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quarta-feira, 3 de abril de 2024

O Desgaste Militar

por Rodrigo Constantino 
Já escrevi textos sobre o contexto de 1964, mostrando que havia o clima da Guerra Fria, que os verdadeiros golpistas eram os comunistas, treinados em Cuba e financiados por Moscou. O próprio Fernando Gabeira já admitiu que a esquerda não lutava por democracia alguma naquela época, e alguns confessavam que o “golpe” viria de um dos dois lados.
Imagem da Internet
Os nossos militares impediram o golpe comunista, eis a realidade que a Globo tenta apagar hoje, mas que seu fundador Roberto Marinho conhecia bem na ocasião.
É sumamente melancólico — porém não irrealista — admitir-se que no albor dos anos 60 este grande país não tinha senão duas miseráveis opções: ‘anos de chumbo’ ou ‘rios de sangue’, disse Roberto Campos. A chamada “crise da legalidade” foi deflagrada com a renúncia de Jânio Quadros, quando os ministros da Guerra, da Marinha e da Aeronáutica não aceitaram a posse do vice-presidente João Goulart, herdeiro político do ditador populista Getúlio Vargas e acusado de ligações com os comunistas. O país estava em sério risco de viver uma guerra civil.
Diante da estação da Central do Brasil, mais de cem mil manifestantes gritavam por mudanças, com faixas como “Reconhecimento da China Popular”, “PCB – Teus Direitos São Sagrados”, “Abaixo com as Companhias Estrangeiras”, “Trabalhadores Querem Armas para Defender o Seu Governo” e “Jango – Defenderemos as Reformas a Bala”. A classe média teve uma reação em cadeia contra essa radicalização estimulada pelo próprio governo.
Leonel Brizola, cunhado de Jango, defendeu a substituição do Congresso por uma Constituinte repleta de trabalhadores camponeses, sargentos e oficiais nacionalistas. Goulart assinou um decreto, em 1964, desapropriando todas as terras num raio de dez quilômetros dos eixos das rodovias e ferrovias federais para sua reforma agrária, assim como encampou as refinarias de petróleo privadas, em outro decreto. Foi anunciado o tabelamento dos aluguéis.
O governo estava em crise, apelando para a intimidação, enquanto a economia afundava. A inflação fora de 50% em 1962 para 75% no ano seguinte. Os primeiros meses de 1964 projetavam uma taxa anual de 140%, a maior do século. A economia registrava uma contração na renda per capita pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial. As greves duplicaram entre 1962 e 1963. O governo irresponsável acumulara um déficit equivalente a mais de um terço do total das despesas. Jango nomeou o almirante Paulo Mário da Cunha Rodrigues, próximo ao Partido Comunista.
O Congresso mostrava-se disposto a bloquear os projetos de reforma. Luiz Carlos Prestes, ligado ao Partido Comunista, chegou a defender a dissolução do Congresso. Um golpe, de um dos lados, parecia iminente e inevitável. Tancredo chegou a prever que os passos de Jango levariam a uma luta armada. O governador pernambucano esquerdista, Miguel Arraes, declarou estar certo de um golpe, “de lá ou de cá”. Brizola repetia que “se não dermos o golpe, eles o darão contra nós”. Jango, na China, discursava sobre o socialismo no Brasil. A famosa Revolta dos Marinheiros foi como uma gota no copo d’água lotado. Ocorreu uma quebra de hierarquia militar. O cabo Anselmo liderou a revolta, que resultou na demissão do ministro da Marinha, almirante Sílvio Mota, por tentar reprimi-lo.
Era tempo de Guerra Fria, o eixo da luta entre capitalistas e comunistas tinha se deslocado para a América Central, e os ditadores da União Soviética estavam investindo pesado no continente, enviando bilhões de dólares e agentes da KGB para diversos países. Em 1962 ocorreu a crise dos mísseis nucleares, que os russos instalaram clandestinamente no território cubano. Quase foi deflagrada uma guerra nuclear pela tentativa de avanço imperialista dos soviéticos comunistas.
O perigo do comunismo era real para todos os países, incluindo o Brasil. Diversas nações caíram nas garras comunistas nesse período, entrando em ditaduras duradouras e caóticas, enquanto outras acabaram partindo para regimes autoritários de direita, tentando travar os avanços comunistas. E era esse regime, responsável pela morte de cerca de cem milhões de pessoas no mundo todo, que as “vítimas” da ditadura queriam implantar no Brasil à força.
Eis o contexto do “golpe” de 1964 pelos militares, que, na verdade, foi mais um contragolpe. O general Humberto de Alencar Castello Branco era chefe do Estado-Maior do Exército, e fora um respeitado chefe da seção de operações da Força Expedicionária Brasileira. Não cabe, aqui, analisar o regime militar como um todo, que teve vários acertos e inúmeros erros. Tampouco é foco deste artigo um julgamento das duas décadas de positivismo sob os militares, ou se a redemocratização levou tempo demais. Roberto Campos reconheceu que “o erro dos militares foi não terem feito a abertura econômica antes da política; o erro dos civis foi, depois da abertura política, praticarem uma fechadura econômica”.
O intuito do texto é fornecer ao leitor o clima de 1964, para demonstrar que não houve um golpe do nada por parte de militares ambiciosos e sedentos pelo poder, mas sim uma reação ao avanço comunista. Após a reação dos militares, com forte apoio popular na época, que culminou no “golpe” de 64, os comunistas intensificaram alguns ataques. Como os primeiros anos não foram na “linha dura”, os radicais de esquerda perpetraram ações que incluíram assassinatos e sequestros, como o do embaixador americano, o que acabou provocando o agravamento brutal da repressão, que chegou a partir do Ato Institucional nº 5.
Antes da assinatura do AI-5, já estavam no currículo desses terroristas o assassinato de pessoas como o Major do Exército da então Alemanha Ocidental, Edward Von Westernhagen, no primeiro dia de julho de 1968, e do Capitão do Exército norte-americano Charles Rodney Chandler, em São Paulo, no dia 12 de outubro de 1968.
Um dos grupos que defendia essa guinada violenta era o Agrupamento Revolucionário de São Paulo, inspirada em Carlos Marighela, que havia redigido o “Manual do Guerrilheiro Urbano”. Em 21 de junho de 1968, na chamada “Sexta-feira Sangrenta”, ocorreu um confronto ininterrupto que resultaria em centenas de feridos, 23 pessoas baleadas e quatro mortos, incluindo um soldado da PM atingido por um tijolo. Tentaram arrombar também as portas da agência do Citibank, símbolo do “imperialismo ianque”, e jogaram vários coquetéis Molotov na sede do jornal O Estado de São Paulo. O AI-5 foi assinado apenas em 13 de dezembro de 1968, como resposta aos crimes bárbaros cometidos pelos comunistas.
Roberto Campos concluiu: “Comparados ao carniceiro profissional do Caribe, os militares brasileiros parecem escoteiros destreinados apartando um conflito de subúrbio”. Não obstante, a esquerda teve o caminho da cultura livre para ser totalmente aparelhado, e os pupilos de Fidel Castro assumiram um papel quase hegemônico nessa área. Dominando a academia, a cultura pop e a imprensa, a esquerda derrotada no campo político venceu no campo cultural. E conseguiu bancar a vítima, demonizar os militares e posar de democrata, enquanto defendia o comunismo assassino.
Aceleramos décadas no tempo e chegamos, então, à vitória de Lula em 2002, na quarta tentativa e com a embalagem criada por Duda Mendonça. O Lulinha Paz e Amor ludibriou parte da elite, enquanto seu braço-direito, José Dirceu, treinado em Cuba com o codinome Daniel, agia nos bastidores. O mensalão e o petrolão foram os maiores esquemas de corrupção já criados no país, com o claro intuito de alimentar um projeto totalitário de poder do PT. A coisa desandou quando a economia degringolou de vez e Dilma sofreu impeachment.
Lula acabou preso, mas os comunistas não desistem facilmente. Dirceu cantou a pedra: “Vamos tomar o poder, o que é diferente de ganhar eleições”. Quando alguém como Bolsonaro se tornou presidente, o sistema podre e carcomido entrou em pânico, e o petismo viu aí sua oportunidade. Numa aliança instável e oportunista, tucanos globalistas e petistas comunistas se uniram para eliminar a direita democrática. O aparelhamento de instituições, em especial o STF, foi crucial para o plano. Resumo a história pois ela é recente, e confio na memória do leitor.
Com malabarismos supremos, Lula foi solto e ficou elegível, enquanto Bolsonaro foi perseguido de forma implacável. Dirceu e sua gangue aprenderam lições importantes com o fracasso anterior: a velha imprensa precisava ser comprada, e as Forças Armadas deveriam ser domesticadas. No caso da mídia foi mais fácil: há muita pena de aluguel nas redações, além de simpatia natural pelo esquerdismo após décadas de doutrinação ideológica nas faculdades. Já com os militares o buraco é mais embaixo...
Os patriotas sérios deveriam ser caçados, e como muitos estavam ao lado de Bolsonaro, o pretexto era óbvio: são todos golpistas! General Heleno, Mauro Cid e até Villas Boas acabaram sendo alvos de ações do sistema e da imprensa para neutralizá-los. Por outro lado, uma cúpula de “generais melancias” — verdes por fora, vermelhos por dentro — foi cooptada em troca de cargos e poder. A base, certamente patriota, observa a tudo com uma mistura de revolta e decepção.
O desgaste militar faz parte da estratégia de Dirceu. O povo, que apostou suas fichas novamente nas Forças Armadas para conter o golpismo comunista, ficou a ver navios — ou pior, uma parcela acabou presa de forma arbitrária pelo ministro Alexandre de Moraes, pelos “atos antidemocráticos”. Nas redes sociais, muitos agora tiram sarro dos militares, vingam-se com “memes” alegando que nossos militares só servem para pintar asfalto ou prestar continência para ditador comunista como Maduro. Mas sem os militares, quem pode impedir o projeto comunista?
É preciso, então, tirar o chapéu para o brilhantismo de Dirceu. Os comunistas tiveram de esperar décadas, mas parece que dessa vez deu certo para eles. Os militares estão desacreditados perante a sociedade, os que ousaram resistir foram perseguidos ou até presos, e o caminho parece livre para o golpe fatal dos comunistas. O que teria acontecido no Brasil se os militares não tivessem agido em 1964? Nunca é possível saber com certeza, mas acredito que agora teremos uma ideia. E não é um futuro animador para quem preza a liberdade, a democracia verdadeira e a vida humana.
Fonte: recebido por mensagem eletrônica

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Ilus Fagundes Ourique Moreira — Centenário de um Líder

Na data de hoje, se vivo fosse, estaria sendo comemorado o centenário do Coronel de Cavalaria Ilus Fagundes Ourique Moreira, nascido em 24 de novembro de 1923 e falecido em 04 de maio de 2002.
Como Tenente-Coronel, ele Comandou o então 2º RRecMec (2º Regimento de Reconhecimento Mecanizado)  de 08 Jul 1969 a 16 Jan 1972, merecendo uma referência especial quanto ao período em que esteve à frente daquela Organização Militar. Comandante exemplar, não comandou, divertiu-se por três anos fazendo o que gostava.
Era idolatrado pelos Soldados. Entre Oficiais e Sargentos havia restrições porque o expediente só encerrava quando TODAS as viaturas utilizadas nos exercícios diários estivessem limpas e recolhidas às garagens.
Seu gosto e dedicação profissional pode ser avaliado pela criação de um "redutor de tiro" para o canhão 37mm que equipava os carros de combate do Regimento. Tratava-se da adaptação de um cano de calibre .22 em uma munição inerte de 37mm. Com o artefato, que recebeu o nome de IFOM (iniciais do criador), os atiradores de canhão treinavam até mesmo no interior das garagens, em alvos colocados a pouca distância, simulando tiros reais em situações diversas.
Sobre sua mesa, no Gabinete de Comando, onde raramente era encontrado por preferir circular pela Unidade, havia uma grande foto do corpo trucidado do Tenente Alberto Mendes Júnior — Oficial da PMSP assassinado em 1970 —, para que ele jamais se esquecesse da missão que se impôs: caçar o desertor Carlos Lamarca e sua quadrilha.
Segundo um sobrinho dele, também Oficial de Cavalaria, o Coronel Ilus foi especialista em treinamentos de combate anti-guerrilha.
Certa vez, recebeu a missão de deter um sujeito acusado de terrorismo, para maiores esclarecimentos. Vestido de padre, para fazer a aproximação ao procurado, levava uma Bíblia na mão, com as páginas recortadas, de modo a caber a pistola .45 dentro. Ele se fazia de padre cego e o sobrinho o conduzia pelo braço como se fosse um sacristão, também com uma Colt sob a batina. Pegaram o sujeito sem maiores problemas.

a. A criação dos PELOPES
No começo de 1970, aproveitou a chegada, ao Regimento que comandava, de dois Aspirantes da AMAN, Ruy e Fleury, ambos Paraquedistas, um com o curso de Comandos, e o outro de Guerra na Selva; e lhes deu a missão de organizar, com seus pelotões, dois Pelotões de Operações Especiais (PelOpEs), um no Primeiro e o outro no Segundo Esquadrão.
Os PelOpEs treinavam na granja do Regimento, local hoje ocupado pelo 3ºBComEx (3º Batalhão de Comunicações do Exército), onde foi criado um pequeno local de instrução especial, com Pista de Reação composta por uma pista de cordas completa, em uma trilha com diversos tipos de obstáculos e armadilhas. Quando prontas as pistas, já em condições de iniciar as instruções, o Comandante perguntou se haviam testado tudo. Recebendo a resposta positiva, foi verificar e testar toda a pista, realizando a passagem por todos os obstáculos.

b. O treinamento diário da tropa
Era comum, antecedendo a Formatura Diária do Regimento, a saída de um ou dois Pelotões que tinham por missão instalar-se no terreno onde, mais tarde algum dos Esquadrões faria exercícios de atividades características de Cavalaria — Reconhecimento de Eixo, Área ou Zona; Segurança Interna, Ações Contraguerrilha, etc.
Um CCL M3A1 Stuart, em exercício. Imagem: Foto - coleção de Ricardo Fann
Os Comandantes de Pelotão evitavam ao máximo realizar exercícios próximos a banhados ou áreas alagadas pois, inopinadamente, o Comandante do Regimento ia verificar como estavam se desenvolvendo as atividades. E, se houvesse um banhado por perto, era certa a determinação para que um carro de combate — na época o Regimento dispunha dos Carros de Combate Leve M3A1, conhecidos como "Pererecas" — fosse encaminhado para o banhado até atolar. Daí em diante, o Comandante se divertia escalando Cabos e Soldados para desatolarem a viatura (na época, praticamente todos os militares da OM tinham conhecimentos básicos para manobrar, não só as "Pererecas", mas TODAS as viaturas operacionais do Regimento). Quando já ninguém tinha esperanças de que a viatura fosse desatolada sem o auxílio do "Brucutu" — apelido do enorme guincho existente na 2ª CiaMéMnt (2ª Companhia Média de Manutenção), então vizinha do Regimento —, o Comandante jogava fora o charuto que permanentemente fumava, entrava no barro e dirigia o M3A1 para fora do lamaçal. Contam que somente em umas duas ou três vezes foi necessário chamar o "Brucutu" para desatolar um carro de combate do Regimento.

c. A "charanga" do Regimento
Ao assumir o comando, constatou que no Regimento só havia um bumbo, um tarol e três clarins para estimular o Regimento nas formaturas. Determinou, então, que se buscassem militares da Unidade que tivessem algum conhecimento musical, para fazerem parte da banda, e obtiveram mais um Cabo e seis Soldados para reforçar a "fanfarra" da Unidade. Logo, apareceu um Cabo que tocava pistom e clarim, além de estudar música. Isso elevou o nível da pequena banda. Com vários instrumentos adquiridos, a fanfarra chegou ao total de 25 componentes, passando a participar da  Parada Diária, com o pessoal que entrava de serviço. O sucesso da fanfarra fez com que passasse a se apresentar em Colégios, Festas de Igreja, e até no Hospital Militar de Porto Alegre.

d. A recuperação "impossível" de um Carro de Combate acidentado 
As viaturas de dotação do Regimento eram, além das cerca de três dezenas de CCL M3A1 — os "tanques" com treze toneladas de peso —; os blindados de transporte de tropa (meia-lagartas e "Scout-Car"), as viaturas anfíbias e os jeeps comuns, mais os veículos administrativos.
O Comandante do Regimento se orgulhava de que, nas comemorações do Dia da Independência, todas as viaturas de sua Unidade participassem do desfile.
Os carros de combate do Regimento, eram de um modelo que fizera sucesso nos desertos no norte da África durante a II Guerra Mundial, por sua capacidade de manobra — maior velocidade e facilidade de mudança de direção —, que dificultava seu enquadramento pelos artilheiros alemães.
Tratava-se de um veículo que dava muito prazer a quem o dirigia — apesar do ruído infernal em seu interior. Na década de 1970, não havia problemas com fornecimento de combustível para os veículos e era muito comum a saída deles para fazer "testes de pista" em ambiente externo, mais como treinamento dos motoristas do que por necessidade de "verificação".
O Comandante incentivava que todos os militares da Unidade soubessem, pelo menos, manobrar todos os tipos de viaturas operacionais orgânicas.
Em meados do mês de agosto, começavam os treinos para o desfile de 7 de Setembro; e em um desfile de treinamento, um Sargento que não era oficialmente habilitado para dirigir os CCL provocou um acidente que danificou o sistema de tração da "perereca" que conduzia.
De volta ao quartel, o Sargento dirigiu-se ao Comandante para relatar o ocorrido e a resposta foi simples, concisa e precisa, ao estilo da Cavalaria: há um problema e devemos resolvê-lo em curto tempo; você é responsável pelo desfile dessa viatura no próximo 7 de setembro. A questão disciplinar, veremos no dia 8.
A mensagem foi muito bem compreendida e o Sargento iniciou a desmontagem da frente do carro de combate para verificar a extensão do dano. Trata-se de uma blindagem com espessura de cerca de duas polegadas de aço, presa por dezenas de parafusos.
Praticamente todo o efetivo da Oficina Regimental uniu-se no trabalho, para ajudar o colega que era muito estimado por todos. Aberta a frente do veículo, foi verificado o problema. As esteiras do CCL eram tracionadas por polias dianteiras e o conjunto mecânico de tração era protegido, sob a blindagem, por um bloco de antimônio.
E um dos braços desse bloco simplesmente havia trincado com a pancada sofrida. Obviamente, esse tipo de bloco não é de fácil reposição; e o antimônio é um metal de dificílima soldagem.
Felizmente, em contato com um grande empresário da cidade, este se dispôs a paralisar os trabalhos de sua empresa — Metalúrgica Gerdau — para realizar o trabalho usando o seu equipamento de usinagem com a devida assessoria técnica.
O reparo na peça ficou perfeito e, o mais importante, completamente gratuito. Novo mutirão de mão-de-obra voluntária de 24 horas diárias para recolocar o conjunto de tração e a blindagem em seu lugar.
Na manhã do dia 5 (ou 6) de setembro, o Sargento estacionou CCL recuperado em frente ao Pavilhão Administrativo do quartel — depois de realizar diversos testes no terreno — e foi apresentar-se ao Comandante.
Este o parabenizou pelo trabalho realizado e pela capacidade de gerar a enorme solidariedade entre seus companheiros, que possibilitou a realização daquele tarefa em tempo inacreditável. E o CCL desfilou com as demais viaturas no Desfile do Dia da Independência.

e. A estreia do uso da Boina Preta no Exército Brasileiro
Em 1971, o Comandante decidiu que o Regimento desfilaria usando boina preta no 7 de Setembro, seguindo a tradição mundial de diversas tropas blindadas. 
Usando recursos próprios da OM (granja, aluguel do campo de futebol, etc.) mandou medir a cabeça de todos da Unidade e confeccionar as novas coberturas de gala. Os Soldados amaram a ideia. 
Já próximo à data do Desfile da Independência, o Escalão Superior (Comando do III Exército) foi avisado da novidade e, naturalmente, vetou a iniciativa, pois boinas pretas não faziam parte dos uniformes regulamentares do EB.
O Cavalariano não se abalou e repetiu (em outro episódio, já dissera isso ao Quatro-Estrelas) que quem mandava no Regimento era ele. E o 2ºRRecMec desfilou com sua tropa orgulhosamente usando boina preta no 7 de setembro de 1971.
Diz a lenda que isso foi o último prego no caixão de sua promoção ao Generalato. Mas o editor guarda com muito carinho a foto com boina preta, sabedor de que aquele desfile da Unidade — que, depois, receberia o nome histórico de "Regimento Marechal José Pessoa"  no Dia da Independência de 1971, inaugurava o uso da peça que hoje orgulha as tropas blindadas brasileiras.

f. Treinamento em Itapuã
Ainda em 1971, o Regimento foi responsável por um treinamento antiterrorismo, sigiloso, para pessoal que não era da Unidade.
Os trabalhos foram executados na região em que atualmente existe a Reserva Ecológica de Itapuã, bem ao sul de Porto Alegre, já no município de Viamão. Foi escalada uma equipe para estabelecer a segurança da área de instrução, particularmente na trilha que dava acesso à Praia de Fora, local das instruções. Era uma tarefa sigilosa. Nada do que ocorreu foi relatado no quartel, mesmo sob a pressão dos Comandantes de Esquadrão.
Na área, durante o dia, os Soldados só ouviam os ruídos. Muitas explosões e tiros. Ao entardecer, os Instrutores e Instruendos retornavam à cidade e a equipe de segurança se acomodava em uma das barracas militares. Em outras, ficava o material: alvos diversos, armas diferentes das que eram usualmente usadas, e os cunhetes com explosivos e munições. O próprio Comandante autorizou que a equipe instalasse alvos e treinasse atirando com os mosquetões e pistolas. Pela manhã, chegava com pacotes de cigarros de presente para a "guarda".
Alguns fatos marcaram o treino: um foi o acidente com uma espoleta, que feriu um dos Instruendos. Ele foi levado ao Pronto Socorro. O problema de explicar o ocorrido, sem revelar a operação de instrução nem a identidade do ferido, foi contornado pela explicação de que se tratava de um mendigo que circulava no acampamento militar em busca de sobras de ração militar, e havia se aproximado de um artefato que explodira. O oficial que havia levado o ferido ao hospital percebeu o olhar de espanto do médico atendente ao ver um anel de graduação do dedo do "mendigo" ferido. O médico pode ter se espantado, mas não ousou questionar o relato.
Outro incidente foi um temporal noturno cuja ventania ameaçava carregar as barracas de lona. Foi uma trabalheira enorme desmontar as barracas e transportar o material mais sujeito a dano pela umidade, para um dos caminhões que permaneciam no local, para suprir alguma necessidade de transporte de emergência. Dormir na carroceria do caminhão, sobre a carga, não foi uma tarefa fácil.
Também ficou na memória um pequeno passeio pela região, acompanhando o Comandante. Em certo momento, uma perdiz alçou seu voo barulhento, e o Tenente-Coronel Ilus, instintivamente, sacou sua pistola e abateu a ave. Completou dizendo para o Soldado Leite, um dos que o acompanhavam: "Vá buscar e não desperdice! Não é todo dia que se pode comer perdiz abatida com 45.".
Ninguém saberia dizer se foi boa pontaria ou sorte do atirador.

g. O atraso do General e a chuva
O General Comandante do então III Exército — hoje Comando Militar do Sul — agendou uma visita ao 2ºRRecMec. Selecionado o efetivo de um Esquadrão para fazer a Guarda de Honra para recepcionar a autoridade, passam alguns dias de treinamento para que não houvesse nenhum contratempo.
Na data aprazada, 07:30 horas, a Guarda de Honra forma ao longo da Av Orleans para receber o Comandante das tropas do Exército de toda a região Sul — Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul —, que deveria chegar às 08:00 horas.
Por seu porte físico, este redator foi escalado para fazer parte da Guarda da Bandeira, grupo destacado que guarnece o deslocamento de um Oficial conduzindo o Pavilhão Nacional nos desfiles.
Por volta das 08:00 horas, cai uma chuvarada e nada do General. Este chega cerca de meia hora depois. Desce da viatura oficial e empertiga-se para receber as honras militares devidas. Toque de clarim, continência coletiva, e o Comandante do Regimento faz a apresentação regulamentar da tropa: "Tenente-Coronel Ilus, apresento-vos a tropa do 2ºRRecMec em forma, pronta". Até aí, tudo bem. E continuaria bem, se o Ten Cel Ilus não tivesse acrescido um adendo à sua apresentação: 
— "se Vossa Excelência tivesse chegado no horário previsto, ou mandasse avisar que iria se atrasar, minha tropa não tomaria um banho desnecessariamente!"
Isto foi dito em alto e bom som — o pessoal da Guarda da Bandeira, em frente a qual acontecia aquilo, ficou estupefato. O General escancarou os olhos, não acreditando no que acabara de ouvir, e só conseguiu balbuciar um tímido pedido de desculpas. E a revista à tropa prosseguiu.

h. As apresentações do Cascavel e do Urutu
O Carro de Combate Sobre Rodas, precursor do EE-9-Cascavel estava, ainda, em sua fase de construção e um protótipo, com canhão 37mm, além de um exemplar do futuro Carro de Transporte de Tropa (Urutu) chegaram ao Regimento, trazido por um Coronel e equipe da Engesa (empresa fabricante). Tratava-se do irmão do Comandante do Regimento, Cel Argos Fagundes Ourique Moreira, Engenheiro Militar, depois General  cujo nome hoje é ostentado como denominação histórica pelo 8º Batalhão Logístico, de Porto Alegre e pelo Centro Tecnológico do Exército, no Rio de Janeiro, do qual foi o primeiro Chefe.
O Ten-Cel Ilus, acompanhou a visita e as demonstrações da nova viatura. Feitas as exibições previstas, no pátio de formaturas da Unidade, o Coronel convidou seu irmão para que os protótipos mostrassem seu desempenho na "pista de provas" da OM — localizada onde hoje se situa o “Parque Residencial Dr Ernesto Di Primio Beck”. Terreno limitado, grosso modo, pelas Avenidas da Serraria, Araranguá e Orleans — onde havia diversos tipos de obstáculos, que era usado na formação dos motoristas do Regimento. Posteriormente, as viaturas experimentais foram levadas até a área do Pontal das Desertas, onde hoje existe a Reserva Florestal de Itapuã, como parte de sua apresentação.
Os protótipos das novas viaturas blindadas não tiveram um desempenho considerado bom pelo Ten-Cel Ilus, que troçava o irmão mais antigo, afirmando que sempre confiaria mais nas "Pererecas" do que naquele "trambolho" sobre rodas.

i. A "fuga" dos terroristas presos
As notícias sobre os crimes cometidos por terroristas membros das diversas quadrilhas que pretendiam implantar uma ditadura comunista no Brasil eram comuns. A capital gaúcha não era tão afetada quanto os grandes centros como Rio de Janeiro e São Paulo, mas houve casos de assaltos a bancos, restaurantes de luxo, tentativa de sequestro do cônsul norte-americano e outros atos aproveitando exatamente o fato de Porto Alegre ser uma das cidades mais discretas no conjunto das capitais. Isto não era tranquilizador. Pelo contrário. Vivia-se a expectativa de que a onda de atentados fosse se afastando do centro do país e migrasse para locais mais calmos. E a tensão dessa expectativa refletia-se na instrução dos militares em geral, até mesmo dos recrutas.
O treinamento para o combate convencional era intenso, mas sempre eram inseridos ensinamentos colhidos sobre guerra irregular, de guerrilhas. As lições aprendidas na guerra do Vietnã, sobre armadilhas, ações de sabotagens e emboscadas da guerrilha eram rapidamente difundidas nos quarteis.
Ficou na memória de muitos a recomendação que um Tenente costumava fazer em suas recomendações ao pessoal da guarda, quando ele estava escalado de serviço: "se algum invasor entrar aqui e conseguir fugir, é bom que os sobreviventes da guarda fujam junto, porque os que eu encontrar, eu mato!"
Pois nesse ambiente pesado, um pequeno grupo de Aspirantes-a-Oficial Temporário se apresentou na Unidade para o Estágio prático. No mesmo dia, um deles foi "escalado" como Auxiliar do Oficial de Dia. 
As instruções do serviço começam e ele assiste o Oficial-de-Dia realizar a inspeção na cela de um dos prisioneiros que cumpria pena no quartel, não sem antes ouvir uma preleção sobre a periculosidade dos encarcerados, condenados por terrorismo. O Tenente efetua a revista pessoal no preso e em seus pertences.
E seguem para a outra cela, onde há dois presos. Eles se posicionam com as mãos na parede na posição para serem inspecionados e o Tenente manda que o Aspirante execute o procedimento que assistiu no xadrez anterior.
O inexperiente jovem começa a verificação em um dos reclusos, mas é rapidamente subjugado pelos cativos, que lhe tomam a pistola que portava e o ameaçam com ela. Os bandidos exigem que lhes entreguem um automóvel para a fuga, ameaçando matar o jovem Aspirante na frente de todos. A gritaria e a balbúrdia se instalam. A guarda não reage para não instigar a iminente execução do jovem aprisionado, que ainda tenta ser valente e grita para que não atendam os bandidos.
Toma uma pancada na cabeça com a pistola e a valentia acaba. Um sedã VW é trazido e os três embarcam. O condenado ao volante arranca rapidamente e toma o rumo da "pista de provas", área de instrução em frente ao quartel, onde "desovam" seu prisioneiro, que volta apavorado para o quartel. No Corpo da Guarda, oficiais e sargentos aguardavam e o encaminharam ao Comandante, para que explicasse como havia facilitado a fuga dos dois criminosos mais perigosos da época. Aquele terror todo durou o resto da manhã, até que revelaram ao grupo de Aspirantes que tudo não havia passado de um "trote" aplicado ao grupo.
Os dois "fugitivos" eram os Tenentes Rui e Fleury. Os outros presos, realmente condenados, já não representavam risco de fuga por já terem reconhecido seu arrependimento pelos erros cometidos e estarem em busca de diminuição de suas penas pelo bom comportamento.
Cabe destacar que, fosse em uma situação real, os presos provavelmente teriam sido fuzilados ainda no Corpo da Guarda, mesmo com o risco do Aspirante refém sofrer algum efeito colateral.

Após deixar o Comando da Unidade, o Coronel Ilus permaneceu em Porto Alegre, indo servir no QG do III Exército. Gostava de visitar o "seu" Regimento. Ia lá almoçar e participar das marchas a pé. As realizava, armado e equipado, deslocando-se à frente da tropa, com o capacete de aço debaixo do braço.
Outros fatos poderiam ser relatados, todavia devem permanecer somente na memória dos envolvidos. Nenhum deles que desmereça a memória do Cel Ilus.
Poucas vezes voltei a encontrar meu Comandante e amigo, uma delas, em 1974, no QG do III Exército, quando fui me aconselhar a respeito da promoção à graduação de Cabo, frustrada por uma decisão questionável do então Comandante da Unidade — dele ouvi uma sábia lição: o Exército, com seus Regulamentos, se é uma Instituição que beira a perfeição, mas é composto por pessoas e estas são sujeitas a falhas. O último contato que tivemos foi no final da década de 1980 quando, já Sargento, fui visitá-lo no escritório da Bernardini, em que ele, na Reserva, trabalhava; em um prédio na esquina da Av. Borges de Medeiros com a Rua dos Andradas no centro de Porto Alegre.

Um dia (04 Maio 2002), se foi esse que foi tido como profissional exemplar. Nas palavras de seu sobrinho: em solitária e pacífica morte súbita, na abençoada morte rápida, tomando banho. Morreu, fazendo da morte uma surpresa. Coisa bem típica de Cavalaria, pegando todo mundo "pelo flanco".

Alguns dias antes do seu falecimento, telefonara para o sobrinho, também Oficial de Cavalaria. Já idoso e viúvo, disse que tinha algumas armas em casa e gostava de treinar atirando com arma de pressão, dentro da própria residência, em alvos que montava no corredor do imóvel.
Um grande exemplo de militar que soube guardar e seguir as tradições do Marechal Osório.

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Revelações de um ex-Espião Cubano

Capa
por Ernesto Neto
Em recente viagem à Europa [2010], numa livraria em Toulon na França, me deparei com um livro que dificilmente será traduzido e lançado no Brasil: "El Magnífico - 20 Ans au Service Secret de Castro", de Juan Vivés, Éditions Hugo et Compagnie, lançado em agosto de 2005.
Juan Vivés, cujo nome verdadeiro era Andrès Alfaya Torrado, foi um dissidente cubano que residiu na França e durante 20 anos pertenceu ao serviço secreto de Fidel Castro. Adolescente ainda, foi para guerrilha na Serra de Escambray combater o regime de Batista e posteriormente fez parte da coluna guerrilheira de Che Guevara. Com a revolução vitoriosa, foi indicado e aceitou fazer parte do temível G2, onde, até 1979, esteve presente em quase todas as atividades de espionagem, guerrilheiras e militares em que Fidel fez o pequeno país caribenho participar. O que torna a sua figura ainda mais proeminente é o fato de ser sobrinho de Osvaldo Dorticós "presidente fantoche de Cuba até 1976" e grande amigo de Célia Sanchez que, segundo ele, juntamente com Raul eram as únicas pessoas que o patético tirano barbudo ainda ouvia.
Contracapa
São 17 capítulos que abrangem desde os motivos que levaram sua família — ricos proprietários de terras — à guerrilha contra Batista até o seu exílio na França, passando por vários outros acontecimentos contados por um ângulo que a esquerda sempre escondeu: a difícil convivência com Che, os primeiros dias depois da vitória, os fuzilamentos à revelia, o assassinato de Camilo Cienfuegos, a invasão da Baía dos Porcos, a crise dos mísseis soviéticos, as primeiras missões na África (Argélia), a morte de Che Guevara, o interrogatório dos prisioneiros americanos do Vietnã em Cuba, o assassinato de Salvador Allende por determinação de Fidel, as missões em Angola (Operação Carlota) e no Saara Espanhol, etc.
No meio de cada assunto, Juan Vivés conta casos que denotam o aspecto mau caráter de Fidel — colérico e com suas alegorias fantasiosas e megalomaníacas — e o prazer sádico que Guevara tinha pelos fuzilamentos e assassinatos: só na Fortaleza de La Cabaña ele comandou 600 sessões. O autor deixa bem claro que todos que se colocaram na frente de Fidel, ameaçando o seu prestígio como Líder Máximo da Revolução, foram misteriosamente "silenciados", sejam por inexplicáveis acidentes como o de Camilo Cienfuegos, sejam por falsas promessas de ajuda como o próprio Che, quando se encontrava na Bolívia.
Certamente os dois capítulos que mais chamam a atenção do leitor são o XI, onde o ex-espião revela um dos segredos mais bem guardados do comunismo cubano: o interrogatório de soldados americanos em Cuba durante a Guerra do Vietnã, e o XV sobre o assassinato de Allende. Por dominar o idioma inglês fluentemente, Vivés foi chamado à traduzir os interrogatórios dos prisioneiros americanos no Vietnã, devido a falta de pessoal capacitado para fazê-lo no pobre país asiático. Ele recusou a missão, afinal era sobrinho do "presidente" e amigo de Célia Sanchez; mesmo assim lhe entregaram dois textos de interrogatórios para que ele os traduzisse. No início ele tinha dúvidas se os prisioneiros estavam ou não em Cuba, mas posteriormente o seu próprio tio (o Presidente) lhe teria dito que havia prisioneiros americanos em território cubano. O que ele nunca soube foi o que fizeram com estes infelizes soldados. Provavelmente foram mortos. O assassinato de Allende por Patrício de la Guardia (seu próprio segurança e que pertencia ao serviço secreto cubano) já não é novidade depois do lançamento do livro Cuba Nostra de Alain Ammar (Ed. Plon, lançado em 2005) com o testemunho do próprio Juan Vivés. Segundo o autor, depois de financiar a campanha de Allende para as eleições chilenas de 1970, Fidel exigia uma postura mais ativa e radical do Presidente chileno em prol da revolução e das mudanças mais abruptas na sociedade. Com as dúvidas, os vacilos e os receios de Allende, que Fidel achava um fraco, não restou outra opção a Castro senão ordenar o seu assassinato. Em consonância com esta versão há dois fatos: a saída dos agentes cubanos do Palácio de La Moneda sem um arranhão sequer e o corpo de Allende não apresentar evidências de suicídio.
A intromissão de Cuba na questão do Saara Espanhol toma uma certa importância no mundo atual, já que Fidel praticamente criou e fomentou o Front Polisario (Frente Popular Para a Libertação de Saguia el Hamra e Rio do Ouro) que posteriormente se islamizou e hoje possui centenas de integrantes do grupo terrorista Al-Quaeda, fugidos da invasão americana do Afeganistão. Com isto, segundo Vivés, Fidel e Che desenvolveram os dois mais antigos grupos terroristas armados do planeta: o próprio Front Polisario/Al-Quaeda e o ETA. Este último apoiado e financiado por Fidel, ainda em Caracas, na Venezuela, logo no início da Revolução depois das relações entre Cuba e o governo espanhol se tornarem tensas.
O ex-espião ainda conta como a mídia internacional, artistas e escritores do mundo inteiro apoiaram (e apoiam!) o cruel regime castrista, disseminando mentiras a respeito do país e da revolução. Desde as falsas conquistas sociais devidas a Fidel até a glorificação das ditas vitórias épicas obtidas pelo Exército Cubano nas guerras africanas. Gabriel García Marques, por exemplo, ganhou uma mansão no bairro de Siboney em Havana, por ter escrito láureas a favor de Cuba em seu livro Operação Carlota, nome da operação militar cubana em Angola, onde o famoso escritor tenta justificar o injustificável. Segundo ele, uma das mentiras políticas mais bem remuneradas de toda a América Latina. O grande problema para estes intelectuais seria, depois da queda do regime, a devolução desses imóveis aos seus verdadeiros donos que se encontram no exílio.
Durante esta mesma operação militar em Angola é quando começa a se desenrolar a questão do tráfico de drogas envolvendo os irmãos Castro. Juan Vivés escreve que as tropas cubanas trocavam diamante e marfim (abundantes na África) pela heroína por intermédio da máfia de Hong Kong. Daí a droga era enviada a Havana em transportes militares cubanos e posteriormente era transportada para o Panamá, onde agentes cubanos da DGI negociavam com traficantes internacionais. O responsável por esta operação era o General Arnaldo Ochoa, que acabou sendo fuzilado por Fidel juntamente com outros participantes, em um processo digno da época estalinista, no intuito de limpar de todas estas implicações o seu regime. Vivés ainda menciona as relações com o tráfico de cocaína entre Raúl Castro, Daniel Ortega (da Nicarágua) e Pablo Escobar.
Lendo o livro, imaginamos como um pequeno país caribenho, certamente com o sacrifício extremo de seu povo, foi capaz de enviar tropas e missões de espionagem para várias partes do mundo. Já na metade da década de 60, o exército cubano possuía 500.000 homens, um pouco menos de 10% de sua população na época. Em sua louca aventura em Angola, em 15 anos de conflito, Fidel utilizou 300.000 homens. Fora os contingentes em outras regiões. Quantos jovens cubanos morreram, salvando a pele de russos, em nome de um regime que apenas escravizou e empobreceu o seu próprio povo?
No final de seu "avant-propos" (prefácio), Juan Vivés afirma não ser nenhum intelectual desiludido, nem um dissidente com ambições pessoais, apenas um homem sedento de liberdade que rejeita uma tirania egocêntrica fantasiada de revolução.
e      AR News

Livro de Espião Cubano Mostra Padres da Teologia da Libertação a Serviço de Fidel Castro
por Irapuan Costa Junior
Juan Vivés garante que
Raúl Castro (no
detalhe), é homossexual
Leio um livro que você, caro leitor, nunca lerá: El Magnífico - 20 Ans au Service Secret de Castro” (Éditions Hugo et Compagnie, Paris, 2005). O autor é Juan Vivés, cujo nome verdadeiro era Andrès Alfaya Torrado, casado com Annie Clavel, francesa, e que viveu em Marselha, de 1979, ano em que fugiu de Cuba para não ser morto até sua morte em 22 de fevereiro de 2014. Tive notícia deste livro por um amigo de Portugal e tentei comprá-lo em duas livrarias francesas onde o encontrei. As duas responderam que não podiam enviá-lo para o Brasil, sem maiores explicações. O gramcismo anda assim tão poderoso por aqui, a ponto de exercer essa censura toda (que, aliás, já conhecemos) e fazê-la chegar aos “companheiros” franceses? Mistério. O fato é que só consegui comprá-lo em um sebo francês.
O autor é um cubano oriundo da alta aristocracia espanhola, que se juntou à rebeldia de Fidel Castro, desempenhou algumas ações revolucionárias de repercussão (que lhe valeram, ainda durante a guerrilha, o cognome de El Magnífico, que é o título do livro), e serviu sob as ordens de Che Guevara. É um livro repetitivo em alguns aspectos: fala, com conhecimento — o autor foi testemunha — das atrocidades de Che Guevara, de sua incompetência administrativa e de como era inimigo de um bom banho. De como Fidel sempre foi uma figura performática, capaz de tirar proveito público de qualquer situação, em Cuba e no exterior. Mas traz notícias novas e fatos interessantes, a partir de como Vivés, apolítico, resolveu combater o ditador Batista e se aliar a Fidel Castro. O motivador foi, diz ele, Benvenutto Cellini (1500-1571), o célebre escultor italiano.
A família de Vivés tinha algumas obras de arte raras, trazidas da Europa, entre elas um Cristo de marfim, belíssimo, esculpido por Cellini. A mulher de Batista tentou forçar a compra da escultura, o que ofendeu o pai de Vivés, e acabou por criar uma inimizade que terminou em retaliação por parte do ditador. Entre as revelações do livro a de que o regime de Fulgencio Batista estava se decompondo quando o Granma desembarcou Fidel e seus guerrilheiros em Cuba. Isto fez com que os revolucionários conquistassem os quartéis do Exército praticamente sem combate. Os soldados, como praticamente toda a população cubana, ansiavam por mudanças. Não suportavam mais a corrupção (que desviava seus suprimentos), e os baixos soldos, enquanto os membros do governo roubavam e faziam fortuna. Não houve, ao contrário do alarde feito por Fidel, combates de verdade. A revolução foi quase um passeio.
Vivés era sobrinho de Osvaldo Dorticós, presidente cubano indicado por Fidel, que, embora figura decorativa tinha sua importância. Era também parente de Celia Sanchez, segunda figura do regime comunista da ilha, depois de Fidel. Era, segundo os íntimos do poder, a única pessoa a contrariar Fidel Castro e a discutir com ele, quando discordava. Vitoriosa a revolução, Vivés foi designado para importantes funções, sob disfarce diplomático, todas elas ligadas ao serviço secreto cubano. Delas, o autor esconde mais que mostra, e alega fazê-lo para se resguardar, pois, caso não o fizesse, já teria sido eliminado. O que o salva, diz, são documentos secretíssimos depositados em um banco suíço, e que serão publicados caso seja assassinado.
Salvador Allende pode
ter sido executado por
ordem de Fidel Castro
Entre as mais interessantes passagens dessa biografia está a de que o autor foi encarregado, em Cuba, de instruir padres da Teologia da Libertação para trabalharem pelo regime castrista, e passar segredos, obtidos por confissão de fiéis importantes, para os dossiês da inteligência cubana. Como os padres brasileiros desse grupo não saíam de Cuba, é bem provável que fossem dos mais entusiasmados fornecedores de informações para os homens de Vivés. Os figurões que se confessaram com Leonardo Boff e Frei Betto devem pôr as barbas de molho.
Outro episódio estranho contado no livro é o de soldados e pilotos americanos aprisionados na guerra do Vietnã terem sido drogados e levados para Cuba onde foram interrogados e provavelmente mortos, sem que ninguém soubesse nos EUA. Vivés conta que ele próprio, que falava inglês correntemente, traduziu depoimentos desses pobres coitados. Também a homossexualidade de Raúl Castro é abordada no livro.
Outra revelação importante é sobre a morte do chileno Salvador Allende, em 1973. Como se sabe, todo o corpo de guarda-costas de Allende era constituído de cubanos experimentados. Os principais eram os gêmeos, Patrício e Tony de La Guardia. Com a derrubada e morte de Allende, esses cubanos retornaram a Cuba e foram tratados como heróis por Fidel. Vivés não compreendia como tinham saído com vida do Palácio de La Moneda, até que Patrício, num encontro no bar do hotel Habana Libre, já alto, contou-lhe que, por ordem de Fidel, executara Allende que queria se asilar na embaixada sueca. Fidel queria criar (e conseguiu) um mito de Allende resistindo até a morte. Morto Allende, os cubanos conseguiram abandonar o palácio antes do assalto final de Pinochet. Aliás, Pinochet só chefiou o exército chileno por indicação de Fidel, que o julgava com tendências comunistas. Vivés havia sido seu cicerone e interlocutor quando visitou Cuba.
COMENTO: apesar do interesse que o tal livro possa despertar no público (ainda) leitor, parece que seu destino é o mesmo do muito falado mas pouco conhecido "Combate nas Trevas", de Jacob Gorender (1923-2013), editado em 1987 e raríssimo atualmente, só sendo encontrado em sebos e a preços altos. "El Magnífico - 20 Ans au Service Secret de Castro" não é encontrado em idioma diferente do francês, em que foi publicado originalmente, nem mesmo em língua espanhola, e seus exemplares à venda, custam preços desproporcionais, por sua raridade. Acredito que seria um bom negócio algum editor adquirir os direitos e publicar uma versão do livro de Andrès Alfaya Torrado no Brasil.
Dados sobre Juan Vivés e sua descendência:
"(240ii) ... Andrés Alfaya Torrado nascido em Havana em 4 de Junho de 1945 casou duas vezes: a primeira em Havana em dezembro de 1968 com Dania de la Concepción Frías y Sanz nascida a 21 de julho de 1947 filha de Mario Frías e Eugenia Salvadora Sanz Garrote. Tiveram por filha a Lisette Alfaya Frías. 
Andrés Alfaya Torrado e sua segunda mulher Annie Clavel nascida na França tiveram por filhos a Cecilia, Sofía e Alexander Emmanuel Alfaya Clavel. 
Lisette Alfaya Frías nascida em Havana a 9 de janeiro de 1969 casou a 21 de novembro de 1990 em Habana com Cesar López-Muro Suárez nascido a 27 de janeiro de 1967, filho de Fernando López-Muro Moreno e Martha Suárez Esquivel. Tuvieron por filho a Andrés Augusto López-Muro Alfaya y Frías nascido em Londres a 31 de julho de 1995."

sexta-feira, 30 de abril de 2021

História: Ferenc Vajta — O Espião Que Fugiu Para a Colômbia

O húngaro Ferenc Vajta chegou em meados do Século à Colômbia e se converteu em um reputado Acadêmico.
Era fichado pela CIA e pelo FBI.
por Jhon Torres — @jhontorreset
Na Bogotá dos anos 50, ainda provinciana e ardentemente católica, se movimentou nos mais importantes salões um ex-espião que, se os documentos de segurança gringos são corretos, escapou dos julgamentos contra criminosos nazistas, teve contatos secretos com o Papa Pío XII e com o General Charles de Gaulle para tentar frear o comunismo internacional; tentou montar um governo no exílio quando seu país foi absorvido pelo bloco soviético e, já na Colômbia, conspirou contra compatriotas seus aos quais acusava de serem agentes dos bolcheviques.
Ferenc Vajta — um dos membros da ‘legião estrangeira’ que em meados do século passado chegaram fugindo dos estragos da Segunda Guerra Mundial e que aqui encontraram uma nova vida como professores da Universidade dos Andes e outros destacados centros de educação — é lembrado como mecenas do teatro moderno, humanista que consagrou sua vida à academia, e como ‘salvador’ de centenas de seus compatriotas refugiados na Áustria.
Nascido em 1914, educado na Sorbonne de Paris e na Itália, poliglota e ex-diplomata, seu rastro foi se perdendo com a passagem das décadas. E, ainda, nos anos 50 e 60 foi protagonista de primeira linha na vida universitária, social e cultural de Bogotá, jornalista de temas internacionais, e até correspondente por breve tempo da prestigiosa revista Time. Isso na esfera pública.
Em segredo, era objeto de um minucioso seguimento da Inteligência e Embaixada dos Estados Unidos, e informante desse governo e de agencias de segurança nacionais. Até sua morte, no final dos 60, foi um intenso lobista ante Washington, visando cancelar a marca de criminoso de guerra que o impediu de cumprir o plano de viver no país do norte e dirigir desde ali sua ‘cruzada contra o comunismo’.
Tudo isso é o que contam centenas de relatos secretos da poderosa Agencia Central de Inteligencia (CIA) que vem sendo desclassificados desde os anos 80. Vários deles foram recolhidos em livros e versões de imprensa publicados nos EUA que denunciavam como a Casa Branca fez vistas grossas frente a dezenas de reconhecidos nazistas que buscaram refúgio em todo o hemisfério.
O quadro que a CIA pintava de Ferenc Vajta era bem diferente do que se conheceu na Colômbia e que pouco mudou apesar de que, marginalmente, até aqui tenham chegado os ecos de seu passado. Inclusive conhecendo os rumores, poucos haviam imaginado que o homem corpulento, de nariz grande e cabelo negro engomado, que em 1957 foi um dos impulsores do primeiro Festival Nacional de Teatro (que se realizou no Teatro Colón), tivesse uma vida secreta. Um lado obscuro que, segundo a CIA, incluía além de seu passado nazi, capítulos como agente da Hungria, França, Vaticano e até mesmo dos EUA, e também a entrega de um tesouro de ouro na Áustria para evitar ser julgado e até fuzilado pelo que fez durante a guerra.

Primeiro ato: A guerra e o ouro
Ferenc Vajta é um jornalista húngaro e criminoso de guerra (...) Ex-cônsul em Viena antes da ocupação russa, escapou da custodia americana para a zona francesa em junho de 1945. Nove solicitações diferentes foram feitas para sua entrega a nossas tropas, diz um relato da CIA de março de 1952. Segundo o oficial norte-americano que o capturou, “Vajta deu aos franceses informação que foi usada para recuperar seis toneladas de ouro puro. Como recompensa, foi recrutado como informante pelas forças francesas de segurança”. O ouro e também uma carga de diamantes, agregam os documentos, provinha de fundos públicos húngaros que os governantes haviam movimentado para Áustria durante a guerra, como seguro se tivessem que sair fugindo de Budapeste (como de fato ocorreu), e que caíram nas mãos dos aliados após a derrota nazista. O informe assinala que, “apesar da promessa francesa de entrega-lo, isto não foi cumprido” e, pelo contrario, “o ajudaram ou lhe permitiram escapar para Itália”.
¿Quais eram as acusações contra ele? Segundo os arquivos desclassificados, Ferenc Vajta — que se apresentava publicamente como um perseguido pelo comunismo e atribuía aos russos e a seus aliados na Hungria uma suposta montagem contra ele — era conhecido em sua nação como uma especie de ‘campeão’ da causa hitleriana através de seus escritos periodísticos: “Seus artigos glorificavam os nazis. Em abril de 1943 fundou o jornal AZ Orszag, um panfleto semi-oficial do Ministério do Exterior húngaro que chamava o povo a unir-se ao lado alemão”.
Em 1944, o regime de Miklós Horthy, alinhado com a Alemanha, começou a debilitar-se e Hitler decidiu enviar suas tropas a Budapeste. E em setembro daquele ano, quando se descobriu que Horthy buscava um acordo secreto com os aliados ante a iminente derrota do Eixo, a ala radical nazi deu um golpe de Estado que pôs no comando a Ferenc Szálasi, de quem Vajta era muito aproximado. E não só seguiu publicando seu periódico, mas meses depois foi nomeado cônsul em Viena, a segunda capital do Terceiro Reich. A explicação do salto de jornalista a diplomático foi dada por  outra nota da CIA: “Em novembro de 1944, o avanço das tropas russas ameaçou engolir toda a Hungria. O governo de Szálasi estava pronto para fugir para Viena. Nesta situação, significativamente nomeou Vajta como primeiro cônsul húngaro na Áustria”. Ali se instalou em uma “suntuosa vila” apontada pelos alemães.
Sobre o que fez Vajta na Áustria há duas versões. A dele, segundo cartas enviadas desde Bogotá a altos funcionários dos EUA, pedindo ajuda para que revisassem seu caso, era esta: “Nunca fui nazi (...) Aceitei o consulado em Viena para atender o problema dos refugiados húngaros que saíram quando os russos cercaram Budapeste (...) Em abril de 1945, pouco antes do fim da guerra, contamos cerca de 400.000 refugiados. Trabalhei algumas vezes entre 14 e 16 horas ao dia e ainda assim não era suficiente para atende-los”. E argumentava: “No crescente caos (os aliados bombardeavam diariamente as linhas férreas austríacas) não era possível achar uma adequada solução para todos, mas fizemos o que pudemos. Se eu aceitei minha nomeação em Viena o fiz somente porque queria ajudar os húngaros a escapar”. Também assegurava que não só ele, senão todo seu país, havia estado do lado alemão durante a guerra, e que seu crime era assistir a seus compatriotas, sem importar qual era sua ideologia, quando fugiram “do paraíso comunista”. Quase as mesmas palavras com que foi apresentado um artigo seu sobre ‘Problemas europeus’, publicado na revista da Universidad Javeriana de Bogotá em 1950: “Vajta, um jovem diplomata húngaro residente atualmente na Colômbia e professor de vários centros de educação, desempenhou o consulado de sua pátria em Viena e desde esse cargo procurou auxiliar a numerosos compatriotas seus, vítimas da perseguição marxista”.

Segundo ato: a fuga
A CIA contava outra historia. Em 1949 seus agentes na Europa enviaram relatos como estes a Washington: “Em geral, a historia de Vajta é a de um húngaro fascista com conexões com os nazis antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
Os arquivos revelam que foi reportado como agente do serviço secreto húngaro em Roma, Belgrado e Istambul e que seus serviços foram importantes para a Gestapo nesse tempo (...) É culpável de atrocidades de guerra como o envio, durante o regime de Szálasi, de 20.000 judeus húngaros que foram forçados a marchar de Budapeste a Viena. Durante essa marcha, mais de 6.000 pereceram”. E sobre o que lhe teria acontecido se não houvesse escapado com a ajuda dos franceses, o aviso secreto é contundente: “Teria sido, com toda probabilidade, imediatamente fuzilado se houvesse caído em mãos de soviéticos”.
Outro despacho assinala que os norte-americanos estavam prontos para envia-lo ao tribunal de Nüremberg ou ao do Povo da Hungria — que julgavam os criminosos de guerra — quando fugiu e apareceu protegido pelos franceses. Martin Himmler, do Exército dos Estados Unidos, testemunhou que Vajta havia enviado judeus húngaros para os campos de concentração na Áustria e que em seu poder foram achados bens esbulhados:No começo do cerco de Viena desapareceu com o tesouro (húngaro na Áustria) e outros bens valiosos como tapetes e objetos de arte, além dos valores de seu escritório. Quando foi preso pelos americanos, algumas das propriedades roubadas foram achadas em sua casa”. Ele, por seu lado, sempre acusou a Himmler de inventar as provas que o indiciavam.
Naquela época, recém finalizada a guerra, Colômbia não figurava para nada nos planos de Ferenc Vajta. Os documentos desclassificados da CIA o localizavam, após a fuga da Áustria, na Itália; ali foi recebido pelo círculo mais próximo ao papa Pio XII, cujo papel na guerra segue gerando polêmica porque muitos consideram que não fez o suficiente contra o genocídio. Seu sócio em Roma era um jesuíta também húngaro que, como ele, veio se acomodar em Bogotá poucos anos depois: Nyisztor Zoltan, então chefe de imprensa do Vaticano e também com fama de pró-nazi.
Na Itália, Vajta foi um dos promotores do Parlamento Húngaro no exílio e fundou um periódico, Salve Hungría, que atacava de frente o novo governo comunista de seu país. Ali foi preso pela segunda vez, acusado por crimes de guerra. 
Graças a seus contatos, assinala o arquivo da CIA, foi liberado pela segunda vez, mas o advertiram para que se fosse porque não poderiam protege-lo de novo. E lhe facilitaram tudo para viajar ao reduto fascista que restou na Europa após a guerra: a Espanha de Franco. Segundo se percebe, Vajta conhece muito das atividades da Inteligencia francesa na Áustria, mas parece irritado com eles porque não cumpriram as promessas que lhe fizeram. Também parece irritado com os britânicos porque não o defenderam (...) Vajta se ofereceu para trabalhar com os italianos se eles garantissem sua segurança pessoal, notificou a Agencia. Entre a queda de Viena, em 1945, e sua nova prisão, Vajta teve contatos com achegados ao herói da Resistência francesa, o general De Gaulle, pois Paris supostamente via nele uma figura chave para fazer contrapeso ao comunismo húngaro. Esses contatos, sem dúvida, cessaram com a mudança de governo na França, em 1946.
Na Espanha foram documentadas reuniões com funcionários do regime do ‘Generalíssimo’ e com o controvertido arcebispo de Toledo, Enrique Plá y Deniel, um dos líderes mais ultraconservadores da Igreja católica. Também contatou a embaixada dos Estados Unidos com a oferta de estabelecer em Madrid o ‘Centro Anticomunista da Europa Ocidental’. Os informes dizem que “aparentemente tinha uma grande soma de dinheiro a sua disposição, aparentemente originada no Vaticano”. Nessa época era um dos cabeças de um movimento chamado Intermarium, de extrema direita, que congregava varias forças anti-soviéticas.
Em dezembro de 1947, com visto yankee apesar de seus antecedentes e acompanhado por um vice-cônsul americano, voou de Madrid a Nova York. Sua ideia, dizem os documentos, era “contatar os exilados húngaros” para uni-los a seu movimento. Mas em janeiro de 1948 estourou o escândalo por seu ingresso em território americano; e ele foi preso e confinado na ilha Ellis. Como a Hungria comunista nunca respondeu para que fundamentassem as acusações de guerra contra Vajta, ao final, decidiram deporta-lo sob o motivo de ser considerado “prejudicial aos interesses dos Estados Unidos.

Terceiro ato: preso nos EE.UU.
Passou quase 26 meses detido. Então, é quando aparece pela primeira vez a Colômbia no mapa de Ferenc Vajta. ¿Como aconteceu isto? Nos anos 80, com milhares de documentos desclassificados pela primeira vez desde os anos 40, a imprensa norte-americana acusou o Vaticano de Pio XII de haver realizado uma enorme operação de movimento clandestino de fascistas e nazistas para a América Latina. As opções para o húngaro eram ser enviado a Itália (que se negou a recebe-lo) ou a seu país natal, onde o esperavam para julga-lo; mas ele alegou que sua vida estava em perigo. E, já com a expulsão decidida, surpreendeu ao pedir que o enviassem a Bogotá, uma cidade que nunca havia mencionado em seus escritos. Inclusive, informou que já tinha passagem da Avianca para 5 de fevereiro de 1950. 
Nunca se estabeleceu claramente como ele foi aceito pelo Governo colombiano, que seguía "ao pé da letra" as diretrizes de Washington em matéria de assuntos exteriores e certamente não teria recebido a ninguém de seu perfil sem um tranco americano. Vajta pode ter recebido ajuda de Pat McCarran, senador democrata de Nevada e um dos mais beligerantes anticomunistas do congresso dos Estados Unidos. McCarran, como muitos outros, acreditava que em plena Guerra Fria o inimigo era Moscou e que os antigos nazis podiam ser valiosos aliados. E é muito significativo que, na mesma época, monsenhor Nyistor Zoltan, seu contato no Vaticano, preparava as malas para vir ao país.
Após serem notificados de sua chegada, os oficiais da embaixada em Bogotá o apelidavam de “personagem indesejável” e avisaram a Washington que iam seguir sua pista, coisa que fizeram por anos. Os informes secretos não só chegaram à CIA mas também a J. Edgar Hoover, o quase eterno diretor do FBI.
Seus antecedentes não eram desconhecidos para o governo conservador da época. A embaixada reportou um Informe da Inteligencia colombiana que destacava o seguinte: Um documento da Polícia Nacional, Chefia de Segurança, datado de 27 de novembro de 1951 assinado pelo funcionário Manuel Antonio Orduz Duarte e dirigido ao dr. Pablo Jaramillo Arango, ministro encarregado da carteira de Governo, diz que o professor Vajta foi membro do serviço secreto francês em Innsbruck e finalmente do serviço secreto norte-americano na Colômbia”. E outro aviso, datado em Bogotá a 2 de março de 1950, resenha uma conversação entre Robert Newbegin, então conselheiro da Embaixada, e o dirigente liberal Álvaro García Herrera: “García disse que se subentende que essa pessoa (Vajta) está agora na Colômbia e que o Governo considera usá-lo em conexão com a polícia secreta (...) García expressou sua preocupação porque uma pessoa com o passado de Vajta possa influenciar em que os liberais sejam tratados de maneira brutal”. Preocupação que, por certo, nunca teve um piso real.

Quarto ato: um espião no país
O que se acredita é que Vajta seguiu, durante seus anos no país, com a ideia de sua cruzada anticomunista. A CIA revelou que ele e o monsenhor Zoltan acusaram ante a embaixada e ante o serviço secreto colombiano a outro professor húngaro, Jorge Kibedi, que havia chegado ao país em 1950 para trabalhar com a Universidade Javeriana e fez parte da Missão de Planejamento que modernizou Bogotá.
Em uma ficha sobre Kibedi que chegou a Washington, são mencionados todos seus dados (inclusive o endereço de sua casa no antigo bairro Sears de Bogotá) e as acusações que seus dois compatriotas fizeram indicando-o como suposto espião da União Soviética. Nessa época estava vigente uma norma que proibia “a atividade política do comunismo internacional” porque — destacava — “dita atividade atenta contra a tradição e as instituições cristãs e democráticas da República, e perturba a tranquilidade e o sossego públicos”. Ser comunista dava cadeia de 1 a 5 anos em uma colonia penal.
Em abril de 1951, a embaixada reportou a Washington quemonsenhor Zoltan afirmou que Kibedi levou a cabo uma missão de espionagem internacional para o governo comunista de Budapeste e que esteve sob vigilância da polícia secreta espanhola, que descobriu contatos com comunistas estrangeiros.
O mesmo documento diz que Vajta assegurava que Kibedi e seu irmão Irving, “que também está em um país de Sul-americano, eram agentes comunistas”: “Vajta está convencido de que Kibedi é um agente da Russia e que está levando a cabo uma missão de espionagem na Colômbia”. A foto de Kibedi que acompanha o relatório foi confirmada pelo próprio Vajta.
A mesma versão terminou em mãos do general do Exército Régulo Gaitán, um dos ‘duros’ da segurança colombiana da época. O Governo ordenou interceptar a correspondência de Kibedi e seguir todos seus movimentos e os de sua família. Finalmente optaram por deporta-lo do país sob a imputação de promover o comunismo.A expulsão de Kibedi foi resultado dos esforços de Ferenc Vajta”, diz outro comunicado dos EUA. Que acrescenta: “A vigilância ao correio de Kibedi pela Polícia indicou um sustancial volume de correspondência sobre temas sociais e laborais, mas as autoridades nunca encontraram uma prova concreta de conexões comunistas”.
A expulsão do professor da Javeriana, em 1952, foi um escândalo nacional que pôs parte da Igreja colombiana em choque com o Governo. Vajta, em uma conversação com a embaixada, se queixava de que os estilhaços de seu papel neste caso lhe haviam fechado varias portas:O sujeito ainda ensina ciências sociais na Universidade dos Andes, em Bogotá (...) Recentemente tentou complementar sua renda obtendo um cargo de professor na Universidade Nacional, mas não conseguiu. O motivo dado por Vajta é que líderes da Igreja católica o bloquearam por suas atividades contra Kibedi”. Este se instalou no Chile e se converteu em um dos dirigentes sindicais mais importantes do continente.
Nessa época, Vajta começou a escrever para a revista Semana, na seção Internacional, e era frequentemente consultado por seus conhecimentos da situação europeia. Ensinava, também, historia francesa em um colégio para moças, e seu radical discurso anticomunista começava a gerar muitos ruídos.

Doc 1: Bogotá, Abril de 1952
"O Quartel General foi avisado pelo Serviço de Imigração e Naturalização que Ferenc Vajta, que foi deportado dos Estados Unidos em 5 de fevereiro de 1950, é um sujeito indesejável devido a suas atividades relacionadas com os nazis durante a Segunda Guerra Mundial; deseja insistir para obter seu visto para os Estados Unidos. Com essa intenção escreveu ao senador McCarran afirmando que deseja voltar aos EUA para "continuar" sua luta contra os comunistas". Vajta pediu ao senador McCarran, que é presidente do Comitê Judicial, para que o Comitê o ajude a revisar seu caso de Imigração, aparentemente para obter reivindicação moral e para que o senador o ajude a ser readmitido (...) Em sua carta ao senador, Vajta caracteriza a Martin Himmler, que foi a principal testemunha dos Estados Unidos no processo de deportação, como "um húngaro nascido em  Hungria no Serviço Secreto e antigo comunista".


Doc 2: Hungria, 5 de dezembro de 1945
"Ferenc Vajtga é um jornalista húngaro e criminoso de guerra que escapou de uma prisão americana na Áustria. Esteve em Roma em novembro e viaja rumo a Paris. Seus amigos em Roma foram informados por ele mesmo de que discutirá seus planos para a restituição do antigo regime húngaro com o general De Gaulle. Vajta espera um papel principal no planejamento e execução dos planos franceses sobre Hungria(...)"


Doc 3:
Bogotá, 23 de junio de 1952 
"A expulsão de (Jorge) Kibedi (da Colômbia) é principalmente resultado dos esforços de Ferenc Vajta (...) As suspeitas também foram alimentadas por um importante jesuíta húngaro em Bogotá. A vigilância do correio de Kibedi pela Polícia encontrou um importante volume de correspondência sobre assuntos sociais e trabalhistas. As autoridades nunca obtiveram uma prova concreta de conexões comunistas (...)".


Doc 4: 
Bogotá, 23 de fevereiro de 1954 
"O sujeito regressou a Colômbia em janeiro de 1954 e está de novo ensinando na Universidade dos Andes e em uma escola. Assegura que não há nada que fazer, mas que fará o melhor na situação e esperará uma oportunidade mais favorável para regressar a França (...) Vajta crê que seu fracasso para obter o visto francês é consequência de que seu nome ainda aparece em uma lista negra elaborada imediatamente depois da guerra quando as influencias dos comunistas cresceram no governo francês (...)"

Doc 5: 
Bogotá, 18 de fevereiro de 1956 
"Em 17 de fevereiro de 1956, o Consulado notificou que o sujeito Ferenc Vajta está se esforçando por um visto (para os Estados Unidos). "(Nome omitido no documento) assegura que o sujeito é o mais anticomunista (...), muito inteligente, tem um amplo número de conexões no país e fala bem cinco idiomas. Ele pensa que o sujeito foi um húngaro pro-nazi e que provavelmente ainda guarda sentimentos pro-nazis".

Doc 6: 
Bogotá, 1950. 
Carta ao senador Pat McCarran
A carta:  "Eu deportei a mim mesmo" 
"Sou Ferenc Vajta, um antigo cônsul húngaro, que durante a última Guerra Mundial supostamente ajudou a Hitler a "assassinar milhões de pessoas indefesas" e que supostamente é o grande responsável pelo massacre de pilotos americanos na Hungria (...) Tenho 36 anos, não tenho uma nação, sou um jornalista de profissão e vivo na Sul-America (...) Cheguei livremente, em um voo, e no aeroporto havia alguns velhos e queridos amigos que me receberam. Exceto eles, ninguém sabe aqui quem sou e por que escolhi este país para 'reiniciar' minha vida. Estou vivendo em uma humilhação constante e rara vez tenho um momento no qual realmente não deseje esquecer tudo. Desperto cada dia com a decisão de, a partir desse momento, não recordar nunca mais meu passado, mas até as coisas de minha rotina tornam impossível que possa matar minhas recordações (...) Meus problemas, a humilhação na ilha Ellis, minha própria deportação de um país que amo (e o que é pior, que sigo amando com todo meu coração) nunca permitirão romper essas correntes invisíveis que me atam com incrível força. Antes de sair da cela 222 da Ilha Ellis, nunca imaginei, nem por um momento, que na verdade não existe liberdade para um homem cuja honra tenha sido arruinada (...) "Em abril de 1944, quando os alemães ocuparam a Hungria, eu era um simples editor de noticias que defendia os judeus e exigia um tratamento mais humanitário para eles, e ainda hoje, depois de tudo que passei, não me arrependo do que fiz, não lamento te-los defendido. É tudo o que tenho que dizer a esses que tratam de fazer propaganda de anti-semitismo com meu caso. Mas também é natural que eu lute e trate de lutar sempre para que me façam justiça. Do contrario nunca terei paz".

Quinto ato: o solitário mecenas do teatro
¿Quantos sabiam de sua historia na Universidade dos Andes? Não há nenhuma evidencia de que houvesse, por parte dos Estados Unidos, alguma entrega de informação nesse sentido. Nos documentos só aparece uma conversação de um funcionário da embaixada com Frans Von Hildebrand, um dos mais destacados professores daquela universidade e cuja família teve que fugir da Alemanha de Hitler em 1933 por sua pública oposição ao projeto totalitário.Hildebrand diz que não aprova as ideias políticas defendidas por Vajta no passado, mas diz que o sujeito parece estar por fora de atividades políticas na Colômbia tem certeza de que ele não tem recebimentos diferentes dos que recebe da universidade”, informa um relatório de 1953. O biólogo Martin von Hildebrand, filho do professor, descreve Vajta como “um homem de aparência triste e que dava a impressão de que sofria muito”. Era recebido na casa de seu pai como outros muitos professores dos Andes vindos da Europa, entre eles muitos judeus. “Às vezes, algumas pessoas perguntavam ao meu pai como podia tolerar a Vajta, tendo o passado que tinha. Ele dizia que não podia julgar uma pessoa por uma decisão de estar no lado equivocado que todo um povo havia adotado. Mas não creio que meu pai nem os outros conheceram em profundidade a sua historia”, disse o reconhecido antropólogo e diretor da Fundação Gaia.
O grande ator Kepa Amuchastegui, que estudou nos Andes nos 60, via Vajta indo tomar o chá na casa dos Von Hildebrand. “Era intelectualmente muito respeitado (...) Não tratei muito com ele porque era de outra geração, mas era uma figura reconhecida, mais porque estava muito vinculado ao mundo do teatro”, assinala. Também recorda que em voz baixa diziam que havia defendido ideias nazis, mas diz que sempre foi mais um rumor que um questionamento concreto.
Durante duas décadas, Ferenc Vajta seguiu tentando, sem êxito, conseguir um visto dos Estados Unidos para “reivindicar” sua historia. Em uma carta que titulou ‘Eu deportei a mim mesmo’, escrita em Bogotá, assegurava que “ainda se sentia prisioneiro” por ter que carregar uma fama de nazi que, segundo ele, foi invenção de seus inimigos comunistas e judeus: “Não há liberdade para um homem cuja honra tenha sido arruinada”, dizia. E em sua defesa escreveu que quando a Áustria foi ocupada pelos russos, ao final da guerra, ele foi “imediatamente trabalhar com a Inteligencia francesa para organizar um centro anticomunista”. Ele escreveu a congressistas republicanos e democratas e até pediu aos gringos que o contatassem durante uma viajem à Europa, no começo de 1954, para concretizar seu plano de criar uma comunidade de exilados contra Moscou. 
Se eu puder me colocar de acordo com os serviços (secretos) dos Estados Unidos e trabalhar com eles, somente eu serei responsável por minha vida. Como não sou um covarde, não estou interessado em meu futuro e não me importa se devo pagar com minha vida por minha futura missão”, escreveu à embaixada em Bogotá antes de viajar. A CIA recebeu cada carta sua, mas ninguém chegou a procura-lo.
Nos 90, o mesmo estigma caiu sobre Gerardo Reichel-Dolmatoff, o austríaco que foi o 'pai' da antropologia na Colômbia e herói da França na guerra de Resistência contra os alemães, quando se revelou que em sua juventude havia servido nas temíveis SS de Hitler.
Vajta terminou regressando a sua vida de professor na Colômbia apesar de outro relato, dizer que “estava totalmente entediado” no país, que “não tinha interesse em seu trabalho atual” e estava desesperado por voltar à Europa. 
Em 1956, por pouco tempo, foi nomeado correspondente da revista Time. E a mesma Embaixada advertiu o Departamento de Estado para contatar os editores nos EUA e os advertir sobre seu perfil. O episódio durou um mês e, em abril do mesmo ano, o diário Intermedio (a versão de El Tiempo durante a ditadura de Rojas Pinilla) informou que “o professor Ferenc Vajta renunciou a seu cargo como correspondente”, pois “devido a suas atividades universitárias não podia dedicar suficiente tempo à revista”. A embaixada havia sido informada dias antes de que em Time tomaram nota “do histórico do sujeito” e que “estavam dispostos a fazer uma mudança em vista da informação” que haviam recebido.
A partir desse momento — ainda que até o final de seus dias insistiu em pedir visto aos Estados Unidos, que foi negado todas as vezes —, o professor Vajta pareceu dedicar todos seus esforços em promover a cultura colombiana, especialmente os nascentes projetos de teatro moderno. Em 1957, com recursos que ele mesmo obteve entre a comunidade diplomática acreditada no país, foi um dos organizadores do Festival Nacional que ocorreu ano após ano até 1963 no Teatro Colón, ao lado de figuras como Gloria Zea, Ramón de Zubiría e o maestro Bernardo Romero Lozano. Desse experimento cultural começaram a surgir grandes figuras como Enrique Buenaventura, Carlos José Reyes e Santiago García, entre outros. Também foi muito próximo ao grande poeta Eduardo Carranza e, apesar do anticomunismo que corria em suas veias, apareceu, em 1960, acompanhando Orlando Fals Borda e ao padre Camilo Torres na criação da famosa faculdade de Sociologia da Universidade Nacional.
O maestro Reyes, que o conheceu no começo daquela década, recorda de Vajta promovendo ativamente a discussão sobre os temas que se tratavam nas obras de teatro do Festival: Conhecia muito bem o teatro europeu e apoiou projetos de escolas colombianas que estavam iniciando. Chegou até a sustentar várias apresentações com recursos próprios, ou os que obtinha com seus contatos nas embaixadas. Reyes também ouviu os rumores sobre o passado do professor da los Andes, mas garante que nunca o escutou defender ideias extremistas e que jamais censurou alguma obra, por mais ‘tirada’ à esquerda que fosse. “Sempre era visto com ar doutoral, muito acadêmico, mas muito respeitoso”, diz. Por essa época, inclusive, aparecia na Radio Nacional, com seu espanhol marcado pelo forte acento centro-europeu, comentando as adaptações teatrais em companhia de famosos como Gloria Valencia de Castaño. 
Ainda que tenha chegado com sua esposa e um filho ao país, Ferenc Vajta morreu só no final dos anos 60. Seu corpo foi encontrado vários dias depois, segundo relatos da época. Foi um epílogo dramático para um ator de primeira linha na Segunda Guerra Mundial que terminou sua existência em um país, Colômbia, em que nunca pensou viver mas ao qual dedicou as últimas duas décadas de sua existência. E até o final, em segredo, tratou de mudar o bordão que o perseguiu até depois de sua morte: “o único nazista a ser deportado dos Estados Unidos”, comentou o ex-promotor norte-americano Allan A. Ryan, que investigou e perseguiu nazis que emigraram para aquele país e escreveu vários livros sobre os criminosos de guerra que conseguiram uma segunda oportunidade sobre a terra ao fugir para a América.

CRÉDITOS:
— Diretor do Especial: Jhon Torres, Editor de Mesa Central 
— Desenho Digital: Sandra Rojas
— Diagramação: Carlos Alberto Bustos
— Editor de Multimídias Especiais: José Alberto Mojica
Fonte: tradução livre de  El Tiempo