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terça-feira, 30 de janeiro de 2024

Rede Goebbels de Narrativas

por Percival Puggina
Lendo sobre Goebbels, lembrei-me da conversa pública entre Lula e Nicolás Maduro. Provavelmente, Hitler também recomendava a Goebbels que construísse uma boa narrativa e garantia a seus generais que ela seria melhor do que a narrativa dos que falavam mal dele — ingleses, norte-americanos e demais Aliados. Isto, porém, é mera especulação minha.
Através do trabalho de Goebbels, o Führer influenciou a estética e as expressões artísticas durante o Terceiro Reich, cobrando delas resultado político, ideológico e de afirmação da superioridade ariana. Joseph Goebbels sabia a importância dos meios culturais para a política e os usou para que a sociedade alemã refletisse a doutrina do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães. Impôs seu projeto ao cinema, ao teatro, à música, às artes plásticas, à arquitetura e à literatura. Com uma das mãos, criou a Casa de Arte Alemã e promoveu a exibição Grande Arte Alemã; com a outra, queimou milhares de obras ditas “degeneradas” porque não cumpriam o dever de espelhar e proclamar a superioridade biológica do mesmo povo que levavam para o abismo da guerra.
É curioso que, apesar da multiplicidade das competências de Goebbels em várias áreas de conhecimento, sua fama reverbere apenas o sujeito que falou sobre a eficácia da mentira contada mil vezes. Merecido epitáfio! De fato, a mentira foi eixo de sua sinistra existência, em cujos atos finais matou a mulher, os seis filhos e a si mesmo.
Enquanto ele se dedicava a tratorar culturalmente a Alemanha de seu tempo (1933 a 1945) para a colheita de Hitler, um grupo de marxistas judeus alemães criava e começava a operar a Escola de Frankfurt (1930). Nela, filósofos e cientistas sociais como Horkheimer, Adorno, Marcuse, Fromm, Benjamin, Pollock desenvolveram ideias anticapitalistas e avessas ao comunismo soviético. Seus trabalhos, nas décadas seguintes, foram usados para atacar pelo lado esquerdo as bases da tradição judaico-cristã. Nas bibliotecas universitárias, as obras desses autores estão, ainda hoje, na altura dos olhos de quem percorre suas prateleiras.
Naqueles mesmos anos trágicos da década de 30 do século passado, Antônio Gramsci escreveu os famosos “Cadernos do Cárcere” (1929-1939) na casa de reclusão de Turi onde cumpriu pena até dois dias antes de morrer. Suas anotações revolucionaram as estratégias comunistas, mostrando como a manipulação dos meios culturais permitiria estabelecer a hegemonia de “uma nova forma de consciência” e capturar a ordem política nas sociedades capitalistas. Há 90 anos, portanto, o pensamento revolucionário, totalitário e desumano, já conhecia a importância política da cultura.
Em 1933, a Escola de Frankfurt, fugindo da perseguição nazista, migrou para os Estados Unidos. Certamente por isso aquele país disponibiliza o maior arsenal bélico à guerra cultural contra si mesmo e contra o Ocidente. “Mas e o Brasil?”, perguntará o leitor. Como tenho repetido, a esquerda brasileira “copia, traduz e cola”. Copia do idioma inglês as receitas para desagregação da sociedade e demolição do Ocidente, traduz para o português pelo Google Translator e cola em seus estudos, cartilhas e bibliografias. Serve-se, pois, do mesmo arsenal norte-americano e com ele orienta a produção das narrativas feitas sob medida para a realidade brasileira. Por isso, na falta de mato para carpir, Lula pode dar “aula de narrativas” a Nicolás Maduro.
A insurreição cultural em curso tem gerado no Brasil uma decadência dos padrões de convívio social. Parte essencial de sua estratégia inclui exatamente o combate à beleza, à verdade e às virtudes. Ela exige a degradação do ser humano até sua desumanização, incluindo a bandidolatria, o aborto, a cristofobia, o desamor à pátria, o relativismo moral, a liberação das drogas, etc. Pessoas das quais não se poderia esperar um compromisso com a mistificação repetem narrativas fraudulentas por condicionamento “da nova consciência” imposto pela repetição.
O advento das redes sociais, caóticas por natureza, rompeu a hegemonia da comunicação que se estabelecera no Brasil. Isso criou problemas para a dominação cultural esquerdista que seguia os velhos ensinamentos da Escola de Frankfurt, dos Cadernos do Cárcere e das ações com que Goebbels implantou o conjunto ideológico do nazismo na cultura do povo alemão. Todo o empenho em “regulamentar as redes sociais” quer, mesmo, impor a elas um silenciador, minimizando seu impacto.
A oligarquia que retomou o poder no Brasil depende, fundamentalmente, da Rede Goebbels de narrativas. Ela faz o trabalho cotidiano de bate-bate na mesma tecla que ficaria enfadonho e insuficiente se assumido pelos oligarcas em suas manifestações. Na prática, eles constroem as versões e a Rede, com habilidade e boa técnica, repete em escala nacional não mil, mas milhões de vezes, há décadas, as ideias e narrativas esquerdistas, frankfurtianas e gramscianas, prendendo-nos a um passado tão perverso quanto corrupto.
Os males que disseminam não proporcionam, porém, fundamento estável ao êxito que, por enquanto, comemoram.
Percival Puggina (79) é arquiteto, empresário, e escritor.

sábado, 17 de junho de 2023

Operação Grande Valsa

A capacidade humana, de humilhar seus adversários e de realizar operações psicológicas com objetivo de convencer seus povos e aliados de sua própria superioridade, é uma coisa quase inimaginável.
Em meados de junho de 1944, o Exército Vermelho realizou uma das mais poderosas ofensivas da Segunda Guerra Mundial na Frente Leste.
Conhecida em código como Operação Bagratión, sua execução significou a destruição quase completa da espinha dorsal do exército alemão no leste; foi apenas o início do chamado rolo compressor soviético.
Ao mesmo tempo, em 17 de junho, ocorreu outro evento incomum: No centro de Moscou, ocorreu um dos eventos mais simbólicos e chocantes da guerra, quando 57.000 soldados alemães pertencentes tanto à Wehrmacht quanto às Waffen-SS desfilaram para o espanto de muitos moscovitas nas varandas de suas casas e nas principais avenidas da capital soviética; no entanto, ao contrário do que eles haviam sonhado uma vez, sua marcha sobre Moscou não foi de vitoriosos, mas sim de vencidos. 
A chamada Operação Grande Valsa foi um dos episódios mais simbólicos da Grande Guerra Patriótica para os soviéticos, pois foi uma das humilhações mais imponentes que uma nação já infligiu ao exército de seu inimigo, o vídeo mostra todos os detalhes sobre como o "Desfile dos Vencidos" aconteceu no verão de 1944.


Fonte: Der Jürgen

segunda-feira, 6 de junho de 2022

O Que Não Foi Contado Sobre o Dia D

Foto: Getty Images (Colorido por Marina Amaral)
Momentos de loucura, atos heroicos, deserções, ataques inúteis e inclusive paradas no meio de um bombardeio para tomar chá… O prestigiado historiador britânico Antony Beevor nos conta a batalha da Normandia durante a Segunda Guerra Mundial.
por Antony Beevor 
historiador militar
Hoje, dizemos que a vitória do dia D na Batalha da Normandia era incontestável, tendo em vista a superioridade aérea e naval dos aliados.
Se reuniram 7700 barcos e 12.000 aeronaves. Os pilotos narraram depois que havia tal quantidade de embarcações que parecia possível chegar à França andando
Sem dúvidas, na historia nada está predeterminado. Naquele momento, não estava clara a linha entre o triunfo e o desastre absoluto.
No domingo, 4 de junho, o general norte-americano Eisenhower se reuniu com os comandantes aliados em seu posto de comando de Southwick House, ao norte de Portsmouth. Deviam tomar uma decisão crucial: aceitar a previsão dos meteorologistas de que o tempo tormentoso ia melhorar em 6 de junho — não muito, mas o suficiente para entrar em ação — ou postergar toda a operação. 
Eisenhower decidiu por seguir adiante. Se houvesse decidido atrasar o desembarque por duas semanas, a enorme frota invasora teria topado com a pior tempestade do canal da Mancha nos últimos 40 anos. Não me agradam as especulações históricas baseadas em perguntas do tipo ‘¿Que teria ocorrido se…?’, mas é justo reconhecer que o mapa europeu de pós-guerra poderia seria bem diferente se a grande frota aliada houvesse sido dispersada pela tormenta. Teria sido necessário empreender novos preparativos partindo do zero outra vez.
Eisenhower leu o relatório meteorológico e decidiu atuar no dia 6. Se houvesse adiado, uma tempestade teria arruinado a operação.
Churchill queria partir desde a Itália e avançar pelo centro da Europa para evitar uma ocupação soviética. Mas teve que concordar com o desembarque: os americanos mandavam.
Winston Churchill tinha, ainda, outras razões para estar nervoso. Nunca havia aprovado o plano de invadir a Alemanha pelo noroeste da Europa. Isto foi imposto por Stalin e Roosevelt na reunião de Teerã em novembro anterior. Desde o século XVIII, a Grã Bretanha sempre havia preferido ‘a estratégia periférica’: usar a Marinha Real para desgastar o adversário numericamente superior. O sonho de Churchill era partir desde a Itália e avançar pelo centro da Europa para prevenir uma ocupação soviética; mas os americanos, agora, estavam no comando e defendiam ‘a estratégia continental’: o choque massivo de forças terrestres para destruir o inimigo frontalmente.
Todos os que tomaram parte do dia D  soldados, marinheiros ou aviadores  nunca esqueceriam a imagem prévia ao desembarque. A frota reunida para a invasão era a maior da historia: 7.700 barcos e 12.000 aeronaves. Os pilotos contaram depois que, visto do céu, o mar estava tão abarrotado de embarcações que parecia possível chegar caminhando à França.
Seguimos considerando o Dia D e os enfrentamentos na Normandia como uma luta de americanos e britânicos contra alemães. Mas foi a batalha mais multinacional da guerra. Uma divisão canadense desembarcou na praia de Juno. Comandos franceses se lançaram ao assalto de Ouistreham, e paraquedistas franceses desceram sobre a Bretanha. Houve navios de nove países, assim como esquadrilhas aéreas tripuladas por canadenses, neozelandeses, australianos, rodesianos, polacos, franceses, belgas, holandeses, noruegueses…

A dor da população francesa
Há que ter em conta o sofrimento experimentado pelos civis franceses durante a invasão da Normandia. Eisenhower e os estrategistas da invasão sabiam que os aliados encontrariam graves dificuldades ao pisarem na orla, porque os alemães tratariam de reforçar rapidamente suas tropas com blindados Panzer. Por isso idealizaram a chamada ‘Operação Transporte’; o plano era bloquear e isolar a área da invasão mediante o bombardeio das pontes do Loire, no sul; e as do Sena, ao leste… e destruir os povoados e cidades que levavam às praias.
Ao inteirar-se da estimativa de baixas civis, Churchill se horrorizou. Tratou de estabelecer um limite de 10.000 mortos, mas, por insistência do general Eisenhower, Roosevelt finalmente teve a última palavra. As vítimas civis foram 15.000 mortos e até 100.000 feridos só durante os bombardeios preparatórios. Outros 20.000 faleceram nos enfrentamentos na Normandia entre 6 de junho e meados de agosto.
Em alguns locais da Normandia, o bombardeio aliado de áreas urbanas não só foi evitável mas, também, dificultou o avanço, sem prejudicar os alemães. Saint-Lo em agosto de 1944.
Foto: Getty Images (Colorido por Marina Amaral)
A cidade de Caen foi destruída pelos bombardeios de 6 de junho e em 7 de julho. Os soldados britânicos que observaram os fatos sentiam que a terra tremia como gelatina sob seus pés. Davam por certo que a cidade normanda havia sido evacuada, mas não era o caso. Um jornalista perguntou mais tarde, a um dos civis, sobre a sensação vivida durante o bombardeio. O homem respondeu: «Imagine um rato metido dentro de uma bola de futebol durante uma partida internacional. Assim era como nos sentíamos».
Os ajudantes de Hitler não se atreveram a desperta-lo na manhã da invasão. O Führer havia reservado para si o controle dos Panzer.
Em alguns lugares  sobretudo em Caen , o bombardeio da área urbana não só foi evitável, mas também resultou contraproducente, já que dificultou o avanço aliado sem prejudicar os alemães. Em seu conjunto, o sucedido mostra um importante paradoxo. Os exércitos das democracias muitas vezes terminam por matar grande número de civis, pela simples razão de que seus comandos se veem submetidos à pressão da imprensa e do parlamento na retaguarda; a insistência em reduzir ao mínimo as baixas entre suas tropas os leva a exagerar no uso da artilharia e dos bombardeios aéreos.
Rommel foi o primeiro a empregar a expressão ‘o dia mais longo’. Queria sublinhar com isso, o fato de que os alemães só teriam a oportunidade de derrotar os invasores no curso das primeiras 24 horas. Compreendia que, uma vez que os aliados estivessem bem assentados nas praias, os alemães estavam condenados à derrota final. O colossal apoio aéreo e a poderosa artilharia dos barcos aplastariam qualquer contra-ataque em grande escala. Rommel teve a ideia de deslocar divisões Panzer próximas ao litoral, mas encontrou a oposição de seus colegas, que insistiam em mantê-las nos bosques do norte de Paris. Hitler, ao final, tomou as rédeas no assunto e decidiu controla-las pessoalmente desde seu refugio de Berghof, na Alemanha … mas seus assistentes não se atreveram a despertá-lo durante a decisiva manhã da invasão.
Nos ataques aliados a povoados franceses houve 15.000 mortos e até 100.000 feridos só nos bombardeios preparatórios.
Getty Images (Colorido por Marina Amaral)
As divisões alemãs de infantaria adstritas ao 7º Exército, defensor da Normandia, não contavam com homens suficientes, estavam mal armadas e haviam sido adestradas de forma deficiente. Em poucas palavras: não eram bastante fortes para enfrentar os aliados. A invasão logo se converteu em uma batalha de desgaste. Em 10 de junho, quatro jornadas depois do dia D, os aliados e os alemães se encontraram com o avanço bloqueado.

Um massacre brutal
Se supunha que a matança se produziria no mesmo dia D, mas ocorreu mais tarde e no interior da França. Foi então quando as baixas britânicas superaram em 80 por cento as estimativas dos comandos, para angustia de Montgomery e do Secretariado de Guerra. Churchill chegou a preguntar se restaria um exército britânico em pé quando os aliados chegassem a Berlin. No curso da batalha da Normandia, os combates foram tão sangrentos como na frente russa. De fato, as baixas mensais alemãs, por divisão, duplicavam a media registrada na Rússia.
Os porta-vozes da propaganda soviética posteriormente insistiram que os aliados, na Normandia só tiveram que fazer frente aos despojos do exército alemão. Mas a realidade foi que britânicos e canadenses se encontraram ante a maior concentração de divisões Panzer das SS desde a colossal batalha de Kursk.
Os combates em terra normanda resultaram muito mais duros do que o previsto pelo comando aliado. Se supunha que os alemães estariam desmoralizados e aterrorizados pelas incursões aéreas, mas a má visibilidade daquele mês de junho extremamente chuvoso reduziu muito a superioridade aérea aliada. O alto comando também havia subestimado a capacidade do inimigo para defender-se em um terreno como aquele. Em Bocage, na claustrofóbica paisagem normanda de pequenos campos e espessas sebes, os alemães conseguiram infligir pesadas baixas a forças imensamente superiores cavando e usando camuflagem habilmente.

Baixas psiquiátricas
Outras vezes, as baixas eram causadas pela ‘fadiga de combate’, o que hoje se chama ‘transtorno de estresse pós-traumático’. Os números avultam. No lado aliado, o número de baixas por motivos psicológicos foi muito alto, uns 30.000 casos só no 1º Exército estadunidense. Por outro lado, os psiquiatras militares americanos e britânicos não entendiam como tão poucos prisioneiros alemães pareciam sofrer fadiga de combate, apesar dos intensos bombardeios que levavam tempo suportando. Suspeitavam que era pelo doutrinamento nazista. Um médico militar alemão feito prisioneiro, o doutor Damman, considerava que «a propaganda alemã que insta os homens à salvação da pátria contribuiu para limitar o número de baixas por causas neuropsiquiátricas».
O certo é que o exército de Hitler simplesmente não reconhecia a fadiga de combate como doença. Seus oficiais seguramente se haveriam burlado da brandura da disciplina entre os aliados. Seus novos soldados chegavam a ponta de bota. E se disparassem contra suas próprias mãos ou pés, simulando terem sido feridos em combate, eram executados sem delongas. Um  Obergefreiter (recruta) designado à 91ª Divisão Luftlande, relata em uma carta datada em 15 de julho: «Krammer, um jovem, competente e valoroso, cometeu a estupidez de dar um tiro na mão. Agora vão fuzilá-lo».
A carnificina não se deu no dia D, mas depois, no interior da França. Os combates foram tão sangrentos como na frente russa.
As unidades alemãs tinham um problema bem distinto. O ódio visceral gerado pelas mortes de amigos em combate, de noivas ou de familiares falecidos sob as bombas aliadas produziu o fenômeno dos verrückte Helmuts, ‘os Helmuts loucos’. Em quase todas as companhias havia ao menos um destes personagens, convencidos de que já não tinham razões para seguir vivendo, a não ser pela obsessão de matar para vingar-se.
Nem todos os soldados alemães eram fanáticos ou membros das SS. Nas divisões de infantaria, as atitudes podiam ser bem distintas. Eberhard Beck, integrante da 277ª Divisão de Infantaria, escreveu: «Tínhamos claro que a guerra já havia terminado tempos atrás. O único que nos importava era sobreviver. Por minha parte sempre estava pensando nisso». E acrescenta: «Um ferimento, hospital de campanha, hospital na Alemanha, o lar, o final da guerra… O único que me interessava era escapar daquela desolação».

O valor no combate
A questão do valor no combate se reveste de imensa importância.
Os alemães não se desmoralizaram ante a enorme mobilidade aliada: se entrincheiraram e camuflaram muito bem. Na foto, uma vítima aliada do desembarque. Foto: Getty Images (Colorido por Marina Amaral)
Há muito poucos homens que não saibam o que é o medo; de fato, os valentes são aqueles que chegam a superar esse sentimento.
Um informe britânico realizado pouco depois da invasão da Normandia deixava claro que, em um pelotão de uns 30 homens, um pequeño punhado acostumava a assumir o peso do combate, outro reduzido grupo fazia o possível por evitar a luta e até por desaparecer do combate, enquanto que a maioria situada entre ambos grupos secundava os lutadores se as coisas iam bem … mas se deixava tomar pelo pânico e tirava o corpo fora quando pareciam de má previsão.
Montgomery ficou tão chocado ao ler esse documento que fez com que o suprimissem. Sem dúvidas, suas conclusões eram verazes no fundamental, e assim o confirmaram outros estudos realizados por outros exércitos. Em geral, os soldados até se abstinham de disparar suas armas durante o combate. Curiosamente, nos arquivos russos foram encontrados indícios de que os oficiais do Exército Vermelho suspeitavam o mesmo de seus próprios homens. Um oficial muito condecorado chegou a dizer que seria oportuno revisar todos os fuzis, imediatamente depois de cada luta com o inimigo, e fuzilar no ato, como desertor, a todo soldado cuja arma não houvesse sido disparada.
Os alemães logo verificaram que os britânicos eram muito arrojados ao defender-se, mas cautelosos na ofensiva. O fenômeno se explicava por numerosas razões, mas convém recordar que, em 1944, o país levava quase cinco años em guerra, pelo que o cansaço era considerável. E a medida que se acercava o final da contenda, cada vez mais homens queriam sair vivos fosse como fosse. Além disso, soldados e suboficiais também se haviam politizado muito mais que na Primeira Guerra Mundial. Como resultado desenvolveram uma mentalidade ‘sindicalista’ que influía no que, a seu modo de ver, podia ou não ser exigido deles. Uma mentalidade que os levava a limitar-se a fazer o trabalho designado e fim. Um canadense observou que os sapadores britânicos consideravam que disparar contra o inimigo não era tarefa deles; e que o pessoal da infantaria se negava «a aterrar uma cratera ou dar uma mão quando um veículo tinha problemas para avançar em um atoleiro». Dita atitude era praticamente desconhecida nos exércitos alemão ou estadunidense.
Em um pelotão de 30 homens só uns poucos entravam em combate, segundo assinalaram informes britânicos e americanos.
Ingleses com um guia da França antes de desembarcar. Os americanos se assombravam de que os britânicos desfrutavam de pausas regulares para tomar chá. Além disso, haviam desenvolvido uma mentalidade sindicalista, diz o historiador, e se limitavam a fazer o que era mandado.
Os observadores americanos e canadenses também ficavam atônitos ao ver que o soldado britânico se encontrava muito normal ao disfrutar de pausas regulares para tomar chá ou fumar. No mesmíssimo dia D, um número assombroso de britânicos, exaustos ao chegar à orla, consideraram que faziam jus a um merecido descanso. Um oficial estadunidense de ligação comentou que «muitos deles diziam que, com o chegar à terra, já haviam feito bastante, e que tinham tempo de sobra para fumar um cigarro, e até para beber uma xícara de chá, em lugar de seguir adiante com a missão de desmantelar as defesas do inimigo e adentrar no território».
Fonte: tradução livre de XL Semanal

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

A Estranha Morte do Espião Venezuelano em Bogotá

Corpo de Alejandro Olivares, das obscuras Forças de Ações Especiais, da Venezuela, foi achado em Miranda.
Alejandro Emel Olivares González levava em seu bolso um velho cartão que o certificava como membro das obscuras Forças de Ações Especiais (FAES) a serviço do regime venezuelano.
Por esse documento e por haver pago 2,5 milhões de pesos (cerca de R$2.500,00) para obter uma identidade colombiana, se confirmou que vinha cumprindo tarefas de espionagem na Colômbia. A Polícia Judicial de Migração à Colômbia e o Batalhão de Contrainteligência de Fronteiras do Exército Nacional o detiveram, em 20 de maio de 2020, em Madrid, Cundinamarca.
Dep Hernán Alemán.
Ainda que Olivares tenha jurado ser colombiano e dito viver na região, havia sido visto em centros comerciais de Bogotá e no Hotel JW Marriott (na zona financeira) seguindo o deputado Hernán Alemán, opositor ao regime de Maduro.
Nessa época, estavam preparando a Operação Gideão, um suposto golpe armado contra Nicolás Maduro, que este terminou infiltrando e desarticulando. Alemán, o homem a quem Olivares seguía, resultou ser um dos cérebros da frustrada incursão armada na Venezuela por parte de um grupo de mercenários.
Alemán morreu, dois meses depois, de Covid-19, e não se voltou a saber mais nada do espião, até alguns dias atrás.
Documento colombiano que o espião venezuelano Alejandro Olivares obteve mediante pagamento de 2,5 milhões de pesos.
Tiroteio e perseguição
O membro das FAES terminou envolvido em uma perseguição policial pela autopista Regional do Centro, no estado de Miranda (Venezuela).
No passado 10 de setembro, homens da Divisão Antirroubos do Corpo de Investigações Científicas, Penais e Criminalísticas (CICPC) o perseguiram e trocaram disparos com ele.
O espião, expulso da Colômbia há cerca de um ano, se mobilizava em um carro Chery, modelo Orinoco, de cor branca e sem placas.
Segundo o relatório oficial, Olivares terminou colidindo seu veículo contra um barranco na borda da via, próximo de um aterro sanitário conhecido como La Bonanza (cerca de 20 Km ao sul de Caracas).
Joedan Goudreau, o ex-marine, apareceu em um vídeo dizendo ser o cérebro da incursão militar na Venezuela.
¿Qué sabía Olivares?
Encontraram com ele uma pistola Glock e munição 9 milímetros. Aparentemente, Olivares perdeu o controle do veículo após receber vários impactos de tiros. O caso permaneceu sob reserva durante cinco dias.
Agora, ex-companheiros de Olivares, de 31 anos, estão indagando como ele deixou de ser um dos integrantes do regime nas tarefas de espionagem a opositores na Colômbia para ser um objetivo dos homens do CICPC.
Quando começaram a perguntar sobre o tema apareceu uma ordem de apreensão contra Olivares, expedida pelo 3º Tribunal de Controle, do estado de Zulia. Segundo o documento, ele era investigado por sequestro, desde agosto de 2012.
Porém, o cartão que o identifica como oficial das FAES, Adjunto da Base Territorial de Inteligência (BTI) do estado de Falcón, é posterior a esse processo.
De fato, seus ex-companheiros asseguram que é pouco provável que alguém seja perseguido e baleado por homens do CICPC por um caso de sequestro, e menos ainda se havia cumprido missões a serviço das FAES.

‘Sippenhaft’: tortura nazi
É claro que Olivares tinha informação importante. De outra maneira não se explica como passou mais de um ano na Venezuela sem que o detivessem, disse um ex-companheiro.
Um outro pergunta por que Olivares não foi detido por ocasião de sua expulsão pela Migração da Colômbia.
Por isso não duvidam em afirmar que Olivares pode ter sido silenciado. Para esclarecer o fato, agora, tentam localizar Herierv José Borja Pirona e Wilnelmary Lourdes Callejas, o casal de venezuelanos que foi detido e expulso da Colômbia junto com Olivares.
Wilnelmary Lourdes Callejas, Olivares e  Herierv José Borja Pirona foram detidos e expulsos.
Destacam que este caso pode estar vinculado às torturas e perseguições a que estão sendo submetidos cidadãos venezuelanos supostamente vinculados à Operação Gideão.
Francisco Cox, da Missão de Determinação de Fatos sobre Venezuela, da ONU, se referiu a esses padrões de violações de direitos humanos por parte do regime para silenciar a oposição.
Um documento dessa missão detalha que funcionários da Direção de Contrainteligência Militar (DGCIM) vem aplicando táticas de tortura nazi.
No item 73 do informe da missão se afirma que a perseguição da ditadura não se limitou às figuras opositoras: se concentrou, também, em seu entorno.
Testemunhas e vítimas dizem que agentes de segurança ou de inteligência presumivelmente utilizaram táticas criminais, incluindo o sequestro ou a detenção de membros da família de opositores reais ou supostos, para obter as prisões”.

O efeito Clíver
Clíver Alcalá, preso nos EUA
Um acusado de participar da Gideão disse que “o torturaram e disseram que aplicariam o sippenhaft: tática de castigo coletivo usada por nazis”: é a suposta responsabilidade familiar por um delito.
Autoridades dos Estados Unidos tem observado esses episódios e, nos próximos dias, se saberá se um dos implicados entregará informação relevante.
Se trata do capturado e extraditado general Clíver Alcalá, suposto cérebro de Gideão e sócio do falecido deputado Alemán nessa suposta conspiração.
Alcalá, investigado por fazer parte do ‘Cartel dos Sóis’, está pronto para chegar a um acordo de colaboração e a revelar o que se passou com a fallida operação e até onde ela foi manipulada por Maduro.

Leia também:
UNIDAD INVESTIGATIVA
u.investigativa@eltiempo.com
@UinvestigativaET
Fonte: tradução livre de El Tiempo
COMENTO: as atividades de espionagem não se deixam esmorecer na América Latina. Cabe aos nossos órgãos de Contrainteligência impedir que tais atividades forâneas sejam desenvolvidas em território brasileiro. Os interesses estrangeiros vão desde as riquezas existentes na Amazônia às rotas de tráfego ilícito de drogas, armas e munições, passando por operações obscuras com objetivos políticos.

sexta-feira, 30 de abril de 2021

História: Ferenc Vajta — O Espião Que Fugiu Para a Colômbia

O húngaro Ferenc Vajta chegou em meados do Século à Colômbia e se converteu em um reputado Acadêmico.
Era fichado pela CIA e pelo FBI.
por Jhon Torres — @jhontorreset
Na Bogotá dos anos 50, ainda provinciana e ardentemente católica, se movimentou nos mais importantes salões um ex-espião que, se os documentos de segurança gringos são corretos, escapou dos julgamentos contra criminosos nazistas, teve contatos secretos com o Papa Pío XII e com o General Charles de Gaulle para tentar frear o comunismo internacional; tentou montar um governo no exílio quando seu país foi absorvido pelo bloco soviético e, já na Colômbia, conspirou contra compatriotas seus aos quais acusava de serem agentes dos bolcheviques.
Ferenc Vajta — um dos membros da ‘legião estrangeira’ que em meados do século passado chegaram fugindo dos estragos da Segunda Guerra Mundial e que aqui encontraram uma nova vida como professores da Universidade dos Andes e outros destacados centros de educação — é lembrado como mecenas do teatro moderno, humanista que consagrou sua vida à academia, e como ‘salvador’ de centenas de seus compatriotas refugiados na Áustria.
Nascido em 1914, educado na Sorbonne de Paris e na Itália, poliglota e ex-diplomata, seu rastro foi se perdendo com a passagem das décadas. E, ainda, nos anos 50 e 60 foi protagonista de primeira linha na vida universitária, social e cultural de Bogotá, jornalista de temas internacionais, e até correspondente por breve tempo da prestigiosa revista Time. Isso na esfera pública.
Em segredo, era objeto de um minucioso seguimento da Inteligência e Embaixada dos Estados Unidos, e informante desse governo e de agencias de segurança nacionais. Até sua morte, no final dos 60, foi um intenso lobista ante Washington, visando cancelar a marca de criminoso de guerra que o impediu de cumprir o plano de viver no país do norte e dirigir desde ali sua ‘cruzada contra o comunismo’.
Tudo isso é o que contam centenas de relatos secretos da poderosa Agencia Central de Inteligencia (CIA) que vem sendo desclassificados desde os anos 80. Vários deles foram recolhidos em livros e versões de imprensa publicados nos EUA que denunciavam como a Casa Branca fez vistas grossas frente a dezenas de reconhecidos nazistas que buscaram refúgio em todo o hemisfério.
O quadro que a CIA pintava de Ferenc Vajta era bem diferente do que se conheceu na Colômbia e que pouco mudou apesar de que, marginalmente, até aqui tenham chegado os ecos de seu passado. Inclusive conhecendo os rumores, poucos haviam imaginado que o homem corpulento, de nariz grande e cabelo negro engomado, que em 1957 foi um dos impulsores do primeiro Festival Nacional de Teatro (que se realizou no Teatro Colón), tivesse uma vida secreta. Um lado obscuro que, segundo a CIA, incluía além de seu passado nazi, capítulos como agente da Hungria, França, Vaticano e até mesmo dos EUA, e também a entrega de um tesouro de ouro na Áustria para evitar ser julgado e até fuzilado pelo que fez durante a guerra.

Primeiro ato: A guerra e o ouro
Ferenc Vajta é um jornalista húngaro e criminoso de guerra (...) Ex-cônsul em Viena antes da ocupação russa, escapou da custodia americana para a zona francesa em junho de 1945. Nove solicitações diferentes foram feitas para sua entrega a nossas tropas, diz um relato da CIA de março de 1952. Segundo o oficial norte-americano que o capturou, “Vajta deu aos franceses informação que foi usada para recuperar seis toneladas de ouro puro. Como recompensa, foi recrutado como informante pelas forças francesas de segurança”. O ouro e também uma carga de diamantes, agregam os documentos, provinha de fundos públicos húngaros que os governantes haviam movimentado para Áustria durante a guerra, como seguro se tivessem que sair fugindo de Budapeste (como de fato ocorreu), e que caíram nas mãos dos aliados após a derrota nazista. O informe assinala que, “apesar da promessa francesa de entrega-lo, isto não foi cumprido” e, pelo contrario, “o ajudaram ou lhe permitiram escapar para Itália”.
¿Quais eram as acusações contra ele? Segundo os arquivos desclassificados, Ferenc Vajta — que se apresentava publicamente como um perseguido pelo comunismo e atribuía aos russos e a seus aliados na Hungria uma suposta montagem contra ele — era conhecido em sua nação como uma especie de ‘campeão’ da causa hitleriana através de seus escritos periodísticos: “Seus artigos glorificavam os nazis. Em abril de 1943 fundou o jornal AZ Orszag, um panfleto semi-oficial do Ministério do Exterior húngaro que chamava o povo a unir-se ao lado alemão”.
Em 1944, o regime de Miklós Horthy, alinhado com a Alemanha, começou a debilitar-se e Hitler decidiu enviar suas tropas a Budapeste. E em setembro daquele ano, quando se descobriu que Horthy buscava um acordo secreto com os aliados ante a iminente derrota do Eixo, a ala radical nazi deu um golpe de Estado que pôs no comando a Ferenc Szálasi, de quem Vajta era muito aproximado. E não só seguiu publicando seu periódico, mas meses depois foi nomeado cônsul em Viena, a segunda capital do Terceiro Reich. A explicação do salto de jornalista a diplomático foi dada por  outra nota da CIA: “Em novembro de 1944, o avanço das tropas russas ameaçou engolir toda a Hungria. O governo de Szálasi estava pronto para fugir para Viena. Nesta situação, significativamente nomeou Vajta como primeiro cônsul húngaro na Áustria”. Ali se instalou em uma “suntuosa vila” apontada pelos alemães.
Sobre o que fez Vajta na Áustria há duas versões. A dele, segundo cartas enviadas desde Bogotá a altos funcionários dos EUA, pedindo ajuda para que revisassem seu caso, era esta: “Nunca fui nazi (...) Aceitei o consulado em Viena para atender o problema dos refugiados húngaros que saíram quando os russos cercaram Budapeste (...) Em abril de 1945, pouco antes do fim da guerra, contamos cerca de 400.000 refugiados. Trabalhei algumas vezes entre 14 e 16 horas ao dia e ainda assim não era suficiente para atende-los”. E argumentava: “No crescente caos (os aliados bombardeavam diariamente as linhas férreas austríacas) não era possível achar uma adequada solução para todos, mas fizemos o que pudemos. Se eu aceitei minha nomeação em Viena o fiz somente porque queria ajudar os húngaros a escapar”. Também assegurava que não só ele, senão todo seu país, havia estado do lado alemão durante a guerra, e que seu crime era assistir a seus compatriotas, sem importar qual era sua ideologia, quando fugiram “do paraíso comunista”. Quase as mesmas palavras com que foi apresentado um artigo seu sobre ‘Problemas europeus’, publicado na revista da Universidad Javeriana de Bogotá em 1950: “Vajta, um jovem diplomata húngaro residente atualmente na Colômbia e professor de vários centros de educação, desempenhou o consulado de sua pátria em Viena e desde esse cargo procurou auxiliar a numerosos compatriotas seus, vítimas da perseguição marxista”.

Segundo ato: a fuga
A CIA contava outra historia. Em 1949 seus agentes na Europa enviaram relatos como estes a Washington: “Em geral, a historia de Vajta é a de um húngaro fascista com conexões com os nazis antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
Os arquivos revelam que foi reportado como agente do serviço secreto húngaro em Roma, Belgrado e Istambul e que seus serviços foram importantes para a Gestapo nesse tempo (...) É culpável de atrocidades de guerra como o envio, durante o regime de Szálasi, de 20.000 judeus húngaros que foram forçados a marchar de Budapeste a Viena. Durante essa marcha, mais de 6.000 pereceram”. E sobre o que lhe teria acontecido se não houvesse escapado com a ajuda dos franceses, o aviso secreto é contundente: “Teria sido, com toda probabilidade, imediatamente fuzilado se houvesse caído em mãos de soviéticos”.
Outro despacho assinala que os norte-americanos estavam prontos para envia-lo ao tribunal de Nüremberg ou ao do Povo da Hungria — que julgavam os criminosos de guerra — quando fugiu e apareceu protegido pelos franceses. Martin Himmler, do Exército dos Estados Unidos, testemunhou que Vajta havia enviado judeus húngaros para os campos de concentração na Áustria e que em seu poder foram achados bens esbulhados:No começo do cerco de Viena desapareceu com o tesouro (húngaro na Áustria) e outros bens valiosos como tapetes e objetos de arte, além dos valores de seu escritório. Quando foi preso pelos americanos, algumas das propriedades roubadas foram achadas em sua casa”. Ele, por seu lado, sempre acusou a Himmler de inventar as provas que o indiciavam.
Naquela época, recém finalizada a guerra, Colômbia não figurava para nada nos planos de Ferenc Vajta. Os documentos desclassificados da CIA o localizavam, após a fuga da Áustria, na Itália; ali foi recebido pelo círculo mais próximo ao papa Pio XII, cujo papel na guerra segue gerando polêmica porque muitos consideram que não fez o suficiente contra o genocídio. Seu sócio em Roma era um jesuíta também húngaro que, como ele, veio se acomodar em Bogotá poucos anos depois: Nyisztor Zoltan, então chefe de imprensa do Vaticano e também com fama de pró-nazi.
Na Itália, Vajta foi um dos promotores do Parlamento Húngaro no exílio e fundou um periódico, Salve Hungría, que atacava de frente o novo governo comunista de seu país. Ali foi preso pela segunda vez, acusado por crimes de guerra. 
Graças a seus contatos, assinala o arquivo da CIA, foi liberado pela segunda vez, mas o advertiram para que se fosse porque não poderiam protege-lo de novo. E lhe facilitaram tudo para viajar ao reduto fascista que restou na Europa após a guerra: a Espanha de Franco. Segundo se percebe, Vajta conhece muito das atividades da Inteligencia francesa na Áustria, mas parece irritado com eles porque não cumpriram as promessas que lhe fizeram. Também parece irritado com os britânicos porque não o defenderam (...) Vajta se ofereceu para trabalhar com os italianos se eles garantissem sua segurança pessoal, notificou a Agencia. Entre a queda de Viena, em 1945, e sua nova prisão, Vajta teve contatos com achegados ao herói da Resistência francesa, o general De Gaulle, pois Paris supostamente via nele uma figura chave para fazer contrapeso ao comunismo húngaro. Esses contatos, sem dúvida, cessaram com a mudança de governo na França, em 1946.
Na Espanha foram documentadas reuniões com funcionários do regime do ‘Generalíssimo’ e com o controvertido arcebispo de Toledo, Enrique Plá y Deniel, um dos líderes mais ultraconservadores da Igreja católica. Também contatou a embaixada dos Estados Unidos com a oferta de estabelecer em Madrid o ‘Centro Anticomunista da Europa Ocidental’. Os informes dizem que “aparentemente tinha uma grande soma de dinheiro a sua disposição, aparentemente originada no Vaticano”. Nessa época era um dos cabeças de um movimento chamado Intermarium, de extrema direita, que congregava varias forças anti-soviéticas.
Em dezembro de 1947, com visto yankee apesar de seus antecedentes e acompanhado por um vice-cônsul americano, voou de Madrid a Nova York. Sua ideia, dizem os documentos, era “contatar os exilados húngaros” para uni-los a seu movimento. Mas em janeiro de 1948 estourou o escândalo por seu ingresso em território americano; e ele foi preso e confinado na ilha Ellis. Como a Hungria comunista nunca respondeu para que fundamentassem as acusações de guerra contra Vajta, ao final, decidiram deporta-lo sob o motivo de ser considerado “prejudicial aos interesses dos Estados Unidos.

Terceiro ato: preso nos EE.UU.
Passou quase 26 meses detido. Então, é quando aparece pela primeira vez a Colômbia no mapa de Ferenc Vajta. ¿Como aconteceu isto? Nos anos 80, com milhares de documentos desclassificados pela primeira vez desde os anos 40, a imprensa norte-americana acusou o Vaticano de Pio XII de haver realizado uma enorme operação de movimento clandestino de fascistas e nazistas para a América Latina. As opções para o húngaro eram ser enviado a Itália (que se negou a recebe-lo) ou a seu país natal, onde o esperavam para julga-lo; mas ele alegou que sua vida estava em perigo. E, já com a expulsão decidida, surpreendeu ao pedir que o enviassem a Bogotá, uma cidade que nunca havia mencionado em seus escritos. Inclusive, informou que já tinha passagem da Avianca para 5 de fevereiro de 1950. 
Nunca se estabeleceu claramente como ele foi aceito pelo Governo colombiano, que seguía "ao pé da letra" as diretrizes de Washington em matéria de assuntos exteriores e certamente não teria recebido a ninguém de seu perfil sem um tranco americano. Vajta pode ter recebido ajuda de Pat McCarran, senador democrata de Nevada e um dos mais beligerantes anticomunistas do congresso dos Estados Unidos. McCarran, como muitos outros, acreditava que em plena Guerra Fria o inimigo era Moscou e que os antigos nazis podiam ser valiosos aliados. E é muito significativo que, na mesma época, monsenhor Nyistor Zoltan, seu contato no Vaticano, preparava as malas para vir ao país.
Após serem notificados de sua chegada, os oficiais da embaixada em Bogotá o apelidavam de “personagem indesejável” e avisaram a Washington que iam seguir sua pista, coisa que fizeram por anos. Os informes secretos não só chegaram à CIA mas também a J. Edgar Hoover, o quase eterno diretor do FBI.
Seus antecedentes não eram desconhecidos para o governo conservador da época. A embaixada reportou um Informe da Inteligencia colombiana que destacava o seguinte: Um documento da Polícia Nacional, Chefia de Segurança, datado de 27 de novembro de 1951 assinado pelo funcionário Manuel Antonio Orduz Duarte e dirigido ao dr. Pablo Jaramillo Arango, ministro encarregado da carteira de Governo, diz que o professor Vajta foi membro do serviço secreto francês em Innsbruck e finalmente do serviço secreto norte-americano na Colômbia”. E outro aviso, datado em Bogotá a 2 de março de 1950, resenha uma conversação entre Robert Newbegin, então conselheiro da Embaixada, e o dirigente liberal Álvaro García Herrera: “García disse que se subentende que essa pessoa (Vajta) está agora na Colômbia e que o Governo considera usá-lo em conexão com a polícia secreta (...) García expressou sua preocupação porque uma pessoa com o passado de Vajta possa influenciar em que os liberais sejam tratados de maneira brutal”. Preocupação que, por certo, nunca teve um piso real.

Quarto ato: um espião no país
O que se acredita é que Vajta seguiu, durante seus anos no país, com a ideia de sua cruzada anticomunista. A CIA revelou que ele e o monsenhor Zoltan acusaram ante a embaixada e ante o serviço secreto colombiano a outro professor húngaro, Jorge Kibedi, que havia chegado ao país em 1950 para trabalhar com a Universidade Javeriana e fez parte da Missão de Planejamento que modernizou Bogotá.
Em uma ficha sobre Kibedi que chegou a Washington, são mencionados todos seus dados (inclusive o endereço de sua casa no antigo bairro Sears de Bogotá) e as acusações que seus dois compatriotas fizeram indicando-o como suposto espião da União Soviética. Nessa época estava vigente uma norma que proibia “a atividade política do comunismo internacional” porque — destacava — “dita atividade atenta contra a tradição e as instituições cristãs e democráticas da República, e perturba a tranquilidade e o sossego públicos”. Ser comunista dava cadeia de 1 a 5 anos em uma colonia penal.
Em abril de 1951, a embaixada reportou a Washington quemonsenhor Zoltan afirmou que Kibedi levou a cabo uma missão de espionagem internacional para o governo comunista de Budapeste e que esteve sob vigilância da polícia secreta espanhola, que descobriu contatos com comunistas estrangeiros.
O mesmo documento diz que Vajta assegurava que Kibedi e seu irmão Irving, “que também está em um país de Sul-americano, eram agentes comunistas”: “Vajta está convencido de que Kibedi é um agente da Russia e que está levando a cabo uma missão de espionagem na Colômbia”. A foto de Kibedi que acompanha o relatório foi confirmada pelo próprio Vajta.
A mesma versão terminou em mãos do general do Exército Régulo Gaitán, um dos ‘duros’ da segurança colombiana da época. O Governo ordenou interceptar a correspondência de Kibedi e seguir todos seus movimentos e os de sua família. Finalmente optaram por deporta-lo do país sob a imputação de promover o comunismo.A expulsão de Kibedi foi resultado dos esforços de Ferenc Vajta”, diz outro comunicado dos EUA. Que acrescenta: “A vigilância ao correio de Kibedi pela Polícia indicou um sustancial volume de correspondência sobre temas sociais e laborais, mas as autoridades nunca encontraram uma prova concreta de conexões comunistas”.
A expulsão do professor da Javeriana, em 1952, foi um escândalo nacional que pôs parte da Igreja colombiana em choque com o Governo. Vajta, em uma conversação com a embaixada, se queixava de que os estilhaços de seu papel neste caso lhe haviam fechado varias portas:O sujeito ainda ensina ciências sociais na Universidade dos Andes, em Bogotá (...) Recentemente tentou complementar sua renda obtendo um cargo de professor na Universidade Nacional, mas não conseguiu. O motivo dado por Vajta é que líderes da Igreja católica o bloquearam por suas atividades contra Kibedi”. Este se instalou no Chile e se converteu em um dos dirigentes sindicais mais importantes do continente.
Nessa época, Vajta começou a escrever para a revista Semana, na seção Internacional, e era frequentemente consultado por seus conhecimentos da situação europeia. Ensinava, também, historia francesa em um colégio para moças, e seu radical discurso anticomunista começava a gerar muitos ruídos.

Doc 1: Bogotá, Abril de 1952
"O Quartel General foi avisado pelo Serviço de Imigração e Naturalização que Ferenc Vajta, que foi deportado dos Estados Unidos em 5 de fevereiro de 1950, é um sujeito indesejável devido a suas atividades relacionadas com os nazis durante a Segunda Guerra Mundial; deseja insistir para obter seu visto para os Estados Unidos. Com essa intenção escreveu ao senador McCarran afirmando que deseja voltar aos EUA para "continuar" sua luta contra os comunistas". Vajta pediu ao senador McCarran, que é presidente do Comitê Judicial, para que o Comitê o ajude a revisar seu caso de Imigração, aparentemente para obter reivindicação moral e para que o senador o ajude a ser readmitido (...) Em sua carta ao senador, Vajta caracteriza a Martin Himmler, que foi a principal testemunha dos Estados Unidos no processo de deportação, como "um húngaro nascido em  Hungria no Serviço Secreto e antigo comunista".


Doc 2: Hungria, 5 de dezembro de 1945
"Ferenc Vajtga é um jornalista húngaro e criminoso de guerra que escapou de uma prisão americana na Áustria. Esteve em Roma em novembro e viaja rumo a Paris. Seus amigos em Roma foram informados por ele mesmo de que discutirá seus planos para a restituição do antigo regime húngaro com o general De Gaulle. Vajta espera um papel principal no planejamento e execução dos planos franceses sobre Hungria(...)"


Doc 3:
Bogotá, 23 de junio de 1952 
"A expulsão de (Jorge) Kibedi (da Colômbia) é principalmente resultado dos esforços de Ferenc Vajta (...) As suspeitas também foram alimentadas por um importante jesuíta húngaro em Bogotá. A vigilância do correio de Kibedi pela Polícia encontrou um importante volume de correspondência sobre assuntos sociais e trabalhistas. As autoridades nunca obtiveram uma prova concreta de conexões comunistas (...)".


Doc 4: 
Bogotá, 23 de fevereiro de 1954 
"O sujeito regressou a Colômbia em janeiro de 1954 e está de novo ensinando na Universidade dos Andes e em uma escola. Assegura que não há nada que fazer, mas que fará o melhor na situação e esperará uma oportunidade mais favorável para regressar a França (...) Vajta crê que seu fracasso para obter o visto francês é consequência de que seu nome ainda aparece em uma lista negra elaborada imediatamente depois da guerra quando as influencias dos comunistas cresceram no governo francês (...)"

Doc 5: 
Bogotá, 18 de fevereiro de 1956 
"Em 17 de fevereiro de 1956, o Consulado notificou que o sujeito Ferenc Vajta está se esforçando por um visto (para os Estados Unidos). "(Nome omitido no documento) assegura que o sujeito é o mais anticomunista (...), muito inteligente, tem um amplo número de conexões no país e fala bem cinco idiomas. Ele pensa que o sujeito foi um húngaro pro-nazi e que provavelmente ainda guarda sentimentos pro-nazis".

Doc 6: 
Bogotá, 1950. 
Carta ao senador Pat McCarran
A carta:  "Eu deportei a mim mesmo" 
"Sou Ferenc Vajta, um antigo cônsul húngaro, que durante a última Guerra Mundial supostamente ajudou a Hitler a "assassinar milhões de pessoas indefesas" e que supostamente é o grande responsável pelo massacre de pilotos americanos na Hungria (...) Tenho 36 anos, não tenho uma nação, sou um jornalista de profissão e vivo na Sul-America (...) Cheguei livremente, em um voo, e no aeroporto havia alguns velhos e queridos amigos que me receberam. Exceto eles, ninguém sabe aqui quem sou e por que escolhi este país para 'reiniciar' minha vida. Estou vivendo em uma humilhação constante e rara vez tenho um momento no qual realmente não deseje esquecer tudo. Desperto cada dia com a decisão de, a partir desse momento, não recordar nunca mais meu passado, mas até as coisas de minha rotina tornam impossível que possa matar minhas recordações (...) Meus problemas, a humilhação na ilha Ellis, minha própria deportação de um país que amo (e o que é pior, que sigo amando com todo meu coração) nunca permitirão romper essas correntes invisíveis que me atam com incrível força. Antes de sair da cela 222 da Ilha Ellis, nunca imaginei, nem por um momento, que na verdade não existe liberdade para um homem cuja honra tenha sido arruinada (...) "Em abril de 1944, quando os alemães ocuparam a Hungria, eu era um simples editor de noticias que defendia os judeus e exigia um tratamento mais humanitário para eles, e ainda hoje, depois de tudo que passei, não me arrependo do que fiz, não lamento te-los defendido. É tudo o que tenho que dizer a esses que tratam de fazer propaganda de anti-semitismo com meu caso. Mas também é natural que eu lute e trate de lutar sempre para que me façam justiça. Do contrario nunca terei paz".

Quinto ato: o solitário mecenas do teatro
¿Quantos sabiam de sua historia na Universidade dos Andes? Não há nenhuma evidencia de que houvesse, por parte dos Estados Unidos, alguma entrega de informação nesse sentido. Nos documentos só aparece uma conversação de um funcionário da embaixada com Frans Von Hildebrand, um dos mais destacados professores daquela universidade e cuja família teve que fugir da Alemanha de Hitler em 1933 por sua pública oposição ao projeto totalitário.Hildebrand diz que não aprova as ideias políticas defendidas por Vajta no passado, mas diz que o sujeito parece estar por fora de atividades políticas na Colômbia tem certeza de que ele não tem recebimentos diferentes dos que recebe da universidade”, informa um relatório de 1953. O biólogo Martin von Hildebrand, filho do professor, descreve Vajta como “um homem de aparência triste e que dava a impressão de que sofria muito”. Era recebido na casa de seu pai como outros muitos professores dos Andes vindos da Europa, entre eles muitos judeus. “Às vezes, algumas pessoas perguntavam ao meu pai como podia tolerar a Vajta, tendo o passado que tinha. Ele dizia que não podia julgar uma pessoa por uma decisão de estar no lado equivocado que todo um povo havia adotado. Mas não creio que meu pai nem os outros conheceram em profundidade a sua historia”, disse o reconhecido antropólogo e diretor da Fundação Gaia.
O grande ator Kepa Amuchastegui, que estudou nos Andes nos 60, via Vajta indo tomar o chá na casa dos Von Hildebrand. “Era intelectualmente muito respeitado (...) Não tratei muito com ele porque era de outra geração, mas era uma figura reconhecida, mais porque estava muito vinculado ao mundo do teatro”, assinala. Também recorda que em voz baixa diziam que havia defendido ideias nazis, mas diz que sempre foi mais um rumor que um questionamento concreto.
Durante duas décadas, Ferenc Vajta seguiu tentando, sem êxito, conseguir um visto dos Estados Unidos para “reivindicar” sua historia. Em uma carta que titulou ‘Eu deportei a mim mesmo’, escrita em Bogotá, assegurava que “ainda se sentia prisioneiro” por ter que carregar uma fama de nazi que, segundo ele, foi invenção de seus inimigos comunistas e judeus: “Não há liberdade para um homem cuja honra tenha sido arruinada”, dizia. E em sua defesa escreveu que quando a Áustria foi ocupada pelos russos, ao final da guerra, ele foi “imediatamente trabalhar com a Inteligencia francesa para organizar um centro anticomunista”. Ele escreveu a congressistas republicanos e democratas e até pediu aos gringos que o contatassem durante uma viajem à Europa, no começo de 1954, para concretizar seu plano de criar uma comunidade de exilados contra Moscou. 
Se eu puder me colocar de acordo com os serviços (secretos) dos Estados Unidos e trabalhar com eles, somente eu serei responsável por minha vida. Como não sou um covarde, não estou interessado em meu futuro e não me importa se devo pagar com minha vida por minha futura missão”, escreveu à embaixada em Bogotá antes de viajar. A CIA recebeu cada carta sua, mas ninguém chegou a procura-lo.
Nos 90, o mesmo estigma caiu sobre Gerardo Reichel-Dolmatoff, o austríaco que foi o 'pai' da antropologia na Colômbia e herói da França na guerra de Resistência contra os alemães, quando se revelou que em sua juventude havia servido nas temíveis SS de Hitler.
Vajta terminou regressando a sua vida de professor na Colômbia apesar de outro relato, dizer que “estava totalmente entediado” no país, que “não tinha interesse em seu trabalho atual” e estava desesperado por voltar à Europa. 
Em 1956, por pouco tempo, foi nomeado correspondente da revista Time. E a mesma Embaixada advertiu o Departamento de Estado para contatar os editores nos EUA e os advertir sobre seu perfil. O episódio durou um mês e, em abril do mesmo ano, o diário Intermedio (a versão de El Tiempo durante a ditadura de Rojas Pinilla) informou que “o professor Ferenc Vajta renunciou a seu cargo como correspondente”, pois “devido a suas atividades universitárias não podia dedicar suficiente tempo à revista”. A embaixada havia sido informada dias antes de que em Time tomaram nota “do histórico do sujeito” e que “estavam dispostos a fazer uma mudança em vista da informação” que haviam recebido.
A partir desse momento — ainda que até o final de seus dias insistiu em pedir visto aos Estados Unidos, que foi negado todas as vezes —, o professor Vajta pareceu dedicar todos seus esforços em promover a cultura colombiana, especialmente os nascentes projetos de teatro moderno. Em 1957, com recursos que ele mesmo obteve entre a comunidade diplomática acreditada no país, foi um dos organizadores do Festival Nacional que ocorreu ano após ano até 1963 no Teatro Colón, ao lado de figuras como Gloria Zea, Ramón de Zubiría e o maestro Bernardo Romero Lozano. Desse experimento cultural começaram a surgir grandes figuras como Enrique Buenaventura, Carlos José Reyes e Santiago García, entre outros. Também foi muito próximo ao grande poeta Eduardo Carranza e, apesar do anticomunismo que corria em suas veias, apareceu, em 1960, acompanhando Orlando Fals Borda e ao padre Camilo Torres na criação da famosa faculdade de Sociologia da Universidade Nacional.
O maestro Reyes, que o conheceu no começo daquela década, recorda de Vajta promovendo ativamente a discussão sobre os temas que se tratavam nas obras de teatro do Festival: Conhecia muito bem o teatro europeu e apoiou projetos de escolas colombianas que estavam iniciando. Chegou até a sustentar várias apresentações com recursos próprios, ou os que obtinha com seus contatos nas embaixadas. Reyes também ouviu os rumores sobre o passado do professor da los Andes, mas garante que nunca o escutou defender ideias extremistas e que jamais censurou alguma obra, por mais ‘tirada’ à esquerda que fosse. “Sempre era visto com ar doutoral, muito acadêmico, mas muito respeitoso”, diz. Por essa época, inclusive, aparecia na Radio Nacional, com seu espanhol marcado pelo forte acento centro-europeu, comentando as adaptações teatrais em companhia de famosos como Gloria Valencia de Castaño. 
Ainda que tenha chegado com sua esposa e um filho ao país, Ferenc Vajta morreu só no final dos anos 60. Seu corpo foi encontrado vários dias depois, segundo relatos da época. Foi um epílogo dramático para um ator de primeira linha na Segunda Guerra Mundial que terminou sua existência em um país, Colômbia, em que nunca pensou viver mas ao qual dedicou as últimas duas décadas de sua existência. E até o final, em segredo, tratou de mudar o bordão que o perseguiu até depois de sua morte: “o único nazista a ser deportado dos Estados Unidos”, comentou o ex-promotor norte-americano Allan A. Ryan, que investigou e perseguiu nazis que emigraram para aquele país e escreveu vários livros sobre os criminosos de guerra que conseguiram uma segunda oportunidade sobre a terra ao fugir para a América.

CRÉDITOS:
— Diretor do Especial: Jhon Torres, Editor de Mesa Central 
— Desenho Digital: Sandra Rojas
— Diagramação: Carlos Alberto Bustos
— Editor de Multimídias Especiais: José Alberto Mojica
Fonte: tradução livre de  El Tiempo

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Cinco Coisas Que Talvez Não Saibas Sobre o "Dia-D".

por Katie Lange 
D-Day. A invasão da Normandia. Operação Overlord. Isso pode ter vários nomes, e todos nós temos ouvido algo sobre ele através de aulas de história, avós, notícias ou programas como "Band of Brothers".
Um LCVP do USS Samuel Chase desembarca tropas na manhã de 6 de junho de 1944, na praia de Omaha.
06 de junho de 1944, foi a data em que mais de 160.000 militares aliados desembarcaram na França ocupada pelos nazistas como parte da maior invasão de ar, terra e mar já realizada. Ela terminou com pesadas baixas  mais de 9.000 soldados aliados foram mortos ou feridos nos primeiros 24 horas — mas o Dia D é amplamente considerado o início bem sucedido do fim do regime tirânico de Hitler.
A bravura dos paraquedistas e soldados que invadiram a Normandia naquele dia é bem conhecida, mas há um monte de coisas que você pode não saber sobre o "D-Day". Aqui estão algumas dessas pérolas:

1 - Porque é chamado "D-Day":
O General Dwight D. Eisenhower dá as ordens para o D-Day - "vitória completa, nada mais" - para os paraquedistas na Inglaterra pouco antes de embarcarem em seus aviões para participar no primeiro assalto na invasão da Normandia. Foto dos Arquivos Nacionais
Você realmente sabe o que "D-Day" significa? Aparentemente é a pergunta mais frequente no Museu Nacional da II Guerra Mundial, mas a resposta não é muito simples. Muitos especialistas têm opiniões diferentes, incluindo que a "D" simplesmente significa "dia", um código usado para qualquer operação militar importante. Outros disseram que é apenas aliteração, como "H-Hour", quando um ataque militar começa.
Enquanto o verdadeiro significado permanece em debate, vejamos o que disse o General Dwight D. Eisenhower a respeito, através de seu assistente executivo, Brig Gen Robert Schultz: "Esteja ciente de que qualquer operação anfíbia tem uma 'data de início'. Por isso, o termo abreviado 'Dia D' é usado. Ele disse, ainda, que houve, na verdade, vários outros D-Days durante a guerra  o da Normandia foi apenas o maior e melhor conhecido.

2 - O Dia-D inicialmente foi fixado para a véspera:
Soldados do 16º Regimento de Infantaria do Exército, feridos no assalto a Omaha Beach, esperam pela evacuação para um hospital de campanha para o tratamento depois do Dia D.  Foto: cortesia do Centro de História Militar
Vários requisitos relacionados com o clima foram necessárias para desencadear o D-Day. No dia precisava ter bom tempo para o uso máximo do poder aéreo; uma lua quase cheia era necessária para ajudar a orientação de navios e tropas aerotransportadas; e a maré tinha que ser forte o suficiente para expor obstáculos da praia na maré baixa e flutuar os veículos de transporte, cheios de pessoal e suprimentos, até a praia durante a maré alta. A definição da "H-Hour" também era fundamental na medida em que os momentos dessas marés estarem subindo deviam ser usados para o desembarque. Também havia que ter uma hora de luz do dia de antemão para haver precisão no prévio bombardeio.
Apenas nove dias em Maio e Junho pareciam se encaixar nesses requisitos, então os Comandantes decidiram-se por 05 de junho; no entanto, graças a previsões que mostravam uma pequena janela de tempo bom em 6 de Junho, o general Eisenhower decidiu de última hora mudar o Dia D para as primeiras horas naquele dia.

3 - Os EUA só atacaram duas das cinco praias invadidas:
Mapa cortesia de US Army Transportation Museum
Histórias de como as tropas americanas invadiram as praias da Normandia são lendárias, com os nomes de Omaha e Utah destacando-se na mente das pessoas. Mas a invasão se estendeu a mais de 50 milhas de terra, portanto, os norte americanos não poderiam fazê-la sozinhos. Três outras invasões de praia por tropas aliadas aconteceram simultaneamente: Grã-Bretanha e algumas forças menores invadiram praias do Ouro e da Espada, enquanto os canadenses atacaram Juno Beach.

4 - Foi quase uma falha tática:
Os membros de um grupo de desembarque  ajudam outros membros do ataque cujas embarcações de desembarque foram afundadas por ação inimiga na costa da Normandia. Os sobreviventes chegaram a Omaha Beach usando um bote salva-vidas. Foto de arquivo
Embora o objetivo final de libertar a França e expulsar os alemães tenha acontecido, muitas coisas deram errado no Dia D  especialmente para os norte-americanos, que foram os primeiros a lançar a invasão.
Muitos paraquedistas norte-americanos morreram durante a seu lançamento atrás das linhas inimigas em Utah Beach, tendo sido baleados ainda na descida por fogo inimigo ou se afogado ao cair com suas pesadas equipagens em pântanos alagados. Muitos também perderam seus pontos de destino graças aos ventos, assim como alguns desembarques marítimos ocorreram a mais de uma milha do destino previsto, em função das fortes correntes.
A ofensiva em Omaha acabou por ser a mais sangrenta do dia, em grande parte por causa de Inteligência do Exército ter subestimado a fortaleza alemã lá existente. A forte rebentação causou enormes problemas para os tanques anfíbios lançados no mar; apenas dois de 29 chegaram à costa, enquanto que muitos dos Soldados de Infantaria que saltavam fora dos barcos eram mortos, alvejados facilmente pelos alemães. Gen Omar Bradley, que liderou as forças em Omaha, chegou a pensar em abandonar a operação.
No entanto, ao final, ambos os setores de tropas dos EUA conseguiram avançar suas posições para o sucesso global.

5 - Decifrar o "Enigma" ajudou a vitória:
Uma máquina de decriptografia, chamado de "Bombe". Ela foi feita pela National Cash Register of Dayton, Ohio e eliminou todas as criptografias possíveis a partir de mensagens interceptadas   Força Aérea foto



Decodificar a grande máquina de códigos alemã, conhecida como Enigma, e manter essa possibilidade de decodificação em segredo, foi uma das estratégias mais brilhantes que surgiram da Segunda Guerra Mundial.
Para encurtar a história, uma vez que o rádio era a comunicação padrão daqueles tempos, ambos os poderes, Aliados e do Eixo necessitavam máquinas para transformar mensagens e planos militares em códigos secretos. Os alemães tinham a "Enigma", que foi planejada para ser indecifrável — mas não era. No início da guerra, uma equipe de especialistas britânicos e poloneses  liderada por Alan Turing, cuja vida e obra são retratados no filme premiado com o Oscar "O Jogo da Imitação"  quebraram o código através de um trabalho que se tornou a base para o computador moderno.
Em vez de anunciar ao mundo sobre a descoberta, os líderes da equipe concluíram que o dispositivo seria mais útil se fosse mantido em segredo. 
Uma máquina SIGABA e seus
 controles
. Crypto Museum
Assim, durante anos, os planos alemães foram tolhidos pelas mensagens decifradas, inclusive sobre o Dia-D. Autoridades disseram que as mensagens alemãs interceptadas antes do Dia-D identificaram precisamente quase todas as unidades de combate alemãs na região da Normandia. No próprio D-Day, elas — as mensagens alemãs — também ajudaram os Comandantes aliados acompanharem o progresso dos seus soldados de forma mais rápida do que através de seus próprios canais de comunicação.
Quebrar os códigos alemães, e mais tarde os dos japoneses, provou ser uma enorme vantagem para os aliados. Embora eticamente controverso pelo seu sigilo, ao processo de decodificação tem sido amplamente creditado salvar centenas de milhares de vidas e encurtar a guerra por quase dois anos.
Ah, e por falar nisso, os militares dos EUA desenvolveram o seu próprio código de máquina criptográfica — SIGABA — antes de entrar na guerra.
Aparentemente, ninguém ainda foi capaz de quebrar seu código.

Se você desconhecia alguma dessas coisas até de hoje, agora você já sabe! De qualquer forma, não esqueça daqueles que deram suas vidas naquele 6 de Junho para ajudar a garantir um futuro melhor para todos nós.
Fonte: tradução livre do Dep Defesa dos EUA
COMENTO: Mesmo depois de tanto tempo, vendo essas escarpas e imaginando as dificuldades para escala-las, não há como não reverenciar a coragem dos milhares de jovens que as enfrentaram e venceram, servindo como alvos fáceis e vendo seus camaradas morrerem sob fogo inimigo.