quarta-feira, 1 de abril de 2026

“O General Americano que Perdeu Tudo” — E Ensinou os Alemães a Temerem a Escuridão

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General de Divisão Terry de la Mesa Allen, Sr. (1888–1969) foi um Oficial condecorado do Exército dos EUA que serviu na Primeira Guerra Mundial e comandou a 1ª Divisão de Infantaria no Norte da África e na Sicília durante a Segunda Guerra Mundial.
Conhecido por sua liderança destemida em combate, que lhe rendeu o apelido de "Terrible Terry" (Terry Terrível), ele comandou posteriormente a 104ª Divisão de Infantaria até o fim da guerra. Apesar de ter trilhado um caminho não convencional até o comando, tendo sido desligado de West Point, ele era amado por seus soldados e acumulou um dos históricos de combate mais bem-sucedidos de qualquer general americano.

Início da vida e carreira
Nascido em Fort Douglas, Utah, Allen era filho de um oficial de carreira do Exército e cresceu em bases militares. Ele foi indicado para West Point, mas foi desligado em 1911 após reprovar em várias disciplinas, incluindo uma de Artilharia. Ele se formou na Universidade Católica da América e foi nomeado Segundo-Tenente em 1912.

Primeira Guerra Mundial
Allen serviu com distinção na França, comandando um Batalhão de Infantaria aos 30 anos e ganhando reputação de líder destemido, que pessoalmente liderava patrulhas em terra de ninguém. Ele foi ferido duas vezes durante a guerra.

Segunda Guerra Mundial
Allen foi o comandante da 1ª Divisão de Infantaria de maio de 1942 a agosto de 1943, liderando-a nas campanhas do Norte da África e da Sicília. Posteriormente, foi exonerado do comando da 1ª Divisão de Infantaria após o fracasso na captura da cidade de Troina, na Sicília. No entanto, logo recebeu o comando da 104ª Divisão de Infantaria, conhecida como "Timberwolves" (Lobos de Madeira), liderando-a até a Alemanha e tornando-se a primeira divisão americana a alcançar o rio Elba.

Pós-guerra e legado
Allen se aposentou do Exército em 1946 com a patente de Major-General. Ele continuou ativo em organizações de veteranos e na vida civil em El Paso, Texas, até sua morte. É lembrado por sua liderança em combate e pela profunda ligação com seus soldados. A Academia Militar dos EUA concede o "Prêmio General Terry de la Mesa Allen" ao aluno com a maior nota em Ciências Militares. Ele foi sepultado em El Paso, ao lado de seu filho, Terry de la Mesa Allen Jr., um tenente-coronel morto em combate durante a Guerra do Vietnã.
Fonte: You Tube

quinta-feira, 26 de março de 2026

O Vendedor de Futuros

Em 2004, o escritor angolano José Eduardo Agualusa publicou o romance O Vendedor de Passados, uma história curiosa narrada por uma osga — uma lagartixa filosófica chamada Eulálio — que observa o estranho ofício de Félix Ventura, um homem que fabrica biografias.
Em uma Luanda que tentava se recompor depois de décadas de guerra civil, surgia uma nova elite que precisava de algo essencial: um passado respeitável. Félix Ventura fornecia exatamente isso. Inventava genealogias, antepassados heroicos, avôs ilustres, bisavós patrióticos. Quem antes fora ninguém, de repente tornava-se descendente de estadistas, intelectuais ou combatentes da liberdade. Era, portanto, um comércio de memórias fictícias, não de fatos.
A genialidade do romance está em revelar uma verdade desconfortável: sociedades inteiras às vezes precisam reorganizar o passado para poder seguir vivendo. O problema começa quando essa reorganização se transforma em propaganda política. Quando o passado deixa de ser lembrança e passa a ser mercadoria ideológica.
No Brasil, essa prática de vender passados assumiu contornos bastante particulares. Durante décadas, grupos políticos da esquerda radical e da esquerda light — aquela, assassina por natureza, esta, a que bate palmas — empenharam-se em reembalar episódios turbulentos da história recente como narrativas heroicas. Não se tratava de inventar genealogias pessoais, como fazia o personagem de Agualusa, mas de reconstruir ideologicamente acontecimentos complexos para que se ajustassem a um roteiro moral simples: o da luta pela democracia.
Nesse roteiro, organizações armadas que atuaram no Brasil nas décadas de 1960 e 1970 passaram a ser apresentadas como movimentos românticos de resistência democrática. Figuras como Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Dom Hélder Câmara e Dom Paulo Evaristo Arns — o Aiatolá de Forquilhinha — foram transformadas em símbolos de uma suposta cruzada pela liberdade.
Essa narrativa, entretanto, omite um aspecto essencial: esses grupos não buscavam restaurar uma democracia liberal nos moldes ocidentais. Inspiravam-se explicitamente em revoluções socialistas e em regimes de partido único. Seus modelos políticos estavam em experiências como a de Fidel Castro em Cuba, no sistema da União Soviética de Josef Stálin e na revolução conduzida por Mao Tsé-Tung na China.
A história do século XX mostrou que esses regimes produziram realidades bastante distantes das utopias prometidas. Prometiam liberdade, mas deixaram mais de 100.000.000 de ossadas pelo caminho, como foi denunciado em O Livro Negro do Comunismo.
Na União Soviética, milhões de pessoas morreram em fomes induzidas por políticas econômicas desastrosas, chegando-se ao absurdo de pais comerem seus filhos no Vale do Volga, como foi denunciado em O Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenítsin (talvez venha daí a frase incômoda 'comunista come criancinha'). Quem não morria de fome passou anos nos campos de trabalho forçado dos Gulags siberianos, administrados pelo aparato repressivo do Estado, onde até existe uma escabrosa Estrada de Ossos, tantos eram os que morriam naquele inferno gelado.
Na China maoísta, campanhas políticas e experimentos econômicos, como o Grande Salto Para a Frente, provocaram uma das maiores catástrofes humanas da história moderna, com dezenas de milhões de mortos, de fome e de perseguição política — além de canibalismo. Durante a Revolução Cultural que ressuscitou Mao Tsé-Tung, houve mais de 10 milhões de mortos, em que coitados ainda vivos tinham seus testículos cortados, assados e comidos. O tal churrasquinho chinês.
Em Cuba, opositores foram presos e executados após a consolidação do regime revolucionário, em 1959. Fala-se em 17.000 mortos no paredón, mas pode chegar a 50.000, segundo alguns historiadores. Vinte por cento da população fugiu do país, especialmente para a Flórida — cerca de 145 km entre o norte de Cuba e Key West, o caminho mais curto para fugir — agarrados em câmaras de ar de pneus de caminhões e em troncos de bananeiras, enfrentando tubarões. Um petisco saboroso em Havana, na época, era filé de fígado. Não de fígado de vaca, nem de ovelha, mas de fígados humanos retirados de mortos no hospital e vendidos como iguaria rara, como foi denunciado no livro Trilogia Suja de Havana, do cubano Pedro Juán Gutiérrez.
Nem é preciso dizer que a Revolução Cubana estuprou toda a América Latina, tentando criar Vietnãs em cada país, para implantar o comunismo. Por isso houve governos militares duros, como deveriam ser, para fazer frente a essa ameaça diabólica, como ocorreu principalmente no Brasil, na Argentina e no Chile. Leia meu trabalho Ações Armadas Comunistas na América Latina.
Vendedores de passados proliferam no Brasil, especialmente os terroristas e seus simpatizantes, que tomaram conta da mídia, da cultura, das universidades ainda no final do governo dos militares, para vender milho podre a inocentes pombinhas, de que lutaram para restaurar a democracia — claro, a democracia de Fidel Castro e seu paredón. Afinal, foi lá, em Pinar del Río, que os terroristas tiveram instrução de armamento e tiro, sabotagem e terrorismo.
Por isso há tantos filmes endeusando terroristas e demonizando os militares que os combateram: Olga, O que é isso companheiro?, Lamarca, Marighella. Na atualidade, há os guerrilheiros da pena, em busca de um Jabuti acasalado com Rouanet, e os guerrilheiros da câmera, como Walter Salles (Ainda Estou Aqui) e Kleber Mendonça Filho (O Agente Secreto), em busca de Kikitos e, eventualmente, um Oscar. Todos vendendo seus passados gloriosos, vítimas da ditadura. Salles e Kleber usaram seus filmes para vender um passado de perseguição, tortura e morte perpetrado pelos militares. O que é próprio de farsantes, contando a História pela metade. No fundo, eles ainda sonham com um Brasil socialista, enquanto passeiam com Rolex e Armani para usufruir o melhor do capitalismo americano. Wagner Moura que o diga.
Uns poucos desses terroristas do passado, hoje passeando garbosamente pelas redações de jornais e TVs, como Fernando Gabeira, admitiram que todos os grupos armados das décadas de 1960 e 70, no Brasil, queriam a ditadura do proletariado, ou seja, a ditadura comunista.
Vender passados — ainda que cuidadosamente editados — sempre foi mais fácil do que encarar a complexidade real da História. E talvez seja por isso que o Brasil continue tão preso a disputas sobre o que aconteceu ontem, enquanto permanece indeciso sobre o que pretende construir amanhã. Estava certo o ministro da Fazenda, Pedro Malan, ao dizer que no Brasil, o passado é cada vez mais incerto.
A história, como se sabe, raramente é um duelo simples entre santos e demônios. Mas narrativas políticas preferem a simplicidade moral. Heróis impecáveis vendem melhor.
O curioso é que esse comércio de passados floresceu justamente em um país que sempre viveu obcecado pelo futuro. Desde o século XIX, repete-se a frase de que o Brasil é o país do futuro. A expressão, celebrizada pelo livro do escritor austríaco Stefan Zweig — Brasil, País do Futuro — tornou-se ao mesmo tempo elogio e ironia.
O futuro brasileiro parecia sempre magnífico. O único problema era que ele nunca chegava, nem durante o milagre brasileiro, em que a economia crescia acima de 10% ao ano. Década após década, a promessa permanecia suspensa no horizonte, como uma placa de obra eterna: Em breve.
Se temos tantos vendedores de passados, talvez precisemos com urgência de vendedores de futuros.
Não se trata de futurologia barata, dessas que prometem carros voadores ou colônias em Marte. O vendedor de futuros brasileiro teria um ofício bem mais pragmático: oferecer projetos plausíveis de civilização.
Ele não venderia lembranças gloriosas. Venderia possibilidades concretas. Seu escritório ficaria em algum lugar discreto, talvez numa sala modesta de Brasília, com uma placa na porta: Consultoria em futuros possíveis.
Os clientes seriam variados: cidadãos cansados, prefeitos desesperados, governadores atônitos, legisladores com algum lampejo de lucidez.
O primeiro produto do catálogo seria algo simples: previsibilidade. Num país onde as leis mudam conforme o vento político, onde processos podem atravessar décadas até encontrar uma conclusão, o vendedor de futuros ofereceria um item raro: a ideia de que regras existem para serem cumpridas. Ele explicaria ao cliente que sociedades estáveis não são necessariamente aquelas com mais leis, mas aquelas onde as leis são claras e aplicadas de forma consistente.
Outro produto do catálogo seria segurança pública. Hoje, em muitas regiões do Brasil, o Estado disputa território com organizações criminosas, como traficantes de drogas e milicianos — que é o caso do município do Rio de Janeiro, onde 60% ou mais de seu território foi perdido para a bandidagem. Em muitos bairros, o poder público é uma presença esporádica, com troca de tiros entre polícia e bandido, enquanto grupos armados exercem autoridade cotidiana. O vendedor de futuros não prometeria milagres, apenas algo que em diversos países já existe: a restauração gradual da autoridade legal. Não por meio de slogans grandiosos, mas por políticas públicas sérias, como a construção de escolas, áreas de lazer e cultura, e delegacias policiais.
Outro item à venda seria responsabilidade penal coerente. Essa é uma discussão delicada e complexa, que envolve direito, psicologia, sociologia e política criminal. Diferentes sociedades adotam diferentes critérios para lidar com jovens envolvidos em crimes graves. O vendedor de futuros não apresentaria soluções simplistas, mas colocaria a pergunta essencial sobre a mesa: como equilibrar prisão do bandido jovem com proteção à sociedade?
É óbvio que uma lei precisa ser urgentemente aprovada no Brasil, diminuindo a idade penal para 16 anos ou menos. Se com 16 anos a pessoa pode votar, engravidar ou ser engravidada — tecnicamente, um adulto —, por que não pode responder por crimes hediondos? Bandido não tem idade, só tem quem o proteja, como é o caso da esquerda em peso.
O vendedor de futuros também teria um produto chamado tempo judicial razoável. No Brasil, processos podem durar tanto que a própria noção de justiça se dissolve. A ideia de que recursos são necessários para garantir direitos é amplamente aceita. Mas a ideia de que processos devem ter um fim também é. Como o famigerado processo das fake news, de um certo Xandão, o qual, no ritmo em que a engrenagem do Sistema Toga Petralha gira, deverá se estender por mais tempo que o AI-5. Nesse futuro possível, crimes graves não passariam décadas deslizando entre recursos e mais recursos, enquanto vítimas envelhecem esperando uma sentença que nunca chega. A execução da pena após condenação em segunda instância voltaria a ser tratada como algo razoável dentro de um sistema que ainda preserva o direito de defesa, mas que também reconhece que justiça excessivamente tardia deixa de ser justiça.
O vendedor de futuros também ofereceria um produto chamado fim da complacência penal automática. Não se trata de abolir garantias jurídicas — que são pilares de qualquer Estado de Direito —, mas de enfrentar a percepção crescente de que certas regras acabam produzindo um sistema onde a punição raramente corresponde à gravidade do crime. Nesse cenário imaginado, progressões de pena seriam discutidas com critérios mais rigorosos e transparência, e não como etapas automáticas de um calendário penitenciário. A ideia seria simples: se a sociedade decide punir o bandido com determinada pena para crimes hediondos, como assassinatos e estupros, essa pena deveria ser cumprida integralmente, não virar apenas uma formalidade burocrática para colocar o vagabundo mais cedo na rua.
Outro produto no catálogo do vendedor de futuros seria a coragem legislativa para enfrentar mecanismos que transformam o sistema penal num permanente vai-e-vem entre prisão e rua. Entre eles estaria a eliminação imediata da chamada saidinha, vista por muitos como um prêmio indevido a condenados. Mesmo diante do argumento jurídico de que a lei penal não pode retroagir senão para beneficiar o réu — como foi o caso do fim da saidinha, aprovada no Congresso Nacional, mas que só vale para novos condenados —, o vendedor de futuros perguntaria se o interesse coletivo e a segurança pública não deveriam pesar mais nessa equação. No país que ele tenta vender, a lei deixaria de ser um labirinto de indulgências para vagabundos e passaria a refletir, com mais clareza, a expectativa de justiça da sociedade.
Outro produto do vendedor de futuros seria o fim imediato de emendas parlamentares, nos âmbitos federal, estadual e municipal. Os congressistas foram eleitos para aprovar o Orçamento da União, não para meter a mão em parte desse orçamento, para atender interesses particulares nos grotões eleitorais. Quem deveria ter o direito e o dever de distribuir os orçamentos seriam apenas os poderes executivos, ninguém mais: o presidente da República, os governadores e os prefeitos.
Um produto importante para harmonia dos Três Poderes seria apresentado pelo vendedor de futuros, ainda que seja um desenho e a explicação do desenho que todos já deveriam ter entendido, por ser autoexplicativo: ao executivo cabe executar, ao legislativo cabe legislar e ao judiciário cabe legislar. Simples assim. É uma aberração o que se vê no STF, que se arvora no direito de legislar, tendo cada ministro recebido apenas um único voto — a indicação do presidente da República — para ser o guardião das leis e da Constituição, não para ficar brincando de ser deputado e senador, e, eventualmente, de poder executivo, ejaculando ordens absurdas para todos os lados.
O Sistema Toga Petralha é o aparelhamento de líderes petistas em todos os órgãos públicos, a começar pelo STF, feito pelo Ogro de Nove Dedos e a Estocadora de Vento. (O jornalista Fernão Lara Mesquita, no programa Pânico da JP News, em 17/03/2017, falou: Eles colonizaram o STF e as universidades.) Assim, não importa quem seja eleito Presidente do Brasil, de direita ou de esquerda, porque quem de fato vai governar são os políticos da extrema esquerda. Jair Bolsonaro está aí para comprovar esse bullying sofrido durante seu governo, com centenas de Arguições de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPFs) protocoladas no STF pelo PT e seus genéricos piçolistas e quetais contra atos do Executivo. Esse bullying da extrema esquerda continua, agora é dirigido contra atos do Legislativo, como foi o caso de isenção de IOF e o Marco Temporal, prontamente derrubados pelo STF.
O vendedor de passados também diria que os milhões de cidadãos que recebem o Bolsa Família, o Pé de Meia, Luz grátis e outros mimos federais deveriam ser impedidos de votar para presidente da República, por se tratar de compra descarada de votos. Até o WikiLeaks vazou um cable (telegrama diplomático) americano, em 2010, de que José Dirceu havia demonstrado entusiasmo político com o programa Bolsa Família, de que poderia gerar algo em torno de 40 milhões de votos. (Atualmente, esse número de vira-bostas sustentadas pelos tico-ticos chega à metade da população brasileira, tem mais gente recebendo algum benefício do governo do que trabalhando com carteira assinada.) E o TSE missão dada é missão cumprida, como o Bochechinha de Lula (Benedito Gonçalves) cochichou no ouvido de Alexandre de Moraes? Nem aí. Faz parte do Sistema Toga Petralha.
Outro item do catálogo do vendedor de futuros seria educação institucional. Não apenas educação escolar — embora essa seja essencial —, mas também educação moral e cívica. Uma cultura em que os cidadãos compreendam o funcionamento do Estado, os limites dos seus direitos e de suas obrigações, e o valor das Instituições.
O vendedor de futuros não seria um profeta nem um salvador da Pátria Amada Brasil. Seria apenas um corretor de possibilidades. Ele diria aos clientes uma verdade incômoda: Futuros não são comprados prontos. Eles são construídos.
O máximo que um vendedor de futuros pode fazer é mostrar plantas arquitetônicas plausíveis. O edifício precisa ser erguido pela própria sociedade. E aqui surge a grande diferença entre vender passados e vender futuros. Passados podem ser inventados. Futuros precisam ser reais e funcionar.
Uma genealogia falsa do passado pode enganar a população por algum tempo. Um projeto de país ineficaz revela suas falhas rapidamente. Talvez seja por isso que o comércio de passados seja tão popular na política. Ele exige apenas narrativa. O comércio de futuros exige realidade.
Imagino o vendedor de futuros fechando sua loja no fim do expediente. Ele guarda os catálogos na gaveta, apaga a luz e coloca um pequeno aviso na porta: Volto amanhã.
Do lado de fora, a cidade continua barulhenta, desigual, cheia de problemas antigos. Mas também cheia de possibilidades.
Porque o futuro — ao contrário do passado — ainda não foi escrito. E, como qualquer mercadoria rara, ele só tem valor quando alguém decide finalmente produzi-lo.
Fonte: Piracema II 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Serviços de inteligência na América Latina

As principais agências da região
Os serviços de inteligência na América Latina surgiram em contextos de ditaduras, conflitos e criminalidade. Embora alguns países tenham caminhado rumo a modelos mais profissionalizados, a opacidade e os abusos de poder persistem. A inteligência continua sendo um pilar estratégico para o enfrentamento de ameaças internas e externas.
A principal função dos serviços de inteligência é obter, analisar e distribuir informações relevantes para a tomada de decisões estratégicas, antecipando ameaças e oportunidades em ambientes caracterizados pela incerteza.
Na América Latina, a evolução desses serviços foi profundamente marcada pela instabilidade política, conflitos internos, ditaduras militares, intervenção estrangeira e, em última instância, pela expansão do crime organizado regional.
Diferentemente de outras regiões, onde os serviços de inteligência se desenvolveram progressivamente e foram vinculados a marcos legais estabelecidos, na América Latina as agências de inteligência oscilaram entre fases de repressão estatal e deslegitimação pública, com estágios mais recentes de reestruturação e profissionalização.
Durante grande parte do século XX, especialmente no contexto da Guerra Fria, essas organizações atuaram como instrumentos de controle político interno, participando ativamente da perseguição de opositores, da repressão ideológica e da coordenação de outras atividades ilícitas.
Com o estabelecimento de sistemas democráticos nas décadas de 1980 e 1990, a região enfrentou o desafio de reformar suas instituições de inteligência profundamente desacreditadas. No entanto, em alguns casos, esses processos de reforma foram incompletos.
Atualmente, os serviços de inteligência da América Latina operam em um ambiente instável e repleto de ameaças, incluindo tráfico de drogas, terrorismo regional, crime organizado, corrupção estrutural, instabilidade política e influência de potências internacionais.

Serviços de Inteligência Argentinos
A Secretaria de Inteligência de Estado (SIDE), criada em 1946, consolidou sua posição como ator-chave durante os sucessivos governos militares que governaram a Argentina ao longo do século XX. Durante a ditadura cívico-militar conhecida como Processo de Reorganização Nacional (1976-1983), a SIDE desempenhou um papel central na repressão interna, atuando em coordenação com as forças armadas e outros serviços de inteligência da região.
Após a restauração da democracia, o SIDE (Secretaria de Inteligência do Estado) não foi submetido a uma reforma profunda e, durante décadas, manteve amplos poderes, orçamentos opacos e significativa autonomia em relação à supervisão civil. Além disso, seu envolvimento em escândalos de espionagem política, manipulação judicial e corrupção estatal minou progressivamente sua legitimidade.
Em 2015, o governo de Cristina Fernández de Kirchner decidiu dissolver o SIDE (Secretaria de Inteligência de Estado) e criar a Agência Federal de Inteligência (AFI). Essa reforma visava modernizar o sistema, aumentar o controle parlamentar e redefinir as prioridades em direção à inteligência estratégica. No entanto, a AFI continua sendo criticada por sua politização e por ser usada como instrumento em disputas internas de poder.

Serviços de Inteligência Brasileiros
O Brasil possui uma vantagem competitiva significativa em relação a outros países da região. Sua dimensão, população, economia e alcance internacional o tornam uma potência regional com aspirações globais, notadamente como membro do BRICS. Nesse contexto, a inteligência desempenha um papel fundamental na formulação de sua política externa e de defesa.
A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) foi criada em 1999 como parte do Sistema Brasileiro de Inteligência de Segurança (SISBIN), com o objetivo de superar o passado autoritário do país. O Brasil se destacou como um dos primeiros países da América Latina a tentar construir um sistema de inteligência civil e profissional voltado para a produção de inteligência estratégica.
As prioridades da ABIN incluem a proteção do território brasileiro, o monitoramento de recursos naturais estratégicos, a segurança energética, a segurança cibernética e o acompanhamento da dinâmica geopolítica global. A inteligência militar brasileira complementa esse trabalho, especialmente no controle de fronteiras e em operações de segurança interna.
O Brasil também se destaca pelo investimento em capacitação, tecnologia e cooperação internacional, além de manter laços estreitos com os serviços de inteligência ocidentais, ao mesmo tempo em que desenvolve uma política externa independente. Apesar disso, a polarização interna gerou tensões devido ao suposto uso partidário do ABIN em determinados momentos.

Serviços de Inteligência Mexicanos
Num contexto totalmente influenciado pelo crime organizado, fomentado por cartéis, narcotráfico e corrupção sistêmica, o sistema de inteligência mexicano conseguiu evoluir lenta, mas positivamente. Durante o século XX e parte do século XXI, o Centro de Investigação e Segurança Nacional (CISEN) foi a principal agência de inteligência civil.
Seu desempenho combinou inteligência política, experiência em segurança interna e análise estratégica. No entanto, ele recebeu críticas significativas por seus laços estreitos com o sistema político, que durante a maior parte desse período foi dominado pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI).
Em 2018, o governo substituiu o CISEN pelo Centro Nacional de Inteligência (CNI), que foi integrado à Secretaria de Segurança e Proteção ao Cidadão.
Essa medida visava redirecionar os esforços de inteligência para o combate ao narcotráfico e ao crime organizado, as principais ameaças à segurança nacional mexicana, e melhorar a imagem de certas instituições governamentais. No entanto, o sistema de inteligência mexicano é claramente fragmentado.
As forças armadas, a polícia e as agências financeiras conduzem operações de inteligência em paralelo, nem sempre com alto nível de coordenação. Além disso, a infiltração do crime organizado nas instituições estatais ainda não foi eliminada, o que mina seriamente a confiança e a eficácia do sistema.
O México possui capacidades técnicas relevantes, especialmente em inteligência financeira e cooperação internacional, mas enfrenta uma ameaça estrutural que reduz significativamente seus resultados.

Serviços de Inteligência Colombianos
A Colômbia desenvolveu um dos sistemas de inteligência mais experientes da região, fruto de mais de meio século de conflito armado interno com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). O antigo Departamento Administrativo de Segurança (DAS) foi, durante anos, a principal agência de inteligência civil, mas seu envolvimento em graves escândalos levou à sua dissolução em 2011.
A criação da Direção Nacional de Inteligência (DNI) teve como objetivo estabelecer um modelo mais limitado e controlado, focado no desenvolvimento de inteligência estratégica. Ao mesmo tempo, a inteligência militar e policial manteve um papel central, especialmente em operações contra guerrilheiros, narcotraficantes e grupos armados ilegais.
A Colômbia se destaca por seu alto nível de inteligência operacional e tática, com capacidades avançadas em analisar redes criminosas, identificar líderes e conduzir operações conjuntas. Após os acordos de paz com as FARC, o sistema de inteligência colombiano entrou em uma fase de adaptação a novas ameaças híbridas e à manutenção da legitimidade democrática.

Serviços de Inteligência Chilenos
O Chile é um dos países da América Latina mais marcados por regimes ditatoriais. Por essa razão, o governo criou a Agência Nacional de Inteligência (ANI) em 2004 para prevenir os abusos de seu passado autoritário.
A Agência Nacional de Inteligência (ANI) carece de capacidades operacionais diretas, o que limita seu potencial repressivo, e concentra-se na produção de inteligência estratégica para o Poder Executivo. Essa estrutura favorece o controle civil e reduz o risco de politização da organização.
No entanto, o Chile enfrenta novos desafios, como o crescimento do crime organizado, a radicalização no conflito Mapuche, as ameaças cibernéticas e a proliferação da desinformação.

Serviços de Inteligência Peruanos
Após o governo turbulento de Alberto Fujimori (1990-2000), o Serviço Nacional de Inteligência (SIN) perdeu credibilidade devido ao seu envolvimento em casos de corrupção, manipulação política e abuso de poder.
Isso levou à criação do Sistema Nacional de Inteligência (SINA) e da Diretoria Nacional de Inteligência (DINI), com o objetivo de construir uma nova infraestrutura de inteligência baseada na legislação do país. Apesar disso, a instabilidade política persistente no Peru tem dificultado consideravelmente esse processo, deixando o governo com problemas significativos de coordenação e profissionalização institucional.

Serviços de Inteligência Venezuelanos
Na Venezuela, os serviços de inteligência evoluíram para um modelo voltado para o controle político. O Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (SEBIN) e a Direção-Geral de Contrainteligência Militar (DGCIM) desempenharam um papel fundamental no monitoramento e na neutralização da oposição aos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro.
Além disso, a inteligência venezuelana mantém laços estreitos com países como Cuba, Irã, China e Rússia, consolidando-se como um dos pilares fundamentais para a sobrevivência do regime.

Serviços de Inteligência em Cuba
Por sua vez, Cuba possui um dos serviços de inteligência mais eficazes da América Latina. A Direção-Geral de Inteligência (DGI) desenvolveu notáveis ​​capacidades em inteligência estrangeira e contra-inteligência, conseguindo compensar a escassez de recursos materiais. Além da Venezuela, a inteligência cubana tem exercido influência significativa em outros países da região, como Honduras e Nicarágua, graças à formação de uma rede de cooperação ideológica.

Conclusão
Na maioria dos casos, os serviços de inteligência latino-americanos desenvolveram-se sob a influência direta das forças armadas, num contexto em que a segurança nacional era considerada fundamental para os governos da região. Atualmente, essas agências de inteligência refletem as tensões estruturais vivenciadas pela maioria dos países da área.
Embora alguns governos tenham avançado em direção a modelos mais institucionalizados e profissionalizados, problemas como a falta de transparência, o abuso de poder e a ausência de visão estratégica persistem em muitos casos. Além disso, em um contexto internacional cada vez mais complexo e volátil, o desenvolvimento de uma infraestrutura de inteligência robusta e coordenada é essencial. Somente assim será possível enfrentar as ameaças internas e externas.
Especialista em Análises de Inteligência
 com Mestrado Profissional de Analista de Inteligência
 do Instituto LISA. Tem experiencia em distintos setores como Cibersegurança Corporativa e análises de dados.
Fonte: Boletim Semanal LISA News
(Learning Institute of Security Advisors)
COMENTO: O autor do texto, um europeu impelido por ideias preconcebidas sobre o passado recente da América Latina, redigiu um breve resumo histórico dos serviços de Inteligência oficiais latino americanos mas, na minha opinião, cometeu alguns lapsos ao relacionar a atualidade a procedimentos dos tempos de governos militares. Incorreu, também, no equívoco de omitir que serviços de inteligência, tiveram sua origem para atender as necessidades militares. Nos dias atuais, tem sua essência no atendimento dos  interesses nacionais mas, destes, os objetivos militares tem primazia, no sentido de que a defesa de um país, mesmo sendo uma atividade conjunta de todos os campos de poder nacional, tem no aspecto militar a sua base fundamental.

terça-feira, 10 de março de 2026

A Morte de Khamenei

Câmaras ‘hackeadas’, décadas de espionagem e um ataque cirúrgico: os bastidores da morte de Ali Khamenei

por Pedro Gonçalves - Março 3, 2026
Israel passou anos a infiltrar-se nas infraestruturas de vigilância e comunicações de Teerã antes de avançar para o ataque aéreo que matou o aiatolá Ali Khamenei, numa operação que conjugou espionagem tecnológica, fontes humanas e uma decisão política tomada ao mais alto nível.
Segundo informações reveladas pelo Financial Times, a campanha de coleta de dados foi longa e meticulosa, permitindo às autoridades israelitas conhecerem a capital iraniana com um grau de detalhe descrito por um responsável de informações como equivalente a “conhecer Jerusalém. E quando conhecemos [um lugar] tão bem como a rua onde crescemos, percebemos quando algo não está certo”, afirmou um atual responsável dos serviços de informações israelitas.

Câmaras de trânsito hackeadas durante anos
De acordo com duas fontes familiarizadas com a operação, praticamente todas as câmaras de trânsito de Teerã foram pirateadas ao longo de vários anos. As imagens, além de seguirem o circuito normal, eram criptografadas e transmitidas para servidores em Telavive e no sul de Israel.
Uma dessas câmaras revelou-se particularmente estratégica, ao permitir observar os locais onde os motoristas e guarda-costas das mais altas figuras do regime estacionavam os seus veículos junto à rua Pasteur, nas imediações do complexo onde Khamenei foi atingido no sábado. Esse ângulo oferecia uma janela para rotinas aparentemente banais de um espaço fortemente protegido.
Algoritmos avançados alimentavam dossiês detalhados sobre membros da segurança do líder supremo, incluindo moradas, horários de serviço, percursos para o trabalho e, sobretudo, as personalidades que habitualmente protegiam e transportavam. O objetivo era construir aquilo que os oficiais de informações designam como “padrão de vida”, um retrato comportamental minucioso.
Esta corrente de dados em tempo real integrava centenas de fluxos de informação distintos, não sendo o único meio utilizado por Israel e pela CIA para determinar com precisão a hora a que o líder iraniano, de 86 anos, estaria no seu gabinete naquela manhã e quem o acompanharia.

Interferência nas comunicações
Além da vigilância visual, Israel conseguiu interferir em componentes de cerca de uma dúzia de torres de telecomunicações móveis nas imediações da rua Pasteur. Segundo as mesmas fontes, a operação fez com que os telefones aparentassem estar ocupados quando chamados, impedindo que a equipe de proteção de Khamenei recebesse eventuais alertas.
Muito antes de as bombas caírem, o quadro de informações acumulado era descrito como denso e abrangente. O conhecimento detalhado da capital iraniana resultou de uma coleta laboriosa de dados, sustentada pela unidade de informações de sinais Unit 8200, pela rede de ativos humanos recrutados pelo Mossad e pela capacidade da inteligência militar de transformar enormes volumes de dados em relatórios operacionais diários.
Israel recorreu ainda a um método matemático conhecido como análise de redes sociais para cruzar milhares de milhões de pontos de dados, identificar centros improváveis de decisão e selecionar novos alvos de vigilância e eliminação. “Na cultura dos serviços de informações israelitas, a inteligência de alvos é a questão tática mais essencial — foi concebida para permitir uma estratégia”, explicou Itai Shapira, General de Brigada na reserva e veterano de 25 anos da direção de Informações Militares. “Se o decisor político determina que alguém deve ser assassinado, em Israel o costume é: ‘Forneceremos a inteligência necessária’.”

Uma decisão política no momento oportuno
Apesar da sofisticação tecnológica, mais de meia dúzia de atuais e antigos responsáveis de informações sublinharam que a eliminação de Khamenei foi, acima de tudo, uma decisão política.
Quando a CIA e Israel confirmaram que o líder iraniano realizaria uma reunião no sábado de manhã no seu gabinete perto da rua Pasteur, a oportunidade foi considerada particularmente favorável. Avaliou-se que, após o início formal de uma guerra, os dirigentes iranianos adotariam rapidamente práticas evasivas pré-planejadas, deslocando-se para bunkers subterrâneos imunes às bombas israelitas.
Khamenei, ao contrário do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah — que viveu anos escondido em bunkers até ser morto em 2024 num bombardeamento israelita em Beirute — não residia permanentemente na clandestinidade. Embora tivesse refletido publicamente sobre a possibilidade de morrer, desvalorizando a própria vida face ao destino da República Islâmica, tomava precauções em tempo de guerra. “Era invulgar que não estivesse no seu bunker — tinha dois — e, se lá estivesse, Israel não o teria conseguido atingir com as bombas de que dispõe”, referiu uma das fontes.
Ainda assim, mesmo durante a guerra de 12 dias em junho de 2025, Israel não tentou, de forma conhecida, bombardear Khamenei, concentrando-se antes na liderança da Guarda Revolucionária, lançadores de mísseis, arsenais e instalações nucleares.

Coordenação com Washington
Embora Donald Trump tenha ameaçado repetidamente atacar o Irã nas semanas anteriores e concentrado forças navais na região, estavam previstas novas negociações entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano. Omã, mediador do processo, descrevera o último encontro como produtivo e indicara que o Irã estaria disposto a concessões.
Em público, Trump manifestava frustração com a lentidão das conversações. Em privado, segundo uma fonte citada pelo jornal britânico, estaria “insatisfeito com as respostas iranianas”, criando condições para a escalada.
A operação final terá sido planeada durante meses, mas ajustada quando a inteligência norte-americana e israelita confirmou a realização da reunião. Além das informações de sinais — incluindo câmaras hackeadas e redes móveis penetradas —, os Estados Unidos dispunham, segundo duas fontes, de uma fonte humana com informação direta sobre o encontro. A CIA recusou comentar.
Isso permitiu que aviões israelitas, que já voavam há horas para sincronizar a chegada, disparassem até 30 munições de precisão. As forças israelitas indicaram que o ataque em pleno dia proporcionou surpresa tática, mesmo perante forte preparação iraniana.

Duas décadas de prioridade estratégica
Sima Shine, antiga responsável do Mossad especializada no dossiê iraniano, enquadrou o desfecho como culminar de dois momentos decisivos. O primeiro remonta a 2001, quando o então primeiro-ministro Ariel Sharon ordenou ao chefe do Mossad, Meir Dagan, que tornasse o Irã a prioridade central da agência. “‘Tudo o que o Mossad faz é importante’, teria dito Sharon, segundo Shine. ‘O que eu preciso é do Irã. Esse é o teu alvo.’”
Desde então, Israel sabotou o programa nuclear iraniano, eliminou cientistas e combateu aliados regionais de Teerã. O segundo momento, segundo Shine, foi o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023, que alterou uma restrição de longa data em Israel: apesar de infiltrar círculos de líderes inimigos, a eliminação de chefes de Estado permanecera tabu, mesmo em guerra.
A sucessão de êxitos operacionais — incluindo a morte do líder do Hamas Ismail Haniyeh em Teerã, em 2024, e um projeto clandestino de 300 milhões de dólares para sabotar milhares de pagers e rádios do Hezbollah — reforçou essa dinâmica. “Em hebraico dizemos: ‘Com a comida vem o apetite’”, afirmou Shine. “Ou seja, quanto mais se tem, mais se quer.”

domingo, 1 de março de 2026

Qual Será a Arma Secreta Usada na Captura de Nicolás Maduro?

Trump cita publicamente o "descombobulador"
No dia 3 de janeiro, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram presos e levados para Nova York para serem julgados por tráfico de drogas.
O presidente dos EUA, Donald Trump, em reunião com os soldados das Forças Especiais que capturaram Nicolás Maduro. Foto: AFP
O presidente dos EUA, Donald Trump, mencionou pela primeira vez, em um evento público, uma misteriosa arma que teria sido usada para atordoar as defesas do deposto chavista Nicolás Maduro no dia de sua captura.
Trata-se do "discombobulator" ("desorientador"), uma arma que, segundo o presidente, consegue bloquear os sistemas de defesa russos e chineses.
Em 3 de janeiro, Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e levados para Nova York. Durante os momentos iniciais da chamada Operação Resolução Absoluta, que envolveu drones, helicópteros e Forças Especiais, os sistemas de radar venezuelanos ficaram inoperantes antes que uma tecnologia desconhecida atingisse os defensores do regime.
A operação resultou na morte de 83 pessoas, incluindo 32 cubanos, e deixou mais de 112 feridos.
Nenhum militar americano morreu, mas Trump disse que três pilotos de helicóptero ficaram feridos.
O presidente dos EUA afirmou, no dia 12 de fevereiro passado, para soldados na base de Fort Bragg, na Carolina do Norte, que as defesas venezuelanas "não conseguiram disparar um único tiro".
"A equipe russa não funcionou. A equipe chinesa não funcionou. Todos estão tentando descobrir por que não funcionou. Algum dia eles saberão", disse ele com um sorriso.
Em entrevista ao New York Post em janeiro, Trump havia dito que "não tinha permissão para falar sobre isso (o "descompressor")", mas observou que a arma fazia com que o equipamento inimigo "não funcionasse""Eles tinham foguetes russos e chineses, e nunca lançaram nenhum. Chegamos, eles apertaram botões e nada funcionou. Estavam prontos para nos confrontar", acrescentou ele ao veículo de comunicação.
Trump, que estava acompanhado de sua esposa Melania, discursou para soldados e familiares de militares na sexta-feira (13/2/26), antes de se reunir a portas fechadas com tropas das Forças Especiais envolvidas na incursão em Caracas e outras regiões da Venezuela.

Base da Unidade de Reação Rápida, no Forte Tiuna, destruída após a operação dos EUA. 
Foto: AFP
Maduro está detido em Nova Iorque, onde enfrenta acusações de tráfico de drogas e outros crimes, dos quais se declarou inocente.
Sua próxima audiência está marcada para 17 de março.
O presidente dos EUA elogiou repetidamente a operação contra Maduro como um exemplo do poderio militar de seu país.
Fonte: tradução livre de El Tiempo
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O 'desconcertante': Os EUA usaram uma 'arma secreta' no sequestro de Maduro?
O presidente dos EUA, Donald Trump, se refere a uma "arma sônica" que ele descreve como um "descompressor", mas do que ele está falando?
O ministro da Defesa venezuelano, Vladimir Padrino López (à direita), cumprimenta o ministro das Relações Exteriores cubano, Bruno Rodríguez Padilla, em 8 Jan 2026, ao receber uma homenagem aos cubanos mortos durante a operação dos EUA
[Arquivo: Leonardo Fernandez Viloria/Reuters]
Em 26 Jan 2026
O ministro da Defesa da Venezuela acusou os Estados Unidos de usar o país como um “laboratório de armas” durante o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em 3 de janeiro.
Vladimir Padrino Lopez afirmou na semana passada que os EUA usaram a Venezuela como campo de testes para “tecnologias militares avançadas” que se baseiam em inteligência artificial e armamentos nunca antes utilizados, de acordo com o jornal venezuelano El Universal.
Em 25 de janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse ao New York Post que as forças americanas de fato usaram uma arma à qual se referiu como "o descompassador".
"Não me é permitido falar sobre isso", disse ele, acrescentando que a arma "interferiu no funcionamento do equipamento" durante a operação.
Os detalhes da missão militar dos EUA para sequestrar Maduro não foram divulgados, mas sabe-se que os EUA já usaram armas para desorientar soldados e guardas ou para desativar equipamentos e infraestrutura no passado.

O que disse o ministro da Defesa da Venezuela?
Em 16 de janeiro, Padrino López afirmou que 47 soldados venezuelanos foram mortos durante o ataque dos EUA a Caracas. Trinta e dois soldados cubanos, alguns dos quais protegiam Maduro, também foram mortos.
Na semana passada, ele fez as acusações sobre o “laboratório de armas” e foi citado pelo El Universal dizendo: “O presidente dos Estados Unidos admitiu que eles usaram armas que nunca foram usadas em campos de batalha, armas que ninguém no mundo possuía. Eles usaram essa tecnologia contra o povo venezuelano em 3 de janeiro de 2026.”
Ele parecia estar se referindo a uma entrevista que Trump concedeu ao canal de notícias americano NewsNation, na qual afirmou que uma "arma sônica" havia sido usada.

O que Trump disse sobre as "armas secretas" dos EUA?
Dias após o sequestro de Maduro, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, republicou comentários que pareciam ter sido postados no X por um guarda de segurança venezuelano. Ele escreveu que os EUA haviam "lançado algo" durante a operação que "era como uma onda sonora muito intensa".
“De repente, senti como se minha cabeça fosse explodir por dentro”, escreveu o segurança. “Todos começamos a sangrar pelo nariz. Alguns vomitaram sangue. Caímos no chão, sem conseguir nos mexer.”
A Al Jazeera não conseguiu verificar essa conta.
“Ninguém mais tem isso. E nós temos armas que ninguém conhece”, disse Trump. “E eu digo que provavelmente é melhor não falar sobre elas, mas nós temos algumas armas incríveis. Aquele foi um ataque incrível. Não se esqueçam que aquela casa ficava no meio de uma fortaleza e base militar.”
Então, no domingo, Trump foi citado pelo New York Post dizendo que os EUA usaram uma arma projetada para desativar equipamentos de defesa.
“O desconcertante”, adjetivou ele. “Não me é permitido falar sobre isso.”

Que armas "sônicas" ou outras armas incapacitantes os EUA já utilizaram no passado?
Os sistemas “sônicos” mais conhecidos usados ​​pelos EUA são os dispositivos direcionais de comunicação e alerta acústico, especialmente o dispositivo acústico de longo alcance (Long Range Acoustic Device=LRAD), disse à Al Jazeera o analista militar e político Elijah Magnier, baseado em Bruxelas.
“Essas não são armas tradicionais. Em vez disso, são projetores de som potentes e focados, usados ​​para coisas como parar navios, proteger bases, proteger comboios, gerenciar pontos de controle e, às vezes, controlar multidões”, disse ele.
O principal objetivo desses dispositivos é controlar o comportamento enviando comandos de voz a longas distâncias e em alto volume. Eles podem causar desconforto e são projetados para forçar as pessoas a obedecerem aos comandos ou a saírem de uma área.
“Os LRADs têm sido implantados em navios para dissuasão da pirataria, na segurança portuária e por agências de aplicação da lei”, explicou Magnier. “Em configurações de alta potência, esses dispositivos podem causar dor, vertigem, náusea ou danos à audição, o que torna seu uso delicado e sujeito a escrutínio.”
Os LRADs não são projetados para desativar eletrônicos ou redes de comunicação.
Outra arma usada para desorientar pessoas é o sistema de negação ativa (Active Denial System=ADS), que muitas vezes é erroneamente chamado de arma "sônica", mas não usa som.
“Em vez disso, utiliza energia de ondas milimétricas para criar uma forte sensação de aquecimento na pele, fazendo com que as pessoas se afastem”, disse Magnier. “O ADS foi enviado ao Afeganistão em 2010, mas foi retirado sem ser usado em combate. Assim como o LRAD, o ADS foi projetado para afetar pessoas, não máquinas.”

Como funcionam esses dispositivos?
O sistema LRAD consegue concentrar o som em uma onda estreita. Em uma configuração baixa, permite que as vozes sejam ouvidas com clareza a longas distâncias. Em uma configuração mais alta, no entanto, pode ser fisicamente debilitante.
“Esses efeitos são apenas físicos e mentais”, disse Magnier. “Ao contrário das ferramentas eletromagnéticas, o LRAD não pode desligar mísseis, radares, computadores ou sistemas de comunicação.
O rápido aquecimento que o ADS causa na camada externa da pele provoca um desconforto intenso e obriga as pessoas a se afastarem. "É uma ferramenta não letal de negação de área destinada ao controle de multidões e à defesa de perímetro", disse Magnier.
“Nenhum desses sistemas consegue, de forma realista, desativar sistemas de defesa aérea, redes de comunicação ou equipamentos militares”, afirmou. “Se algum equipamento parar de funcionar, é muito mais provável que seja devido a métodos de interferência eletromagnética, cibernética ou de negação de energia.”

O que os EUA usam para desativar sistemas e equipamentos?
Magnier afirmou que as forças armadas dos EUA são conhecidas por usar diversos tipos de ferramentas “não cinéticas” e “pré-cinéticas”. Entre elas:
— A guerra eletrônica (GE), que pode interferir em sistemas de radar, bloquear comunicações, enganar o GPS e ludibriar sensores, é uma estratégia eficaz. "Essas ações ajudam a controlar o espectro eletromagnético", afirmou. "A GE dificulta que os oponentes compreendam o que está acontecendo e coordenem suas defesas antes ou durante ataques."
 — Operações ciberfísicas envolvem a sabotagem de redes e sistemas de controle industrial. "O exemplo mais conhecido é a campanha Stuxnet, que teve como alvo os controladores de centrífugas nucleares iranianas e causou danos físicos ao alterar seu software" em 2009, disse Magnier.
— Armas de contra-eletrônica, armas de energia dirigida, que são principalmente sistemas de micro-ondas de alta potência projetados para desativar eletrônicos inundando seus circuitos com pulsos de micro-ondas. "O principal projeto dos EUA para isso é o CHAMP (Projeto Avançado de Mísseis de Micro-ondas de Alta Potência para Contra-eletrônica), que foi criado para desativar eletrônicos sem o uso de força física", disse Magnier.
— Munições de grafite ou fibra de carbono capazes de provocar curto-circuito em redes elétricas e causar apagões generalizados sem destruir todos os equipamentos.
“Essas ferramentas são uma parte fundamental da abordagem militar dos EUA para obter uma 'vantagem informacional' e controlar diferentes áreas de conflito”, disse Magnier.

Como esses sistemas funcionam e quando foram implantados?
A guerra eletrônica altera ou bloqueia o ambiente eletromagnético. Ela pode desorientar sistemas de radar, fazendo-os "enxergar" ruídos ou alvos falsos. Também pode causar a interrupção do funcionamento de rádios e afetar sistemas de GPS e sensores.
“O objetivo é cegar, confundir e desestabilizar o inimigo para criar uma oportunidade de ação”, disse Magnier.
Na campanha cibernética Stuxnet, em 2009, um vírus de computador foi instalado em um computador de uma instalação nuclear iraniana para causar danos mecânicos, assumindo o controle de sistemas de controle industrial. "Acredita-se amplamente que essa operação foi realizada pela inteligência dos EUA e de Israel contra o programa nuclear do Irã", disse Magnier.
Sistemas de micro-ondas de alta potência também podem desativar componentes eletrônicos inundando seus circuitos com energia de micro-ondas, fazendo com que parem de funcionar sem causar danos visíveis. "Testes públicos realizados no início da década de 2010 mostraram que esses sistemas podem desativar seletivamente alvos eletrônicos", disse Magnier.
As munições de grafite ou fibra de carbono espalham minúsculas fibras condutoras que podem causar curto-circuito em partes das redes elétricas. "Essas armas foram associadas a grandes apagões no Iraque em 1991, na Sérvia em 1999 e novamente no Iraque em 2003", disse Magnier.
“A estratégia básica permanece a mesma: primeiro, derrubar a energia, as comunicações, os sensores e a coordenação, depois iniciar os ataques físicos.”

Os Estados Unidos testaram novas armas em outros países?
“Sim, e isso não é algo que apenas os Estados Unidos fazem. As guerras modernas muitas vezes se tornam o primeiro teste no mundo real para novas tecnologias, assim que elas estão prontas para serem usadas”, disse Magnier.
A Guerra do Golfo de 1991 foi a primeira vez que aeronaves furtivas, bombas guiadas com precisão e guerra eletrônica foram usadas em larga escala.
O ciberataque ao Irã em 2009 foi a primeira vez que uma arma ciberfísica foi usada em nível estratégico.
A GBU-43/B MOAB, apelidada de "a mãe de todas as bombas", foi usada pela primeira vez em combate pelos EUA no Afeganistão em 2017. Trata-se de um explosivo não nuclear utilizado em ataques de precisão contra alvos subterrâneos fortificados, como túneis, que produz uma enorme onda de choque.
“É importante saber que testar geralmente não significa realizar testes secretos de dispositivos”, disse Magnier. “Em vez disso, significa usar novas ferramentas em situações reais e aprimorá-las com base no que acontece e no feedback recebido.”
Ele explicou que todos os principais países também testam novos sistemas em segredo, especialmente em áreas como guerra eletrônica, operações cibernéticas, ataques espaciais, inteligência de sinais e operações especiais.
“A principal diferença não reside no grau de sigilo das ferramentas, mas sim na abrangência de seu uso, na localização de suas bases e na disposição dos países em utilizá-las.”
Alguns exemplos, como o ataque Stuxnet, envolvem vários países trabalhando juntos.
“Os EUA usam Israel como vários campos de teste para diferentes tipos de armas e outros equipamentos bélicos de todos os tipos, principalmente contra os palestinos, no Líbano e no Irã”, disse Magnier.
Os EUA também acusaram outros países de usar "armas sônicas" contra seu próprio pessoal. Em 2017, exigiram uma investigação sobre um suposto ataque sônico que deixou vários de seus diplomatas precisando de tratamento médico e os obrigou a deixar Havana.
O então secretário de Estado americano, Rex Tillerson, afirmou que a missão dos EUA na capital cubana havia sido alvo de "ataques sanitários" que deixaram alguns funcionários com perda auditiva.
O governo do Canadá também afirmou que pelo menos um diplomata canadense em Cuba recebeu tratamento para perda auditiva.

O que Trump quer dizer com "desconcertante"?
Não existe uma definição verificada de um "descombobulador" específico.
“Esses termos não são técnicos e parecem estar sendo usados ​​como rótulos políticos para ferramentas já existentes”, disse Magnier.
“A visão mais razoável é que esse termo se refere a um grupo de ferramentas não cinéticas conhecidas, e não a um novo dispositivo.”
Estas podem ser:
— Interrupção cibernética visando redes de comando
— Ataques cinéticos direcionados contra antenas, repetidores e nós sensores, além de negação localizada de energia.
Para observadores em terra, isso pareceria como se os sistemas repentinamente "parassem de funcionar", disse Magnier. No entanto, é altamente improvável que um dispositivo sônico tenha sido o responsável por afetar os equipamentos dessa maneira, acrescentou ele.
“Relatórios indicam que os sistemas de defesa aérea de fabricação russa da Venezuela falharam, o que pode significar que não estavam bem integrados ou prontos para uso. Isso pode acontecer devido à guerra eletrônica, supressão de nós, ataques cibernéticos ou operações deficientes, sem necessidade de explicações mirabolantes. Já vimos isso acontecer na Síria com armas russas antes dos ataques de Israel.”
Uma arma sônica poderia ter afetado soldados e guardas. Se as pessoas apresentaram sintomas físicos durante a operação em Caracas, isso não indica que uma nova "arma sônica" estava sendo usada.
“Esses efeitos podem ser causados ​​pela pressão da explosão, por dispositivos de efeito moral ou por outras ferramentas comuns de desorientação”, disse Magnier. “Não há evidências públicas de um novo tipo de arma.”
Fonte: tradução livre de Al Jazeera
COMENTO:  o avanço da tecnologia, particularmente, a voltada para os conflitos entre países tem tido um desenvolvimento incomum, nos dias de hoje, aproveitando todos os ramos possíveis. Os novos tipos de armamento (drones, artifícios eletromagnéticos, uso de laser, etc.) estão modificando e tornando obsoletas as antigas técnicas e táticas de guerra. Mas só tecnologia não é suficiente.
O militar condecorado no vídeo foi um dos feridos na operação de captura do ditador venezuelano.