quarta-feira, 10 de abril de 2019

Golpe ou Contrarrevolução? - 1964: Verdades Inconvenientes

por Flávio Gordon
“É inegável que o golpe militar e civil foi empreendido sob bandeiras defensivas. Não para construir um novo regime. O que a maioria desejava era salvar a democracia, a família, o direito, a lei, a Constituição…”
(Daniel Aarão Reis. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à Constituição de 1988)
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Na madrugada de 27 de novembro de 1962, um Boeing 707-441 (prefixo PP-VJB) decolou do Rio de Janeiro levando 80 passageiros e 17 tripulantes. Era o voo 810 da Varig, com destino a Los Angeles, e escalas em Lima, Bogotá e Cidade do México. Pouco antes de aterrissar no Aeroporto Internacional Jorge Chávez, em Lima, a aeronave colidiu com uma montanha e explodiu, matando todos a bordo.
Entre as vítimas fatais, estava Raúl Cepero Bonilla, que substituíra Ernesto Che Guevara na presidência do Banco Nacional de Cuba, e que, à frente de uma grande delegação cubana, viera ao Brasil sob o pretexto formal de participar da 7ª Conferência da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). Informalmente, Bonilla fora enviado por Fidel Castro para tratar de um assunto delicado com o presidente brasileiro João Goulart.
A história começara meses antes do acidente aéreo, quando o coronel getulista e veterano da FEB Nicolau José Seixas, nomeado por Goulart para a chefia do Serviço de Repressão ao Contrabando, obteve informações sobre a chegada recorrente de grandes caixotes com geladeiras a uma fazenda em Dianópolis (à época, Goiás; hoje, Tocantins). Como não houvesse sequer energia elétrica naquele lugar ermo, Seixas desconfiou que o conteúdo dos caixotes fossem armas contrabandeadas por latifundiários da região. Tendo reunido seus homens de confiança, numa madrugada, o coronel comandou uma batida surpresa à fazenda. Assustados, e sem oferecer resistência, os ocupantes fugiram para o mato, deixando para trás todos os pertences, incluindo as tais “geladeiras”. Ao inspecionar a carga, Seixas e seus comandados tiveram uma surpresa.
Com efeito, havia ali armas contrabandeadas, mas não só. Junto a elas, muitas bandeiras cubanas, retratos e textos de discursos de Fidel Castro e do deputado pernambucano Francisco Julião (o líder das Ligas Camponesas), manuais de instrução de combate e planos para a construção de novos focos de guerrilha rural. Além disso, havia também planilhas detalhando a polpuda contribuição financeira enviada por Cuba ao movimento revolucionário de Julião. Sim, sem desconfiar de nada, o coronel Seixas acabara de desbaratar um campo de treinamento militar das Ligas Camponesas, que, em plena vigência da democracia no país (o ano era 1962, recorde-se), pretendia derrubar o governo por meio das armas, instaurando aqui um regime comunista nos moldes cubanos.
Em vez de comunicar sobre o material subversivo ao serviço de inteligência do Exército, como seria o mais comum, o coronel Seixas entregou-o diretamente a João Goulart, que, diante da grave ameaça estrangeira ao seu governo, tomou uma decisão muito estranha. Sem nada comunicar aos seus ministros, ao Congresso, ao STF ou à imprensa, o presidente foi se queixar com o embaixador de Cuba, dizendo-se “traído”. E é nesse contexto que, dias depois, Fidel Castro envia Raúl Cepero Bonilla para se haver com Goulart.
Em reunião sigilosa no Palácio do Planalto, e depois de conversarem sabe-se lá o que, o ministro cubano recebeu das mãos do presidente brasileiro todo o material apreendido em Dianópolis. Com esse gesto discreto e conciliador, Goulart dava o caso por encerrado, pretendendo que ninguém mais soubesse do ocorrido. Para seu azar, contudo, a pasta de couro em que Bonilla levava a documentação de volta a Cuba foi encontrada intacta entre os destroços do Boeing 707-441. O material acabou nas mãos da CIA, que tornou público o seu conteúdo.
Convém esclarecer: a história relatada acima não brotou da cabeça de nenhum bolsonarista radical, intervencionista ou saudosista do regime militar. Ela está no livro Memórias do Esquecimento, do ex-guerrilheiro Flávio Tavares, um dos 15 presos políticos libertados por ocasião do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. E, muito embora Tavares tenha se limitado a relatar os fatos, furtando-se a uma conclusão inconveniente à versão esquerdista da história, ela me parece inescapável.
Ao devolver discretamente à nação inimiga os planos de um levante armado contra o seu governo, sem nada informar às Forças Armadas e aos demais poderes da República, o presidente João Goulart cometeu um ato de traição à pátria. Que tenha, ele próprio, se declarado “traído” ao embaixador cubano é altamente significativo nesse contexto, um sinal evidente de que esperava lealdade de Cuba, e de que, portanto, algo em troca fazia para merecê-la. Talvez jamais venhamos a saber exatamente que algo era esse, mas o simples acerto sigiloso com Fidel já seria motivo mais que justificado para a sua deposição.
Eis o tipo de fato que a esquerda brasileira, solidamente aquartelada na grande imprensa, não deseja que seja mais conhecido por parte do público, uma vez que ameaça a sua mitologia particular sobre o 31 de março de 1964. Se, entre outras coisas, fosse comprovada a existência de focos de guerrilha no país antes da queda de João Goulart (e, ademais, com o patrocínio da ditadura socialista cubana), cairia por terra a lenda segundo a qual a opção pela luta armada foi apenas uma reação de setores da esquerda ao regime militar, e não parte de uma estratégia de tomada violenta do poder.
Foi para impedir que os leitores nutrissem qualquer impulso de questionar a lenda que, por exemplo, a revista Super Interessante publicou em outubro do ano passado (em plena corrida eleitoral, portanto) uma matéria com o título “Mito: os militares impediram um golpe comunista em 1964”, cujo lead exibia o dogma inquestionável: “A verdade: Jango era um político trabalhista, não comunista. E a luta armada só ganhou adeptos depois do golpe”. No corpo da matéria, lia-se ainda: “Embora a revolução cubana e a figura romântica de Che Guevara pudessem inspirar jovens idealistas, a luta armada estava fora dos planos das esquerdas brasileiras… Enquanto o Brasil foi uma democracia, a luta armada ficou de fora. Em vez disso, a esquerda abraçava a estratégia pacífica do PCB de se aliar a Jango e pressionar por reformas nas ruas. Foi somente com o golpe de 1964 que grupos debandaram do Partidão e abraçaram o modelo de revolução de Fidel Castro. Se essas pequenas e malsucedidas guerrilhas tentaram fazer do Brasil uma segunda Cuba, foi em grande parte em reação ao próprio golpe”.
Trata-se de um exemplo típico das tentativas da esquerda de emplacar sua narrativa mistificadora, com base num curioso non sequitur, segundo o qual o fracasso circunstancial do projeto de luta armada serviria como prova do seu caráter essencialmente inofensivo, com o qual só mesmo um anticomunista paranoico poderia se preocupar. Ora, decerto ninguém esperava que um redator da Super Interessante abandonasse sua refeição vegana ou a balada com os amigos para se aprofundar na historiografia do período antes de lhe dedicar uma matéria, sobretudo quando o objetivo não é informar o público, mas jogar água no moinho da esquerda. Mas o fato é que, hoje, temos fartas evidências mostrando que a ameaça de uma revolução armada já se fazia presente muito antes da derrubada de João Goulart. E, de novo, tais evidências não provêm de fanáticos bolsonaristas, mas de estudiosos simpáticos à esquerda, como, por exemplo, a historiadora Denise Rollemberg, da Universidade Federal Fluminense.
No livro O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil, a autora confirma o relato de Tavares, deixando claro que a narrativa habitual da esquerda simplesmente inverte a ordem dos fatores: antes que consequência do assim chamado golpe de 1964, a opção da esquerda pela revolução armada foi uma de suas causas. Escreve Rollemberg: “Quanto à revolução brasileira, Cuba apoiou a formação de guerrilheiros, desde o momento em que assumiu a função de exportar a revolução, quando o Brasil vivia sob o regime democrático do governo João Goulart, ou seja, antes da instauração da ditadura… Cuba apoiou, concretamente, os brasileiros em três momentos bem diferentes. O primeiro, como disse, foi anterior ao golpe civil-militar. Nesse momento, o contato do governo cubano era com as Ligas Camponesas… Cuba viu nesse movimento e nos seus dirigentes o caminho para subverter a ordem no maior país da América Latina”. E conclui: “A relação das Ligas com Cuba evidencia a definição de uma parte da esquerda pela luta armada no Brasil, em pleno governo democrático, bem antes da implantação da ditadura civil-militar. Embora não se trate de uma novidade, o fato é que, após 1964, a esquerda tendeu — e tende ainda — a construir a memória de sua luta, sobretudo, como de resistência ao autoritarismo do novo regime. É claro que o golpe e a ditadura redefiniram o quadro político. No entanto, a interpretação da luta armada como, essencialmente, de resistência deixa à sombra aspectos centrais da experiência dos embates travados pelos movimentos sociais de esquerda no período anterior a 1964”.
É preciso lembrar ainda que, ao falar de interferência cubana na política brasileira, estamos falando necessariamente da URSS. Desde o início da Guerra Fria, os dirigentes soviéticos estavam convencidos de que precisavam estender os seus tentáculos sobre o Terceiro Mundo. Em meados de 1960, por exemplo, o comando central da KGB já tratava Cuba como um Avanpost — ou, em jargão militar, “cabeça-de-ponte” — para a conquista da América Latina. Em julho do ano seguinte, o então chefe da KGB, Alexander Shelepin, enviou a Kruschev um plano para explorar a nova posição. A ideia era financiar os movimentos de libertação nacional do Terceiro Mundo para que conduzissem levantes armados contra governos considerados “reacionários” ou “pró-americanos”. Como observou certa feita Nikolai Leonov, alto oficial de inteligência soviético, havia à época a convicção de que “o destino do enfrentamento mundial entre os EUA e a URSS, entre capitalismo e socialismo, seria decidido no Terceiro Mundo”.
Quando o redator da Super Interessante afirma a não existência de uma ameaça de revolução comunista no Brasil da época, com base no argumento de que “Jango não era comunista. Marxistas ortodoxos defendem o fim da propriedade privada dos meios de produção. Já Jango era um advogado proprietário de terras gaúchas”, ele demonstra total ignorância do modus operandi da Internacional Comunista.
Em primeiro lugar, há aí uma confusão primária entre a definição enciclopédica de uma doutrina política e a sua realidade histórica concreta. Que marxistas defendessem doutrinariamente, e em abstrato, o fim da propriedade privada, não significa que tenham abdicado dela para a conquista e manutenção do poder (o que, aliás, seria materialmente impossível). Como mostrei em artigo passado, os dirigentes comunistas sempre foram os grandes proprietários nas nações em que chegaram ao poder. Defendiam o fim da propriedade privada alheia, evidentemente, não o da sua própria. Ora, se adotássemos o critério infanto-juvenil do redator da matéria, seríamos forçados a concluir que jamais houve no mundo um comunistazinho sequer, pois todos eles foram proprietários (de terras, de imóveis, de moeda, de artigos de luxo etc.).
Em segundo lugar, para os objetivos da Internacional Comunista, pouco importava o que Jango era, ou seja, quais as suas convicções político-ideológicas pessoais. Era preferível, aliás, que os líderes das nações-alvo do projeto expansionista soviético não fossem membros formais dos partidos comunistas locais. É o que consta expressamente, por exemplo, num dos documentos dos arquivos da StB (o serviço de inteligência tcheca que atuava como braço da KGB), citado no meu livro A Corrupção da Inteligência, em que se descrevem alguns dos objetivos da espionagem comunista no Terceiro Mundo: “Ambos os serviços de inteligência [i.e., KGB e StB] efetuarão medidas ativas com o objetivo de garantir ativistas progressistas (fora dos partidos comunistas) nos países da África, América Latina e Ásia, que possuam condições para, no momento determinado, assumir o controle de movimentos de liberação nacional”. O referido documento data de 1961, mesmo ano em que João Goulart — um dos “ativistas progressistas” alvos das medidas ativas soviéticas — assumia a presidência.
Segundo o historiador britânico Christopher Andrew, que realizou pesquisa nos arquivos pessoais do dissidente soviético e ex-agente da KGB Vasili Mitrokhin: “O papel da KGB na política soviética para o Terceiro Mundo foi mesmo mais importante do que o desempenhado pela CIA na política americana. Por um quarto de século, e ao contrário da CIA, a KGB acreditou que o Terceiro Mundo era a arena na qual poderia vencer a Guerra Fria”. Graças à abertura dos arquivos da StB, hoje sabemos, entre outras coisas, que, já em 1961, a URSS planejava “causar guerra civil no Brasil”.
Por décadas, a classe falante de esquerda, hegemônica na imprensa e na academia, impediu que essas informações fossem conhecidas do público. Hoje, quando o muro de silêncio sobre fatos politicamente inconvenientes começa a ruir, não é de se espantar que a esquerda reaja com verdadeiro pavor. Afinal, é preciso manter a todo custo o consenso dos bem-pensantes sobre o período, a saber: a preocupação demonstrada pelo governo americano — e, internamente, pelas forças políticas ditas conservadoras — com a expansão do comunismo na América Latina durante a Guerra Fria não passou de paranoia motivada por um anticomunismo patológico (“macarthista”), histérico e desprovido de razão.
O pânico de ver aquele consenso desmascarado aos olhos da população resultou na mais recente e desesperada tentativa de censura praticada pela intelligentsia de esquerda no Brasil, que tudo fez para desacreditar e reduzir o alcance do documentário 1964: o Brasil entre Armas e Livros, iniciativa do portal Brasil Paralelo. Por trazer dados históricos relevantes e até hoje ocultados do grande público por força do maquinário de hegemonia narrativa operado por nossa esquerda cultural, o filme não poderia mesmo ser tolerado pela intelligentsia progressista. Como digo no meu livro, há um constante desejo de que a história de 1964 continue a ser muito mal contada…
COMENTO:  a história da descoberta dos documentos no acidente do avião no Peru foi tratada aqui. Também foi relatada pelo insuspeito Tarzan de Castro, um dos líderes guerrilheiros ligado ao PCdoB e atuante junto às Ligas Camponesas de Francisco Julião. Assim foi descrito o fato em entrevista ao Jornal Opção: sobre seu livro de memórias “Vida, Lutas e Sonhos” (Ed. Kelps, 357 páginas):
"Ao ouvir que a história do acampamento guerrilheiro, já mapeado pelo governo de João Goulart, poderia “resultar num escândalo internacional”, Miguel Brugueras [Nota: Miguel Brugueras del Valle, embaixador de Cuba no Brasil] “ficou muito assustado”. “Marcamos um encontro na Praça Marechal Deodoro, em Ipanema, e elaboramos um minucioso relatório com os nomes dos integrantes, os locais e as circunstâncias de cada campo. Foi tudo detalhado, com a promessa de que as informações seriam criptografadas antes de seguirem um caminho seguro até as mãos de Fidel. Afinal, aquele era um relatório-bomba, um verdadeiro raio X das operações das Ligas Camponesas. O diplomata sugeriu que eu fosse pessoalmente a Cuba explicar toda a história, e eu aceitei, mas pedi um tempo para voltar a Dianópolis e reportar ao Carlos Montarroyo e aos outros [Joaquim Carvalho, Gilvan Rocha] as providências tomadas”, revela Tarzan de Castro. 
No encontro seguinte, Miguel Brugueras informa que havia entregue o relatório para Raúl Cepero Bonilha, presidente do Banco Central de Cuba e membro da direção executiva do Partido Comunista Cubano. “Sem graça”, o diplomata contou a Tarzan de Castro que “o avião da Varig que levava Bonilla e a delegação cubana caiu nos Andes, próximo à capital peruana, no dia 27 de novembro de 1962. Não houve sobreviventes”.
Ao informar que faria outro relatório, até mais minucioso, Tarzan de Castro percebeu que o cubano estampou um sorriso “amarelo”. “Sem jeito, explicou-me que o relatório não havia sido destruído — a mala diplomática fora encontrada intacta.”
A mala foi apreendida logo pela CIA. Ante um cubano desconcertado, Tarzan de Castro disse que, como as informações estavam criptografadas, os agentes dos Estados Unidos demorariam a decifrá-las. Os guerrilheiros teriam tempo “para desfazer os campos e destruir as evidências”. O sorriso do diplomata, que passara de amarelo para verde, desapareceu de seu rosto. “Ninguém criptografou as mensagens”, admitiu o cubano.

“Todos os documentos encontrados pela CIA foram entregues ao governo brasileiro. E a bomba explodiu no nosso colo. A imprensa brasileira publicou uma bateria de reportagens contando tudo sobre os futuros focos de guerrilha no Brasil. A revista ‘O Cruzeiro’, na edição de 22 de dezembro de 1962, estampou em sua capa: ‘Guerrilha descoberta no Brasil Central’”, relata Tarzan de Castro.
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sábado, 30 de março de 2019

É Assim Que o Tráfico de Armas Funciona

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por Nelson Matta Colorado
Antes de entrar na casa, no bairro Castilla de Medellín, os agentes só sabia duas coisas: que possivelmente havia armas que seriam vendidos a gangues e guerrilheiros de Antioquia, e que o proprietário das mercadorias era um senhor da guerra misterioso conhecido pela alcunha de  "Zeus".
Material descoberto na casa de “Zeus” em 2016, em Aranjuez.
Eles chegaram na madrugada de 22/06/2016 e foram recebidos por um ex-policial de pijama, que dormia na casa com sua esposa e sua filha. Ele ficou apavorado quando viu seus ex-colegas entrarem e, ao removerem um quadro da parede, encontrarem um cofre embutido que continha dois carregadores, 17 cartuchos de munição e peças de pistolas.
Em um esconderijo no chão, sob um ladrilho solto, eles acharam mais 298 cartuchos de calibres diferentes e sobre um beliche, uma caixa com 56 munições para fuzil 5.56. Na propriedade havia mais escaninhos nas paredes, mas estavam vazios.
Dois dias depois, um informante levou os investigadores a uma outra residência de Castilla, desocupada e com um estoque maior: três fuzis 7,62 com 18 carregadores, duas pistolas Glock e Beretta com nove carregadores, um revólver calibre 32, e 20 granadas de mão; além disso, 8.952 cartuchos para fuzil, 450 munições para pistola 9 milímetros e 50 para revólver calibre 38. Mais uma vez, as fontes insistiram que era tudo de "Zeus".
À DIJIN e à Procuradoria informações chegavam aos poucos sobre o personagem, mas nada que permitisse identificá-lo. Foi dito que adquiria armas em Villavicencio e as trazia para Medellín para alugá-las a mercenários ou vendê-las a quadrilhas, dissidências das FARC e a um contato do ELN apelidado de "Mauricio", que as receberia em Anori. A este, eram enviadas desmontadas, em maletas e caixas disfarçadas nos ônibus de transporte público.
Vulgo "Ramiro", chefe da dissidência da frente 18 das FARC, com um fuzil importado
Ninguém no submundo se atrevia a citar seu nome e  por cinco meses houve silêncio, até que outro informante enviou aos detetives uma pista definitiva. Em 22/11/16 eles chegaram a um lava-rápido no bairro Aranjuez, chamado Expresso Car. O local estava ligado a dois apartamentos e um armazém, e na busca foram apreendidas cinco pistolas com sete carregadores, dois revólveres, dois silenciadores, carcaças e canos de várias armas, três carregadores de fuzil, um par de algemas e 462 munições de diferentes calibres inclusive para pistola FiveSeven (5,7x28 mm).
Na operação, um assustado jovem com 22 anos de idade foi preso e disse que o dono do lugar era seu pai, um homem que não estava na cidade. Assim, os agentes obtiveram a esquiva identidade de "Zeus": Joseph Alexander Pelaez Mejia, nascido em 15 de agosto de 1975 em La Virginia, Risaralda, com nacionalidade colombiana e venezuelana e cuja atividade oficial era a de restaurador de carros.
José Alexánder Peláez Mejía, vulgo Zeus.
Um mandado e uma Circular Azul da Interpol foram emitidos, esperando que ele fosse localizado nos países que costumava frequentar, como o Panamá, mas ele conseguiu cobrir seus rastros por três anos.
Em 17/2/2019, um alerta da Interpol foi disparado em Tegucigalpa, Honduras, onde um homem de 43 anos, com características semelhantes às do alvo, havia entrado irregularmente. Era "Zeus".
"Esse homem seria o principal fornecedor de armas destinadas às frentes do ELN e dissidentes das FARC que cometem crimes em Antioquia", disse o general Gonzalo Londoño , diretor do DIJIN.
Em 4 de março ele foi deportado e no aeroporto de Eldorado foi preso; no dia seguinte, na audiência de garantia, a Procuradoria o indiciou por tráfico de armas e munições. Peláez não aceitou a responsabilidade e o Primeiro Tribunal Penal Ambulante de Antioquia o mandou para a cadeia.

Fontes de aquisição
A história de "Zeus" é outro capítulo no mundo sombrio do tráfico de armas em Medellín e Antioquia. De acordo com o Sistema de Informação para a Segurança e Coexistência da Prefeitura, foram confiscadas na cidade, entre 2016 e 2018, 1.957 armas, ou seja, 1,7 por dia. E em 2019 (até 3 de março) eles confiscaram 148, ou 2,4 por dia, em uma capital onde 83 pessoas foram mortas a tiros.
Apesar dos volumes de apreensões, e uma média de 1,2 homicídios com esses dispositivos, as investigações contra esse flagelo são escassas. Isto foi reconhecido pelo general Eliécer Camacho, comandante da Polícia Metropolitana: "quando cheguei (ao cargo) não encontrei uma investigação direta do tráfico de armas. É um problema delicado, neste ano temos 180 armas apreendidas (em todo o Vale do Aburrá) e já não vemos nenhum trabuco ou artesanais, são todas originais".
El Colombiano acompanhou o andamento da situação na última década, e verificando com fontes judiciais e de Inteligência, conclui-se que atualmente a principal fonte de armas são os armeiros dos EUA, especialmente da Flórida. Os traficantes contratam pessoas com cidadania americana e nenhum registro criminal, que compram as armas em lojas autorizadas e as entregam à organização criminosa.
Os rifles e fuzis semi-automáticos, cujo uso na Colômbia é exclusividade da Força Pública, são vendidos nos EUA como artigos esportivos. O controle posterior à venda naquele país não é frequente, não há acompanhamento das armas adquiridas ou um limite máximo de compra, e muito menos quando a transação é por internet.
"Estamos mais focados no que entra no nosso país, como drogas, do que nas coisas que saem", disse um oficial de segurança* com sede em Miami, quando indagado por este jornal. Ele acrescentou que, "apesar do sentimento popular" as tentativas de restringir as armas são frustradas por causa da interpretação feita pelo Supremo Tribunal Federal sobre a Segunda Emenda; e pelo influente lobby da Rifle Association, que inclui contribuições milionárias para campanhas políticas.
Os artefatos são exportados de Miami e do México e, em menor escala, pela Venezuela e pelo Equador. A rota marítima às vezes faz uma parada no Panamá, ou vai diretamente para os portos de Barranquilla, Buenaventura e Turbo; ou por via aérea, em voo de carga para Bogotá.
As armas vêm desmontadas e escondidas em caixas de eletrodomésticos, equipamentos de ginástica e autopeças. Aqui eles são distribuídos como encomendas, em táxis, ônibus, caminhões para o transporte de resíduos biológicos e hospitalares ou com logotipos multinacionais.
"Sabemos que aqueles que recebem as armas alugam apartamentos em Medellín e os ocupam por dois meses, até que o pacote chegue. Às vezes eles usam parentes, que dão seu endereço para o envio; estes não abrem a caixa, então eles não sabem o que ela contém", disse um promotor*.
Em muitos casos, há uma troca de armas por cocaína, entre cartéis internacionais e facções locais, como o Clã do Golfo, "a Oficina", ELN e o Clã Isaza do Médio Magdalena. "Os traficantes atuam como agentes de comissão entre estrangeiros e colombianos, coletam quantidades de drogas que partem de 300 quilos e as exportam, e depois trazem o arsenal", completa o jurista.
Outra modalidade de abastecimento, especialmente de explosivos e munições, envolve batalhões e armazéns militares e policiais, no que é conhecido como o mercado cinza: quando a transação começa com a aquisição legal e por várias razões acaba nas mãos de um ator ilegal.
Há três exemplos recentes: a captura do patrulheiro Ferley Cardona, do SIJIN de Antioquia (22/2/17). Em uma busca numa casa do bairro El Volador, eles apreenderam dois revólveres, 11 granadas, 288 cartuchos de explosivos Indugel, quatro rolos de estopim e 3.700 detonadores. De acordo com o Ministério Público, esse Indugel fazia parte de um carregamento de 2,7 toneladas confiscadas em Segovia e supostamente destruídas pela Polícia. Aparentemente, os uniformizados conspiraram com outros para vender ao Clã do Golfo.
O segundo caso é o do Major Héctor Murillo, chefe do Modelo Quadrante da Polícia em Antioquia, preso em 25/11/17 e processado por corrupção. De acordo com o arquivo, ele trabalhava para o Clã do Golfo e uma de suas funções era obter armas e munição.
E o terceiro começou com uma queixa da 17ª Brigada do Exército, que em 12 de janeiro relatou que um fuzil e uma metralhadora desapareceram do Batalhão de Engenheiros localizado em Apartadó.
Claudia Carrasquilla, chefe da Diretoria de Promotores Contra o Crime Organizado, lembrou que "muitos líderes de organizações ilegais têm armas com permissão para porte, obtidas em diferentes Brigadas". Um deles é Sebastián Murillo ("Lindolfo"), um dos líderes da "Oficina", capturado em 2018.
Um investigador de polícia* afirma que "90% dos homicídios em Medellín são com munição fabricada por Indumil (Indústria Militar Colombiana), há um grande desvio de balas em depósitos dos órgãos de segurança".

Perfil de "empresários"
Perseguir os traficantes é complexo, segundo os investigadores, porque eles têm um perfil diferente do bandido convencional. Seu estilo é empresarial, eles não estão na folha de pagamento de grupos tradicionais e nunca sujam as mãos com a mercadoria. Eles não são doutrinados, então eles negociam com o maior lance e vendem para facções inimigas entre si.
Nessa descrição não só cabe "Zeus", também Elkin Gallego Yepes ("El Negro"), outro dos poucos traficantes descobertos em Aburrá. Ele liderou uma estrutura que conseguia armas para diferentes clãs e tinha depósitos em Medellín, Bello e Guarne, onde ele transportava as mercadorias em táxis.
Entre os fatos que conduziram à sua prisão, houve a captura de 10 revólveres em um táxi em Calazans (24/06/2015) e 400 cartuchos de 9 mm em outro "amarelo" (cor dos táxis na Colômbia) que circulava pelo bairro Alfonso Lopez (05/08/2015).
Fusil Barret capturado do ELN em Anorí
Interceptando as comunicações de "El Negro", as autoridades aprenderam a linguagem criptografada que usavam para o comercio ilícito. Um revólver, segundo a marca, era chamado de "alacrán" (Escorpião), "Martínez" (Martial), "Don Walter" (Walter) ou "Rogelio" (Ruger); a munição, "fruticas", "caixa de arroz chinês", "comidita" ou "Cartão Sim longo" (projéteis de longo alcance); para carregadores, "cocos" ou "controles"; e para as pistolas, "brinquedo" ou "negrita".
"El Negro" e três comparsas, incluindo o superintendente César Augusto Aristizabal, vulgo "Peska", ligado à Direção da Polícia de Trânsito, foram presos em 2015 e condenados a penas entre 7 e 10 anos de prisão.
Apesar dos esforços, continuam a entrar novas armas na região, tais como as que foram encontradas em 11 de fevereiro em um cortiço em Bello, incluindo uma metralhadora M60, cinco fuzis, sete pistolas e carregadores alongados, que foram entregues por um desertor ELN.
Ricardo Abel Ayala, vulgo "Cabuyo".
Logo depois, no dia 25 de fevereiro, em uma fazenda na aldeia de Las Conchas, em Anori, prenderam "Gabino", um guerrilheiro ELN, que havia escondido, enterrado, um poderoso fuzil Barret .50 capaz de perfurar veículos blindados e atingir um alvo a 2,5 km de distância.
Esta mesma arma já havia sido vista na posse de Ricardo Ayala ("Cabuyo"), líder da dissidência da 36ª Frente, um esquadrão de foras da lei que atua no norte da Antioquia. Ele é um dos principais clientes dos senhores da guerra que, como "Zeus" e "El Negro", lucram com a violência em uma região acostumada a enterrar pessoas todos os dias.
* Identidades reservadas
Fonte: tradução livre de  El Colombiano.com
COMENTO:  observando-se o método e a rota utilizada pelos traficantes de armas para a Colômbia e somando isto à recente apreensão de mais de uma centena de fuzis de um meliante e proprietário de uma lancha de grande porte me reforça a intuição de que os grandes fornecedores de armas para a criminalidade do Rio de Janeiro estão estabelecidos nos EUA e não no Paraguai como divulgam para despistar. É facílimo trazer um caixote com armas em um navio e comunicar ao traficante quando chegar no litoral brasileiro, para que este se desloque até o encontro em alto mar, em alguma embarcação "de luxo" e receba a carga. Depois, é só voltar a alguma marina de algum clube de luxo, e rebocar seu barco com a valiosa carga de volta para casa. Ou alguém fiscaliza as saídas e chegadas de iates nos grandes clubes??
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sexta-feira, 22 de março de 2019

Base Espacial Chinesa na Patagônia Preocupa.

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A desproporcional base espacial que o governo nacionalista-populista de Cristina Kirchner concedeu à China na Patagônia causa cada vez mais preocupação na Argentina e no mundo, como pode se ver em reportagem do jornal portenho “La Nación”.
Base Chinesa na Patagônia não é só civil, diz Exército dos EUA
Teme-se cada vez mais sobre sua verdadeira finalidade. Recentes fatos, como o pouso de uma nave chinesa no lado escuro da Lua multiplicaram os temores.
A base dirigida pelo Exército Vermelho comunista teria também um objetivo militar.
Durante milênios as guerras e as hegemonias imperiais tinham como objetivo supremo o domínio da superfície terrestre.
Em séculos recentes, os impérios coloniais como o inglês privilegiaram o controle dos mares, e dos estreitos que controlam a navegação.
A II Guerra Mundial transferiu essa importância ao controle do ar.
As forças aéreas — os aviões primeiro, e os mísseis posteriormente — passaram a ser determinantes para o domínio do mundo ou de continentes inteiros.
Hoje o controle do espaço e das comunicações via satélite para usos militares é campo de luta primordial para as potências.
Nesse contexto foi posta em funcionamento num local desértico e afastado uma estação espacial chinesa de observação e exploração que diz ter finalidades “pacíficas”. E isso é o que cada vez menos se acredita.
Pequim ganhou de mão beijada uma área de 200 hectares, perto do povoado de Bajada del Agrio, na província de Neuquén, na estepe patagônica.
A área é na prática um enclave soberano chinês. Funciona sem supervisão das autoridades argentinas, leia-se só vigora a lei chinesa, os trabalhadores e cientistas só são chineses, que não falam espanhol, quase não se fazem ver e obedecem a um general do Exército vermelho.
Infografia publicada pela imprensa argentina
A agência Reuters obteve acesso a centenas de páginas de documentos oficiais dos acordos, aliás secretos, assinados por Kirchner. A documentação foi revista por especialistas em direito internacional.
Os EUA consideram que a China está “militarizando” o espaço e que a estação da Patagônia, acordada secretamente com um governo corrupto é mais um exemplo de táticas chinesas predatórias da soberania das nações, explicou Garrett Marquis, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca.
Por sua vez, Tony Beasley, diretor do Observatório Nacional de Radioastronomia dos EUA avala que a dita base pode “escutar” os satélites de outros países para surrupiar dados confidenciais. 
Trinta empregados chineses trabalham e moram na base que não admite argentinos, disse a prefeita local, Maria Espinosa. Os habitantes da zona rara vez veem alguém na cidade.
Alberto Hugo Amarilla, dono de um pequeno hotel, conta que um funcionário chinês o saudou com entusiasmo pois tinha sabido que era oficial retirado do exército. O chinês era general...
Base funciona como território soberano chinês.
Apresentando seu informe anual, no Congresso, o chefe do Comando Sul dos EUA, o Almirante Craig S. Faller, manifestou sua “preocupação” porque a base chinesa pode “monitorar alvos estadunidenses”, escreveu o quotidiano “Clarin” de Buenos Aires. 
Os perigos da penetração informática militar da China na Argentina atingem toda a América do Sul. 
Eles são acrescidos à expansão de empresas engajadas com a telefonia celular, como a Huawei e a ZTE que “penetraram agressivamente na região”, com uma estratégia que “põe em risco a propriedade intelectual, dados privados e segredos de governo”. 
O Pentágono considera, além do mais, que essas empresas incluem dispositivos nos smartphones que comercializam para grampeá-los e repassar os dados à China.
De maneira análoga, segundo a agencia britânica Reuters a base chinesa age como uma “caixa preta” para registrar toda espécie de informações sensíveis. 
Segundo militares citados pela revista Foreign Policy a forma do imenso radar revela que é usado para reunir informação sobre a posição e as atividades dos satélites militares americanos. E sublinham que a China fala muito de um espaço livre de armas, mas é a primeira em não respeitar o que diz. 
No Congresso estadunidense, o almirante Faller elencou entre as “principais ameaças” à paz mundial, a Rússia, a China, o Irã, e seus “aliados autoritários” de Cuba, Nicarágua e Venezuela.
O jornal portenho “Clarín” publicou fac-símiles do tratado secreto que confirmam esses temores. 
O tratado cria “uma zona de exclusão”, que tem um raio de até 100 kms em volta dos 200 hectares. Nessa “zona de exclusão”, os civis argentinos não poderão acionar aparelhos que usem ondas de rádio “como equipamentos domésticos, dispositivos para carros,” etc.
O prefeito de Bajo del Agrio, a localidade mais próxima à base, Ricardo Fabián Esparza, usou uma metáfora caseira para dizer que tudo se passa como se os chineses quisessem espionar até as peças íntimas de nosso vestuário.
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domingo, 10 de março de 2019

A Espionagem Venezuelana em Bogotá

por Unidad Investigativa
Organismos de Inteligência dizem que há US$ 5 milhões para atos de desestabilização na Colômbia.
Vários dos mais de 700 militares venezuelanos que se entregaram na fronteira com Colômbia vem advertindo a membros de organismos de Inteligência que ao menos dois deles não estão dizendo a verdade sobre o cargo e Unidades a que supostamente pertencem.
Ainda que não se descarte que estejam mentindo para proteger-se das represálias do regime de Nicolás Maduro, está sendo verificado se fazem parte do plano de espionagem que a Venezuela ordenou iniciar há uns meses nas ruas de Bogotá.
El Tiempo teve conhecimento de uma diretriz que organismos de Inteligência colombianos atribuem ao Comando Estratégico Operacional das Forças Armadas da Venezuela (CEOFANB), datado em 10 de agosto de 2017, na qual se ordenou um deslocamento de “redes de Inteligência exterior em território colombiano, para efetuar operações encobertas em torno a interesses militares e ameaças provenientes de Colômbia e de Estados Unidos”.
O epicentro da espionagem é Bogotá, mas informação de Inteligência assinala que há pelo menos 50 membros do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN) dispersos em pelo menos oito regiões do país.
Além disso, asseguram que sua missão se ampliou a controles e vigilâncias a opositores refugiados na Colômbia, a membros de missões diplomáticas de países que apoiam a saída do poder de Maduro e a funcionários colombianos de alto nível.
O dado mais recente que há sobre essa investida assinala que existe um orçamento de 5 milhões de dólares para executar atos de desestabilização na Colômbia, que incluem desde a infiltração nas marchas e protestos, até ações contra Juan Guaidó, o presidente interino de Venezuela.
Com base nessa informação, no final de fevereiro, o chanceler Carlos Holmes Trujillo responsabilizou Maduro por qualquer agressão que possa ocorrer contra Guaidó, que passa pela Colômbia para assistir à reunião do Grupo de Lima.
Há evidencias de que a ordem de planos de espionagem na Colômbia ganhou maior força depois que Duque assumiu a bandeira do bloco de países que exigem a saída imediata de Maduro e o reconhecimento de Guaidó como presidente de transição para que ocorram eleições presidenciais livres.
Assim se lê em documentos de Inteligência, nos quais inclusive, aparecem varias fotos tiradas do embaixador dos Estados Unidos em Bogotá, Kevin Whitaker, por um agente do SEBIN.
O espião foi revelado ao aproximar-se demais do custodiado diplomata durante um foro sobre migração venezuelana, em 16 de outubro de 2018, a que também assistiu o chanceler Trujillo.


Coletivos chavistas e ELN
As fotos de Whitaker 
— cujo governo não descarta uma intervenção militar na Venezuela — foram enviadas em tempo real (3:44 da tarde) a Royland Belisario, membro do SEBIN, que esteve no serviço diplomático venezuelano em Bogotá e foi visto rondando Cúcuta.
Na foto, Carlos Pino em Bogotá na companhia de Royland Belisario, membro do SEBIN.
Foto: Arquivo particular
Belisario já havia aparecido em informes de Inteligência, de dezembro passado, que serviram de base para que a Migração Colombiana ordenasse a expulsão imediata do venezuelano Carlos Manuel Pino García, por espionagem. Trata-se de um assessor da missão diplomática de Caracas em Bogotá, casado com Gloria Flórez, ex-congressista do Polo Democrático e secretaria de Governo do governo municipal de Gustavo Petro, entre 2014 e 2015.
Ainda que a ex-congressista tenha interposto uma ação legal desmentindo as acusações, qualificando-as de montagem e exigindo que seu esposo seja devolvido, autoridades judiciais tem evidencias (incluindo áudios), de que Pino mantinha contatos com membros das desmobilizadas estruturas das FARC, e que trabalhava na obtenção de apoios a favor do regime de Maduro.

El Tiempo obteve uma foto na qual ele é visto caminhando por uma rua de Bogotá ao lado de Royland Belisario (acima).
Além disso, ele foi relacionado a seguimentos (vigilância) feitos a membros do Tribunal Supremo de Justiça Venezuelano no exílio.
Fotos que membros do SEBIN tiraram do embaixador de EUA
e do chanceler Trujillo em Bogotá.  
Foto: Arquivo particular
Um deles, Zair Mundaray, denunciou fustigamentos durante sua estadia em Bogotá e depois se soube que membros dos violentos coletivos chavistas foram encarregados dessa operação. Ainda, há evidencias de que o SEBIN está em contato com membros do ELN, autores dos mais recentes atentados com explosivos em Bogotá.

A informação do General
“O SEBIN e os coletivos chavistas firmam alianças com setores favoráveis à defesa do regime, para criar cenários de crise na Colômbia, como os distúrbios em marchas e as ações do ELN”, explicaram fontes de Inteligência.
Inclusive se sabe que, no primeiro sábado de cada mês, se reúnem com membros da Inteligência de outros países afins a Maduro, para intercambiar informação sobre os objetivos em Bogotá.
Nos últimos três meses, Colômbia já localizou e expulsou pelo menos uma dezena de explícitos espiões e infiltrados do regime de Maduro. Porém os alarmes seguem ativos inclusive em um tema que se acreditava sepultado: um atentado contra o presidente Iván Duque.

El Tiempo constatou que o Major-General Hugo Carvajal — homem forte da Inteligência de Hugo Chávez e de Maduro — já ofereceu entregar informação sigilosa sobre este tipo de planos do regime de Maduro contra a Colômbia.

Migração Colombiana reconsidera a expulsão de "Pau Pau"
Apesar de que, no momento de sua expulsão chorou e insistiu que não era uma espiã do regime de Nicolás Maduro, a Inteligência do Exército colombiano ratificou que a venezuelana Tania Pérez tentou se passar como um dos membros das forças armadas do país vizinho que abandonavam o atual governo.
De fato, foi confirmado que ela responde ao codinome de "Pau Pau" e que sua verdadeira intenção era recolher informação sobre como estão sendo recebidos os uniformizados que abandonam as filas do regime, com a finalidade de envia-la a Caracas para tentar frear as deserções. “É uma ameaça para a segurança nacional”, indicou a Inteligência colombiana.
Entretanto, a Migração Colombiana informou neste sábado (2/3/19) que, com base em novo documento dos organismos de Inteligência, tomou a decisão de não expulsar 'Pau Pau'. El Tiempo obteve de fontes do Governo que a mulher ofereceu entregar informação para “ajudar a restituir a democracia na Venezuela”.
Assim, mesmo que inicialmente não tenha atendido os protocolos de verificação que a Colômbia implementou para atender os desertores venezuelanos, agora ela colaborará com as autoridades colombianas, aportando informação relevante. A decisão de que a mulher permaneça na Colômbia está sustentada em um documento em que deixou formalizada sua vontade de contribuir com a normalização da institucionalidade em seu país.
Tania Pérez, de alcunha "Pau Pau" — de 28 anos —, era membro da Polícia Estatal venezuelana e possui informação sobre movimentos na fronteira com Colômbia por parte do regime de Nicolás Maduro.
O cancelamento da medida de expulsão coincide com a decisão do Governo venezuelano de descender os mais de 700 membros de suas Forças Armadas que se entregaram na Colômbia. Assim consta em um boletim oficial publicado recentemente, onde acrescenta que eles foram expulsos pelos delitos de deserção e traição à Pátria.


Cúcuta, o outro ponto sensível da tensão com Caracas
Para organismos de Inteligência colombianos a melhor evidencia de que há espiões venezuelanos cumprindo missão na Colômbia foi a captura de cinco pessoas, em 19 de fevereiro em Cúcuta, quando se preparava o grande concerto pela paz e a mobilização de ajuda humanitária na fronteira.
Os detidos haviam se hospedado no Hotel Hampton, o mesmo em que permaneciam vários deputados da ala de Juan Guaidó. A SIJIN 
(Seccional de Investigação Judiciária e Interpol) comprovou que o grupo estava acompanhando os movimentos dos deputados, gravando  videos e tomando fotos deles.
Segundo um relatório oficial, conhecido por El Tiempo, no momento de sua retenção disseram ser turistas, que não portavam documentos e que estavam fazendo compras no centro comercial Unicentro.
Mas com um deles, identificado como Oberto Junior Bohórquez Camejo, acharam um passaporte venezuelano, com visto americano, em sua maleta. O sujeito é um intermediário na compra de faturas e portfólios, atividade que está sendo exercida para dar liquidez ao regime.
Seus acompanhantes, que portavam cartões de fronteira falsos, foram identificados como Luis Enrique Duarte Moreno, Erwin Javier Flórez, Jesús María Bohórquez e Laura Elena Carroz.

“Temos a certeza de que a mulher é do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN) e que todos estão ligados a um programa que se chama ‘Grande Missão de Lares da Pátria’, que depende da vice-presidência venezuelana”, explicou a este diário um investigador.
Embora Laura Elena Carroz não tenha registro de movimentos migratórios legais para a Colômbia, apareceu hospedada anteriormente no Hotel Casino e já tinha outra entrada no Hampton.
“Não vamos permitir que cidadãos estrangeiros ingressem em nosso país para afetar a ordem e a tranquilidade social. Sabemos que há um interesse manifesto por parte da ditadura de Maduro para afetar a segurança nacional diante os eventos que estão próximos a realizar-se”, indicou no fim de semana passado Christian Krüger, diretor da Migração Colombiana.
Nessa jornada, que terminou em distúrbios e até na polêmica queima de ajudas, houve outra captura. A de Crober Elías Paraco Silvera, membro ativo da velha Polícia Técnico Judicial de Venezuela (PTJ). O sujeito tomou fotos no posto fronteiriço e, quando interpelado, disse que ia buscar provisões para sua família.
Por enquanto, os alarmes estão ativos no Norte de Santander, Arauca e La Guajira, a fronteira porosa entre Colômbia e Venezuela, por onde estão ingressando os mal chamados desertores do regime. Mas também está sob vigilância outra passagem: a fronteira com o Brasil onde no fim de semana passado (23/2/19) se registraram graves distúrbios. 


Fogo amigo
O que os organismos de Inteligência e agencias de outros países pretendem é habilitar uma plataforma de informação que permita identificar a todos os uniformizados que busquem passar para Colômbia. Além do ingresso de potenciais espiões, o que tentam evitar é que militares venezuelanos e coletivos chavistas os alvejem a tiros, como ocorreu há alguns dias na fronteira com Brasil.

Unidad Investigativa
u.investigativa@eltiempo.com
Twitter: @uinvestigativa
 Fonte:  tradução livre de El Tiempo

domingo, 3 de março de 2019

Jornalismo Sob Pressão

por Renato Sant'Ana
Da infinidade de virtudes imagináveis, qual será a mais desejável em um jornalista? Na era da ciberfrivolidade, uma pergunta assim é "ponto fora da curva" (permitido o lugar comum). E também por isso será válida.
A morte do jornalista Ricardo Boechat, em 11/02/19, causou grande comoção, quer pelas circunstâncias do fato, quer por ser ele muito querido e admirado por colegas e pelo grande público. Mas não é dele que se trata aqui, senão de uma fala recorrente entre seus pares, ao lamentar sua partida.

Desde militantes da Folha de S. Paulo até rapazes da equipe de esportes da Rádio Gaúcha, jornalistas articularam o discurso do vitimismo: "Ele nos deixou num momento crítico em que o jornalismo tanto precisa de alguém que denuncie o que está acontecendo", eis o que se repetiu numa abordagem cuja síntese é a afirmação de a imprensa estar vivendo dias de cerceamento, o que, no Brasil, não é verdade.
Mas uma parcela da imprensa deve estar mesmo desconfortável em razão de mudanças que, do ponto de vista da sociedade, são bem positivas: a população mais escolarizada já não engole qualquer coisa que saia nos noticiários. E uma das causas é o contraponto que as "mídias alternativas" fazem às mídias tradicionais (rádio, TV e jornal), inclusive desmascarando jornalistas favoráveis a causas revolucionárias.
Até 2013, quando atingimos o ponto de saturação e o país começou a mudar, os queixosos de agora tinham a vida mais folgada: era mais fácil engrupir o público. Quer dizer, a militância ideológica travestida de jornalismo não tinha, como hoje, o desconforto de uma enérgica e amplamente compartilhada contestação.
Mas as redes sociais ganharam corpo e a moleza acabou. Hoje, se black blocs destroem automóveis de uma loja de carros importados, se o MST põe fogo em tratores e plantações de uma fazenda altamente produtiva, se o movimento dos sem-teto cobra aluguel em um prédio invadido e tranca as portas para controlar as pessoas, não adianta a mídia tradicional se omitir nem querer dourar a pílula. Haverá sempre um abelhudo para gravar imagens no smartphone e mandar às redes.
Em suma, especialmente a partir de 2013, o núcleo hegemônico da imprensa, cabresteado pelo Foro de S. Paulo (organização que esse núcleo finge ignorar), vem sendo desmascarado e repelido.
À parte de excessos e fake news, as redes sociais tiveram a faculdade de revelar o que todo mundo via sem ver: "o rei está nu!". Os que hoje se queixam assistiram, no passado recente, à instituição da corrupção como método de poder, ao aparelhamento do Estado e à imposição de um projeto de subversão das instituições concebido com cinismo revolucionário. Mas não denunciaram! Terá sido por ignorância ou por conveniência? Tanto faz! Merecem repúdio. E hoje o têm! E se queixam.
Mas as mídias tradicionais vão acabar? Em essência não! Pode até desaparecer a impressão em papel, por exemplo, mas não o jornalismo profissional. Haverá sempre uma busca de credibilidade, inexistente no mundo anárquico das mídias sociais. E quem tiver competência e independência de caráter é que vai granjear a confiança do público.
E assim chegamos a um esboço de resposta à pergunta inicial. Sem dúvidas, uma das virtudes mais apreciáveis num jornalista — e, de resto, em qualquer pessoa — é "honestidade intelectual", que é a materialização do irrefreável desejo de buscar a verdade, sobre si mesmo e sobre a realidade do mundo.
Renato Sant'Ana é Psicólogo e Advogado.
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domingo, 24 de fevereiro de 2019

A Tomada de La Serra: 74 Anos

por Sérgio Pinto Monteiro*
Há setenta e quatro anos um pelotão do Regimento Sampaio escreveu, nos campos de batalha da Itália, páginas gloriosas da história da Força Expedicionária Brasileira. Seu comandante era o Primeiro-Tenente da reserva convocado Apollo Miguel Rezk.
Apollo nasceu no Rio de Janeiro em 09 de fevereiro de 1918. Era filho de imigrantes: pai libanês e mãe síria. Fez seus estudos no Colégio Pedro II. Em 1935 tentou, sem êxito, entrar para a Escola Militar do Realengo. Seus pés planos e uma reprovação em Física impediram a realização do sonho de ingressar na carreira militar.
A idade de prestação do serviço militar obrigatório conduziu o jovem Apollo ao CPOR do Rio de Janeiro. Aprovado nos exames médico, físico e intelectual, após os três anos do curso do CPOR foi declarado Aspirante a Oficial da Reserva e classificado em 10º lugar entre os setenta concludentes da Arma de Infantaria, turma de 1939.
Em 1940 formou-se Perito-Contador na Escola Superior de Comércio do Rio de Janeiro. No ano seguinte foi convocado para realizar o Estágio de Instrução no Regimento Sampaio, promovido a Segundo-Tenente e desligado do serviço ativo do Exército. Em 1942 foi convocado para o Estágio de Serviço, novamente no Regimento Sampaio. Estudioso, concluiu em 1943 o bacharelado em Ciências Econômicas na Faculdade de Administração e Finanças da Escola de Comércio do Rio de Janeiro.
Ainda nesse ano foi promovido a Primeiro-Tenente e convocado para a Força Expedicionária Brasileira, em fase de formação e adestramento.
Apollo embarcou para a Itália como oficial subalterno, Comandante de pelotão da 6ª Companhia do II Batalhão do Regimento Sampaio. O 2º escalão da FEB seguiu para o Teatro de Operações no navio transporte de tropas americano “U.S. General W. A. Mann”, que partiu do armazém nº 11 do porto do Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1944, ancorando em Nápoles no dia 06 de outubro.
Na noite de 23 e madrugada de 24 de fevereiro de 1945, atuando em apoio à 10ª Divisão de Montanha americana no ataque a La Serra, o pelotão comandado pelo tenente Apollo, após ultrapassar um extenso campo minado, atacou as posições fortificadas alemãs. Apesar do intenso fogo inimigo, o pelotão Apollo cercou o objetivo, investiu contra a posição e pôs em fuga os alemães, fazendo cinco prisioneiros. Ferido em combate por volta das 23 horas, o tenente Apollo, cercado e contra-atacado, manteve a posição durante toda a madrugada e manhã do dia 24.

19.05.45 – Ten Apollo, único brasileiro 
agraciado com a Cruz de Serviços Notáveis,
 dos  EUA, é condecorado pelo
Gen Truscott – Alessandria, Itália.
Por esta missão foi condecorado pelo governo americano, em 19 de maio de 1945, com a “Distinguished-Service Cross”, único brasileiro agraciado com essa importante medalha de bravura:
“... por heroísmo extraordinário ... a despeito de campos de minas desconhecidos, terreno excessivamente difícil e forte oposição, o Primeiro-Tenente Rezk conduziu galhardamente os seus homens através de uma cortina de fogo de metralhadoras, morteiros e artilharia, para assaltar e arrebatar o objetivo do inimigo. Embora gravemente ferido quando dirigia o ataque, o Primeiro-Tenente Rezk nunca hesitou: pelo contrário, continuou firmemente o avanço ... repeliu três fortes contra-ataques, infligindo pesadas perdas aos alemães pela sua habilidade na condução do tiro. Depois, embora em posição vulnerável ao fogo das casamatas do inimigo circundante e a despeito das bombas que caiam e da gravidade dos seus ferimentos, o Primeiro-Tenente Rezk defendeu resolutamente La Serra contra todas as tentativas fanáticas dos alemães para retomar a posição. Pelo seu heroísmo, comando inspirado e persistente coragem, o Primeiro-Tenente Rezk praticou feitos que refletem as mais altas tradições do serviço militar.”
(tradução de trechos do documento original em inglês feita pela Seção Especial do Comando da FEB).
O comandante da FEB, General João Baptista Mascarenhas de Moraes, em Citação de Combate de 09 de abril de 1945, assim se manifestou quanto às ações do tenente Apollo na conquista de La Serra:
“... a personalidade forte, o espírito de sacrifício, a combatividade, a tenacidade, o destemor do tenente Apollo constituem belos exemplos, dignos da tropa brasileira.”
30.03.45 - Ten Apollo recebe a "Silver Star" 
do Cmt do V Exército americano, Gen Lucian 
Truscott, Lizano de Belvedere – Itália.
Anteriormente, graças ao seu desempenho no ataque a Monte Castelo em 12 de dezembro de 1944, o Tenente Apollo já havia sido agraciado pelos Estados Unidos com a medalha “Silver Star”. Terminada a Campanha da Itália, o Tenente Apollo recebeu quatro condecorações brasileiras: Cruz de Combate de 1ª Classe, Medalha de Sangue, Medalha de Campanha e Medalha de Guerra.
Quando da promoção do Tenente Apollo ao posto de Capitão, em 03 de setembro de 1951, assim se expressou o Ministro da Guerra no despacho em que deferiu a proposta:
“Deferido. A promoção se justifica, sobretudo, em virtude da conduta excepcional desse Oficial no Teatro de Operações da Itália, onde, entre diversas condecorações recebidas por bravura, lhe foi conferida a medalha “Distinguished-Service Cross” do Exército Americano, por heroísmo extraordinário em ação, distinção máxima somente concedida a este combatente brasileiro...”.
O destino, que no passado não permitira ao jovem Apollo a realização do sonho de ingressar na carreira militar através da Escola do Realengo, ainda haveria de, novamente, pregar-lhe outra peça. A tão sonhada carreira, que finalmente lhe chegara não pela via da Escola Militar, mas através do CPOR e da própria guerra, como também, e principalmente, por sua bravura e eficácia no cumprimento do dever, seria interrompida precocemente. 
Seus pés planos não resistiram ao esforço do combate e ao congelamento nas trincheiras da Itália. O Capitão Apollo, em 12 de dezembro de 1957, aos 39 anos, depois de vinte anos no exército, foi julgado inapto para o serviço ativo e reformado no posto de Major.
Conheci o nosso herói já no ocaso de sua vida. Era um bravo. Foram muitos sábados e domingos de intermináveis conversas. Jamais o Major Apollo admitiu o seu heroísmo. Pessoa simples, culta e educada era, sobretudo, um gentleman. Absorvi, voraz e intensamente, cada relato de suas ações na guerra. O Exército era realmente a sua paixão. E a Pátria, o seu bem maior. Ficamos amigos, o que me enche de orgulho e gratidão.
A nação, na tristeza daquele 21 de janeiro de 1999, perdeu um filho exemplar. E o Exército viu partir um de seus grandes guerreiros. A filha Nádia comunicou-me o falecimento do pai pela manhã, bem cedo. Desloquei-me rapidamente para a sede do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva, no quartel do CPOR/RJ, de onde fiz os contatos relativos ao passamento do Major Apollo. Enviei um necrológio aos jornais, avisei ao CComSEx, aos comandantes do Regimento Sampaio e do Batalhão de Guardas - onde ele servira no após guerra - bem como à Embaixada dos Estados Unidos, já que era ele detentor de duas condecorações americanas. Informei, também, à Comunicação Social da Presidência da República e aos governos estadual e municipal do Rio de Janeiro.
O sepultamento foi no cemitério do Caju. Presentes, familiares, ex-combatentes da FEB e amigos do nosso herói, bem como quase uma centena de oficiais R/2. Um pelotão do Regimento Sampaio executou as honras fúnebres. O governo americano enviou, de Brasília, um oficial superior, fardado, para representá-lo. Os governos federal, estadual e municipal não enviaram representantes, nem formularam condolências à família enlutada. Jamais esquecerei o constrangimento que senti ao ouvir o Oficial americano dizer aos filhos do major Apollo:
“Eu não entendo vocês brasileiros. Na minha terra, alguém com as importantes condecorações de guerra do Major Apollo, teria recebido, ao longo de sua vida, as homenagens, o respeito e a gratidão do seu povo.”
Na tristeza daquele momento, assumi, intimamente, o compromisso - como missão - de divulgar a história do Major Apollo. Nesses dezenove anos desde o seu falecimento, tenho viajado pelo nosso país ministrando palestras - nos meios militar e civil - relatando os seus atos de bravura e heroísmo. O meu livro “O Resgate do Tenente Apollo”, escrito em parceria com o tenente Orlando Frizanco, terá a 2ª edição publicada ainda este ano. Há, também, disponível, embora não biográfico, o livro do tenente Luiz Mergulhão “Major Apollo Miguel Rezk: O Herói Esquecido”. O Conselho Nacional de Oficiais da Reserva criou a Medalha Major Apollo Miguel Rezk, para homenagear personalidades que se destaquem no apoio aos oficiais da reserva.


Revista Manchete - Ed 2426 - 03 Out 1998
Um dos desejos não realizados do herói era ser promovido a Tenente-Coronel, a exemplo de alguns de seus companheiros que obtiveram a promoção por via judicial. Quem sabe o Exército Brasileiro, ou mesmo o Congresso Nacional, lhe concedam, ainda que tardiamente, essa honraria, como derradeira homenagem póstuma, já que em vida não logrou recebê-la sob a forma de promoção por bravura, o que teria sido, inquestionavelmente, um ato de inteira justiça.
Os feitos do Tenente Apollo ultrapassaram os limites de sua existência física. Na verdade, já não mais lhe pertenciam quando, naquela madrugada de 21 de janeiro de 1999 foi vencido pelo inexorável. São episódios gloriosos da história militar de um país que teima em não cultuar seus heróis.
A Força Expedicionária Brasileira - e seus bravos - não pode ser esquecida. Ela simboliza a pujança e o valor de um povo. A nação lhe deve eterno respeito e imorredoura gratidão.
*o autor é historiador, Oficial da Reserva do Exército, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis. É presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB. É fundador e ex-presidente do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva - CNOR.
Fonte:  Informativo O Tuiuti nº 278-Jun-2018,
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domingo, 10 de fevereiro de 2019

A Nova 'Catástrofe' Palestina: Um Shopping Center Contratando Palestinos

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Foto: um supermercado da rede Rami Levy em Jerusalém Ocidental.
(Imagem: Yoninah/Wikimedia Commons)
Os dirigentes da facção FATAH do presidente Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina reagiram à inauguração de um novo shopping center em Jerusalém Oriental, no qual a maioria dos funcionários e clientes é árabe, de uma maneira que escancara como os líderes palestinos continuam torpedeando o que for positivo ao seu povo.
por Bassam Tawil
Os dirigentes da facção FATAH do presidente Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina estão furiosos. Tudo porque um empresário judeu israelense acabou de construir um shopping center em Jerusalém Oriental e a maioria dos funcionários e clientes são árabes.
Os líderes da FATAH apregoaram o boicote ao shopping.
A FATAH, que via de regra é retratada como uma facção moderada pela mídia ocidental, reagiu ao empreendimento do shopping de modo a escancarar a maneira pela qual os líderes palestinos continuam torpedeando o que for positivo ao seu povo.
Onde já se viu um líder condenar um projeto que fornece empregos a centenas de pessoas de seu povo? Onde já se viu um líder convocar seu povo a boicotar um shopping ou um supermercado que oferece preços competitivos em roupas e alimentos? Onde já se viu um líder retratar a abertura de um projeto comercial que beneficiará seu povo como catástrofe ("nakba")?
Rami Levy, empresário e proprietário da terceira maior rede de supermercados de Israel, investiu mais de US$50 milhões na construção de um shopping no Parque Industrial Atarot, na região nordeste de Jerusalém. Apesar do chamamento ao boicote, alguns palestinos alugaram lojas dentro do shopping, considerado um modelo de convivência entre árabes e judeus. O novo shopping também possui um espaçoso supermercado pertencente à rede de supermercados de Levy.
Os supermercados de Levy tanto em Jerusalém quanto na Cisjordânia são muito procurados pelos consumidores palestinos. Eles dizem que os preços de lá são mais baixos do que os das empresas árabes. Talvez seja por esta razão que centenas de palestinos tenham se dirigido ao recém inaugurado supermercado no shopping quando da sua inauguração em 8 de janeiro. Os supermercados israelenses contratam centenas de palestinos da Cisjordânia, bem como residentes árabes de Jerusalém, que trabalham lado a lado dos colegas judeus.
Segundo Levy, metade de seus 4 mil funcionários são palestinos ou árabes israelenses. "Comecei a dar emprego a palestinos e árabes israelenses no primeiro empreendimento Rami Levy, uma barraca no mercado Mahane Yehuda, em Jerusalém, inaugurado em 1976. Os árabes já faziam parte dos primeiros funcionários", salientou ele.
"Os funcionários continuam trabalhando na Rami Levy Hashikma, nossos atacadões, e muitos subiram na carreira, juntamente com a empresa. O primeiro funcionário que contratei há 35 anos é um homem chamado Ibrahim, árabe de Jerusalém Oriental, que permanece na Rami Levy, atualmente é diretor de logística. Outros funcionários árabes israelenses e palestinos que se juntaram à equipe de Rami Levy também foram promovidos a cargos de direção e gerência. Rami Levy não discrimina o candidato conforme a etnia, gênero ou religião ao contratar e promover funcionários. Todos os funcionários, sejam eles palestinos ou israelenses, são tratados igualmente e recebem os mesmos benefícios. O salário se baseia unicamente no cargo e desempenho do funcionário. A meta da Rami Levy é dar a mesma oportunidade a todos os funcionários de alcançarem o sucesso. Tal objetivo só pode ser alcançado se o princípio da igualdade for implementado em todos os ofícios da empresa".
Para os funcionários do alto escalão da FATAH de Abbas, no entanto, a imagem de palestinos e judeus trabalhando em harmonia é repugnante. Eles não gostam da ideia de trabalhadores palestinos estarem recebendo bons salários e serem tratados com respeito pelo empregador israelense. Eles também não gostam de ver consumidores palestinos fazendo fila para comprar alimentos e mercadorias de melhor qualidade oferecidos a preços competitivos. As autoridades da FATAH preferem ver seu povo desempregado ou pagar mais caro no mercado palestino do que fazer as compras em um shopping center de propriedade de um judeu.
Em vez de comemorar a inauguração do shopping que oferece oportunidades de emprego a dezenas de palestinos além de praticar preços mais baixos, as autoridades da FATAH veem nisso um plano israelense para "debilitar" a economia palestina. "Foi um dia triste para Jerusalém", realçou Hatem Abdel Qader Eid, funcionário de alto calibre da FATAH, ao se referir à inauguração do novo shopping. "Este projeto visa minar o comércio árabe em Jerusalém e subordiná-lo à economia israelense."
As centenas de palestinos que se acotovelavam no novo shopping no dia da inauguração, no entanto, ao que tudo indica, discordam da imagem sombria pintada por Abdel Qader Eid. O enorme número de pessoas que lá se aglomeravam, é sem sombra de dúvida positivo: mostra que os palestinos são clientes como em qualquer país do mundo que preferem produtos de melhor qualidade a preços mais baixos. Para eles, esse não foi um "dia triste", como disse o representante da FATAH, mas sim empolgante. Finalmente um shopping foi inaugurado perto da casa deles, oferecendo uma ampla gama de produtos a preços competitivos.
Não obstante, Abdel Qader Eid estava certo em relação a uma coisa: seu lamento com respeito à ausência de investidores e capital palestinos. "Os capitalistas palestinos são covardes", ressaltou ele. Os investidores palestinos, salientou Eid, bem que poderiam ter inibido Rami Levy de construir o novo shopping se eles tivessem investido na construção de um shopping palestino. "É verdade que há empresários palestinos com muito dinheiro. Mas apesar de serem muito ricos, são medíocres quando se trata de disposição e formação".
Lamentavelmente o representante da FATAH está dizendo que os empresários palestinos não botam fé no povo, preferindo investir seu dinheiro em outro lugar.
Osama Qawassmeh, outro cacique da FATAH, foi ainda mais eloquente quanto ao incitamento. Ele advertiu que qualquer palestino que faça compras ou alugue algum espaço no novo shopping será acusado de "trair a terra natal". Ele continuou com a velha ladainha das calúnias palestinas, segundo as quais, comprar produtos israelenses é um ato de "apoio aos assentamentos e ao exército israelense".
O incitamento da FATAH contra o novo shopping center não caiu no vazio. No dia em que o shopping foi inaugurado, palestinos lançaram um sem-número de bombas incendiárias no complexo, forçando os compradores (palestinos) a fugirem para salvar a própria pele. Por sorte ninguém ficou ferido, nem houve prejuízos materiais às lojas ou veículos que se encontravam no estacionamento.
A campanha de incitamento contra o shopping de Levy começou há vários meses, quando ainda estava em fase de construção, continuando até hoje. Já que a campanha deu com os burros n'água não conseguindo impedir a abertura do shopping, a FATAH e seus seguidores apelaram para ameaças e violência. As ameaças estão sendo dirigidas a consumidores e comerciantes palestinos que alugaram algum espaço no novo shopping. Os vândalos que atacaram o shopping com bombas incendiárias poderiam ter ferido ou matado palestinos. Os vândalos, que segundo consta são afiliados à FATAH, preferem que seu povo morra do que deixar que se divirtam ou comprem produtos a preços atraentes em um shopping israelense.
Ao liderar a campanha de incitamento e intimidação, a FATAH de Abbas está mais uma vez mostrando a sua verdadeira cara. Como é possível imaginar que Abbas ou algum de seus subordinados da FATAH venham algum dia a fazer a paz com Israel, quando não conseguem sequer tolerar a ideia de palestinos e judeus trabalharem juntos para o simples bem comum?
Se um palestino que compra leite israelense é considerado traidor aos olhos da FATAH, não é difícil imaginar o destino de qualquer palestino que ouse ponderar sobre um entendimento com Israel. Se ele tiver sorte, terá um encontro íntimo com uma bomba incendiária. Se ele não tiver sorte, será enforcado em praça pública. Como isso se reflete na disposição palestina de participar de um processo de paz com Israel?

Bassam Tawil, árabe muçulmano, radicado no Oriente Médio.
Tradução: Joseph Skilnik
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