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sábado, 30 de março de 2019

É Assim Que o Tráfico de Armas Funciona

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por Nelson Matta Colorado
Antes de entrar na casa, no bairro Castilla de Medellín, os agentes só sabia duas coisas: que possivelmente havia armas que seriam vendidos a gangues e guerrilheiros de Antioquia, e que o proprietário das mercadorias era um senhor da guerra misterioso conhecido pela alcunha de  "Zeus".
Material descoberto na casa de “Zeus” em 2016, em Aranjuez.
Eles chegaram na madrugada de 22/06/2016 e foram recebidos por um ex-policial de pijama, que dormia na casa com sua esposa e sua filha. Ele ficou apavorado quando viu seus ex-colegas entrarem e, ao removerem um quadro da parede, encontrarem um cofre embutido que continha dois carregadores, 17 cartuchos de munição e peças de pistolas.
Em um esconderijo no chão, sob um ladrilho solto, eles acharam mais 298 cartuchos de calibres diferentes e sobre um beliche, uma caixa com 56 munições para fuzil 5.56. Na propriedade havia mais escaninhos nas paredes, mas estavam vazios.
Dois dias depois, um informante levou os investigadores a uma outra residência de Castilla, desocupada e com um estoque maior: três fuzis 7,62 com 18 carregadores, duas pistolas Glock e Beretta com nove carregadores, um revólver calibre 32, e 20 granadas de mão; além disso, 8.952 cartuchos para fuzil, 450 munições para pistola 9 milímetros e 50 para revólver calibre 38. Mais uma vez, as fontes insistiram que era tudo de "Zeus".
À DIJIN e à Procuradoria informações chegavam aos poucos sobre o personagem, mas nada que permitisse identificá-lo. Foi dito que adquiria armas em Villavicencio e as trazia para Medellín para alugá-las a mercenários ou vendê-las a quadrilhas, dissidências das FARC e a um contato do ELN apelidado de "Mauricio", que as receberia em Anori. A este, eram enviadas desmontadas, em maletas e caixas disfarçadas nos ônibus de transporte público.
Vulgo "Ramiro", chefe da dissidência da frente 18 das FARC, com um fuzil importado
Ninguém no submundo se atrevia a citar seu nome e  por cinco meses houve silêncio, até que outro informante enviou aos detetives uma pista definitiva. Em 22/11/16 eles chegaram a um lava-rápido no bairro Aranjuez, chamado Expresso Car. O local estava ligado a dois apartamentos e um armazém, e na busca foram apreendidas cinco pistolas com sete carregadores, dois revólveres, dois silenciadores, carcaças e canos de várias armas, três carregadores de fuzil, um par de algemas e 462 munições de diferentes calibres inclusive para pistola FiveSeven (5,7x28 mm).
Na operação, um assustado jovem com 22 anos de idade foi preso e disse que o dono do lugar era seu pai, um homem que não estava na cidade. Assim, os agentes obtiveram a esquiva identidade de "Zeus": Joseph Alexander Pelaez Mejia, nascido em 15 de agosto de 1975 em La Virginia, Risaralda, com nacionalidade colombiana e venezuelana e cuja atividade oficial era a de restaurador de carros.
José Alexánder Peláez Mejía, vulgo Zeus.
Um mandado e uma Circular Azul da Interpol foram emitidos, esperando que ele fosse localizado nos países que costumava frequentar, como o Panamá, mas ele conseguiu cobrir seus rastros por três anos.
Em 17/2/2019, um alerta da Interpol foi disparado em Tegucigalpa, Honduras, onde um homem de 43 anos, com características semelhantes às do alvo, havia entrado irregularmente. Era "Zeus".
"Esse homem seria o principal fornecedor de armas destinadas às frentes do ELN e dissidentes das FARC que cometem crimes em Antioquia", disse o general Gonzalo Londoño , diretor do DIJIN.
Em 4 de março ele foi deportado e no aeroporto de Eldorado foi preso; no dia seguinte, na audiência de garantia, a Procuradoria o indiciou por tráfico de armas e munições. Peláez não aceitou a responsabilidade e o Primeiro Tribunal Penal Ambulante de Antioquia o mandou para a cadeia.

Fontes de aquisição
A história de "Zeus" é outro capítulo no mundo sombrio do tráfico de armas em Medellín e Antioquia. De acordo com o Sistema de Informação para a Segurança e Coexistência da Prefeitura, foram confiscadas na cidade, entre 2016 e 2018, 1.957 armas, ou seja, 1,7 por dia. E em 2019 (até 3 de março) eles confiscaram 148, ou 2,4 por dia, em uma capital onde 83 pessoas foram mortas a tiros.
Apesar dos volumes de apreensões, e uma média de 1,2 homicídios com esses dispositivos, as investigações contra esse flagelo são escassas. Isto foi reconhecido pelo general Eliécer Camacho, comandante da Polícia Metropolitana: "quando cheguei (ao cargo) não encontrei uma investigação direta do tráfico de armas. É um problema delicado, neste ano temos 180 armas apreendidas (em todo o Vale do Aburrá) e já não vemos nenhum trabuco ou artesanais, são todas originais".
El Colombiano acompanhou o andamento da situação na última década, e verificando com fontes judiciais e de Inteligência, conclui-se que atualmente a principal fonte de armas são os armeiros dos EUA, especialmente da Flórida. Os traficantes contratam pessoas com cidadania americana e nenhum registro criminal, que compram as armas em lojas autorizadas e as entregam à organização criminosa.
Os rifles e fuzis semi-automáticos, cujo uso na Colômbia é exclusividade da Força Pública, são vendidos nos EUA como artigos esportivos. O controle posterior à venda naquele país não é frequente, não há acompanhamento das armas adquiridas ou um limite máximo de compra, e muito menos quando a transação é por internet.
"Estamos mais focados no que entra no nosso país, como drogas, do que nas coisas que saem", disse um oficial de segurança* com sede em Miami, quando indagado por este jornal. Ele acrescentou que, "apesar do sentimento popular" as tentativas de restringir as armas são frustradas por causa da interpretação feita pelo Supremo Tribunal Federal sobre a Segunda Emenda; e pelo influente lobby da Rifle Association, que inclui contribuições milionárias para campanhas políticas.
Os artefatos são exportados de Miami e do México e, em menor escala, pela Venezuela e pelo Equador. A rota marítima às vezes faz uma parada no Panamá, ou vai diretamente para os portos de Barranquilla, Buenaventura e Turbo; ou por via aérea, em voo de carga para Bogotá.
As armas vêm desmontadas e escondidas em caixas de eletrodomésticos, equipamentos de ginástica e autopeças. Aqui eles são distribuídos como encomendas, em táxis, ônibus, caminhões para o transporte de resíduos biológicos e hospitalares ou com logotipos multinacionais.
"Sabemos que aqueles que recebem as armas alugam apartamentos em Medellín e os ocupam por dois meses, até que o pacote chegue. Às vezes eles usam parentes, que dão seu endereço para o envio; estes não abrem a caixa, então eles não sabem o que ela contém", disse um promotor*.
Em muitos casos, há uma troca de armas por cocaína, entre cartéis internacionais e facções locais, como o Clã do Golfo, "a Oficina", ELN e o Clã Isaza do Médio Magdalena. "Os traficantes atuam como agentes de comissão entre estrangeiros e colombianos, coletam quantidades de drogas que partem de 300 quilos e as exportam, e depois trazem o arsenal", completa o jurista.
Outra modalidade de abastecimento, especialmente de explosivos e munições, envolve batalhões e armazéns militares e policiais, no que é conhecido como o mercado cinza: quando a transação começa com a aquisição legal e por várias razões acaba nas mãos de um ator ilegal.
Há três exemplos recentes: a captura do patrulheiro Ferley Cardona, do SIJIN de Antioquia (22/2/17). Em uma busca numa casa do bairro El Volador, eles apreenderam dois revólveres, 11 granadas, 288 cartuchos de explosivos Indugel, quatro rolos de estopim e 3.700 detonadores. De acordo com o Ministério Público, esse Indugel fazia parte de um carregamento de 2,7 toneladas confiscadas em Segovia e supostamente destruídas pela Polícia. Aparentemente, os uniformizados conspiraram com outros para vender ao Clã do Golfo.
O segundo caso é o do Major Héctor Murillo, chefe do Modelo Quadrante da Polícia em Antioquia, preso em 25/11/17 e processado por corrupção. De acordo com o arquivo, ele trabalhava para o Clã do Golfo e uma de suas funções era obter armas e munição.
E o terceiro começou com uma queixa da 17ª Brigada do Exército, que em 12 de janeiro relatou que um fuzil e uma metralhadora desapareceram do Batalhão de Engenheiros localizado em Apartadó.
Claudia Carrasquilla, chefe da Diretoria de Promotores Contra o Crime Organizado, lembrou que "muitos líderes de organizações ilegais têm armas com permissão para porte, obtidas em diferentes Brigadas". Um deles é Sebastián Murillo ("Lindolfo"), um dos líderes da "Oficina", capturado em 2018.
Um investigador de polícia* afirma que "90% dos homicídios em Medellín são com munição fabricada por Indumil (Indústria Militar Colombiana), há um grande desvio de balas em depósitos dos órgãos de segurança".

Perfil de "empresários"
Perseguir os traficantes é complexo, segundo os investigadores, porque eles têm um perfil diferente do bandido convencional. Seu estilo é empresarial, eles não estão na folha de pagamento de grupos tradicionais e nunca sujam as mãos com a mercadoria. Eles não são doutrinados, então eles negociam com o maior lance e vendem para facções inimigas entre si.
Nessa descrição não só cabe "Zeus", também Elkin Gallego Yepes ("El Negro"), outro dos poucos traficantes descobertos em Aburrá. Ele liderou uma estrutura que conseguia armas para diferentes clãs e tinha depósitos em Medellín, Bello e Guarne, onde ele transportava as mercadorias em táxis.
Entre os fatos que conduziram à sua prisão, houve a captura de 10 revólveres em um táxi em Calazans (24/06/2015) e 400 cartuchos de 9 mm em outro "amarelo" (cor dos táxis na Colômbia) que circulava pelo bairro Alfonso Lopez (05/08/2015).
Fusil Barret capturado do ELN em Anorí
Interceptando as comunicações de "El Negro", as autoridades aprenderam a linguagem criptografada que usavam para o comercio ilícito. Um revólver, segundo a marca, era chamado de "alacrán" (Escorpião), "Martínez" (Martial), "Don Walter" (Walter) ou "Rogelio" (Ruger); a munição, "fruticas", "caixa de arroz chinês", "comidita" ou "Cartão Sim longo" (projéteis de longo alcance); para carregadores, "cocos" ou "controles"; e para as pistolas, "brinquedo" ou "negrita".
"El Negro" e três comparsas, incluindo o superintendente César Augusto Aristizabal, vulgo "Peska", ligado à Direção da Polícia de Trânsito, foram presos em 2015 e condenados a penas entre 7 e 10 anos de prisão.
Apesar dos esforços, continuam a entrar novas armas na região, tais como as que foram encontradas em 11 de fevereiro em um cortiço em Bello, incluindo uma metralhadora M60, cinco fuzis, sete pistolas e carregadores alongados, que foram entregues por um desertor ELN.
Ricardo Abel Ayala, vulgo "Cabuyo".
Logo depois, no dia 25 de fevereiro, em uma fazenda na aldeia de Las Conchas, em Anori, prenderam "Gabino", um guerrilheiro ELN, que havia escondido, enterrado, um poderoso fuzil Barret .50 capaz de perfurar veículos blindados e atingir um alvo a 2,5 km de distância.
Esta mesma arma já havia sido vista na posse de Ricardo Ayala ("Cabuyo"), líder da dissidência da 36ª Frente, um esquadrão de foras da lei que atua no norte da Antioquia. Ele é um dos principais clientes dos senhores da guerra que, como "Zeus" e "El Negro", lucram com a violência em uma região acostumada a enterrar pessoas todos os dias.
* Identidades reservadas
Fonte: tradução livre de  El Colombiano.com
COMENTO:  observando-se o método e a rota utilizada pelos traficantes de armas para a Colômbia e somando isto à recente apreensão de mais de uma centena de fuzis de um meliante e proprietário de uma lancha de grande porte me reforça a intuição de que os grandes fornecedores de armas para a criminalidade do Rio de Janeiro estão estabelecidos nos EUA e não no Paraguai como divulgam para despistar. É facílimo trazer um caixote com armas em um navio e comunicar ao traficante quando chegar no litoral brasileiro, para que este se desloque até o encontro em alto mar, em alguma embarcação "de luxo" e receba a carga. Depois, é só voltar a alguma marina de algum clube de luxo, e rebocar seu barco com a valiosa carga de volta para casa. Ou alguém fiscaliza as saídas e chegadas de iates nos grandes clubes??
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domingo, 11 de dezembro de 2016

Captagón - Preparemo-nos Contra a Nova Desgraça do Narcotráfico

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Captagon, o Monstro Invisível da Guerra na Siria
por Mariana Escobar Roldán
Captagon. Uma droga sintética que leva à euforia; disfarça a fome, a fatiga e o frio, e aumenta a força e a destreza em cenários como os de uma batalha. Captagon. O estimulante que no Oriente Médio, sem fazer demasiado ruido, superou o número de apreensões de opiáceos. Captagon. A fonte perfeita de financiamento para os atores do conflito na Síria, e o narcótico de seus soldados e vítimas.
Sua base, a fenetilina, servia na Alemanha de 1961 como medicamento para crianças com transtornos de atenção. Mas logo foi proibido por seu caráter viciante e seus efeitos sobre o sistema hepático, e entrou no mercado negro para uso recreativo.
Os primeiros a usa-lo foram os búlgaros. O mundo estava entorpecido com a queda do Muro de Berlim. Nesse país que fazia parte do império soviético, as grandes empresas estatais se desmantelavam, boa parte delas da indústria química e algumas, inclusive, exportadoras do Captagon. 
Em função da cooperação política e técnica entre Bulgária e Síria, durante a Guerra Fria muitos sírios estudaram química na Bulgária e estabeleceram contatos que, se por um lado abriram o mercado entre os dois países, também traçaram o caminho do tráfico ilícito.
"Com uma grande força de trabalho tecnicamente capacitada e sem emprego, os químicos búlgaros se voltaram para fontes de subvenção ilegais porém lucrativas. A principal foi a das pastilhas de Captagon para a Síria e o resto do Oriente Médio, pela rota da Turquia", detalha Bejamin Crabtree, especialista em tráfico de drogas e crime organizado.
Ele elaborou uma radiografia do comércio flutuante dessa droga, depois de entrevistar mais de 20 agentes da lei e com dados atualizados sobre as apreensões (clique para aumentar a imagem).
Entre os anos noventa e começos deste século, os centros de produção de Captagon eram Bulgária e Turquia. Mas o incremento nos controles estatais transladaram o negócio para a Síria.

Síria entra no negócio
Neste país, segundo Crabtree, o negócio disparou em 2011, coincidindo com o início do conflito entre o regime de Bashar al Assad, os rebeldes e demais atores locais e estrangeiros que se enfrentam defendendo variados interesses.
Quatro fenômenos fizeram da Síria um caldo de cultura ideal para o negócio do Captagon: a ausência do Estado em zonas ocupadas pela oposição; a exígua fiscalização nacional e internacional onde o Governo se faz presente; a urgência de encontrar formas de financiamento ou de subsistência no meio de um conflito que deixou 85,2% da população na pobreza extrema; e um mercado crescente entre mais de 10 milhões de migrantes que fogem do conflito.
Apesar das limitações para aplicação da lei naquele país e às dificuldades para a coleta de informações oficiais, o investigador acha que o número de capturas da droga é superior a de outros países da região em melhores condições sociais. "Isto indica que o problema é muito maior do que se vê", adverte.  Somente em 2015 foram confiscados 24 milhões de comprimidos na Síria.
Chama a atenção o fato de que, para outras drogas, como a heroína de origem afegã, a instabilidade e o conflito conduziram a uma trajetória geográfica contrária: sumiram das zonas de conflito na Turquia e Síria.  
As redes de traficantes do Oriente Médio preferem uma vizinhança mais estável. Não obstante, os principais mercados de destino para o Captagon são os países da península Arábica, e ainda, os migrantes que se dirigem à Europa também são um público-alvo, segundo detectou Crabtree.
O Captagon, sem dúvida, tem uma história inusitada.

A História Incomum
A produção e o tráfico de Captagon se converteram em uma fonte perfeita de custeio para os atores do conflito na Síria. A simplicidade e a natureza móvel das instalações de produção, e os limitados conhecimentos químicos requeridos, são ideais (1).
De acordo com as observações de Crabtree em sua investigação, a produção de uma pílula custa cerca de 15 centavos de dólar e é rentável, apesar de seu preço no mercado ser variável, dependendo do país: na Síria, custa entre 5 e 10 dólares; na Jordânia, pode ir até 29 dólares; e alcança 50 dólares no sul da península Arábica.
Desde a Síria, a proximidade com os principais mercados de destino também ajuda. A isto se soma a crescente demanda interna do país, que oferece fontes altamente rentáveis com um baixo risco de interceptação, devido às debilidades na aplicação das leis.
Mais ainda, nesse país não só o crime organizado se beneficia desse tráfico, mas também atores estatais e não estatais díspares. (2) Destacando-se o Estado Islâmico (EI), que não deixa pistas de sua participação nesse mercado.
"Serem vistos apoiando ativamente o tráfico significaria graves implicações nos seus esforços de propaganda", destaca Sergio Moya, coordenador do Centro de Estudos do Oriente Médio, na Costa Rica. Acrescenta que o grupo divulga esforços ocasionais para demonstrar que está contra o narcotráfico: em março de 2016 executou cinco traficantes e teria tentado destruir plantações de cannabis descobertas em seu território.
A teoria de Crabtree é que, em função da queda nos preços do petróleo, os atores do conflito na Síria necessitam acesso a fontes novas e facilmente exploráveis de subvenção. O Captagon atende esse propósito e tem um efeito perverso: os soldados e rebeldes que o consomem se convertem em máquinas de guerra sem escrúpulos.
Mas há mais: "seis milhões de migrantes sírios refugiados em países vizinhos são uma comunidade de risco para o consumo de drogas e atuam como 'mulas' para pagar suas viagens a países europeus", aponta o especialista.
O Captagon, por exemplo, lhes tira o cansaço, a sede, e justo agora, quando se aproxima um violento inverno no Oriente Médio, poderá tornar-se elemento de primeira necessidade.
Em resumo, há uma guerra, uma droga e consumidores em todos os bandos. O que menos interessa aos traficantes é a proximidade da paz. 

Uma Droga de Guerra
Em todos os países em conflito da África e Oriente Médio onde esteve Camilo Kuan, especialista em saúde pública e drogas, as anfetaminas são mais comuns do que se acredita. "No norte da Síria, na fronteira com a Turquia, nas zonas muçulmanas da África, se cortam os alimentos, o abastecimento de gás e água. As pessoas sentem medo e devem fazer grandes deslocamentos, por isso as drogas se tornam o melhor amigo dos guerreiros e dos sofredores", afirma. 
De acordo com Hassan Turk, especialista em Oriente Médio, os grandes movimentos de populações, pelas migrações derivadas de conflitos armados, propiciam formas de transporte de drogas.
"Agora é mais fácil que antes. Entre migrantes e refugiados sírios há inocentes, mas também terroristas e traficantes, que aproveitam uma fronteira débil com a Turquia para movimentar um mercado negro que não percebemos."
Quando se formar algum tipo de acordo de paz na Síria será crucial desmantelar atividades ilícitas como o Captagon. Sem que isto fique claro, conclui Crabtree, "o narcotráfico criará instabilidade a longo prazo e atuará como um impedimento à paz e ao desenvolvimento".
Sem uma adequada intervenção dos governos, o Captagon seguirá sendo um monstro invisível no Oriente Médio. As consequências são indefiníveis a longo prazo. E Síria já as sofre diariamente.

Observações

(1) A Produção é Muito Simples
O Captagon se produz de maneira clandestina e simples: só se necessitam laboratórios caseiros e precursores químicos. Enquanto as substâncias base para fabricar esta droga são muitas vezes obtidas diretamente dos fabricantes, os traficantes de anfetaminas também compram ou roubam grandes quantidades de medicamentos para a tosse das companhias farmacêuticas ou farmácias que contenham norefedrina ou outros precursores similares. As pílulas medicinais são dissolvidas e reutilizadas em laboratórios clandestinos para criar comprimidos de anfetaminas, como o Captagon.

(2) Os Que Estão Detrás do Tráfico:

- Exército Sírio Livre e Forças Rebeldes Moderadas

Não só usam, mas também se beneficiam do tráfico de Captagon, segundo se pode identificar nas apreensões da droga, que mostram percursos desde a província de Hatay, onde esses grupos rebeldes exercem controle.
Apesar disso não significar necessariamente uma participação ativa e direta no mercado, de acordo com o grupo de investigações sobre Crime Organizado, Global Initiative, porém isso é muito provável: a droga proporciona uma fonte segura de financiamento para esses atores, sobretudo quando suas formas de sustentação mais tradicionais, como o petróleo e a extorsão, proporcionam escassos retornos, atualmente, aos grupos nesta parte da Síria.

- O Regime Sírio

Apesar do vínculo direto entre o tráfico de drogas e o regime não ser totalmente claro, Global Initiative evidencia que muitos dos grandes apresamentos realizados na Turquia e na Jordânia, e os confiscos marítimos frente às costas da Líbia, a partir de 2016, eram originárias de zonas sob completo controle do regime.
Além disso, a ausência de arrestos, desde 2011, no Aeroporto Internacional de Damasco, sugere acordos entre traficantes e o regime. Síria vem mantendo uma forte economia ilícita desde muitos anos. E isto pode ter sido agravado pelo alto índice oficial de desemprego e pela crise econômica: o Produto Interno Bruto (PIB) foi reduzido em 15,4% em somente quatro anos, até 55,8 milhões de dólares em 2014.

- O Estado Islâmico

A extinta repartição russa contra o narcotráfico, FSKN, informou em 2014 que o grupo Estado Islâmico auferiu mais de um bilhão de dólares com o tráfico de drogas e produção das mesmas. Ainda que não esteja claro para Global Initiative que os terroristas sejam exportadores de drogas, definitivamente há uma relação conflitiva com o narcotráfico.
Frequentemente são descobertas nos uniformes de combatentes mortos, bolsas com pílulas que são usadas como uma espécie de recurso de combate para fazer frente ao trauma e também como sedante. Mas o grupo tem uma dupla moral que se manifesta quando os traficantes capturados dentro de seu território, frequentemente são executados, conforme é mostrado nos seus vídeos de propaganda terrorista.

¿Como se Move o Captagon?

- Quando os envios são marítimos, vão através do Canal de Suez até os portos na Península Arábica ou na África Oriental. Também a partir da Turquia, para portos na costa mediterrânea.

- Por terra, para o sul, se move desde as zonas rebeldes da Síria até a fronteira terrestre com a Jordânia.

- Por terra, desde o oeste da Síria, sai para a Península Arábica através do Líbano.

- Há poucas provas de que o Captagon seja transladado em grandes quantidades desde a Síria, diretamente ao Iraque, por falta de segurança territorial para um tráfico consistente.

Encerrando

O tráfico do Captagon desde a Síria para o resto do Oriente Médio e África Oriental está sendo pouco tratado pelas autoridades e requer atenção para que se alcance a paz nesse país.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O Grupelho Que Põe em Risco o Acordo Com o ELN

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por Ricardo Monsalve Gaviria

Para ver o mapa em maior tamanho, clique aqui.
Igual ao ocorrido com uma facção da Primeira Frente das FARC, que se declarou em dissidência no processo de paz, uma parte do ELN poderá semear dúvidas sobre a coesão dessa guerrilha nos diálogos que recém iniciam.
El Colombiano soube que com base em interceptações feitas nas comunicações dos chefetes do ELN, o Exército estabeleceu que na Frente Ocidental, que atua no Chocó, poderiam existir desacordos com as políticas do Comando Central (CoCe) dessa quadrilha, cujos diálogos de paz com o Governo iniciarão sua fase pública no próximo 27 de outubro.
"Eu estou com as políticas do CoCe, mas não as assumo", é o que teria dito "Fabián" nas últimas interceptações, segundo a Inteligência Militar. Ele é o principal chefe dessa Frente, reconhecida pelos bloqueios ilegais que executa nas vias que ligam Medellin e Pereira com Quibdó, assim como por praticar atividades ilícitas como narcotráfico e mineração ilegal.
"Da Frente Ocidental há grupos muito ativos como o 'Manuel Hernández El Boche' e o 'Cacique Calarcá', os quais praticam atividades ilegais nas vias que conduzem a Quibdó; o 'Ché Guevara' e a 'Resistência Cimarrón' se dedicam à economia ilegal [arrecadação de propinas] produto do ouro e narcotráfico no [costa do] Pacífico e possuem muitos recursos por esses lados", assegurou a Inteligência Militar.
Luis Eduardo Celis, analista da fundação Paz e Reconciliação, considera que enquanto não houver um pronunciamento público de algum dirigente do ELN, é muito difícil saber se há unidade ou não.
"Eu creio que se deve esperar que evolua a mesa [de negociações]. Se nenhuma liderança se opôs até o momento, é porque há uma decisão de levar esses diálogos adiante", assegura o analista, que acredita que com o avançar da agenda de negociações se poderá medir quanta coesão existe "e se se apresentam dissidências, como ocorreu com uma pequena facção da Primeira Frente das FARC".
Por sua parte, Eduardo Álvarez, da fundação Ideias para a Paz, adverte que deve ser considerado que a Frente Ocidental tem uma realidade muito diferente dos outros grupos do ELN no país. "Ali, a pelo menos um ano, estão lutando com as quadrilhas de criminosos", e acrescenta que "a evolução do conflito e a forma como foram pelo Estado gera desarticulação e por conseguinte, problemas de coesão onde lideranças mais jovens podem não estar tão conectados com o CoCe".

Esperam Instruções
Com o anúncio da data para o início da fase pública de diálogos com o ELN, no Ministério da Defesa esperam instruções para saber o futuro das campanhas de prevenção ao recrutamento e de desmobilizações que ainda funcionam em outras zonas do país.
Segundo o Coronel (Reserva) José Mauricio Cote, assessor do Ministério em campanhas de prevenção e recrutamento, "é muito provável que toda a estratégia atual contra o ELN, que havia se fortalecido há alguns meses, sofra uma mudança, sem dúvida estamos à espera de instruções". Entretanto, as ações para motivar as desmobilizações continuam em Bolívar, Catatumbo, Cauca, Arauca, Chocó e Antioquía. No corrente ano de 2016, houve a desmobilização de 237 integrantes do ELN.

Personagens
Ogli Ángel Padilla Romero, vulgo “Fabián”, faz parte da Direção Nacional do ELN. Segundo a Inteligência Militar, ele se encontra, atualmente, no departamento (Estado) de Chocó, onde estrutura-se a "Frente de Guerra Ocidental" da citada guerrilha. Essa organização, dizem as autoridades, recebe recursos econômicos oriundos da mineração ilegal, narcotráfico, sequestros e extorsões realizadas nessa zona do país.
A Inteligência militar acredita que “Fabián”, pode não estar de acordo com algumas políticas do Comando Central do grupo guerrilheiro.

Outra liderança influente na Frente Ocidental é Emilcen Oviedo Sierra, conhecida como "Martha" ou "La Abuela" (a Avó). Ela dirige as atividades da 'Frente Manuel Hernández 'El Boche" - que atua nos municípios de Bagadó,  Medio e Alto Baudó, Itsmina, Lloró, Mistrató, Nóvita, Palmadó, Puerto Rico e Tadó, todos em Chocó - e 'Cacique Calarcá', nos limites entre Chocó e Risaralda, comandando as ações terroristas do ELN, particularmente as ocorridas na via Pereira-Tadó. Ela também coordena atividades delinquenciais como sequestros, extorsões a comerciantes e a transportadoras.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
imagens copiadas de El Diario del Otún

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Política da Composição dos Efetivos das Forças Armadas

por Francisco Carlos Pereira Cascardo (*)
Desde a sua aprovação presidencial em 18 de dezembro de 2008 a Estratégia de Defesa Nacional tem sido tema permanente no noticiário nacional. Foram as diversas exposições feitas pelos: Ministro da Defesa, Comissão de Defesa da Câmara dos Deputados, os numerosos seminários organizados pelas instituições privadas, as manifestações de estudiosos no assunto em artigos publicados na imprensa e aparições na televisão.
Como oportunamente ressaltado na Exposição de Motivos encaminhada ao Presidente da República, os ministros signatários esclarecem que a referida END fundamenta-se em "...três eixos estruturantes:
- Reorganização das Forças Armadas ; 
- Reestruturação da Indústria Brasileira de Defesa; e
- Política de Composição dos Efetivos das Forças Armadas..."
Este último,  a Política da Composição dos efetivos das Forças Armadas  será o tema do presente trabalho.
A sua escolha deve-se a dois motivos: o primeiro encontra-se na inexistência de trabalhos específicos, contrastando fortemente com a apreciável frequência dos atraentes temas dos dois outros eixos estruturantes, tais como:
— o submarino de propulsão nuclear;
— a defesa das plataformas marítimas de exploração de petróleo;
— a preferência de navios de múltiplo emprego em detrimento dos Navios Aeródromos;
— a defesa da região amazônica;
— a redistribuição da Força Terrestre pelo território nacional;
— a aquisição do caça de quinta geração; e
— a retomada da indústria de defesa.

O segundo motivo reside na necessidade da adequada identificação da natureza da "Política" empregada na Composição dos Efetivos das Forças Armadas. Isto porque a sua redação vale-se de termos específicos que aparentam serem originários de uma conhecida terminologia que já caminhara para o desuso.
Mesmo com o risco de recair em truísmo é oportuno registrar que qualquer Plano e, no caso o END, fundamenta sua elaboração em três fases:
— identificação da situação;
— análise; e
— proposta de ação.
Os autores do END, ao não se furtarem em percorrê-las, consequentemente revelam, no caso dos militares, o que pensam, o que pretendem alterar e a solução a ser implantada.
A apresentação deste trabalho, para facilitar o entendimento do leitor, constará na focalização naqueles aspectos da EDN considerados característicos e que serão denominados de DESTAQUES. Eles extraídos, ipsís lítteris, do texto original e acrescidos das observações pertinentes.

DESTAQUE 1
Natureza e âmbito da END
"... seu propósito é zelar para que as Forças Armadas reproduzam, em sua composição, a própria Nação  para que elas não sejam uma parte da Nação pagas para lutar por conta em beneficio de outras partes ... a Nação possa encontrar-se acima das classes sociais ..."
OBSERVAÇÃO:
Auto explicativo. Chama atenção a frequência de emprego das expressões como "classes sociais".

DESTAQUE 2
Diretriz 23 - Manter o Serviço Militar Obrigatório
"... também instrumento para afirmar a unidade da Nação acima das divisões das classes sociais ... ... Devem as Escolas de Formação de oficiais das três forças continuarem a atrair candidatos de todas as classes sociais. É átimo (sic) que número cada vez maior deles provenha da classe trabalhadora ...
OBSERVAÇÃO:
Os autores identificam, no seu entender, atual disfunção desvantajosa, e para corrigi-la propõem a solução de incrementar o ingresso de candidatos da classe trabalhadora. Na terminologia das classe sociais, a mais comum, denomina a referida classe como proletariado. Aumentando a sua participação, provavelmente, pretendem reduzir a influência da atual situação encontrada nas Escolas Militares por julgá-las desfavorável, possivelmente considerada como a "burguesia". Em resumo, provavelmente, os autores pretendem aumentar a participação dos alunos oriundos do "proletariado" em detrimento daqueles provenientes da "burguesia".
O repetido lugar comum de "classes" e "divisão das classes", mesmo com a ausência da ilação "luta de classes", sugere possível viés ideológico.
Ressalte-se que a admissão às Escolas Militares faz-se mediante concurso público e a aprovação dos candidatos é mediante a rigidez do princípio do mérito. O comparecimento às formaturas dos alunos das três escolas permite aos presentes observação da heterogênea origem socioeconômica de seus integrantes. A negação da realidade pode servir de fundamento para introduzir as alterações até então julgadas não necessárias.

DESTAQUE 3
Marinha do Brasil: a hierarquia dos objetivos Estratégicos e Táticos  itens 1 e 2 (páginas 20 e 21 da EDN);
"... a Marinha do Brasil se pautará por um desenvolvimento desigual e conjunto ..." e "...a doutrina de desenvolvimento desigual e conjunto tem implicações para a reconfiguração das forças navais...
OBSERVAÇÃO:
A "...Doutrina de desenvolvimento desigual e conjunto...” constitui a aplicação da conhecida Lei de Trotsky, e da qual unicamente é diferenciada pela última palavra do seu enunciado. Eis a comparação:
Trotsky - ..."a doutrina do desenvolvimento desigual e combinado"; e a 
EDN - "...a doutrina do desenvolvimento desigual e conjunto...
A primeira Lei do desenvolvimento desigual coube a Lênin e seu texto não contemplava a palavra "combinado". Esta seria acrescentada por Trotsky alguns anos mais tarde. Lenin e Stalin a empregavam para explicar que o caminho da revolução dos países que se encontravam em estágio inferior de desenvolvimento teria como primeira etapa o crescimento econômico e daí sim, a passagem para a etapa seguinte, a revolução socialista.
Como consequência direta eles negavam a luta revolucionária como etapa inicial para os países mais atrasados. Estes teriam de percorrer etapa intermediária, pré-capitalista, denominada "revolução democrática-burguesa". Suas lideranças não seriam o partido comunista e sim as suas burguesias nacionais. Trotsky discordava de Lênin e Stálin e alertava que as ditas "burguesias-nacionais" mantinham fortes laços de interesse com os países mais adiantados o que dificultava, ou impediria, que guiassem o caminho da revolução. Esses laços eram de natureza de dependência de capitais estrangeiros, influência dos grandes proprietários rurais, etc., e todos os dois impregnados por seus elevados temores de que o proletariado pudesse chegar ao poder político.
Por sua vez as desigualdades entre as diversas nações desenvolvidas e subdesenvolvidas repercutiriam nestas últimas, obrigando-as a fazer adaptações nos seus caminhos revolucionários, devido aos seus diferentes níveis econômicos e culturais. Estas adaptações, que ficaram conhecidas como "choque-adaptação" foram chamadas por Trotsky de "combinado” e, por ele acrescidas à anterior Lei de Lênin, passaram a denominar-se de Lei de Trotsky.

DESTAQUE 4
O Serviço Militar Obrigatório: nivelamento republicano e mobilização nacional - item 6 (página 39 da EDN);
... é importante para a defesa nacional que o oficialato seja representativo de todos os setores da sociedade brasileira...
"... é bom que os filhos dos trabalhadores ingressem nas academias militares...
OBSERVAÇÃO:
Já considerado no DESTAQUE n° 2, evidencia a preocupação com a classe de origem dos alunos das Escolas Militares. Julgando que a distribuição atual não favorece aos "filhos dos trabalhadores", propõe a alterar este estado de coisas, de forma a aumentar o seu ingresso. O resultado prático é a neutralização, ou superação da suposta atual constituição dos corpos de alunos das Escolas Militares considerada pelos autores como predominantemente burguesa.

DESTAQUE 5
Estruturação das Forças Armadas (página 49 da EDN)
"... Nesse sentido o sistema educacional de cada força ministrará cursos e realizará projetos de pesquisa e de formulação em conjunto com os sistemas das demais Forças e com a Escola Superior de Guerra" ... "A ESG restaurada como preceitua a EDN terá inferência no sistema educacional de cada Força ...” " ... o ministério da Defesa deverá apresentar planejamento para a transferência da Escola Superior de Guerra para Brasília de modo a intensificar o intercâmbio fluido entre os membros do governo Federal e aquela instituição de modo a otimizar a formação de recursos humanos ligados aos assuntos de defesa." ... o ministério da Defesa elaborará uma Política de Ensino ... acelerar o processo de interação do ensino militar. ... atendendo as orientações da EDN ..."
OBSERVAÇÃO:
O Ensino nas três FFAAs é regido por lei, específica para cada uma delas.
Com as alterações inclusas na EDN caberá ao ministério da Defesa formular a Política de Ensino, e a ESG restaurada terá ingerência no Ensino de cada Força.

DESTAQUE 6
Recursos Humanos - itens 1 e 6 (páginas 57 e 59 da EDN)
"... O recrutamento dos quadros profissionais das Forças Armadas deverá ser representativo de todas as classes sociais ..."
OBSERVAÇÃO:
Registra-se a preocupação dos autores com o tema "classes sociais", já visto no DESTAQUE 2.

DESTAQUE 7
Recursos Humanos - item 6 (página 59 da EDN)
"... as instituições de ensino das três Forças Armadas ampliarão nos seus currículos de formação militar disciplinas relativas a noções de Direito Constitucional e de Direitos Humanos, indispensáveis para consolidar a identificação das Forças Armadas com o povo brasileiro ...”
OBSERVAÇÃO:
Transparece a discutível preocupação de "consolidar" a identificação das FFAA com o povo brasileiro. O fundamento para esta alteração é a assunção pelos autores de um "gap" entre o povo brasileiro e suas FFAA.
Pergunta-se: qual a origem desta proposição que tão categoricamente estatui que há lapso entre o povo e FFAA?
Qual o estudo ou pesquisa que valida esta afirmação?
As pesquisas ora conhecidas envolvendo as FFAA atestam a elevada credibilidade que o povo brasileiro atribui às suas FFAA. Quanto às alterações dos currículos como preconizadas, sugerem semelhança com as conhecidas disciplinas de Estudos de Problemas Brasileiros e Organização Sócio-Política Brasileira.

APRECIAÇÃO FINAL
Os sete DESTAQUES anteriormente apresentados e comentados evidenciam o expressivo emprego das seguintes palavras ou expressões ou "indícios":
"... Divisões das classes sociais; todas as classes sociais; classe trabalhadora; o oficialato seja representativo da sociedade brasileira, filhos dos trabalhadores ingressem nas academias militares; ampla representação das classes das sociais; representativo de todas as classes sociais; consolidar a identificação das FFAAs com o povo brasileiro".
O repetitivo e compulsivo emprego dos termos acima indica a importância dada pelos autores ao tema "classes sociais" bem como as suas "divisões". Uma vez integrando o texto do EDN, levam consigo, e por isso evidenciam, possível viés ideológico ao documento de mais alto nível que trata da Defesa Nacional.
Para facilitar o entendimento do leitor e dar clareza ao significado de "classes" recorre-se a trabalho do presidente da Associação Brasileira de Estudos Estratégicos  ABED, em livro publicado que conceitua:
"... classe ... pela posição que ocupa no interior do sistema de produção, e consequentemente caracterizam-se pelos seus interesse antagônicos. De um lado a minoria que controla os meios de produção (burguesia), e do outro, numericamente maior, que se distingue apenas pela posse da força de trabalho (proletariado)".
Voltando ao texto do EDN, quando diz:
" ... é zelar para que as forças Armadas reproduzam em sua composição a própria Nação, para que elas não sejam uma parte da Nação, pagas para lutar por conta e em benefício das outras partes".
Na eventualidade da frase acima ter apresentado alguma dificuldade para seu adequado entendimento o mesmo deixa de acontecer quando recorre-se à explicação que a antecede, obtendo-se o entendimento de que "partes" ou “divisões de classe" podem ser consideradas como de mesmo significado, ou sinônimos, isto é, de burguesia e proletariado.
O emprego da Lei de Trotsky reforça a hipótese de possível viés ideológico.
Ainda citando o ilustre professor atual presidente da ABED Eurico de Lima Figueiredo o papel dos militares é de:
- aqueles que as aceitam como a "expressão do militar" é razoável encontrar nelas a origem das alterações introduzidas no EDN e que foram como DESTAQUES, matéria deste trabalho;
- aos que não aceitam sugiro persistir no sentido de levar à grande maioria, que ainda não se manifestou, a necessidade de ampliar os debates e que discordando ou concordando com a autor expressem suas opiniões.
À reflexão dos que chegam ao término destas páginas, repetem-se as três frases:
 "...representativo de todas as classe sociais...";
 “...admissão nas academias militares dos filhos dos trabalhadores ...”; e
 "...é ótimo que número cada vez maior deles provenha da classe trabalhadora ...".
A cinemática das três frases acima, apresenta a evolução programada da composição dos Corpos de Alunos das Escolas Militares. Com a consecução da terceira, ou última, é alcançado o desiderato estabelecido no END. Continua-se a ter burguesia e proletariado nas academias militares mas, agora, com o proletariado assumindo sua nova posição de hegemonia em detrimento da burguesia tornada minoritária.
(*) Capitão-de-Mar e Guerra Reformado.
COMENTO:   esse tipo de tema (aplicação da "luta de classes" no seio das FFAA) já foi tratado aqui no Blog.  O exemplo mais esclarecedor foi a forma como foi criado o Quadro Especial de 3º e 2º Sargentos do EB.  Uma questão que poderia ter sido facilmente resolvida por mecanismos internos que possibilitassem o acesso de Cabos e Soldados estabilizados aos diversos Cursos de Formação de Sargentos, terminou nas mãos de um deputado petista que - atropelando as atribuições Constitucionais - fez com que o Ministério da Defesa apresentasse um projeto, logo aprovado pelo Congresso, possibilitando as promoções sem a exigência das qualificações mínimas exigidas aos Graduados oriundos das Escolas de Formação.
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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Que Deu do Caso "Maju"?

Em julho deste ano se tornaram notícia nacional as ofensas raciais sofridas pela jornalista Maria Julia Coutinho, carinhosamente apelidada de “Maju”, postadas na página do Facebook do Jornal Nacional:
A jornalista Maria Júlia Coutinho foi alvo de comentários racistas na página do Jornal Nacional no Facebook, em post publicado na noite de quinta-feira (...) Alguns internautas escreveram comentários racistas no post que tem uma foto de Maju ...” (G1 – 03/07/2015).
Uma horda saiu em defesa da jornalista. Novamente palavras como “racismo”, “preconceito”, “injuria racial”, “reparação social” e outras mais, foram compartilhadas centenas e centenas de vezes. Mais uma vez, foi dito que a sociedade brasileira é uma sociedade racista e que os negros precisam de maiores proteções legais contra esses tipos de agressividade cibernética.
Pois bem, vamos a fundo nos fatos. O que deu do caso “Maju”?
Diante da comoção de parcela da sociedade e, tendo em vista, ser uma “global”, o poder público precisava dar uma resposta à altura. Foi o que aconteceu. O Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO – Ministério Público) criou a “Operação Tempo Fechado”, disponibilizando mais de 50 Promotores de Justiça de todo o Brasil para esclarecer as circunstâncias e autor (es) do crime, visando buscar e punir os envolvidos.
Após, aproximadamente, quatro meses de investigações, a quais conclusões chegaram? É aqui que as coisas começam a ficar interessantes e a realidade supera, em muito, a ficção.
As investigações levaram a Érico Monteiro dos Santos, 27 anos. Érico, jovem negro do interior de São Paulo, declarou ser administrador de um grupo que usava de falsos ataques racista para angariar fama à si. Os ataques eram sempre direcionados a pessoas conhecidas, tendo em vista que, dessa forma, a repercussão seria maior.
De acordo com Santos, os grupos atuam a partir de uma dinâmica de disputa e competição. Quanto maior for a atenção midiática e o número de curtidas e compartilhamentos dos ataques, maior é o prestígio entre os "rivais (...) ‘Eles querem notoriedade, competem entre si e agem como gangues de pichadores, em que uma quer sempre aparecer mais do que a outra’, afirma o promotor.” (BBC-Brasil – 10/12/2015)
Apesar de Érico ter negado as acusações, também foram encontradas fotos de nudez infantil em seu celular. Quando questionado sobre o conteúdo impróprio, disse que seria usado para lançar ataques contra seus inimigos virtuais. Essas fotos seriam postadas em suas páginas, como se de autoria deles, fazendo que as respectivas fossem bloqueadas e os mesmos respondessem judicialmente. Tudo “fake”. (G1 – 11/12/2015)
Ou seja, era tudo mentira, não existia racismo... Não existia pornografia infantil... Os ataques não eram verdadeiros... Era tudo mentira visando causar comoção social... “compartilhamentos”... Reportagens... Nada era verdade... Era tudo “fake”! A realidade superando a ficção.
E, aqui está o ponto de inflexão de minhas considerações: por que um jovem negro faria falsas ofensas raciais à uma jornalista negra? Por que usaria de falsos ataques racistas à uma personalidade de destaque? Por que usar de pornografia infantil falsamente para detratar seus adversários virtuais? Tudo “fake”!
A priori, como o próprio acusado declarou, era tudo uma questão de guerra entre grupos virtuais, para saber quem angariaria mais fama. Mas será que era só isso? Sim. Na visão do acusado, pode até ser que sim. Entretanto, não quero permanecer só na superfície da notícia, quero ir além. A quem mais interessaria essas circunstâncias?
Sabemos que pornografia infantil, ataques racistas e homofóbicos às personalidades de destaque, geram clamor social. Artistas saem em defesa dos ofendidos. A mídia expõe os “fatos” em suas “primeiras páginas”. A sociedade pede rigor na punição dos envolvidos. E, quando se trata da internet, logo aparece alguém dizendo que a internet é um lugar livre demais, que é necessário maior regulação. Mais “marcos civis da internet”. E, o cidadão, diante do caos “fake”, anui, considerando ser necessárias leis mais rígidas e maior controle para punir os envolvidos.
Mas quem ganha com isso?  O Estado.
Por meio de um ato de mentira o Estado ganha mais poder. Você me pergunta, como? A partir de mentiras, haverá novas leis, que nos regulamentarão ainda mais. Agora novas delegacias são criadas. “Delegacias de Crimes Virtuais”. Mais policiais, mais aparato repressor. Mais dinheiro, do contribuinte sendo gasto. Mais impostos. Menos dinheiro sobrando aos cidadãos. O Estado cada vez maior. Uma máquina burocrática gigantesca.
Cada vez mais Estado, menos liberdade. Cada vez mais o Estado se intrometendo na vida e liberdade individuais. Cada vez leis mais intrusivas. A ponto de o Estado ditar se podemos ou não disciplinar nossos próprios filhos, por meio de uma “Lei da Palmada”. Mais controle. Algumas décadas atrás isso seria um absurdo. Hoje, somos lenientes com este tipo de poder avassalador.
O pensamento do homem moderno se resume da seguinte forma: “Um errou, todos pagam”. Não ignoro que haja crimes sendo perpetrados na internet, mas não sou leniente com o discurso que em face do erro de um, todos devem ser punidos. É o que está acontecendo. O criminosos estão usando o Whats, ele é bloqueado. Pessoas cometem crimes virtuais e minha liberdade é cerceada. Onde isso vai parar? Já há instrumentos para investigar, prender e punir os envolvidos em crimes virtuais, não há a necessidade de novas leis mais controladoras que venham à afetar inocentes que não tem nada a ver com isso. Que façam uso delas, não tenho nada a ver com isso. Minha liberdade foi algo conquistado com luta e sangue ao longo de muitos séculos, para ter de vê-la sendo demolida pelo Estado moderno.
O homem moderno no afã de resolver seus problemas, pede mais soluções ao Estado. O Estado em sua sanha dominadora concede-lhe. O homem moderno “incapaz”, pedindo mais “cuidado” ao seu Estado-babá.
Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado”.
Isso não é novo. Para àqueles que já estudaram teoria do poder, dentro de ciências políticas, sabem que desde Lenin isso já é falado: “Fomente o caos e depois denuncie-o”. “Gere crises e aufira os ganhos decorrentes delas.” Consiste em criar o “caos”, deixar que as pessoas peçam ajuda e depois criar instrumentos que darão mais controle sobre a sociedade. Isso é velho, mas, incrivelmente, no Brasil, a grande maioria das pessoas nunca ouviu falar.
Esse é um princípio imanente à sociedade moderna. Perceba o que aconteceu nos Estados Unidos após o 11 de setembro. Nunca ninguém havia ouvido falar da Nacional Security Agency (NSA). Após o caos, em forma de terror, ter sido espalhado, milhões de americanos se dispuseram à abster-se de suas liberdades individuas em troca de uma maior “segurança”. O que aconteceu? A NSA se tornou o maior mostro na questão de espionagem que já se teve notícia. “Grampos” para todos os lados. Telefones, computadores, pessoas, veículos... Todos, de aliados a inimigos sendo monitorados. Até os neutros, como o Brasil. A partir do caos, mais poder ao Estado que tudo quer ver, tudo quer ouvir, tudo quer saber.
Por fim, o “Big Brother”. E, não, eu não estou falando do programa de televisão.
“Dividir para conquistar”. Essa é a estratégia do Estado socialista moderno. Negros contra brancos, pobres contra ricos, nordestinos contra paulistas, héteros contra gays, o “terceiro mundo” contra o “primeiro”: o “imperialismo”, os “yankees”, etc. Mas no fim das contas, quando esses grupos clamam por mais proteção, quem ganha é sempre o Estado. Cada vez mais dominante, imiscuindo-se na vida privada, nas relações sociais, com legislações cada vez mais intrusivas. Cada vez mais poderoso em face de um cidadão que clama, cada vez mais, por proteção estatal, sem saber que esse é o estratagema no qual está sendo engodado.
Parafraseando Stálin: “Aos burgueses devemos dar-lhes a corda, que farão o laço, com o qual se enforcarão”. Quando todas essas leis e controles começarem a, desgostosamente, nos afetar; lembremos que, fomos nós mesmos que pedimos.
"O Grande Irmão está te observando"
 (George Orwell)
 Geyson Santos é Bacharel em Direito,
 Servidor Público e Pesquisador Independente.
Fonte:  JusBrasil
COMENTO: gostei do texto, e lendo os comentários na publicação original - e uma das respostas do autor - penso que ele evitou propositalmente fazer referência à denominada Militância em Ambientes Virtuais (MAV), criada no Congresso do PT de 2011 para não comprometer-se. Quem quiser saber mais sobre o assunto, há um texto do sociólogo Demétrio Magnoli publicado originalmente na Folha, mas que também pode ser lido aqui, ou clicando na imagem, abaixo. Já me referi a esse pessoal no blog, denominando-os de beneficiários da "bolsa-web" em 2013 e em 2014.  Afinal, como se pergunta nas investigações: a quem interessa o crime? É muita ingenuidade acreditar que se trata de simples disputa entre "grupos em busca de notoriedade". 
Imagem do blog Força Militar
O "ato falho" da confissão de uso de pornografia infantil contra adversários indica muito mais do que disputas por audiência. A repetição dos "ataques racistas" coevos a eventos cuja ênfase em sua divulgação não interessa ao atual governo (dizem que Maju é esposa de um diretor da Pepper, agência envolvida no Petrolão; a Thaís Araújo e a Cris Vianna foram ofendidas na época da prisão do senador Delcídio; e depois, a Sheron Menezes foi atacada quando da formalização do pedido de impedimento presidencial). Esperemos que estes outros fatos também tenham seus autores identificados e devidamente punidos, e que não surjam atos de extrema bondade das ofendidas para com seus ofensores. Como li em um comentário a respeito do assunto, se a coisa seguir esse ritmo, com tanta patifaria para ser abafada, vai terminar sobrando até para a Tia Anastácia da versão original do Sítio do Pica-pau Amarelo.
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Quadrilha de Sírio “Nacionalizava” Imigrantes no Brasil

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A Polícia Civil do Rio de Janeiro desmantelou uma quadrilha liderada por Ali Kamel Issmael, sírio de 71 anos, que “nacionalizou” 72 compatriotas que fugiram da guerra naquele país para o Brasil entre 2012 e 2014. Desde 2011, o Brasil já acolheu 2.097 sírios graças a duas resoluções do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), vinculado ao ministério da Justiça.
Issmael contou com a cumplicidade de funcionários de registro para alterar documentos e transformar 72 sírios em brasileiros, com direito a carteira de identidade, passaporte e título de eleitor. Ele conseguiu que os registros de nascimento de 1960 e 1970 fossem arrancados dos respectivos livros e substituídos por novas folhas onde os sírios apareciam com brasileiros natos.
A maioria dos sírios que chega ao país não fala português, não encontra trabalho e usa o país como ponte para chegar à Europa. Entre eles, têm ingressado também nacionais de outros países como Afeganistão, Paquistão, Sérvia e Senegal. A Polícia Civil do Rio de Janeiro trabalhou oito meses nas investigações e suspeita que grande parte dos “nacionalizados” já tenha partido do Brasil. Do total de 72 sírios, apenas 39 ainda estaria no país e outros 17 teriam tentado ingressar nos Estados Unidos, mas foram apanhados com documentação falsificada.
Os policiais do Rio trabalham com cooperação com a Interpol para identificar o paradeiro dos sírios “nacionalizados”. Para os agentes, o caso evidencia a vulnerabilidade do sistema brasileiro uma vez que não há qualquer filtro para o acolhimento de refugiados sírios.
A Polícia Civil carioca não tem dúvidas que a Segurança Nacional está em jogo e que as investigações também aumentam as preocupações com a segurança dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro que começam em 5 de agosto de 2016.
Os passaportes emitidos em nome dos “sírios-brasileiros” deverão ser anulados, segundo a Polícia Civil. Issmael e os cúmplices brasileiros responderão por falsificação de documento público e a esposa do líder da quadrilha, Basema Alasmar foi detida. Ela figurava na lista de “nacionalizados”.
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Análise da Notícia
por Marcelo Rech
Em 27 de maio deste ano, em audiência pública da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, alertei para o risco de o Brasil acolher refugiados e imigrantes sem que houvesse qualquer filtro por parte dos agentes de segurança e inteligência. Mostrei dados revelando que o Estado Islâmico estava aproveitando as ondas migratórias para a Europa, para infiltrar extremistas naquele território com o objetivo de recrutar simpatizantes e combatentes e promover atentados terroristas.
Mesmo sem uma política nacional para os refugiados, o Brasil decidiu escancarar com todas as normas permitindo que ingressassem no país todos aqueles que quisessem. A maioria dos sírios acolhidos, vítimas da guerra, vive como sem teto em São Paulo ou trabalha como camelô no Rio de Janeiro. O Brasil vendeu uma coisa e entregou outra. Aqueles que estavam vulneráveis num país em guerra, agora estão vulneráveis num país onde a retórica é mais importante que as ações objetivas.
Naquela oportunidade, em maio, também destaquei que o passaporte brasileiro é um dos mais cobiçados no submundo do crime. Custa em média US$ 3 mil. E por uma razão simples: qualquer nome é aceito como brasileiro em qualquer parte do mundo. O caso do Rio de Janeiro confirma isso. Cabe-nos perguntar agora: Quantos destes sírios “nacionalizados” ingressaram no Brasil com segundas intenções? Quantos deles obtiveram o passaporte justamente para entrar em outros países sem levantarem suspeitas? Qual a responsabilidade do Brasil caso algum atentado seja cometido por um “sírio-brasileiro”?
Tratar os imigrantes e refugiados como pobres coitados também não resolve. Estimular a xenofobia não é solução, é retrocesso. Mas, as pessoas querem e devem ser tratadas com dignidade e isso não isenta o Estado de levantar as informações necessárias para acolher em seu território, as vítimas dos conflitos e das guerras, fechando as portas para extremistas, radicais, criminosos e bandidos.
A própria proteção dos refugiados, civis inocentes, cobra uma ação contundente do governo em relação àqueles que se beneficiam das facilidades criadas por questões humanitárias para ingressar no país com outros objetivos. Assim como a maioria dos haitianos, vítimas das máfias do tráfico de pessoas, os sírios acabam sendo vítimas duas vezes. O desmantelamento de quadrilhas como esta no Rio de Janeiro, pode gerar tensões e problemas desnecessários àqueles que buscam apenas recomeçar suas vidas. Daí a importância do rigor. Além de neutralizar as ações criminosas, fortalece o recomeço para quem só quer um pouco de paz.
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Política 
Por outro lado, não podemos nos esquecer dos interesses políticos por trás de cada ação. Por exemplo, muitos estão recebendo uma carteira de trabalho e estão sendo incluídos nos programas sociais do governo, o que é aceitável. O que não é compreensível é que tenham direito a título de eleitor. No caso da quadrilha desbaratada no Rio de Janeiro, trata-se de um crime, mas há casos em que refugiados e imigrantes têm recebido o documento sem problemas.
Em 2007, o Partido dos Trabalhadores (PT) firmou um acordo de cooperação com o Partido Baath Árabe Socialista da Síria. O documento foi firmado pelo atual ministro da Secretaria de Governo, Ricardo Berzoini, a quem a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) está subordinada.
Há época, o PT divulgou um comunicado explicando que os objetivos (do acordo) são “estreitar os laços de amizade” e “melhor servir aos interesses comuns dos dois países e povos”. Como em política nada é por acaso, não custa investigar se há ou não algum elo entre a “nacionalização” de sírios e a necessidade do governo de engrossar suas fileiras militantes, principalmente para um governo com 70% de rejeição popular.
Fonte:  InfoRel
COMENTO: não são novidades as dúvidas a respeito das motivações que movem as facilitações para a migração ao Brasil. O assunto já foi tratado diversas vezes, das quais destacamos aqui e aqui. As denúncias de que imigrantes haitianos e africanos estariam sendo usados como "massa de manobra", engrossando fileiras em manifestações pró interesses governamentais, também não são poucas. Daí a aceitar "teorias de conspiração" a respeito de uso político dos imigrantes não é um passo muito longo. Pelo sim, pelo não, é conveniente seguir o ensinamento bíblico que nos aconselha a atentar menos para o que é visto facilmente e mais para o que não se vê.
 a.