sábado, 10 de janeiro de 2026

2026: Sobrevivência ou Liberdade?

Por Leandro Ruschel
Uma das características humanas mais prevalentes é a adaptabilidade.
Essa característica traz consequências positivas e negativas.
A consequência positiva é a capacidade de sobreviver em qualquer ambiente, especialmente do ponto de vista psicológico.
A consequência negativa é a acomodação — ou seja, a aceitação de uma situação cada vez mais desfavorável.
No caso brasileiro, o problema é ainda mais grave, porque a destruição do país aconteceu aos poucos. Somos o sapo sendo cozido em fogo baixo.
Primeiro, foram degradando os padrões morais e subvertendo a Justiça, que passou a tratar bandidos como “vítimas da sociedade” e as verdadeiras vítimas como “opressores”, produzindo uma sociedade disfuncional e estimulando a explosão da criminalidade, do topo à base da pirâmide social.
Para conter a revolta da parcela decente da sociedade, o establishment retirou nossas liberdades básicas, criminalizando qualquer oposição.
E não foi de um dia para o outro.
Foi um processo lento, ao longo dos últimos sete anos. Primeiro, veio a censura para combater as “fake news” e o “discurso de ódio”.
Depois vieram as prisões para “proteger as instituições” e “defender a democracia”. Em paralelo, a elite envolvida no saque ao país, exposto na Lava Jato, foi na prática anistiada e consolidou o poder, enquanto seus opositores foram criminalizados sob a acusação de “tentativa de golpe”, numa inversão completa da realidade.
A devastação moral provocada pela passada de borracha em um dos maiores escândalos de corrupção do mundo é incalculável — e vai muito além da simples normalização do desvio de recursos públicos como algo inerente ao sistema brasileiro. A mensagem é clara: no Brasil, o crime VALE A PENA! Não por acaso, a criminalidade é percebida hoje como o maior problema do país, segundo diversas pesquisas de opinião.
Tudo isso sob o aplauso de boa parte dos nossos “intelectuais” e de empresários amigos do rei.
Agora, o medo e a desconfiança reinam, e 2025 vai se encerrando com a explosão de um conflito interno do establishment político, econômico e midiático — como sempre acontece na fase de acomodação de um regime autoritário. O nível de degradação do sistema está exposto, e até mesmo setores da imprensa que antes justificavam um mar de arbitrariedades começam a reconhecer: a suposta “proteção” da democracia foi a máscara barata para enriquecimento e concentração de poder sem limites.
Antes, havia corrupção e crime nas ruas, mas pelo menos tínhamos liberdade para criticar políticos, nos organizar e apresentar projetos alternativos de poder. Hoje, nem isso.
O medo reina. Fazer oposição é um ato arriscado, capaz de gerar consequências terríveis para a vida pessoal e profissional dos opositores.
Nesse cenário, a adaptação começa a jogar a favor do sistema. A maioria das pessoas passa a praticar autocensura para evitar problemas, criando a famosa Espiral do Silêncio — base de qualquer regime autoritário e o caminho para o totalitarismo.
Amorais vão mais longe e passam a colaborar com o regime em troca de vantagens. Seja o empresário que se beneficia de empréstimos subsidiados, contratos e regulações favoráveis; seja o artista favorecido por patrocínios; sejam os jornais mantidos por verbas publicitárias; seja o cidadão comum que troca seu voto por uma bolsa-esmola — todos contribuem para sustentar as engrenagens de um sistema corrompido e cada vez mais autoritário.
Só há um problema: a aparente segurança de se afastar do debate público — ou de colaborar com o regime — é uma miragem. A história mostra que NINGUÉM ESTÁ SEGURO em um regime autoritário, nem mesmo aqueles que hoje mandam. Não há dinheiro, cargo ou influência que impeça que você vire alvo do próprio sistema — ou de um criminoso comum, capaz de tirar sua vida num piscar de olhos.
Que em 2026 os brasileiros possam recuperar seus direitos fundamentais — a liberdade de expressão, a livre associação, a liberdade religiosa e o direito de ser julgado diante da lei de forma igualitária, e não pelos desígnios de tiranos que se colocam ACIMA DA LEI. Que as pessoas de bem neste país possam se organizar e iniciar um processo de refundação e reconstrução.
Feliz 2026 para os que não se calam, não se dobram e não se adaptam ao inaceitável!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

"Passou do ponto de retorno”? Por que só agora?


William Waack afirma que a crise política e institucional do Supremo “passou do ponto de retorno”.
Na verdade, esse ponto de não retorno foi ultrapassado ainda em 2019, quando ministros abriram o inquérito das chamadas “fake news” — iniciativa que a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, criticou duramente e comparou a um tribunal de exceção.
Os primeiros atos de grande repercussão desse inquérito já indicavam seu caráter extraordinário: a decisão que determinou a suspensão imediata de procedimentos investigatórios instaurados na Receita Federal, que envolviam autoridades do Supremo e pessoas próximas, além da censura imposta a uma revista que publicara o depoimento de Marcelo Odebrecht sobre o “Amigo do Amigo do Meu Pai”.
A partir daí, o inquérito — cuja condução passou a ser alvo permanente de críticas por sua elasticidade e por concentrar, na prática, funções típicas de investigar, acusar e julgar — tornou-se o eixo de uma escalada de medidas excepcionais. Vieram ordens de remoção de conteúdo, decisões com efeito-censor e prisões preventivas de críticos e opositores, frequentemente amparadas em interpretações amplas de conceitos como “ataques às instituições” e “desinformação”. A exceção foi sendo normalizada como método.
Enquanto isso, uma parcela expressiva dos réus e condenados da Lava Jato — operação que revelou um dos maiores esquemas de corrupção já expostos no país — viu suas condenações serem anuladas ou revertidas, em decisões que alimentaram a percepção pública de impunidade e de reescrita histórica do maior escândalo político-financeiro da história nacional.
Esse padrão culminou no tratamento judicial dado ao entorno de Jair Bolsonaro: um processo que, para muitos, assumiu contornos abertamente políticos, no qual a narrativa de “tentativa de golpe” passou a operar como verdade institucional, apesar de sua caracterização ser fortemente contestada. As fragilidades dessa construção vieram à tona no voto do ministro Luiz Fux, que registrou objeções graves sobre tipificação, extensão e garantias do devido processo. No mesmo ciclo, centenas de brasileiros foram presos ou condenados por atos ligados ao 8 de janeiro — muitos sob acusações gravíssimas — em decisões acusadas de impor penas desproporcionais, tratar condutas distintas como equivalentes e relativizar garantias elementares.
Somente depois de consolidado esse arranjo — e depois de o Supremo ter normalizado uma lógica de excepcionalidade dirigida sobretudo contra a direita — é que parte da imprensa, que antes justificava arbitrariedades e tratava a corte como intocável, passou a expressar desconforto e a questionar seus métodos.
Agora é tarde. Quero ver colocar esse gênio de volta na garrafa.
Fonte:  Leandro Ruschel

sábado, 20 de dezembro de 2025

É Sempre Uma Alegria Ouvir Falar de Lulinha

É sempre uma alegria ouvir falar de Lulinha, o filho mais velho do companheiro Lula. Ele surgiu para o mundo lá se vão vinte anos, quando eu era redator-chefe da Veja. Era outro mundo, mas Lulinha continua o mesmo.
O nome do filho mais velho do presidente da República apareceu no âmbito das investigações sobre as fraudes perpetradas no INSS contra aposentados e pensionistas. Uma testemunha na investigação disse à PF que Lulinha teria recebido do Careca do INSS o equivalente a R$ 25 milhões, além de uma mesada de R$ 300 mil. O rapaz nega tudo e avisou que vai processar quem o acusa.
A testemunha também afirmou à PF que Careca e Lulinha viajavam juntos às expensas do fraudador. Há prova de que ambos estavam na 1ª classe de um avião da Latam que os levou de São Paulo para Lisboa, em 8 de novembro do ano passado, como publicou o colega André Shalders, da coluna de Andreza Matais.
Eu disse que Lulinha continua o mesmo, porque há sempre quem insista em associá-lo ao recebimento de boladas formidáveis, não exatamente fruto de trabalho árduo.
Ele surgiu para o mundo depois que a Veja revelou, em 2005, que Lulinha, monitor de zoológico até dois anos antes, era sócio de uma empresa de produção de conteúdos de jogos eletrônicos, a Gamecorp, que havia levado uma baba de dinheiro da Telemar/Oi, concessionária de telefonia pública.
Entre investimentos, contratos de serviços e de publicidade, a Telemar/Oi repassou, entre 2004 e 2016, R$ 132 milhões ao que se tornou o grupo Gamecorp/Gol. Essa dinheirama teria sido transferida a uma empresa de porte idêntico cujo sócio não fosse filho de Lula?
Desde o início, levantou-se a desconfiança de que tudo era pagamento por vantagens regulatórias, como a aprovação da fusão da Oi com a Brasil Telecom, que viria a ocorrer em 2008. Em outras palavras, remuneração por tráfico de influência. Mas nada ficou provado na base do batom na cueca, com o perdão do meu francês.
Em 2019, Lulinha também seria investigado pela Lava Jato, como suposto financiador de reformas no famoso sítio de Atibaia. O caso acabou arquivado.
A História é uma Istória, como dizia Millôr Fernandes, e antes de publicarmos a primeira reportagem sobre o incrível sucesso do filho do presidente, Lula telefonou para a Veja, pedindo para que não a chamássemos na capa da revista, porque a sua mulher, Marisa, morreria de desgosto. Fizemos esse favor.
Lulinha, no entanto, continuou na mira dos repórteres da Veja. Pouco tempo depois, a sucursal de Brasília descobriu que o filho do presidente mantinha parceria com um lobista brasiliense.
Ao ser comunicado sobre a nossa apuração, o Palácio do Planalto tanto fez para que a revista não publicasse a segunda reportagem sobre Lulinha, que ela permaneceu engavetada durante meses.
Até que Lula deu uma entrevista à Folha. Indagado pelos repórteres do jornal sobre a carreira empresarial fulgurante do filho mais velho, o presidente disse que não tinha culpa de Lulinha ser um “Ronaldinho dos negócios”.
A declaração que soou cínica foi a gota d’água para que nós, editores da revista, finalmente publicássemos, no final de 2006, em plena campanha presidencial, a reportagem sobre a parceria de Lulinha com o lobista. Dessa vez, na capa. Roberto Civita, dono da Veja, chegou a ter fibrilação cardíaca, já antecipando o problemão que isso causaria.
De fato, entre outras delicadezas endereçadas a nós, a Veja foi acusada de ter publicado a reportagem para tentar evitar a reeleição de Lula. A verdade é que só não o fizemos antes porque o próprio Lula fez pressão para que a segurássemos.
Agora, temos Lulinha no noticiário outra vez. Mas a alegria que ele costuma nos proporcionar será ainda mais efêmera, porque o jornalismo mudou para pior e o rapaz mudou-se para Madri, em meados deste ano, a pretexto de prestar consultorias para empresas espanholas. A História é uma Istória, e até hoje há quem acredite ser verdadeira a anedota de que Rui Barbosa deu aulas de inglês em Londres.
Fonte: Metropoles

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Toffoli e o Supremo Sem Vergonha

A vergonha mudou de lugar no Brasil. Ela já não mora no Código Penal, na tipificação fria dos crimes, mas na percepção pública de que a cúpula do Judiciário perdeu o pudor. Quando um ministro do Supremo Tribunal Federal aceita embarcar num jato particular ao lado do advogado de um investigado de um caso que cedo ou tarde iria parar no Supremo, não é preciso ser criminalista para perceber que alguma coisa está profundamente errada.
No dia 28 de novembro, pela manhã, Dias Toffoli embarcou rumo a Lima, no Peru, para assistir à final da Libertadores num avião de um empresário e ex-senador. Na mesma aeronave viajava Augusto de Arruda Botelho, advogado de Luiz Antônio Bull, diretor de compliance do Banco Master, hoje em prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica. À noite, o mesmo Toffoli foi sorteado relator do caso Master, após uma reclamação da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro. Na volta da viagem, colocou sigilo absoluto sobre o processo, puxou o caso inteiro para si no Supremo e decidiu que tudo o que disser respeito ao Master precisa, antes de mais nada, passar por sua caneta.
O ministro diz que não conversou sobre o processo no voo, que o recurso foi protocolado depois, que está tudo dentro da liturgia. Pode até ser. Mas o problema aqui não é apenas o que se prova em juízo. É o que se vê a olho nu. Um juiz que já anda há anos na borda da suspeição — “o amigo do amigo do meu pai” —, que acumula decisões controversas em favor de empreiteiras e delatados ilustres, não se constrange em misturar vida social e caso bilionário que abala o sistema financeiro. Vira uma espécie de garoto-propaganda do “deixa comigo que eu resolvo”, como se o Supremo fosse balcão de atendimento personalizado para quem tem jato, bons contatos e advogado influente.
Diante deste escárnio todo, há quem ainda tente acreditar no funcionamento dos freios e contrapesos. Minha colega Rosane de Oliveira, bem mais elegante do que eu, lembrou que esta seria a hora de o procurador-geral da República agir, pedindo a suspeição ou o impedimento de Toffoli. Em teoria, faz todo sentido. Na prática, o roteiro é outro. Quando o PGR pede a suspeição de um ministro, quem decide primeiro é o próprio ministro acusado. Ele é quem diz, antes de qualquer coisa, se se considera suspeito ou não. Se tivesse esse pudor, já teria se declarado impedido de ofício. Se não se considera suspeito, o caso vai para o julgamento dos seus dez colegas. E aí começa o verdadeiro pacto de autodefesa.
Não é hipótese.
O ex-procurador-geral da República dos bambus, Rodrigo Janot, tentou, mais de uma vez, pedir a suspeição de Gilmar Mendes. Quando o supremo ministro supremo do Supremo concedeu habeas corpus ao empresário Jacob Barata Filho, cujo casamento da filha teve Gilmar como padrinho, o então procurador-geral enxergou o conflito óbvio. A Corte não viu problema. Em seguida, no mesmo episódio da máfia dos transportes no Rio, Janot tentou outra vez arguir a suspeição de Gilmar, agora em relação a Lélis Teixeira e novas alegações de relações pessoais. Mais uma vez, o Supremo olhou para o lado. Janot ainda tentou uma terceira vez em outro caso, o de Eike Batista, em que a ex-esposa de Gilmar era sócia do escritório que defendia o empresário. De novo, nada a declarar. Em todas essas situações, a mensagem foi a mesma: aqui dentro ninguém mexe com ninguém.
É justamente esse histórico que torna ainda mais escandalosa a decisão da semana passada, na qual o mesmo Gilmar Mendes resolveu que só o procurador-geral da República pode protocolar pedidos de impeachment contra ministros do Supremo. O único personagem que não consegue — ou não quer — levar adiante uma suspeição evidente passa a ser também o porteiro único do condomínio. Deputados, senadores, entidades de classe, cidadãos comuns: todo mundo é empurrado para fora da porta. Só o PGR pode tocar a campainha. E, como a história mostra, ele quase nunca toca e quando toca, ninguém atende.
O resultado é uma distorção completa da ideia de República. Em vez de poderes que se limitam e se vigiam, temos uma Corte que concentra para si o direito de errar sem ser incomodada. Um ministro pode viajar em jatinho de empresário, conviver socialmente com advogado de investigado, centralizar um escândalo bilionário sob sigilo máximo e ainda assim seguir julgando como se fosse apenas mais um dia no fórum. O órgão que poderia reagir, a Procuradoria-Geral da República, é o mesmo que agora detém o monopólio dos pedidos de impeachment. O jogo se fecha e o círculo se protege.
Num país com vergonha, um ministro sequer cogitaria entrar nesse avião. Se, por algum desvario, entrasse, se declararia impedido de julgar o caso, por respeito ao tribunal e a si mesmo. Num país com vergonha, a Corte não teria transformado em rotina a negação de suspeições escandalosamente justificadas.
Aqui, não. Aqui o Supremo é duríssimo com o réu de sandália de borracha, mas cheio de compreensão com o réu que chega de terno bem cortado e jato à disposição.
No fim, quem perde a vergonha não são os ministros. Somos nós. Nós, que assistimos a tudo isso, ouvimos explicações burocráticas sobre “normalidade institucional” e ainda somos convidados a aceitar que está tudo dentro das regras. Nós, que olhamos para um tribunal que deveria ser o guardião da Constituição e enxergamos um clube fechado que se auto absolve enquanto reescreve a lei. Se eles já não têm vergonha do que fazem, o mínimo que nos resta é não perder a nossa ao chamar esse estado de coisas pelo nome: um Supremo descontrolado e autoritário em um país que se acostumou demais a viver sem vergonha.
COMENTO: o pior de tudo é haver quem apoie e justifique essa patifaria relatada, indagando se um ministro de corte superior não pode ter "vida social", ter amizades, viajar para torcer pelo seu time?
A esses, só podemos responder que, é obvio que não! Quando um sujeito é alçado a uma função relevante de interesse público, seu cargo é monumentalmente remunerado — no presente caso, a remuneração do cargo citado é oficialmente tida como teto do funcionalismo público — exatamente para compensar os limites impostos à vida privada do designado, de forma que ele se sinta compelido a bem cumprir sua função na maneira que seja e pareça ser a mais honesta possível! 
Imagem buscada na Internet, para representar o que ocorre com a Justiça e o povo brasileiros.
Mas infelizmente, não é o que se vê nos escolhidos desde o início de Século XXI. Salvo raríssimas exceções, o que se vê são nomeações por amizade, de rábulas incompetentes e deslumbrados que aproveitam o cargo público para usufruírem ao máximo as mordomias e sinecuras proporcionadas pelas verbas públicas — inclusive segurança física e moral, proporcionadas pelos órgãos estatais , e buscarem holofotes, portando-se como "socialaites", na pior forma do significado dessa merda! Além de montarem suspeitíssimas armações, com escritórios de advocacia de parentes próximos, que defendem descaradamente causas julgadas por eles. Mesmo às custas do sacrifício da imagem do Poder Judiciário, da Constituição Federal, das leis dela derivadas e da Justiça em geral; e sempre em detrimento dos que pagam a esbórnia. Mas tudo com a complacência dos ditos representantes do povo, homiziados no valhacouto que denominam Congresso Nacional; e da mídia prostituída pelos cofres públicos.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A Geografia Social da Espionagem da Antiguidade à Era Digital

Ao longo da história, e devido à natureza social da humanidade, os espaços e pontos de encontro, juntamente com o comércio, desempenharam um papel fundamental. Eles facilitaram o fluxo de informações, a espionagem e a economia subterrânea.
Das tabernas romanas aos fóruns digitais do século XXI, esses locais funcionaram como territórios estratégicos. Lazer, comércio e segredo convergem neles.
Sua importância reside na capacidade de gerar diversas estruturas sociais com um fluxo constante de informações e relativo anonimato. Isso permitiu que fossem utilizadas para coletar informações, realizar comércio com menor intervenção das autoridades e exercer influência informal desde a antiguidade até os dias atuais, ilustrando a continuidade e a evolução histórica dessas funções.

Antiguidade: as tabernas como epicentro de rumores e segredos.
Na Antiguidade, as tabernas romanas não eram meros estabelecimentos para comer e beber, mas centros vitais de informação não oficial. Soldados, mercadores, escravos e funcionários públicos frequentavam esses espaços. Suas conversas, muitas vezes descontraídas pelo álcool e pela dinâmica social, constituíam uma importante fonte de informação. Essa informação era útil para informantes do Estado e outras partes interessadas.
Representação de uma taberna romana em Pompeia. Fonte: Ciência Histórica
Os donos de pousadas e garçons daquela época (e os garçons da nossa época) desempenhavam um papel crucial. Eles eram testemunhas involuntárias de conversas, ideias e rumores. Sua posição como representantes físicos do estabelecimento permitia que eles tomassem conhecimento de assuntos privados, vigiassem os viajantes e, em muitos casos, trocassem informações por dinheiro ou favores.
Na Roma antiga, a inteligência dependia tanto dos canais oficiais quanto desses locais de socialização, onde o fluxo de notícias podia fornecer indícios sutis sobre mudanças políticas e militares.
Por outro lado, os mercados e as ágoras eram tão importantes quanto, ou até mais, do que as tabernas. Em Atenas, a ágora servia não apenas como local de comércio, mas também como espaço onde os cidadãos discutiam política, recebiam notícias de outras cidades-estados (e regiões) e compartilhavam rumores sobre conflitos.
As caravanas de mercadores, por sua vez, eram portadoras de informações sobre rotas, reinos vizinhos e novos acontecimentos. No Império Persa (e, em menor escala, no Egito), mercados e postos de correio conectavam cidades distantes e facilitavam a espionagem.
Os agentes podiam se mover discretamente, misturando-se aos viajantes ou à população local, e coletar informações sobre fortalezas, tropas e economias regionais. Vale ressaltar também como os terrenos baldios em docas e cais funcionavam como centros de informação. Marinheiros, mercadores e piratas compartilhavam notícias de outras cidades e culturas, criando uma rede de informações informal, porém precisa, que podia ser explorada por atores em conflito.

A Idade Média: Estalagens, mercados e bordéis como centros de informações.
Durante a Idade Média, a queda do Império Romano fragmentou a rede formal de comunicação, mas tabernas, hospedarias e mercados continuaram sendo centros essenciais de informação. Viajantes compartilhavam notícias sobre estradas, bandidos e impostos.
Representação gráfica de uma taverna medieval. Fonte : KCD2 Fandom Wiki
As hospedarias medievais não apenas acomodavam peregrinos e mercadores, mas também reuniam espiões e diplomatas disfarçados de viajantes comuns. Além disso, os estalajadeiros, por conhecerem as rotas e os hábitos dos visitantes, tornavam-se confidentes dos senhores locais ou das autoridades religiosas, oferecendo informações sobre movimentações de tropas ou comércio ilícito.
Os mercados e feiras medievais cresceram em tamanho, tornando-se pontos de encontro internacionais. Mercadores de diferentes regiões do mundo traziam consigo produtos e mercadorias, mas também rumores sobre epidemias, guerras dinásticas ou secas.
Por exemplo, as feiras de Champagne, na França, reuniam mercadores de toda a Europa e se tornavam locais ideais para agentes secretos se infiltrarem entre os vendedores, observando o fluxo de mercadorias, avaliando preços e mensurando a riqueza regional. Os reinos e cidades-estados italianos (como Veneza, Florença e Gênova) aproveitavam essas oportunidades para enviar representantes e mercadores espiões.
Essa inteligência permitiu-lhes negociar tratados mais favoráveis, controlar rotas comerciais, antecipar os movimentos estratégicos dos rivais e planejar investimentos políticos e militares. Assim, o que pareciam ser simples feiras comerciais transformaram-se em centros de espionagem econômica e política, onde a informação fluía das mesas dos mercadores para os corredores do governo nos reinos europeus.
Por fim, os bordéis eram centros de informação altamente privilegiados durante o Renascimento. As cortesãs tinham acesso a informações confidenciais sobre funcionários, comerciantes, mercenários e nobres, e governos ou senhores feudais podiam usá-las como agentes indiretos.
Em cidades como Veneza e Florença, há registros de que as cortesãs desempenhavam funções de espionagem, obtendo segredos políticos, financeiros e militares. A interação íntima permitia que elas adquirissem informações que seriam inacessíveis por meio de canais oficiais ou interações informais sem qualquer grau de vulnerabilidade, transformando esses espaços em verdadeiros centros de inteligência secreta.

A Era Moderna: cafés e diplomacia secreta
Com o surgimento do comércio global entre os séculos XVI e XVIII, os cafés europeus adquiriram um novo papel estratégico. Em Paris, Londres e Berlim, os cafés tornaram-se centros de encontros sociais, debates políticos e troca de informações não oficiais.
Café Lloyd's, Londres, 1798, 1947. Por William Holland.
Intelectuais, revolucionários e diplomatas convergiam nesses espaços, trocando notícias, rumores e opiniões que podiam influenciar a política nacional e a economia.
Um excelente exemplo disso foi o Lloyd's Coffee House em Londres, que não só deu origem à seguradora marítima Lloyd's, como também funcionou como um centro de inteligência naval. Capitães, corsários e marinheiros compartilhavam informações sobre rotas, piratas, batalhas navais e riscos comerciais — informações cobiçadas por governos e agentes privados. Dessa forma, o café tornou-se um espaço onde lazer, economia e espionagem convergiam.
Os cafés de Viena e Paris também eram espaços onde movimentos políticos e conspirações eram tramados.
A facilidade de acesso, a interação social e a relativa liberdade de expressão tornaram esses locais espaços ideais para o planejamento de revoluções e movimentos reformistas. Eles também eram úteis para o recrutamento de agentes secretos. As elites aprenderam a observar e enviar informantes infiltrados. Isso consolidou a ideia de que a informação circula melhor em ambientes sociais do que por meio de canais burocráticos.
Além disso, o comércio e a diplomacia passaram a depender cada vez mais de rumores obtidos em cafés e tabernas. Informações sobre tratados, preços de mercadorias e empreendimentos comerciais circulavam por meio desses "refúgios" sociais, permitindo que diversos atores antecipassem riscos e oportunidades.

Século XX e Guerra Fria: bares, cabarés e espionagem no cotidiano.
Durante o século XX, bares, cabarés e hotéis se consolidaram como centros estratégicos para a espionagem. Eles herdaram o papel histórico dos espaços sociais na circulação de informações.
Cabaré em Berlim, década de 30.
 
FonteWeimarberlin
Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados, marinheiros e comerciantes trocavam conversas em tabernas e cafés portuários. Detalhes sobre rotas logísticas e atividades inimigas circulavam nesses locais.
Durante a Segunda Guerra Mundial, locais como os cabarés de Lisboa, Paris, Berlim e Viena combinavam lazer e vigilância. Agentes de diversas nacionalidades trocavam informações sob o pretexto de entretenimento. Enquanto isso, a Resistência Francesa utilizava os cabarés parisienses como refúgio e centro de coordenação.
Esses estabelecimentos também eram frequentados por artistas, aristocratas, burgueses e trabalhadores, criando um ambiente ideal para a circulação clandestina de informações. Os bordéis continuaram a desempenhar um papel crucial, pois as trabalhadoras do sexo ainda obtinham fragmentos de segredos estratégicos inacessíveis pelos canais oficiais.
Durante a Guerra Fria, essa tradição se expandiu para uma escala global. Em Berlim, os cafés da zona ocidental ofereciam um refúgio seguro para diplomatas e espiões, enquanto hotéis e clubes em cidades neutras como Viena, Estocolmo e Zurique se tornaram pontos de encontro para agentes de diversos países.
Até mesmo os mercados e bazares do Oriente Médio, da Ásia e da África serviram como fontes indiretas de informações. Rumores sobre conflitos, armas e mudanças políticas circulavam entre civis, comerciantes e viajantes.
Assim, a coleta de informações não se baseava apenas em canais oficiais. Também se fundamentava em observações da vida cotidiana e da interação social em espaços públicos. Isso demonstrava que o tempo livre podia ser transformado em uma ferramenta estratégica para a espionagem.

Transição para o século XXI: a digitalização dos nós de informação
Com o advento da era digital, os antigos nós físicos começaram a ter equivalentes virtuais. Plataformas digitais, redes sociais, fóruns online e aplicativos de mensagens tornaram-se espaços de interação onde circulam informações valiosas, rumores, notícias e transações econômicas. A coleta de dados tornou-se mais sofisticada por meio de algoritmos, monitoramento de metadados e análise de comportamento online.
Os espaços digitais funcionam como bares virtuais: os usuários compartilham experiências, notícias e opiniões; muitas vezes sem perceber que estão criando registros de informações úteis para o Estado, empresas ou outros atores.
Assim como em um cabaré berlinense, a aparência de lazer e entretenimento online mascara um fluxo de dados estratégicos. Agências de inteligência, corporações e grupos clandestinos usam essas plataformas para monitorar tendências, recrutar informantes e detectar ameaças.
Os mercados digitais, desde plataformas de criptomoedas a fóruns de negociação ilícita, replicam a economia subterrânea dos antigos mercados medievais.
Transações anônimas, troca de mercadorias proibidas e venda de informações confidenciais ocorrem nesses espaços, que funcionam como um equivalente virtual de antigos bordéis, tabernas e bazares. Além disso, sistemas de anonimato criptografados facilitam a espionagem e a infiltração, permitindo que agentes internacionais circulem sem serem detectados.

Um padrão de continuidade histórica
O que une todas essas eras é uma característica recorrente e contínua: os espaços sociais (sejam físicos ou digitais) são elos de informação, interação e transação. Em cada período histórico, das tabernas romanas aos fóruns online modernos, os seguintes elementos se repetem:
1. Diversidade de atores: viajantes, comerciantes, soldados, diplomatas, espiões, mercenários, intelectuais ou usuários digitais  convergem nos mesmos espaços.
2. Anonimato relativo: o fluxo constante de participantes permite que a pessoa passe despercebida, facilitando a coleta de informações.
3. Troca de informações não oficiais: rumores, notícias, segredos e estratégias circulam sem passar pelos canais formais.
4. Economia subterrânea: pagamentos em espécie, transações anônimas e comércio informal ocorrem paralelamente ao fluxo formal de bens e serviços.
5. Oportunidades de recrutamento: a observação e a participação nessas ligações permitem recrutar informantes ou colaboradores, seja em uma taverna medieval ou em uma sala de bate-papo criptografada moderna.
Esses padrões demonstram que, embora a tecnologia mude, a dinâmica social que facilita a espionagem e o mercado negro permanece, adaptando-se a cada contexto histórico.
Fonte: LISA News

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Fim do Carisma, Isolamento e Esgotamento da Retórica Socialista

Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Malásia com o velho figurino do “líder progressista” em busca de legitimidade internacional.
Esperava simpatia, visibilidade e talvez um gesto diplomático que reerguesse sua imagem abalada. Saiu, porém, com o silêncio como resposta e um recado inequívoco: o mundo mudou, e a retórica socialista já não encanta ninguém.
Durante anos, Lula foi recebido como símbolo de resistência e esperança pelas elites políticas de esquerda. Mas a lua de mel acabou. A reunião recente com Donald Trump — marcada por frieza e formalidade — representou mais do que um embaraço diplomático: foi um choque de realidade para um presidente acostumado a aplausos ideológicos e indulgência moral.
Trump, pragmático, ouviu, acenou e encerrou o encontro sem concessões, favores ou declarações públicas de apoio. Nenhum “tapinha nas costas”, nenhuma foto de ocasião. O silêncio foi eloquente e corrosivo. Pela primeira vez em muito tempo, Lula percebeu que a narrativa de “vítima do sistema” já não compra simpatia fora de seu próprio círculo político.
Fontes próximas ao Itamaraty afirmam que Lula tentou oferecer “cooperação” em temas sensíveis, inclusive deixando transparecer que o ministro do STF poderia ser “sacrificado” politicamente em nome da diplomacia. A proposta foi recebida com indiferença em Washington.
A mensagem foi clara: os Estados Unidos não pretendem apadrinhar regimes que flertam com o autoritarismo travestido de progressismo. O gesto foi lido como humilhação em Brasília. O “imperador vermelho”, como ironizam os críticos, saiu menor do que chegou.
Lula buscou legitimidade externa. Encontrou indiferença. Prometeu justiça social. Entregou censura. Prometeu paz. Entregou um país sitiado. Garantiu prosperidade aos brasileiros, mas a população vive à base de esmola institucional, sem perspectivas, em especial em termos de economia, saúde e segurança.
O Brasil de 2025 é um país em marcha lenta, sufocado pela burocracia, espantando investidores e vendo seus empreendedores buscarem refúgio no exterior. Mais de 3 milhões de empresas fecharam as portas, a carga tributária atingiu níveis históricos e a fuga de capitais virou um indicador de sobrevivência, não de economia.
Enquanto o governo fala em “justiça social”, o setor produtivo denuncia canibalismo econômico. O Estado engorda, o cidadão empobrece e a iniciativa privada é tratada como inimiga. O resultado é uma nação onde o sucesso é suspeito e o fracasso é política pública.
A retórica vermelha resiste, mas a paciência dos brasileiros não. Segundo consultorias internacionais, mais de 1.200 milionários deixarão o país neste ano, levando empregos, capital e inovação. O êxodo virou manchete global e o Brasil deixou de ser visto como terreno fértil para prosperidade e passou a ser um laboratório de narco-populismo tropical.
Em um episódio recente, tribunais brasileiros ordenaram a remoção de publicações que apenas reproduziam falas literais de Lula, nas quais ele dizia que “traficantes também são vítimas”. A censura foi justificada como “proteção contra desinformação”. Traduzindo: citar o presidente virou crime.
A cena beira o absurdo. A Justiça brasileira, sob a égide de ministros politicamente engajados, parece ter se tornado o departamento de comunicação do Planalto. Censura, multas e perseguição judicial transformaram a crítica em ofensa e o jornalismo em risco.
No Brasil de hoje, a verdade é reescrita por sentença judicial. Criminosos ganham empatia; jornalistas, inquéritos. O discurso oficial é o da compaixão seletiva, onde o traficante é vítima, o cidadão é opressor e o Estado é o juiz da moral pública.
Enquanto o governo do Rio de Janeiro classifica o Comando Vermelho como organização terrorista e busca cooperação internacional, Brasília prefere o silêncio. O mesmo governo federal que censura posts e monitora opositores hesita em chamar traficantes de terroristas.
O contraste é gritante: o Rio tenta sobreviver; Brasília finge que governa. A ausência de uma política nacional de segurança real transformou o país num mosaico de zonas de influência do crime. O resultado é trágico: 27% da população vive sob domínio direto de facções, segundo estimativas do próprio Ministério da Justiça.
O ministro do STF agora mira o governador Cláudio Castro e os policiais que lideraram a megaoperação contra o Comando Vermelho. Em vez de elogiar o combate ao crime, o Supremo pede “esclarecimentos” sobre o sucesso da operação.
A competência para o exame de eventuais irregularidades na operação é da Justiça fluminense. Não há uma linha no art. 102 da Constituição que transforme o Supremo em investigador, acusador e juiz de policiais do RJ.
Os policiais viram réus; os criminosos, vítimas, em uma inversão moral completa. O Rio contabiliza mortos e feridos em confrontos com narcotraficantes armados com granadas e fuzis de uso militar, mas Brasília prioriza debater “proporcionalidade” e “direitos humanos". É o retrato perfeito do Brasil de Lula, um país onde combater o crime é perigoso, mas cometê-lo é politicamente rentável.
Os eleitores de esquerda são os únicos que desaprovam a megaoperação policial realizada no Rio de Janeiro, que resultou na morte de 121 pessoas durante o confronto. De acordo com pesquisa Genial/Quaest, 59% dos eleitores lulistas reprovaram a ação, enquanto entre os não lulistas o percentual chegou a 70%.
A viagem, mais do que uma agenda diplomática frustrada, foi uma radiografia do declínio político de Lula. A gestão interna do país também. O carisma internacional se foi, o apoio doméstico desmorona e a narrativa revolucionária não convence nem seus antigos parceiros ideológicos.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Narco-guerrilheiros Colombianos Usam Drones Para Causar Terrorismo

O Ministério da Defesa colombiano anunciou a oferta de recompensas de até 100 milhões de pesos (cerca de 100 mil reais) para quem fornecer informações que levem à localização, identificação e captura de indivíduos ou redes criminosas que operem ou vendam drones para fins criminosos ou terroristas.
A medida, de acordo com o Ministério da Segurança, visa coibir o uso de aeronaves não tripuladas em ataques contra civis e policiais.
O uso dessa tecnologia para fins ilícitos se tornou um risco à segurança do país nos últimos anos, e autoridades identificaram casos em que drones são usados ​​para transportar drogas, monitorar posições estratégicas das Forças Armadas, lançar explosivos ou interferir em operações de segurança, tornando-os um instrumento de apoio a organizações criminosas.
Nesta semana, dois casos alertaram as autoridades: um ataque à casa do prefeito de Calamar, Guaviare; e outro em El Plateado, Cauca.
O Ministério da Defesa observou que a Colômbia tem uma política abrangente para o controle e regulamentação de aeronaves não tripuladas, desenvolvida em conjunto com a Força Aérea Colombiana, a Polícia, a Aeronáutica Civil e autoridades judiciais.
Esta política visa fortalecer a rastreabilidade tecnológica dos equipamentos e impedir sua utilização para fins ilícitos, garantindo assim um monitoramento mais rigoroso de sua circulação e utilização.
Nos últimos meses, agências de inteligência detectaram que dissidentes das antigas FARC e outros grupos armados ilegais têm usado drones para atacar unidades militares e bases policiais em áreas como Cauca e Catatumbo. Esses ataques incluíram o lançamento de artefatos explosivos do ar, representando uma nova modalidade na execução de ações terroristas.
Durante a apresentação da estratégia, o Ministro da Defesa, Pedro Sánchez, afirmou que "nenhum dispositivo tecnológico pode ser usado para fins criminosos. Qualquer pessoa que use ou venda drones para fins ilegais enfrentará a justiça e a ação legítima do Estado". Ele enfatizou a necessidade de manter um controle rigoroso sobre a distribuição e o manuseio desses dispositivos em todo o país.
Por esse motivo, o Ministério disponibilizou a linha direta antiterrorismo 107 como um canal para receber denúncias de cidadãos sobre indivíduos ou estabelecimentos envolvidos no uso ou modificação de drones para fins criminosos. Segundo as autoridades, as informações recebidas serão tratadas com absoluta confidencialidade e poderão levar ao pagamento de recompensas, dependendo da relevância das informações fornecidas.
A decisão do governo ocorre poucos dias após a ativação do primeiro Batalhão Antidrone do Exército, uma unidade especializada em neutralizar ameaças aéreas não tripuladas usando sistemas de detecção, interferência e abate.
Esta força busca agir preventivamente contra o uso de drones armados ou adaptados para operações hostis contra instalações estratégicas e pessoal uniformizado.
O Ministério da Defesa reiterou que a criação do Batalhão Antidrone e o sistema de recompensas fazem parte de uma estratégia abrangente de defesa tecnológica.
COMENTO: Infelizmente, a ascensão de um ex-guerrilheiro ao governo da Colômbia jogou no lixo todo o esforço que as forças de segurança daquele país tiveram para acabar com os narco-guerrilheiros e seu poder sem limites. Todo o avanço contra a criminalidade, obtido nos dois mandatos de administração sob Álvaro Uribe, foi jogado no lixo por seus sucessores.  Por sua luta contra a criminalidade, Álvaro Uribe tem sido perseguido politicamente, sofrendo processos intermináveis, seguindo o modelo estabelecido pelo Foro de São Paulo, no combate a seus adversários. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

O Infiltrado no Grupo de WhatsApp dos Empresários de Direita

Lucas Mesquita, jornalista de Brasília trabalha para o governo Lula e já registrou encontros com Flávio Dino e Alexandre de Moraes
Na audiência transmitida ao vivo no Senado na terça-feira, 2 de setembro, o perito Eduardo Tagliaferro, ex-assessor de Alexandre de Moraes, fez revelações que colocam em xeque a legalidade de uma das operações mais controversas do Supremo Tribunal Federal (STF): a busca e apreensão, às vésperas das eleições de 2022, contra empresários acusados de trocar mensagens em grupos de WhatsApp supostamente favoráveis a um golpe de Estado.
A sessão ocorreu na Comissão de Segurança Pública do Senado, convocada pelo senador Magno Malta (PL-ES) e presidida por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), no mesmo horário em que o STF julgava o ex-presidente Jair Bolsonaro por abuso de poder político.
Segundo Tagliaferro, o que foi apresentado como ação amparada por investigação técnica e provas consistentes, na verdade teria sido montado a posteriori — depois da operação já realizada. Ele afirma que foi coagido a produzir documentos com datas retroativas, incluindo mapas mentais, relatórios e pareceres que dariam aparência de legalidade à decisão de Moraes, quando na verdade, segundo ele, tudo havia sido feito com base apenas na reportagem do jornalista Guilherme Amado, do Metrópoles.
À nossa reportagem, Tagliaferro afirmou que as mensagens do grupo foram enviadas diretamente para ele pela “Bruxa” da Vaza Toga, que A Investigaçãoidentificou anteriormente como a jornalista Letícia Sallorenzo.
Entretanto, nossa reportagem analisou os registros apresentados por Tagliaferro na audiência, e conseguiu identificar o infiltrado responsável pelo envio das informações a Sallorenzo. Trata-se de Lucas Mesquita, documentarista e jornalista de Brasília, militante de esquerda que já ficou conhecido por infiltrações em grupos de WhatsApp de figuras de direita.
Na reportagem da Vaza Toga 2, revelamos que o ministro Alexandre de Moraes autorizou o acionamento de “parceiros externos” para estruturar as investigações relacionadas aos eventos de 8 de janeiro de 2023. Agora, a vigilância em massa da população ganha novos contornos: arapongas passaram a coletar informações de cidadãos comuns e a repassá-las diretamente ao Judiciário, muitas vezes sem qualquer indício concreto de crime.

Quem é o infiltrado
Lucas Mesquita, 35 anos, é jornalista e documentarista radicado em Brasília. A sua carreira começou nos bastidores do poder, como assessor de imprensa da chapa Dilma-Temer nas eleições de 2010. A experiência lhe deu acesso precoce ao centro das decisões políticas.
Flamenguista convicto, Mesquita se envolveu em uma disputa com a então presidente do clube, Patrícia Amorim, em 2012. Produziu conteúdos satíricos contra a gestão e, após pressões da diretoria, quase foi expulso do quadro associativo. Com o tempo, abandonou a militância esportiva e mergulhou na produção audiovisual. Fundou uma microempresa de produção fotográfica e cinematográfica em Brasília e, junto ao irmão Gabriel Mesquita, passou a dirigir e roteirizar documentários políticos.
Em 2022, dirigiu o curta “Contra Golpe”, que documentou os atos pela “defesa da democracia” realizados na Faculdade de Direito da USP. A produção, que teve apoio do Grupo Prerrogativas, registrou a leitura da “Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito”, divulgada como reação à candidatura de Jair Bolsonaro.
No mesmo ano, lançou o documentário “Eles Poderiam Estar Vivos”, também apoiado pelo Prerrogativas. A peça atribuía ao “negacionismo do governo” a responsabilidade por metade das mortes na pandemia. A narrativa baseou-se em depoimentos alinhados ao campo político da esquerda ou críticos de Bolsonaro, como a infectologista Luana Araújo e o epidemiologista Pedro Hallal, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e coordenador do estudo Epicovid-19, ambos participantes da CPI da Covid.
Foi Hallal quem projetou a ideia de que 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas, caso o Brasil tivesse a mesma taxa de mortalidade da média global. A estimativa viralizou nas redes e se tornou instrumento político contra Bolsonaro. O argumento, no entanto, ignorava fatores determinantes como desigualdade, infraestrutura de saúde, subnotificação, política de testagem e dinâmica regional da pandemia. A cifra, embora impactante, se sustentava mais em pressupostos militantes do que em rigor científico.

O modus operandi
Em pelo menos duas ocasiões, Lucas Mesquita se infiltrou em grupos privados de WhatsApp que reuniam empresários, políticos e juristas ligados à direita. O conteúdo extraído por ele serviu tanto como base para decisões judiciais quanto como munição em reportagens de grandes veículos.
Um desses espaços foi o Parlatório, criado pelo jornalista Carlos Marques, diretor editorial das revistas IstoÉ e IstoÉ Dinheiro e ligado ao LIDE, grupo empresarial fundado pelo ex-governador João Doria. O Parlatório reunia cerca de 250 empresários, intelectuais, jornalistas, publicitários e políticos — entre eles o ex-ministro e então candidato ao Senado Sergio Moro. Mesquita permaneceu nesse ambiente por cerca de dois ou três anos, em silêncio, apenas observando.
A ruptura veio em outubro de 2022, quando Mesquita criticou abertamente a reaproximação de Moro com Jair Bolsonaro. Publicou um vídeo e um texto duros — chamando o ex-juiz de “tchutchuca de miliciano” — e acabou expulso, segundo ele por pressão de Moro. Na GloboNews, a jornalista Andréia Sadi apresentou o episódio como se o vazamento tivesse partido de “participantes desconfortáveis”, mas tudo indica que a operação foi cuidadosamente planejada para ter a repercussão midiática.
O mesmo modus operandi foi aplicado ao chamado “grupo dos empresários”, cujas mensagens foram obtidas de forma semelhante e repassadas ao portal Metrópoles. As mensagens do grupo que nossa reportagem teve acesso mostram que Lucas fez de tudo para dissimular sua militância de esquerda, tentando se fazer passar por alguém de centro para ganhar a confiança do grupo.
Infelizmente vai ser segundo turno entre Lula e Bolsonaro. Mas ainda tenho esperança de alguém conseguir aglutinar as forças de centro e ir pro segundo turno, para aí sim derrotar Lula ou Bolsonaro, escreveu Lucas no dia 24 de abril de 2022.
Em maio, Guilherme Amado publicou a primeira reportagem com vazamento do grupo dos empresários mirando declarações de Luciano Hang sobre o padre Julio Lancellotti. Na ocasião, os integrantes do grupo tentaram encontrar quem seria o “X9” (delator infiltrado), excluindo alguns integrantes inativos, mas não suspeitaram de Lucas. Por causa da reportagem, Hang foi condenado pela Justiça de São Paulo a pagar danos morais a Lancellotti por ter chamado o religioso de “bandido”. A juíza Eliana Adorno de Toledo Tavares determinou que Hang pagasse R$ 8 mil de indenização.
Pessoal aqui no grupo temos um X9, um dedo duro. Olha só onde foi parar a nossa conversa aqui no grupo. O membro que teve coragem de passar as mensagens para a imprensa também deveria ter a coragem de se posicionar agora e dizer o porquê fez isso. O que quis deixar bem claro na minha posição foi a militância do Lancellotti em apoiar um líder que defende o comunismo pelo mundo e pela América Latina que são geradores da miséria. Não sou contra a parte social, falei dele, desse caso específico, da militância de esquerda, escreveu Hang no grupo após o primeiro vazamento.
No dia 17 de agosto, dia da publicação da reportagem do Metrópoles, a equipe de Amado enviou mensagens aos integrantes do grupo solicitando declarações sobre as acusações. Muitos compartilharam no próprio grupo as demandas recebidas, entre eles Lucas, que perguntava o que deveria fazer.
Meses depois, em janeiro de 2024, Lucas foi nomeado para um cargo comissionado como assessor no recém-criado Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, comandado por Márcio França.
Nas redes sociais, Lucas mantém uma presença discreta, mas não invisível. Registra encontros com figuras como Lula, Flávio Dino e Alexandre de Moraes. Em comentários e interações, chegou a dialogar com Letícia Sallorenzo, mais conhecida pelo codinome “Bruxa” — a mesma que atuava como colaboradora informal do TSE no monitoramento de opositores.

A operação contra os empresários
Voltando à audiência do Senado. Por videoconferência, Tagliaferro narrou que, em agosto de 2022, recebeu ordens do assessor Airton Vieira, braço-direito de Alexandre de Moraes, para montar documentos que dariam lastro à operação contra os empresários. Disse que havia pressa no gabinete: o plano era executar as buscas numa segunda-feira; elas ocorreram na terça, 23 de agosto.
Na semana anterior, em 17 de agosto, o Metrópoles tinha publicado reportagem com diálogos atribuídos a integrantes do grupo “Empresários & Política”, entre eles Luciano Hang (Havan), Meyer Nigri (Tecnisa) e Afrânio Barreira (Coco Bambu). Entre as diversas mensagens e comentários de cunho político — a peça citou, por exemplo, a frase Prefiro golpe do que a volta do PT. Um milhão de vezes, atribuída a um participante. Não havia qualquer fala criminosa de Hang no material publicado, mesmo assim, ele foi alvo de busca e apreensão e teve os perfis bloqueados apenas por participar do grupo.
A operação contra os empresários foi cumprida em cinco estados no dia 23 de agosto de 2022. Foram alvos nomes de peso do empresariado nacional. A Polícia Federal apreendeu celulares, promoveu quebras de sigilo e bloqueou contas nas redes — inclusive as de Hang, que ficaram mais de dois anos fora do ar, com reativação só em setembro de 2024. Em agosto de 2023, cerca de um ano depois, o STF arquivou o inquérito em relação a seis dos oito empresários por “ausência de justa causa”, mantendo Hang e Nigri por mais 60 dias. Até hoje não há denúncia formal apresentada nesse caso.
A operação contra os empresários foi deflagrada apenas dez dias antes do primeiro debate presidencial na Band. A medida atingiu em cheio a base de apoio de Jair Bolsonaro: além de apreensões e quebras de sigilo, empresários tiveram suas redes bloqueadas, como Luciano Hang, um dos principais amplificadores digitais do bolsonarismo. A ausência dessas vozes reduziu a capacidade de mobilização nas redes e serviu como aviso ao setor privado de que manifestações públicas em favor do presidente poderiam gerar retaliações judiciais, produzindo um efeito de intimidação que limitou o engajamento empresarial durante a campanha.
Ao mesmo tempo, a operação foi explorada politicamente. A narrativa do “golpismo empresarial” se consolidou no noticiário e deu munição ao discurso de Lula nos debates, reforçando a ideia de que Bolsonaro e seus aliados representavam uma ameaça à democracia. Com vozes empresariais censuradas e a narrativa adversária amplificada, Bolsonaro entrou no horário eleitoral e nos debates em desvantagem estratégica, tanto em termos de recursos financeiros quanto de alcance digital.
Até então, suspeitava-se que a medida havia sido deflagrada a partir da série do Metrópoles — a própria decisão tornada pública pelo STF menciona as reportagens. No dia 23, porém, a então âncora da CNN Daniela Lima teria “apurado” que a ação teve como fundamento um pedido da PF que apurava a organização e o financiamento de atos antidemocráticos, conhecido como inquérito das milícias digitais.
Entretanto, segundo Tagliaferro, esta informação era falsa: a única base da decisão foi a reportagem do Metrópoles. O que aconteceu foi que Moraes determinou que seus assessores extraíssem as falas da matéria e as formatassem em um relatório. Só que aquilo era um grupo privado de WhatsApp. Seria criminoso da minha parte atestar a autenticidade daquelas conversas, afirmou.
A denúncia de Tagliaferro deve abrir espaço para novas apurações, dentro e fora do Congresso. Senadores da oposição já pediram acesso aos arquivos citados e prometem convocar Airton Vieira e autoridades da PF para explicações.

A ação retroativa
A parte mais grave da denúncia veio em seguida. Tagliaferro declarou que, depois da operação já executada, ele foi procurado por Airton Vieira, que não sabia usar computador, para “ajudar a construir uma história”. O objetivo: forjar a existência de uma investigação prévia que justificasse a ação do STF.
Ele contou que recebeu arquivos com “PETs” já marcadas e instruções para produzir mapas mentais ligando os empresários a supostos financiadores de atos antidemocráticos e redigir um relatório com data de dias antes da operação. Tudo isso, afirma ele, para que Moraes pudesse retirar o sigilo do processo e mostrar à imprensa que havia embasamento além da matéria jornalística.
Assinei como se fosse um relatório do Supremo Tribunal Federal. Mas eu não era servidor nomeado. Fiz porque fui instruído. E está tudo documentado: os arquivos, as datas de criação, os metadados, os hashes. Tudo com perícia técnica, garantiu.
Durante a audiência, Tagliaferro exibiu capturas de tela, datas de criação de documentos e o próprio mapa mental que, segundo ele, foi usado por Moraes para justificar as medidas. Nele, os empresários apareciam ligados a nomes como “Custer”, “Bezerra” e “Álvaro dos Santos”, todos conectados por setas a um suposto centro de financiamento de atos golpistas.
Segundo o ex-assessor, esse documento foi criado em 28 de agosto de 2022, seis dias após a operação — mas foi incluído no processo como se tivesse sido feito em 22 de agosto. Outro relatório foi juntado aos autos em 29 de agosto, embora também tenha sido confeccionado depois da operação, não antes, como o STF teria afirmado.
Essa fraude é gravíssima. Se isso foi feito nesse processo, o que não pode ter sido feito em outros, todos físicos, todos guardados a sete chaves no gabinete do ministro?, questionou.
Fonte:    A Investigação