sexta-feira, 22 de junho de 2018

"Trigon" - Espiões Passeando na Noite

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Aleksandr Ogorodnik 
(codinome: Trigon)
Em 22 de junho de 1977 [41 anos atrás],  Aleksandr Ogorodnik, (Trigon), matou-se com uma pílula de veneno fornecida pela CIA, após a KGB detê-lo com base em informes fornecidos por um infiltrado na Agência. Cerca de três semanas depois, a Agente da CIA Martha (Marti) Peterson  sem saber sobre a morte de Aleksandr  foi presa em uma emboscada da KGB enquanto realizava um "dead drop" (Comunicação Sigilosa) em Moscou.
As ruas de Moscou foram um dos mais importantes e perigosos campos de batalha durante a Guerra Fria. Agentes de Inteligência dos EUA como Marti trabalhavam nas sombras com  informantes como Aleksandr, coletando segredos soviéticos. Os soviéticos, por sua vez, vigiavam de perto todos os estrangeiros e os seus próprios cidadãos em busca de sinais de espionagem.
"Trigon" e sua  mini-câmera T-100. 
Credit: SPYCRAFT,
 by Robert Wallace & H Keith Melton.
Embora a história de Trigon tenha terminado tragicamente, os dados que Aleksandr forneceu deram aos analistas dos EUA uma ampla visão sobre planos e intenções da União Soviética (URSS) para sua política externa. E foram esses conhecimentos que ajudaram os EUA vencerem a Guerra Fria.
Recrutamento de um Espião
Aleksandr Ogorodnil era um funcionário de nível médio no Ministério de Relações Exteriores (MFA) da URSS servindo na América Latina, tendo acesso às informações a respeito das intenções soviéticas para a região. Ele gostava de sua vida ao estilo ocidental, considerando-a melhor que o sistema vigente na URSS, que ele considerava opressivo.
A CIA recrutou Aleksandr na América do Sul — Bogotá, Colômbia  em 1973. Ao aceitar espionar para a Agência, ele recebeu o codinome "Trigon".
Ele escamoteava documentos da Embaixada e os levava a um esconderijo, onde eram fotografados por agentes da Agência. O material que ele forneceu deu uma visão incomum sobre as políticas soviéticas na América Latina, incluindo planos para influenciar outros governos.
Retorno à Pátria-Mãe 
Antecipando seu retorno a Moscou, Agentes da CIA ensinaram Métodos e Técnicas Operacionais a Trigon. Ele recebeu treinamento em escrita secreta, uso de códigos de criptografia e procedimentos de "dead drop" (recipiente fixo). Uma das primeiras agentes femininas da CIA a servir por trás da Cortina de Ferro, Marti Peterson, foi enviada a Moscou para ser a controladora de Trigon. Na época, a KGB menosprezava a capacidade feminina de realizar Operações de Inteligência, assim, Marti trabalhou despercebida por mais de 18 meses. 
Instruções de "dead drop" para Trigon
Credito: SPYCRAFT.
O valor de Trigon cresceu expressivamente após o seu retorno a Moscou em Outubro de 1974. Ele concordou em continuar a espionar para a Agência, mas condicionou isto a que o governo dos EUA abrigasse sua namorada que estava grávida. Antes de partir para a União Soviética, Trigon solicitou algum dispositivo para suicídio para o caso de ser pego. Após discussões de alto nível em Langley, seus controladores da CIA relutantemente lhe entregaram uma caneta-tinteiro contendo uma cápsula de cianeto.
Alguns meses depois, conforme suas instruções para recontato, Trigon deu um "sinal de vida" em fevereiro de 1975. Como encontros face a face eram muito perigosos, encontros impessoais operacionais — usando marcas de sinalização, mensagens de rádio, dispositivos de ocultamento, "dead drops— começaram em outubro, sendo repetidos mensalmente.
Por aproximadamente dois anos em que trabalharam juntos, Marti e Trigon nunca se encontraram pessoalmente. Eles foram somente dois espiões "passeando na noite".
Ratos Mortos nos "Dead Drops"
Moscou era um ambiente operacional desafiador. Até mesmo encontrar um simples endereço na cidade era difícil devido aos mapas lá produzidos serem deliberadamente imprecisos. A Agência teve que ser criativa para comunicar-se com seus Agentes, o que regularmente incluía o uso de "dead drops".
Simulacro de pedra para uso em
 "Dead drop". Credit SPYCRAFT.
"Dead drops" era o meio pelo qual o pessoal de Inteligência  recebia ou passava itens de forma sigilosa aos Informantes sem a necessidade de ter um encontro direto.  Costumeiramente, coisas como um tijolo ou uma pedra falsa podem ser usadas como um "dead drop". Contendo mensagens ou suprimentos, esses artefatos podem ser depositados em locais pré definidos, como um canteiro de obras, para posterior recolhimento pelo destinatário.
Um dos mais surpreendentes dispositivos de ocultação usados pela CIA eram ratos mortos. A cavidade de seus corpos era suficientemente grande para conter um maço de dinheiro ou um rolo de filme fotográfico. Um pouco de molho de pimenta-do-reino mantinha os gatos afastados, após o "rato morto" ser jogado pela janela de um carro em um ponto combinado previamente de uma estrada.
Bolsa de Marti Peterson, usada
 nos "dead drop" em Moscow.
Marti usou uma bolsa para esconder suprimentos e equipamentos que ela transferiu a Trigon em coberturas de pontos de "dead drops".  Por causa do preconceito da KGB em relação à atuação feminina, a bolsa, assim como a própria Marti, não atraíram suspeitas.
A Toupeira ou O Infiltrado
Trigon logo conseguiu um cargo no Departamento de Assuntos Globais do MFA que lhe dava acesso a mensagens enviadas e recebidas das embaixadas soviéticas em todo o mundo. Ele forneceu dados sensíveis de Inteligência sobre planos e objetivos da política externa da URSS. Suas resenhas chegaram ao Presidente e altos elaboradores da política norte-americana.
Enquanto isso, Karl Koecher, cidadão norte-americano naturalizado, trabalhava na CIA como tradutor e funcionário contratado. Sem o conhecimento da CIA, ele também trabalhava simultaneamente para o Serviço de Inteligência da República Tcheca. Ele teve acesso a informações sobre as primeiras negociações da Trigon com a Agência e informou a seu serviço de inteligência, que então notificou a KGB.
Ponte Krasnoluzhskiy Most,
em Moscow local de dead drop
Credit SPYCRAFT.
Não se sabe quando isso ocorreu, nem em que época o KGB iniciou a investigar Trigon. No início de 1977, todavia, os Encarregados de Caso começaram a notar indicações — principalmente um declínio acentuado na qualidade das fotografias — de que ele havia sido comprometido e estava sob controle da KGB.
A Ponte Krasnoluzhskiy
Trigon nunca compareceu ao encontro agendado para 28 Jun 1977, assim, foi marcado outro por mensagem de rádio, para duas semanas depois.
Em 15 de julho, Marti foi até Krasnoluhskiy Most — uma ponte ferroviária próxima ao Estádio Central Lenin — para efetuar um "dead drop". A ponte atravessa o Rio Moscou e tem uma passarela para pedestres ao longo de um dos lados dos trilhos. Um local havia sido preparado para que Trigon pudesse pegar uma "encomenda" de Marti, e deixar um pacote que seria recolhido por ela mais tarde, naquela mesma noite.
Marti presa. 
Credit SPYCRAFT.
Quando a noite caiu sobre Moscou, Marti deixou um artefato disfarçado em uma estreita janela dentro da torre de pedras na Krasnoluzhskiy Most. Era uma armadilha.
Uma equipe de vigilância da KGB estava esperando e deteve Marti. Eles a levaram para a prisão de Lyubianka, onde ela foi interrogada por horas e fotografada com alguns equipamentos de espionagem que Agentes, e Trigon, costumam usar. Ela foi declarada "persona non grata" (uma pessoa indesejável) e enviada de volta aos EUA imediatamente.
Mais tarde, a Agência descobriu que Alexander Ogorodnik havia se suicidado um mês antes da detenção de Marti. Ele teria dito à KGB que faria uma confissão por escrito e, para isto, pediu sua própria caneta. Marti escreveu em seu livro de memórias, "The Widow Spy", que ele "abriu sua caneta como se fosse iniciar a escrever e mordeu o reservatório, expirando instantaneamente em frente aos seus interrogadores do KGB. Estes estavam tão concentrados em sua confissão que nunca suspeitaram que o reservatório de tinta da caneta continha veneno ... Trigon morreu à sua própria maneira, como um herói,"
Fonte: tradução livre de CIA
COMENTO: por tratar-se de um texto contendo expressões técnicas, pode ter ocorrido algum equívoco devido ao meu precário domínio da língua inglesa.  Um termo que pode gerar dúvidas é o "dead drop", cuja melhor tradução seria "receptáculo fixo", mas que eu preferi deixar como o original.  Qualquer colaboração no sentido de melhorar a compreensão do texto será bem-vinda.
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domingo, 10 de junho de 2018

Ali Soufan: O Agente Muçulmano do FBI Que Perseguiu a Al Qaeda

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Sua história chegou às telas com a série The Looming Tower (A Torre Elevada)
Soufan e sua Thompson, que o FBI presenteia a seus agentes que se aposentam
Pouco se conhece a seu respeito a não ser que trabalhou no FBI. Sim, Ali Soufan era um dos agentes que perseguiram a Al Qaeda. Mas é muito mais que isso. Se trata de um imigrante muçulmano que fugiu da guerra para alcançar seu sonho americano.
Ele nasceu no Líbano, há 46 anos, durante uma brutal guerra civil que golpeou o país entre 1975 e 1990. Emigrou para os Estados Unidos quando era adolescente, foi presidente de grêmio estudantil na universidade e sonhava fazer um doutorado em Cambridge, Inglaterra.
Enquanto perseguia esse sonho, ele enfrentou um desafio: candidatou-se a um trabalho no FBI e foi o único de seus amigos que resultou selecionado.
Soufan era o único conhecedor da língua árabe no Grupo Especial Antiterrorismo do FBI em Nova York. 

Danos no USS Cole
A ele foi encomendada a missão de investigar a Al Qaeda após os bombardeios das embaixadas norte-americanas no leste africano - em Nairobi, no Quénia, e em Dar es Salaam, na Tanzânia - em 1998 e o ataque ao destróier USS Cole no Iêmen em 2000.
Viajou pelo mundo interrogando suspeitos, mas a Inteligência dos EUA não conseguiu impedir os ataques de 11 de setembro de 2001 que mataram quase 3.000 pessoas nos Estados Unidos. Uma das vítimas foi o ex chefe de Soufan, John O'Neill.
Ele viu os ataques pela televisão quando estava no Iêmen, e os descreve como "o momento mais devastador" de sua vida. Depois lhe entregaram um envelope pardo com as informações de Inteligência que estava pedindo desde novembro de 2000. Soufan acredita que, se houvesse recebido esses dados antes,  poderia ter impedido os ataques.
"Não sei se irritado é a melhor palavra. Destroçado. Não conheço o sentimento. Não conheço o melhor termo para descreve-lo, inclusive hoje", disse à AFP em uma recente entrevista em seu escritório de Nova York, com uma bandeira dos EUA por detrás dele.
A amarga rivalidade entre a CIA e o FBI que inadvertidamente abriu caminho ao "11 de Setembro" é dissecada em "The Looming Tower" (A Torre Elevada), uma nova minissérie televisiva transmitida pelas plataformas Hulu e Amazon Prime. É uma adaptação do livro homônimo de Lawrence Wright que ganhou o Pulitzer e é um êxito de vendas.
Mais que uma serie de TV
Na televisão, Soufan é interpretado pelo ator francês Tahar Rahim - os dois se tornaram amigos - e seu chefe do FBI John O'Neill por Jeff Daniels.
Soufan se sente muito gratificado pelo fato de o programa educar uma nova geração sobre o "11 de Setembro", desafiar os estereótipos muçulmanos e enviar uma mensagem aos jovens, em particular aqueles que têm origem imigrante e podem se sentir discriminados.
"Isto não é só uma serie de TV. Este é um serviço público", diz.
"Há tantos jovens crescendo em comunidades nos Estados Unidos, em Paris, em Bruxelas, em Londres e sentindo que não se encaixam... Estamos tratando de chegar neles e dizer que não deixem que o cinismo os liquide, não acreditem na Al Qaeda ou no ISIS (EI) e suas narrativas", acresce.
Na vida real, Soufan é um brincalhão de extrema inteligência que pede desculpas por não estar vestido de terno e gravata para as câmaras.
Mostra contente uma metralhadora Thompson, o primeiro tipo de arma que o FBI usou contra a máfia nos anos 1930, e que hoje são entregues como regalo aos que se aposentam da instituição.
"Agora temos coisas sofisticadas", brinca Soufan. "Sofisticadas e muito efetivas".
Soufan se opunha à tortura e deixou o FBI em 2005. Dois anos depois, fundou uma empresa de segurança que trabalha com governos de todo o mundo.
"Nunca me senti discriminado"
"Era hora", diz sobre sua decisão. "Não tens que estar dentro para fazer do mundo um lugar melhor, e isso é o que tratamos de fazer aqui".
O Soufan Group, que emprega funcionários inativados da CIA e do FBI, oferece consultoria e treinamento a governos, corporações, agencias policiais e de Inteligência através do mundo.
Reconhecido especialista em segurança e autor, Soufan considera que a principal ameaça é a cibernética. Mas também tem dificuldades em imaginar a um jovem muçulmano do Oriente Médio que se adapte tão facilmente aos Estados Unidos polarizados de hoje.
"Creio que Estados Unidos foi muito bom comigo em tantos sentidos diferentes. Mesmo quando era uma criança e um jovem, nunca me senti discriminado".
Defensor da imigração, entende a necessidade de tratar o tema dos indocumentados, mas garante que isolar as comunidades não é a solução.
Em seu escritório há uma foto sua com Barack Obama, mas nunca falou com Donald Trump.
¿O que diria a ele se vocês se encontrassem? "Creio que o trabalho de um líder é liderar, não confundir", responde.
Fonte: AFP
Fonte: tradução livre de El Observador

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Colômbia - Historias de Infiltrados no Crime - Parte 2/2

Um triunfo para a missão, mas uma derrota para o infiltrado
Em 22 de setembro de 2010 foi morto Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”, durante um bombardeio a seu acampamento em La Macarena, Meta. FOTO: Archivo
por Nelson Matta C. e Javier Alexánder Macías
Quando um servidor público atua como agente encoberto, sabe que está em jogo muito mais que o êxito de uma missão.
Entre as histórias de hoje, com que concluímos a postagem sobre os Infiltrados no Crime, a de um militar que terminou aleijado depois de estar 12 anos vivendo com o inimigo.
Nem sempre o Estado recompensa a esses agentes. A norma não distingue seu trabalho e, ao aposentar-se, recebem uma pensão igual a qualquer outro”, conta o especialista em segurança, Coronel (Res) John Marulanda.
Ele conclui que “a inteligência técnica tem um grande desenvolvimento, mas grupos irregulares, como guerrilhas ou o Estado Islâmico, se blindam usando sistemas antigos de comunicação, como cartas e mensageiros. Em troca, nem sempre logram detetar o trabalho da inteligência humana


O Capitão Que Ganhou a Confiança de Um Chefe das FARC
Em 13 de maio de 1996, Mejía(*), um Capitão especialista em infiltrar-se nas guerrilhas, recebeu a ordem que temeu por mais de seis meses: deveria internar-se nas selvas de Meta para buscar a quem na época se considerava como um dos comandantes mais temidos das FARC: Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”.
Mejía, acostumado a lidar com guerrilheiros rasos, não sabia como chegar até a região de El Borugo, uma localidade em Meta que servia de bastião ao comandante do Bloco Oriental, e onde mais tarde se instalariam as jaulas nas quais mantiveram os soldados e policiais sequestrados, imagens que deram volta ao mundo e mostraram o lado mais desumano de “Jojoy”.
Nesse dia fui para casa pensando em como chegar. ¿Que proposta levar a meus comandantes no outro dia para começar a infiltração? Me senti pressionado”, recorda o Capitão.
Essa noite se fez eterna pensando na missão. O sono o venceu pelas 3:30 a.m. e sentiu que o mundo se acabava. Atrás ficaria sua família, por um trabalho do qual nem sabia se poderia regressar.
Um vendedor de cacarecos
Em 13 de agosto de 1996 no parque de La Macarena, Meta, um sujeito com um carrinho de mão percorreu as vielas poeirentas desse município encravado no verdor da selva oriental colombiana. Eram umas duas da tarde e através de um megafone, sua voz oferecia todo tipo de coisas: “compre chinelos, compre sabão, potes para azeite...”.
Chegou vestido de “malandro”. “Me lembro que vesti uma camisa branca guayabera, uma calça café e mocassim. Nesse dia no armazém, eu os ensinei como fazer durar mais as baterias para os rádios”, relata.
Se enturmou no local com essa estória e outros truques de mecânica aprendidos no Exército. Ninguém entendia como nesse povoado afundado no abandono estatal, no qual se chegava por avião em viagens semanais, um antioquenho fosse vender objetos que se conseguia em qualquer esquina. Ele foi posto sob observação. A guerrilha vigiava cada passada de seu carrinho.
Comecei a ver que me seguiam e questionavam por que vendia coisas que eles tinham nessa vila afastada de tudo, então dei mais realismo ao meu trabalho e comecei a vender tênis e roupa que conseguia em Medellín e me chegavam por encomenda, com o avião, a cada duas semanas em La Macarena”.

Conta o Capitão Mejía que o negócio cresceu tanto, que até os guerrilheiros saíam dos acampamentos para comprar meias, roupa intima, calças e camisas para sair de vez em quando para tomar trago nas poucas cantinas que existiam no lugar. “Foi o melhor que me sucedeu, porque assim pude identificar quem era guerrilheiro e quem não era. Em muitas ocasiões eu os via com as camisas quadriculadas que lhes vendia. E dessa forma pude viajar até o acampamento do ‘Mono Jojoy’”.
“Pondo 'Jojoy' a estrear a camisa”
Quatro meses depois de chegar a La Macarena, o Capitão revelou seu nome de infiltrado. Disse a um guerrilheiro que foi busca-lo porque tinha uma razão especial. Seu comandante “Mono Jojoy” queria que “o paisa que vende camisas” lhe levasse uma em especial.
— “¿E como é que tu te chamas?”.
— “Iván Darío Pinzón”, respondeu o militar ao insurgente.
— “A cédula”, replicou o guerrilheiro.
— “Aqui está”, disse o Capitão.
Verificado o número de identidade, o subversivo soltou a pérola esperada por quatro meses:
— “O Mono quer duas camisetas, uma número 24 e outra 31. E uma garrafa de uísque e duas galinhas. Será que tu podes conseguir?”, perguntou.
— “Eu trago tudo que seja”.

E assim foi. Viajou a Bogotá com a missão de trazer o que foi pedido pelo comandante do Bloco  Oriental. Antes da viagem, o Capitão solicitou falar com o chefe guerrilheiro para saber exatamente o que ele queria.
Me levaram ao seu acampamento. Estava gordo e enfermo. Pediu uma camisa xadrez e uma camiseta branca”. Esta viagem foi o primeiro contato com seus superiores em quatro meses de ausência. Dali em diante, a estratégia mudaria para chegar ao “Mono Jojoy”.
Servindo de enfermeiro
O Capitão Mejía regressou com tudo o que pediu “Jojoy”. Se hospedou em um hotel de La Macarena, cuja dona preparava pratos diferentes para “Mono”. — Esse cara mandava fazer até 200 tamales por semana para  distribuir na população —, conta.
Com a entrada livre ao acampamento, Mejía  ganhou a confiança do comandante. Cuidou o  diabetes dele, aplicava a insulina que conseguia em Villavicencio e levava uísque para que se emborrachasse recordando sua terra natal: Chaparral, Tolima.
Mejía, com a desculpa de trazer encomendas de  “Jojoy”, saia para a vila mais próxima, e de um telefone público dava informações a seus superiores. Foi assim que se inteiraram que este comandante era bondoso com os guerrilheiros rasos, que estudava todos os dias até as 12 da noite, se levantava às 5:00 a.m., tomava um café e enviava correspondências eletrônicas ao Secretariado das FARC.
Ganhei tanto sua confiança que inclusive revisava tudo o que lhe chegava e administrei uma de suas granjas na zona de distensão durante as conversações com o governo de Andrés Pastrana”.
Entre 1996 e 2008, o Capitão Mejía entregou informações às Forças Militares que ajudaram a fechar o cerco sobre o “Mono Jojoy”. Foi seu cozinheiro, assessor, enfermeiro e provador de bebidas.
Vi muitas coisas nesses 12 anos infiltrado. O que mais me doeu foi ver cair os meus companheiros e depois ver muitos deles nessas jaulas. Algumas vezes quis me ir, mas pensava que fazia por eles e desistia da ideia”, recorda Mejía.
Enfrentando a morte
Quieto hijueputa o se muere. Yo sí sabía que era un sapo”, disse o guerrilheiro “Oswaldo” quando encontrou o Capitão Mejía transmitindo um relatório sobre o “Mono Jojoy”, em 22 de junho de 2008. Ele dava as coordenadas para uma  primeira operação.
Vinham seguindo ele há um mês e comprovaram suas suspeitas quando pediu permissão para ir buscar umas botas para o chefe subversivo e foi telefonar. Ao se ver descoberto, o Capitão Mejía se pôs a correr montanha abaixo sob uma torrente de balas. Ferido, se jogou no rio Guayabero e nadou até sentir desvanecer sua vida. Foi resgatado por uma patrulha do Exército que o levou à base e dali foi transladado ao Hospital Militar. Hoje o Capitão Mejía passa seus dias em uma cadeira de rodas. Perdeu a mobilidade de suas pernas, mas sente que valeu a pena dar tudo pela pátria que o viu nascer.



Perdeu sua Família por Desmantelar Uma Rede de Narcos
Por seu trabalho de 12 anos, em que se infiltrou varias vezes na máfia como negociador de armas e drogas, o Departamento Administrativo de Segurança (DAS) escolheu o detetive Gabriel(*) para a missão.
O caso surgiu desde a Embaixada da Austrália, segundo a qual havia uma organização clandestina traficando cocaína desde a Colômbia para a Oceania. Era a primeira vez que escutávamos sobre uma rota de narcos para esse destino”, recordou um dos agentes que conheceu a operação.
A pedido da Polícia Federal Australiana (AFP), Gabriel devia atuar como agente encoberto para identificar os integrantes da rede. Segundo consta no Relatório Anual de Operações Controladas da AFP (2010-11), dali em diante o denominaram “Undercover Operative 57189”.
Este foi o primeiro caso documentado em nosso país, com base no novo Código Penal (Ley 906 de 2004), onde um juiz de controle de garantias autorizou um procedimento deste tipo.
Os australianos sabiam que no mercado negro havia gente buscando estupefacientes em Bogotá para enviar a Melbourne, e essa era a oportunidade que deviam aproveitar. Gabriel não tinha claro quanto duraria a missão. Em novembro de 2006 se despediu de sua esposa e seus dois filhos pequenos, e não voltou a sua casa nem a seu escritório.
Devia deixar para trás sua vida cotidiana e transformar-se em comerciante de um dos San Andrecito [feiras de produtos estrangeiros] de Bogotá. “Uma quadrilha de extorsionistas era dona de uma loja de roupas. Pressionamos para que nos entregassem esse espaço, em troca de não captura-los. Em questões de Inteligência, às vezes há que fazer tratos com bandidos”, indicou a fonte.
Gabriel apareceu como o novo dono do negocio e tinha como empregada uma vendedora que ignorava a trama de fundo. Para fortalecer sua fachada, a embaixada arrendou um apartamento de luxo na localidade de Usaquén e lhe entregou, junto com um Chevrolet Aveo, um automóvel que naquele momento era una novidade na Colômbia.

Os detetives identificaram o encarregado que buscava a droga. Gabriel fez contato e disse que estava em condições de conseguir uma carga de alta qualidade e se pactuou uma reunião deste e o comprador no apartamento de Usaquén. O DAS instalou câmaras e microfones na sala, cozinha e sala de jantar, e na rua em frente permanecia uma caminhonete de Inteligência Técnica, com a aparência de uma ambulância, registrando cada movimento.
Para surpresa de todos, o comprador era um jovem de apenas 24 anos, que chegou em um automóvel Bora e se fazia chamar “Iguano”. “Era um jovem aparentando boa vida, roupas de marca, com corpo 'malhado', 1.80 metros de estatura, despreocupado, desses que acordam às dez da manhã”.

Como teste, foi vendido um quilo de cocaína de alta pureza. O estupefaciente foi fornecido pela embaixada, produto de uma apreensão anterior. "Iguano" viajaria com a encomenda por via aérea, e assim Gabriel entregou a mercadoria em uma caixa de papelão com um minúsculo dispositivo GPS escondido em sua parede corrugada. A droga partiu do aeroporto Eldorado e fez escala no Chile, para depois chegar a Melbourne. Dessa maneira, o DAS e a AFP começaram a decifrar a rota.
Aos 35 anos, o agente 57189 era um pai de família abnegado, que ia à ciclovia com as crianças, ao mercado com a esposa e comia em quiosques. Mas para entrar no círculo de confiança do “Iguano” devia aparentar o estilo de vida de um playboy solteiro.
No apartamento houve ao menos oito festas, com mulheres e trago para todo lado. Também festas eternas em discotecas da moda, onde se tomavam uísque sem piedade,
para que o rapaz soltasse a língua.
Nas manhãs, Gabriel ia ao San Andrecito para receber o balanço das vendas, fazia pedidos e saudava os demais comerciantes com normalidade. Nas tardes seguia a dramatização, almoçando com garotas estonteantes em restaurantes tão caros que os agentes de apoio que o seguiam à sombra nem entravam, por falta de orçamento.

Nessa época, funcionários públicos como Gabriel não ganhavam mais que $1’500.000 mensais (cerca de 1500 reais). Agora, com uma conta de gastos reservados alimentada pelas arcas da embaixada, o agente podia fingir, ao menos por algum tempo, que era um ricaço.

Ausências que doem
O teatro deu seus frutos. O “Iguano” começou a tratá-lo como amigo e o convidou para ser acionista nas encomendas. O detetive forneceu dinheiro, com o qual foi comprada droga nas Planícies do Leste. Assim aprendeu outra rota de envios por mar: Buenaventura-Tahití-Ilhas Cook-Australia. E também soube o nome real de seu sócio: Fabio Esneider Rodríguez Mora, dono de lojas em outro San Andrecito.
Os avanços no caso tiveram um alto preço na vida pessoal de Gabriel, que durante oito meses, não pode visitar sua família. A equipe de apoio, que o vigiava em cada deslocamento, percebeu que havia homens suspeitos que o seguiam em motos. Era claro que os traficantes queriam saber com quem estavam lidando. Quando isso sucedia, o DAS coordenava uma falsa detenção com a estação policial mais próxima. Se pedia como favor aos patrulheiros que o detivessem na via e, sob o pretexto de verificar seus documentos, o levavam ao comando. Em uma dessas ocasiões, Gabriel havia prometido a seus filhos que iria visita-los, mas no caminho seus colegas detectaram a perseguição e ordenaram sua detenção e traslado à estação de Suba [bairro de Bogotá].
A falta de seus seres queridos começou a lhe afetar. Queria abraça-los, estar com eles. Uma noite, bêbado e em plena festa com “Iguano”, ligou por telefone à sua esposa. Desejava escutar sua voz, mas seu personagem o traiu e ele chamou sua mulher pelo nome de outra, desencadeando uma forte discussão do casal.
A missão concluiu em julho de 2007, quando já estavam identificados os comerciantes da cocaína na Austrália. Segundo consta nos jornais daquele país - The Age e The Herald Sun -,  em Bogotá
foi capturado o “Iguano” e, em Melbourne caíram seu tio José Arturo Quiroga e os sócios Carlos Hernán Torres Ortegón, Cenk Van e Paul Pavlou.
Gabriel voltou para casa, onde a ferida de sua ausência já não fechava. Alguns companheiros intercederam, falaram com a esposa, mas não podiam revelar em que missão ele esteve. Ela não acreditou, “vocês se cobrem com o mesmo cobertor”, replicava. A historia terminou em divorcio.
A Gabriel foi concedido uma menção honorífica, sigilosa, na Diretoria do DAS em Bogotá. Depois de sacrificar seu lar na luta contra o crime, foi só o que recebeu.

(*) Os nomes dos agentes foram modificados para proteger sua segurança.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
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domingo, 20 de maio de 2018

Ortega na Corda Bamba

por Andrés Hoyos
Daniel Ortega, êmulo de Somoza, sempre se apresenta flanqueado por sua esposa Rosario Murillo, uma caricatura viva das bruxas dos contos de fadas, que se atreve a publicar maus versos em um país de grandes poetas. Pois bem, ainda que a ditadura na Nicarágua esteja cambaleante, o casal modelo está disposto a fazer o que seja para manter-se no poder. E digo “o que seja”, pois inclusive se oferecem para “negociar”.
Um ditador, se além de tudo é um psicopata — e não se deve esquecer nem por um instante que Ortega é um violador serial que submeteu a sua enteada, Zoilamérica Narváez Murillo, a anos de abuso sexual —, não faz concessões se se sente sólido em seu posto; no máximo finge faze-las para logo contra atacar na primeira piscada. O grande paradoxo é que se de algum modo se vê obrigado a ceder em algo, como permitir que uma missão da CIDH visite o país para julgar a situação ou entabular um diálogo forçado por uma Igreja Católica subitamente militante após décadas de passividade, é porque a ameaça é muito séria.
Importa muito entender que Ortega está perdendo a crucial batalha dos símbolos. Em Masaya, praça forte do sandinismo histórico, fica o emblemático bairro indígena de Monimbó, onde há 40 anos o somozismo assassinou Camilo Ortega, irmão do presidente. Pois bem, os artesãos de Monimbó já contam cinco mortos na atual batalha contra o irmão de seu antigo herói. Há um segundo símbolo que Ortega acaba de perder: Niquinohomo, o povoado onde nasceu Sandino. Ali também se levantaram os moradores e, segundo reporta El País, ocorreu uma dura batalha para decidir que cores deveriam vestir a estátua do herói, se vermelho e preto, segundo a velha bandeira anarquista da FSLN, ou azul e branco, as cores da nação. Os moradores de Niquinohomo se arriscaram ao enfrentar os esbirros de Ortega mas não desistiram de evitar a afronta a seu prócer colocando nele uma vestimenta que associam ao ditador.
Após 26 dias de protestos ininterruptos, 54 pessoas morreram nas ruas de distintas cidades do país. FOTO REUTERS
É claro que não se pode assegurar que Ortega caia porque estas ditaduras “eleitorais” do século XXI tem demonstrado serem muito engenhosas na hora de sustentar-se no poder; também sabem roubar e muito mais. Até alguns anos atrás, Ortega parecia firme e seguro em seu posto. Mesclava uma repressão seletiva, uma corrupção abundante e alguns pactos que considerava indispensáveis: com os militares — a Polícia ele domina desde anos pois está sob o mando de Francisco Díaz, um familiar seu —, com os empresários e com Nicolás Maduro, o grande benfeitor. Mas os petrodólares venezuelanos desapareceram de forma súbita e o regime está quebrado.
Ainda que a tentação óbvia seja fazer paralelos com a Venezuela, as situações de ambos países diferem bastante. Na Nicarágua o combustível da legitimidade eleitoral se esgotou há muito tempo. Também, enquanto Maduro mantém o inefável general Vladimir Padrino López comendo em sua mão como um gatinho desdentado, o Exército nicaraguense acaba de distanciar-se de Ortega e diz que não reprimirá mais a população. Algo deve andar mal aí, porque o ditador vem dependendo cada vez mais tanto do aparato paramilitar que responde diretamente a suas ordens quanto da Polícia.
Enfim, como demonstram Nicarágua e Venezuela, tirar ditadores do poder implica um processo difícil e sangrento. O melhor é não deixa-los chegar a ele quando andam disfarçados de democratas e prometem crepúsculos rosados.
Fonte: tradução livre de El Espectador
COMENTO:  Enquanto a imprensa brasileira destaca a violência israelense contra os palestinos - culpando Donald Trump -, o tarado nicaraguense promove um massacre - 54 mortos em 26 dias, só em protestos - contra seu próprio povo, sem que os canalhas sedizentes jornalistas, seguindo as diretrizes do Foro de São Paulo, deem importância ao que ocorre na América Central. Nojo dessa imprensa de merda!
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quinta-feira, 10 de maio de 2018

A Nova Cavalaria

Maj Cav Salgueiro Maia – Exército Português
Deve-se a Carlos VII, rei da França, o aparecimento da Cavalaria como Arma. Foi ele que, por volta de 1445, instituiu o primeiro exército permanente, constituído por duas Armas: a Cavalaria e a Infantaria.
Devido à evolução dos armamentos no final do século XV, começaram a aparecer unidades de Cavalaria com armas de fogo, e no século seguinte a Cavalaria passa a ser constituída por três tipos de unidades: COURACEIROS (Cavalaria pesada), HUSSARDOS (Cavalaria ligeira) e DRAGÕES (Cavalaria apta a combater a pé e a cavalo).
Com o século XVII, devido à ação de Gustavo Adolfo, a Cavalaria como arma alcança vários êxitos, em especial na batalha de Breitenfeld, junto a Leipzig (guerra dos Trinta Anos). Esses êxitos são devidos à justa utilização da Arma, aproveitando a sua aptidão para o reconhecimento, ação de choque e a perseguição. Podemos definir a Cavalaria desta época pelas palavras do Marechal de Saxe: “A Cavalaria deve ser lesta, deve ser montada sobre cavalos próprios para suportar a fadiga, deve ter poucas equipagens, e sobretudo não deve ter cavalos gordos”. Nem todos compreenderam assim a ação da Cavalaria, continuando-se a fazer o fogo a cavalo, numa ação conhecida como “caracolada”, que consistia em carregar sobre o inimigo, disparar as armas de determinada distancia, fazer uma pirueta, e voltar à retaguarda para carregar as armas, com vistas a desenvolver novamente a mesma ação.
Foi na Prússia, com Frederico II, que a Cavalaria começou a traçar caminho certo. Bem apoiado em seus generais Zeithen e Sedlitz, Frederico II abandona o fogo a cavalo, criando a Artilharia a cavalo, tendo por missão apoiar a ação das cargas da Cavalaria, mantendo as demais peças fixas da Artilharia para fazer o fogo de cobertura. Frederico II determina que as cargas se façam a galope, que os cavaleiros continuem a usar mosquetes e espingardas para o combate a peado; utilizou ainda largamente, a Cavalaria no reconhecimento, dizendo que ela era “os olhos e ouvidos do Exército”.
A influência da ação de Frederico II, estendeu-se a França, onde cimentou as bases do que seria a famosa Cavalaria Napoleônica, que fica definida através das palavras do seu chefe Napoleão: “A Cavalaria de linha só pode ser eficaz em grandes massas, tanto no começo, como no decorrer, como no fim do combate, conforme as circunstâncias; deve ser independente das outras armas para poder ser empenhada oportuna e independentemente delas, concorrendo no entanto com elas para o fim comum. Deve pertencer por isso à reserva do Exército”. Napoleão criou um Corpo de Cavalaria de 28.000 homens, o “Corpo Murat”, com dois Regimentos de Cavalaria Ligeira; o primeiro, antecessor das unidades blindadas e o segundo, das unidades mecanizadas. Com Napoleão a cavalaria passou a ser a Arma do ataque decisivo, explorando a brecha que a Artilharia preparava. Assim ele atuou em Wagron, Moscou, Essling e Iéna.
A intervenção em massa do Corpo de Cavalaria (Corpo Murat), era caracterizada pela velocidade e violência, em ligação com a Artilharia. O Corpo de Cavalaria estava organizado para poder atuar isoladamente (reconhecimento e perseguição). Com a substituição das armas de repetição por armas de maior cadencia de tiro, chegou-se na guerra de 1870, entre a França e a Prússia, à conclusão de que o emprego da carga a cavalo com grandes massas era impraticável no campo de batalha. A agravar a situação, a Cavalaria estava sendo utilizada junto com a Infantaria, não tirando proveito de sua mobilidade, passando a desempenhar só ações de reconhecimento e cobertura.
Quando em 1914 se iniciaram as operações, a Cavalaria francesa estava possuída de um alto espírito ofensivo e desejosa de tirar a desforra das ações de 1870. Assim, a Cavalaria francesa procura a todo o instante o encontro à arma branca, enquanto a Cavalaria alemã a atrai e espera, sob a ação de seu fogo.
A Cavalaria alemã atua em cooperação com ciclistas, metralhadoras e Artilharia, sem abandonar o combate a cavalo e à arma branca. Com a estabilização da frente, a Alemanha quase abandona a Cavalaria, enquanto que a França lhe dá meios mais potentes, sem lhe tirar a mobilidade. Desta maneira, quando a guerra termina, de um lado quase não há Cavalaria, do outro existe a Cavalaria pronta para passar à exploração do sucesso.
Com o desenvolvimento dos armamentos, e com a guerra de posição que foi a guerra de 1914/1918, foi necessário criar algo, que pudesse atuar fora das trincheiras, protegido dos fogos do inimigo; baseados em máquinas agrícolas idealizadas para o trabalho em todo o terreno, constroem-se viaturas com blindagem suficiente para anular os efeitos dos fogos contrários, surgem assim as primeiras viaturas blindadas.
Em outubro de 1914, um Oficial inglês, o Ten Cel Stern, segundo uns, ou o Ten Cel Swinton segundo outros, apresenta o projeto da construção de uma viatura blindada, capaz de transportar pessoal através do campo de batalha, abrigado da ação das armas ligeiras e estilhaços das granadas de Artilharia. Como meio de locomoção seria utilizado o sistema de lagartas usado pelos tratores, que podiam deslocar-se por terrenos onde viaturas com rodas ficavam detidas. Os resultados dessas ideias depressa se concretizam e, em 20 de novembro de 1917, na ofensiva de Cambrai, 500 carros de combate sob o comando do Brigadeiro H. J. Elles, realizam a ruptura da Linha Hindemburgo, numa profundidade de 15 km, com a captura de 8.000 homens e 100 peças de Artilharia, em cerca de 12 horas de combate, com um volume de perdas e um gasto de munição muito menor, quando comparado com operações anteriores de idênticos resultados. Essas viaturas viriam a desempenhar as funções para as quais foi criada a Cavalaria a cavalo: o reconhecimento, a ruptura e a exploração do sucesso. Foram essas viaturas para a Cavalaria as sucessoras dos cavalos, para que a arma pudesse continuar a cumprir as missões para que fora criada.
Depois da Primeira Grande Guerra, voltaram a ser aplicados os conceitos de Napoleão sobre a ação da Cavalaria, agora aplicados ao novo material e às novas situações. Defendendo estes conceitos, surge na França o Cel Charles de Gaulle e na América o Gen Chaffe. Infelizmente ambos não foram compreendidos e suas Pátrias somente anos mais tarde vieram a lhes dar razão, quando a Alemanha surgia cheia de força, concretizando os princípios por eles defendidos.
Na Alemanha, o Cel Heinz Guderian, tornou-se o orientador da nova Cavalaria, criando as Panzerdivisionen, nos moldes preconizados por de Gaulle. Von Guderian seria o pai das unidades blindadas alemãs e o invasor da Rússia; soube conjugar grandes massas de blindados, acompanhados por Infantaria motorizada, apoiados por Artilharia autopropulsada e pela nova arma, a aviação, através dos seus aviões de caça, de proteção, e de outros, construídos essencialmente obedecendo às novas necessidades, tais como os célebres Stukas (aviões de assalto idealizados para fazerem o acompanhamento dos blindados pelo fogo).
A máquina de guerra da Alemanha, ensaiada durante a guerra civil da Espanha, surgiu plena de mobilidade e poder de choque, baseada numa Cavalaria que soube aproveitar as possibilidades, do que foi e será sempre uma Arma ofensiva. São de assinalar as palavras do Marechal Montgomery, ao constituir o Corpo de Reserva do VIII Exército na Líbia: “Este Corpo, praticamente formado de Divisões Blindadas, deverá ser preparado para constituir a ponta de lança da nossa ação ofensiva e nunca deverá ser empregado para defender posições estáticas”.
Depois da guerra de 1939/1945, com o advento da guerra nuclear, maior desenvolvimento sofreram as unidades de Cavalaria, tornando-se mais móveis, flexíveis e com maior poder ofensivo, para manter a possibilidade de facilmente se concentrar para um ataque , e dispersar depois deste, com vistas a não oferecer um objetivo compensador a um bombardeio nuclear, aperfeiçoando as suas blindagens para agora se protegerem também da ação das poeiras radioativas.
No fundo, todas as alterações são superficiais, visto que permanecem imutáveis os dois tipos essenciais de unidades de Cavalaria, os blindados para desenvolver a ação de choque, ruptura e a exploração do sucesso, e as unidades de Cavalaria Mecanizada, empregando meios terrestres e aéreos, para garantir o reconhecimento.
Como contraste verificamos que sempre o papel da Cavalaria se eleva ou apaga através dos tempos, conforme é respeitada ou esquecida a sua doutrina de emprego.
Fonte: Facebook
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domingo, 29 de abril de 2018

Garantistas – Há Sinceridade Nisso?

por Gilberto Pimentel
Se dermos uma olhada mais atenta na biografia e no desempenho dos magistrados do STF que um colunista definiu como “garantistas” referindo-se àqueles juízes que pretendem assegurar irrestritamente o que está na Constituição, ser um escravo dos princípios fundamentais da legalidade, da presunção da inocência, do contraditório, do devido processo legal e, sobretudo, da dignidade da pessoa humana, poderemos não ter tanta certeza da nobreza e sequer das suas reais motivações.
Dentre eles, estão aqueles que pretendem rever a possibilidade de prisão a partir da segunda instância, os que abominam a prisão preventiva ou provisória, os que enxergam como ato de tortura a delação premiada, os que desejam a todo custo assegurar imunidades sem limites, os que colocam o habeas-corpus como símbolo da liberdade individual não importa de quem ou porquê, os que pretendem ignorar a opinião pública, os que entendem que os juízes de Curitiba inauguraram um novo código de Direito no País e os que sonham detonar a Operação Lava Jato.
Tudo isso na contramão de todo o esforço que o Brasil necessita da Justiça, hoje, para eliminar a praga da corrupção, punir os criminosos do colarinho branco, dentre governantes, políticos e poderosos empresários que arrasaram a economia do país e frustaram tantas esperanças. Na contramão também daquilo que em todo o mundo vem sendo feito para combater a criminalidade institucionalizada.
Mas para agravar, como disse acima, quando atentamos para a trajetória desses chamados “garantistas”, não sentimos segurança alguma quanto as reais intenções que os movem. Para ser sinceros não damos um tostão furado por elas. Enxergamos condenáveis preferências político-partidárias em alguns, perigosas ligações com políticos e poderosos grupos empresariais em outros e todos esses protegidos, sempre, com contas sérias e pesadas a ajustar com a lei; e até mesmo alguns exemplos de nem tanto apego assim às normas constitucionais vigentes poderiam ser invocados dentre esses juízes. Aqui bastaria lembrar o episódio da ex-presidente cassada que não teve seus direitos políticos suspensos, como exigido pela lei, por conta da interpretação marota do texto constitucional do presidente do Senado com o aval de um chamado “garantista”. Um escândalo que ainda poderá ter sérias consequências nas próximas eleições.
Portanto, amigos, todo o nosso apoio, hoje, aos chamados pelo colunista de juízes consequencialistas, pragmáticos no sentido não pejorativo do termo, que querem julgar com base em fatos, e não em pretensas teses idealistas. Estão movidos pelo desejo maior de terminar com a impunidade dos poderosos. Estão com a Lava Jato. É disso que o Brasil precisa.
É General da Reserva
COMENTO: Esses que se dizem "garantistas", são os mesmos que apregoam que "prende-se muito" no Brasil. A resposta a esse pessoal pode ser feita com base nas pesquisas que apontam que menos de 20% dos crimes (de todos os tipos) que ocorrem no país tem sua autoria determinada em inquéritos policiais. Só isto significa que 80% dos criminosos sequer são identificados, e aí estão inclusos os que cometem mais de 60.000 assassinatos anuais. Ou seja, se a grande maioria dos criminosos não é identificada, muito menos são presos. O que invalida a tese de que se prende muito, pelo contrário, mostra que somos um país com muitos bandidos e que o que está faltando são presídios!

sábado, 21 de abril de 2018

Colômbia - Historias de Infiltrados no Crime - Parte 1/2

por Nelson Matta Colorado
Em tempos de ataques com drones, espionagem satelital e hackeamento eletrônico, a inteligência humana segue tendo um valor incalculável. E de modo particular, aquela realizada por agentes encobertos, homens e mulheres que estão atrás das linhas inimigas, metidos na boca do lobo. 
Na Colômbia, a DNI (Dirección Nacional de Inteligencia), a Polícia e as Forças Militares realizam Operações encobertas. Os procedimentos são regulamentados pela Lei de Inteligência e Contrainteligência (Lei nº 1.621, de 2013), pelo Código de Processo Penal (Art 242), por diretrizes ministeriais e decisões da JIC (Junta de Inteligência Conjunta).  
Graças à coragem desses agentes, importantes golpes tem sido dados nas guerrilhas, cartéis e quadrilhas que afligem o país há décadas.
Na sequência, apresentaremos quatro histórias de membros das Forças de Segurança que se infiltraram em grupos criminosos. Uns conseguiram alcançar seus objetivos e saíram ilesos, outros só sacrificaram suas vidas e seus lares na empreitada.

O policial interiorano que se infiltrou no Clã do Golfo
Alvo:  “Tommy”
Entre os integrantes da quadrilha, diziam que se pegassem um 'sapo' ("boca grande"), o penalizavam. Eu não acreditava, até que me contaram a historia de ‘Willy’, um antigo companheiro deles, e me mostraram por celular as fotos de suas pernas, braços e partes esquartejadas. Aí engoli em seco e pensei que o mesmo me podia acontecer se me descobrissem”.
O Policial Meléndez(*), de 29 anos, tem vivo na memória essa experiência, pois esteve 12 meses como agente encoberto na organização criminosa "Clã do Golfo". Foram tempos brutais, em que sua vida esteve a borda do precipício. Seu relato continua assim:
Me designaram a missão em junho de 2016. O objetivo era identificar os cabeças e membros da "frente Jorge Iván Arboleda", uma subestrutura do Clã que delinque no Nordeste e no Magdalena Médio, na Antioquía e se dedica às extorsões, narcotráfico, sicariato e mineração ilegal de ouro.
A cobertura era entrar na zona como empregado de chácara. Fui escolhido porque conhecia esses municípios e me criei em uma picada com camponeses, conheço os trabalhos do campo.
Cheguei pedindo trabalho e me ajudaram em uma granja. A jornada era das sete às dezesseis horas, ordenhando vacas, remediando terneiros, consertando cercas e arando terras.
Uma vez, chegou na granja uma esquadra composta por 'Hernán', o chefe da equipe, e sete seguranças. Descansaram ali. Foi a primeira vez que o vi, e reportei ao meu Oficial de Controle o tipo de armamento que portavam e suas descrições físicas.
Em quatro meses, já conhecia os 'pontos', assim denominam as pessoas que fazem a vigilância em lugares fixos. Para ganhar a confiança deles, eu lhes avisava quando via policiais ou gente diferente no povoado.
Quando completou seis meses que estava na zona e eles estavam acostumados à minha presença, me ofereceram $480.000 (cerca de 480 reais) para ser olheiro. Este foi o meu ingresso na organização. Com o tempo, me deixaram ir aos acampamentos e assim conheci o 'Tomy', o comandante da 'frente', e a seu irmão 'Brandon'". 

Mais um deles
“Me recrutaram em janeiro de 2017, por um pagamento de $800.000 mensais, e me tornei patrulheiro do Clã do Golfo no monte. Também servia de 'pássaro', que é como eles denominam os escoltas de civil, e acompanhava a ‘Hernán’ a todas partes, fazia compras e buscava as prostitutas que chegavam de Medellín em Vegachí , garotas entre 18 e 23 anos, não muito bonitas.
A rotina com eles não era fácil. Havia ex-paramilitares impiedosos que não tinham coração, e alguns membros que foram recrutados mediante engôdos choravam porque se desertassem eram homens mortos. Quando já formava fila na esquadra, vi como castigavam sem piedade a sua tropa. A um garoto, acusaram de 'sapo' e lhe deram o castigo: o comandante o golpeava a coronhadas de fuzil, pontapés, socos e com paus, ou o enforcavam até que desmaiava;  quem quisesse podia unir-se à surra. Eu me mantive quieto, olhando como seis deles batiam no rapaz.
Um dos momentos de maior risco foi em março de 2017, quando nos ordenaram ir a Yondó lutar contra o ELN, para recuperar o controle desse município. Nos deslocamos durante 15 dias, com armamento pesado, e eu pensava ‘¿que vou fazer agora?’. Havia probabilidade de morrer, porque na Força Pública ao menos há um apoio, e aqui sequer sabíamos o que fazer. Por sorte, quando estávamos em Puerto Berrío, mudaram a ordem e mandaram outra 'frente'.
Toda vez que podia, me comunicava com o Oficial de Controle, via chat de celular, para informar o que se passava. Eu tinha uma bolsa e uma mochila equipadas com câmaras diminutas, e um localizador satelital em uma bota. Com isso, marcava as coordenadas dos lugares onde acampávamos.
Por volta de junho de 2017 já havia identificado a 60 integrantes. Minha missão chegava ao fim, mas minha fuga ainda estava pendente. ¿Como ia fazer para não levantar suspeitas?
O Oficial de Controle me advertiu que uns pelotões do Exército estavam chegando à área. O medo era que se armasse um tiroteio, porque aí ninguém pergunta quem é quem. Tinha que me ir já, fosse como fosse.
Por pura coincidência, estávamos fazendo um deslocamento pela selva, caí e torci o tornozelo. Aproveitei a situação, exagerei a dor e disse ao chefe de esquadra que não podia caminhar. Me disse que eu era um fraco, um 'cu-de-cachorro' e me deu socos no estômago. Me chutou no chão, me tirou a arma e o uniforme camuflado, deixando-me descalço e de bermudas.
Quando se foram e me deixaram, caminhei varias horas e saí em uma picada de Maceo. Cheguei a uma granja onde me deram botas e um moletom, mas por medo, porque sabiam que eu era do Clã do Golfo. Depois fui ao distrito La Susana, onde estava o Exército, e me entreguei, simulando uma desmobilização para que a estória ficasse redonda. Estando na guarnição militar liguei para meu chefe e este esclareceu a situação ao Coronel do Batalhão, e meus companheiros foram recolher-me com o pretexto de me processar. Assim pude sair da zona.
Graças à informação que consegui durante esse ano de encoberto, a Polícia fez quatro operações contra a 'frente Jorge Iván Grisales'. Em 14 de maio de 2017, em Yalí, foi capturado Heder Cabrera Quejada, vulgo ‘Hernán’, com sete subalternos e um arsenal; em 19 de junho seguinte detivemos a outros nove em Yolombó e San Roque, ainda que nesse procedimento eles nos mataram o patrulheiro Luis Javier Ruiz Palomino.
Em 18 de janeiro de 2018, em uma chácara da vereda La Alondra de Yalí, foi morto o chefe William Soto Salcedo (’Tomy’) e um escolta que chamavam de ‘Gorra’. E em 9 de março capturamos a Heiner Soto Salcedo (’Brandon’), nesse mesmo município.
“Tomy” (no destaque) e seu escolta “Gorra” morreram em um enfrentamento com a Polícia, em Yalí.
FOTO CORTESÍA
Me lembro que nas reuniões, ‘Tomy’ sempre dizia que não se deixaria prender, que antes se mataria. Ninguém se alegra pela morte de alguém, mas eu sou do campo, sei como sofrem os campesinos por culpa desses grupos. Por isso, completar esta missão foi gratificante”.

Uma Traição Transforma a Operação em Armadilha Mortal
Alvo:   “Megateo”
A operação foi planejada corretamente, o problema é que se rompeu o sigilo”, confessou o então diretor do DAS (Departamento Administrativo de Seguridad - extinto em 2011), Andrés Peñate, assumindo a responsabilidade por uma das maiores calamidades que já atingiram a Inteligência colombiana em sua historia.
A tragédia começou quando o informante Óscar Murillo se acercou do organismo estatal, em janeiro de 2006, dizendo que podia facilitar a captura do ex-guerrilheiro e narcotraficante Víctor Ramón Navarro Serrano, vulgo “Megateo”, chefe da "frente Libardo Mora Toro", uma dissidência do EPL. Este homem delinquía na região do Catatumbo, limítrofe com Venezuela, uma zona de ordem pública complexa, onde também atuavam as FARC e o ELN. Entrar ali era muito difícil, por isso não se podia perder esta oportunidade.
O caso foi destinado ao meu companheiro José Elvar Cárdenas Bedoya. Ele era de meia idade, de muita experiência, com uns 17 anos de serviço”, relata o detetive Pares(*), que conheceu os detalhes do sucedido.
José Elvar, por intermédio do informante Murillo, contatou “Megateo”. Sua "cobertura" era a de um traficante de armas, e depois de varias semanas de negociação, foi pactuada a venda de um lote de 50 fuzis.
O plano do DAS era capturar o alvo durante a entrega do arsenal, em 20 de abril de 2006. Para o procedimento selecionaram 10 detetives com treinamento tático de combate e seis militares das Forças Especiais, que se reuniram um dia antes no Batalhão Santander, em Ocaña.
Na base acondicionaram o "cavalo de Troia": um caminhão com carroceria gradeada de transporte de caixotes, no meio dos quais ia acondicionado um caixão blindado. Dentro desse cofre iriam os soldados e oito agentes armados até os dentes, cada um com 15 carregadores de munição.
O caixão blindado havia sido usado antes, dentro de um caminhão-tanque de leite. Saíamos a caçar barreiras da guerrilha na estrada de Florencia a San Vicente, em Caquetá”, detalha o funcionário.
Se tudo saísse segundo planejado, “Megateo” chegaria com dois escoltas ao ponto de encontro, e aí seriam capturados. No caso de haver um tiroteio, os uniformizados poderiam aguentar 10 minutos dentro da cápsula encouraçada, até que chegasse o apoio. Perto do local estariam três pelotões da Brigada 30 do Exército e outros 30 detetives, como reforço ao grupo principal.
Ao amanhecer do dia definido, o caminhão partiu ao seu destino, uma paragem rural no município de Hacarí, Norte de Santander. O condutor era o investigador Jesús Antonio Rodríguez e de co-piloto ia José Elvar.
Às 9:30 a.m. passavam por uma estrada de terra do setor Mesa Rica, quando duas bombas sacudiram o mundo. O veículo se destruiu como una casca de ovo em um punho fechado. Ninguém sobreviveu.
As equipes de reação acudiram de imediato, porém explodiu uma terceira bomba a 500 metros da detonação inicial. A onda jogou pelos ares um tronco de árvore, que acertou o pescoço e a cabeça do Cabo-Segundo Jorge Ayure Rátiva, tirando-lhe a vida. Logo se armou um tiroteio com os dissidentes, que durou até o crepúsculo e deixou três feridos.
Quando, por fim, chegaram ao ponto da tragédia, encontraram as latas retorcidas do caminhão, incrustadas na ladeira da montanha. O estado dos corpos era indescritível. As lâminas blindadas ficaram separadas por toda a cena e, sobre uma delas, os verdugos deixaram sua assinatura com spray vermelho: EPL.
O que sobrou do caminhão em que se deslocavam os 10 detetives e seis militares que iam capturar “Megateo” (destaque), en Hacarí, Norte de Santander. FOTOS: CORTESÍAS
Segundo arquivos da imprensa, as vítimas, além de José Elvar, Jesús Antonio e o Cabo Ayure, foram os detetives José Acosta, Alexis López, Dubián Moncada, Oliverio Cañón, Luis Albarracín, John Castellanos, Rubén Vacca e José González; o Sargento-Segundo Alfonso Catalán, o Cabo Norberto Burgos e os Soldados Luis Gutiérrez, Julio Ochoa, Edwin Ramírez e Carlos Cordero.
Recursos Humanos mandaram psicólogos a todos os grupos do DAS. Foi um momento muito difícil”, acresce Pares.

O Contragolpe
Era claro que o ocorrido em Hacarí havia sido uma armadilha, ¿mas onde houve a fuga de informação? Nos meses seguintes, vários agentes encobertos foram enviados à zona, uns como camponeses, outros de transportadores e comerciantes. O primeiro achado foi o corpo do informante Murillo, que estava como "NN" em um cemitério de Ocaña. Seus assassinos o torturaram, queimaram seus dedos para apagar as impressões digitais e arrancaram seu rosto.
A segunda pista obtida no terreno foi que um sujeito apelidado “Rastrillo” havia vendido a “Megateo” a informação sobre o plano de captura, para que o 'capo' pudesse preparar a armadilha mortal.
“Rastrillo” era um olheiro que trabalhava para quem melhor pagasse. Fingia cooperar com o Exército, inclusive saia fardado com a tropa para conduzi-la a depósitos e laboratórios de drogas no Catatumbo, mas também passava segredos ao inimigo.
No dia em que os funcionários prepararam o caminhão, ele estava presente no Batalhão Santander, e assim se inteirou da trama.
Eu estava lá quando capturamos ‘Rastrillo’ no batalhão, em dezembro de 2006. Ia sair com os soldados, mas o chamamos ao gabinete do comandante e lá o algemamos. Depois o levamos a um quiosque, enquanto aguardávamos a chegada do transporte. Me tocou ver como chegaram vários companheiros e, um a um, lhe esbofetearam”, disse a fonte.
Na mesma operação foram detidos 15 integrantes da rede de apoio de “Megateo”, mas ele escapou nesse momento e em outras duas oportunidades: em um choque armado sobreviveu a um disparo no abdome; e quando se jogou da traseira de uma caminhonete em que o levavam algemado.
O DAS o perseguiu até o último dia, até que o Governo desmantelou a instituição em 2012”, observa Pares.
Por fim, “Megateo” não se saiu bem. Nove anos mais tarde outros agentes encobertos do Exército infiltraram seu anel de segurança, desta vez com o disfarce de vendedores de explosivos. Em 2 de outubro de 2015 combinaram um encontro em um prédio na vila San José del Tarra, em Hacarí. E quando estava dentro de uma casa que funcionava como armaria, fizeram explodir uma das bombas que lhe prometiam vender.
Quando foi divulgada essa morte, o DAS já não existia, mas restavam as marcas daquele brutal atentado em seus antigos integrantes. Pares não pode evitar sentir-se aliviado.

(*) Os nomes dos agentes foram modificados para proteger sua segurança.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
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