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sábado, 20 de dezembro de 2025

É Sempre Uma Alegria Ouvir Falar de Lulinha

É sempre uma alegria ouvir falar de Lulinha, o filho mais velho do companheiro Lula. Ele surgiu para o mundo lá se vão vinte anos, quando eu era redator-chefe da Veja. Era outro mundo, mas Lulinha continua o mesmo.
O nome do filho mais velho do presidente da República apareceu no âmbito das investigações sobre as fraudes perpetradas no INSS contra aposentados e pensionistas. Uma testemunha na investigação disse à PF que Lulinha teria recebido do Careca do INSS o equivalente a R$ 25 milhões, além de uma mesada de R$ 300 mil. O rapaz nega tudo e avisou que vai processar quem o acusa.
A testemunha também afirmou à PF que Careca e Lulinha viajavam juntos às expensas do fraudador. Há prova de que ambos estavam na 1ª classe de um avião da Latam que os levou de São Paulo para Lisboa, em 8 de novembro do ano passado, como publicou o colega André Shalders, da coluna de Andreza Matais.
Eu disse que Lulinha continua o mesmo, porque há sempre quem insista em associá-lo ao recebimento de boladas formidáveis, não exatamente fruto de trabalho árduo.
Ele surgiu para o mundo depois que a Veja revelou, em 2005, que Lulinha, monitor de zoológico até dois anos antes, era sócio de uma empresa de produção de conteúdos de jogos eletrônicos, a Gamecorp, que havia levado uma baba de dinheiro da Telemar/Oi, concessionária de telefonia pública.
Entre investimentos, contratos de serviços e de publicidade, a Telemar/Oi repassou, entre 2004 e 2016, R$ 132 milhões ao que se tornou o grupo Gamecorp/Gol. Essa dinheirama teria sido transferida a uma empresa de porte idêntico cujo sócio não fosse filho de Lula?
Desde o início, levantou-se a desconfiança de que tudo era pagamento por vantagens regulatórias, como a aprovação da fusão da Oi com a Brasil Telecom, que viria a ocorrer em 2008. Em outras palavras, remuneração por tráfico de influência. Mas nada ficou provado na base do batom na cueca, com o perdão do meu francês.
Em 2019, Lulinha também seria investigado pela Lava Jato, como suposto financiador de reformas no famoso sítio de Atibaia. O caso acabou arquivado.
A História é uma Istória, como dizia Millôr Fernandes, e antes de publicarmos a primeira reportagem sobre o incrível sucesso do filho do presidente, Lula telefonou para a Veja, pedindo para que não a chamássemos na capa da revista, porque a sua mulher, Marisa, morreria de desgosto. Fizemos esse favor.
Lulinha, no entanto, continuou na mira dos repórteres da Veja. Pouco tempo depois, a sucursal de Brasília descobriu que o filho do presidente mantinha parceria com um lobista brasiliense.
Ao ser comunicado sobre a nossa apuração, o Palácio do Planalto tanto fez para que a revista não publicasse a segunda reportagem sobre Lulinha, que ela permaneceu engavetada durante meses.
Até que Lula deu uma entrevista à Folha. Indagado pelos repórteres do jornal sobre a carreira empresarial fulgurante do filho mais velho, o presidente disse que não tinha culpa de Lulinha ser um “Ronaldinho dos negócios”.
A declaração que soou cínica foi a gota d’água para que nós, editores da revista, finalmente publicássemos, no final de 2006, em plena campanha presidencial, a reportagem sobre a parceria de Lulinha com o lobista. Dessa vez, na capa. Roberto Civita, dono da Veja, chegou a ter fibrilação cardíaca, já antecipando o problemão que isso causaria.
De fato, entre outras delicadezas endereçadas a nós, a Veja foi acusada de ter publicado a reportagem para tentar evitar a reeleição de Lula. A verdade é que só não o fizemos antes porque o próprio Lula fez pressão para que a segurássemos.
Agora, temos Lulinha no noticiário outra vez. Mas a alegria que ele costuma nos proporcionar será ainda mais efêmera, porque o jornalismo mudou para pior e o rapaz mudou-se para Madri, em meados deste ano, a pretexto de prestar consultorias para empresas espanholas. A História é uma Istória, e até hoje há quem acredite ser verdadeira a anedota de que Rui Barbosa deu aulas de inglês em Londres.
Fonte: Metropoles

terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Caminhos do Tempo

 por José Luiz Ricchetti
Há um silêncio que chega com os anos, e ele não é feito apenas da ausência de ruídos, mas da transição suave entre o que éramos e o que nos tornamos. Aos 60, você começa a sentir a sutileza do distanciamento. A sala que antes pulsava com suas ideias agora parece cheia de vozes que não pedem mais sua opinião. Não é uma rejeição, é o ritmo da vida. É quando aprendemos que nossa contribuição não está no presente imediato, mas nos rastros que deixamos nos corações e mentes ao longo do caminho.
Aos 65, você percebe que o mundo corporativo, outrora tão vital, é um fluxo incessante. Ele segue, indiferente ao que você fez ou deixou de fazer. Não é uma derrota, é a libertação. Esse é o momento de olhar para si mesmo, despir-se do ego e vestir a serenidade. Não se trata mais de provar, mas de ensinar, de compartilhar, de ser mentor. A verdadeira realização não é a que se exibe, mas a que inspira.
Aos 70, a sociedade parece esquecê-la/esquecê-lo, mas será mesmo? Talvez seja apenas um convite para reavaliar o que realmente importa. Os jovens não a/o reconhecerão pelo que você foi, e isso é uma bênção disfarçada: você pode agora ser apenas quem você é. Sem máscaras, sem títulos, apenas a essência. Os velhos amigos, aqueles que não perguntam “quem você era”, mas “como você está”, tornam-se joias preciosas, diamantes que brilham no crepúsculo da vida.
E então, aos — que alcançam a graça de chegar — 80 ou 90, é a família que, na sua correria, se afasta um pouco mais. Mas é aí que a sabedoria nos abraça com força. Entendemos que amor não é posse; é liberdade. Seus filhos, seus netos, seguem suas vidas, como você seguiu a sua. A distância física não diminui o afeto, mas ensina que o amor verdadeiro é generoso, não exigente.
Quando a Terra finalmente chamar por você, não há motivo para medo. É a última dança de um ciclo natural, o encerramento de um capítulo escrito com suor, lágrimas, risos e memórias. Mas o que fica, o que realmente nunca será eliminado, são as marcas que deixamos nas almas que tocamos.
Portanto, enquanto há fôlego, energia, enquanto o coração bate firme, viva intensamente. Abrace os encontros, ria alto, desfrute os prazeres simples e complexos da vida. Cultive suas amizades como quem cuida de um jardim. Porque, no final, o que resta não são as conquistas, nem os títulos, nem os aplausos. O que resta são os laços, os momentos partilhados, a luz que espalhamos.
Seja luz, seja presença, e você será eterno.
Dedico a todos que entendem que o tempo não apaga, mas apenas transforma.

sábado, 19 de dezembro de 2020

O Homem que Humilhou os Castro Duas Vezes

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Fugiu de Cuba e voltou para buscar a Família
No dia 20 de maio de 1991, decolou de solo cubano o Major Orestes Lorenzo, em um Mig-23 para mais um treinamento de rotina. Na máxima velocidade e rente ao mar (2mts) para fugir dos radares cubanos e americanos, em menos de 10 minutos atravessou os 150 km que afastam os dois países, os radares americanos apenas o detectam 45 segundos antes dele aterrizar na Base Aérea de Key West. 
Após os interrogatórios de praxe Orestes solicita asilo político nos EUA. O Major Lorenzo era um dos melhores pilotos de Cuba, veterano da guerra de Angola e com inúmeras missões, tinha até sido instrutor na União Soviética.
Na sua última visita ao país já durante a Perestroika de Gorbachov, Orestes começou a questionar o regime comunista e a vida das pessoa na Rússia e em Cuba.
A sua deserção foi uma grande humilhação para o regime dos Castro, já que um veterano condecorado piloto tinha não só abandonado o paraíso comunista como também exposto na televisão americana todos os problemas da Ilha.
Assim que teve aprovado seu status de refugiado politico Orestes solicitou ao governo de Cuba a saída de sua esposa e seus dois filhos para os EUA, mas recebeu a negativa do então Comandante da Forças Armadas Raul Castro.
Orestes recorreu à Comissão de Direitos Humanos da ONU sem êxito, na Cúpula Ibero-americana de 1992 celebrada em Madri e com presença de Fidel Castro, ele se prendeu as grades do prédio em sinal de protesto, a rainha Sofia que era muito próxima do Fidel pediu para liberarem a família de Orestes sem sucesso.
Raul Castro pessoalmente falou para Victoria (esposa de Orestes) "diga para seu marido que se teve culhões para levar o avião embora, então que os tenha também para vir buscar vocês".
Orestes, então, publicou uma carta aberta à Fidel no The Wall Street Journal afirmando que se sua esposa e filhos fossem liberados ele se entregaria para ser julgado por uma corte marcial em Cuba, mas nunca teve resposta.
Sem êxito em suas tentativas de se reunir com a família por vias diplomáticas e já desesperado Lorenzo decidiu então ir pessoalmente buscar sua família.
Pegou U$ 30.000 emprestados de uma organização humanitária é comprou um velho Cessna 310 bimotor, umas amigas mexicanas turistas levaram um recado a sua esposa em Cuba dizendo hora, dia e local onde deveriam estar. Assim no dia 19 de dezembro de 1992, ás 17:00 horas, decolou de um pequeno aeroclube perto de Miami e falou “Se em 2 horas não voltar é por que estou morto”.
MIA02-ORLANDO-(EEUU)-11/03/04-El ex piloto militar cubano Orestes Lorenzo, que se fugó en 1991, de Cuba en un avión MiG-23 y que regresara un año después por su familia en una avioneta, ha rechazado cinco guiones y la película sobre su proeza. EFE/Orestes Lorenzo
Sendo piloto de MiG, ele estava intimamente familiarizado com as defesas aéreas cubanas. Como auxílio visual, Orestes desenhou marcações em um mapa. Semicírculos vermelhos marcavam os setores de SAM (mísseis superfície-ar), um corredor amarelo marcava uma área cega para o radar devido ao terreno e uma linha verde perto do paralelo 24 indicava o limite do alcance do radar cubano.
Além disso, Orestes conhecia os procedimentos de comando e controle cubanos. “Eu sabia que nenhum SAM poderia ser lançado sem a permissão pessoal de Castro. A razão para isso era que Castro não queria ser abatido por engano quando estava voando".
Mais uma vez voando rente ao mar para fugir dos radares americanos e cubanos Orestes se aproximou de uma estrada na praia de Mamey a uns 120 km de Havana, onde sua esposa e filhos o aguardavam. Com extrema perícia, pousou sua avioneta na estrada e em menos de um minuto embarcou sua família decolando novamente rente ao mar a 20 pés (5 a 6 metros) de altitude, rumo aos Estados Unidos, assim que ultrapassaram os limites cubanos ele falou para os familiares: "agora vocês são livres".
O ato de Orestes foi um escândalo midiático pois pela segunda vez tinha ridicularizado o regime castrista. Em uma entrevista coletiva, em Miami, falou  "Digam para Raul Castro que lhe segui o conselho e eu mesmo fui buscar minha família”. 
Atualmente, Orestes Lorenzo é um bem sucedido empresário no ramo da construção civil nos Estados Unidos e ainda voa em shows aéreos num Albatroz.
Fonte:  Hideo in Japan

domingo, 1 de novembro de 2020

E se James Bond Tivesse uma Família?

O filho de um espião israelense dos anos 60 conta como é.

Oded Gur-Arie era apenas um menino quando soube que seu pai era um espião.
Crédito:Courtsey de Peter Payette
Hoje, Oded Gur-Arie ensina empreendedorismo no Adrian College em Michigan, mas ele nasceu em Israel e seu pai é um dos espiões mais famosos da história do país, conhecido por seu nome alemão, Wolfgang Lotz.
Na década de 60, Israel suspeitou que o Egito estava desenvolvendo armas de destruição em massa, que poderiam então ser usadas contra Israel. O presidente egípcio Gamal Abdel Nasser trouxe cientistas alemães para ajudar no desenvolvimento do seu programa nuclear e o MOSSAD enviou o pai de Gur-Arie para tentar se infiltrar em seus círculos, fingindo ser um ex-oficial nazista.
O jovem Oded e sua mãe estavam alojados em Paris para a missão e seu pai  Zeev era o nome hebraico que ele havia adotado — vinha visitá-los de vez em quando.
Em uma de suas primeiras visitas do Egito, ele foi se encontrar com seu chefe e me levou junto”, conta Oded. De repente, percebi que eles estavam falando sobre coisas incríveis, como informações, pessoas e espiões, e Egito e isso e aquilo, e ficou muito claro para mim o que ele estava fazendo.
Oded afirma que o MOSSAD decidiu que seria mais seguro expô-lo ao que estava acontecendo, em vez de correr o risco de ele descobrir por si mesmo e reagir de uma forma que poderia destruir o disfarce de seu pai. 
Depois, quando estávamos voltando para casa, meu pai se virou para mim e disse: 'Agora você sabe o que estou fazendo'. E eu disse: 'Sim'. Ele disse: 'Você percebe que minha vida depende disso? Deve ser mantido em segredo absoluto, porque do contrário coisas ruins acontecerão? 'Eu disse sim.'
Era uma responsabilidade imensa para um menino de 12 anos carregar e se tornou ainda maior quando Oded percebeu que seu pai havia sido pego, em 1965. Ele foi o primeiro a descobrir, antes de sua mãe ou dos controladores de seu pai.
Era sábado de manhã, desci para pegar o jornal The Herald Tribune. Eu fui até uma banca de jornal e peguei o jornal e comecei a andar para casa. Enquanto estou voltando para casa, fico olhando e lendo o jornal e vejo na primeira página algo que diz: 'Seis alemães ocidentais desaparecem no Egito.' Aquilo chamou minha atenção e eu olho e vejo o nome do meu pai lá.
Oded, que imediatamente percebeu que "desapareceu" significava que eles foram capturados, percebeu outra coisa que o pegou de surpresa.
“Eu li que 'Wolfgang Lotz e sua esposa, Waltraud Lotz' e eu pensei, 'Quem diabos é esta Waltraud Lotz?' Eu não sabia nada sobre a existência dela.”
Nesse ponto, a notícia não tinha chegado a sua mãe, nem ao MOSSAD em Israel. Oded tinha que ser o mensageiro.
“Então, eu perguntei a mim mesmo: 'O que direi à minha mãe quando chegar em casa?'”, lembra. “Era talvez menos de um quarto de milha da banca de jornal até a casa. Pareceu a caminhada mais longa que já fiz, tentando descobrir o que fazer. Percebi que minha vida como eu a conhecia e a vida de minha mãe como a conhecíamos, tudo iria realmente mudar de maneira extrema.”
O casamento de Wolfgang Lotz com outra mulher no Egito não fazia parte dos planos. Quando seus operadores do MOSSAD descobriram, por acidente, eles consideraram abortar a missão, mas estava tudo correndo bem desa forma, e Lotz era um espião muito bom. Na verdade, ele era um espião tão bom que conseguiu manter seu disfarce mesmo depois de ser pego. Ele escondeu das autoridades egípcias a sua naturalização israelense, convencendo-as de que era somente um alemão dono de um clube de hipismo, e que só espionava para os israelenses em troca de dinheiro porque eles o pressionavam. Se os egípcios descobrissem que ele era israelense, provavelmente o teriam executado. Então, por alguns anos, enquanto seu pai estava na prisão egípcia, Oded teve que manter as aparências e fingir que nada estava errado.
Lotz e sua "esposa" no tribunal, Cairo, agosto de 1965.
Crédito: Spywise.net
Voltamos imediatamente para Israel e eu estava indo para a escola e tinha uma namorada. ... Eu tinha 16, 17 anos na época e fazia as coisas que todo adolescente faz. Eu tinha que manter esse segredo incrível para mim mesmo e não poderia compartilhá-lo com ninguém.
Wolfgang Lotz foi libertado alguns anos depois (1968) e voltou para Israel, mas nunca voltou para casa. Para a decepção da mãe de Oded, ele trouxe sua nova esposa alemã com ele. Lotz teve problemas para se ajustar à vida civil em Israel e nunca foi capaz de estabelecer uma segunda carreira. Ele morreu na Alemanha em 1993.
Oded, bem treinado em guardar segredos, não falou sobre sua experiência por anos. Isso mudou em 2007, quando um dia seu filho voltou da escola com um livro intitulado Os Maiores Espiões do Mundo. Oded, que estava assistindo TV, viu seu filho folheando o livro e uma das fotos chamou sua atenção.
Eu indiquei a ele, uma das fotos e disse, 'Você sabe quem é esse homem?' Ele olhou para mim e disse: 'Não'. Eu disse: 'Esse é o seu avô.' Ele disse: 'O quê?' Foi quando me dei conta de que mesmo as pessoas mais próximas de mim  minha família, minha esposa, meus filhos  conheciam a história em geral, mas não sabiam realmente todos os detalhes.
Isso convenceu Oded Gur-Arie a concordar em participar de um documentário sobre a vida de seu pai, após rejeitar muitas outras ofertas ao longo dos anos. Ele descreve a experiência de compartilhar sua história na frente da câmera, muitas vezes em lágrimas, como tendo um efeito purificador. Ele concordou em trabalhar com o diretor, Nadav Schirman, já que o achava realmente interessado na história humana e não apenas nas partes de ação.
"E se James Bond tivesse uma família?" Oded Gur-Arie explica. As pessoas geralmente não pensam sobre esse aspecto, mas por trás de cada história real de espionagem e aventura, existem pessoas, existem famílias, existem esposas, filhos e mães. Olhamos para o glamour e todas as coisas de aventura, mas não para os humanos e o preço e o custo que isso causa para as pessoas.
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Este artigo é um resumo do episódio "Espionagem na Era do Terror" da America Abroad sobre situação atual da coleta por Inteligência Humana e seu futuro. America Abroad é um premiado programa de documentários de rádio que analisa em profundidade as questões críticas das relações internacionais e da política externa dos EUA todos os meses. Você pode nos seguir no Facebook, conversar conosco no Twitter e assinar nosso boletim informativo semanal para atualizações.
Fonte: The World

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Concurso de Admissão ESA 2020 — Cursos de Formação e Graduação de Sargentos de 2021/22

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Em 30 de agosto próximo ocorrerão as provas do Exame Intelectual do Concurso aos Cursos de Formação e Graduação de Sargentos do Exército Brasileiro que funcionarão em 2021 e 2022.
Assim, vamos manifestar alguns pontos de opinião, atualizando postagens feitas em anos passados.
Tivemos, neste ano de 2020, 103.807 candidatos confirmados, número que representa um expressivo aumento na procura por uma vaga na carreira de Graduados do Exército.
Desta forma, praticamente podemos repetir o comentário feito em outras postagens, sobre o mesmo assunto.
Observando o quadro acima, temos a "grosso modo" uma média maior que 85 candidatos para cada vaga disponibilizada. Uma demanda considerável, se comparada a outros concursos para cargos em função pública.
Temos então que, apesar do esforço de 'otoridades' — infelizmente com o apoio de membros da própria Instituição — em desmoralizar e desmotivar os profissionais das armas, a carreira militar continua a encantar nossos jovens que amam o Brasil e não temem sair de sob as asas dos seus pais. Espero que entre os candidatos aprovados não haja quem espere "levar vantagem", pois se houver vai se decepcionar. A carreira castrense é para quem se sujeita a uma vida de sacrifícios com remuneração somente suficiente para a sobrevivência familiar.
Aos que tiverem sucesso nas provas, alguns pequenos esclarecimentos que não é costume serem feitos, mas que eu os faço previamente para que, mais tarde, não usem o argumento covarde de que não sabiam direito o que estavam fazendo:
— Preparem-se para (diferentemente do que ocorre em Concursos para Cargos Públicos Civis) começarem a "mostrar serviço" depois de frequentarem os Cursos de Formação e Graduação; e isso vai continuar por 35 anos de serviço, no mínimo. É costume dizer que Sargentos devem provar a cada dia que são bons profissionais.
— Preparem-se, também, para permanecerem por sete ou oito anos na graduação de 3º Sargento, com vencimentos brutos mensais, após sua Formatura em 2022, por volta de R$ 5.100,00. A isto podem ser agregados mais 25% do soldo (aproximadamente R$ 950,00) se fizerem algum Curso de Extensão/Especialização Militar; e 10 ou 20% também do soldo (R$ 382,50 ou R$ 765,00) se forem servir em regiões consideradas inóspitas.
— Preparem-se, ainda — também diferentemente das funções públicas civis —, para serem destinados para servir em qualquer parte do território nacional, independentemente dos interesses familiares (casa própria, emprego da esposa, curso universitário, doenças de pais, avós, sogros, etc).
— Depois do Curso, no exercício das funções de Sargento as condições profissionais continuarão difíceis (passar frio, cansaço, acampamentos em condições precárias, escalas de serviço apertadas — sem direito a recebimento de "horas extras" —, formaturas, exercícios físicos, "tempo zero" para estudos fora do EB, etc), acrescidas da responsabilidade de repassar seus conhecimentos, com os devidos cuidados de segurança, para seus subordinados (os Soldados incorporados anualmente para o Serviço Militar Inicial).
— Quanto aos aspectos financeiros, a cada promoção terão um acréscimo de 15 a 20% em seus vencimentos, chegando à graduação de Subtenente com o vencimento bruto, também a partir de 01 Jul 2022) valendo aproximadamente R$ 13.200,00. Caso alcancem o oficialato, poderão chegar ao posto de Capitão, que terão vencimentos brutos, após 01 Jul 2022, por volta de R$ 19.000,00. Ao vislumbrar esses valores, a grosso modo, calcule que devem ser abatidos cerca de 14% dos mesmos, a título de descontos obrigatórios para atendimentos de saúde e para o fundo que financiará, no futuro, a Pensão de sua viúva. Depois desse desconto, ainda tem que prestar contas com o famigerado e faminto Leão do Imposto de Renda.
— Os que não prestaram o Serviço Militar Inicial devem atentar para um detalhe importantíssimo: se acharem que as condições oferecidas durante o Curso de Formação não lhe agradaram, não insista. Se você teve capacidade para ser aprovado no Concurso do CFGS, certamente tem capacidade para fazer outros concursos para atividades profissionais onde se sinta melhor.
Se não gostou do Curso, não irá gostar do dia-a-dia da caserna — que será uma continuação das atividades do Curso —, assim, busque sua felicidade fazendo outra carreira e não se torne um mau profissional (desmotivado, mal-humorado, dos que só enxergam motivos para reclamar e criticar, desagregador, sem disposição para consertar ou melhorar seu ambiente de trabalho).
Aos que entenderem que podem passar seus dias dedicando-se às atividades castrenses, sejam bem vindos! Terão trinta e cinco anos, no mínimo, de atividade profissional extremamente gratificante, em um ambiente que tem por característica principal a camaradagem!


Aproveito para citar cinco princípios a serem seguidos para um bom desempenho profissional:
— Conheça sua profissão (saiba qual seu papel na sociedade como profissional);
— Interesse-se por sua profissão (busque conhecimentos sobre como melhorar seu desempenho profissional);
— Conheça seus subordinados (identifique as características individuais de cada um, a fim de melhor destinar missões, recompensas e sanções);
— Mantenha seus subordinados bem informados (só assim, eles poderão desenvolver a iniciativa própria, no sentido de melhor cumprir suas missões); e
— Interesse-se, verdadeiramente, pelo bem estar de seus subordinados.
Essas regras, que parecem simples, na realidade são difíceis de serem seguidas, pois são as que diferenciam os Líderes dos Chefes. E uma das principais características exigidas ao Sargento é ser Líder.
E sejam Sargentos, profissionais conscientes de pertencerem a uma das Instituições mais respeitadas por nossa população decente!
Imagens: "Futuro Sargento do EB" no Facebook
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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

EsSA - Concurso/2018 - CFS 2019/2020

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Passado o período de Exame Intelectual do Concurso aos Cursos de Formação de Sargentos do Exército Brasileiro que funcionarão em 2019 e 2020, podemos aqui manifestar alguns pontos de opinião, atualizando postagem feita em 2014.
De acordo com o edital publicado no Diário Oficial, são 1.070 vagas dividas nas áreas de aviação e geral, em que 910 são destinadas ao sexo masculino e 100, para o feminino; e, outras 60 são para área da Saúde, destinadas para técnicos de enfermagem. 
Com aproximadamente 94.000 candidatos inscritos no Concurso de Admissão 2018 aos Cursos de Formação de Sargentos 2019-20, a concorrência por área é a seguinte:
- 75 candidatos/vaga para a ÁREA Geral/Aviação (Masculino);
- 171 candidatos/vaga para a ÁREA Geral/Aviação (Feminino);
- 78 candidatos/vaga para a ÁREA Música; e,
- 93 candidatos/vaga para a ÁREA Saúde.

Uma demanda considerável, se comparada a outros concursos para cargos em função pública. 
Neste ano de 2018 houve um acréscimo de quase 100% de candidatos em relação a 2014, quando houve 48.173 candidatos confirmados.
Temos então que, apesar do esforço de algumas 'otoridades' - infelizmente com o apoio da grande mídia - em desmoralizar e desmotivar os profissionais das armas, a carreira militar continua a encantar nossos jovens que amam o Brasil e não temem sair de sob as asas dos seus pais.
Espero que entre os candidatos aprovados não haja quem espere "levar vantagem", pois se houver vai se decepcionar. A carreira castrense é para quem se sujeita a uma vida de sacrifícios com remuneração somente suficiente para a sobrevivência familiar.
Aos que tiverem sucesso nas provas, alguns pequenos esclarecimentos que não é costume serem feitos, mas que eu os faço previamente para que, mais tarde, não usem o argumento covarde de que não sabiam direito o que estavam fazendo:


- Diferentemente do que ocorre em Concursos para Cargos Públicos Civis, preparem-se para começar a "mostrar serviço" depois de frequentarem o Curso de Formação, quando começarem efetivamente sua carreira profissional; e isso vai continuar por 30 anos de serviço, no mínimo. É costume dizer que Sargentos devem provar a cada dia que são bons profissionais.
- Preparem-se, também, para permanecerem por sete ou oito anos na graduação de 3º Sargento, com vencimentos brutos mensais, após 01 Jan 2019, por volta de R$ 5.050,00. A isto podem ser agregados mais 10 ou 20% do soldo (R$ 382,50 ou R$ 765,00) se forem servir em regiões consideradas inóspitas.
- Preparem-se, ainda - também diferentemente das funções públicas civis -, para serem destinados para servir em qualquer parte do território nacional, independentemente dos interesses familiares (casa própria, emprego da esposa, curso universitário, doenças de pais, avós, sogros, etc).

- Depois do Curso, no exercício das funções de Sargento as condições profissionais continuarão difíceis (passar frio, cansaço, acampamentos em condições precárias, escalas de serviço apertadas - sem direito a recebimento de "horas extras" -, formaturas, exercícios físicos, "tempo zero" para estudos fora do EB, etc), acrescidas da responsabilidade de repassar seus conhecimentos, com os devidos cuidados de segurança, para seus subordinados (os Soldados incorporados anualmente para o Serviço Militar Inicial).
- Quanto aos aspectos financeiros, a cada promoção terão um acréscimo de 15 a 20% em seus vencimentos, chegando à graduação de Subtenente com o vencimento bruto, também a partir de 01 Jan 2019) valendo aproximadamente R$ 8.360,00.
Caso alcancem o oficialato, poderão chegar ao posto de Capitão, que terão vencimentos brutos, após 01 Jan 2019, por volta de R$ 14.700,00. Ao vislumbrar esses valores, a grosso modo, deve ser calculado o abatimento de cerca de 11%, a título de descontos obrigatórios para atendimentos de saúde e para o fundo que financiará, no futuro, a Pensão de sua viúva. Depois desse desconto, ainda tem que prestar contas com o famigerado e faminto Leão do Imposto de Renda.
- Os que não prestaram o Serviço Militar Inicial devem atentar para um detalhe importantíssimo: se acharem que as condições oferecidas durante o Curso de Formação não lhe agradaram, não insista. Se você teve capacidade para ser aprovado no Concurso do CFS, certamente tem capacidade para fazer outros concursos para atividades profissionais onde se sinta melhor. 
Se não gostou do Curso, não irá gostar do dia-a-dia da caserna, assim, busque sua felicidade seguindo outra carreira e não se torne um mau profissional (desmotivado, mal-humorado, dos que só enxergam motivos para reclamar e criticar, desagregador, sem disposição para consertar ou melhorar seu ambiente de trabalho).
- Aos que entenderem que podem passar seus dias dedicando-se às atividades castrenses, sejam bem vindos! Terão trinta e poucos anos de atividade profissional extremamente gratificante, em um ambiente que tem por característica principal a camaradagem!
Aproveito para citar cinco princípios a serem seguidos para um bom desempenho profissional:
- Conheça sua profissão (saiba qual seu papel na sociedade como profissional);
- Interesse-se por sua profissão (busque conhecimentos sobre como melhorar seu desempenho profissional);
- Conheça seus subordinados (identifique as características pessoais de cada um, a fim de melhor destinar missões, recompensas e sanções);
- Mantenha seus subordinados bem informados (só assim, eles poderão desenvolver sua iniciativa no sentido de melhor cumprir suas missões); e
- Interesse-se, verdadeiramente, pelo bem estar de seus subordinados.
Essas regras, que parecem simples, na realidade são difíceis de serem seguidas, pois são as que diferenciam os Líderes dos Chefes. E uma das principais características exigidas ao Sargento é ser Líder.
E sejam Sargentos, profissionais conscientes de pertencerem a uma das Instituições mais respeitadas por nossa população decente!

Imagens: "Futuro Sargento do EB"  no Facebook
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sábado, 30 de abril de 2016

Uma Dor Que Ninguém Vê - Um Tabu a Ser Enfrentado


Uma dor que ninguém vê
Em 17 anos, foram 19.295 pessoas mortas. É como se a população inteira de um município da serra gaúcha desaparecesse. São Francisco de Paula tem 20.224 habitantes. O DATASUS (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde) confirma: são 10,2 casos de suicídio a cada 100 mil habitantes. Este índice coloca o RS no topo do ranking nacional para mortes deste tipo. Em seguida vem Roraima, com 8,3 e Mato Grosso do Sul, com 8,1.
O estado que tem o menor índice é o Rio de Janeiro, uma média de 2,4 mortes para cada 100 mil habitantes. Os números não são de hoje e vem aumentando. De acordo com Ricardo Nogueira, psiquiatra do Hospital Mãe de Deus que pesquisa ansiedade, depressão e prevenção ao suicídio, os maiores índices de casos suicidas acontecem na região nordeste do estado.
De acordo com o Mapa da Violência, o RS ainda tem 11 das 20 cidades brasileiras que mais tiveram casos. Três Passos (2º), Três de Maio (5º), Nova Prata (6º), Santa Cruz do Sul (11º), Tupanciretã (11º), Santiago (12º), Canguçu (13º), Lajeado (14º), Venâncio Aires (15º), Encruzilhada do Sul (18º) e Osório (19º).
Os municípios com maior incidência de suicídio no estado são de colonização alemã. Por isso, a ascendência é um fator considerado pela Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS). No entanto, o coordenador do departamento de psiquiatria no estado, Marco Antonio Caldieraro, diz que isso não é determinante: “A gente tenta não valorizar muito essa questão porque se você está atendendo um paciente de uma etnia que tem menos incidência em suicídio não quer dizer que é um motivo para não se preocupar.”
Para a Doutora em Ciências Médicas, Rosa Maria Martins Almeida, da UFRGS, que estudou o suicídio em homens e mulheres, o tema deve ser tratado como um problema de saúde pública e o governo deveria criar programas e campanhas de prevenção, assim como as diversas campanhas que existem para prevenção da AIDS, tuberculose, gripe, HPV, entre outros. “É necessária uma discussão mais aberta sobre este problema na sociedade e o estabelecimento de estratégias para a precaução, considerando as particularidades regionais”, concorda a professora da Unisinos Fernanda Barcellos Serralta. A tese de doutorado da psicóloga foi sobre os riscos de suicídio em pacientes deprimidos.
A APRS entende que o suicídio, na maioria das vezes, está relacionado a algum tipo de transtorno psiquiátrico muitas vezes não diagnosticado e não tratado de forma adequada. Os mais comuns são: depressão, bipolaridade, dependência química, transtornos de personalidade e a esquizofrenia.
Marco Antonio Caldieraro salienta que é possível tratar os pacientes com consultas frequentes, sem a necessidade de internação. Contudo, para aqueles que possuem tendências suicidas o melhor é que o tratamento seja realizado onde não exista a possibilidade dele tentar algo contra si mesmo. O suicídio ocupa a 3ª colocação entre as mortes violentas no RS, ficando atrás dos homicídios (1ª) e dos acidentes de trânsito (2ª), segundo o DATASUS.
Aumenta o suicídio entre jovens
Diversos jovens sofrem em silêncio e as famílias só ficam sabendo dos problemas depois que o fato está consumado. De acordo com dados do Mapa da Violência, do Ministério da Saúde, o índice de jovens que tiraram a própria vida aumentou 40% em 10 anos. Para a doutora em psicologia, que defendeu uma tese sobre as motivações para esta violência, Fernanda Serralta, o suicídio na adolescência associa-se a fatores como a depressão, baixa autoestima, disfunção familiar, abuso sexual, maus tratos, negligência e o uso de substâncias psicoativas.
O médico Ricardo Nogueira confirma o aumento de suicídios entre os jovens. Segundo seus estudos, os abusadores de álcool e drogas estão na liderança com 33% seguido dos jovens depressivos com 28%. Esquizofrênicos, jovens com transtorno de personalidade e ansiedade completam a lista. Porém, outro sinal que preocupa é o crescimento do número de mortes entre as mulheres jovens, “principalmente meninas dos 15 aos 19 anos, usuárias de álcool e drogas ou que estão em gestação”, destaca Nogueira.
Como vai você?
Todos os especialistas consultados pela reportagem apontaram o CVV (Centro de Valorização da Vida) como a principal referência na prevenção de suicídio no Brasil. A organização não governamental é, inclusive, citada pelo Google quando busca-se informações sobre o assunto.
O slogan “como vai você” é uma alusão à forma com que eles trabalham. No ano passado, no Brasil, o CVV atendeu um milhão de pessoas que buscavam ajuda, o equivalente a uma ligação a cada 33 segundos. Fundado em 1962, em São Paulo, o CVV atende pelo número 141. O coordenador nacional, o gaúcho Anildo Fernandes, explica que o atendimento prioriza o ato de ouvir as pessoas: “Nós procuramos oferecer uma escuta compreensiva. Sabemos que, à medida que a pessoa começa a falar dos seus problemas, ela começa a se sentir aliviada e, assim, encontra forças dentro dela própria para reagir”, explica. Conforme Anildo, a perda é a maior motivação das ligações para o 141. Ela pode estar relacionada ao falecimento de um ente querido, a demissão de um emprego ou até mesmo a morte de animais de estimação.
No Rio Grande do Sul, nos primeiros quatro meses de 2015 foram atendidas 19.350 ligações. Uma média de 4.837 ligações por mês, de acordo com o coordenador. A organização dispõe de atendimento presencial, via internet, pelo telefone e até mesmo por carta. E há também os grupos de apoio aos “sobreviventes”, denominação dada às pessoas que já tentaram tirar a própria vida ou àqueles que são parentes de vítimas.
Mesmo com a ajuda, o Centro de Valorização da Vida não promete terapia a quem procura o serviço. “Não é um trabalho terapêutico. Nós somos pessoas da comunidade, cada um com a sua profissão”, explica Anildo, contador, especializado em controladoria. Ele divide seu tempo entre atividades profissionais e tarefas que possui no CVV. Apesar de reconhecida por lei como entidade de utilidade pública federal, o Centro de Valorização à Vida não recebe verbas do governo. Toda a renda que o centro arrecada para a sua manutenção é proveniente dos próprios voluntários, a partir da realização de “vaquinhas” e brechós que a entidade organiza. O coordenador entende que o Centro cumpre uma lacuna deixada pelo Estado, tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul: “O estado, por mais que tente fazer, não encontra mecanismos para atender a demanda. A gente procura então suprir essa necessidade”, afirma.
Não diga que a canção está perdida
A especialista Rosa Maria Almeida salienta que os familiares que notarem mudanças de comportamento como o desejo de não sair de casa, isolamento, impulsividade, agressividade, vontade de chamar a atenção, falta de controle, níveis de depressão, perda de motivação e falta de convivência com amigos, devem ficar constantemente em alerta porque são indícios que podem levar ao ato de tirar a própria vida.
A Secretaria Estadual de Saúde do RS (SES-RS) reconhece que o suicídio é um grave problema de saúde pública. De acordo com a assistente social da SES –RS, Andreia Volkmer, o estado tem feito campanhas em duas frentes: de valorização da vida, sem citar o termo suicídio, e publicando um guia de bolso com informações para os profissionais da saúde. Conforme a assistente social, está nos planos do governo capacitar os profissionais da saúde no interior do estado. Entretanto, em função da contenção de despesas, as viagens estão suspensas.
O psiquiatra Ricardo Nogueira relembra que em 2007 o estado criou o Programa de Prevenção de Suicídio dentro de uma ação chamada PPV (Programa Prevenção Da Violência) envolvendo várias secretarias. Nas 10 cidades onde este tipo de morte era mais constante foram oferecidos programas de tratamento à depressão e orientação à população. Os números de suicídio se reduziram em 12% durante o programa. No entanto, de 2011 a 2014 não houve continuidade deste projeto: “Vimos que até 2010, das 20 cidades com maior índice suicida no Brasil, metade eram gaúchas, segundo dados do DATASUS. De 2011 para 2014, já são 13 cidades. É um aumento de 30%. Então vamos trabalhar nas cidades onde estão as maiores incidências”, afirma o psiquiatra.
Nogueira revelou que uma parceria conjunta envolvendo a Secretaria Estadual de Saúde, o Centro Estadual de Vigilância de Saúde, o Centro de Informações Toxicológicas, e o Hospital Mãe de Deus foi criada para lançar um novo projeto de prevenção ao suicídio em setembro. “No momento estamos na fase do geoprocessamento, um levantamento do número de suicídios ocorridos e de tentativas mal sucedidas. Houve no Rio Grande do Sul, 1500 tentativas de suicídios por intoxicação de medicamentos, de material de limpeza e de venenos, de acordo com o Centro de Informação Toxicológicas. Então estamos fazendo esse geoprocessamento de quais são os tipos de suicídios para combatermos.” A intenção, segundo o médico, é começar por Porto Alegre, por ter o maior número absoluto de mortes e ser a cidade mais populosa.
Mas os maiores percentuais de casos suicidas ocorrem na região nordeste do estado. O atual deputado Federal Osmar Terra integra o grupo que está organizando o novo programa. Ele era o secretário da saúde em 2007, quando foi criado o Programa de Prevenção ao Suicídio. Terra, que também é médico, afirma que para enfrentar o problema é preciso combater o uso de drogas e diagnosticar os transtornos mentais, acompanhando de perto os grupos de maior risco.
Para o deputado, uma solução seria o governo contratar psiquiatras nas regiões onde os índices são maiores, e identificar os grupos de risco, ou seja, aqueles que já tentaram o suicídio ou apresentam depressão grave. “Nós precisamos de uma política de diagnóstico. A pessoa que tem borderline (transtorno de personalidade), por exemplo, precisa ser acompanhada, ela é um suicida em potencial. Nós temos bons psiquiatras, bons profissionais, mas a população não tem acesso a estes especialistas”, explica Osmar Terra.
Um tabu para a imprensa
Apesar dos dados alarmantes de suicídio no Brasil e no Rio Grande do Sul, o assunto é pouco tratado pela imprensa com a justificativa de que a visibilidade do tema pode influenciar quem está predisposto.
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros ainda não aborda a questão do suicídio diretamente. Conforme o documento, os profissionais da imprensa tem a responsabilidade de preservar o direito à privacidade, a imagem e à honra das fontes. Também é proibido divulgação de informações de caráter pessoal, mórbido e sensacionalista.
O jornalista Carlos Etchichury foi o autor de uma série de reportagens sobre suicídio no jornal Zero Hora, em 2008. Etchichury entende que ao não divulgar o problema, o jornalismo está se omitindo da sua função: “ao não publicar matérias sobre suicídio, o jornal deixa de abordar uma das três principais causas de morte violenta no Estado — um assunto de alto interesse social. E não abordando este assunto, o jornal não cobra do Estado (uma das atribuições da imprensa é fiscalizar o Estado) políticas públicas capazes de combater o suicídio”.
De acordo com o jornalista, que defende mais publicações sobre o assunto, há manuais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Associação Brasileira de Psiquiatria que auxiliam os profissionais da comunicação na divulgação do suicídio. “Não sei se a publicação de reportagens teria, como consequência imediata, a redução das ocorrências. Mas os veículos poderiam, por exemplo, prestar um serviço público relevante para a população, orientando familiares e amigos de suicidas ou pessoas que tentaram se matar e cobrando políticas públicas do Estado.
Um pedido de ajuda: quando o apresentador vira ouvinte
Apresentador do programa “Pijama Show”, na Rádio Atlântida (Agora na Rádio Farroupilha), em Porto Alegre, Éverton Cunha é conhecido por Mr. Pi. Acostumado a atender ouvintes no ar durante a madrugada, o radialista foi pego de surpresa há quase 15 anos, quando recebeu a ligação vinda de um jovem de Chapecó/SC. O ouvinte não queria pedir música, muito menos comentar algum assunto do programa: ele havia ligado para anunciar que estava prestes a tirar a própria vida.
“Eu atendi e logo de cara ele disse que estava pensando em se matar. Eu fiquei surpreso muito mais pela ligação do que pela ideia. Eu já fui jovem, a maioria do meu público é jovem. Eu sei que muita gente pensa nisso e eu sei que, na madrugada, as pessoas ficam muito mais sensíveis, pensativas. Não tinha como julgar se aquilo era sério ou se era alguma brincadeira, então deixei ele falar”, conta o apresentador.
A ligação durou alguns minutos. Mr. Pi escutou o jovem falar dos problemas e tentou fazê-lo mudar de ideia. “Quando ele falou aquilo eu pensei exatamente o inverso: se ele está me propondo o fim, eu vou tentar propor um recomeço.” No final da conversa, Mr. Pi colocou no ar a canção de Raul Seixas, Tente Outra Vez.
Depois da conversa, o ouvinte manteve contato quase que diariamente com o apresentador, a seu pedido. O jovem catarinense contava como estava a sua vida e Mr. Pi, algumas vezes, lia as mensagens no ar. Meses depois, o rapaz afirmou que tinha desistido da ideia de suicídio. Mais tarde, encontrou o comunicador pessoalmente, em um evento em Chapecó, e lhe agradeceu.
O radialista não quer ser visto como “herói” na história. Ele ressalta que apenas tratou de escutar uma pessoa que estava com problemas: “Não acredito que eu tenha feito algo de extraordinário. Mas a gente nunca sabe, posso ter feito a diferença ou não. Ele precisava falar, eu apenas escutei. Essa história foi marcante, diversos ouvintes lembram até hoje. É um assunto delicado, eu acho que nós temos que ter muito cuidado quando tratamos de suicídio. Temos que fortalecer nas pessoas a ideia da vida”, diz Mr. Pi.
Redação: Caroline Garske, Douglas Demoliner, Guilherme Moscovitch, Laís Albuquerque, Luana Schranck, Maurício Trilha e Stéphany Franco.
Fotografias: Laís Albuquerque
Edição e supervisão: Luciana Kraemer.
*Texto produzido pelos alunos de Jornalismo da Unisinos/RS para a disciplina de Jornalismo Investigativo

terça-feira, 26 de abril de 2016

Bolsonaro Tem Direito de Homenagear Quem Quiser, Diz Viúva de Ustra

por Luís Barrucho
 @luisbarrucho
Deputado justificou voto a favor de impeachment de Dilma pela 'memória do coronel Brilhante Ustra', acusado de tortura durante ditadura militar - Image copyright Ag Camara ABrImage
Maria Joseíta Silva Brilhante Ustra tem 79 anos e muitas memórias. Professora aposentada, ela conta dedicar o tempo livre à pesquisa sobre a história do Brasil, em especial sobre a ditadura militar, período durante o qual seu marido foi um dos personagens principais ─ e também uma das figuras mais controversas.
Maria Joseíta foi casada com o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. Chefe do DOI-CODI de São Paulo, ele foi acusado pelo desaparecimento e morte de pelo menos 60 pessoas. Outras 500 teriam sido torturadas nas dependências do órgão durante seu comando. Único militar considerado torturador pelo MPF (Ministério Público Federal), Ustra morreu de câncer aos 83 anos, em outubro do ano passado.
No último domingo, Ustra voltou ao debate nacional após ter sido homenageado pelo deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) durante votação pela aprovação da abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff.
"Fiquei profundamente emocionada", disse Maria Joseíta em entrevista à BBC Brasil. "Ele foi de uma felicidade muito grande", acrescentou.
A menção ao torturador feita por Bolsonaro provocou forte reação de indignação manifestada principalmente nas redes sociais. Mais de 17 mil pessoas reclamaram da conduta do deputado diretamente à procuradoria-geral da União, que prometeu analisar os pedidos.
O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) emitiu nota de repúdio às declarações do deputado Bolsonaro.
"Não é aceitável que figuras públicas se utilizem da imunidade parlamentar para fazer esse tipo de manifestação num claro desrespeito aos Direitos Humanos e ao Estado Democrático de Direito", diz a nota da OAB.
Por outro lado, a principal página no Facebook relacionada ao coronel Ustra ganhou quase 3 mil curtidas em três dias.
Muitos comentários alegam que a homenagem feita por Bolsonaro seria equivalente às referências elogiosas, feitas por um outro deputado, Glauber Braga (PSOL-RJ), ao votar contra o impeachment, a Carlos Marighella, morto por organizar resistência ao regime militar
De sua casa em Brasília, ela conversou por telefone com a BBC Brasil.
BBC Brasil: Durante votação pela abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff no último domingo, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) dedicou o voto ao seu marido. O que a senhora achou da homenagem?
Maria Joseíta Silva Brilhante Ustra: Fiquei profundamente emocionada. Acho que ele foi de uma felicidade muito grande. Acredito que Bolsonaro tem o direito de prestar homenagem a quem ele quiser porque outros deputados homenagearam terroristas, como Marighella e Lamarca, que pregaram durante toda a vida a luta armada, a violência e a separação do país. Se eles têm esse direito, por que o deputado Bolsonaro não tem?
BBC Brasil: Mas o seu marido foi considerado pela Justiça como torturador. Isso é motivo de homenagem?
Maria Joseíta:  Meu marido nunca foi condenado pela Justiça em última instância. O processo está parado. Não há prova nenhuma, só testemunhal. Interessante notar que prova testemunhal serve para considerar meu marido torturador, mas prova testemunhal não serve para condenar os corruptos da Lava Jato (Operação Lava Jato, que investiga o esquema de corrupção na Petrobras).
BBC Brasil: Mas o vereador Gilberto Natalini (PV-SP) disse, em entrevista à BBC Brasil, que foi torturado pelo seu marido...
Gilberto Natalini diz ter sido torturado por Ustra - Image copyright Gilberto NataliniImage
Maria Joseíta: Natalini passou uma única noite lá no DOI-CODI. Ele foi detido para averiguação. Quando declarou ter sido torturado, meu marido enviou-lhe uma carta aberta pedindo informações sobre essa suposta tortura. Nunca obteve resposta.
O problema é que muita gente usou isso, e continua usando, para se eleger, para conseguir cargos públicos e ganhar indenizações do governo. Não estou dizendo que a ditadura militar foi um mar de rosas. Não foi.
Sofro pelas famílias que perderam seus entes queridos do outro lado. Vejo com tristeza uma mãe que não sabe onde o filho está. Jovens que tinham a vida pela frente e que podiam lutar pelo Brasil de outra maneira, mas que foram iludidos por alguns grupos mais antigos de raposas velhas que tentavam implantar o comunismo no país.
BBC Brasil:  A senhora diz que a ditadura não foi um "mar de rosas". O coronel Ustra cometeu erros?
Maria Joseíta:  Não sei se ele cometeu erros. A mídia retrata meu marido como se ele fosse onipresente, onipotente e onisciente. Parece que ele foi um super-homem.
Quem começou isso tudo não foram as Forças Armadas. Houve apenas uma reação ao caos que já estava sendo implantando no Brasil. O grupo de militantes que estava se organizando já ia para China, para Cuba, para a União Soviética para fazer treinamento de guerrilha.
Era preciso tomar uma providência. Agora, por que o meu marido é um símbolo de tudo de ruim que aconteceu no regime militar?
BBC Brasil:  Porque relatos documentados indicam que o seu marido torturou pelo menos 60 pessoas...
Maria Joseíta:  Não posso jurar que o meu marido não cometeu nenhum deslize. Deslize na vida todo mundo comete. Eu presenciei muita coisa. Certa vez acompanhei seis presas lá dentro (DOI-CODI). Uma delas estava grávida e não sabia. Fiquei tocada pela situação.
Tanto insisti que meu marido me permitiu um contato com ela para ver se eu podia ajudar em alguma coisa. Ela fez questão de ficar lá com as companheiras porque tinha assistência, era atendida no Hospital das Clínicas, fazia pré-natal e tinha toda a atenção possível.
Chegamos inclusive a fazer enxoval para o bebê. Minha empregada fazia tortas para elas lancharem. Coisas gostosas. No entanto, quando ela teve o bebê e saiu de lá ─ até porque já não podia ficar mais, pois se tratava de uma concessão por pedido dela própria, passou a dizer que foi torturada todos os dias.
Já o filho de um outro preso me acusava de ir ao DOI-CODI para curar as feridas delas. Além disso, segundo ele, eu atuava como interrogadora.
Vejam como supervalorizavam a família Ustra. Há muita fantasia nessa história. Acredito que nem todo mundo tenha sido tratado como "pão de ló" como eu fazia.
BBC Brasil:  A senhora sempre defendeu publicamente seu marido. Por quê?
Maria Joseíta:  Eu não fui defensora do meu marido. Ele não precisava de defesa. Fui uma defensora da verdadeira história e não da história que está sendo contada. Decidi me manifestar publicamente porque eu sou uma cidadã brasileira. Passei minha juventude e minha maturidade durante o período do regime militar. Vi, vivi e tenho conhecimento de muitas coisas que aconteceram naquela época. Aquela época era semelhante ao que estava acontecendo agora.
BBC Brasil:  Por que aquela época era semelhante ao que está acontecendo agora?
Maria Joseíta:  Porque era um caos. Um grupo de jovens ─ alguns idealistas outros iludidos ─ queria tomar o poder. A maioria desse grupo está no governo agora e pertencia àquelas organizações. E deu no que deu. Uma das maiores empresas do mundo (Petrobras) foi sucateada, o dinheiro desapareceu de tudo o que foi maneira. O desejo deles é permanecer no poder.
BBC Brasil:  A senhora é a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff?
Maria Joseíta:  Acho que vamos passar um momento difícil. Não vejo outra solução melhor. Ela poderia renunciar. Haveria uma solução melhor?
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Quem é Renan Calheiros?

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Um texto antigo, mas com tema atualíssimo para que todos saibam sobre quem é o atual presidente do Senado Federal brasileiro.
por Marco Antonio Villa
A República brasileira nasceu sob a égide do coronelismo. O federalismo entregou aos mandões locais parcela considerável do poder que, no Império, era exercido diretamente da Corte. Isto explica a rápida consolidação do novo regime justamente onde não havia republicanos. Para os coronéis pouco importava se o Brasil era uma monarquia ou uma república. O que interessava era ter as mãos livres para poder controlar o poder local e exercê-lo de acordo com seus interesses.
Mesmo durante as ditaduras do Estado Novo e militar, o poder local continuou forte, intocado. A centralização não chegou a afetar seus privilégios. Se não eram ouvidos nas decisões, também não foram prejudicados. E quando os regimes entraram em crise, na “nova ordem” lá estavam os coronéis. Foram, ao longo do tempo, se modernizando. Se adaptaram aos novos ventos econômicos e ao Estado criado a partir de 1930.
O fim do regime militar, paradoxalmente, acabou dando nova vida aos coronéis. Eles entenderam que o Congresso Nacional seria  como está sendo nas últimas três décadas  o espaço privilegiado para obter vantagens, negociando seu apoio a qualquer tipo de governo, em troca da manutenção do controle local. Mais ainda, a ampliação do Estado e de seus recursos permitiu, como nunca, se locupletar com os bancos e empresas estatais, os recursos do orçamento federal e, mais recentemente, com os programas assistenciais.
A modernização econômica e as transformações sociais não levaram a nenhuma alteração dos métodos coronelísticos. A essência ficou preservada. Se no começo da República queriam nomear o delegado da sua cidade, hoje almejam uma diretoria da Petrobras. A aparência tosca foi substituída por ternos bem cortados e por uma tentativa de refinamento  que, é importante lembrar, não atingiu os cabelos e suas ridículas tinturas, ora acaju, ora preto graúna.
Não há nenhuma democracia consolidada que tenha a presença familiar existente no Brasil. Melhor explicando: em todos os estados, especialmente nos mais pobres, a política é um assunto de família. É rotineiro encontrar um mesmo sobrenome em diversas instâncias do Legislativo, assim como do Executivo e do Judiciário. Entre nós, Montesquieu foi tropicalizado e assumiu ares macunaímicos, o equilíbrio entre os poderes foi substituído pelo equilíbrio entre as famílias.
Um, entre tantos tristes exemplos, é Renan Calheiros. Foi eleito pela segunda vez para comandar o Senado. Quando exerceu anteriormente o cargo foi obrigado a renunciar para garantir o mandato de senador  tudo em meio a uma série de graves denúncias de corrupção. Espertamente se afastou dos holofotes e esperou a marola baixar.
Como na popular marchinha, Renan voltou. Os movimentos de protesto, até o momento, pouco adiantaram. Os ouvidos dos senadores estão moucos. A maioria  incluindo muitos da “oposição”  simpatiza com os seus métodos. E querem, da mesma forma, se locupletar. Não estão lá para defender o interesse público. E ridicularizam as críticas.
Analiticamente, o mais interessante neste processo é deslocar o foco para o poder local dos Calheiros. É Murici, uma paupérrima cidade do sertão alagoano. Sem retroagir excessivamente, os Calheiros dominam a prefeitura há mais de uma década. O atual prefeito, Remi Calheiros, é seu irmão  importante: exerce o cargo pela quarta vez. O vice é o seu sobrinho, Olavo Calheiros Neto. Seu irmão Olavo é deputado estadual, e seu filho, Renan, é deputado federal (e já foi prefeito). Não faltam acusações envolvendo os Calheiros. Ao deputado estadual Olavo foi atribuído o desaparecimento de 5 milhões de reais da Assembleia Legislativa, que seriam destinados a uma biblioteca e uma escola. A resposta do Mr M da política alagoana foi agredir um repórter quando perguntado sobre o sumiço do dinheiro. E teve alguma consequência? Teve algum processo? Perdeu o mandato? Devolveu o dinheiro que teria desviado? Não, não aconteceu nada.
E a cidade de Murici? Tem vários recordes. O mais triste é o de analfabetismo: mais de 40% da população entre os 26 mil habitantes. De acordo com dados do IBGE, o município está entre aqueles com o maior índice de incidência de pobreza: 74,5% da população. 41% dos muricienses recebem per capita mensalmente até um quarto do salário mínimo. Saneamento básico? Melhor nem falar. Para completar o domínio e exploração da miséria é essencial contar com o programa Bolsa Família. Segundo o Ministério de Desenvolvimento Social, na cidade há 6.574 famílias cadastradas no programa perfazendo um total de 21.902 pessoas, que corresponde a 84,2% dos habitantes. Quem controla o cadastro? A secretária municipal de Assistência Social? Quem é? Bingo! É Soraya Calheiros, esposa do prefeito e, portanto, cunhada de Renan.
O senador é produto desta miséria. Em 2007, quando da sua absolvição pelo plenário do Senado (40 votos a favor, 35 contra e seis abstenções), seus partidários comemoraram a votação como uma vitória dos muricienses. Soltaram rojões e distribuíram bebidas aos moradores. E os mais fervorosos organizaram uma caravana a Juazeiro do Norte para agradecer a padre Cícero a graça alcançada
Porém, o coronel necessita apresentar uma face moderna. Resolveu, por incrível que pareça, escrever livros. Foram quatro. Um deles tem como título “Do limão, uma limonada”. Pouco antes de ser eleito presidente do Senado, a Procuradoria-Geral da República o denunciou ao STF por três crimes: falsidade ideológica, uso de documentos falsos e peculato. Haja limonada!
COMENTO:  para atualizar o texto, complemento que o filho do senador Renan, José Renan Vasconcelos Calheiros Filho, foi eleito Governador de Alagoas, no primeiro turno das eleições de outubro de 2014, com 52% dos votos. Já no começo de janeiro, uma pesquisa de avaliação revelou que o Governador alagoano era o melhor avaliado do país, com 67,5% de aprovação.
Haja limão para tanta limonada! 
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