segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O Ás Antitanque Fritz Christen, do Exército Alemão

pelo Tenente Nestor Magalhães
Membro-Efetivo da AHIMTB/RS 
Fritz nasceu em Wredenhagen, no norte da Alemanha, em 29 de junho de 1921. Voluntariou-se para adentrar em uma das unidades da Waffen-SS aos 19 anos, sendo transferido para a 3ª Divisão Panzer SS Totenkopf, comandada pelo SS-Obergruppenführer Theodor Eicke. 
Após o sucesso da 3ª Divisão Panzer SS Totenkopf em solo francês durante a Batalha da França, esta divisão fora imediatamente transferida para o Front Leste, para iniciar os ataques da Operação Barbarossa, em 22 de junho de 1941.
SS-Oberscharführer Fritz Christen
Durante as primeiras semanas da ofensiva, as forças alemãs tiveram vitórias esmagadoras e sucessivas. Porém, a cada passo dado em direção a Moscou, a dificuldade das batalhas era maior, enfrentando forte resistência do Exército Vermelho.
Na manhã de 24 de Setembro de 1941 o destino do jovem Fritz Christen estava prestes a mudar. A Inteligência Alemã havia previsto um possível ataque dos soviéticos em vários setores de Leningrado, inclusive no setor onde parte da 3ª Divisão Totenkopf se encontrava, perto da aldeia russa de Demyansk, na mata norte de Luzhno, ao Sul de Leningrado. Após um intenso ataque de artilharia, a infantaria soviética avançou, acompanhada de diversas unidades blindadas e de sucessivos ataques aéreos. Essa ofensiva fora tão devastadora que todos os soldados da unidade alemã no local, exceto Fritz, morreram.
Tomando consigo um canhão antitanque Pak 38 de 5cm, o jovem cabo começou a carregar e disparar sozinho contra as fileiras inimigas. Durante três dias consecutivos Fritz Christen lutou contra centenas de soldados soviéticos, abatendo cerca de 15 blindados, inutilizando outros sete e matando mais de 100 homens. Em entrevista anos mais tarde, Fritz disse:
Sem nem ao menos pensar, continuei a disparar, enquanto gritava pelo apoio de algum companheiro ou oficial que estivesse por perto. Consegui fazer um impacto em alguns tanques, cinco ou seis, talvez, assim como em vários grupos de infantaria. Eu passei um par de horas gritando por ajuda, até que finalmente descobri que ninguém havia respondido aos meus pedidos de apoio, pois toda a minha unidade tinha sido aniquilada. Eu estava assustadoramente sozinho na minha posição. Ainda assim, eu nunca pensei em voltar. Um SS não recua, um SS nunca desiste. Foi simples assim, foi isso que me manteve lutando, pensei que era para manter o meu trabalho, que era meu dever lutar até o fim, e foi isso que me manteve lá, isso é tudo”.
Finalmente, em 27 de setembro de 1941, reforços chegaram ao Bolsão de Demyansk, encontrando todo aquele cenário devastador. Fritz Christen volta a Berlim, onde recebe das mãos do Führer a medalha da Cruz de Ferro 1° Classe (Eisernes Kreuz 1. Klasse). Fritz foi promovido também a patente de sargento (SS-Oberscharführer). 
Fritz Christen cumprimenta Adolf Hitler após receber a Medalha da Cruz de Ferro 1° Classe
Depois de muito lutar, na primavera de 1945, foi capturado pelos norte-americanos, juntamente com o resto da já enfraquecida divisão Totenkopf na Checoslováquia. A política militar americana e britânica ordenava tratar a SS como uma organização criminosa e repatriar os soldados da mesma para o Exército Vermelho. Na Rússia, a divisão Totenkopf recebeu um tratamento extremamente cruel, como retaliação às atitudes tomadas pela SS no Front Russo.
Apesar de grande maioria dos soldados da SS terem perecido nos Gulag soviéticos, Christen, juntamente com alguns dos homens de sua unidade, suportaram 10 anos de sofrimento, fome e trabalhos forçados antes de serem devolvidos para a Alemanha em 1955.
O SS-Oberscharführer Fritz Christen morreu em sua residência em Neusorg, na Baviera, em 23 de setembro de 1995, aos 74 anos, devido a complicações cardíacas.
Fonte:  Informativo O Tuiuti nº 307-Fev-2019,
da AHIMTB/RS
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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Direitos da Sociedade x Direitos dos Indivíduos

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É questionável que o plano de vida pouco edificante de alguns cidadãos se torne referencia pública: exemplo rodeado de álcool e drogas que não é o melhor para crianças e jovens.
Imagem: Internet - Foto de Juarez Santos / Fotos Públicas - Jornal Metro
Editorial
É certo que o Estado e suas instituições não podem usufruir uma super-autoridade que lhes permita assumir a atribuição de conceber, com proibições e repressões, o plano de vida dos cidadãos. Mas não é menos pertinente que a ordem social proposta, disposta com base em princípios diretores a Constituição , evite que o livre desenvolvimento da personalidade de alguns indivíduos se converta no espelho em que deve mirar-se e da qual deve tomar exemplo cotidianamente a maioria da sociedade, especialmente suas crianças e jovens.
Em um país que busca garantir liberdades, não se pode confundir o respeito aos direitos individuais com uma permissividade tal que faça com que a escolha de consumir álcool e drogas seja parte do cenário público, como se tratasse de simples paisagem, em um contexto contaminado de ilegalidade e ameaças contra a vida, a honra e os bens dos cidadãos.
É como se o Bronx, em Bogotá, ou as Cuevas, em Medellín (NT: ou a Cracolândia, em São Paulo), vistos desde a ótica dos consumidores
esqueçamos as máfias que os gravitam por um segundo fossem opções prometedoras e edificantes para nossa sociedade. Por fortuna, essas “panelas” de vicio já foram demolidas e recuperadas (NT: na Colômbia, pois a Cracolândia paulista encontra-se em plena atividade).
Há que agregar que hoje as redes de distribuição de drogas, seguramente ilegais e criminosas, acossam crianças e adolescentes desde as cercanias dos centros educativos. Pensar na ideia de ruas, parques e praças do país, abertos ao consumo indiscriminado e permanente de drogas e álcool, não se entende como una perspectiva condizente a melhorar as condições de ordem pública e convivência, para proveito geral e coletivo.
Compreende-se que a Corte Constitucional assuma a interpretação e aplicação dos princípios constitucionais com uma ótica de paz, de tolerância, de diversidade e de respeito a maiorias e minorias. Mas a ordem prática de sua doutrina, neste caso, se choca contra a realidade de um país cheio de limitações para garantir que o consumo de drogas e álcool no espaço público, sem restrições, não se converta em uma fonte de discórdia, inseguridade, abusos e desordens.
A Corte Constitucional tem batalhado por conquistas substanciais em matéria de direitos e liberdades para os colombianos, inclusive às vezes incompreendida no ofício de entender, interpretar e garantir igualdade no complexo e diverso espectro de um país tão heterogêneo. São muito elogiáveis sua existência e trabalho, capaz de distinguir caprichos, taras e preconceitos morais e políticos e de corrigir lacunas legais, mas esta não é a ocasião. Proibir esse tipo de consumos no espaço público, a favor do direito coletivo a um ambiente são e seguro, não significa anular liberdades individuais.
Não é lugar comum recordar que em países desenvolvidos e garantistas dos direitos civis e humanos (EE.UU., Rússia e França), é proibido o consumo de drogas e/ou álcool em espaço público (parques, praças e ruas, essencialmente; inclusive em veículos), por razões de ordem prática: impedir que essa escolha e “gosto” individual se imponham no cotidiano da maioria dos usuários do espaço público e que sejam um risco a essa maioria.
O direito consuetudinário, baseado na práxis e nos exemplos de cada caso, ensina que é melhor antecipar essas circunstâncias de vulnerabilidade da ordem pública, a que são tão propensos os indivíduos sob o efeito de substancias estimulantes, psicoativas. Por isso o consumo é permitido, mas é reduzido, ordenado, e restringido ao espaço privado, ao de um ambiente no qual esse cidadão, com legítimo direito ao desenvolvimento de sua livre personalidade, não arrisque os direitos de outros.
Não há consumo sem venda. Não há demanda sem oferta. Buscar a prevalência da ordem pública não é defesa do proibicionismo. Simpatizar e defender a segurança, a tranquilidade, a salubridade e a moralidade nos espaços de uso geral, públicos, não rivaliza com que cada um viva e exerça sua livre personalidade, com amplitude, nos espaços e lugares adequados para que sua escolha não se imponha a outros, em especial às crianças e aos jovens, sem a maturidade, assistência e proteção suficientes do Estado, da sociedade e da família, para definir seus planos de vida.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
COMENTO: o texto se refere a uma possível liberação legal, na Colômbia, do uso de bebidas alcoólicas e drogas em locais públicos, que era proibido. Na verdade, a Suprema Corte de lá não "liberou" essas ações, mas repassou para as autoridades municipais a função de legislar sobre o assunto. Diferente do nosso STF — useiro e vezeiro na imposição de sentenças que nem sempre atendem aos interesses da coletividade —, os magistrados colombianos evitaram "legislar" sobre o assunto, conferindo essa atribuição aos legisladores municipais, que melhor conhecem as idiossincrasias de suas urbes.
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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Crime Cometido Para Ocultar Uma Descoberta Matemática?

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Um dos descobrimentos mais importantes da ciência, em sua época, era uma ameaça.
Foto:   ¿O formoso cenário de um horrendo crime?
por Dalia Ventura - BBC Mundo 
04 Mar 2019
Contam que em uma manhã em meados do século VI A.C. um homem foi jogado ao mar aberto frente à costa da Grécia.
desafortunado se chamava Hipaso de Metaponto e era matemático, teórico da música e filósofo pré-socrático.
Foi abandonado a sua sorte, e sua sorte não podia ser outra que a morte.

Como ocorre frequentemente com conhecimentos do mundo antigo, há quem tenha certeza de que isso aconteceu, enquanto outros questionam o relato.
Ninguém ainda pode comprovar se essa parte da historia é verdadeira.
Mas, a outra parte é a mais interessante: a razão pela qual queriam mata-lo.
É que poucos assassinatos têm uma motivação tão assombrosa como o descobrimento da incomensurabilidade e da irracionalidade, matematicamente falando.

Uma estrela da antiguidade
Esta historia começa com uma das celebridades da antiga Grécia, Pitágoras de Samos (cerca 580 — 500 A.C.), a quem se atribui o inicio da transformação da matemática de uma ferramenta para a contabilidade em uma ciência analítica.
Mesmo havendo aqueles que o refutariam.
Pitágoras é, de fato, um personagem polêmico. Como não deixou escritos matemáticos, muitos se perguntam se realmente fez o que dele se diz (incluindo alguns de seus teoremas).
Há evidência somente de que ele tenha  fundado uma escola, ainda que seus ensinamentos fossem considerados suspeitos e seus seguidores, estranhos.
Uma característica incomum no mundo antigo é a de que eles aceitavam mulheres.

Os pitagóricos
As escolas de pitagóricos se assemelhavam mais a uma seita, pois não só compartiam conhecimento.
Os estudantes levavam uma vida estruturada de estudos e exercícios, inspirados em uma filosofia baseada na matemática.
Os primeiros pitagóricos eram de classe media alta e politicamente ativos.
Formaram uma elite moral que se esforçou por aperfeiçoar sua forma física nesta vida para obter a imortalidade na seguinte.
Segundo os pitagóricos, para libertar a alma e alcançar a imortalidade, o corpo mortal tinha que ser rigorosamente disciplinado de maneira que se mantivesse moralmente puro e livre da natureza básica.
Se não conseguisse, a alma se reencarnaria repetidamente, ou "transmigraria", até que se libertasse por mérito acumulado.
Os pitagóricos também acreditavam no cosmos, que nesse momento se referia a uma ideia de uma perfeita ordem e beleza em todo o Universo.
Embora provavelmente seguissem o politeísmo grego clássico, tinham fé em uma divindade superior, que estava sobre todas as demais.
Tinham uma serie de tabus, que incluíam a carne e os feijão, e viviam de acordo com uma serie de regras que regiam todos os aspectos da vida.

Triângulos e quadrados
Outra coisa é certa: Pitágoras é sinônimo de entender as propriedades dos triângulos retângulos, algo que iludiu os egípcios e os babilônios.
O teorema de Pitágoras estabelece que se tomarmos um triângulo retângulo e fizermos quadrados em todos os seus lados, a área do quadrado maior é igual à soma dos quadrados dos dois lados menores.
Em outras palavras, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos outros dois lados (catetos).
É um teorema que ilustra uma das características da matemática grega: em vez de depender somente dos números, apelavam a belos argumentos geométricos.

Melódico
Ainda que muitos descobrimentos que lhe creditaram tenham sido contestados, há uma teoria matemática que ainda lhe atribuem e tem  que ver com a música.
Contam que um dia, ao passar por uma ferraria, Pitágoras ouviu as notas produzidas pelos golpes nas bigornas e notou que soavam em perfeita harmonia.
Ao buscar una explicação racional para entender essa qualidade tão cativadora, recorreu à matemática e descobriu que os intervalos entre as notas musicais harmoniosas sempre se apresentavam em proporções de números inteiros.
Contam que Pitágoras ficou tão emocionado com o descobrimento que chegou à conclusão de que todo o Universo havia sido construído a partir de números.

Tudo é um número
Sua doutrina de que "todas as coisas são números" foi importante para a historia da filosofia e a ciência.
Queria dizer que a essência e a estrutura de todas as coisas se podem determinar ao encontrar as relações numéricas que as expressam.
Originalmente, se tratava de uma generalização ampla baseada em observações como...
  • que as mesmas harmonias podem produzir-se com diferentes instrumentos por meio das mesmas relaciones numéricas  — 1:2, 2:3, 3:4 — em extensões unidimensionais; 
  • que existem certas regularidades nos movimentos dos corpos celestes; 
  • que a forma de um triângulo está determinada pela relação dos comprimentos de seus lados.

Mas os seguidores de Pitágoras tentaram aplicar seus princípios em todos lugares com maior precisão.
Na tentativa, se depararam com um desafio inquietante a esta visão do mundo, que surgiu de suas próprias fileiras e envolveu o teorema de Pitágoras.

A ameaça
Um dos membros mais prestigiados da Escola pitagórica era precisamente Hipaso, aquele que havíamos deixado afogando-se nas águas do Mar Mediterrâneo no principio desta historia.
Sem nenhuma má intenção, Hipaso se dispôs a encontrar o comprimento da diagonal de um triângulo retângulo com dois lados que meçam uma unidade.
Talvez uma ilustração nos ajude a calcular: eis aqui um quadrado e cada um de seus lados tem 1 unidade (metro, centímetro, quilômetro, etc) de comprimento.
¿Quanto mede a diagonal do quadrado?
Graças ao teorema de Pitágoras, podemos calcular o quadrado do comprimento do lado maior de um triângulo retângulo somando os quadrados dos outros dois lados.
Então o tamanho da diagonal ao quadrado é (1×1)+(1×1) = 2, ou seja a medida da diagonal é √2. Ou, o número que multiplicado por si mesmo resulta em 2.
¿Mas, qual é esse número? A raiz quadrada de 2 não é 1 porque 1x1 é 1. E não é 2, porque 2x2 é 4. É alguma coisa intermediária.
Algo que os babilônios haviam gravado na tábua de Yale, ainda que não o tenham compreendido.









Esse algo era um número irracional,
(como π, o número de Euler e o número áureo o 'pí').
Foi um dos descobrimentos mais importantes da historia da ciência: o lado e a diagonal de figuras simples como o quadrado e o pentágono regular são incomensuráveis, ou seja, sua relação quantitativa não pode ser expressa como uma relação de números inteiros.

O segredo
Esses números irracionais não encaixavam na visão de mundo pitagórica.
Mais, o descobrimento ameaçava destruir a base de toda a filosofia pitagórica.
Implicava que os seguidores do famoso filósofo e matemático já não eram possuidores de uma verdade: o dogma de que tudo possui sua medida era falso e o poder que haviam atribuído aos números, também.
Se os números naturais, que para os pitagóricos constituíam a essência da realidade, nem sempre serviam para achar a medida das coisas, tampouco eram o caminho para conquistar um saber divino.
Os comentaristas gregos contam que Pitágoras fez com que sua escola jurasse não revelar o descobrimento.
No entanto, Hipaso insistia em divulgar a natureza do comensurável e o incomensurável, o conhecimento dos "perigosos" números irracionais.
Esse teria sido o motivo do suposto crime: silencia-lo.
Provavelmente nunca saberemos se esse realmente foi o final da historia de Hipaso de Metaponto.
O que podemos ter certeza é de que não o foi para os números irracionais.
Não obstante, a historia sugere um fim: o da sacralização do saber.
Fonte:  tradução livre de El Tiempo
COMENTO:  como diz o próprio texto, não há como comprovar a veracidade da "estória" contada. Mas podemos tomar como lição a confirmação da assertiva de que "conhecimento é poder— mesmo quando esse conhecimento não reflita a Verdade — e quem os detém (conhecimento e poder) é capaz de muitas coisas para mantê-los.
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terça-feira, 30 de julho de 2019

Nicaragua — Esperança e Decepção

Editorial
Na sexta-feira passada, 19 Jul, foram comemorados os quarenta anos da revolução sandinista, aquela que em seu momento encarnou a esperança da esquerda latino americana, inspirada em sua mística revolucionária. Na atualidade o balanço da revolução é agridoce porque, para os nicaraguenses, é cada vez maior o desencanto frente ao governo de Daniel Ortega, o símbolo por excelência dessa época que alguns recordam com nostalgia.
Naquele 19 de julho de 1979, a Frente Sandinista de Libertação, uma organização heterogênea e com inclinação para a esquerda, entrou triunfante em Manágua. A fuga para o Paraguai, três dias antes, do ditador Anastásio Somoza  o último representante de uma dinastia que sobreviveu desde 1936, selou seu fim.
O governo de reconstrução nacional que se instaurou depois da queda do ditador, estava composto por cinco membros (Sergio Ramírez Mercado, Alfonso Robelo Callejas, Violeta Barrios de Chamorro, Daniel Ortega e Moisés Hassan Morales). Sua tarefa urgente era restaurar o funcionamento de uma sociedade fraturada por um guerra que, estima-se, deixou entre 35.000 e 40.000 mortos, em meio ao cerco de setores opositores de diferentes origens, que queriam ver os sandinistas fora do poder.
Cinco anos depois da queda de Somoza, a Nicarágua estava outra vez em guerra. A eleição em 1984 de Daniel Ortega como Presidente, com 67% dos votos, foi questionada por seus opositores, que haviam se empenhado pela abstenção. O país se polarizou e as forças antisandinistas, bem financiadas, iniciaram uma guerra civil que terminaria com os acordos de paz de 1990, deixando mais 30.000 mortos e um país devastado.
Os sandinistas perderam o poder em 1990, nas eleições pactuadas como parte dos compromissos para finalizar a guerra. Se seguiram no comando do país: Violeta  Chamorro, José Arnoldo Alemán Lacayo e Enrique José Bolaños Geyer. Ortega recuperou o poder em 2007, depois de várias tentativas, em meio a escândalos de corrupção, e não o soltou mais desde então. Ele acumula cada vez mais poderes, já alterou a ordem constitucional para poder reeleger-se, enquanto aumentam as acusações de corrupção e de violações aos direitos humanos.
O regime de Ortega se parece cada vez mais (nepotismo, confisco de riquezas do país para aumentar a de sua família, perseguição política) ao que combatia há quarenta anos atrás. Não titubeou ao reprimir violentamente as manifestações contra seu governo. A isto se soma o péssimo manejo dado à economia nicaraguense, o que a levou a uma profunda crise. Se estima que a economia da Nicarágua se contraiu 4% em 2018 e que no corrente ano continuará decrescendo (-5,2%). Enquanto isso, a educação segue de má qualidade e os mais pobres permanecem excluídos da escola e continuam marginalizados da sociedade.
Até alguns anos atrás, a celebração dos aniversários da revolução sandinista era sempre uma festa na Nicarágua, porque lembrava aos seus cidadãos a libertação da infâmia de uma ditadura feroz e sanguinária. Porém, pouco a pouco o entusiasmo foi se perdendo, na medida em que o guerrilheiro que venceu a Somoza quer manter-se no poder usando todos os meios. Ortega não quer entender a aspiração de mudanças que almejam os nicaraguenses, se recusa a partir antecipadamente, busca apoio entre os evangélicos mais retrógrados e se aferra ao poder, do qual parece haver se tornado viciado. Triste aniversário.  
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: aparentemente, o sonho dos fundadores do Foro de São Paulo — Fidel Castro (felizmente já nos braços do Capeta) e Lula, zumbi político que teima mugir desde seu cárcere — de restabelecer na América Latina a falida URSS (União das Repúblicas Socialista Soviéticas) vai aos poucos se encaminhando para seu real destino: o lixo da história. Os seus grande "líderes" estão mortos (Fidel, Chavez, Marulanda, Alan Garcia) ou na cadeia (Lula) e lideranças que dele emergiram encontram-se em vias de enfrentar a Justiça (Cristina Kichner e Rafael Correia). A exceção é o vivaldino Evo Morales que, espertamente, já tentou uma aproximação ao Presidente Jair Bolsonaro, na esperança de obter apoio para manter-se no trono boliviano. Recentemente, entre 25 e 28 Jul 19, os "mortos-vivos" dessa quimera maligna reuniram-se em Caracas/Venezuela (o local é emblemático da situação da "entidade") tentando prorrogar a agonia dos estertores dessa nefasta iniciativa.
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terça-feira, 16 de julho de 2019

1º Sequestro da História da Aviação Comercial — 71 Anos

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O primeiro sequestro aéreo da história aconteceu em MACAU com um fim trágico, quando um avião 'Catalina' modelo PBY-5  que fazia a ligação diária Macau Hong-Kong em 16 de julho de 1948 se estatelou em pleno mar, em voo picado, devido à morte do piloto que caiu sobre o manche, executado por um assaltante do avião.
Quando se fala em Miss Macau, a maioria das pessoas pensa em desfiles de beldades em roupa de banho diante de uma plateia sorridente e das câmeras de televisão. Mas na história dos aviões Miss Macau representa o primeiro desvio aéreo ocorrido no Mundo, muito antes da generalização das operações de pirataria e de terrorismo aeronáutico registrada na década de 70 do século passado.
O ataque foi tão “antes de tempo” que o avião desviado era um anfíbio Catalina e o motivo não teve nada a ver com motivações políticas, mas apenas com o roubo de uma considerável quantidade de ouro que era transportada de Macau para Hong Kong.
Miss Macao era a denominação dessa aeronave anfíbia, pertencente à Cathay Pacific e operada por uma subsidiaria  Companhia Limitada de Transportes Aéreos de Macau (MATCO), fundada por Pedro Lobo e Liang Chang em abril de 1948.
"A proibição do comércio de ouro, decretada pelo tratado de Bretton-Woods estava prestes a vigorar em Hong Kong, e motivou um enorme frenesi aéreo, com a criação, em 1948, de uma companhia de aviação em Macau MATCO (Macau Aerial Transport Co.) e a tentativa frustrada de se criar uma pista na Areia Preta.
Como alternativa, o então homem forte de Macau, Pedro José Lobo, associa-se aos fundadores da Cathay Pacific com os quais explora a rota para Hong Kong com aparelhos anfíbios que usavam as águas do Porto Exterior para chegar e sair de Macau. É um desses Catalina que em 16 de Junho de 1948 foi assaltado em pleno voo por uma quadrilha de chineses, embarcados em Macau como passageiros, e que apenas conseguiram fazer despencar o avião, levando para a morte todos os que iam a bordo, exceto um dos assaltantes que ficou preso em Macau durante alguns anos. No dia da sua libertação, foi morto à porta da cadeia.
Abril de 1948 – Pedro Lobo e Liang Chang organizam a Companhia Limitada de Transportes Aéreos de Macau, registada em Hong Kong tendo alugado à Cathay Pacific Airways o seu primeiro avião (anfíbio, de 2 hélices) baptizado como «Miss Macau». As viagens entre Kai Tak e o Porto Exterior de Macau custavam 40 dólares de Hong Kong (simples) e 75 (ida e volta). A viagem num sentido demorava cerca de 20 minutos.SILVA, Beatriz Basto da – Cronologia da História de Macau Século XX, Volume 4. Direção dos Serviços de Educação e Juventude, 2ª Edição, Macau, 1997, 454 p. (ISBN 972-8091-11-7)
O Miss Macao fazia um voo de rotina de Macau para Hong Kong (cerca de 20 minutos de voo). Ele foi sequestrado poucos minutos após decolar, por quatro homens portando armas, um deles determinou que o copiloto lhe passasse o controle. O copiloto recusou e foi baleado. O piloto, Dale Warren Cramer, que estava no  domo da aeronave, saltou para baixo, para ver o que acontecia e foi baleado cinco vezes nas costas por um Chinês que portava uma metralhadora. Ele, então tombou sobre os controles de voo do avião. 
A aeronave entrou em um mergulho incontrolado e caiu no mar. Vinte e seis das 27 pessoas a bordo morreram na queda. O único sobrevivente foi o líder dos sequestradores. (como lembrou o irmão do piloto).
Esse único sobrevivente, Huang Yu, foi levado ao Tribunal pela Polícia de Macau, mas o Tribunal de Macau sugeriu que a acusação fosse feita por Hong Kong, uma vez que o avião estava registrado lá e a maioria dos passageiros também era de lá. No entanto, o governo colonial britânico em Hong Kong afirmou que o incidente aconteceu em território chinês, no qual os britânicos não teriam jurisdição. No final, Huang foi absolvido.
Nos 30 anos seguintes, os sequestros se tornaram cada vez mais frequentes. A média de 10 anos entre 1948 e 1957 foi de pouco mais de uma por ano, mas a média anual de 1968 a 1977 subiu para 41 por ano. Desde 1948, as medidas de segurança das companhias aéreas melhoraram bastante e o número de sequestros não voltou a atingir a marca dos anos 70."
(Tradução livre de texto do livro “Um Século de Aventuras, Aviação em Macau” - Edição Livros do Oriente, de Luís Andrade de Sá).
Fonte:  Macau Antigo
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sexta-feira, 28 de junho de 2019

Heróis Também Perdem Batalhas

Tenente (SEAL) Michael Murphy: Agraciado com a Medalha de Honra por ações durante a Operação Red Wings em 28 Jun 2005.
Em 28 de junho de 2005, bem atrás das linhas inimigas a leste de Asadabad, no Hindu Kush do Afeganistão, uma equipe de quatro homens do Navy SEAL realizava uma missão de reconhecimento na altitude implacável de aproximadamente 3.000 metros. 
Os Tenente Michael Murphy, o Técnico Mnt Armt de 2ª Classe Danny Dietz, o Técnico de Sonar de 2ª Classe Matthew Axelson e o Técnico de Saúde de 2º Classe Marcus Luttrell tinham uma tarefa vital. Os quatro SEALs buscavam localizar Ahmad Shah - um terrorista de 30 e poucos anos que cresceu nas montanhas mais ao sul.
Sob o nome de Muhammad Ismail, Shah liderava um grupo guerrilheiro conhecido na região como os "Tigres da Montanha" que se alinharam com o Taleban e outros grupos militantes perto da fronteira com o Paquistão. 
A missão SEAL foi comprometida quando a equipe foi flagrada por cidadãos locais, que presumivelmente relataram sua presença e localização para os talibãs.
Equipe SEAL (Sea, Air, Land) operando no Afeganistão.
Da esquerda para a direita: Tec Sonar  2ª Classe Matthew G. Axelson, 29 anos; Tec Sist Info Sênior Daniel R. Healy, 36 anos; Intendente de 2ª Classe James Suh, 28 anos; Tec Saúde de 2ª Classe Marcus Luttrell; Tec Mnt 2ª Classe Eric S. Patton, 22 anos; e Tenente Michael P. Murphy, 29 anos.
Com exceção de Luttrell, todos foram mortos em 28 Jun 2005 em apoio a Operação Redwing.
Um tiroteio violento irrompeu entre os quatro SEALs e uma força inimiga muito maior, de mais de 50 milicianos anti-coalizão. O inimigo tinha enorme superioridade numérica sobre os SEALs. Eles também tinham vantagem no terreno. Eles lançaram um ataque bem organizado de três frentes contra os SEALs. O tiroteio continuou incessantemente enquanto a esmagadora milícia forçava a equipe a se aprofundar em uma ravina.
Tentando alcançar a segurança, os quatro homens, agora feridos, começaram a descer pelos lados íngremes da montanha, fazendo saltos de 2 a 3 metros. Aproximadamente depois de 45 minutos de luta, oprimidos por forças avassaladoras, Dietz, o responsável pelas comunicações, procurou um local ao ar livre para fazer uma chamada de socorro à base. Mas antes que conseguisse, ele foi baleado na mão, o tiro lhe quebrou o polegar.
Apesar da intensidade do tiroteio e de ter recebido ferimentos de tiros, Murphy destacou-se por arriscar sua própria vida para salvar a vida de seus companheiros de equipe. Ele, com a intenção de fazer contato com a base, mas percebendo isso seria impossível desde a posição no terreno onde eles estavam lutando, sem hesitação e com total desrespeito por sua própria vida, moveu-se para campo aberto, onde teria uma posição melhor para transmitir uma chamada e conseguir ajuda para seus homens.
Afastando-se das rochas montanhosas protetoras, ele conscientemente se expôs. Este ato deliberado e heroico privou-o de cobertura e fez dele um alvo fácil para o inimigo. Enquanto continuava a ser alvejado, Murphy fez contato com a Força de Reação Rápida na Base Aérea de Bagram e solicitou ajuda. Ele forneceu a localização de sua unidade e o tamanho da força inimiga enquanto solicitava apoio imediato para sua equipe. Atingido por um tiro que o acertou nas costas, o impacto fez com que ele soltasse o transmissor. Mas ele completou a ligação e continuou atirando no inimigo que estava se aproximando. Severamente ferido, o tenente Murphy retornou à posição de cobertura com seus homens e continuou a luta.
Um helicóptero MH-47 Chinook, com oito SEALs e oito  "Night Stalkers" membros do 160º Special Operations Aviation Regiment (Airborne) foi enviado para uma missão de extração e retirar os quatro SEALs em apuros. O MH-47 foi escoltado por helicópteros de ataque do Exército fortemente blindados. Entrando na zona de combate, os helicópteros de ataque foram usados ​​inicialmente para neutralizar o inimigo e tornar a área mais segura para o helicóptero de transporte de pessoal, de blindagem leve.
O maior peso dos helicópteros de ataque diminuiu o avanço da formação, levando o MH-47 a ultrapassar sua escolta blindada. Eles sabiam do tremendo risco de entrar em uma área inimiga ativa à luz do dia, sem o apoio das aeronaves de ataque e sem a cobertura da noite. O risco seria, obviamente, minimizado se eles colocassem o helicóptero em uma zona segura. Mas sabendo que seus irmãos guerreiros foram baleados, cercados e gravemente feridos, a equipe de resgate optou por entrar diretamente na batalha que se aproximava na esperança de conseguir pousar no terreno brutalmente perigoso.
Quando o Chinook chegou na área da batalha, uma granada lançada por um lança-rojão atingiu o helicóptero, matando todos os 16 homens a bordo.
  Equipe do SEAL DVTeam 1:
- Tec  2ª Classe (SEAL) Eric S. Patton, 22 anos;
- Tec de Sist Info (SEAL) Daniel R. Healy, 36; e
- Intendente 2ª Classe (SEAL) James Suh, 28.
Equipe do SEAL DVTeam 2:
- Atirador 2ª Classe (SEAL) Danny P. Dietz, 25.
Equipe do SEAL Team 10
- Bombeiro Chefe (SEAL) Jacques J. Fontan, 36;
- Tenente Comandante (SEAL) Erik S. Kristensen, 33;
- Técnico em Eletrônica 1ª Classe (SEAL) Jeffery A. Lucas, 33;
- Tenente (SEAL) Michael M. McGreevy Jr., 30; e
- Paramédico 1ª Classe (SEAL) Jeffrey S. Taylor, 30 anos.
 "Night Stalkers" do 3º Batalhão do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (SOAR):
- Sargento Shamus O. Goare, 29 anos;
- Chief Warrant Officer (Subtenente) Corey J. Goodnature;
- Sargento Kip A. Jacoby, 21;
- Sargento 1ª Classe Marcus V. Muralles, 33;
- Major Stephen C. Reich, 34;
- Sargento 1ª Classe Michael L. Russell, 31;
- Chief Warrant Officer (Subtenente) Chris J. Scherkenbach, 40.
 "Night Stalker" da Companhia do QG, 160º SOAR (Airborne):
- Sargento Mestre James W. Ponder III, 36 anos.
No chão e quase sem munição, os quatro SEALs, Murphy, Luttrell, Dietz e Axelson continuaram a luta. No final do tiroteio de duas horas que ecoava nas colinas e penhascos, Murphy, Axelson e Dietz foram mortos. Estima-se que 35 talibãs também estavam mortos.
O quarto SEAL, Luttrell, foi atingido por uma granada e caiu inconsciente. Recuperando a consciência algum tempo depois, ele conseguiu escapar gravemente ferido e lentamente se arrastou para o lado de um penhasco. Desidratado, com uma ferida de tiro em uma perna, com estilhaços metidos nas duas pernas, três vértebras rachadas; a situação para Luttrell era sombria. Helicópteros de resgate foram enviados, mas ele estava muito fraco e ferido para fazer contato. Viajando sete milhas a pé, ele evitou o inimigo por quase um dia. Felizmente, os cidadãos locais vieram em sua ajuda, levando-o para uma aldeia próxima, onde o mantiveram por três dias. Membros do Taleban foram à aldeia várias vezes exigindo que Luttrell fosse entregue a eles. Os aldeões recusaram. Um dos aldeões foi para um posto da Marinha com uma nota de Luttrell, e as forças dos EUA lançaram uma operação massiva que o resgatou do território inimigo em 2 de julho.
Por sua destemida coragem, espírito de luta intrépido e devoção inspirada a seus homens diante da morte certa, o tenente Murphy conseguiu transmitir a posição de sua unidade, um ato que finalmente levou ao resgate de Luttrell e à recuperação dos restos mortais dos três que foram mortos na batalha.
Este foi o pior número de mortos das Forças dos EUA em um único dia desde o início da Operação Liberdade Duradoura, quase seis anos antes. Foi a maior perda de vida da Naval Special Warfare desde a Segunda Guerra Mundial.
A comunidade Naval Special Warfare (NSW) se lembrará para sempre de 28 de junho de 2005 e os heroicos esforços e sacrifícios de nossos operadores especiais. Nós mantemos com reverência o último sacrifício que eles fizeram enquanto estavam engajados nessa feroz luta de fogo nas linhas de frente da guerra global contra o terrorismo.
Tenente Michael Murphy foi contratado como um aspirante da Marinha em 13 de dezembro de 2000, e começou seu treinamento Básico Subaquático de Demolição/SEAL (BUD/S) em Coronado, Califórnia, em janeiro de 2001. BUD/S é um Curso de formação de seis meses e o primeiro passo para se tornar um SEAL da Marinha.
Após a formatura do BUD/S, ele frequentou a Escola de Paraquedistas do Exército, o Treinamento de Qualificação SEAL e o Curso de Delivery Vehicle (SDV). O Tenente Murphy ganhou seu Tridente de SEAL e foi servir no SDV Team (SDVT) 1 em Pearl Harbor, Havaí, em julho de 2002. Em outubro de 2002, ele foi transferido com o Pelotão Foxtrot para a Jordânia como oficial de ligação do Exercício Early Victor.
Após sua temporada com o SDVT-1, o Tenente Murphy foi designado para o Comando Central de Operações Especiais na Flórida e enviado para o Catar em apoio à Operação Iraqi Freedom. Depois de voltar do Qatar, o tenente Murphy foi enviado para o Chifre da África, Djibuti, para auxiliar no planejamento operacional das futuras missões da SDV.
No início de 2005, Murphy foi designado para a Equipe de SDV SEAL 1 como oficial assistente encarregado do Pelotão Alfa e enviado ao Afeganistão em apoio à Operação Liberdade Duradoura.
O tenente Murphy foi enterrado no Cemitério Nacional de Calverton a menos de 30 quilômetros de sua casa de infância. 
Ele recebeu uma Citação Especial (Elogio) pessoal do Presidente George W. Bush. Os outros prêmios pessoais do tenente Murphy incluem o Purple Heart, o Combat Action Ribbon, a Medalha de Comenda do Serviço Conjunto, a Medalha de Comenda da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais, o Ribbon da Campanha do Afeganistão e a Medalha do Serviço de Defesa Nacional.
Fonte: tradução livre de Medalha de Honra-USNavy
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quarta-feira, 5 de junho de 2019

O Exército de Todos Nós

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por Sérgio Pinto Monteiro*
Era 15 de fevereiro de 1630 e o nordeste brasileiro começava a viver o pesadelo da invasão dos holandeses da Companhia das Índias Ocidentais. Naquele dia, a cidade de Recife acordou sob o bombardeio da esquadra do Almirante Hendrick Loncq, formada por 50 navios e 7.000 homens. Começava a segunda tentativa dos batavos de se apossar do território brasileiro. Seis anos antes, em 8 de maio de 1624, atacaram e ocuparam Salvador. A reação luso-brasileira, apoiada pela população, não se fez esperar. Militarmente inferiorizadas, nossas forças reagiram com uma intensa guerra de emboscadas. A metrópole portuguesa, com o apoio da Espanha, mandou ao Brasil uma poderosa esquadra de 52 navios e 12.000 homens, entre soldados e marinheiros portugueses e espanhóis, que expulsaram os holandeses da Bahia em 30 de abril de 1625, menos de um ano após o início da ocupação.
Cinco anos decorridos da derrota em solo baiano, a posição estratégica de Recife, a excelência de seu porto natural, a proximidade da Europa e da África e as fracas defesas locais, proporcionaram ao invasor as condições favoráveis a uma nova e vitoriosa campanha, colocando, por 24 anos, parte do nordeste brasileiro sob o domínio holandês.
Os pernambucanos resistiram ao invasor e contra ele lutaram bravamente. Matias de Albuquerque proclamou para toda a Capitania a disposição de lutar até a morte. O inimigo, após conquistar Recife e Olinda, tratou de fortificar suas posições. Como na Bahia, nossa resistência era baseada, principalmente, em emboscadas. Hoje, diríamos que seriam ações de comandos e forças especiais. Construímos, em local estratégico, como baluarte para impedir a penetração do adversário no interior, a fortificação do Arraial do Bom Jesus, que resistiu por cinco anos às investidas dos batavos.
No dia 23 de maio de 1645, dezoito líderes da Insurreição Pernambucana assinaram um Termo Compromisso onde, pela vez primeira em documento, se usava a palavra pátria, no seu sentido atual. Há também, no Compromisso, providências que hoje seriam consideradas como mobilização de Reservas:
“Nós abaixo assinados nos conjuramos e prometemos em serviço da liberdade, não faltar a todo o tempo que for necessário, com toda ajuda de fazendas e de pessoas, contra qualquer inimigo, em restauração da nossa pátria; para o que nos obrigamos a manter todo o segredo que nisto convém...”.
Estava criado, segundo o mestre Capistrano de Abreu, o sentimento da existência nacional brasileira, que iria se fortalecer ao longo dos próximos dois séculos, até a Independência em 1822. 
Paralelamente, surgia, consolidado, o Exército de Patriotas, formado pela fusão das três etnias  branca, negra e índia  com suas miscigenações. Nascia o Exército Brasileiro, democracia multirracial, sem discriminações nem preconceitos, sem cotas, numa pluralidade étnica e social unida pela alma de combatente do nosso soldado.
Em 18 de abril de 1648, o exército holandês com 7.400 homens marchou no sentido Barreta-Guararapes, tendo como objetivo final apoderar-se do cabo de Santo Agostinho. O exército patriota, com 2.200 homens, deslocou-se para interceptar o invasor. O Sargento-mor Antônio Dias Cardoso, como “soldado mais prático e experiente” sugeriu que o melhor campo de batalha seria o Boqueirão dos Guararapes. Na manhã de 19 de abril, primeiro domingo após a páscoa (pascoela), dia de Nossa Senhora dos Prazeres, Dias Cardoso, no comando de 200 homens, investiu contra a vanguarda inimiga para, em seguida, retrair em direção ao interior do Boqueirão onde o restante do nosso exército estava escondido, pronto para a batalha. Ao comando de “ás de espadas” os patriotas se lançaram sobre o inimigo. O terço (regimento) de Pernambuco, comandado por João Fernandes Vieira, auxiliado por Dias Cardoso, rompeu o inimigo nos alagados; os índios de Felipe Camarão assaltaram a ala direita dos holandeses; o terço dos negros de Henrique Dias atacou a ala esquerda, ficando as tropas de Vidal de Negreiros em reserva. Os batavos contra-atacaram com suas reservas de 1.200 homens, enquadrando o terço de Henrique Dias. Os patriotas, habilmente, lançaram a reserva de Vidal de Negreiros no momento adequado. Foram 4 horas de confronto, entre alagados e morros. Ao final, o exército holandês, derrotado, retirou-se com pesadas perdas  1.038 combatentes entre mortos e feridos. Já os patriotas, tiveram 84 mortos e 400 feridos.
A batalha final que culminou com a derrota e expulsão do invasor holandês ocorreu em 14 de janeiro de 1654, quando o exército patriota atacou o último reduto inimigo em Recife. Após dez dias de combates, a cidade foi reconquistada. No dia 26 de janeiro, na Campina da Taborda, os holandeses assinaram a rendição e retiraram todas as suas forças do Brasil. As vitórias nas Batalhas dos Guararapes uniram, no nascedouro, os conceitos de pátria e exército. E o dia da primeira vitória  19 de abril de 1648  por decreto presidencial de 24 de março de 1994, foi escolhido para Dia do Exército.
Em 19 de abril, decorridos 371 anos da primeira vitória que culminou com a expulsão do invasor holandês, o Exército Brasileiro  instituição detentora dos maiores índices de confiabilidade do nosso povo  comemorou a sua data de origem, num momento em que a nação vivencia tempos de mudanças, onde o cidadão de bem, estarrecido, constata que, nos últimos anos, o nosso país foi vilipendiado por maus compatriotas que, durante o dia ludibriaram o povo em nome de uma falsa democracia para, na calada da noite, tramarem contra ela e assaltarem os cofres da nação. As últimas eleições revelaram, claramente, que a sociedade nacional despertou de um longo pesadelo. O resultado das urnas evidenciou que a população clama por novos rumos, onde prevaleçam os princípios, tradições e valores que forjaram a nacionalidade e a HONESTIDADE, COMPETÊNCIA e JUSTIÇA sejam dominantes nos poderes da república. O Brasil não é um reduto de traidores, corruptos, incapazes e sectários. Somos um povo simples, bondoso, às vezes até meio ingênuo, mas profundamente patriota e sempre pronto a defender a grandeza e a soberania da nação. Novas e importantes lideranças estão surgindo. E a ESPERANÇA de um país renovado brilha, novamente, no horizonte da Pátria.
As Forças Armadas, por sua gloriosa história e elevada envergadura moral, são hoje o sustentáculo de melhores tempos. O Dia do Exército foi comemorado condignamente nas organizações militares. Mas a data que lembra as vitórias de Guararapes e a epopeia daquele punhado de bravos, não foram destaques numa parcela da mídia que, comprometida ideologicamente ou movida por interesses escusos, mantém uma postura hostil aos militares. Felizmente, as redes sociais são hoje um fortíssimo instrumento de revelação da vontade popular. E lá vimos as mensagens de cumprimentos da população ao Exército de todos nós.
PARABÉNS, MEU INVENCÍVEL EXÉRCITO!
*o autor é historiador, oficial R/2 do Exército Brasileiro, Patrono do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva, Presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis.
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sábado, 25 de maio de 2019

Dissidências da Narcoguerrilha Agem em 16 Departamentos

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Foto: AFP - As dissidências concentram sua atividade econômica no narcotráfico, além de extorquir agricultores e comerciantes da região.
Por Redação Justiça
Em novembro do ano passado, as dissidências das FARC passaram a ser classificadas como Grupo Armado Organizado Residual (GAOR) que, por seu nível de periculosidade e capacidade do armamento, podem ser repelidos com o uso de todo o poder do Estado, ou seja até mesmo serem bombardeadas.
Em um relatório de Inteligência da Força Pública é dito que os dissidentes contam com 2.296 homens em armas e 1.452 membros nas redes de apoio. A sua área de interferência seria de 57 municípios localizados em 16 departamentos (estados).
O principal campo de ação está no leste do país, particularmente em Guaviare, Vichada e Meta, onde as antigas FARC agiam com a denominação de Bloco Oriental.
O documento indica que Miguel Botache Santillana conhecido como Gentil Duarte que estaria refugiado na Venezuela  busca unificar os dissidentes tendo enviado emissários para diferentes áreas do país com essa finalidade. "Gentil Duarte" é o chefe do principal grupo dissidente, que tem cerca de 1.400 homens dedicados à produção e ao tráfico de cocaína, que enviam para os cartéis mexicanos usando a Venezuela e o Brasil como plataformas.
Seu segundo em comando é identificado como Néstor Vera, vulgo Iván Mordisco, encarregado de unificar a estrutura do ponto de vista militar. O relatório da Força Pública, conclui que as dissidências concentram sua atividade econômica no narcotráfico, além de extorquir agricultores e comerciantes da região.
O outro grupo forte de dissidentes está no município de Tumaco, em Nariño, com cerca de 800 homens em armas que faziam parte de quatro frentes do Bloco Ocidental das FARC.
Destas dissensões, a frente 'Oliver Sinisterra' liderada por um bandido conhecido como 'Gringo' e as 'Guerrilhas Unidas do Pacífico', cujo líder é tratado como 'Borojo', estão travando uma forte guerra territorial, permitindo que o grupo 'Os Contabilistas' — que tem representantes dos cartéis mexicanos na Colômbia — adquirisse muita força e algum controle sobre as rotas do narcotráfico via oceano Pacífico. 
Por outro lado, durante a Minga Indígena, ocorrida entre março e abril deste ano, adquiriu protagonismo Johany Noscué Bototo, vulgo Mayimbú, que tem sob seu comando 200 homens e executou vários ataques na Rodovia Pan-Americana. 
Um outro novo dirigente é conhecido como "Cabuyo", da 36ª Frente das FARC, acusado de assassinar três geólogos em Yarumal, Antioquia, no ano passado. Para informações que levem a esse dissidente, as autoridades oferecem 300 milhões de pesos (cerca de 300 mil reais).

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Fonte:  tradução livre de El Tiempo
COMENTO:  já escrevi diversas vezes aqui que esse "processo de paz" efetivado com a narcoguerrilha não produzirá paz alguma para os colombianos. A princípio, as "exigências" dos narco-bandoleiros para a concretização desse acordo — apoiadas pelos "analistas" e "especialistas" destacados pela imprensa — expuseram a organização centralizada das decisões do Foro de São Paulo, e o fiel cumprimento de suas ordens pelos seus integrantes. Mesmo assim, alguns ingênuos ou mal intencionados renderam-se à capacidade organizativa dessa criação de Fidel, Lula e Hugo Chavez (que o capiroto o tenha) e deram seguimento à farsa. Vejamos algumas "propostas":
— anistia com um processo judiciário "transicional" — alguns colombianos não caíram nessa esparrela que os canalhas tentam transformar em um mecanismo unilateral de benefícios para um segmento e de perseguição e revanchismo para o outro, como aconteceu no Brasil, e resistem a aceitar as imposições dos bandidos provocando os problemas que estão sendo enfrentados na execução prática da "Justiça Especial para a Paz (JEP)";
anistia aos narcocriminosos seguida por indenizações e recompensas para que eles sejam "reinseridos" na sociedade, onde se destaca a instalação de líderes dos criminosos em postos legislativos sem que tenham sido eleitos pela sociedade.
— A procura por "desaparecidos" é outra artimanha para render propaganda (negativa para as Forças de Segurança colombianas, certamente) e recursos financeiros (indenizações) para os narco-bandoleiros.
— A pantomima das "Comissões da Verdade", que foi exitosa na Argentina e no Brasil, onde os patifes conseguiram distorcer a história de suas canalhices, invertendo valores e transformando criminosos em heróis e heróis em bandidos, inclusive penalizando estes, além de promover um revanchismo indecente, maculando não só as memórias dos vencedores da luta armada mas convencendo os mais jovens de que foi graças a eles, os canalhas, que a democracia foi estabelecida. 
— O "controle social" da mídia, a fim de que possam reescrever sua história e manterem o proselitismo de sua ideologia é outra exigência.
Somente os muito alienados e os comparsas desses patifes se recusam a ver que esse sistema idiota que eles apregoam está falido e falindo todos os lugares onde se instalou. Assim, eles tem a necessidade de agir com urgência, conquistando espaços e, principalmente, recursos, pois ninguém é mais ávido por verbas alheias do que um comunista. Temos nossos próprios exemplos e mais recentemente, já vimos o discurso de Castro II o imperador cubano, querendo "indenização" dos EUA pelos anos de bloqueio econômico. Como se a bosta da ilha comunista improdutiva não negociasse sua miséria recebendo donativos — não se pode dizer que comercializa alguma coisa — de diversas nações, inclusive a nossa, sob a capa de "ajuda humanitária". Vergonha na cara parece ser, para eles, só mais uma manifestação burguesa-capitalista.
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