu a FEB ser criada a partir da "massa analfabeta, inculta e desprotegida do povo".
Chegada de expedicionários ao Brasil, em agosto de 1945
(foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Num discurso em 1947, o senador Luís Carlos Prestes (PCB-DF) fez uma avaliação diferente:
— Nossos soldados na Itália demonstraram as qualidades do nosso povo. Desmentiram, assim, todos os pessimistas, esses senhores que procuravam uma explicação superficial para o nosso atraso nessa teoria anticientífica das raças, baseada num falso "antropologismo". Nossos caboclos provaram no solo da Itália sua grande capacidade de resistência física, de estoicismo, de lealdade, de bravura, de coragem.
Muitos dos expedicionários não gostavam de ser chamados de "pracinhas". O praça, no jargão militar, é o soldado raso e sem qualificação. Para eles, o diminutivo dava uma carga ainda mais negativa à palavra. Os detratores da FEB por muito tempo espalharam que os enviados à Itália eram um grupo de desdentados maltrapilhos que estavam despreparados para o combate, serviram de bucha de canhão e, tendo chegado apenas nos meses finais, não fizeram diferença na guerra.
O historiador Francisco Cesar Ferraz, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e autor do livro A Guerra que não Acabou: a reintegração social dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira, discorda dessa descrição:
— Eles foram para uma luta de vida ou morte num ambiente desconhecido e extremamente hostil, ora com calor escaldante, ora com temperaturas caindo a -20ºC. Foram corajosos, libertaram inúmeras cidades dos nazistas e capturaram, ao todo, mais de 20 mil inimigos. Para uma força composta de 25 mil homens, esse não é um feito nada desprezível. É com razão que muitos deles rechaçavam a palavra "pracinha", pois remetia a uma situação de inferioridade que não correspondia à realidade.
Chegada de expedicionários ao Brasil, em agosto de 1945
(foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
O escritor Rubem Braga foi enviado à Itália pelo jornal Diário Carioca para acompanhar as ações da FEB. Numa reportagem escrita no primeiro dia de 1945, o correspondente de guerra narrou o tenso momento em que uma patrulha de expedicionários brasileiros por pouco não foi capturada ou morta por soldados nazistas:
Aconteceu que saiu uma patrulha com dois sargentos, nove soldados e um partigiano. A certa altura ela se dividiu em dois grupos. O sargento José Rodrigues de Oliveira Ribeiro, que chefiava um deles, viu uma casa onde supunha que houvesse alemães. Deixou três homens esperando atrás de um barranco e avançou cautelosamente com o soldado Érico Domingos Porto. Os dois homens andavam a certa distância um do outro — os dois metidos em seus capotes brancos com capuzes brancos. O sargento ia andando com todo cuidado quando viu um soldado a alguns metros de distância. Teve a impressão de que o soldado ia lhe dizer alguma coisa, e, levando um dedo à boca e franzindo a sobrancelha, fez um gesto para que ele não dissesse nada, ficasse em silêncio, para não despertar a atenção do inimigo que devia estar dentro da casa. O soldado fez um gesto que sim com a cabeça e acrescentou baixinho:
— Ya, ya.*
No mesmo instante quase, voltando-se, esse soldado viu Érico e apontou para ele o fuzil. Não teve tempo, porém, de puxar o gatilho: o sargento derrubou-o com uma rajada de metralhadora de mão.
O caso não foi difícil de explicar. Como os alemães também andam encapotados e encapuzados de branco, o engano foi mútuo. Assim como o sargento pensou que o soldado fosse brasileiro, o soldado alemão pensou que o sargento Ribeiro fosse alemão — mesmo porque ele é um homem de tipo sanguíneo e claro. No instante, porém, em que viu o praça Erico — moreno e franzino —, o alemão viu que era inimigo e apontou o fuzil. Mas, nesse segundo, o seu "ya, ya" já havia revelado sua nacionalidade ao sargento.
Foi, de resto, uma patrulha feliz: o sargento matou mais um alemão que ia lhe lançando uma granada e o soldado Érico acertou uma granada no peito de outro alemão que ia saindo da casa com um fuzil na mão. A casa foi atacada com rajadas de metralhadora e três granadas lança-rojão — duas das quais bateram na parede sem produzir efeito e a outra arrebentou a porta. O sargento Pedro Rubim e o soldado José Xavier dos Santos, do outro grupo em que se dividira a patrulha, derrubaram um alemão com rajadas de metralhadora. O homem caiu, não se sabe se morto ou ferido — e depois disso nossa patrulha se retirou. [...]
O soldado Érico, depois de sair na patrulha, notou que sua metralhadora estava engasgada — de fato falhou —, mas assim matou um tedesco [alemão]. Érico foi ferido na perna, mas recusou-se a ser carregado pelos companheiros, voltando à posição andando. Seu ferimento não tem gravidade.
*Ja, ja: "sim" em alemão
A FEB foi extinta no mesmo dia em que o primeiro grupo de expedicionários embarcou na Itália de volta para o Brasil, em julho de 1945.












Monumento ao soldado desconhecido, no Cemitério de Pistoia, na Itália; e Monumento aos Pracinhas, no Rio de Janeiro
(Giovanni Baldini/Wikimedia e Fernando Dall'Acqua/Wikimedia)
A rapidez se explica pela ebulição política que o país vivia naquele momento. Dados os ventos democráticos vindos da vitória na Europa, a ditadura do Estado Novo estava com os dias contados. Por essa razão, e buscando controlar a transição democrática, Vargas marcou eleição presidencial para dezembro.
O ditador, contudo, dava sinais de que poderia virar a mesa e dar um novo autogolpe de Estado. O principal sinal disso era o "queremismo", movimento político que pedia a sua permanência no governo (o slogan era "Nós queremos Getúlio").
Nesse ambiente instável, a FEB era uma ameaça para os dois lados. A oposição, que desejava a eleição presidencial e o fim da ditadura, temia que Vargas, vitorioso na guerra, empregasse os expedicionários no autogolpe. O presidente, por sua vez, acreditava que era a oposição que contaria com o apoio dos veteranos da Itália, já que eles, teoricamente, tinham aprendido a valorizar a democracia e atenderiam ao chamado para derrubar o ditador.
Supostamente perigosa tanto para o presidente quanto para os seus adversários, a FEB não encontrou quem lhe defendesse. Com uma simples canetada do governo, foi apagada, desaparecendo como se jamais tivesse existido.
O historiador Francisco Cesar Ferraz, da UEL, avalia que, se o apagamento foi forte nas primeiras décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial, a situação piorou na década de 1980, com a redemocratização pós-ditadura militar. Nesse momento, os ex-combatentes passaram a ser malvistos pela sociedade. Ele explica:
— Confundiram-se os ex-combatentes com o grupo militar que deu o golpe de Estado em 1964, como se eles tivessem ajudado a impor a ditadura. Essa associação é equivocada. Havia expedicionários de todos os matizes políticos, e um ou outro participou individualmente do golpe, mas a FEB, como instituição, não tinha ideologia. Foi justamente na década de 1980 que ganharam força aquelas histórias que minimizavam e ridiculizavam a participação dos expedicionários na guerra.
Entre os ex-combatentes de direita, aparecem o general Humberto Castello Branco, que depois seria o primeiro presidente da ditadura, e o general Golbery do Couto e Silva, um dos nomes fortes do regime militar.
Dos ex-combatentes de esquerda, destacam-se o historiador Jacob Gorender, que fundaria o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), e o economista Celso Furtado, ministro do Planejamento e da Cultura e um dos principais estudiosos do subdesenvolvimento brasileiro.
Segundo Ferraz, a FEB começou a ser reconhecida apenas em meados de década de 1990, quando as tensões políticas que marcaram a redemocratização praticamente desapareceram. Isso se nota na quantidade crescente de pesquisas acadêmicas sobre o tema que vêm sendo feitas nas universidades.
Para ele, é fundamental que os brasileiros de hoje conheçam a participação dos expedicionários na Segunda Guerra Mundial. Primeiro, porque o alinhamento com os Estados Unidos e o consequente envio da FEB para a Itália foi um divisor de águas para o Brasil tanto em termos econômicos quanto culturais, com reflexos que se veem até hoje.
— Na economia, esse foi o momento em que o Brasil deu início à sua indústria pesada, a partir do financiamento norte-americano. O país, então, se industrializou e se urbanizou. Na cultura, foi o momento em que trocamos a influência francesa, que dominava a sociedade brasileira, pela influência norte-americana, com seu modo de vida consumista — diz.
Ferraz aponta uma segunda razão:
— Nestes dias atuais, em que a ditadura militar tem sido relativizada por muita gente, precisamos nos lembrar que houve um momento em que os brasileiros deixaram a polarização de lado e saíram às ruas para exigir que o governo entrasse na guerra para impedir o avanço das ditaduras fascistas e defender a democracia. Os simpatizantes do nazifascismo chegaram a espalhar fake news dizendo que os navios do Brasil não tinham sido afundados por submarinos da Alemanha, mas por navios dos Estados Unidos. Felizmente essas fake news não convenceram, e os brasileiros entenderam qual era o lado que o país deveria apoiar na guerra.
O historiador Daniel Mata Roque, da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, também defende que a história dos expedicionários seja de conhecimento geral no Brasil de hoje:
— Há mais de dez anos, um veterano me disse o seguinte: "Para que os brasileiros entendessem tudo aquilo que nós passamos na Itália, seria preciso haver uma guerra no Brasil. Por essa razão, prefiro que eles permaneçam na ignorância. Eu não desejo uma guerra aqui". Essa fala dá a ideia do tamanho da bestialidade, do sacrifício e do sofrimento de uma guerra. Quando conhecemos a história da FEB, entendemos que hoje precisamos agir diferente e evitar a guerra a qualquer custo, para que nem nós nem nossos filhos tenhamos que passar por aquilo que os expedicionários passaram.
Roque concorda que o interesse pelos expedicionários tem aumentado nos últimos anos. Ele diz que isso também se nota nos encontros anuais dos veteranos. Embora haja cada vez menos ex-combatentes vivos, o número de participantes é crescente, atraindo pesquisadores acadêmicos e amadores, estudantes, professores, colecionadores de objetos de guerra, militares mais novos e simples curiosos.
Presidente Juscelino Kubitschek no Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Rio de Janeiro, em 1960 (foto: Agência Nacional/Arquivo Nacional)
Atualmente, existem menos de 40 expedicionários vivos, de acordo com informações das duas entidades que os representam. O mais novo tem 100 anos; o mais velho, 107.
O símbolo da FEB é uma cobra fumando um cachimbo. Existem várias explicações possíveis para a imagem. Segundo a mais plausível, trata-se de uma resposta àqueles que diziam que o Brasil não tinha coragem ou capacidade militar e só iria para a guerra no dia em que uma cobra fumasse. Já na guerra, quando algum conflito se aproximava, os soldados diziam: "A cobra vai fumar". O distintivo com a cobra fumando apareceu no uniforme dos expedicionários, costurado na altura do ombro.

sábado, 10 de janeiro de 2026

2026: Sobrevivência ou Liberdade?

Por Leandro Ruschel
Uma das características humanas mais prevalentes é a adaptabilidade.
Essa característica traz consequências positivas e negativas.
A consequência positiva é a capacidade de sobreviver em qualquer ambiente, especialmente do ponto de vista psicológico.
A consequência negativa é a acomodação — ou seja, a aceitação de uma situação cada vez mais desfavorável.
No caso brasileiro, o problema é ainda mais grave, porque a destruição do país aconteceu aos poucos. Somos o sapo sendo cozido em fogo baixo.
Primeiro, foram degradando os padrões morais e subvertendo a Justiça, que passou a tratar bandidos como “vítimas da sociedade” e as verdadeiras vítimas como “opressores”, produzindo uma sociedade disfuncional e estimulando a explosão da criminalidade, do topo à base da pirâmide social.
Para conter a revolta da parcela decente da sociedade, o establishment retirou nossas liberdades básicas, criminalizando qualquer oposição.
E não foi de um dia para o outro.
Foi um processo lento, ao longo dos últimos sete anos. Primeiro, veio a censura para combater as “fake news” e o “discurso de ódio”.
Depois vieram as prisões para “proteger as instituições” e “defender a democracia”. Em paralelo, a elite envolvida no saque ao país, exposto na Lava Jato, foi na prática anistiada e consolidou o poder, enquanto seus opositores foram criminalizados sob a acusação de “tentativa de golpe”, numa inversão completa da realidade.
A devastação moral provocada pela passada de borracha em um dos maiores escândalos de corrupção do mundo é incalculável — e vai muito além da simples normalização do desvio de recursos públicos como algo inerente ao sistema brasileiro. A mensagem é clara: no Brasil, o crime VALE A PENA! Não por acaso, a criminalidade é percebida hoje como o maior problema do país, segundo diversas pesquisas de opinião.
Tudo isso sob o aplauso de boa parte dos nossos “intelectuais” e de empresários amigos do rei.
Agora, o medo e a desconfiança reinam, e 2025 vai se encerrando com a explosão de um conflito interno do establishment político, econômico e midiático — como sempre acontece na fase de acomodação de um regime autoritário. O nível de degradação do sistema está exposto, e até mesmo setores da imprensa que antes justificavam um mar de arbitrariedades começam a reconhecer: a suposta “proteção” da democracia foi a máscara barata para enriquecimento e concentração de poder sem limites.
Antes, havia corrupção e crime nas ruas, mas pelo menos tínhamos liberdade para criticar políticos, nos organizar e apresentar projetos alternativos de poder. Hoje, nem isso.
O medo reina. Fazer oposição é um ato arriscado, capaz de gerar consequências terríveis para a vida pessoal e profissional dos opositores.
Nesse cenário, a adaptação começa a jogar a favor do sistema. A maioria das pessoas passa a praticar autocensura para evitar problemas, criando a famosa Espiral do Silêncio — base de qualquer regime autoritário e o caminho para o totalitarismo.
Amorais vão mais longe e passam a colaborar com o regime em troca de vantagens. Seja o empresário que se beneficia de empréstimos subsidiados, contratos e regulações favoráveis; seja o artista favorecido por patrocínios; sejam os jornais mantidos por verbas publicitárias; seja o cidadão comum que troca seu voto por uma bolsa-esmola — todos contribuem para sustentar as engrenagens de um sistema corrompido e cada vez mais autoritário.
Só há um problema: a aparente segurança de se afastar do debate público — ou de colaborar com o regime — é uma miragem. A história mostra que NINGUÉM ESTÁ SEGURO em um regime autoritário, nem mesmo aqueles que hoje mandam. Não há dinheiro, cargo ou influência que impeça que você vire alvo do próprio sistema — ou de um criminoso comum, capaz de tirar sua vida num piscar de olhos.
Que em 2026 os brasileiros possam recuperar seus direitos fundamentais — a liberdade de expressão, a livre associação, a liberdade religiosa e o direito de ser julgado diante da lei de forma igualitária, e não pelos desígnios de tiranos que se colocam ACIMA DA LEI. Que as pessoas de bem neste país possam se organizar e iniciar um processo de refundação e reconstrução.
Feliz 2026 para os que não se calam, não se dobram e não se adaptam ao inaceitável!