sexta-feira, 17 de março de 2017

A Espiral da Mediocridade

A consequência de décadas desta hegemonia esquerdista é aquilo que chamo de espiral da mediocridade.
por Luis Milman
O ambiente universitário brasileiro, a exemplo do jornalístico, é um terreno no qual sempre proliferou a mentalidade esquerdista. O Partido dos Trabalhadores, desde os anos 80, é o preferido de professores e alunos, que ostentam sua militância abertamente e com orgulho. Na medida em que o PT foi se tornando um partido de governo, partidos de esquerda mais à margem do poder, como o PCdoB, o PSTU e o PSOL, passaram a dividir com os petistas a liderança do movimento estudantil, enquanto os sindicatos docentes, especialmente das universidades públicas, continuaram a ser dominados por petistas. O PT substituiu o antigo PCB, o Partidão – do qual, em muitos aspectos, é um esbirro – na preferência da intelligentsia universitária. Assim, não é novidade que sempre tenha havido, por parte deste setor, uma adesão confessional aos padrões de pensamento e organização marxistas.
Para todos os efeitos, estar vinculado ao PT ou, em segundo plano, aos demais partidos da esquerda, aberta ou informalmente, significa, ainda hoje, possuir uma carta de recomendação ideológica, sem a qual é muito difícil abrir as portas para a participação em grupos que dominam a política e movem a burocracia universitária. A credencial é responsável pela ocupação de cargos diretivos e pela consequente ascensão na carreira docente, sem falar na participação assídua em congressos nacionais e internacionais e, principalmente, nas agências estatais de fomento à pesquisa, que controlam a distribuição de bolsas de estudo para alunos e verbas polpudas para professores. Para aqueles que não se ajustam ao perfil ideológico dominante, que são independentes ou não-alinhados ao ideário hegemônico, resta resignarem-se com um autêntico exercício de sobrevivência profissional, em um contexto que, não raras vezes, torna-se, até mesmo, hostil.
A contra-face deste esquerdismo que sequestrou a Universidade brasileira é a inexistência de setores articulados mais identificados com referências teóricas de direita. Entenda-se por direita, aqui, não o espantalho reacionário que os petistas, ou a esquerda brasileira como um todo, fabricou para justificar sua doutrinação. A direita que importa é aquela dos conservadores e liberais, que defende os valores da democracia republicana, da economia de mercado, da tradição e costumes judaico-cristãos e da liberdade individual. Esta está praticamente extinta na Universidade, muito por culpa de sua própria falta de combatividade e de sua aceitação pacífica do expurgo ideológico a que foi submetida pela esquerda.
Externamente, apenas para fins de propaganda, os esquerdistas que dominam os campi sustentam que são democratas e que há, na universidade, um fluxo de pensamento livre. Não há. Este fluxo é condicionado pela aceitação, por parte da maioria esmagadora de professores e estudantes, de modo tácito ou explícito, da mentalidade revolucionária marxista ou para-marxista e de sua superioridade moral. Um professor, na área de Humanidades, por exemplo, tem muita dificuldade operacional para expor as ideias políticas de Hume, Burk ou Toqueville, ou a crítica ao socialismo de Mises e Hayeck, num ambiente no qual Marx, Gramsci, Adorno e Dvorkin são praticamente vistos como sublimes.
São imperceptíveis, na Universidade brasileira, os registros do debate e da abertura intelectual. Em seu lugar, há um compadrio doutrinário e a consequência de décadas desta hegemonia esquerdista é aquilo que chamo de espiral da mediocridade. Nas salas de aula e nos encontros de pesquisadores repetem-se à exaustão as fórmulas surradas de pensadores marxistas. Há muito espaço, também, para anarco-marxistas, como Foucault, ou para pós-modernistas como Derrida, além de uma penca de autores de expressão menor que seguem estas linhas. Tudo produzido de maneira repetitiva para consumo da clientela acadêmica. Não há diferença entre formação e doutrinação. A reflexão dá lugar ao automatismo e os modos de expressão, na mesma medida em que a capacidade crítica é substituída por uma adesão do sujeito a uma dogmática já existente, limitam-se a propagar e a produzir cópias caricatas dos modelos que habitam o Olimpo das ideias revolucionárias e desconstrutivistas.
É a este quadro, em linhas gerais, que está reduzida a intelectualidade na Universidade brasileira. É de se reconhecer, no entanto, que está surgindo, devido à degradação política do PT, uma demanda por mais inteligência na sociedade. Esta demanda reflete-se no meio acadêmico, onde a situação confortável da esquerda passou a sofrer alguma contestação, mesmo que ainda incipiente. Uma das defesas do esquerdismo, digamos, corporativo da Universidade, é fazer com que suas práticas e hábitos permaneçam opacas para essa mesma sociedade que a sustenta. A vida intelectual e a burocracia universitárias ainda constituem uma caixa-preta para o cidadão comum. É preciso urgentemente devassá-la.
Luis Milman é professor de filosofia e jornalista.

quarta-feira, 8 de março de 2017

Socialite, Espiã e Salvadora


por Hallie Rubenhold
A morte de uma senhora escocesa idosa, em 15 de maio de 1823, na pequena Ville d'Avray, entre Paris e Versalhes, não seria digna de nota a não ser por um detalhe: a vida de Grace Dalrymple Elliot havia sido cheia de intrigas, provações e coragem. Conviveu intimamente com lordes, duques e condes; supostamente, teve um filho do principe de Gales; salvou um marquês durante a Revolução Francesa; e (como ela afirmou) dividiu uma estadia infernal na prisão com uma futura imperatriz.
Wikipedia-Grace_Elliott
Nascida por volta de 1754, Grace foi criada na casa de seus avós maternos em Edimburgo, até a morte de sua mãe em 1765, quando foi mandada para a escola na França. Pouco depois de voltar, em 1771, casou-se com o médico John Eliot, cerca de 20 anos mais velho do que ela. O casamento, porém, não deu certo. Depois de problemas de ambos os lados, acabou quando Eliot, após descobrir as "indiscrições" de Grace com o visconde de Valencia, levou-a à Justiça sob acusação de adultério e, em 1776, obteve o divórcio e uma indenização.
A mais antiga das profissões
Em desgraça e financeiramente arruinada, Grace tornou-se cortesã.
Construiu uma vida luxuosa, apesar da precariedade, através de uma rede de relacionamentos com nobres, notavelmente o Marquês de Cholmondeley e o Principe de Gales - mais tarde, Rei George IV - do qual ela alega ter engravidado de uma menina.
Na primavera de 1779 ela começou a ir a Paris, onde conheceu Luís Felipe II, o Duque de Orleans. Na capital francesa, Grace encontrou não só um ambiente mais tolerante às suas indiscrições, como também muitos nobres ricos que poderiam financiar seu extravagante estilo de vida. Em 1786, mudou-se para Paris visando estreitar suas ligações com Orleans. É claro que ela não conseguiu perceber a iminente derrocada do antigo regime e seus excessos.
Três anos depois, os revolucionários tomaram a Bastilha. Durante o período de tumultos, Grace permaneceu em Paris ao lado de Luís Felipe (agora um jacobino), apesar de sua simpatia pela realeza. E em setembro de 1792 estava totalmente envolvida no conflito. Naquele mês, os jacobinos invadiram as prisões para matar supostos contrarrevolucionários e aristocratas. Grace foi solicitada a ajudar o Marquês de Champcenetz, um ex-camareiro do rei e governador do Palácio das Tulherias, a fugir de Paris. Um mês antes, ele havia sido gravemente ferido durante a invasão do palácio e estava sendo escondido por uma amiga de Grace. Logo que os revolucionários começaram a fazer buscas por nobres nas casas de Paris, a cortesã ofereceu sua casa de campo para esconder Champcenetz.
Depois de acomodá-lo em sua carruagem, ela descobriu que as saídas da cidade estavam fechadas. Então abandonou o veículo e levou o marquês febril para sua casa, carregando-o pelas ruas ocupadas por soldados. Sabendo que seus criados eram partidários da revolução, ela escondeu o fugitivo em seu quarto, dentro do colchão, enquanto os guardas vasculhavam a casa. Dias depois ela conseguiu levá-lo para sua casa de campo e de lá, em janeiro de 1793, para a Inglaterra.
Amazing Women in History.
Este foi um dos muitos incidentes registrados em suas memórias, publicadas postumamente em 1859 com o título Minha Vida Durante a Revolução Francesa. As autoridades francesas suspeitavam de Grace, e por um bom motivo: ela agiu como espiã para os britânicos, passou correspondências entre os émigrés e os contrarrevolucionários, e pode ter ajudado a levar cartas de Maria Antonieta para a Áustria. Mas foram suas relações com o duque que a levaram ao Comitê de Segurança Pública de Robespierre.
Conforme a revolução se radicalizava, até mesmo o jacobino Duque de Orleans e seus seguidores se tornaram suspeitos. Entre a primavera de 1793 e o verão de 1794, Grace afirma que foi interrogada e presa diversas vezes. 
Quando esteve na prisão de Récollets, em Versalhes, no outono de 1793, soube da morte de Maria Antonieta e do Duque de Orleans. Então, em janeiro de 1794, foi levada para a prisão de Carmes onde, segundo conta, dividiu uma cela com Josefina de Beauharnais, mais tarde esposa de Napoleão e imperatriz da França.
Censura
Como Grace conseguiu manter sua cabeça durante o Terror não se sabe: o úItimo capítulo de seu diário foi censurado. Depois de ser libertada, ela dividia seu tempo entre Londres e a França. Morreu em 1823 enquanto visitava a casa o prefeito de Ville d'Avray.
O diário de Grace é um dos melhores relatos de primeira mão sobre a Revoluçao em língua inglesa. Desde sua publicação em 1859, muitos questionam a veracidade do relato, parcialmente devido às suas escandalosas revelações. Mas, apesar de haver imprecisões em suas memórias, não há dúvida de que foi uma mulher notável que teve uma vida turbulenta e fascinante, em uma era turbulenta e fascinante.
Hallie Rubenhold é historiadora e escritora
Fonte:   BBC History Brasil 


domingo, 5 de março de 2017

Na Semana da Mulher, Uma Homenagem a Algumas Que Fizeram Diferença

Elizabeth Van Lew
Elizabeth Van Lew era filha de um próspero negociante de escravos em Richmond, Virginia.  Quando o pai dela morreu e ela herdou os onze escravos da família, libertou-os e auxiliou na educação deles, inclusive enviando os à Filadélfia. Quando a guerra civil começou, Van Lew era manifestamente leal à União e, ao longo do tempo, operou uma rede de espionagem com doze pessoas, incluindo funcionários dos Departamentos da Guerra e da Marinha e um candidato a prefeito de Richmond. Ela desenvolveu um sistema de criptografia e frequentemente contrabandeava mensagens para fora de Richmond em ovos ocos, usando seus ex-escravos como facilitadores.
Mary Elizabeth Bowser
Um dos seus mais ousados espiões era uma ex-escrava chamada Mary Elizabeth Bowser. Quando a guerra começou, Van Lew enviou a Bowser - então na Filadélfia - um pedido para voltar a Richmond para participar em operações clandestinas. Van Lew, conhecida do Presidente Confederado Jefferson Davis, recomendou Bowser para o cargo de empregada. Uma vez aceita, ela foi infiltrada na casa de Davis e tinha acesso a documentos oficiais e reuniões confidenciais.
George H. Sharpe, o comandante do Escritório de Informações Militares da União, creditou a Van Lew "a maior parte de nossa inteligência em 1864-65." Na primeira visita de Ulysses S. Grant a Richmond depois da guerra, ele tomou chá com Van Lew e declarou "você me enviou as mais valiosas informações recebidas desde Richmond durante a guerra.
Depois da guerra, Van Lew pediu que todos os relatórios da União relacionados com ela e sua rede fossem destruídos, limitando a visibilidade sobre ela e seus espiões. As duas, Van Lew e Bowser foram incluídas no Hall da Fama do Corpo da Inteligência Militar dos Estados Unidos da América.
Fonte:  tradução livre de Defense Intelligence Agency


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

George Washington - Soldado, Estadista ... e Espião-Mestre

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Recorte de quadro com o general George Washington reunindo suas tropas na batalha de Princeton. 
Pintura original por William Tylee Ranney, na galeria de arte da Universidade de Princeton













Todos os anos, os estudantes norte-americanos celebram o Dia do Presidente (e seu feriado). Nas escolas de ensino fundamental de todo o país, as crianças fazem perucas com bolas de algodão, colorem imagens de George Washington a cavalo, ou de Abraham Lincoln em uma cabana de madeira, enquanto seus professores leem para eles trechos da Declaração de Independência ou do Discurso de Gettysburg.
Dependendo de onde cresceram, os Norte-americanos podem comemorar esse feriado de forma diferente. Devido ao sistema federalista do governo, os estados escolhem como usar o feriado. Alguns o nomeiam como Aniversário de Washington, outros como o Dia do Presidente, outros referem-se a Washington ou Lincoln e, pelo menos um, cita especificamente o nome de Thomas Jefferson.
Mas de acordo com o governo federal, a terceira Segunda-feira de Fevereiro é oficialmente o Aniversário de George Washington (OK, OK, George Washington na verdade nasceu em 22 Fev 1732, mas vamos em frente. Há uma boa história sobre como o feriado veio a ser o que é, e você pode ler a respeito no Arquivo Nacional).
Um dos mais famosos mitos sobre Washington é o da cerejeira. Quase todos os Norte-americanos o conhecem: quando criança, ele cortou a cerejeira que seu pai gostava com uma machadinha. Quando confrontado, ele responde, com uma frase que qualquer aluno do ensino fundamental pode recitar: "Pai, eu não posso dizer uma mentira." O conto fala da virtude inerente de Washington, e ainda fixou sua lenda como o ideal para um líder americano, "Pai" de nosso país.
A lenda do jovem George Washington sendo incapaz de dizer uma mentira. Pintura original por John C. McRae.
Livraria do Congresso 
Poucas crianças aprendem que nosso honrado e honesto "pai fundador", ganhou a Guerra pela Independência não só por causa de suas proezas militares, mas em grande parte também por sua capacidade de enganar. George Washington foi muitas coisas durante sua vida: fazendeiro, amante dos cães, atleta, topógrafo, soldado, presidente ... a lista parece interminável. Mas muitos esquecem ou nem ficam sabendo que ele também era um mestre espião.
Construímos uma mitologia nacional em torno de Washington como um líder destemido e humilde servo. E de acordo com todas as contas, ele era essas coisas. No entanto, muitas das histórias que aprendemos sobre ele foram feitas após a sua morte - como a história da árvore de cereja. São lendas e mitos atribuídos a um homem já grande que não precisava de embelezamento.
Mas nesta história você pode acreditar.
A primeira experiência de Washington com espiões foi ao servir quando jovem oficial na Guerra Francesa e Indiana. Ele aprendeu táticas e técnicas do mesmo Exército Britânico que ele mais tarde enfrentaria na Guerra Revolucionária.
Hoje, a Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos é composta por 17 agências e órgãos, todos servindo nossos líderes nacionais - diplomatas, combatentes, o Presidente - de diferentes maneiras. No Exército Britânico dos anos 1700, se um oficial precisasse da Atividade de Inteligência, era geralmente ele quem teria que desenvolver sua própria rede. Washington acreditava tão fortemente no valor da boa Inteligência que gastou aproximadamente 10% de seu orçamento nela.
Mais tarde, como um Revolucionário Norte-americano, Washington construiu e dirigiu o notório (pelo menos para a Coroa Britânica ) grupo de espiões conhecido como o Anel Spy Culper. Ele mesmo recrutou muitos desses espiões. A fim de proteger esses recursos de inteligência, ele muitas vezes teve o cuidado de sempre evitar saber suas identidades reais. Há muitos espiões Culper Ring, cujas identidades permanecem desconhecidas até hoje.
O preço da espionagem na Guerra Revolucionária era alto, tanto para os revolucionários quanto para os leais à Coroa. Normalmente, os espiões presos e condenados eram executados. Nomes como Nathan Hale e Benedict Arnold evocam imagens da forca (embora, Arnold, o espião britânico mais conhecido da Revolução Americana, tenha evitado sua captura e mais tarde se tornado um General britânico).
Muito parecido com os juramentos de hoje, os militares tinham de assinar um juramento de fidelidade aos EUA. Este juramento foi levado a sério, e muitos espiões foram executados. Benedict Arnold, cujo juramento é visto aqui, não foi executado. Ele foi um "vira-casaca" que aceitou uma comissão no exército britânico e foi viver em Londres. Arquivo Nacional.
O Culper Ring ou Anel de Culper é epônimo com dois nomes de cobertura dos espiões, usados ​​em troca de correspondências, Samuel Culper e Samuel Culper Jr. Eram de fato as identidades falsas de Abraham Woodhull e de Robert Townsend, respectivamente. Seus pseudônimos foram usados ​​nas cartas de Culper Ring para que suas atividades de espionagem não fossem conectadas às suas identidades reais.
No mundo real, eles seguiam sua vida colonial normal, usando seu status social e profissional para alimentar com informações valiosas a causa dos revolucionários. Townsend, por exemplo, era um comerciante que dirigia uma loja de café local, e outro membro do Culper Ring, Hercules Mulligan (que ganhou notoriedade recente como um personagem no musical Hamilton), foi um alfaiate para oficiais militares britânicos.
É importante notar também que muitas mulheres contribuíram para as atividades de inteligência de Washington. Mulheres como Anna Strong, que desenvolveu um "código de varal", foram fundamentais para o sucesso das operações de inteligência. Uma mulher, que morreu na prisão, ainda é conhecida pela História como Agente 355.

Cópia de página do Culper Code Book, que
ajudou a manter várias ações  militares
e informações ocultas dos britânicos.
Arquivo Nacional.
Grande parte das técnicas que nós associamos hoje à espionagem - "dead drops" (pontos para troca de dados), mensagens cifradas, nomes de código - todos eles foram usados ​​pelo Culper Ring. Em particular, Washington estava interessado em ter uma maneira de enviar mensagens com segurança. Uma dessas maneiras era tinta invisível.
Algumas tintas invisíveis anteriores eram de natureza ácida e sutilmente alteravam as fibras do papel para que o receptor pudesse lê-lo sob calor. Washington queria algo mais seguro, e contratou James Jay, um médico na Inglaterra e irmão do patriota John Jay, para desenvolver uma nova "mancha simpática".
Uma mancha simpática é uma escrita feita com um produto químico e revelada por outro. Se alguém recebeu uma carta incluindo mensagens secretas, usaria este produto químico secreto para aplicá-lo na carta para revelar o texto oculto.
Alguns no Culper Ring acreditavam que os britânicos também conheciam o produto químico para revelar essa mancha simpática. Assim, os espiões desenvolveram um Livro de Código Culper, onde números substituíam nomes de várias pessoas, lugares e ações. Por exemplo, 727 era a cidade de Nova York. E o agente 711? O próprio Washington.
As táticas de Washington foram excelentes para aquela época, mas o que realmente ganhou a guerra foi a sua capacidade de enganar os britânicos. Uma das táticas mais eficazes para o nosso jovem Exército Revolucionário era o que agora chamamos de Contra-Informação ("decepção militar", ou MILDEC, em inglês). Washington sabia que suas cartas eram muitas vezes, se não sempre, interceptadas. Em vez de mudar táticas o tempo todo, muitas vezes ele aproveitou a oportunidade para plantar algumas informações falsas.
Às vezes, ele exagerava o efetivo de tropas em mensagens que sabia que provavelmente seriam interceptadas. Ele foi mais longe, a ponto de colocar, às vezes, ordens de fornecimento totalmente falsas para fazer os britânicos acreditarem que as forças americanas estavam se preparando para atacar, ou que estavam sendo construídos acampamentos inteiros em locais-chave.
A rendição de Cornwallis a Washington em Yorktown. Os esforços militares e de inteligência de Washington levaram os Patriotas à vitória, ganhando os Estados Unidos a sua independência da Inglaterra.
Pintura por John Trumbull. A pintura está atualmente na exposição no Capitólio dos EU.
A Contra Infomação foi uma parte importante no conflito decisivo da guerra, a Batalha de Yorktown. Washington fez tudo parecer como se os patriotas estivessem planejando atacar a cidade de Nova York, quando, na realidade, os americanos e os franceses objetivavam Yorktown e a baía de Chesapeake. Washington construiu falsos "acampamentos" fora da cidade de Nova York e quando "seus planos de se mudar para a cidade inadvertidamente caíram em mãos erradas", o mal preparado efetivo do Exército Britânico que ocupava Yorktown foi subjugado por um Exército Continental com o dobro do seu tamanho.
O resto, como dizem, é história.
Mas isso não é realmente o fim da história. Após assumir, o Presidente Washington definiu o primeiro Orçamento para a Inteligência da nova nação. Depois de três anos no cargo, o fundo cresceu para US $ 1 milhão. Isso não parece muito agora, mas era 12% do orçamento do governo na época.
O Orçamento também podia ser mantido em segredo do Congresso para proteger as missões realizadas pelo Poder Executivo (hoje nossas principais informações sobre o Orçamento de Inteligência são de conhecimento público). Este investimento seria indispensável para futuros presidentes. Pouco depois da criação do fundo, os sucessores de Washington, Presidentes Thomas Jefferson e James Madison, usaram o fundo para missões internacionais secretas visando promover os interesses dos EUA.
A confiança de Washington no poder da boa Inteligência levou nossa jovem nação para o sucesso militar e diplomático. Enquanto o público em geral pode estar menos familiarizado com a história de George Washington como o primeiro espião da nação, a Comunidade de Inteligência dos EUA ainda honra este importante aspecto do legado do nosso primeiro presidente, com o Prêmio George Washington Spymaster.
Concedido aos Profissionais da carreira de Inteligência cuja "liderança visionária, contribuições inestimáveis ​​e realizações incomparáveis ​​revolucionaram a CI e executaram fundamentalmente Operações de Inteligência para garantir a preservação de nossa segurança nacional", o Prêmio George Washington Spymaster é a maior honra entregue pela Comunidade de Inteligência dos EUA .
O Prêmio George Washington Spymaster em suas diversas formas: de cima para baixo, barreta para uniforme, pin para lapela, miniatura da medalha, e medalha.  Embora o centro pareça a bandeira do DC, foi na verdade Washington, DC, que adotou o brasão da família de Washington.
A medalha em si é um tributo a George Washington. A bússola que forma a peça central da medalha é o símbolo adotado da Comunidade de Inteligência. Dentro dela, o brasão da família de Washington. O azul significa a fidelidade do Anel Spy Culper, e a prata representa a avaliação da verdade.
Embora não esteja visível aqui, a parte traseira contém uma inscrição adotada do lema da família de Washington: "Exitu Acta Probat". Traduzido, significa "Os fins justificam os meios". Washington adicionou-o ao brasão para homenagear o papel da Inteligência na Guerra Revolucionária.
A medalha exibe um Grifo saindo da coroa (coronet), usado no escudo de Washington durante toda sua vida. O Grifo simboliza sabedoria, vingança e força.
Como aconteceu com os membros do Anel Culper, a natureza de muitas das realizações de nossos Spymasters, como a famosa Agente 355, o público em geral nunca saberá seus nomes.
Mas há uma mulher cujas contribuições para a Comunidade de Inteligência não permanecerá em segredo. É a recente ganhadora do Spymaster, Stephanie O'Sullivan, Diretora-Adjunta da Inteligência Nacional recentemente aposentada.
Ela iniciou sua carreira como "garota-prodígio" técnica, formou-se engenheira civil e construiu diversas plataformas de pesquisa para a comunidade de inteligência - a maioria dos quais ainda está altamente classificada e compartimentada, a ponto de muitas pessoas credenciadas nem saberem sobre elas. O'Sullivan se aposentou em janeiro, mas seu legado de proficiência técnica e liderança pessoal permanece.
Sua carreira se estendeu do Escritório de Inteligência Naval sendo promovida nas fileiras da CIA até ser Diretora de Ciência e Tecnologia e, em seguida, alçada ao terceiro cargo na hierarquia: Diretor Adjunto Associado. Ela foi então aproveitada para se tornar a segunda maior profissional de Inteligência do país, tornando-a a mulher de mais alto escalão da Comunidade de Inteligência dos EUA.
O Diretor de Inteligência Nacional James Clapper condecora formalmente a então Diretora Adjunta da Inteligência Nacional Stephanie O'Sullivan com o Prêmio George Washington Spymaster em 13 Dez 2016.
No seu diploma do Prêmio de Spymaster se lê, "Senhora O'Sullivan pessoalmente guiou os esforços da Comunidade de Inteligência para um ambiente integrado de tecnologia da informação e avançou na pesquisa, desenvolvimento e implantação de sistemas de coleta de ponta." Essas tecnologias mudaram a maneira de agir da CI.
"A necessidade de obter boa inteligência é aparente", escreveu Washington em uma carta em 1777. "... Sobre o sigilo, o sucesso depende dele na maioria das empreendimentos, e por falta dele, geralmente ocorrem derrotas".
Embora a Comunidade de Inteligência tenha mudado desde a época de George Washington, mantivemos a sua constante aposta na melhoria dos métodos para obter a melhor informação possível, proteger o nosso povo e permitir que os nossos líderes nacionais tomem as decisões mais embasadas no interesse da segurança dos nossos cidadãos.
Fonte:  tradução livre de Office of the DNI
COMENTO:  Texto sobre o feriado de ontem nos EUA. A linguagem na segunda pessoa do plural ocorre por ser uma tradução de redação feita por uma entidade norte americana.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Tudo Tem um Começo

por Armando Soares
Tudo tem um começo na vida, na política, na economia, no social, no administrativo, no institucional. Se o começo é errado, tudo daí para frente vai acompanhar o erro. Consertar o erro para que tudo volte ao normal é uma tarefa difícil, muitas vezes impossível e quando possível acompanhado de muitos problemas e sofrimento.
Um começo de vida errado é prenúncio de constantes problemas e muito sofrimento, para a pessoa e para quem a ele se agrega. Estabelecer uma mudança do rumo tomado é uma tarefa árdua que requer muita paciência e força de vontade. Não é qualquer um que consegue. Assim como acontece com a vida das pessoas, acontece na política e em qualquer atividade. Um começo errado na construção de uma constituição, a lei maior que reflete o pensamento e o modo de viver de um povo pode levar um país a um desenvolvimento acelerado consistente ou a uma estagnação permanente. 
Nos Estados Unidos da América, por exemplo, a constituição americana garante a propriedade privada; defende os direitos e garantias individuais do cidadão etc... A Constituição americana é uma obra de valor indiscutível no que se trata da criação de um sistema político baseado em um governo estabelecido para garantir o direito de todo homem à vida, liberdade e à busca da felicidade, garantias sustentadas por um modelo econômico capitalista sob a responsabilidade da livre iniciativa.
Vamos passar por cima da história que registra o descobrimento do Brasil um começo com escolhas equivocadas e nos situarmos no período em que se instalou a constituinte, ponto de referência importante para chegar aonde nos interessa, ou seja, se o sistema político e econômico contido na Constituição de 88 criado pelos constituintes que orientam a vida dos brasileiros refletem a vontade dos brasileiros ou a vontade apenas dos constituintes e seus agregados e suas ideologias. A constituinte reuniu gente de toda espécie, com destaque para políticos cassados por desonestidade, comunistas e ambientalistas, o que resultou na criação de uma constituição híbrida, um cruzamento de ideologias diferentes que é a causa principal dos problemas brasileiros. 
Consertar esse erro é fundamental para que o Brasil possa se desenvolver. Se o desenvolvimento só pode acontecer através da iniciativa privada, como convocar a iniciativa privada com uma política trabalhista fascista e comunista? Com invasões de propriedades privadas rurais e urbanas? Sem defesa dos direitos e garantias individuais? Com o estabelecimento da função social da propriedade privada urbana? Com a garantia da demarcação de terras indígenas que destrói a soberania? Com leis de proteção ao meio ambiente que conflitam com o desenvolvimento? Com um país sem regulamentações e sem segurança? Sem que se crie uma nova constituição que assegure o direito à propriedade efetivamente, que estabeleça como modelo econômico o capitalismo e estimule a livre iniciativa, nenhum governo, por melhor que seja vai tirar o Brasil do buraco e fazê-lo se desenvolver. O erro, portanto, está na constituição, na escolha feita por comunistas, socialistas e políticos corruptos e ultrapassados. O reparo é sofrido, mas não há outro meio de se consertar um sistema político híbrido que gera conflitos sociais, econômicos de toda natureza que impedem o desenvolvimento e a boa qualidade de vida da população.
Começamos mal, portanto, temos que pagar um preço muito alto para corrigir o mal, não há outro caminho. As reformas propostas são paliativas que não resolvem, ao contrário podem ainda agravar mais os problemas. Diante da nossa realidade política, com os quadros existentes, não acreditamos em atitudes racionais e corajosas, mormente quando se tem os três poderes totalmente contaminados por titulares sem a força moral necessária e convicções para tal empreitada.
Quem são vocês? - Sou um legislador, um juiz e governante. 
- Não, isto são as suas máscaras! 
- Quem são vocês verdadeiramente? Tirem a máscara e saberemos quem são vocês, e se poderão ajeitar o Brasil e recuperar o tempo perdido imposto por bandidos, comunistas, socialistas, ideólogos e políticos corruptos. 
Armando Soares é economista

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Conclusões Sobre a Greve da PMES

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Caros amigos
É fácil comprovar, e nunca é demais repetir, que o fim do Regime Militar ensejou o início de um estudado e deliberado clima de libertinagem que nos conduziu, ao longo dos últimos 30 anos, à exacerbação do desmando, da corrupção, da impunidade e da compensação do crime, fazendo com que chegássemos, nos dias de hoje, ao caos e ao império da criminalidade.
O primeiro marco temporal dessa planejada “evolução” foi a promulgação da nossa Constituição “Cidadã” - aglomerado de direitos deliberadamente dirigidos aos “cidadãos” portadores da “necessidade especial” de protegerem-se da ação coercitiva do Estado.
Desde antes da chegada do PT ao poder - etapa fundamental de um plano totalitário, comunista, elaborado pelos integrantes do Foro de São Paulo - além da crescente libertinagem, falsamente apresentada como “liberdade”, procedia-se a uma inescrupulosa campanha de demonização, desmoralização e cooptação das FFAA e das Polícias Militares, procedimento fundamental para o sucesso do plano.

A criação da Comissão Nacional da Verdade e a criminalização da ação policial militar face à violência crescente da bandidagem, cada vez mais estimulada a organizar-se, são evidências dessa componente do plano.
O fim da influência do Exército sobre as PM – Forças Auxiliares – com o esvaziamento da Inspetoria Geral das Polícias Militares (IGPM), cedeu terreno para que o Poder Político ocupasse esse espaço e buscasse transforma-las em milícias a serviço dos interesses políticos e ideológicos dos governos estaduais. A promoção de um Major a Coronel, contrariando todas as regras de promoções, para em seguida nomeá-lo Comandante Geral da Brigada Militar, durante o governo de Tarso Genro, no Rio Grande do Sul, é o exemplo mais gritante dessa nefasta “evolução”.
A ditadura do “politicamente correto” e a hipocrisia dos defensores dos “direitos humanos” tolheram a tal ponto a atuação das PM que chegamos à nunca imaginada marca das 60 mil mortes violentas por ano e, no mesmo período, ao recorde mundial de assassinatos de policiais.
Em que pese à ilegalidade, à inoportunidade e aos resultados fatídicos da atual greve da PM do Espírito Santo - que transformou o estado em área liberada para todos os tipos de crimes -, a sua ausência nas ruas deixou comprovada a sua eficiência na contenção do índice de criminalidade intencionalmente estimulado pelo plano macabro de poder da esquerda revolucionária, liderada pelo Partido dos Trabalhadores.
A forma escolhida pelos Policiais Militares para sensibilizar o governo do Estado para a sua degradante situação salarial é também reflexo da perniciosa politização de seus quadros mais graduados, porquanto a hierarquia, a disciplina, o sentido da autoridade e a tradição – pilares de qualquer organização que se quer militar - são fatores que asseguram, além do amor próprio e do espírito de corpo, a confiança nos chefes, selecionados por seus méritos pessoais e profissionais para o exercício do Comando e para assegurar os interesses corporativos de quem diariamente arrisca a vida para cumprir o seu dever.
O ingrediente mais importante da liderança bem sucedida é a confiança. Um líder militar é alguém que identifica e busca, a qualquer custo, a satisfação das necessidades legítimas de seus liderados. A autoestima é fundamental para a eficiência dos soldados e inclui a necessidade de sentir-se valorizado, tratado com respeito, apreciado, encorajado, tendo seu trabalho reconhecido e justamente recompensado.
A autoridade do Comandante se estabelece quando há a certeza de que ele serve aos subordinados e sacrifica-se por eles, pela instituição e pelo compromisso de todos com a nobreza da missão, acima de qualquer interesse pessoal.
O lamentável episódio, além das conclusões acima e de muitas outras que o estudo minucioso do caso possam trazer, permite, em particular, enaltecer o exemplo de prontidão das FFAA brasileiras para acudir a sociedade em perigo em quaisquer circunstâncias e locais do território brasileiro, põe em dúvida o custo benefício da manutenção de uma Força Nacional de Segurança Pública nos moldes atuais e, por fim, mas não por último, prova o desserviço à segurança pública e pessoal causado pela lei do desarmamento dos homens e das mulheres de bem, diante da impossibilidade de desarmar os criminosos, este sim, um efetivo atentado aos direitos humanos dos humanos direitos!
Gen Bda Paulo Chagas

Fonte:  Facebook
COMENTO (atualizado em 11 Fev 17):  muito boa a análise do General Paulo, todavia, talvez para não estender seu texto, deixou de citar que quanto mais são usados para cobrir e sanar os problemas causados pela má gestão generalizada do país, os militares das Forças Armadas continuam ameaçados - pelos mesmos gestores incompetentes - de terem seus direitos, mais uma vez restringidos.  A devida retribuição dos sacrifícios exigidos já não é questão de patriotismo, profissionalismo ou justiça. É objeto de sobrevivência dos pilares da disciplina e hierarquia, que parecem ser os alvos da deterioração planejada pelos indecentes inimigos da Pátria, afim de destruir a única barreira entre eles e o poder completo que almejam desde a década de 20 do Século passado e tentaram conquistar já por três vezes sem sucesso. A quebra da coesão entre Forças Armadas e Polícias Militares é só um passo dos propósitos que eles pretendem. Agora, com o impasse que está ocorrendo no Espírito Santo, parece que esse objetivo dos canalhas está sendo alcançado. O efetivo das Forças Armadas para lá deslocado não é suficiente para efetuar o policiamento. Se alguma medida for adotada contra as mulheres que bloqueiam os portões dos quarteis, embasará as reclamações de "covardia, excesso de violência, etc", podendo desandar para enfrentamento entre os Policiais amotinados e os militares das Forças Armadas. Se nada for feito, haverá o desgaste da tropa federal - já houve uma morte e espera-se a gritaria - e, em breve, a acusação de incompetência.
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sábado, 4 de fevereiro de 2017

A Nação e Seus Militares

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Nas reformas em curso, faz-se necessário não desfigurar a essência de nossas Forças Armadas
Imagem do Facebook
por Eduardo Dias da Costa Villa Bôas *
A sociedade brasileira já percebeu a necessidade de uma bem estudada reestruturação econômica em nosso país. Para tal esforço a equipe técnica do governo especificou medidas imprescindíveis para equilibrar as contas públicas. 
Contudo, do que se pode concluir da “guerra de versões”, alimentada ao sabor de vários interesses, se aquelas ações não forem calibradas e justas, os resultados serão desastrosos para as nossas Forças Armadas. Parcela significativa da população – e até mesmo dos formadores de opinião – desconhece tanto o funcionamento dos regimes de Previdência quanto os principais aspectos discutidos na reforma ora em gestação.
Acende-se o alerta de que é impositiva uma acurada atenção da parte dos mentores das mudanças para evitar que, na ânsia de proceder à correção de rumos e à supressão de “privilégios”, cometam injustiças, por ignorarem as peculiaridades espartanas da profissão militar, que possam vir a descaracterizar ou até mesmo tornar inviáveis a Marinha, o Exército e a Aeronáutica.
As Forças Armadas são instituições permanentes de Estado, que exigem dos seus quadros requisitos que extrapolam meras relações trabalhistas entre empregador e empregado e caracterizam a essência da profissão militar: servir à Nação, sem nenhuma contestação. Essa relação da sociedade com os seus militares é uma espécie de “contrato social”, no qual fica acordado que as restrições de direitos – às quais aderem os militares – são recompensadas com a devida proteção social que lhes confere a Nação.
Importante destacar que, nas discussões que tomam conta do País, os militares não se utilizam das peculiaridades da carreira para “ameaçar” a sociedade e assim obter tratamento temperado por “regalias”. 
Nas distantes fronteiras do País, encontramos os militares. Na pacificação das comunidades no Rio de Janeiro, ali estão os militares.
Na guarda das urnas eleitorais, eis os militares. Nas ações governamentais de defesa civil, nunca nos faltam os militares. Na distribuição de água, no Semiárido nordestino, e no combate ao mosquito Aedes aegypti nos deparamos com os militares. Na segurança dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, ali estavam os militares. No apoio à população do Haiti, lá nos representam nossos militares.
Sentimos muito orgulho de atuar sob quaisquer circunstâncias. É missão, estamos prontos! Tem sido cada vez mais frequente o clamor da sociedade por seus militares, por sua capacidade de pronta resposta, pela disciplina e pelo espírito de cumprimento do dever.
A dedicação integral e exclusiva ao serviço impede-nos de exercer qualquer outra atividade profissional. Se comparados com outras carreiras típicas do Estado brasileiro, é fácil notar que dependemos, há tempo, de soldos incompatíveis com o que o dever nos exige em termos de dedicação e de responsabilidade.
Pouco conhecido do público é o fato de que, ao final da carreira de 30 anos, quando transferido para a inatividade, as horas trabalhadas pelo militar equivalem a 45 anos, se comparadas às de um trabalhador civil. Isso se deve à realização de atividades de adestramento e operações continuadas, além dos serviços de escala de 24 horas, seguidas de expediente no dia posterior, inclusive em fins de semana e feriados, tudo isso sem os conhecidos direitos sociais e trabalhistas legalmente concedidos aos trabalhadores das outras classes, tais como o adicional de periculosidade, o FGTS e as horas extras.
Ressalta-se que o militar não pleiteia esses direitos, pois são incompatíveis com as exigências legais da “carreira das Armas”. O mais importante é cumprir o juramento do soldado perante a Bandeira Nacional: “Dedicar-se integralmente ao serviço da Pátria e defendê-la com o sacrifício da própria vida” – por esse compromisso não há preço a pagar. 
No entanto, é mister perguntar: a sociedade aceitaria que um militar não se apresentasse para uma missão sob a alegação de que “está na folga”, após o serviço? A sociedade estaria disposta a “pagar horas extras” pelo emprego continuado, nas missões de garantia da lei e da ordem? Logo, é impróprio entender como “privilégio” o que, na verdade, é um cerceamento de direitos e uma imposição de deveres.
Os militares já contribuíram, pesadamente, para o esforço de redução de custos do Estado. Em 2001 foi realizada ampla “reforma” no sistema de proteção social dos militares das Forças Armadas. Naquela ocasião, vários direitos foram suprimidos, tais como o adicional de tempo de serviço, as licenças especiais e a pensão para as filhas.
Essa discussão deve ser mais aprofundada e não se restringir a uma questão numérica de simples redução de custos. Ela deve incluir, como questionamento, o que a sociedade deseja de seus cidadãos fardados: profissionais militares, com prontidão, motivação e dedicação exclusiva, ou milícias, cuja disponibilidade permanente à Nação ficaria limitada por direitos individuais regidos por legislação trabalhista ou conchavos espúrios?
Os argumentos apresentados ao longo deste artigo podem parecer ideias exclusivas do estamento militar. Não é verdade! Em recente trabalho realizado pela Fundação Getúlio Vargas – e não se pode duvidar do reconhecimento acadêmico e da isenção dessa instituição – ficam claras as especificidades da nossa carreira e as razões para que não se mesclem argumentos de ordem econômica com a defesa da sociedade brasileira, à qual servimos.
Neste momento crucial, em que a Nação busca mares calmos e bons ventos que a levem a porto seguro, faz-se necessário que o Estado e a sociedade procedam à urgente e inadiável equalização das contas públicas e, simultaneamente, ponderem acerca de não desfigurar a essência das nossas Forças Armadas e de não ferir de morte a alma de seus militares, o que – livre-nos Deus – seria inaceitável.
* Comandante do Exército Brasileiro

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O "Fogo Amigo" das FARC

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O choque entre grupos inseridos no desarme e as dissidências revelam problemas graves: o atraso na concentração de Frentes prejudica, o cessar fogo é violado e a droga atrai mais desertores.
Enquanto que em San Vicente de Caguán, Caquetá, eram recolhidas provas para esclarecer os detalhes de um combate entre um grupo protegido pelo processo de abandono de armas pelas FARC e uma facção dissidente, o Ministro da Defesa, Luis Carlos Villegas, confirmava a apreensão de meia tonelada de cocaína em Tumaco, Nariño, de um outro grupo que se declarou fora dos acordos. Deve ser salientado que as FARC eram carcomidas há tempos por um câncer bem conhecido: o narcotráfico.
Da descrição derivam duas situações concretas: essa guerrilha, ainda que tenha interesse em reinserir-se à vida civil, ainda dá tiros. E seus desertores começam a montar uma nova ameaça, tanto para a segurança do país, como para o próprio processo de paz.
São noticiadas mais dissidências em Guaviare, Meta, Vichada, Guainía, Chocó e Antioquía, em áreas específicas permeadas pelos cultivos ilícitos e a economia mafiosa das drogas, onde abundam corrupção, violência, recrutamentos, justiça pelas próprias mãos, armas e desterrados, entre outros fenômenos.
Analistas consultados por este diário contemplam em seus cenários e hipóteses que os desertores do processo chegariam até 40% dos efetivos da guerrilha. Ou seja, de oito mil homens em armas, cerca de três mil "ex guerrilheiros das FARC" poderiam buscar outras estruturas criminais existentes, ou formar novas.
Nos últimos trinta anos, desde 1987 até hoje, entre o romantismo revolucionário, a pretendida austeridade marxista e a disciplina militar por um lado; e por outro a ambição de financiar e crescer um exército - com "impostos" ao circuito de produção cocaleira - parece que no jogo dentro da subversão ganharam grande força os vícios da ilegalidade e do lumpemproletariado. Por isso, os especialistas temem que se tratará de uma dissidência "muito mais degradada, interessada unicamente" em atividades próprias das economias ilegais.
E advertem que, na prática, quanto mais se atrase o cronograma de instalação e funcionamento das zonas de concentração veredais, com seus dispositivos de verificação internacional e de segurança estatal, se amplia o risco de que mais guerrilheiros em trânsito à civilidade desistam e se somem aos aparatos armados do narcotráfico e, inclusive, à delinquência comum, rural e urbana.
Nessa perspectiva, são requeridos a estratégia e o tratamento concebidos para as dissidências das FARC - que devem ser de duro combate militar-policial e ação jurídico-punitiva - e o controle estrito das Frentes pre-agrupadas, para que cumpram o cessar fogo definitivo.
Há um mal estar cidadão compreensível e críticas argumentadas dos opositores, porque no Acordo Final se consignou que as FARC não executariam "atos de violência ou qualquer ameaça que ponha em risco a vida e integridade pessoal" da população civil.
O tiroteio na localidade Noiva Celestial, em Caguán, alerta para que os vigilantes da força pública e os observadores da ONU cumpram seu papel, tanto em impedir ataques armados, como em apontar responsáveis.
Concordamos com o comunicado das Forças Militares: ainda que fosse em resposta à hostilidade de uma esquadra dissidente, as FARC violaram o que foi pactuado ao disparar outra vez. A perseguição dos delinquentes e a luta contra grupos ilegais são obrigação e tarefa exclusiva do Estado, mediante sua Força Pública. As FARC o sabem e devem acata-lo sem reparos ou desculpas.
Fonte:  tradução livre de 
Editorial de El Colombiano
COMENTO:  ainda estou almejando pelo sucesso desse tal "pacto de paz" enfiado goela abaixo da população colombiana - igual ao plebiscito do desarmamento brasileiro, imposto de forma oposta ao que foi decidido na votação - pelo seu presidente Juan Santos. Aos desatentos, houve um escrutinio sobre o tal tratado de paz, que foi rejeitado pelos votantes, mas foi "aprovado", posteriormente, pelo Congresso colombiano. Como era de se esperar, os narcoguerrilheiros usaram a "boa vontade" demonstrada pelo dirigente colombiano para tentar fazer lá o que os canalhas da "luta armada" brasileira fizeram: inserir-se na sociedade, difundir a imagem de bons cidadãos e assumir o poder com a complacência da população, além de se locupletarem às custas das burras e se vingarem de seus vencedores, transformando-os em delinquentes via Comissão da Calúnia. Essa intenção dos narcobandoleiros já foi demonstrada aqui, aqui, e aqui.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Os Militares e o Sistema de Previdência

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Documento muito esclarecedor.
Creio que o Ministério da Defesa devia envia-lo aos meios de comunicação, para que cessem as mentirosas "entrevistas com especialistas" e análises de "assessores do governo" (também mentirosas) sobre o assunto. 


domingo, 8 de janeiro de 2017

Fidel "Paredón" Castro

por Ives Gandra da Silva Martins 
Passada a emoção da morte do mais sanguinário ditador das Américas, que provocou as mais variadas manifestações de tristeza dos decadentes movimentos da esquerda mundial, mister se faz uma análise fria sobre os anos de chumbo em que vivia e vive o povo cubano, os quais se vêm prolongando desde fins da década de 1950, quando Fidel Castro assumiu o poder na infeliz ilha caribenha.
O primeiro ponto a destacar é a falta de respeito aos direitos humanos. Brutalmente, foram fuzilados, ao estilo da era do Terror da Revolução Francesa, sem julgamento nem direito de defesa, milhares de cubanos, nos famosos paredóns. De 1792 a 1794, quando Robespierre assumiu o controle do governo francês, dezenas de milhares de pessoas foram guilhotinadas, condenadas por tribunais populares. Fidel substituiu as guilhotinas pelos paredóns e fuzilamentos em massa.
Naquela época, nos meus primeiros anos de advocacia, em que era ainda popular tomar a bebida denominada Cuba Libre, era hábito pedir nos bares “Cuba sem Fidel”, pois a ditadura lá se instalou desde os primeiros momentos.
Igor Gielow, comparando diversos arquivos de várias instituições e adotando o considerado mais conservador, apresenta 7.326 mortos ou desaparecidos nas prisões cubanas (quase 6 mil fuzilados em paredóns), não se incluindo nesse número os afogados nas tentativas de fuga da ilha, ou seja, 65 mortos por grupos de 100 mil habitantes. Pelos mesmos critérios, o Chile assassinou, sob Pinochet, 23,2 para cada 100 mil habitantes; o Paraguai, sob Stroessner, 10,4; o Uruguai, 7,6; a Argentina, 30,9, no regime militar; a Bolívia, 6,2; e o Brasil, 0,3. É de lembrar que no período militar brasileiro foram mencionados pela Comissão da Verdade 434 mortos ou desaparecidos, negando-se aquela comissão a apurar as 129 mortes provocadas pelos guerrilheiros, algumas em atentados terroristas em logradouros públicos. Por isso foi alcunhada de “Comissão da Meia Verdade”. É certo que, sob o domínio de Raúl Castro, a letalidade do governo cubano caiu, havendo registro de 264 vítimas de 2006 para cá (Folha de S.Paulo).
O segundo aspecto a ser estudado é o da liberdade. Em artigo que publiquei, O Neoescravagismo Cubano (Folha, 17/2/2014), observei que, após ler o contrato dos médicos cubanos com o governo brasileiro, nele encontrei cláusulas de proibição de receberem no Brasil qualquer visita, mesmo de parentes, sem que houvesse antes autorização de autoridades cubanas. Eles também ficavam com apenas um quarto do salário e transferiam para o governo fidelista três quartos. Mantinha a ditadura, por garantia, seus familiares em Cuba, como reféns, para que voltassem à ilha, eliminando assim o eventual desejo de pedirem asilo às autoridades brasileiras. Talvez nenhum símbolo seja tão atentatório à dignidade da pessoa humana como os termos desse contrato, aceito pelo governo da presidente Dilma Rousseff sem discussão. Não sem razão, o ex-presidente Lula disse ter perdido, com a morte de Fidel, “um irmão mais velho”; José Dirceu declarou, no passado, “ser mais cubano que brasileiro”; e Marco Aurélio Garcia chegou a afirmar que havia “mais democracia em Cuba que nos Estados Unidos”, num de seus costumeiros arroubos.
Quanto à economia, conseguiram os Castros levar sua população à miséria, com salários inferiores à Bolsa Família para a esmagadora maioria dela, independentemente da qualificação profissional. No momento em que ruiu o império soviético e a ilha deixou de ser mantida economicamente pela Rússia, assim como quando desmoronou a equivocada economia Venezuelana, com a perda de apoio do regime chavista – talvez Hugo Chávez ainda estivesse vivo se tivesse ido se tratar em hospitais americanos, e não cubanos –, a economia do país, sem tecnologia, indústria de ponta e investimentos de expressão, viu-se e vê-se sem horizontes, implorando aos americanos apoio para sobreviver, num mundo cada vez mais competitivo.
Politicamente, em lugar de adotarem o modelo chinês, de uma esquerda política e uma direita econômica, o que permitiu à China pular de uma economia com PIB inferior ao do Brasil no início dos anos 1990 para a segunda economia do mundo 20 e poucos anos depois, continuaram, num estilo menos estridente que o do tiranete Nicolás Maduro, a defender o fracasso comprovado, em todos os espaços geográficos e períodos históricos, das teses marxistas, com o que o futuro da ilha está dependendo ou da abertura democrática ou do auxílio externo, pouco provável no mundo em que vivemos.
Fidel Castro instalou a mais longeva ditadura das Américas, só possível por ser pequena a população de seu país e rígido o controle das pessoas, sem liberdade para pensar algo diferente do que pensam as classes dominantes. E os saudosistas brasileiros de uma esquerda mergulhada no maior escândalo de corrupção da História do mundo lamentaram a perda do ditador, cujo irmão, no poder, vê seu mais forte aliado, o incompetente Maduro, verdadeiro exterminador do futuro imediato da Venezuela, mantendo-se à frente de seu governo graças às decisões de um Poder Judiciário escolhido por um Parlamento derrotado, às vésperas de ser substituído, e que se tornou capacho do Executivo.
Friamente examinando o período de domínio do tirano insular, há de se convir que sua figura, para os historiadores que virão, será a de líder cruel e sanguinário, cujo carisma oratório empolgou, todavia, toda uma geração de jovens, a qual acreditou que a melhor forma de combater as injustiças sociais não seria criar empregos e progresso, mas apropriar-se dos bens alheios, mesmo à custa da violência e da destruição dos valores democráticos. Felizmente, essa ilusão começa a ser desfeita, em todos os continentes, pois as ideologias, corruptelas das ideias, não produzem desenvolvimento, mas apenas decepção e sofrimento.
(Publicado originalmente no Estadão
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quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Odebrecht e a Zona de Conforto

Editorial
Foram escutados os alarmas vindos do Brasil, mas na Colômbia ninguém parecia se dar conta. 
Temos leis anticorrupção, mas os controles seguem sendo inúteis. 
A Justiça está em dívida.
A empresa brasileira de construções Odebrecht e seus altos executivos vem sendo objeto de investigação há meses em seu país de origem, em um macro-processo judicial no qual se viram envolvidos políticos e governantes de muitos partidos. Entre eles, o ex presidente e antigo líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, acusado no último dia 15 de dezembro pelo Ministério Público Federal de haver realizado nomeações na Petrobrás, visando facilitar o recebimento de subornos da Odebrecht para que esta tivesse acesso a vultosos contratos.
O principal executivo da empreiteira, Marcelo Odebrecht, já foi condenado pela Justiça do Brasil a 19 anos de prisão por corrupção, em 8 de março do corrente ano. Começou a ser processado em 2015.
Há mais de um ano, então, se sabia que essa construtora, adjudicatária de grandes contratos de obras públicas na Colômbia, exercia práticas de corrupção. Em junho do ano passado, o Ministério dos Transportes da Colômbia afirmou que se inteirou dessas investigações pelos meios de comunicação, e que por respeito ao princípio de presunção de inocência e boa fé, devia esperar o resultado final das atuações judiciais para poder determinar quais medidas adotar.
Como as evidências derivadas da investigação no Brasil eram cada vez mais concludentes sobre subornos pagos além fronteiras, em 8 de março deste ano o mesmo Ministério emitiu o comunicado mais etéreo e burocraticamente inútil que se podia esperar, onde disse que "avaliaria a informação" para ver se a enviaria à Super Sociedades. Não mencionou a Fiscalia (equivalente ao Ministério Público brasileiro).
O que se vem sabendo não são só irregularidades, mas o cometimento de delitos transnacionais por parte da empresa (confessados ante autoridades norte-americanas, com pagamento de multas nos Estados Unidos e na Suíça).
Apenas agora a justiça colombiana começará diligências para determinar o alcance dos subornos pagos a funcionários colombianos. Para além do aspecto legal do assunto, ele deu margem a uma controvérsia política entre o governo atual e o anterior, onde ambos se mostram muito mal: tanto o anterior quanto o atual parecem limitar-se na enunciar as leis anti-corrupção aprovadas, as comissões de notáveis constituidas e as qualidades "incorruptíveis" de seus funcionários, antes de mostrar alguma eficácia de seus controles internos para evitar as propinas.
A mais recente pesquisa Gallup Poll mostra que a corrupção é considerada o pior problema do país por parte dos colombianos. Transparência Internacional coloca o país em 83º lugar entre os 138 menos transparentes. Já a presidente da Sociedade Colombiana de Engenheiros, Diana Espinosa, denunciou que o compromisso oficial para atacar a corrupção nas contratações estatais é muito baixo.
O escândalo Odebrecht na Colômbia latejava em muitos círculos, mas somente a confissão de seus diretores nos Estados Unidos parece ter impulsado ações por aqui, não obstante que esta época do ano é muito propícia para esquecimentos.  Sem dúvidas, deveria ser ativada uma verdadeira demanda cidadã pela verdade e a exigência de responsabilidades penais e políticas. 
Se sabe que o discurso dominante na política e nos governos é o de que a corrupção grave é sempre a dos outros, nunca a das próprias equipes. Somente uma justiça transparente e imparcial e uma opinião pública vigilante poderão mudar o curso dessa zona de conforto dos corruptos.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO:  acredito que quando a Polícia Federal iniciou a investigação de lavagem de dinheiro a que denominaram "Operação Lava-Jato", ninguém imaginava que estavam puxando o fio de uma tenebrosa teia criminosa com ramificações internacionais. Pobre imagem internacional do Brasil!
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sábado, 17 de dezembro de 2016

A Mentira Como Notícia

por David Santos Gómez
Este 2016, que passará à historia como um ano estranho, convulso e incompreensível - exemplo de esperanças e ao mesmo tempo janela para os maiores terrores -, também nos ensinou o quanto é fácil mentir a granel.
E não me refiro às frases que desviam a verdade e se acomodam aos discursos políticos do momento. Não. Isso tem ocorrido sempre. Trato de usar a mentira como centro das arengas populistas que pretendem direcionar a uma cidadania desiludida, desconfiada e temerosa. Porque tudo conduz à formação do medo como caminho para a tomada do poder.
Medo do outro. Medo das instituições. Medo do governo e até mesmo da democracia. O medo absoluto para que um sujeito (homem como Donald Trump, ou mulher, como Marine Le Pen) receba o encargo de fazer o que tenha que fazer para devolver a tranquilidade.
Nunca antes as mentiras foram verdades absolutas como agora porque são muito poucos os que se atrevem a questiona-las. É a preguiça intelectual. O afã de repetir o visto ou escutado como palavra de Deus. Sem confirmar fontes. O ritual tão contemporâneo de falar de tudo quando nada se sabe.
E isto tem consequências porque não são proclamas etéreas ou correntes de "chats" imaginárias que passam de grupo em grupo até tornarem-se tema de conversação de almoços e caírem no esquecimento. Tratam-se de falsidades que trazem implicações sociais, que geram comportamentos discriminatórios e, em alguns casos, podem até causar a morte dos implicados.
Foi o que se passou nesta semana em Washington. Nos agitados meses da passada campanha presidencial norte-americana, circulou a falsa notícia de que Hillary Clinton e seu chefe de campanha, John Podesta, dirigiam um centro de tráfico de crianças como escravas sexuais em uma pizzaria da cidade. Correu nas redes sociais a "hashtag" #PizzaGate até que Edgar Welch, um homem indignado, decidiu armar-se, entrar no restaurante e acabar à bala com o que considerava uma aberração democrata. Tudo era falso, exceto as balas que saíram de seu fuzil de assalto. Portava, também, um revólver, uma escopeta e um punhal. Estava decidido a matar e morrer.
Felizmente, o que poderia ser um massacre alimentado pela falsidade midiática finalizou sem feridos e com Edgar Welch atrás das grades. Talvez as próximas loucuras não terminem com um balanço tão bom.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: a irresponsabilidade de pessoas com acesso a meios de divulgação - de jornalistas vendidos que propagam o que seus compradores determinam a idiotas úteis que divulgam estultices que não resistem a alguns segundos de reflexão, passando por equipes de militantes encarregados de difundir as "verdades partidárias" no mundo virtual - conseguiu avacalhar até com boas ideias como a do Facebook. As redes sociais, invadidas por esses sem-escrúpulos, atualmente, já não servem para informar, mas só para confundir os menos atentos, mesmo que as intenções não sejam desonestas. Um bom e recente exemplo foi o noticiário sobre a tragédia que vitimou a equipe de futebol do Chapecoense.
Logo após a certificação de que houve sobreviventes, particularmente os dois profissionais de transporte aéreo, alguém achou que poderia usar o fato com o bom objetivo de propagar os sempre úteis e ignorados "protocolos de segurança" em caso de acidentes aéreos. Assim, surgiu o boato de que um dos comissários de voo havia se salvado por ter adotado a "posição fetal", com uma mala entre os joelhos, ao perceber a proximidade do acidente ante o pavor dos demais ocupantes do avião. A versão foi repetida por diversos meios.
Posteriormente, o mesmo jornal que difundiu a versão do "protocolo de segurança" publicou outra versão, supostamente dada pelo mesmo tripulante, afirmando que ninguém havia se apercebido da iminência da tragédia, nem mesmo ele
Este foi só um exemplo das mentiras que nos são empurradas goela abaixo, todos os dias, pela "grande imprensa". São inverdades ou meias verdades forjadas, algumas vezes de acordo com pesquisas prévias, para angariar audiência (fofocas sobre as ditas "celebridades" - artistas, atletas, ou "socialites", porque não dizer "garotas de programa" glamourizadas -, que na realidade não tem importância alguma são o exemplo mais fácil de ser verificado) ou "formar opinião" de acordo com os interesses das empresas, interesses esses, nem sempre virtuosos. Interesses econômicos, certamente, negociados com anunciantes, políticos, etc, em troca de algum benefício. Nem vou abordar, neste texto, o enorme destaque que é dado ao futebol e seus figurantes, como se o "esporte bretão" tivesse alguma importância,
E o pior é que, apesar dos inúmeros "códigos de ética", profissionais e das empresas, raramente se encontra um "erramos" ou "pedido de desculpas" feito pelos mentirosos. Afinal, neste mundo onde somos soterrados a cada minuto por uma avalanche de dados, verdadeiros ou mentirosos, nossa pobre memória se torna incapaz de fazer a devida diferenciação entre o relevante e o insignificante. E uma mentira a mais, uma mentira a menos, não nos faz diferença.
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