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domingo, 26 de março de 2017

Exibicionismo Em Um País Falido Também Moralmente

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Passado o impacto da surpresa e com maiores detalhes divulgados, podemos iniciar um olhar mais crítico sobre a Operação Carne Fraca.
Até agora sabemos que as investigações já vinham ocorrendo há mais de dois anos. E depois desses dois anos de buscas e análises de dados, chegaram a 21 empresas suspeitas de cometerem algum tipo de irregularidade e destas, três estão sendo acusadas de adulteração em produtos alimentícios.
Em outras palavras, uma Operação que basicamente investigava crimes de corrupção encontra, também, fortes indícios de crimes contra a saúde pública praticados por três das empresas investigadas.
Seria um enorme exercício de imaginação inferir que a divulgação de forma generalizada da má qualidade da carne brasileira se deveu a algum tipo de má intenção contra uma das atividades industriais que vem mantendo a economia do Brasil ainda em pé. Mas o estrago foi feito. E é grande.
Um enorme exagero manchar a reputação dos produtos de quase 5.000 empresas em função de irregularidades contábeis e administrativas ocorridas em 22 delas (menos de 0,5% do total), sendo que somente três destas foram interditadas por práticas nocivas à saúde da população. Quanto à corrupção, jogaram lama sobre uma categoria de 11.000 servidores (2.300 da área de fiscalizações) por terem identificado 33 supostamente desonestos (para quem gosta de estatísticas, + 0,3% do total e pouco mais de 1% dos fiscalizadores).
Segundo noticiado, as empresas e seus delitos são os seguintes:
- Peccin Agro Industrial Ltda, de Jaraguá do Sul, Santa Catarina.
Conduta investigada: Utilização de carne estragada em salsicha e linguiça; utilização de carne mecanicamente separada acima do permitido; uso de aditivos acima do limite ou de aditivos proibidos.
- Peccin Agro Industrial Ltda, de Curitiba.
Conduta investigada: Utilização de carne estragada em salsicha e linguiça; utilização de carne mecanicamente separada acima do permitido; uso de aditivos acima do limite ou de aditivos proibidos.
- Frigorífico Larissa Ltda, de Iporã, Paraná.
Conduta investigada: Comércio de produtos vencidos; troca de etiquetas; transporte de produtos sem a temperatura adequada.
Frigorífico Souza Ramos, de Colombo, Paraná,
Conduta investigada: Substituição de matéria-prima de peru por carne de aves, troca de favores por procedimentos fiscalizatórios
- Central de Carnes Paranaense Ltda, de Colombo, Paraná.
Conduta investigada: Corrupção e injeção de produtos cárneos.
- Transmeat Logística, Transportes e Serviços Ltda, de Balsa Nova, Paraná.
Conduta investigada: Corrupção e injeção de produtos cárneos.
- Fábrica de Farinha de Carnes Castro Ltda, de Castro, Paraná.
Conduta investigada: Não controle de recebimento de matéria-prima.
- Seara Alimentos Ltda, de Lapa, Paraná.
Conduta investigada: Irregularidades no procedimento de certificação sanitária.
- Frigomax Frigorífico e Comércio de Carnes Ltda, de Arapongas, Paraná.
Conduta investigada: Poluição ambiental e corrupção.
- BRF S.A., de Mineiros, Goiás.
Conduta investigada: Corrupção; embaraço da fiscalização internacional e nacional; tentativa de evitar suspensão de exportação.
- Frigorífico Oregon S.A., de Apucarana, Paraná.
Conduta investigada: Corrupção; dificultar ações de fiscalização.
- Breyer e Companhia Ltda, de União da Vitória, Paraná. (Mel e produtos apícolas)
Conduta investigada: Corrupção.
- E H Constantino e Constantino Ltda, de Londrina, Paraná.
Conduta investigada: Corrupção.
- Frango DM Indústria e Comércio de Alimentos Ltda, de Arapongas, Paraná.
Conduta investigada: Corrupção.
- Frigorífico Rainha da Paz Ltda, de Ibiporã, Paraná.
Conduta investigada: Corrupção.
- Frigorífico Argus Ltda, de São José dos Pinhais, Paraná.
Conduta investigada: Uso de senha de servidor do Ministério da Agricultura por funcionário da empresa.
- JJZ Alimentos S.A., de Goianira, Goiás.
Conduta investigada: Embaraço da atividade de fiscalização e corrupção.
- Indústria de Laticínios SSPMA Ltda, de Sapopemba, Paraná.
Conduta investigada: Dificultar as ações de fiscalização.
Indústria e Comércio de Carnes Frigosantos Ltda, de Campo Magro, Paraná.
Conduta investigada: Irregularidades em apuração.
- Balsa Comércio de Alimentos, de Balsa Nova, Paraná.
Conduta investigada: Irregularidades em apuração.
- Madero Indústria e Comércio S.A., de Ponta Grossa, Paraná.
Conduta investigada: Irregularidades em apuração.
Pelo que se vê, na lista podem ser apontados três casos graves de prejuízos à saúde pública; um trambique digno de vigarista "chinelão" (venda de um produto e entrega de outro); dois casos que podem ou não ser graves, de "injeção de produtos cárneos" (alguém sabe o que isso significa??), que imagino seja o acréscimo forçado de água nos produtos a serem congelados para aumentar seu peso (pode até não ser nada disso!!). 
O resto é corrupção, uma das grandes pragas que atingem o Brasil, mas que não justifica a enorme pantomima tecida sobre o fato, além de três empresas citadas com a observação "Irregularidades em apuração", ou seja, sequer há algum motivo para serem citadas. Cabe uma boa ação de danos morais!
Quanto a corruptos e corruptores, consta que trinta e seis pessoas foram presas na sexta-feira (17) e outras duas estariam foragidas: o empresário do frigorífico Frigobeto, Nilson Alves Ribeiro - que estaria na Itália - e o filho dele, Nilson Umberto Sacchelli Ribeiro, diretor da empresa.
Os envolvidos que tiveram prisão preventiva decretada, em ordem alfabética, são:
- André Luis Baldissera, Diretor da BRF. Teria atuado junto a Dinis Lourenço da Silva, Chefe da fiscalização do Ministério da Agricultura para que a fábrica de Mineiros (GO) não fosse interditada, depois de terem sido encontrados traços de salmonela em produtos. 
- Carlos Cesar, Agente de inspeção federal do Ministério da Agricultura no Paraná. Segundo a investigação, recolhia "doações" de empresários do setor de carne
- Daniel Gonçalves Filho, ex-superintendente regional do Ministério da Agricultura no Paraná e apontado como chefe e "articulador" do esquema criminoso. É suspeito de ocultar imóveis em nome de terceiros. 
- Dinis Lourenço da Silva, Chefe da Fiscalização do Ministério da Agricultura em Goiás. Suspeito de ter revertido, após pedido de gerente da BRF, a interdição de uma unidade do grupo em Mineiros. Foi flagrado em conversa telefônica pedindo R$ 300 mil a um gerente da BRF, e outra conversa, revela que ele recebeu R$ 50 mil de um dono de curtume.
- Eraldo Cavalcanti Sobrinho, Fiscal agropecuário no Paraná e responsável por fiscalizar a Peccin. Teria assinado certificados de liberação de cargas para exportação sem executar fiscalização, em troca de dinheiro. Também atuou na fiscalização da Seara, por indicação de um funcionário da empresa, diz a PF. 
- Fabio Zanon Simão, Chefe da assessoria parlamentar do Ministério da Agricultura no Paraná. É suspeito de ter acertado com um frigorífico o pagamento de propina para liberação de abate de equinos
- Flavio Evers Cassou, funcionário da Seara e ex-fiscal do Ministério da Agricultura no Paraná, responsável, então, por fiscalizar a empresa. Acusado de ter acesso aos sistemas internos do ministério na condição de funcionário da Seara. Entregou aos cuidados da chefe da fiscalização no Paraná uma caixa com carnes e outros produtos. Pediu, segundo a investigação, para que fiscais assinassem certificados que permitiam a exportação de produtos, sem que houvesse fiscalização prévia.
- Gercio Luiz Bonesi, Fiscal do Ministério da Agricultura em Londrina. Acusado de intermediar exportação de miúdos de frango para a China pela empresa Jaguafrangos. Atuou, ainda segundo a PF, para favorecer o frigorífico Oregon em uma liberação de abate de cavalos
- Gil Bueno de Magalhães, Superintendente Regional do Ministério da Agricultura no Paraná. Usou o cargo para beneficiar empresas em troca de favores pessoais, segundo a PF. "Coordenador do esquema repulsivo de cobrança de propinas", diz trecho da investigação.
Idair Antonio Piccin, dono do frigorífico Peccin, do Paraná. Acusado de usar aditivos não previstos ou não declarados na produção de linguiças e salsichas, além de fraudar análises laboratoriais dos produtos. Flagrado em conversa discutindo o uso de presunto vencido e estragado na linha de produção. Acusado ainda de pagar propina para fiscais ignorarem irregularidades
- José Eduardo Nogalli Giannetti, representante do grupo Peccin. Tinha conhecimento de irregularidades na fabricação de produtos da empresa e no pagamento de propina aos fiscais, segundo a PF (????). 
- Josenei Manoel Pinto, Agente de inspeção sanitária do Ministério da Agricultura no Paraná. Acusado de integrar "cadeia criminosa" instalada no ministério. Gravação de câmeras de segurança, o mostra levando produtos da empresa Madero, que ele devia fiscalizar. 
- Juarez José de Santana, Chefe da Unidade Técnica Regional (UTR) da Agricultura de Londrina. Acusado de liderar a "célula autônoma criminosamente organizada" a mando dos responsáveis pela fiscalização do Ministério da Agricultura no Paraná, e de atuar em favor de empresas que deveria fiscalizar.
- Luiz Carlos Zanon Junior, Fiscal Federal Agropecuário da UTR de Agricultura de Londrina (PR). Cobrava das empresas MC Artacho, Wegmed Caminhos Medicinais e Unifrango Agroindustrial pagamento em troca da liberação de certificados de conformidade.
- Maria do Rocio Nascimento, médica veterinária e Chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal do Ministério da Agricultura, na Superintendência Regional do Paraná. É suspeita de usar o cargo para beneficiar a BRF e a Seara, em troca de vantagens pessoais. Chegou a viajar para vários países da Europa com todas as despesas pagas pela BRF, diz a polícia.
- Nair Klein Piccin, esposa de Idair Piccin e sócia na empresa Peccin. A polícia flagrou uma conversa do casal mostrando que eles usavam cabeça de porco no preparo de linguiça, o que é proibido pela legislação brasileira. Investigadores dizem que Nair pagou propina para fiscais agropecuários ignorarem as práticas sanitárias irregulares.
- Nilson Alves Ribeiro, sócio do frigorífico Frigobeto, ao lado de seu filho, Nilson Umberto Saccheli. Ele é acusado de pagar R$ 350 mil em propina para fiscais do Ministério da Agricultura do Paraná, em troca de uma licença para abate de carne de cavalo no frigorífico Oregon, seu parceiro.
- Nilson Umberto Saccheli, sócio do frigorífico Frigobeto, ao lado de seu pai, Nilson Alves Ribeiro. Ele é acusado de pagar R$ 350 mil em propina para fiscais do Ministério da Agricultura do Paraná, em troca de uma licença para abate de carne de cavalo no frigorífico Oregon, seu parceiro. 
- Normélio Peccin Filho, irmão de Idair Antonio Piccin e sócio da empresa Peccin. A PF flagrou uma conversa entre Idair e Normélio que mostra que a empresa produzia linguiças e salsichas em desacordo com a legislação, usando mais analito amido, nitrito/nitrato e aditivos que o permitido. A empresa também mascarava presuntos podres, segundo investigadores. Diálogos comprovaram ainda a manipulação de amostras de carnes para fraudar exames laboratoriais de fiscalização.
- Paulo Rogério Sposito, dono do frigorífico Larissa, em Mauá (SP), e candidato a deputado federal por São Paulo em 2010. Foi flagrado orientando funcionários a trocar as etiquetas das datas de validade dos produtos e dizendo não se preocupa com uso de carne vencida há três meses para preparo de alimentos. É acusado de pagar propina a fiscais do Ministério da Agricultura para ignorarem as irregularidades.
- Renato Menon, Fiscal agropecuário no Paraná. Acusado de integrar a rede criminosa no Ministério da Agricultura coordenada por Daniel Gonçalves Filho e Maria do Rocio Nascimento. Recebia dinheiro ou produtos para liberar cargas sem fiscalizá-las, diz a PF. Também atuava na fiscalização da empresa Madero, que não cometia irregularidades, e mesmo assim a pressionava para pagar propina.
- Roberto Brasiliano Da Silva, conhecido como Braz, é ex-assessor parlamentar do ex-deputado pecuarista José Janene e foi candidato a vereador em Londrina (PR) pelo PEN em 2016. Não tem cargo no Ministério da Agricultura, mas era colaborador de Juarez José de Santana, chefe UTR da Agricultura de Londrina. Recolhia propinas para Juarez e ajudava a camuflar os produtos dos crimes, segundo a investigação. 
- Roney Nogueira dos Santos, Gerente de Relações Institucionais e Governamentais da BRF e apontado como articulador do grupo junto a órgãos públicos. Segundo as investigações, praticou crimes contra a administração e saúde pública, em coautoria com servidores da Superintendência Regional do Paraná. É acusado de atuar para influenciar nas decisões dos fiscais do Ministério da Agricultura
- Sebastião Machado Ferreira, Agente de Inspeção Sanitária e Industrial, subordinado a Juarez José de Santana. Recolhia produtos oriundos de extorsão junto a frigoríficos e armazenava as carnes em sua casa
- Sergio Antonio de Bassi Pianaro, Agente de inspeção sanitária do Paraná. Integrava a rede coordenada por Daniel Gonçalves Filho e por Maria do Rocio Nascimento. Segundo as investigações, trabalhava em conjunto com Tarcísio Almeida de Freitas, fiscalizando a empresa Peccin. Diálogos interceptados mostram que eles sabiam das irregularidades sanitárias na Peccin, mas faziam vista grossa, em troca de dinheiro e alimentos.
- Tarcísio Almeida de Freitas, Agente de inspeção sanitária do Paraná. Integrava a rede coordenada por Daniel Gonçalves Filho e por Maria do Rocio Nascimento. Uma testemunha declarou que Tarcísio recebia dinheiro e benefícios para mentir em relatórios de fiscalização da Peccin. Diálogo interceptado pela polícia mostra Tarcísio reclamando para Sergio Pianaro sobre a qualidade dos produtos da Peccin
Já as seguintes pessoas tiveram a prisão temporária decretada:
- Alice Mitico Nojiri Gonçalves, esposa de Daniel Gonçalves Filho, por ser conivente com a atividade criminosa dele. Diálogos interceptados pela polícia indicam que ela recebia em casa dinheiro de propina e "encomendas" fruto de extorsão a empresários. Tinha ainda empresas de fachada em sociedade com o marido
- Antonio Garcez da Luz, Fiscal Federal Agropecuário, Chefe do escritório do Ministério da Agricultura em Foz do Iguaçu (PR). Era próximo de Daniel Gonçalves Filho e de Gil Bueno de Magalhães, mas não integrava essa organização criminosa. Agia paralelamente, mantendo seu grupo criminoso na cidade fronteiriça
- Brandízio Dario Junior, Fiscal federal agropecuário, responsável pela agência do Ministério da Agricultura em Maringá (PR). Participou de uma reunião com empresários locais em um shopping, ao lado de Juarez José de Santana (???)
- Celso Dittert de Camargo, Agente de inspeção do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SIPOA) no Paraná. Atuava na empresa Madero ao lado do fiscal Renato Menon e a pressionavam, criando empecilhos para forçar o recebimento de propinas. Celso mandou paralisar atividades da Madero alegando falta de higienização e disse que a situação se repetiria caso não houvesse “ajuda”. Os dois levavam carnes da empresa, como hambúrgueres, picanhas e filés mignon. Depois, começaram a receber dinheiro. A empresa chegou a mudar a sede para fugir dos fiscais. 
- Leomar José Sarti, classificador de produtos da Companhia de Desenvolvimento Agropecuário do Paraná (CODAPAR), lotado em Foz do Iguaçu (PR), também atuava em conjunto com o fiscal Antonio Garcez da Luz. A investigação diz que Leomar orientou fiscal a liberar carga de ervilha podre e mal cheirosa, apagando parte do laudo de vistoria que observava irregularidades
- Luiz Alberto Patzer, Agente de inspeção do Ministério da Agricultura e também auxiliar de Juarez José de Santana. Fez oito operações de crédito em uma conta de Juarez, num valor total de R$ 10 mil. Segundo a polícia, isso indica que Patzer recolhia propina de empresas e a repassava para Santana.
- Marcelo Tursi Toledo, Auditor fiscal federal agropecuário. Foi flagrado conversando com Osvaldo José Antoniassi sobre recebimento de propina, segundo a polícia.
- Mariana Bertipaglia de Santana, filha de Juarez José de Santana. Teria atuado como "laranja" do pai e chegou a ser sócia em empresas agora investigadas pela polícia. 
- Osvaldo José Antoniassi, Fiscal federal agropecuário atuante em Foz do Iguaçu (PR). Foi flagrado conversando com Marcelo Tursi Toledo sobre recebimento de propina, segundo a polícia. 
Rafael Nojiri Gonçalves, advogado e filho de Daniel Gonçalves Filho. Rafael recebia dinheiro de propina em sua conta bancária e atuava como parceiro nos negócios paralelos do pai. Segundo a polícia, ele tem empresas de fachada em sociedade com Daniel.
- Sidiomar de Campos, Agente administrativo na UTR de Agricultura em Londrina. Era executor de ordens de Juarez José de Santana (???). Recolhia e entregava encomendas suspeitas
Disso tudo, restam alguns detalhes que salientam aspectos interessantes. Um deles é sobre a peste da corrupção. 
Pelo que se vê nas acusações aos presos, alguns teriam usufruído de valores significativos, como o Chefe da Fiscalização do Ministério da Agricultura em Goiás, que teria recebido irregularmente valores de 300 mil e 50 mil reais, ou a veterinária que teria recebido viagens à Europa de presente. Quanto aos demais, fala-se em dinheiro, mas não são quantificadas as tais propinas, com exceção do Agente de Inspeção que repassou R$ 10 mil ao chefe. Daí infere-se o nível do que no RS definem como "chinelagem"!! Funcionários destruírem suas vidas profissionais em troca de merreca ou de alguns quilos de carne, só pode ser entendido como reflexo da "certeza da impunidade" derivada do fato de seus chefes também cometerem patifarias em maior ou menor grau de despudor
Este é o terrível legado moral que o Brasil está recebendo de suas autoridades maiores. Furtos e roubos envolvendo bilhões de reais de verbas públicas, com seus autores fazendo acordos de delação e indo cumprir penas em casa, servem como incentivo para que "delinquentes latentes" se deixem levar pelas facilidades oferecidas pelo exercício de cargos com algum tipo de autoridade para liberarem seus instintos desonestos
Me chamou a atenção o terrível destino da Madero Indústria e Comércio S.A., de Ponta Grossa, Paraná. Mesmo agindo corretamente, foi pressionada pelos bandidos investidos em cargos públicos para pagar-lhes propina. Queixar-se a quem, se o Superintendente Regional do Ministério da Agricultura chefiava os delinquentes?  Sem saída, os administradores da empresa renderam-se às pressões e passaram a "agradar" os meliantes, resultando, agora, em sua investigação como possíveis "corruptores". 
Outro aspecto a ser considerado foi a onda de repulsa e brincadeiras desencadeada contra pessoas famosas que fazem propaganda de algumas das empresas apontadas como fraudadoras dos produtos que eles anunciaram. Para quem consegue fazer seus dois neurônios funcionarem coordenadamente, é uma coisa risível. Mas ante um povinho como o nosso, que tem a televisão como fonte prioritária de informação, quando alguém famoso faz propaganda de alguma coisa, mesmo que não a use, liga sua imagem ao que ele diz ser bom. Que este episódio sirva de lição para os demais "famosos": ter certeza sobre o que estão dizendo ser bom.
Por fim, já foi aceito por todos que a maneira como foi feita a divulgação da Operação Carne Fraca foi um espetáculo exagerado. Me pareceu que a tentação midiática atingiu os responsáveis por esta investigação, levando-os a buscar seus "quinze minutos de fama" prometidos por Andy Warhol.
Faz tempo que critico a excessiva exposição de policiais, em diversos âmbitos, dando explicações de como se processam investigações criminais. Entendo que detalhes de investigações devem constar nos processos enviados à Justiça, se imprescindíveis à formação de provas. À imprensa e à sociedade devem ser fornecidos dados sobre quais crimes foram cometidos e quem os cometeu. O resto é sede de holofotes, que podem causar mais males que benefícios.
Concluindo, nos resta esperar que os 0,5% dos frigoríficos e os 0,3% de funcionários públicos envolvidos como criminosos nessa patifaria sejam punidos exemplarmente, sem nenhum tipo de leniência, para que os exemplos da Petrobras -- onde foram punidos menos de meia dúzia de "diretores" e não se fala na apuração de envolvimento de funcionários de 2º e 3º escalões (alguém acredita que um Paulo Roberto Costa, do alto da arrogância que afeta os grandes bandidos, iria para um computador alterar editais, planilhas e outros documentos?) -- não se repitam.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Captagón - Preparemo-nos Contra a Nova Desgraça do Narcotráfico

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Captagon, o Monstro Invisível da Guerra na Siria
por Mariana Escobar Roldán
Captagon. Uma droga sintética que leva à euforia; disfarça a fome, a fatiga e o frio, e aumenta a força e a destreza em cenários como os de uma batalha. Captagon. O estimulante que no Oriente Médio, sem fazer demasiado ruido, superou o número de apreensões de opiáceos. Captagon. A fonte perfeita de financiamento para os atores do conflito na Síria, e o narcótico de seus soldados e vítimas.
Sua base, a fenetilina, servia na Alemanha de 1961 como medicamento para crianças com transtornos de atenção. Mas logo foi proibido por seu caráter viciante e seus efeitos sobre o sistema hepático, e entrou no mercado negro para uso recreativo.
Os primeiros a usa-lo foram os búlgaros. O mundo estava entorpecido com a queda do Muro de Berlim. Nesse país que fazia parte do império soviético, as grandes empresas estatais se desmantelavam, boa parte delas da indústria química e algumas, inclusive, exportadoras do Captagon. 
Em função da cooperação política e técnica entre Bulgária e Síria, durante a Guerra Fria muitos sírios estudaram química na Bulgária e estabeleceram contatos que, se por um lado abriram o mercado entre os dois países, também traçaram o caminho do tráfico ilícito.
"Com uma grande força de trabalho tecnicamente capacitada e sem emprego, os químicos búlgaros se voltaram para fontes de subvenção ilegais porém lucrativas. A principal foi a das pastilhas de Captagon para a Síria e o resto do Oriente Médio, pela rota da Turquia", detalha Bejamin Crabtree, especialista em tráfico de drogas e crime organizado.
Ele elaborou uma radiografia do comércio flutuante dessa droga, depois de entrevistar mais de 20 agentes da lei e com dados atualizados sobre as apreensões (clique para aumentar a imagem).
Entre os anos noventa e começos deste século, os centros de produção de Captagon eram Bulgária e Turquia. Mas o incremento nos controles estatais transladaram o negócio para a Síria.

Síria entra no negócio
Neste país, segundo Crabtree, o negócio disparou em 2011, coincidindo com o início do conflito entre o regime de Bashar al Assad, os rebeldes e demais atores locais e estrangeiros que se enfrentam defendendo variados interesses.
Quatro fenômenos fizeram da Síria um caldo de cultura ideal para o negócio do Captagon: a ausência do Estado em zonas ocupadas pela oposição; a exígua fiscalização nacional e internacional onde o Governo se faz presente; a urgência de encontrar formas de financiamento ou de subsistência no meio de um conflito que deixou 85,2% da população na pobreza extrema; e um mercado crescente entre mais de 10 milhões de migrantes que fogem do conflito.
Apesar das limitações para aplicação da lei naquele país e às dificuldades para a coleta de informações oficiais, o investigador acha que o número de capturas da droga é superior a de outros países da região em melhores condições sociais. "Isto indica que o problema é muito maior do que se vê", adverte.  Somente em 2015 foram confiscados 24 milhões de comprimidos na Síria.
Chama a atenção o fato de que, para outras drogas, como a heroína de origem afegã, a instabilidade e o conflito conduziram a uma trajetória geográfica contrária: sumiram das zonas de conflito na Turquia e Síria.  
As redes de traficantes do Oriente Médio preferem uma vizinhança mais estável. Não obstante, os principais mercados de destino para o Captagon são os países da península Arábica, e ainda, os migrantes que se dirigem à Europa também são um público-alvo, segundo detectou Crabtree.
O Captagon, sem dúvida, tem uma história inusitada.

A História Incomum
A produção e o tráfico de Captagon se converteram em uma fonte perfeita de custeio para os atores do conflito na Síria. A simplicidade e a natureza móvel das instalações de produção, e os limitados conhecimentos químicos requeridos, são ideais (1).
De acordo com as observações de Crabtree em sua investigação, a produção de uma pílula custa cerca de 15 centavos de dólar e é rentável, apesar de seu preço no mercado ser variável, dependendo do país: na Síria, custa entre 5 e 10 dólares; na Jordânia, pode ir até 29 dólares; e alcança 50 dólares no sul da península Arábica.
Desde a Síria, a proximidade com os principais mercados de destino também ajuda. A isto se soma a crescente demanda interna do país, que oferece fontes altamente rentáveis com um baixo risco de interceptação, devido às debilidades na aplicação das leis.
Mais ainda, nesse país não só o crime organizado se beneficia desse tráfico, mas também atores estatais e não estatais díspares. (2) Destacando-se o Estado Islâmico (EI), que não deixa pistas de sua participação nesse mercado.
"Serem vistos apoiando ativamente o tráfico significaria graves implicações nos seus esforços de propaganda", destaca Sergio Moya, coordenador do Centro de Estudos do Oriente Médio, na Costa Rica. Acrescenta que o grupo divulga esforços ocasionais para demonstrar que está contra o narcotráfico: em março de 2016 executou cinco traficantes e teria tentado destruir plantações de cannabis descobertas em seu território.
A teoria de Crabtree é que, em função da queda nos preços do petróleo, os atores do conflito na Síria necessitam acesso a fontes novas e facilmente exploráveis de subvenção. O Captagon atende esse propósito e tem um efeito perverso: os soldados e rebeldes que o consomem se convertem em máquinas de guerra sem escrúpulos.
Mas há mais: "seis milhões de migrantes sírios refugiados em países vizinhos são uma comunidade de risco para o consumo de drogas e atuam como 'mulas' para pagar suas viagens a países europeus", aponta o especialista.
O Captagon, por exemplo, lhes tira o cansaço, a sede, e justo agora, quando se aproxima um violento inverno no Oriente Médio, poderá tornar-se elemento de primeira necessidade.
Em resumo, há uma guerra, uma droga e consumidores em todos os bandos. O que menos interessa aos traficantes é a proximidade da paz. 

Uma Droga de Guerra
Em todos os países em conflito da África e Oriente Médio onde esteve Camilo Kuan, especialista em saúde pública e drogas, as anfetaminas são mais comuns do que se acredita. "No norte da Síria, na fronteira com a Turquia, nas zonas muçulmanas da África, se cortam os alimentos, o abastecimento de gás e água. As pessoas sentem medo e devem fazer grandes deslocamentos, por isso as drogas se tornam o melhor amigo dos guerreiros e dos sofredores", afirma. 
De acordo com Hassan Turk, especialista em Oriente Médio, os grandes movimentos de populações, pelas migrações derivadas de conflitos armados, propiciam formas de transporte de drogas.
"Agora é mais fácil que antes. Entre migrantes e refugiados sírios há inocentes, mas também terroristas e traficantes, que aproveitam uma fronteira débil com a Turquia para movimentar um mercado negro que não percebemos."
Quando se formar algum tipo de acordo de paz na Síria será crucial desmantelar atividades ilícitas como o Captagon. Sem que isto fique claro, conclui Crabtree, "o narcotráfico criará instabilidade a longo prazo e atuará como um impedimento à paz e ao desenvolvimento".
Sem uma adequada intervenção dos governos, o Captagon seguirá sendo um monstro invisível no Oriente Médio. As consequências são indefiníveis a longo prazo. E Síria já as sofre diariamente.

Observações

(1) A Produção é Muito Simples
O Captagon se produz de maneira clandestina e simples: só se necessitam laboratórios caseiros e precursores químicos. Enquanto as substâncias base para fabricar esta droga são muitas vezes obtidas diretamente dos fabricantes, os traficantes de anfetaminas também compram ou roubam grandes quantidades de medicamentos para a tosse das companhias farmacêuticas ou farmácias que contenham norefedrina ou outros precursores similares. As pílulas medicinais são dissolvidas e reutilizadas em laboratórios clandestinos para criar comprimidos de anfetaminas, como o Captagon.

(2) Os Que Estão Detrás do Tráfico:

- Exército Sírio Livre e Forças Rebeldes Moderadas

Não só usam, mas também se beneficiam do tráfico de Captagon, segundo se pode identificar nas apreensões da droga, que mostram percursos desde a província de Hatay, onde esses grupos rebeldes exercem controle.
Apesar disso não significar necessariamente uma participação ativa e direta no mercado, de acordo com o grupo de investigações sobre Crime Organizado, Global Initiative, porém isso é muito provável: a droga proporciona uma fonte segura de financiamento para esses atores, sobretudo quando suas formas de sustentação mais tradicionais, como o petróleo e a extorsão, proporcionam escassos retornos, atualmente, aos grupos nesta parte da Síria.

- O Regime Sírio

Apesar do vínculo direto entre o tráfico de drogas e o regime não ser totalmente claro, Global Initiative evidencia que muitos dos grandes apresamentos realizados na Turquia e na Jordânia, e os confiscos marítimos frente às costas da Líbia, a partir de 2016, eram originárias de zonas sob completo controle do regime.
Além disso, a ausência de arrestos, desde 2011, no Aeroporto Internacional de Damasco, sugere acordos entre traficantes e o regime. Síria vem mantendo uma forte economia ilícita desde muitos anos. E isto pode ter sido agravado pelo alto índice oficial de desemprego e pela crise econômica: o Produto Interno Bruto (PIB) foi reduzido em 15,4% em somente quatro anos, até 55,8 milhões de dólares em 2014.

- O Estado Islâmico

A extinta repartição russa contra o narcotráfico, FSKN, informou em 2014 que o grupo Estado Islâmico auferiu mais de um bilhão de dólares com o tráfico de drogas e produção das mesmas. Ainda que não esteja claro para Global Initiative que os terroristas sejam exportadores de drogas, definitivamente há uma relação conflitiva com o narcotráfico.
Frequentemente são descobertas nos uniformes de combatentes mortos, bolsas com pílulas que são usadas como uma espécie de recurso de combate para fazer frente ao trauma e também como sedante. Mas o grupo tem uma dupla moral que se manifesta quando os traficantes capturados dentro de seu território, frequentemente são executados, conforme é mostrado nos seus vídeos de propaganda terrorista.

¿Como se Move o Captagon?

- Quando os envios são marítimos, vão através do Canal de Suez até os portos na Península Arábica ou na África Oriental. Também a partir da Turquia, para portos na costa mediterrânea.

- Por terra, para o sul, se move desde as zonas rebeldes da Síria até a fronteira terrestre com a Jordânia.

- Por terra, desde o oeste da Síria, sai para a Península Arábica através do Líbano.

- Há poucas provas de que o Captagon seja transladado em grandes quantidades desde a Síria, diretamente ao Iraque, por falta de segurança territorial para um tráfico consistente.

Encerrando

O tráfico do Captagon desde a Síria para o resto do Oriente Médio e África Oriental está sendo pouco tratado pelas autoridades e requer atenção para que se alcance a paz nesse país.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A Equação Militar

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por Sérgio Paulo Muniz Costa
Quando se pensa uma democracia, vem-nos logo à mente o voto, as instituições, a representação, o governo responsável e a alternância no poder.
Sabemos que existem outras condicionantes: as sociais, expressas na igualdade de oportunidades, no desenvolvimento humano e na redução das desigualdades; bem como as econômicas, traduzidas no direito de qualquer pessoa trabalhar e produzir para viver dignamente e prosperar.
Tudo isso e muito mais converge numa prática comum continuamente exercitada que parte do pressuposto da falibilidade do sistema e da necessidade de sua constante reforma.
Assim, uma democracia são muitas coisas e se fosse possível sintetiza-la numa única palavra, esta seria participação, materializada no concurso de todos os cidadãos nos negócios públicos, na promoção do bem comum e na geração de riqueza.
No caso do Brasil, para que a cidadania se confirme por meio da participação na coisa pública, é preciso que a sociedade seja adequadamente informada dos grandes temas do interesse nacional, e não desinformada pelas conveniências do poder, do corporativismo ou do simplismo.
E para tanto, há que se trazer a público o essencial de questões aparentemente restritas a setores do Estado ou do governo, mas que na verdade dizem respeito à sociedade como um todo. 
É o que está faltando na mirabolante proposta anunciada pelo governo de manter os militares na ativa até os 65 anos de idade, com “adaptações na carreira”, no contexto da reforma da previdência.
Uma solução que vai na contramão de qualquer noção de produtividade pela qual o País clama, na medida em que encherá a caserna de idosos e idosas sem condições de acompanhar a atividade-fim das forças singulares e irá gerar mais despesas com instalações, alimentação, saúde e material de consumo, transformando os combatentes que envelhecem no que jamais foram: burocratas, dos quais o País tem uma quantidade mais do que razoável.
Respondendo à clássica pergunta dos anos 50: “Forças Armadas para quê?“, elas servem para fazer a guerra, a atividade humana mais perigosa, tanto do ponto de vista individual como coletivo.
Nesse aspecto, a sociedade brasileira precisa de um choque de informação sobre a sua segurança nacional, que é o produto, bem e serviço que as Forças Armadas oferecem, pelo qual ela paga e vai muito além de eventuais participações em missões de paz, ocupações de favelas, campanhas assistenciais ou contribuições ao desenvolvimento do País.
É preciso desmontar o mito maravilhoso de que o Brasil desfruta de quase 150 anos de paz regional por que é uma nação pacífica.
Este é o efeito. A causa é outra: a incontestável superioridade militar regional do Brasil e o seu ponderável poder para dissuadir eventuais agressões. A paz se assegura com o preparo para a guerra, e ninguém descobriu até hoje outra forma de fazê-lo.
De todo esse dispositivo armado do Brasil, a principal arma é o seu componente humano, sendo desnecessário repetir aqui as especificidades da profissão militar que limitam, em qualquer força armada do mundo, o tempo efetivo de serviço. A guerra é antes de tudo uma questão de fôlego, do general ao soldado.
Porém, o maior mal que se causa a um exército do qual todos saem tarde é que cada vez menos bons entrarão nele cedo. Se a perspectiva de um exército envelhecido, traz, de imediato, a perda de credibilidade da força como elemento de combate, o mal mais duradouro é o afastamento dos melhores candidatos à carreira de oficial combatente.
Da visita do General Dwigh David Eisenhower, Supremo Comandante Aliado na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, que veio ao Brasil em 1946 e conheceu a nova Academia Militar das Agulhas Negras, à época denominada Escola Militar de Resende, o General Pedro Aurélio de Góes Monteiro, destacado chefe militar brasileiro durante o conflito, colheu a observação de que ela formava melhores tenentes que a sua congênere norte-americana, West Point, mas que esta preparava melhores generais.
O comentário do general norte-americano, independentemente do acerto quanto à formação de oficiais e generais, serve de base à reflexão sobre a carreira profissional das pessoas sobre cujos ombros recairão graves responsabilidades na maior de todas as crises para um país: a guerra. É uma questão cujas decisões não se aplicam ao presente, mas a gerações e ao futuro do País no médio prazo.
O que se quer do oficial combatente, não só do Exército Brasileiro, como da Marinha do Brasil e da Força Aérea Brasileira, é a máxima proficiência em cada etapa da carreira.
E isso não se assegura impondo-lhe a permanência cada vez maior nas fileiras, mas exatamente o contrário, admitindo-se a evasão com proventos de inatividade proporcionais ao tempo de serviço, e com programas de inserção profissional no mercado de trabalho, como acontece nas forças armadas dos países mais avançados que dependem de dispositivos militares críveis com elevado grau de prontidão e resposta.
Se estamos discutindo o presente do País, o Brasil precisa de menos funcionários e de mais trabalhadores.
E se estamos discutindo o seu futuro, é preciso alertar que o Brasil na medida em que se desenvolver e atingir seus objetivos de crescimento econômico e influência internacional, terá, inevitavelmente, maiores desafios na área de defesa que precisam ser visualizados desde já.
O Brasil precisa voltar ao tempo, não tão distante, em que encarava os seus problemas de frente, em busca de soluções e não de projetos de poder.
Com problemas proporcionais ao seu tamanho, o Brasil não tem problema pequeno, que no caso da Defesa Nacional, além de enorme, é permanente, simplesmente como acontece a qualquer unidade política soberana.
É um erro grosseiro querer resolver problemas antigos com velhas ideias. O que se vai conseguir com isso é trazer problemas maiores, desenterrando velhos e criando novos. Por sinal, como aconteceu nos anos 90 do século passado.
No início daquela década, com propostas ingênuas de drástica redução de efetivos e criação de forças profissionais dotadas de meios de deslocamento que as fariam mais caras e menos eficientes do que o dispositivo existente para as estratégias de presença e dissuasão que o Brasil prioriza.
E no final da década, quando a insensibilidade e o descaso da elite política para com a Defesa Nacional funcionaram, tanto no meio civil como no militar, como eficientíssimos cabos eleitorais de Lula, que já ouvira de Fidel Castro a recomendação de agradar os militares, peça-chave de seu projeto de poder.
Os militares não precisam ser agradados. Eles necessitam dos meios e condições para cumprirem suas missões constitucionais, a via pela qual verdadeiramente se exerce e se confirma a subordinação do poder militar ao poder civil.
No grande sistema de equações que é o Brasil, a militar, a exemplo das demais, emprega as mesmas variáveis – pessoas, recursos e políticas – com as mesmas constantes – nação, estado e soberania - e quem governa o País haverá de lidar com umas e com outras, variáveis e constantes, sem embaralha-las.
Mas para isso, será preciso antes de tudo saber que a equação militar é diferente.
COMENTO: Além da questão da idade, onde alguns ingênuos acreditam que Forças Armadas compostas por sexagenários poderiam cumprir suas funções constitucionais, já está dando nojo essa mentira deslavada de que militares são responsáveis por problemas na Previdência. 
MILITARES NÃO FAZEM PARTE DO SISTEMA PREVIDENCIÁRIO!!
E as Pensões recebidas pelas viúvas - e algumas filhas remanescentes do corte ocorrido em 2000 - são plenamente cobertas pelos descontos que os militares sofrem especificamente para isso, desde seu ingresso na carreira até morrerem. O militar que morrer aos 75 anos, terá contribuído, no mínimo, por 55 anos para a Pensão de sua esposa, que lhe sobreviverá por mais poucos anos. E esta continuará contribuindo para as futuras Pensões de outras beneficiárias. 
O que existe na realidade é o total descontrole na administração do sistema previdenciário, do qual, repito, os militares não fazem parte. Gastos mal feitos, desvios de verbas para obras faraônicas, leniência ao não cobrarem "grandes contribuintes inadimplentes" (clubes de futebol são reconhecidos sonegadores seguidamente premiados por perdões e "renegociações de dívidas" não cumpridas) e pagamentos de benefícios a quem nunca ou pouco contribuiu com o INSS (aposentadorias rurais, "donas de casa", jovens aposentados por incapacidade física causadas por acidentes - destaque aos acidentes com motocicletas). Saliento esses tipos de beneficiários sem emitir valor de juízo sobre serem tais benefícios justos ou não, mas somente para apontar pontos onde falha o ingresso de recursos para a previdência. Nem vou entrar na seara dos "anistiados políticos" - pesquisem as indenizações e pensões vitalícias! - e "aposentadorias proporcionais" e correspondentes pensões de políticos e servidores do legislativo, como vimos recentemente.

sábado, 30 de abril de 2016

Uma Dor Que Ninguém Vê - Um Tabu a Ser Enfrentado


Uma dor que ninguém vê
Em 17 anos, foram 19.295 pessoas mortas. É como se a população inteira de um município da serra gaúcha desaparecesse. São Francisco de Paula tem 20.224 habitantes. O DATASUS (Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde) confirma: são 10,2 casos de suicídio a cada 100 mil habitantes. Este índice coloca o RS no topo do ranking nacional para mortes deste tipo. Em seguida vem Roraima, com 8,3 e Mato Grosso do Sul, com 8,1.
O estado que tem o menor índice é o Rio de Janeiro, uma média de 2,4 mortes para cada 100 mil habitantes. Os números não são de hoje e vem aumentando. De acordo com Ricardo Nogueira, psiquiatra do Hospital Mãe de Deus que pesquisa ansiedade, depressão e prevenção ao suicídio, os maiores índices de casos suicidas acontecem na região nordeste do estado.
De acordo com o Mapa da Violência, o RS ainda tem 11 das 20 cidades brasileiras que mais tiveram casos. Três Passos (2º), Três de Maio (5º), Nova Prata (6º), Santa Cruz do Sul (11º), Tupanciretã (11º), Santiago (12º), Canguçu (13º), Lajeado (14º), Venâncio Aires (15º), Encruzilhada do Sul (18º) e Osório (19º).
Os municípios com maior incidência de suicídio no estado são de colonização alemã. Por isso, a ascendência é um fator considerado pela Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul (APRS). No entanto, o coordenador do departamento de psiquiatria no estado, Marco Antonio Caldieraro, diz que isso não é determinante: “A gente tenta não valorizar muito essa questão porque se você está atendendo um paciente de uma etnia que tem menos incidência em suicídio não quer dizer que é um motivo para não se preocupar.”
Para a Doutora em Ciências Médicas, Rosa Maria Martins Almeida, da UFRGS, que estudou o suicídio em homens e mulheres, o tema deve ser tratado como um problema de saúde pública e o governo deveria criar programas e campanhas de prevenção, assim como as diversas campanhas que existem para prevenção da AIDS, tuberculose, gripe, HPV, entre outros. “É necessária uma discussão mais aberta sobre este problema na sociedade e o estabelecimento de estratégias para a precaução, considerando as particularidades regionais”, concorda a professora da Unisinos Fernanda Barcellos Serralta. A tese de doutorado da psicóloga foi sobre os riscos de suicídio em pacientes deprimidos.
A APRS entende que o suicídio, na maioria das vezes, está relacionado a algum tipo de transtorno psiquiátrico muitas vezes não diagnosticado e não tratado de forma adequada. Os mais comuns são: depressão, bipolaridade, dependência química, transtornos de personalidade e a esquizofrenia.
Marco Antonio Caldieraro salienta que é possível tratar os pacientes com consultas frequentes, sem a necessidade de internação. Contudo, para aqueles que possuem tendências suicidas o melhor é que o tratamento seja realizado onde não exista a possibilidade dele tentar algo contra si mesmo. O suicídio ocupa a 3ª colocação entre as mortes violentas no RS, ficando atrás dos homicídios (1ª) e dos acidentes de trânsito (2ª), segundo o DATASUS.
Aumenta o suicídio entre jovens
Diversos jovens sofrem em silêncio e as famílias só ficam sabendo dos problemas depois que o fato está consumado. De acordo com dados do Mapa da Violência, do Ministério da Saúde, o índice de jovens que tiraram a própria vida aumentou 40% em 10 anos. Para a doutora em psicologia, que defendeu uma tese sobre as motivações para esta violência, Fernanda Serralta, o suicídio na adolescência associa-se a fatores como a depressão, baixa autoestima, disfunção familiar, abuso sexual, maus tratos, negligência e o uso de substâncias psicoativas.
O médico Ricardo Nogueira confirma o aumento de suicídios entre os jovens. Segundo seus estudos, os abusadores de álcool e drogas estão na liderança com 33% seguido dos jovens depressivos com 28%. Esquizofrênicos, jovens com transtorno de personalidade e ansiedade completam a lista. Porém, outro sinal que preocupa é o crescimento do número de mortes entre as mulheres jovens, “principalmente meninas dos 15 aos 19 anos, usuárias de álcool e drogas ou que estão em gestação”, destaca Nogueira.
Como vai você?
Todos os especialistas consultados pela reportagem apontaram o CVV (Centro de Valorização da Vida) como a principal referência na prevenção de suicídio no Brasil. A organização não governamental é, inclusive, citada pelo Google quando busca-se informações sobre o assunto.
O slogan “como vai você” é uma alusão à forma com que eles trabalham. No ano passado, no Brasil, o CVV atendeu um milhão de pessoas que buscavam ajuda, o equivalente a uma ligação a cada 33 segundos. Fundado em 1962, em São Paulo, o CVV atende pelo número 141. O coordenador nacional, o gaúcho Anildo Fernandes, explica que o atendimento prioriza o ato de ouvir as pessoas: “Nós procuramos oferecer uma escuta compreensiva. Sabemos que, à medida que a pessoa começa a falar dos seus problemas, ela começa a se sentir aliviada e, assim, encontra forças dentro dela própria para reagir”, explica. Conforme Anildo, a perda é a maior motivação das ligações para o 141. Ela pode estar relacionada ao falecimento de um ente querido, a demissão de um emprego ou até mesmo a morte de animais de estimação.
No Rio Grande do Sul, nos primeiros quatro meses de 2015 foram atendidas 19.350 ligações. Uma média de 4.837 ligações por mês, de acordo com o coordenador. A organização dispõe de atendimento presencial, via internet, pelo telefone e até mesmo por carta. E há também os grupos de apoio aos “sobreviventes”, denominação dada às pessoas que já tentaram tirar a própria vida ou àqueles que são parentes de vítimas.
Mesmo com a ajuda, o Centro de Valorização da Vida não promete terapia a quem procura o serviço. “Não é um trabalho terapêutico. Nós somos pessoas da comunidade, cada um com a sua profissão”, explica Anildo, contador, especializado em controladoria. Ele divide seu tempo entre atividades profissionais e tarefas que possui no CVV. Apesar de reconhecida por lei como entidade de utilidade pública federal, o Centro de Valorização à Vida não recebe verbas do governo. Toda a renda que o centro arrecada para a sua manutenção é proveniente dos próprios voluntários, a partir da realização de “vaquinhas” e brechós que a entidade organiza. O coordenador entende que o Centro cumpre uma lacuna deixada pelo Estado, tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul: “O estado, por mais que tente fazer, não encontra mecanismos para atender a demanda. A gente procura então suprir essa necessidade”, afirma.
Não diga que a canção está perdida
A especialista Rosa Maria Almeida salienta que os familiares que notarem mudanças de comportamento como o desejo de não sair de casa, isolamento, impulsividade, agressividade, vontade de chamar a atenção, falta de controle, níveis de depressão, perda de motivação e falta de convivência com amigos, devem ficar constantemente em alerta porque são indícios que podem levar ao ato de tirar a própria vida.
A Secretaria Estadual de Saúde do RS (SES-RS) reconhece que o suicídio é um grave problema de saúde pública. De acordo com a assistente social da SES –RS, Andreia Volkmer, o estado tem feito campanhas em duas frentes: de valorização da vida, sem citar o termo suicídio, e publicando um guia de bolso com informações para os profissionais da saúde. Conforme a assistente social, está nos planos do governo capacitar os profissionais da saúde no interior do estado. Entretanto, em função da contenção de despesas, as viagens estão suspensas.
O psiquiatra Ricardo Nogueira relembra que em 2007 o estado criou o Programa de Prevenção de Suicídio dentro de uma ação chamada PPV (Programa Prevenção Da Violência) envolvendo várias secretarias. Nas 10 cidades onde este tipo de morte era mais constante foram oferecidos programas de tratamento à depressão e orientação à população. Os números de suicídio se reduziram em 12% durante o programa. No entanto, de 2011 a 2014 não houve continuidade deste projeto: “Vimos que até 2010, das 20 cidades com maior índice suicida no Brasil, metade eram gaúchas, segundo dados do DATASUS. De 2011 para 2014, já são 13 cidades. É um aumento de 30%. Então vamos trabalhar nas cidades onde estão as maiores incidências”, afirma o psiquiatra.
Nogueira revelou que uma parceria conjunta envolvendo a Secretaria Estadual de Saúde, o Centro Estadual de Vigilância de Saúde, o Centro de Informações Toxicológicas, e o Hospital Mãe de Deus foi criada para lançar um novo projeto de prevenção ao suicídio em setembro. “No momento estamos na fase do geoprocessamento, um levantamento do número de suicídios ocorridos e de tentativas mal sucedidas. Houve no Rio Grande do Sul, 1500 tentativas de suicídios por intoxicação de medicamentos, de material de limpeza e de venenos, de acordo com o Centro de Informação Toxicológicas. Então estamos fazendo esse geoprocessamento de quais são os tipos de suicídios para combatermos.” A intenção, segundo o médico, é começar por Porto Alegre, por ter o maior número absoluto de mortes e ser a cidade mais populosa.
Mas os maiores percentuais de casos suicidas ocorrem na região nordeste do estado. O atual deputado Federal Osmar Terra integra o grupo que está organizando o novo programa. Ele era o secretário da saúde em 2007, quando foi criado o Programa de Prevenção ao Suicídio. Terra, que também é médico, afirma que para enfrentar o problema é preciso combater o uso de drogas e diagnosticar os transtornos mentais, acompanhando de perto os grupos de maior risco.
Para o deputado, uma solução seria o governo contratar psiquiatras nas regiões onde os índices são maiores, e identificar os grupos de risco, ou seja, aqueles que já tentaram o suicídio ou apresentam depressão grave. “Nós precisamos de uma política de diagnóstico. A pessoa que tem borderline (transtorno de personalidade), por exemplo, precisa ser acompanhada, ela é um suicida em potencial. Nós temos bons psiquiatras, bons profissionais, mas a população não tem acesso a estes especialistas”, explica Osmar Terra.
Um tabu para a imprensa
Apesar dos dados alarmantes de suicídio no Brasil e no Rio Grande do Sul, o assunto é pouco tratado pela imprensa com a justificativa de que a visibilidade do tema pode influenciar quem está predisposto.
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros ainda não aborda a questão do suicídio diretamente. Conforme o documento, os profissionais da imprensa tem a responsabilidade de preservar o direito à privacidade, a imagem e à honra das fontes. Também é proibido divulgação de informações de caráter pessoal, mórbido e sensacionalista.
O jornalista Carlos Etchichury foi o autor de uma série de reportagens sobre suicídio no jornal Zero Hora, em 2008. Etchichury entende que ao não divulgar o problema, o jornalismo está se omitindo da sua função: “ao não publicar matérias sobre suicídio, o jornal deixa de abordar uma das três principais causas de morte violenta no Estado — um assunto de alto interesse social. E não abordando este assunto, o jornal não cobra do Estado (uma das atribuições da imprensa é fiscalizar o Estado) políticas públicas capazes de combater o suicídio”.
De acordo com o jornalista, que defende mais publicações sobre o assunto, há manuais da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Associação Brasileira de Psiquiatria que auxiliam os profissionais da comunicação na divulgação do suicídio. “Não sei se a publicação de reportagens teria, como consequência imediata, a redução das ocorrências. Mas os veículos poderiam, por exemplo, prestar um serviço público relevante para a população, orientando familiares e amigos de suicidas ou pessoas que tentaram se matar e cobrando políticas públicas do Estado.
Um pedido de ajuda: quando o apresentador vira ouvinte
Apresentador do programa “Pijama Show”, na Rádio Atlântida (Agora na Rádio Farroupilha), em Porto Alegre, Éverton Cunha é conhecido por Mr. Pi. Acostumado a atender ouvintes no ar durante a madrugada, o radialista foi pego de surpresa há quase 15 anos, quando recebeu a ligação vinda de um jovem de Chapecó/SC. O ouvinte não queria pedir música, muito menos comentar algum assunto do programa: ele havia ligado para anunciar que estava prestes a tirar a própria vida.
“Eu atendi e logo de cara ele disse que estava pensando em se matar. Eu fiquei surpreso muito mais pela ligação do que pela ideia. Eu já fui jovem, a maioria do meu público é jovem. Eu sei que muita gente pensa nisso e eu sei que, na madrugada, as pessoas ficam muito mais sensíveis, pensativas. Não tinha como julgar se aquilo era sério ou se era alguma brincadeira, então deixei ele falar”, conta o apresentador.
A ligação durou alguns minutos. Mr. Pi escutou o jovem falar dos problemas e tentou fazê-lo mudar de ideia. “Quando ele falou aquilo eu pensei exatamente o inverso: se ele está me propondo o fim, eu vou tentar propor um recomeço.” No final da conversa, Mr. Pi colocou no ar a canção de Raul Seixas, Tente Outra Vez.
Depois da conversa, o ouvinte manteve contato quase que diariamente com o apresentador, a seu pedido. O jovem catarinense contava como estava a sua vida e Mr. Pi, algumas vezes, lia as mensagens no ar. Meses depois, o rapaz afirmou que tinha desistido da ideia de suicídio. Mais tarde, encontrou o comunicador pessoalmente, em um evento em Chapecó, e lhe agradeceu.
O radialista não quer ser visto como “herói” na história. Ele ressalta que apenas tratou de escutar uma pessoa que estava com problemas: “Não acredito que eu tenha feito algo de extraordinário. Mas a gente nunca sabe, posso ter feito a diferença ou não. Ele precisava falar, eu apenas escutei. Essa história foi marcante, diversos ouvintes lembram até hoje. É um assunto delicado, eu acho que nós temos que ter muito cuidado quando tratamos de suicídio. Temos que fortalecer nas pessoas a ideia da vida”, diz Mr. Pi.
Redação: Caroline Garske, Douglas Demoliner, Guilherme Moscovitch, Laís Albuquerque, Luana Schranck, Maurício Trilha e Stéphany Franco.
Fotografias: Laís Albuquerque
Edição e supervisão: Luciana Kraemer.
*Texto produzido pelos alunos de Jornalismo da Unisinos/RS para a disciplina de Jornalismo Investigativo

sábado, 5 de março de 2016

Guerra ao Mosquito

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“Se queres a paz, prepara-te para a guerra!”.
Informações oriundas do Ministério da Defesa e publicadas em órgãos de imprensa asseguram que 200.000 militares brasileiros estão sendo empregados no mutirão de combate ao mosquito "aedes aegypti", uma verdadeira guerra segundo o próprio titular da Pasta. Para os que possuem um conhecimento do número de militares das Forças Armadas, esse efetivo anunciado é surpreendente.
Nesse emprego, válido em seu mérito, a quantidade de militares empenhados causa uma real preocupação. É sinal que nossas fronteiras e organizações militares estão desguarnecidas, nossos navios estão atracados ou à deriva e os nossos aviões sem tripulação para a condução de nossas autoridades para ouvirem suas bases.
As Forças Armadas, no período da Nova República, têm sido empregadas constantemente em "ações complementares", com o objetivo de dar apoio à população, não só em calamidades de toda ordem, mas também em ações de caráter social, a substituírem órgãos que não possuem a capacidade ou competência para conduzir com eficácia tais operações. O Exército, inclusive, adota o lema "Braço Forte - Mão Amiga", esta representando o apoio à população brasileira.
Nos governos petistas este emprego é de um crescimento constante, parecendo não medirem consequências. "Chamem o Exército" é um mote a ecoar nos corredores de Brasília e até mesmo no Palácio do Planalto. Talvez ele represente fielmente o que já foi dito por um de seus líderes: "É uma mão-de-obra barata, nada questiona e nem entra em greve". Sem dúvida uma visão de sindicalistas.
Essa “guerra ao mosquito" representa também uma tentativa do governo central de atingir um grau mínimo de credibilidade. Efetivos expressivos das Forças Armadas — instituição de maior credibilidade no país —, o noticiário intenso da mídia televisiva e a presença de autoridades do primeiro escalão governamental nas grandes capitais são fatos que assinalam uma jogada de marketing na busca da sonhada credibilidade.
Para renomados infectologistas e pesquisadores do vírus não será o empenho dos militares que irá atenuar a gravidade da epidemia. Asseguram não só que a “guerra ao mosquito" poderá desmoralizar as Forças Armadas, bem como que os elevados recursos empenhados seriam melhor aplicados em pesquisas ou no aparelhamento de hospitais e postos médicos.
É preciso deixar claro que essa ação deve ser temporária, sob pena de as Forças se tornarem uma "ZICABRÁS", uma estatal com garantia de ineficiência, como as demais. É uma ação meritória, porém não poderá ser de longa duração, pois ela e outras “ações complementares” já influenciam as missões constitucionais das Forças Armadas.
Essa influência, claramente negativa, apresenta dois efeitos. O primeiro se faz sentir em especial na Força Terrestre, por sinal, a que sempre emprega maiores efetivos, em sua grande maioria, oriundos do Serviço Militar Obrigatório, com duração de nove a doze meses. O segundo dificulta nesse período anual, juntamente com as “ações complementares”, a realização de adestramentos coletivos, estes sim a principal componente da formação militar e que realmente proporciona à tropa o grau de operacionalidade desejado. Atualmente se observa uma ênfase em instruções individuais especializadas.
Esta operacionalidade não visa somente o campo externo — Defesa da Pátria — mas também o campo interno que, gradativamente, vai se tornando um campo prioritário, como prescreve o artigo 142 da Constituição, como garantidora dos poderes constitucionais da lei e da ordem. É sempre um questionamento se as Forças Armadas estão preparadas para tais missões.
Nestes tempos de crises políticas, econômicas e sociais, bem como de desgovernos e escuridões, este questionamento ganha vulto no campo interno.
Movimentos sociais, sindicatos, organizações estudantis e não governamentais, militância e até partidos políticos, com destaque para setores radicais do Partido Comunista do Brasil, que tem como uma das proeminências o atual Ministro da Defesa, pregam abertamente a tomada do poder pela força, caso necessária. Nas badernas que conduzem invadem propriedades, quebram, destroem, bloqueiam vias e estradas, agridem e matam. Não se nota qualquer medida de maior expressão para coibir estes vandalismos. Seus líderes tem livre trânsito nas altas esferas governamentais.
E esses vandalismos poderão se agravar caso o ex-presidente Lula sofra qualquer pena judicial, em razão de denúncias que o apontam como tendo recebido benefícios de empreiteiras, conforme processos que já correm no Judiciário. Segundo seus seguidores, os processos são um golpe político-eleitoral e se pretenderem prender o ex-presidente, "haverá reação e vão tocar fogo no país". O seu próprio filho repetiu essas ameaças, alertando que "não se tem ideia da reação que será desencadeada". E, o pior, eles realmente podem iniciar conflitos e manifestações que poderão incendiar o país. Já fizeram no passado e recentemente nas manifestações que antecederam a Copa do Mundo. Estão preparados e estruturados para tal fim, como consta de seus blogs: "Precisarão pôr tanques na rua (de novo) para concretizar esse golpe eleitoral, mas serão fragorosamente derrotados".
Uma afirmativa inconsequente que, se concretizada, poderá agravar o estado de pré-caos em que vive a nação e que levará o povo brasileiro a um conflito interno indesejável e de proporções muito maiores dos que já foram vividos no passado. Uma grave instabilidade institucional que obrigará o emprego das Forças Armadas de acordo com a Constituição. Para isto elas deverão estar prontas, devidamente adestradas em alerta para esses momentos críticos. É tempo de relembrar com ênfase Publius Vegetius: “Si vis pacem, parabellum!”.
​ ​Gen Ex Rômulo Bini Pereira 
​ ​Ex-Chefe/Estado-Maior da Defesa
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