quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Sobre a Tal Comissão da Verdade

A verdade é um espelho que caiu das mãos de Deus e se quebrou.
Cada um recolhe um pedaço e diz que toda verdade está naquele caco.
Provérbio iraniano
por Waldo Luís Viana
Corria em mim a cândida idade de nove anos incompletos, quando estourou o contragolpe, a revolução ou o golpe de 1964. Seja qual nome adotado, nada tive a ver com o movimento, contra ou a favor. Como já possuo um passivo de 56 anos, creio que a maioria do povo brasileiro hoje em dia também não fora responsável direto pelos acontecimentos que culminaram no evento, nem tampouco tem a ver com as suas consequências, notadamente a luta armada ou a guerra oficial contra ela, empreendidas entre 1968 e 1975.
Isso posto, é preciso notar que o regime militar terminou em 1985, após 20 anos de ditadura, embora o período de transição de José Sarney (1985-1989) tenha sido ainda tutelado pelas Forças Armadas, época ainda prenhe de explicações por parte de bons historiadores.
Quando tinha 34 anos pude, enfim, resgatar minha cidadania e votar para presidente da República, após amargar, como quase todo mundo a tristeza de, anos antes, ver falecido o doce movimento das Diretas-Já, que, em 1984, procurou transformar pacificamente nosso precário sistema eleitoral de eleições indiretas.
Hoje vivemos um regime democrático regular, mas eis que o governo atual pretende revolver o passado para recuperar o sentido histórico do que foi perdido nas franjas do tempo, remexendo em feridas que pareciam sepultadas pela velha lei da Anistia (1979).
A Anistia valeu, como confirmou há pouco tempo o Supremo Tribunal Federal, mas a militância de esquerda não se deu por vencida: deseja revolver o que foi sepultado para trazer à tona o que até hoje ficou equívoco e sem melhor explicação.
Como nada tenho a ver com o período, sei que houve mortos de lado a lado, torturadores, torturados, vítimas e assassinos a sangue-frio. A guerra oficial foi vencida pelo Estado, cujos proprietários e ideólogos da ocasião eram os militares e seus prepostos tecnocratas. Hoje, ao converso, os manipuladores do governo são de outra ideologia e propagam, com toda a convicção, que praticam agora a democracia e os direitos humanos.
Querem nos convencer  aos que nada têm a ver com o bololô — que militares de direita torturaram e massacraram à vontade inocentes ativistas anti-ditadura que eram “apenas” democratas e meros agentes dos direitos humanos. Essa é muito boa!
Esse estratagema de linguagem é grave, porque pressupõe uma reação extremista de um lado e moderada do outro, como se houvesse excessos de um lado só. O outro era o da facção vitimada e trucidada, com raras exceções, entre as quais a nossa “presidenta”, que nos governa...
Ora, se é comissão da “verdade”, não se pode aceitar que ela esteja apenas de um lado, porque, senão, não haveria querelas. Ocorre que existem arquivos históricos confiáveis de que houve luta armada, guerrilha, sequestros e assassinatos perpetrados pela esquerda radical, que gostaria de ver instaurado no país um regime parecido com o de Cuba, que, então, estava na moda...
Vários próceres do atual governo, inclusive, foram treinados na ilha dos Castro, retornando ao país com objetivos de retomada do poder pela força, compondo células e aparelhos, na tentativa de subverter a ditadura de direita.
Para os de esquerda, os militares subvertiam a ordem que pretendiam instaurar, isto é, uma república proletário-sindical, à semelhança de Cuba e da extinta União Soviética; para os militantes da direita, os que foram para a clandestinidade, os banidos e os cassados representavam a massa de manobra que pretendia desfigurar a Pátria, mediante um regime comunista e ateu...
No meio dessa sopa conflitante e ideológica nós, o povo, assistíamos a tudo, tocando o nosso dia a dia, opinando e silenciando de acordo com a conveniência cidadã de gente mal-informada ou sempre cientificada pela metade do que estava acontecendo.
Agora, após tantos anos, os dois lados preparam-se para nova guerra, açulando os mais portentosos argumentos de parte a parte. Os cadáveres da esquerda e da direita ressurgirão, revigorados, trazendo raiva e estupor para uma sociedade de massas, entorpecida pela mídia e amedrontada no seu dia-a-dia sob violência difusa e insegurança.
Pobre povo brasileiro, que não pode andar para a frente nem merecer o futuro! Abrirão a tampa do caldeirão e as bruxas surgirão, de parte a parte, com seus sortilégios noturnos. Poucos ganharão as reparações de guerra, um conflito em que a maioria absoluta da nação não lutou ou viveu qualquer envolvimento direto ou indireto.
A pantomima desenvolver-se-á em meio a eleições, sendo bucha de canhão para aproveitadores, assim como se diz dos mensalões, também objeto de conflito e que sabemos não darão em nada em nossa Justiça capenga, lerda e elitista.
Os caquinhos da verdade pertencem a dois grupos, em luta eterna, e que não mais representam os interesses do povo brasileiro. Os queixosos de injustiças  nós vamos ver  serão calados por maçarocas de dinheiro sangradas dos contribuintes e voltarão para suas casas, aburguesados, para criar os filhos, os netos e seguir a vida.
Na verdade, a melhor coisa de que me lembro do período militar foi de uma música do Chico Buarque, em que ele implorava intensamente: “chamem o ladrão, chamem o ladrão!”. Parece que deu certo a veemência do ilustre compositor: os ladrões foram chamados e, hoje, no governo atual, estão todos aqui...
Waldo Luís Viana é escritor, economista, poeta
 e não usufrui hoje de boquinhas nem do
 Estado aparelhado, assim como ontem não
 foi agraciado com cargos nem comendas...
Teresópolis, 5 de outubro de 2011.
Fonte:  Lilicarabina
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terça-feira, 11 de outubro de 2011

Tudo Dominado

por Miriam Leitão
A Controladoria-Geral da União é órgão de assessoramento da Presidência da República, tem recursos definidos pelo governo, está proibida de investigar ministros. Não audita algumas áreas do governo. O Conselho Nacional de Justiça chegou a apoiar uma proposta que em última instância reduz seus poderes. Não há um corrupto preso. O Brasil está sem ferramentas para combater a corrupção.
O movimento social está quase todo dominado. A UNE não representa os estudantes, mas sim o PCdoB que faz parte da base política do governo, recebe uma enorme mesada, e entre seus tristes papéis está de vez em quando sair em defesa de acusados de corrupção, quando isso é do interesse do governo. As centrais sindicais também vivem de dinheiro público e dos projetos políticos de seus dirigentes. Muitas ONGs, até as que defendem a ética, recebem recursos públicos.
O Brasil tem poucos mecanismos e instituições para o combate à corrupção. Alguns se esforçam, mas nada vai muito adiante. Já foram demitidos nos últimos oito anos, segundo o secretário-executivo da Controladoria-Geral da União (CGU), Luiz Navarro, 3.500 funcionários, 70% por corrupção. Mas, como ele lembra, “ninguém está preso”. A Polícia Federal faz operações em que revela fatos estarrecedores, mas o que incomoda o governo e mobiliza a cúpula do Judiciário é se as pessoas devem ou não ser algemadas. Além disso, a prisão, como se sabe, é breve porque é apenas para o levantamento de provas. Depois, entra-se num processo longuíssimo que a opinião pública não consegue acompanhar nem entender. A impunidade se instala como um vírus que vai corroendo a confiança nas instituições democráticas.
A declaração da ministra Eliana Calmon repercutiu porque é verdadeira. Obviamente num país onde a corrupção avança tanto não há um poder blindado contra o mal: há bandidos de toga, com mandato, com ministério, com farda. Eles se infiltraram em todos os poderes, ministro Cezar Peluso, infelizmente. O alerta da corregedora nacional de Justiça fortalece o Judiciário e não o expõe como pensaram os críticos da ministra. Protege-se a integridade de um poder combatendo os que não merecem fazer parte dele, e não com o costumeiro espírito de corpo que acontece, com frequência, no Legislativo.
Num programa que fiz esta semana na Globonews sobre corrupção, o secretário-geral da ONG Contas Abertas, Gil Castello Branco, falou de um estudo da Fiesp, feito recentemente, que quantifica o custo da problema. Do programa, participou também Luiz Navarro, da CGU.
 É difícil quantificar porque corrupto não dá recibo, nem nota fiscal, mas o cálculo é que o custo fique entre R$ 50 bilhões e R$ 84 bilhões. No menor cálculo, é o que o governo arrecadaria com uma nova CPMF, diz Gil Castello Branco.
O Contas Abertas estabeleceu como princípio não receber recursos públicos. Por isso não faz convênio nem com órgãos do executivo que trabalham na mesma direção, de aumento da transparência do gasto público, como a CGU. A Controladoria, pelo seu lado, tem inúmeras limitações exatamente por não ser aquilo que o PT, como lembrou Gil, propunha na campanha: uma agência independente com orçamento próprio. A CGU é órgão da Presidência, não pode investigar a Presidência. O Itamaraty e o Ministério da Defesa estão fora da sua alçada. O Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que os ministros não podem responder a sindicâncias, nem podem ser auditados pela CGU, porque exercem cargos políticos e não administrativos.
 A CGU audita, investiga, e forma o conjunto de elementos para que a Polícia Federal ou o Ministério Público possam propor a ação. Até o momento em que a ação é ajuizada tudo vai bem, depois, há uma quantidade incrível de recursos e prazos. O STJ tomou a decisão de não aceitar interceptação telefônica de juiz de primeira instância alegando que antes é preciso esgotar todas as instâncias de investigação. Isso põe em derrocada um instrumento importante — diz Navarro.
A CGU tem feito um trabalho importante, mas seus poderes, recursos e área de atuação são insuficientes. Há também restrições incompreensíveis.
Por outro lado, as ONGs que deveriam fiscalizar o governo são muito dependentes do próprio governo: R$ 3 bilhões foram transferidos para instituições sem fins lucrativos. O Orçamento é difícil de ser entendido e há ainda zonas de sombra, explica Gil: o Sistema de Convênios onde está o dinheiro para as ONGs, os gastos das estatais têm pouca transparência. As informações sobre aditivos aos contratos não podem ser acessadas. O Sindec, onde estão os aditivos aos contratos do Ministério dos Transportes, também não estão disponíveis.
Neste contexto, a melhor notícia que surgiu recentemente foram as manifestações espontâneas como as do 7 de setembro, que, em Brasília, levaram 25 mil pessoas às ruas, e não por convocação de sindicato ou partido político. O movimento na mídia social é mais intenso, lembrou Navarro. Uma proposta no site do Senado para que corrupção seja considerado um crime hediondo recebeu 450 mil acessos. No Congresso, lembrou Gil, há 100 projetos engavetados que combatem a corrupção. Com tantas teias prendendo o avanço institucional do Brasil, a grande esperança é de fato o movimento emergente e espontâneo contra a corrupção.
Fonte:  O Globo
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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Um Poder de Costas para o País

por Marco Antonio Villa
A Justiça no Brasil vai mal, muito mal. Porém, de acordo com o relatório de atividades do Supremo Tribunal Federal de 2010, tudo vai muito bem. Nas 80 páginas — parte delas em branco — recheadas de fotografias (como uma revista de consultório médico), gráficos coloridos e frases vazias, o leitor fica com a impressão que o STF é um exemplo de eficiência, presteza e defesa da cidadania. Neste terreno de enganos, ficamos sabendo que um dos gabinetes (que tem milhares de processos parados, aguardando encaminhamento) recebeu “pela excelência dos serviços prestados” o certificado ISO 9001. E há até informações futebolísticas: o relatório informa que o ministro Marco Aurélio é flamenguista.
A leitura do documento é chocante. Descreve até uma diplomacia judiciária para justificar os passeios dos ministros à Europa e aos Estados Unidos. Ou, como prefere o relatório, as viagens possibilitaram “uma proveitosa troca de opiniões sobre o trabalho cotidiano”. Custosas, muito custosas, estas trocas de opiniões. Pena que a diplomacia judiciária não é exercida internamente. Pena. Basta citar o assassinato da juíza Patrícia Acioli, de São Gonçalo. Nenhum ministro do STF, muito menos o seu presidente, foi ao velório ou ao enterro. Sequer foi feita uma declaração formal em nome da instituição. Nada. Silêncio absoluto. Por que? E a triste ironia: a juíza foi assassinada em 11 de agosto, data comemorativa do nascimento dos cursos jurídicos no Brasil.
Mas, se o STF se omitiu sobre o cruel assassinato da juíza, o mesmo não o fez quando o assunto foi o aumento salarial do Judiciário. Seu presidente, Cezar Peluso, ocupou seu tempo nas últimas semanas defendendo — como um líder sindical de toga — o abusivo aumento salarial para o Judiciário Federal. Considera ético e moral coagir o Executivo a aumentar as despesas em R$8,3 bilhões.
A proposta do aumento salarial é um escárnio. É um prêmio à paralisia do STF, onde processos chegam a permanecer décadas sem qualquer decisão. A lentidão decisória do Supremo não pode ser imputada à falta de funcionários. De acordo com os dados disponibilizados, o tribunal tem 1.096 cargos efetivos e mais 578 cargos comissionados. Portanto, são 1.674 funcionários, isto somente para um tribunal com 11 juízes. Mas, também de acordo com dados fornecidos pelo próprio STF, 1.148 postos de trabalho são terceirizados, perfazendo um total de 2.822 funcionários. Assim, o tribunal tem a incrível média de 256 funcionários por ministro. Ficam no ar várias perguntas: como abrigar os quase 3 mil funcionários no prédio-sede e nos anexos? Cabe todo mundo? Ou será preciso aumentar os salários com algum adicional de insalubridade?
Causa estupor o número de seguranças entre os funcionários terceirizados. São 435! O leitor não se enganou: são 435. Nem na Casa Branca tem tanto segurança. Será que o STF está sendo ameaçado e não sabemos? Parte destes vigilantes é de seguranças pessoais de ministros. Só Cezar Peluso tem 9 homens para protegê-lo em São Paulo (fora os de Brasília). Não é uma exceção: Ricardo Lewandovski tem 8 exercendo a mesma função em São Paulo.
Mas os números continuam impressionando. Somente entre as funcionárias terceirizadas, estão registradas 239 recepcionistas. Com toda a certeza, é o tribunal que melhor recebe as pessoas em todo mundo. Será que são necessárias mais de duas centenas de recepcionistas para o STF cumprir suas tarefas rotineiras? Não é mais um abuso? Ah, abuso é que não falta naquela Corte. Só de assistência médica e odontológica o tribunal gastou em 2010, R$ 16 milhões. O orçamento total do STF foi de R$ 518 milhões, dos quais R$ 315 milhões somente para o pagamento de salários.
Falando em relatório, chama a atenção o número de fotografias onde está presente Cezar Peluso. No momento da leitura recordei o comentário de Nelson Rodrigues sobre Pedro Bloch. O motivo foi uma entrevista para a revista “Manchete”. O maior teatrólogo brasileiro ironizou o colega: “Ninguém ama tanto Pedro Bloch como o próprio Pedro Bloch.Peluso é o Bloch da vez. Deve gostar muito de si mesmo. São 12 fotos, parte delas de página inteira. Os outros ministros aparecem em uma ou duas fotos. Ele, não. Reservou para si uma dúzia de fotos, a última cercado por crianças. A egolatria chega ao ponto de, ao apresentar a página do STF na intranet, também ter reproduzida uma foto sua acompanhada de uma frase (irônica?) destacando que “a experiência do Judiciário brasileiro tem importância mundial”.
No relatório já citado, o ministro Peluso escreveu algumas linhas, logo na introdução, explicando a importância das atividades do tribunal. E concluiu, numa linguagem confusa, que “a sociedade confia na Corte Suprema de seu País. Fazer melhor, a cada dia, ainda que em pequenos mas significativos passos, é nossa responsabilidade, nosso dever e nosso empenho permanente”. Se Bussunda estivesse vivo poderia retrucar com aquele bordão inesquecível: “Fala sério, ministro!”
As mazelas do STF têm raízes na crise das instituições da jovem democracia brasileira. Se os três Poderes da República têm sérios problemas de funcionamento, é inegável que o Judiciário é o pior deles. E deveria ser o mais importante. Ninguém entende o seu funcionamento. É lento e caro. Seus membros buscam privilégios, e não a austeridade. Confundem independência entre os poderes com autonomia para fazer o que bem entendem. Estão de costas para o país. No fundo, desprezam as insistentes cobranças por justiça. Consideram uma intromissão.

domingo, 9 de outubro de 2011

Como Foi a Caçada a Bin Laden

por Nicholas Schmidle, The New Yorker
Pouco depois das onze da noite do dia 1º Mai 2011, dois helicópteros MH-60 Black Hawk saíram do aeroporto de Jalalabad, no Afeganistão, e iniciaram uma missão secreta que os levaria ao Paquistão para matar Osama Bin Laden.  
Photoillustration by John Ritter.
Nas aeronaves estavam 23 SEALs da Marinha, do Grupo Seis, conhecido oficialmente como Grupo Especial de Desenvolvimento de Guerra Naval (em inglês DEVGRU). Também estavam a bordo um tradutor americano de origem paquistanesa, a quem chamarei de Ahmed, e um cachorro chamado "Cairo", um pastor belga. Era uma noite de lua nova e os pilotos dos helicópteros, com óculos de visão noturna, voaram sem luzes sobre as montanhas que percorrem a fronteira com o Paquistão. As comunicações por rádio foram reduzidas ao mínimo e uma estranha calma se instalou na cabine.
Quinze minutos mais tarde os helicópteros estavam sobre um vale montanhoso e penetravam, sem ser percebidos, no espaço aéreo paquistanês. Há mais de 60 anos que o Exército desse país mantém um estado de alerta contra seu vizinho do leste, a Índia. Devido a essa obsessão “as principais defesas aéreas estão voltadas para leste”, explica Shuja Nawaz, um estudioso do Exército paquistanês, autor do livro “Espadas Cruzadas: Paquistão, seu Exército e as Guerras Internas”. Vários oficiais e altos funcionários do Governo concordam com essa avaliação, mas um militar paquistanês de alta patente, com quem conversei em Rawalpindi, discorda: "Ninguém deixa suas fronteiras desamparadas”. Apesar de recusar-se a dar detalhes sobre a localização ou direcionamento dos radares paquistaneses – “Não se trata de onde estão ou deixam de estar os radares” – disse que a infiltração americana foi consequência “do desnível tecnológico entre os EUA e o Paquistão”Os Black Hawks, cada um deles com dois pilotos e uma tripulação formada por soldados do 160º Regimento de Operações Especiais da Aeronáutica, também conhecidos como “caçadores noturnos”, foram adaptados para mascarar o calor, o ruído e o movimento que faziam; a parte externa tinha ângulos afilados e achatados, cobertos por uma “pele” antirradar.
"O Complexo" - Fonte: Google Earth
O destino dos SEALs era uma casa na pequena cidade de Abbottabad, a 190 km da fronteira, nas colinas da serra de Pir Panjal, considerada um refúgio no verão, por seu clima agradável. Fundada em 1853 por um comandante britânico chamado James Abbott, ela se tornou a sede da prestigiada Academia Militar desde a criação do Paquistão em 1947. Segundo a CIA, Bin Laden estava escondido no terceiro andar de uma casa em um complexo de um acre (0,4047 m2, pouco menos de meio hectare) próximo da Kakul Road, em Bilal, bairro de classe média a 1,5 Km da Academia. Se tudo corresse como planejado, os SEALs saltariam dos helicópteros dentro do complexo, dominariam a guarda de Bin Laden, disparariam de muito perto para matá-lo e levariam o corpo para o Afeganistão.
Os helicópteros atravessaram Mohmand, uma das sete regiões tribais do Paquistão, contornaram o norte de Peshawar e seguiram em direção ao leste. O Comandante do Esquadrão Vermelho do DEVGRU, a quem chamarei James, viajava sentado no chão junto com outros 10 SEALs, Ahmed e "Cairo" (troquei os nomes de todos os que participaram secretamente dessa operação). James, um homem de ombros largos, com menos de 40 anos, não tem o corpo esbelto de um nadador, que é o que se imagina em um SEAL; parece mais um lançador de discos. Nessa noite vestia camisa e calças com camuflagem especial para o deserto, levava uma pistola Sig Sauer P226 com silenciador, e munição extra. Na mão carregava um fuzil M4 de cano curto, com silenciador (outros SEALs preferiram o Heckler&Koch MP7). Em um dos bolsos um mapa plastificado e quadriculado do complexo. Em outro, um folheto com fotografias e descrições físicas do pessoal que acreditavam estar na casa. Usava protetores auriculares que bloqueavam qualquer ruído menos o de seu coração.
Durante os 90 minutos do voo de helicóptero, James e seus colegas ensaiaram a operação em suas cabeças. Desde o Outono de 2001, eles tinham circulado através do Afeganistão, Iraque, Iêmen e no Chifre da África, a um ritmo brutal. Pelo menos três dos SEALs tinha participado na operação Franco-Atirador na costa da Somália que, em abril de 2009, libertou Richard Phillips, o capitão do Maersk Alabama, e deixou três piratas mortos. Em outubro de 2010, uma equipe DEVGRU tentou resgatar Linda Norgrove, uma voluntária escocesa que tinha sido sequestrada no leste do Afeganistão pelos talibãs. Durante um ataque a um esconderijo Taliban, um SEAL jogou uma granada contra um insurgente, não percebendo que Norgrove estava por perto. Ela morreu devido à explosão. O erro afetou gravemente os SEALs que estavam envolvidos, três deles foram posteriormente exonerados do DEVGRU.
O Paquistão não era território desconhecido para esses homens. A equipe já tinha entrado sub-repticiamente no país em dez ou doze ocasiões anteriores, de acordo com um oficial de Operações Especiais profundamente envolvido com o ataque a Bin Laden. A maioria dessas missões foram investidas no Norte e Sul do Waziristão, onde muitos militares e analistas de Inteligência tinha pensado que Bin Laden e outros líderes da Al Qaeda estavam escondidos (apenas uma operação - o ataque a  Angoor Ada, uma vila no sul do Waziristão, em setembro de 2008 foi amplamente divulgado).  Mas Abbottabad era, de longe, a missão que levava o DEVGRU mais para dentro do território paquistanês.
Também representava a primeira tentativa real, desde o final de 2001, de matar Crankshaft, nome código que o Comando Conjunto de Operações Especiais (JSOC em inglês) havia dado a Bin Laden. Desde que ele escapara, naquele inverno, de uma batalha na região de Tora Bora, no Afeganistão, Bin Laden desafiara os esforços feitos para localizá-lo. Até hoje não se sabe como nem porque ele foi morar em Abbottabad.
Quarenta e cinco minutos após os Black Hawks partirem, quatro MH-47 Chinook  partiram da mesma pista em Jalalabad. Dois deles voaram para a fronteira, permanecendo no lado afegão; os outros dois ingressaram no Paquistão. O acréscimo de quatro Chinooks foi uma decisão de última hora feita depois que o presidente Barack Obama disse que queria sentir-se seguro de que os americanos podem "abrir seu caminho para fora do Paquistão." Vinte e cinco SEALs adicionais do DEVGRU, retirados de um Esquadrão estacionado no Afeganistão, ficaram nos Chinooks que permaneceram na fronteira; essa “força de resposta rápida” só entraria em ação se a missão ficasse em perigo. O terceiro e o quarto Chinook estavam equipados com um par de M134 Minigun. Seguiram a rota inicial dos Black Hawks mas aterrissaram em um ponto predeterminado dentro do leito seco de um rio, num largo e muito pouco povoado vale no nordeste do Paquistão. A casa mais próxima ficava a mais de um quilometro. Apesar de estacionados, as hélices continuaram a girar enquanto membros da tropa patrulhavam as colinas ao redor. Um dos Chinooks levava bolsas com combustível para o caso dos outros aparelhos necessitarem de reabastecer seus tanques.
Enquanto isso os dois Black Hawks se aproximavam rapidamente de Abbottabad pelo noroeste, escondidos atrás das montanhas na margem mais ao norte da cidade. De repente, os pilotos voltaram suas aeronaves para a direita e se dirigiram para o sul, que os levava para a zona leste da cidade.
Quando as colinas se transformaram em planície, os pilotos tornaram a se voltar para a direita, em direção ao centro da cidade e iniciaram a descida.
Durante os próximos quatro minutos no interior dos Black Hawks só se ouvia o barulho surdo das metralhadoras sendo carregadas. Mark, o suboficial mais graduado do grupo, dobrou uma perna e se ajoelhou junto à porta aberta do helicóptero líder. Ele e os outros onze SEALs estavam no “helicóptero número 1”, com luvas e óculos de visão noturna e se preparavam para deslizar por cordas até o terreno de Bin Laden. Esperavam o chefe da tripulação dar o sinal para lançar as cordas. Mas quando o piloto sobrevoava o complexo, de repente ficou parado no ar para só então começar a baixar e Mark notou que o Black Hawk descia rápido demais e achou que iam se espatifar no chão.
Um mês antes da eleição presidencial de 2008, Obama, então senador por Illinois, foi a um debate contra John McCain na Universidade Belmont, em Nashville. Uma mulher na platéia perguntou a Obama se ele estaria disposto a perseguir os líderes da Al Qaeda dentro do Paquistão, mesmo que isso significasse invadir uma nação aliada. Ele respondeu: "Se tivermos Osama Bin Laden em nossa mira e o governo paquistanês for incapaz, ou não quiser livrar-se dele, então eu acho que nós temos que agir e vamos buscá-lo. Nós vamos matar Bin Laden. Nós vamos esmagar a Al Qaeda. Que tem que ser a nossa maior prioridade de segurança nacional." McCain, que muitas vezes criticou Obama por sua ingenuidade em assuntos de política externa, caracterizou a promessa como tolice, dizendo: "Eu não vou telegrafar meus socos."
Quatro meses depois de Obama tomar posse, Leon Panetta, Diretor da CIA, informou ao presidente sobre as últimas iniciativas da agência para localizar Bin Laden. Obama não ficou muito impressionado. Em junho de 2009 o Presidente redigiu um memorando para Panetta ordenando que ele elaborasse um “plano operacional detalhado” para localizar o dirigente da Al Qaeda, e “que assegurasse que todos os esforços tinham sido feitos”. O presidente intensificou um programa secreto da CIA, o de aviões não-pilotados; houve mais ataques com mísseis contra o Paquistão no primeiro ano de Obama do que nos oito anos de George W. Bush. Os terroristas logo notaram a diferença. Um comunicado da Al Qaeda interceptado e transmitido pela CBS relatava que a situação estava séria e culpava “espiões que tinham se espalhado pela terra como gafanhotos”. Apesar disso, Bin Laden continuava em local ignorado.
Em agosto de 2010, Panetta voltou com melhores notícias. Os analistas da CIA acreditavam ter identificado o correio de Bin Laden, um homem de trinta e poucos anos chamado Abu Ahmed al-Kuwaiti. Ele dirigia uma caminhonete de tração 4x4 cujo estepe tinha uma capa onde se via a imagem de um rinoceronte branco. A CIA começou a seguir sua pista. Um dia, um satélite capturou imagens da caminhonete entrando em um grande complexo de concreto, em Abbottabad. Os agentes, convencidos que Kuwaiti morava ali, passaram a vigiar o complexo com artefatos aéreos e viram que ele era formado por uma casa principal com três andares, uma casa de hóspedes e vários edifícios auxiliares. Observaram que os moradores  queimavam o lixo em vez de deixá-lo para a coleta regular e também que o local não possuía nem telefone nem internet. Kuwaiti e seu irmão iam e vinham mas um outro homem que morava no terceiro andar nunca saia lá de cima. Quando arriscava sair era para se mover dentro dos muros do complexo. Alguns analistas especularam que o terceiro homem poderia ser Bin Laden e a agência o apelidou de Caminhante.
Obama se entusiasmou com as notícias, mas ele ainda não estava preparado para agir. John Brennan, seu assessor para assuntos de contra terrorismo, me contou que os conselheiros do presidente examinaram os dados para ver se “podiam refutar a teoria de que Bin Laden estava ali”. A CIA redobrou esforços e de acordo com informações recentes do The Guardian, um médico que trabalhava para eles iniciou uma campanha de imunização em Abbottabad com esperanças de encontrar amostras do DNA dos filhos de Bin Laden (na verdade, ninguém no complexo foi vacinado).
Ao terminar o ano de 2010, Obama ordenou que começassem a explorar as opções de uma ação militar. Panetta contactou o Vice-Almirante Bill McRaven, o SEAL que comandava a JSOC. Tradicionalmente, o Exército é quem controla as comunidades de Operações Especiais, mas nos últimos anos os SEALs têm tido uma presença maior: o chefe de McRaven por ocasião da incursão, Eric Olson – Comandante do Comando de Operações Especiais, SOCOM em inglês – é um Almirante que já comandou o DEVGRU. Em janeiro de 2011, McRaven pediu a um oficial do JSOC chamado Brian, que havia sido Sub-Comandante do DEVGRU, que lhe apresentasse um plano. No mês seguinte, Brian, o típico americano que parece ser o capitão do time do ginásio, se instalou numa sala sem identificação no primeiro andar da área de impressoras da CIA em Langley (Virginia) e cobriu as paredes de mapas topográficos e imagens de satélite do complexo de Abbottabad. Ele e mais seis oficiais do JSOC foram formalmente nomeados para o Departamento de Contra Terrorismo da CIA voltado para o Paquistão e o Afeganistão, mas na prática não tinham que prestar contas a ninguém. Um alto oficial do departamento numa visita ao JSOC descreveu a sala como um enclave de extrema discrição e sigilo. “Todo o trabalho ali era muito bem guardado”, foi o que ele disse.
A relação entre as unidades de Operações Especiais e a CIA data da guerra do Vietnã. Mas o limite entre os dois grupos foi se esfumando cada vez mais à medida que os agentes da agência e os militares passaram a se encontrar amiúde em missões no Iraque e no Afeganistão. “Temos uma relação muito íntima, falamos e compreendemos a mesma língua” disse um oficial graduado do Departamento de Defesa. (Exemplo dessa tendência é o fato do General David H. Petraeus, antigo Comandante em Chefe das forças no Iraque e no Afeganistão, ser o atual Diretor da CIA, enquanto Panetta assumiu o Departamento de Defesa). A missão Bin Laden, preparada no Quartel-General da CIA e autorizada por seus estatutos legais, foi conduzida por militares da Marinha (DEVGRU) e intensificou mais ainda a cooperação entre a agência e o Pentágono. John Radsan, que fez parte do grupo de advogados da CIA, disse queo assalto a Abbottabad resultou na incorporação do JSOC a uma operação da CIA”.
No dia 14 de março, Obama convocou seus conselheiros de Segurança Nacional à Sala de Crise da Casa Branca e reviu o quadro que mostrava as possíveis ações contra o complexo de Abbottabad. Todas eram variantes de um mesmo modelo: uma operação da JSOC ou um ataque aéreo. Em algumas versões havia a proposta de cooperação com o Exército paquistanês; em outras, não pedir sua colaboração. “Não se acreditava que os paquistaneses pudessem manter esse segredo mais que um nanosegundo”, disse um alto conselheiro do presidente. Ao final do encontro, Obama instruiu McRaven a continuar com o planejamento do ataque.
Brian convidou James, chefe do Esquadrão Vermelho do DEVGRU e Mark, o mais graduado suboficial para irem ao Quartel-General da CIA. Passaram as duas semanas e meia seguintes buscando formas de entrar na casa. Uma opção era voar até os arredores de Abbottabad e depois fazer o grupo entrar a pé na cidade. Mas o risco de detecção era alto e os SEALs ficariam cansados depois de correr uma boa distância até o complexo. Pensaram em cavar um túnel para entrar na casa ou na possibilidade de Bin Laden ter sido ajudado a cavar um para fugir. Mas as imagens de satélite mostravam que aquela região estava sobre água represada, o que sugeria que o conjunto fora construído sobre um banhado. Por isso os tuneis estavam fora de cogitação. Finalmente, todos concordaram que voar era a melhor solução. “Nosso trabalho consiste em fazer o inesperado e é provável que o que menos se espera é que um helicóptero deixe cair alguns homens no telhado e aterrisse no quintal”, disse o oficial das Operações Especiais.
Em 29 de março McRaven apresentou o plano a Obama. Os assessores militares do presidente ficaram divididos. Alguns preferiam um assalto; outros, um ataque aéreo e outros preferiam esperar por mais dados. Robert Gates, o Secretário de Defesa, foi um dos opositores mais declarados a um ataque de helicóptero. Gates lembrou aos seus colegas que ele tinha estado na Sala de Crise da Casa Branca no governo Carter quando as autoridades militares apresentaram o projeto Garra de Águia em 1980, a operação da Força Delta que visava resgatar reféns americanos em Teerã, mas resultou em uma colisão desastrosa no deserto iraniano, matando oito soldados americanos. "Eles disseram que era uma boa ideia, também," advertiu Gates. Ele e o General James Cartwright, vice-presidente do Estado Maior, eram favoráveis a atacar com bombardeiros B-2 Spirit. Isso evitava o risco de colocar soldados americanos em território paquistanês. Mas a Força Aérea calculou que seriam necessárias 32 bombas inteligentes, cada uma com 1.000 Kg, para penetrar 10 metros abaixo da terra e assegurar a destruição de qualquer bunker. A perspectiva de arrasar uma cidade paquistanesa fez Obama afastar a ideia de um bombardeio e ele instruiu McRaven a planejar a incursão.
Brain, James e Mark começaram a selecionar uma equipe dentre as dezenas de SEALs do Esquadrão Vermelho e disseram a eles que se apresentassem em uma localidade densamente arborizada na Carolina do Norte para um exercício no dia 10 de abril (o Esquadrão Vermelho é um dos quatro que compõem o DEVGRU, que conta com uns trezentos agentes).
Nenhum dos SEALs, além de James e Marcos, estavam cientes do trabalho da CIA sobre o complexo de Bin Laden até que um tenente entrou no escritório. Ele encontrou um General de duas estrelas do Exército, da  JSOC, sentado em uma mesa de conferência com Brian, James, Mark, e vários analistas da CIA Isso obviamente não era um exercício de treinamento. O tenente foi prontamente posto a par do que ocorria. Uma réplica do composto tinha sido construído no local, com paredes e tela de arame marcando o layout do complexo. A equipe passou os próximos cinco dias praticando manobras.
No dia 18 de abril a patrulha do DEVGRU foi para Nevada para outra semana de treinamento. Praticaram numa grande área do deserto, propriedade do governo, de tamanho equivalente ao terreno de Abbottabad. Lá havia uma edificação que podia servir como “casa de Bin Laden”. As tripulações dos helicópteros prepararam uma rota similar a que fariam entre Jalalabad e Abbottabad. Ao entardecer, começavam a treinar: voavam no escuro, chegavam ao falso complexo e aguardavam enquanto os SEALs desciam pelas cordas. Nem todos estavam acostumados. Ahmed, por exemplo, foi tirado de uma escrivaninha, nunca tinha deslizado por uma corda. Mas logo aprendeu a técnica.
O plano foi sendo refinado. O helicóptero 1 sobrevoaria o pátio e 12 SEALs desceriam pelas cordas até o quintal. O número dois voaria até a próxima esquina e deixaria Ahmed, Cairo e quatro SEALs descerem para vigiar o perímetro em torno da casa. Depois a aeronave sobrevoaria a casa e deixaria os outros seis SEALs descerem em cima do telhado. Ahmed manteria os vizinhos curiosos à distância. Se houvesse necessidade "Cairo" e os SEALs ajudariam de forma mais agressiva. Se não encontrassem Bin Laden, fariam "Cairo" procurar paredes falsas ou portas ocultas. Não era uma operação difícil”, disse o oficial de Operações Especiais.  "Seria como atingir um alvo em McLean", Virginia, subúrbio chique de Washington, DC.
Na noite de 21 de abril eles receberam um avião cheio de convidados. O Almirante Mike Mullen, Chefe do Estado Maior se reuniu com Olson, McRaven e o pessoal da CIA em um hangar onde Brian, James, Mark e os pilotos lhes explicaram a missão, denominada Lança de Netuno. Apesar do papel fundamental do JSOC a missão era oficialmente uma operação secreta da CIA. O sigilo permitiria que a Casa Branca ocultasse seu papel, caso viesse a ser necessário. Como um Oficial de Contraterrorismo disse recentemente, "Se você chega e toda a gente está alerta, então você dá o fora e ninguém fica sabendo". Depois de descrever a operação, os instrutores responderam a perguntas como: E se uma multidão cercar o composto ? Foram os SEALs preparados para atirar em civis? Olson, que recebeu a medalha Estrela de Prata por mérito durante o episódio "Black Hawk Down" em 1993, em Mogadicio, na Somália, temia que poderia ser politicamente catastrófico se um helicóptero dos EUA fosse derrubado dentro do território paquistanês. Depois de quase uma hora de interrogatório, os Oficiais seniores e analistas de Inteligência retornaram a Washington. Dois dias depois, os SEALs voaram de volta para Dam Neck, sua base na Virgínia.
Na terça-feira 26 de abril os SEALs embarcaram num Boeing C-17 Globemaster numa Base Aérea da Marinha próxima a Dam Neck. Depois de uma escala em Ramstein, na Alemanha, para reabastecimento, continuaram o voo até o aeroporto de Bagram, ao norte de Kabul. Os SEALs passaram uma noite em Bagram e se deslocaram para Jalalabad na quarta-feira.
Em Washington, Panetta perguntou aos assistentes que garantia tinham de que Bin Laden estava em Abbottabad. O agente especializado em contra terrorismo respondeu: “de 40 a 90 ou 95%”
Panetta estava consciente das dúvidas dos analistas mas achava que as informações eram as melhores obtidas sobre Bin Laden desde o episódio de Tora Bora. No meio da tarde de quinta-feira, Panetta e o restante da equipe de Segurança Nacional se reuniram com o presidente. Durante algumas noites não ia haver luar sobre Abbottabad, condição ideal para um assalto. Teriam que esperar outro mês até o ciclo lunar entrar na mesma fase. Muitos outros analistas do Centro Nacional de Antiterrorismo expressaram sua opinião: a confiança nos dados da CIA ia de 40 a 60%. O diretor, Michael Leiter, achava que seria melhor esperar até terem uma certeza maior da presença de Bin Laden na casa. No entanto, todos eram unânimes que quanto mais adiassem a operação, maior o risco de vazamento o que “desbarataria todo o plano”. Já passava das sete da noite quando Obama encerrou a reunião. Ia pensar.
Na manhã seguinte Obama se reuniu na Sala dos Mapas com seus conselheiros para assuntos de Segurança Nacional. Tinha se decidido pelo assalto e queria que McRaven escolhesse a noite. Já estava tarde para um ataque naquela sexta-feira e para o sábado a previsão era de muitas nuvens. Na tarde de sexta McRaven e Obama se falaram ao telefone e McRaven disse ao presidente que a ação seria executada no domingo à noite. “Deus acompanhe vocês. Por favor transmita meus agradecimentos pessoais a todos e diga-lhes que vou acompanhar a missão minuto a minuto”.
Na manhã de domingo, 1º de maio, o pessoal da Casa Branca cancelou visitas agendadas, encomendou sanduíches e transformou a Sala de Crise numa Sala de Comando. Às 11 horas os assessores de Obama começaram a se reunir em volta de uma mesa e criaram um link com Panetta, nos escritórios da CIA, e com McRaven, no Afeganistão (havia ao menos dois outros centros de comando, um dentro do Pentágono e outro na Embaixada Americana, em Islamabad).
A Sala de Comando tinha a única tela da Casa Branca com imagens on line, em tempo real, tomadas pelo avião não-tripulado RQ170 que sobrevoava Abbottabad a mais de 5.000 mil metros de altura. Os estrategistas do JSOC decidiram guardar o maior segredo possível e preferiram não usar aviões de combate ou bombardeiros. Os SEALs estavam sozinhos.
Obama voltou para a Casa Branca às duas em ponto, depois de uma partida de golf na Base Aérea de Andrews. Os Black Hawks sairam de Jalalabad 30 minutos depois. Um pouco antes das quatro, Panetta anunciou para o grupo na Sala de Crise que os helicópteros se aproximavam de Abbottabad. Obama se pôs de pé. “Preciso ver isso” e cruzou o corredor para ir até o pequeno escritório e sentar ao lado de Webb. O vice-presidente Joseph Biden, a Secretária de Estado Hillary Clinton e o Secretário Gates o seguiram. Na tela LSD de tamanho modesto aparecia o helicóptero 1 acima do complexo e logo em seguida, aconteceu o inesperado.
Quando o piloto percebeu que o helicóptero escapava ao seu controle, acionou a peça que controla a velocidade das hélices para descobrir que a aeronave não obedecia. Os altos muros do complexo e as altas temperaturas fizeram com que o Black Hawk entrasse em um fluxo descendente causado por sua própria hélice, uma situação aerodinâmica perigosa conhecida como “settling with power” ou seja, o que ocasiona uma queda em espiral. Na Carolina do Norte não houve esse problema porque o alambrado utilizado como muro do complexo fictício permitia a livre circulação de ar. Um velho piloto de helicópteros, com ampla experiência, explica assim a situação de quem está no comando: “É apavorante, já me vi nessa situação, e a única forma de superar o problema é empurrar o acelerador de rotações para a frente e sair do silo vertical que se formou e dentro do qual você está. Mas aí faz falta altitude. Se estás a 700 metros do solo, tens tempo. Se estás a 16 metros, a queda é certa”.
O piloto abandonou o plano de soltar as cordas e se concentrou em aterrissar. Procurou um curral que havia a oeste do complexo. Os SEALs a bordo se seguraram enquanto a cauda do rotor girava e fazia a aeronave arranhar o muro do curral. O piloto baixou o nariz da aeronave para enfiá-lo no barro e assim impedir que a aeronave tombasse de lado. Vacas, galinhas e coelhos corriam de cá pra lá, alvoroçados. Com o Black Hawk estatelado num ângulo de 45 graus numa parede, a tripulação enviou mensagem de ajuda para os Chinooks que estavam parados nas proximidades.
James e os SEALs no helicóptero dois assistiam isso tudo enquanto sobrevoavam a esquina a nordeste do complexo. O segundo piloto, sem saber se seu colega fora atingido ou se estava com problemas mecânicos, abandonou seu plano de sobrevoar o telhado da casa. Em vez disso, aterrissou num campo gramado do outro lado da rua, em frente à casa.
Nenhum americano entrara no complexo ainda. Mark e sua equipe estavam dentro de um helicóptero avariado em um canto enquanto James e seu grupo estavam do lado oposto. Os dois grupos estiveram em cima do alvo por menos de um minuto e a missão já estava desviando da rota.
 “A eternidade é definida como o tempo entre o momento em que você vê que alguma coisa deu errado e a primeira mensagem de viva voz chegar”. Em Washington todos olhavam para a tela e esperavam ansiosamente por um comunicado militar. Alguém disse que o Presidente comparou a situação como se estivessem assistindo ao  "clímax de um filme".
Depois de alguns minutos, os doze SEALs dentro do helicóptero recuperaram o controle e transmitiram pelo rádio que estavam dando prosseguimento ao ataque. Tinham tomado parte em tantas operações nos últimos nove anos que poucas coisas os pegavam desprevenidos. Nos meses que se seguiram ao ataque, a imprensa frequentemente sugeriu que a operação Abbottabad foi tão desafiadora quanto a operação Garra de Águia ou o incidente do Black Hawk abatido, mas um alto funcionário do Departamento de Estado me disse que essa não foi uma das três missões mais difíceis. Essa foi uma das mais de duas mil missões conduzidas durante os últimos dois anos, noite após noite”. Ele comparava essa rotina à rotina de “aparar a grama”. Naquela mesma noite, as forças de Operações Especiais baseadas no Afeganistão tinham participado de outras doze missões; de acordo com dados oficiais, essas operações capturaram ou mataram entre quinze e vinte alvos. “A maioria das operações segue numa direção e pronto. Esta mudou de direção”.
Minutos após bater no chão, Mark e os outros membros do grupo começaram a sair pelas portas laterais do helicóptero 1. As botas se enterravam na lama enquanto eles corriam ao longo do muro de três metros que cercava o curral. Três homens da equipe de demolição se aproximaram do portão de metal trancado e puseram explosivos nas dobradiças. O portão foi abaixo com um estrondo. Os outros nove SEALs correram para fora e deram numa pequena viela nos fundos da casa, do outro lado da entrada principal. Seguiram em frente, os rifles pressionando os ombros. Mark era o último da fila pois se comunicava com o outro grupo. No fim da viela os americanos explodiram outro portão trancado e entraram num pátio que ficava em frente à casa de hóspedes, onde Abu Ahmed al-Kuwaiti, o correio de Bin Laden, vivia com sua mulher e quatro crianças.
Três SEALs correram para esvaziar a casa de hóspedes enquanto os outros nove explodiam outro portão e entravam num pátio interno defronte à casa principal. Quando o grupo menor virou a esquina, eles viram Kuwaiti entrar correndo para avisar sua mulher e filhos e logo em seguida sair com uma arma na mão. Eles abriram fogo e o mataram.
Os outros nove SEALs, entre eles Mark, formaram grupos de três para examinar o pátio interno já que eles acreditavam que na casa ainda estavam outros homens: o irmão de Kuwaiti, Abrar, de 33 anos; dois filhos de Bin Laden, Hamza e Khalid e o próprio Bin Laden. Quando os SEALs acabaram de atravessar o pátio em direção à entrada da frente, Abrar, um homem forte e armado com um AK-47, saiu pela porta principal. Eles dispararam e o mataram, assim como sua mulher, Bushra, que estava em pé, sem arma alguma, ao lado do marido.
Fora dos muros do complexo Ahmed, o tradutor, patrulhava a estrada de terra em frente à casa de Bin Laden, como se fosse um oficial da polícia paquistanesa em roupas civis. Ele, "Cairo", e quatro SEALs tinham como missão fechar aquela entrada da casa enquanto James e os outros SEALs – o grupo que deveria ter saltado em cima do telhado – se movimentava lá dentro. Para o grupo que patrulhava a rua, os primeiros quinze minutos correram sem incidentes. Os vizinhos sem dúvida ouviram o ruído dos helicópteros voando baixo, o som de um se estatelando, as explosões para derrubar portões, e os tiros que se seguiram, mas ninguém saiu de casa. Um morador local registrou o tumulto numa mensagem pelo Twitter: “Helicóptero sobrevoando Abbottabad a uma da manhã (fato raro)”.
Eventualmente, um grupo de paquistaneses se aproximou para perguntar o que é que estava acontecendo do outro lado do muro. “Voltem para suas casas”, lhes disse Ahmed, com "Cairo" a seu lado, alerta. “É uma operação de segurança”. Os moradores voltaram para suas casas, nenhum deles suspeitando que tinham falado com um americano. Quando os jornalistas chegaram em Bilal nos dias que se seguiram, um morador contou: “Vi que de um helicóptero saiam alguns soldados e que entravam na casa. Muitos deles nos ordenaram em pastúm que apagássemos as luzes e que ficássemos dentro de casa”.
O Chefe do Esquadrão, James, depois de transpor um muro, cruzar uma parte do pátio coberta com treliças, cruzou outro muro e se juntou aos SEALs do helicóptero número 1 que estavam entrando no térreo da casa. O que aconteceu a seguir não ficou muito claro. “Posso dizer a vocês que houve um intervalo de vinte ou vinte e cinco minutos em que nós ficamos sem saber exatamente o que se passava”, disse Panetta mais tarde, num programa da rede PBS, News Hour.
Até esse momento a operação estava sendo monitorada por dúzias de oficiais da defesa, da Inteligência e do governo graças às imagens transmitidas pelo avião não-tripulado. Os SEALs não usavam capacetes com câmeras, ao contrário do que disse uma reportagem da CBS. Nenhum deles tinha ideia de como era a planta do térreo e estavam muito envolvidos com o fato de saber que estavam prestes a acabar com a perseguição mais cara da história dos EUA; por isso pode ser que algumas recordações – nas quais este relato se baseia – sejam pouco precisas e sujeitas a controvérsias.
Enquanto os filhos de Abrar corriam, os SEALs revistavam a planta da casa principal, cômodo por cômodo. Apesar dos americanos terem previsto a possibilidade de que houvesse alguma armadilha explosiva, a presença de crianças correndo dizia o contrário. “Há um limite para quão vigilantes podemos ser. Bin Laden ia se deitar todas as noites pensando que poderíamos aparecer? Claro que não. Talvez nos dois primeiros anos, mas agora não”. Não obstante, havia nítidas medidas de precaução; uma porta de metal trancada impedia o acesso à escada que levava ao segundo andar, o que fazia a sala do primeiro andar parecer uma jaula.
Os SEALs explodiram mais essa porta e subiram as escadas. A meio caminho viram Khalid, um dos filhos de Bin Laden, “espichando o pescoço para nos ver”. Logo em seguida ele apareceu no alto da escada com um AK-47. Khalid, de camiseta branca, com os cabelos curtos, barba bem aparada, atirou nos americanos (Os contra terroristas dizem que Khalid estava desarmado, mas esse relato deve ser levado a sério: “Um jovem adulto do sexo masculino, no meio da noite, desce a escada em direção a vocês numa casa que pertence a Al Qaeda – você presume que essa é uma pessoa hostil”). Ao menos dois SEALs atiraram de volta e mataram Khalid. De acordo com folhetos que os SEALs carregavam, devia haver cinco adultos do sexo masculino no complexo. Três já estavam mortos; o quarto, o filho de Bin Laden chamado Hanza, não estava em casa. Faltava Bin Laden.
Antes da missão começar os SEALS criaram uma lista de palavras em código que tinha como tema o índio americano. Cada código representava um estagio diferente da missão: deixar Jalalabad, entrar no Paquistão, se aproximar do complexo, e por aí em diante. “Gerônimo” significaria que Bin Laden fora encontrado
Três SEALs passaram pelo corpo de Khalid e estouraram outra porta de metal, a que impedia o acesso ao terceiro andar. Subiram as escadas escuras e examinaram o primeiro patamar. No andar de cima o primeiro SEAL dobrou à direita; com os óculos de visão noturna viu um homem alto e magro, de barba, que o olhava da porta de um cômodo, a três metros de distância. O SEAL percebeu de imediato que esse era “Crankshaft”. O responsável pelo Departamento de Antiterrorismo diz que o SEAL viu Bin Laden desde o patamar e atirou, mas que errou.
Os americanos correram para a porta do quarto. O primeiro SEAL a abriu com um empurrão. Duas das mulheres de Bin Laden se colocaram diante dele. Amal al-Fatah, sua quinta mulher, gritava em árabe. Fez um movimento como se fosse atacar; o SEAL baixou o cano e disparou em direção à perna dela. Temendo que uma delas usasse coletes carregados de explosivos, ou as duas, ele se aproximou e deu-lhes um abraço de urso. Claro que se elas estivessem usando uma coisa dessas e a detonassem, ele estaria morto, mas teria absorvido parte do impacto e salvado os outros dois SEALs que vinham atrás dele. Nenhuma delas tinha explosivos.
Um segundo SEAL entrou no quarto e apontou o laser infravermelho de seu M4 no peito de Bin Laden . O chefe da Al Qaeda, que usava um shalwar kameez bege e um gorro de oração, ficou petrificado: ele estava desarmado. “Nunca houve a hipótese de detê-lo ou capturá-lo – não foi uma decisão do momento. Ninguém queria prisioneiros”, me disse o oficial das Operações Especiais (o governo americano mantém até agora que se Bin Laden tivesse se entregado, podia ter sido detido, vivo). Nove anos, sete meses e vinte dias depois do 11 de setembro, um americano estava a uma pressão de seu gatilho para acabar com a vida de Bin Laden. A primeira bala, de 5.56mm, pegou-o no peito. A segunda, na cabeça, acima do olho esquerdo. Em seu rádio ele transmitiu: “For God and country, Geronimo, Geronimo, Geronimo”. Depois de uma pausa, disse: “Geronimo E.K.I.A (enemy killed in action) = "Por Deus e pelo país, Gerônimo, Gerônimo, Gerônimo - E.K.I.A (inimigo morto em combate)".
Ao ouvir isso na Casa Branca, Obama franziu os lábios e disse solene, para ninguém em especial: “Nós o pegamos”.
Relaxando o controle sobre as duas mulheres de Bin Laden, o primeiro SEAL colocou algemas nas duas e levou-as para baixo. Dois de seus colegas, nesse meio tempo, subiram as escadas com um saco de nylon. Colocaram o corpo de Bin Laden dentro do saco. Tinham se passado dezoito minutos desde a chegada da equipe do DEVGRU. Pelos próximos vinte minutos a missão se transformou em coleta de dados.
Quatro homens vasculharam o segundo andar, sacos de plástico na mão, recolhendo flash drives, CDs, DVDs, e hardware de computador da sala, que serviu, em parte, como estúdio improvisado de Bin Laden. Nas próximas semanas, uma força-tarefa da CIA analisou os documentos e determinou que Bin Laden tinha permanecido muito mais envolvidos nas atividades operacionais da Al Qaeda do que muitos oficiais americanos tinha pensado. Ele tinha desenvolvido planos para assassinar Obama e Petraeus em comemoração do 11º aniversário do ataque a Nova Iorque, e para atacar  trens americanos. Os SEALs também encontraram um arquivo de pornografia digital. "Nós encontramos isto com esses caras em todos os lugares, se eles estão na Somália, no Iraque ou Afeganistão", disse um oficial de Operações Especiais. As vestes douradas que Bin Laden usava durante seus vídeos estavam penduradas atrás de uma cortina na sala de mídia.
Lá fora, os americanos reuniram as mulheres e crianças e as colocaram sentadas contra o muro não danificado pelo Black Hawk. Um soldado fluente em árabe da equipe de assalto os interrogou. Quase todas as crianças tinham idade menor que dez anos. Eles pareciam ter nenhuma ideia sobre o inquilino do andar de cima, além de que ele era "um velho." Nenhuma das mulheres confirmou que o homem era Bin Laden, apesar de uma delas ter se referido a ele como "o sheik". Quando os Chinook de resgate finalmente chegaram, um médico saiu e ajoelhou-se sobre o cadáver. Ele injetou uma agulha no corpo de Bin Laden e extraiu duas amostras de medula óssea. Mais DNA foi tomado com cotonetes. Um grupo de amostras viajou no Black Hawk e outro foi no Chinook junto com o corpo.
Ainda precisavam destruir o helicóptero danificado. O piloto, armado com um martelo que tinha para casos assim, destroçou o painel de instrumentos, o rádio e os demais dispositivos secretos da cabine. Então a unidade de demolição chegou. Eles colocaram explosivos junto ao sistema de aviônicos, o equipamento de comunicações, o motor, e a cabeça do rotor. "Você não vai esconder o fato de que é um helicóptero. Mas você deve torná-lo inutilizável." Os SEALs colocaram cargas extras de explosivo C-4 sob a carenagem, jogaram granadas de thermite dentro do  helicóptero, e ele explodiu em chamas enquanto a equipe de demolição embarcou no Chinook. As mulheres e crianças, que foram deixadas para trás para as autoridades paquistanesas, ficaram confusas, assustadas e chocadas vendo os SEALs a bordo dos helicópteros. Amal, a mulher de Bin Laden, continuou sua arenga. Então, com um incêndio enorme queimando dentro do complexo, os norte-americanos voaram para longe.
Na Sala de Combate, Obama disse: “Só vou me sentir bem quando esses caras saírem de lá em segurança”. Depois de exatamente trinta e oito minutos dentro do complexo, os dois grupos de SEALs ainda tinham que enfrentar o longo voo de volta ao Afeganistão. O Black Hawk estava com o tanque baixo e precisava reabastecer. Para isso tinha que ir até o Chinook perto da fronteira afegã, mas ainda dentro do Paquistão. Reabastecer levou vinte e cinco minutos.  Num dado momento, Joe Biden, com um rosário nas mãos, disse a Mullen, o Chefe do Estado Maior: “Nós todos devíamos ir à missa hoje”.
Os helicópteros aterrissaram em Jalalabad cerca de 3 da manhã; McRaven e o chefe da agência local da CIA estavam à espera da equipe na pista. Dois SEALs abriram o saco de nylon para que McRaven e o agente da CIA pudessem ver o cadáver de Bin Laden com seus próprios olhos. Fotografias foram tiradas do rosto de Bin Laden e de seu corpo estendido. Um SEAL que media 1m80 se esticou ao lado cadáver já que não havia fita métrica à mão. Bin Laden tinha mais ou menos 10 cm a mais que o americano. Minutos depois, McRaven apareceu na tela de teleconferência da Sala de Crise e confirmou que o corpo de Bin Laden estava no saco. O cadáver foi enviado para Bagram.
Desde o inicio os SEALs pretendiam jogar o corpo no mar, uma forma definitiva de acabar com o mito Bin Laden. Já haviam feito isso com um dos principais dirigentes da Al Qaeda na África. Durante um ataque do DEVGRU na Somália, em setembro de 2009, os SEALs havia matado Saleh Ali Saleh Nabhan, um dos líderes da Al Qaeda na África Oriental; o cadáver de Nabhan foi então levado para um navio no Oceano Índico,  lá lhe administraram os ritos muçulmanos e o lançaram ao mar. Antes de fazer o mesmo com Bin Laden, John Brennan deu um telefonema. Ele fora chefe da agência em Riad. Chamou um antigo colega de trabalho e contou o que ocorrera em Abbottabad e qual o plano. Mas antes queria saber se a família de Osama Bin Laden, ou o governo saudita, estavam interessados em recuperar o cadáver. "O seu plano parece uma boa", foi a resposta.
Ao amanhecer do dia carregaram o corpo de Bin Laden para um avião V-22 Osprey acompanhado de um oficial da JSOC e de uma patrulha da Polícia Militar. O Osprey voou para o sul, destinado ao convés do USS Carl Vinson um porta-aviões nuclear que navegava no Mar da Arábia, na costa paquistanesa. Os americanos, mais uma vez, estavam prestes a atravessar do espaço aéreo do Paquistão sem permissão. Alguns funcionários temiam que os paquistaneses, tocados pela humilhação do ataque unilateral em Abbottabad, pudessem restringir o acesso do Osprey. O avião finalmente pousou no Vinson sem incidentes.
Nesse navio lavaram o corpo de Bin Laden, o envolveram numa mortalha branca, pesaram e colocaram em uma bolsa. “Todo o procedimento obedeceu aos mais rígidos princípios do Islã”, disse Brennan. Levaram o corpo por um elevador ao ar livre para o andar do hangar dos aviões e de lá, a uns sete ou oito metros sobre as ondas, jogaram o corpo na água.
De volta em Abbottabad, os moradores do bairro Bilal e dezenas de jornalistas convergiram para o complexo de Bin Laden, e à luz da manhã foram esclarecidas algumas das confusões da noite anterior. A fuligem preta do Black Hawk destruído marcava a parede do curral. Parte da cauda restava pendurada por cima do muro. Ficou claro que um ataque militar tinha acontecido lá. "Estou contente por ninguém ter ficado ferido no acidente, mas, por outro lado, foi com uma espécie de prazer que deixamos lá o helicóptero", disse o oficial de Operações Especiais. "Ele abafa as teorias de conspiração e imediatamente dá credibilidade. Você acredita em tudo instantaneamente, por que há um helicóptero caído lá."
Após o ataque, a liderança política do Paquistão se envolveu em um controle de danos frenético. No Washington Post, o presidente Asif Ali Zardari escreveu que Bin Laden "não morreu em qualquer lugar que tínhamos previsto que ele morreria, mas agora ele se foi", acrescentando que "uma década de cooperação e parceria entre os Estados Unidos e o Paquistão levaram à eliminação de Osama Bin Laden.".
Oficiais militares paquistaneses reagiram mais cinicamente. Eles prenderam pelo menos cinco paquistaneses por ajudar a CIA, incluindo o médico que executou a campanha de imunização em Abbottabad. E vários órgãos de imprensa paquistaneses, incluindo o Nação, um jornal "patrioteiro" em língua inglesa considerado um porta-voz da agência de inteligência do Paquistão - Inter-Services, ou ISI - publicou o que eles alegam ser o nome do chefe da estação da CIA em Islamabad. (Shireen Mazari, ex-editor do Nação, me disse: "Nossos interesses e os interesses americanos não coincidem.") O nome publicado era incorreto, o agente da CIA optou por permanecer na área.
A proximidade da casa de Bin Laden com a Academia Militar do Paquistão sugeriu a possibilidade de que o Exército ou o ISI o houvessem protegido. Como era possível ele morar tão perto e ninguém saber? A suspeita cresceu depois que o New York Times informou que pelo menos um telefone celular recuperado da casa Bin Laden continha contatos de altos militantes, pertencentes a Harakat-ul-Mujahideen, um grupo jihadista que teve laços estreitos com a ISI. Embora as autoridades americanas afirmassem que as autoridades paquistanesas devem têm ajudado a esconder Bin Laden em Abbottabad, nenhuma prova definitiva foi apresentada.
A morte de Bin Laden deu à Casa Branca a vitória simbólica que necessitava para retirar suas tropas do Afeganistão. Sete semanas mais tarde, Obama anunciou um cronograma para a retirada. Mesmo assim, as atividades de Contraterrorismo dos EUA dentro do Paquistão, isto é, Operações Secretas conduzidas pela CIA e JSOC não devem diminuir tão cedo. Desde 02 de maio de 2011, houve mais de vinte ataques aéreos no Norte e no Sul do Waziristão, incluindo um que supostamente matou Ilyas Kashmiri, um alto líder da Al Qaeda, enquanto ele estava tomando chá em um pomar de maçã.
O sucesso do ataque a Bin Laden provocou um tema dentro de círculos militares e de inteligência: existem outros terroristas vale o risco de outro ataque de helicóptero em uma cidade do Paquistão? "Há pessoas lá fora que, se pudéssemos encontrá-los, gostaríamos de ir atrás deles", disse Cartwright. Ele mencionou Ayman al-Zawahiri, o novo líder da Al Qaeda, que se acredita estar no Paquistão, e Anwar al-Awlaki, o clérigo norte-americano nascido no Iêmen. Cartwright enfatizou que "ir atrás deles" não significa necessariamente um outro ataque DEVGRU. O oficial de Operações Especiais falou com mais ousadia. Ele acredita que um precedente foi criado para mais invasões unilaterais no futuro. "As pessoas agora se dão conta que isso pode ocorrer", disse ele. O assessor do presidente disse que "penetração no espaço aéreo de outros países soberanos secretamente é algo que está sempre disponível para o cumprimento de uma missão com sucesso certo." Brennan disse-me: "A confiança que temos na capacidade das Forças Armadas dos EUA está, sem dúvida, ainda mais forte após esta operação."
No dia 6 de maio a Al Qaeda confirmou a morte de Bin Laden e fez publicar uma declaração em que felicitava a “nação islâmica” pelo “martírio de seu bom filho Osama”. Os autores prometiam aos americanos que “sua alegria se transformaria em tristeza e suas lágrimas se misturariam com sangue”. Nesse mesmo dia, o presidente Obama foi para o Forte Campbell (Kentucky), onde fica a base do 160º Regimento, para conhecer os membros do DEVGRU e os pilotos que levaram a cabo aquela missão. Os SEALs tinham regressado do Afeganistão uns dias antes e ido para a Virginia. Biden, Tom Donilon e uma dúzia de assessores da Segurança Nacional os acompanharam.
McRaven recebeu Obama na pista. Haviam se conhecido poucos dias antes e Obama tinha dado a McRaven uma fita métrica. Foram todos para um salão sem janelas, com luzes fluorescentes e três fileiras de cadeiras dobráveis ​​de metal. McRaven, Brian, os pilotos do 160º e James informaram sobre suas ações ao  Presidente. Eles tinham criado um modelo tridimensional do complexo de Bin Laden no chão e, com um apontador laser vermelho, mostraram suas manobras lá dentro. A imagem de satélite do complexo foi exibido em uma parede, junto com um mapa mostrando as rotas de voo dentro e fora do Paquistão. O briefing durou cerca de 35 minutos. Obama queria saber como Ahmed tinha mantido moradores à distância, também perguntou sobre o Black Hawk que caiu e se as temperaturas acima da média em Abbottabad haviam contribuído para o acidente (o Pentágono está conduzindo uma investigação formal do acidente).
Quando James, o Comandante do Esquadrão, falou, começou citando todas as Bases de Operações avançadas no leste do Afeganistão que foram nomeadas por SEALs mortos em combate. "Tudo o que fizemos nos últimos 10 anos nos preparou para isso", disse a Obama. O presidente estava "no temor desses caras", Ben Rhodes, o vice-conselheiro de segurança nacional, que viajou com Obama, disse. "Foi uma visita extraordinária à Base", acrescentou. "Eles sabiam que ele tinha apostado sua Presidência sobre o assunto. Ele sabia que eles apostaram suas vidas nele"
Ao falar sobre o ataque, James mencionou o papel de Cairo. "Havia um cão?" Interrompeu Obama. James assentiu e disse que Cairo estava em uma sala adjacente, com focinheira, a pedido do Serviço Secreto.
"Eu quero conhecer esse cão", disse Obama.
"Se você quer se encontrar com o cão, o Sr. Presidente, eu recomendo que você traga algo para agradá-lo", brincou James. Obama foi até Cairo, mas o cão permaneceu com a focinheira.
Depois Obama e seus assessores foram por um passadiço para outro ambiente encontrar mais pessoas que haviam colaborado de longe para a missão: especialistas em logística, chefes de tripulação, e reservas dos SEALs. Obama outorgou à equipe uma menção presidencial e disse: “Os profissionais de nossos serviços de Inteligência fizeram um trabalho formidável. Eu acreditava 50% que Bin Laden pudesse estar ali, mas tinha 100% de confiança nos senhores. São, sem dúvida, literalmente, a melhor força de combate pequena que jamais existiu no mundo”. A equipe que realizou a missão deu ao presidente a bandeira americana que estava no Chinook de resgate. A bandeira, de 1m x 1,6 metros, está assinada por todos e tem uma inscrição: “Da Força da Operação Lança de Netuno, 1 de maio de 2011: por Deus e por nosso país, Gerônimo”. Obama prometeu que ia guardá-la em lugar privado e “que signifique muito para mim”. Antes de regressar a Washington posou para muitas fotografias com cada membro da equipe e conversou com muitos deles, mas houve uma coisa da qual não falaram. Ele nunca perguntou quem havia dado o tiro fatal e nenhum SEAL se ofereceu para dizê-lo.
Fonte:  tradução livre de The New Yorker

sábado, 8 de outubro de 2011

Vigarices Vermelhas — Indenizações Fraudulentas — Por Aqui Seria Diferente?

por Mariano De Vedia
La Nación
Entre tantos papéis, documentos, livros sobre os trágicos anos 70 e seu computador portátil, quase não há lugar para uma taça de café na mesa de trabalho do militar da Reserva José D'Angelo. Ali, na sala de um apartamento que aluga próximo ao Zoológico, ele revisa cada caso incluído no informe sobre vítimas da repressão ilegal elaborado em 2006 pela Secretaria de Direitos Humanos e que serve de base para o pagamento de indenizações pelas leis reparatórias.
"Já encontrei mais de 300 inconsistências severas", disse, dedicado à tarefa de comparar o documento oficial com investigações jornalísticas e bibliografia da época, incluídas revistas das próprias organizações guerrilheiras. Esses achados ampliam as suspeitas e as denuncias de falta de transparência do regime de ressarcimentos, que o Governo mantêm em estrito segredo, como publicou esta semana La Nación.
Como vários legisladores da oposição, D'Angelo reclama transparência em um tema sensível para os argentinos e, em curiosa sintonia com as reclamações das organizações defensoras dos direitos humanos, exige que "a verdade seja dita".
"Estamos frente a um governo que vem aumentando o orçamento da Secretaria de Direitos Humanos em uns 7.500% em oito anos [passou de $ 1.146.102 a 96.130.873]. Eu, com poucos recursos, encontrei mais de 300 contradições. O Estado poderia investigar melhor", afirmou o ex militar Carapintada, em uma entrevista à La Nación.
— ¿Como leva adiante a investigação? 
— Leio quase todos os livros de autores de esquerda e cotejo os relatos dos anos 70 com o informe de 2006. A lista original da CONADEP tinha 8.961 casos e há mais de 2.000 que não figuram no informe de 2006. Por exemplo, estava incluído como desaparecido Humberto Alfredo Meade, o atual juiz do caso Candela, em Morón. Assim, o número de casos, que devia diminuir para 6.900, subiu a 9.300, porque foram incorporados mais de 2.400, o que não está mal. O assunto é ver se esses casos se ajustam aos fundamentos que deram origem à CONADEP e às leis reparatórias.
— ¿Há erros graves? 
— Encontrei mais de 300 contradições severas. Um caso significativo é o de Hugo Irurzun que, segundo relato de Gorriarán Merlo, lançou o foguete que matou Somoza em Assunção, em 1980. Naquela mesma noite, a policia do Paraguay encontrou Irurzun e o matou. ¿Como aparece na lista oficial?: execução sumária. Foi morto pelo Estado argentino. Segundo o informe, alguém está habilitado a cobrar a indenização, que ronda os 220.000 dólares. Já foram pagos entre 1.700 milhões e 1.900 milhões de dólares.
— ¿Como se chega a essa cifra? 
— É uma estimativa, tendo em conta a quantidade de casos e segundo o tipo de cambio que se aplique. Se gastou muita verba. As denuncias pelos planos de habitação das Madres de Plaza de Mayo alcançam $750 milhões. Aqui estamos falando de 1.700 milhões de dólares.
— ¿Como defines a atual política de direitos humanos? 
— Absolutamente parcial. E como não se pode aplicar controles sobre a destinação desses importantes recursos, (defino) como um provável foco de corrupção, uma estafa moral que nós os argentinos não merecemos.
— ¿Sua visão pode ser considerada parcial? 
Se Montoneros se chamava Exército Montonero e o ERP era o Exército Revolucionário do Povo, estamos falando de uma guerra. Perón, após o assalto do ERP em Azul, mandou ao Congresso um projeto para modificar o Código Penal. Deputados da JP, a Tendência e Montoneros, entre eles Carlos Kunkel, se negaram a dar-lhe a possibilidade de combater ao terrorismo com a lei em mãos. Além disso, em uma carta à guarnição militar, em janeiro de 1974, Perón expressou seu desejo de que "o reduzido número de psicopatas que vão quedando (sobrevivendo?) sejam exterminados um a um para o bem da república". ¿E agora o Estado os indeniza?
— ¿Não o invalida ter sido Carapintada
— Os levantes carapintadas não ocorreram em 1985, quando Alfonsín e a Justiça meteram os comandantes na prisão. Eles haviam sido responsáveis. Os problemas internos se armam dois anos depois, quando começaram a chamar para processar a tipos que na guerra contra o terrorismo eram tenentes, subtenentes. Fomos contrários ao Processo. Porém o Movimento Carapintada já não existe. Foi uma expressão do momento.

Perfil 
JOSE D'ANGELO é 1º Tenente da Reserva
Idade: 55 anos
Nascido em: Mendoza
Formou-se no Colégio Militar em 1980. Em janeiro de 1988 se somou, desde Tucumán, ao Movimento Carapintada de Aldo Rico em Monte Caseros. Passou um ano preso e foi indultado por Menem. Se dedica agora ao mercado editorial. Foi diretor de El Diario de Bolsillo e da revista B1.
Fonte:  tradução livre de AFyAPPA
COMENTO:  pois é! Se você pensa que já viu algo parecido, não é mera coincidência. Cria-se uma comissão para "estudar a verdade histórica" ao mesmo tempo em que dissocia as Forças Armadas de hoje e de ontem, processam alguns chefes e, depois, vão em busca do resto. Não sem antes atacar as burras estatais indenizando a cumpanherada pelo investimento feito em prol da luta revolucionária.