sexta-feira, 30 de abril de 2021

História: Ferenc Vajta — O Espião Que Fugiu Para a Colômbia

O húngaro Ferenc Vajta chegou em meados do Século à Colômbia e se converteu em um reputado Acadêmico.
Era fichado pela CIA e pelo FBI.
por Jhon Torres — @jhontorreset
Na Bogotá dos anos 50, ainda provinciana e ardentemente católica, se movimentou nos mais importantes salões um ex-espião que, se os documentos de segurança gringos são corretos, escapou dos julgamentos contra criminosos nazistas, teve contatos secretos com o Papa Pío XII e com o General Charles de Gaulle para tentar frear o comunismo internacional; tentou montar um governo no exílio quando seu país foi absorvido pelo bloco soviético e, já na Colômbia, conspirou contra compatriotas seus aos quais acusava de serem agentes dos bolcheviques.
Ferenc Vajta — um dos membros da ‘legião estrangeira’ que em meados do século passado chegaram fugindo dos estragos da Segunda Guerra Mundial e que aqui encontraram uma nova vida como professores da Universidade dos Andes e outros destacados centros de educação — é lembrado como mecenas do teatro moderno, humanista que consagrou sua vida à academia, e como ‘salvador’ de centenas de seus compatriotas refugiados na Áustria.
Nascido em 1914, educado na Sorbonne de Paris e na Itália, poliglota e ex-diplomata, seu rastro foi se perdendo com a passagem das décadas. E, ainda, nos anos 50 e 60 foi protagonista de primeira linha na vida universitária, social e cultural de Bogotá, jornalista de temas internacionais, e até correspondente por breve tempo da prestigiosa revista Time. Isso na esfera pública.
Em segredo, era objeto de um minucioso seguimento da Inteligência e Embaixada dos Estados Unidos, e informante desse governo e de agencias de segurança nacionais. Até sua morte, no final dos 60, foi um intenso lobista ante Washington, visando cancelar a marca de criminoso de guerra que o impediu de cumprir o plano de viver no país do norte e dirigir desde ali sua ‘cruzada contra o comunismo’.
Tudo isso é o que contam centenas de relatos secretos da poderosa Agencia Central de Inteligencia (CIA) que vem sendo desclassificados desde os anos 80. Vários deles foram recolhidos em livros e versões de imprensa publicados nos EUA que denunciavam como a Casa Branca fez vistas grossas frente a dezenas de reconhecidos nazistas que buscaram refúgio em todo o hemisfério.
O quadro que a CIA pintava de Ferenc Vajta era bem diferente do que se conheceu na Colômbia e que pouco mudou apesar de que, marginalmente, até aqui tenham chegado os ecos de seu passado. Inclusive conhecendo os rumores, poucos haviam imaginado que o homem corpulento, de nariz grande e cabelo negro engomado, que em 1957 foi um dos impulsores do primeiro Festival Nacional de Teatro (que se realizou no Teatro Colón), tivesse uma vida secreta. Um lado obscuro que, segundo a CIA, incluía além de seu passado nazi, capítulos como agente da Hungria, França, Vaticano e até mesmo dos EUA, e também a entrega de um tesouro de ouro na Áustria para evitar ser julgado e até fuzilado pelo que fez durante a guerra.

Primeiro ato: A guerra e o ouro
“Ferenc Vajta é um jornalista húngaro e criminoso de guerra (...) Ex-cônsul em Viena antes da ocupação russa, escapou da custodia americana para a zona francesa em junho de 1945. Nove solicitações diferentes foram feitas para sua entrega a nossas tropas”, diz um relato da CIA de março de 1952. Segundo o oficial norte-americano que o capturou, “Vajta deu aos franceses informação que foi usada para recuperar seis toneladas de ouro puro. Como recompensa, foi recrutado como informante pelas forças francesas de segurança”. O ouro e também uma carga de diamantes, agregam os documentos, provinha de fundos públicos húngaros que os governantes haviam movimentado para Áustria durante a guerra, como seguro se tivessem que sair fugindo de Budapeste (como de fato ocorreu), e que caíram nas mãos dos aliados após a derrota nazista. O informe assinala que, “apesar da promessa francesa de entrega-lo, isto não foi cumprido” e, pelo contrario, “o ajudaram ou lhe permitiram escapar para Itália”.
¿Quais eram as acusações contra ele? Segundo os arquivos desclassificados, Ferenc Vajta — que se apresentava publicamente como um perseguido pelo comunismo e atribuía aos russos e a seus aliados na Hungria uma suposta montagem contra ele — era conhecido em sua nação como uma especie de ‘campeão’ da causa hitleriana através de seus escritos periodísticos: “Seus artigos glorificavam os nazis. Em abril de 1943 fundou o jornal AZ Orszag, um panfleto semi-oficial do Ministério do Exterior húngaro que chamava o povo a unir-se ao lado alemão”.
Em 1944, o regime de Miklós Horthy, alinhado com a Alemanha, começou a debilitar-se e Hitler decidiu enviar suas tropas a Budapeste. E em setembro daquele ano, quando se descobriu que Horthy buscava um acordo secreto com os aliados ante a iminente derrota do Eixo, a ala radical nazi deu um golpe de Estado que pôs no comando a Ferenc Szálasi, de quem Vajta era muito aproximado. E não só seguiu publicando seu periódico, mas meses depois foi nomeado cônsul em Viena, a segunda capital do Terceiro Reich. A explicação do salto de jornalista a diplomático foi dada por  outra nota da CIA: “Em novembro de 1944, o avanço das tropas russas ameaçou engolir toda a Hungria. O governo de Szálasi estava pronto para fugir para Viena. Nesta situação, significativamente nomeou Vajta como primeiro cônsul húngaro na Áustria”. Ali se instalou em uma “suntuosa vila” apontada pelos alemães.
Sobre o que fez Vajta na Áustria há duas versões. A dele, segundo cartas enviadas desde Bogotá a altos funcionários dos EUA, pedindo ajuda para que revisassem seu caso, era esta: “Nunca fui nazi (...) Aceitei o consulado em Viena para atender o problema dos refugiados húngaros que saíram quando os russos cercaram Budapeste (...) Em abril de 1945, pouco antes do fim da guerra, contamos cerca de 400.000 refugiados. Trabalhei algumas vezes entre 14 e 16 horas ao dia e ainda assim não era suficiente para atende-los”. E argumentava: “No crescente caos (os aliados bombardeavam diariamente as linhas férreas austríacas) não era possível achar uma adequada solução para todos, mas fizemos o que pudemos. Se eu aceitei minha nomeação em Viena o fiz somente porque queria ajudar os húngaros a escapar”. Também assegurava que não só ele, senão todo seu país, havia estado do lado alemão durante a guerra, e que seu crime era assistir a seus compatriotas, sem importar qual era sua ideologia, quando fugiram “do paraíso comunista”. Quase as mesmas palavras com que foi apresentado um artigo seu sobre ‘Problemas europeus’, publicado na revista da Universidad Javeriana de Bogotá em 1950: “Vajta, um jovem diplomata húngaro residente atualmente na Colômbia e professor de vários centros de educação, desempenhou o consulado de sua pátria em Viena e desde esse cargo procurou auxiliar a numerosos compatriotas seus, vítimas da perseguição marxista”.

Segundo ato: a fuga
A CIA contava outra historia. Em 1949 seus agentes na Europa enviaram relatos como estes a Washington: “Em geral, a historia de Vajta é a de um húngaro fascista com conexões com os nazis antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
Os arquivos revelam que foi reportado como agente do serviço secreto húngaro em Roma, Belgrado e Istambul e que seus serviços foram importantes para a Gestapo nesse tempo (...) É culpável de atrocidades de guerra como o envio, durante o regime de Szálasi, de 20.000 judeus húngaros que foram forçados a marchar de Budapeste a Viena. Durante essa marcha, mais de 6.000 pereceram”. E sobre o que lhe teria acontecido se não houvesse escapado com a ajuda dos franceses, o aviso secreto é contundente: “Teria sido, com toda probabilidade, imediatamente fuzilado se houvesse caído em mãos de soviéticos”.
Outro despacho assinala que os norte-americanos estavam prontos para envia-lo ao tribunal de Nüremberg ou ao do Povo da Hungria — que julgavam os criminosos de guerra — quando fugiu e apareceu protegido pelos franceses. Martin Himmler, do Exército dos Estados Unidos, testemunhou que Vajta havia enviado judeus húngaros para os campos de concentração na Áustria e que em seu poder foram achados bens esbulhados: “No começo do cerco de Viena desapareceu com o tesouro (húngaro na Áustria) e outros bens valiosos como tapetes e objetos de arte, além dos valores de seu escritório. Quando foi preso pelos americanos, algumas das propriedades roubadas foram achadas em sua casa”. Ele, por seu lado, sempre acusou a Himmler de inventar as provas que o indiciavam.
Naquela época, recém finalizada a guerra, Colômbia não figurava para nada nos planos de Ferenc Vajta. Os documentos desclassificados da CIA o localizavam, após a fuga da Áustria, na Itália; ali foi recebido pelo círculo mais próximo ao papa Pio XII, cujo papel na guerra segue gerando polêmica porque muitos consideram que não fez o suficiente contra o genocídio. Seu sócio em Roma era um jesuíta também húngaro que, como ele, veio se acomodar em Bogotá poucos anos depois: Nyisztor Zoltan, então chefe de imprensa do Vaticano e também com fama de pró-nazi.
Na Itália, Vajta foi um dos promotores do Parlamento Húngaro no exílio e fundou um periódico, Salve Hungría, que atacava de frente o novo governo comunista de seu país. Ali foi preso pela segunda vez, acusado por crimes de guerra. 
Graças a seus contatos, assinala o arquivo da CIA, foi liberado pela segunda vez, mas o advertiram para que se fosse porque não poderiam protege-lo de novo. E lhe facilitaram tudo para viajar ao reduto fascista que restou na Europa após a guerra: a Espanha de Franco. “Segundo se percebe, Vajta conhece muito das atividades da Inteligencia francesa na Áustria, mas parece irritado com eles porque não cumpriram as promessas que lhe fizeram. Também parece irritado com os britânicos porque não o defenderam (...) Vajta se ofereceu para trabalhar com os italianos se eles garantissem sua segurança pessoal”, notificou a Agencia. Entre a queda de Viena, em 1945, e sua nova prisão, Vajta teve contatos com achegados ao herói da Resistência francesa, o general De Gaulle, pois Paris supostamente via nele uma figura chave para fazer contrapeso ao comunismo húngaro. Esses contatos, sem dúvida, cessaram com a mudança de governo na França, em 1946.
Na Espanha foram documentadas reuniões com funcionários do regime do ‘Generalíssimo’ e com o controvertido arcebispo de Toledo, Enrique Plá y Deniel, um dos líderes mais ultraconservadores da Igreja católica. Também contatou a embaixada dos Estados Unidos com a oferta de estabelecer em Madrid o ‘Centro Anticomunista da Europa Ocidental’. Os informes dizem que “aparentemente tinha uma grande soma de dinheiro a sua disposição, aparentemente originada no Vaticano”. Nessa época era um dos cabeças de um movimento chamado Intermarium, de extrema direita, que congregava varias forças anti-soviéticas.
Em dezembro de 1947, com visto yankee apesar de seus antecedentes e acompanhado por um vice-cônsul americano, voou de Madrid a Nova York. Sua ideia, dizem os documentos, era “contatar os exilados húngaros” para uni-los a seu movimento. Mas em janeiro de 1948 estourou o escândalo por seu ingresso em território americano; e ele foi preso e confinado na ilha Ellis. Como a Hungria comunista nunca respondeu para que fundamentassem as acusações de guerra contra Vajta, ao final, decidiram deporta-lo sob o motivo de ser considerado “prejudicial aos interesses dos Estados Unidos”.

Terceiro ato: preso nos EE.UU.
Passou quase 26 meses detido. Então, é quando aparece pela primeira vez a Colômbia no mapa de Ferenc Vajta. ¿Como aconteceu isto? Nos anos 80, com milhares de documentos desclassificados pela primeira vez desde os anos 40, a imprensa norte-americana acusou o Vaticano de Pio XII de haver realizado uma enorme operação de movimento clandestino de fascistas e nazistas para a América Latina. As opções para o húngaro eram ser enviado a Itália (que se negou a recebe-lo) ou a seu país natal, onde o esperavam para julga-lo; mas ele alegou que sua vida estava em perigo. E, já com a expulsão decidida, surpreendeu ao pedir que o enviassem a Bogotá, uma cidade que nunca havia mencionado em seus escritos. Inclusive, informou que já tinha passagem da Avianca para 5 de fevereiro de 1950. 
Nunca se estabeleceu claramente como ele foi aceito pelo Governo colombiano, que seguía "ao pé da letra" as diretrizes de Washington em matéria de assuntos exteriores e certamente não teria recebido a ninguém de seu perfil sem um tranco americano. Vajta pode ter recebido ajuda de Pat McCarran, senador democrata de Nevada e um dos mais beligerantes anticomunistas do congresso dos Estados Unidos. McCarran, como muitos outros, acreditava que em plena Guerra Fria o inimigo era Moscou e que os antigos nazis podiam ser valiosos aliados. E é muito significativo que, na mesma época, monsenhor Nyistor Zoltan, seu contato no Vaticano, preparava as malas para vir ao país.
Após serem notificados de sua chegada, os oficiais da embaixada em Bogotá o apelidavam de “personagem indesejável” e avisaram a Washington que iam seguir sua pista, coisa que fizeram por anos. Os informes secretos não só chegaram à CIA mas também a J. Edgar Hoover, o quase eterno diretor do FBI.
Seus antecedentes não eram desconhecidos para o governo conservador da época. A embaixada reportou um Informe da Inteligencia colombiana que destacava o seguinte: “Um documento da Polícia Nacional, Chefia de Segurança, datado de 27 de novembro de 1951 assinado pelo funcionário Manuel Antonio Orduz Duarte e dirigido ao dr. Pablo Jaramillo Arango, ministro encarregado da carteira de Governo, diz que o professor Vajta foi membro do serviço secreto francês em Innsbruck e finalmente do serviço secreto norte-americano na Colômbia”. E outro aviso, datado em Bogotá a 2 de março de 1950, resenha uma conversação entre Robert Newbegin, então conselheiro da Embaixada, e o dirigente liberal Álvaro García Herrera: “García disse que se subentende que essa pessoa (Vajta) está agora na Colômbia e que o Governo considera usá-lo em conexão com a polícia secreta (...) García expressou sua preocupação porque uma pessoa com o passado de Vajta possa influenciar em que os liberais sejam tratados de maneira brutal”. Preocupação que, por certo, nunca teve um piso real.

Quarto ato: um espião no país
O que se acredita é que Vajta seguiu, durante seus anos no país, com a ideia de sua cruzada anticomunista. A CIA revelou que ele e o monsenhor Zoltan acusaram ante a embaixada e ante o serviço secreto colombiano a outro professor húngaro, Jorge Kibedi, que havia chegado ao país em 1950 para trabalhar com a Universidade Javeriana e fez parte da Missão de Planejamento que modernizou Bogotá.
Em uma ficha sobre Kibedi que chegou a Washington, são mencionados todos seus dados (inclusive o endereço de sua casa no antigo bairro Sears de Bogotá) e as acusações que seus dois compatriotas fizeram indicando-o como suposto espião da União Soviética. Nessa época estava vigente uma norma que proibia “a atividade política do comunismo internacional” porque — destacava — “dita atividade atenta contra a tradição e as instituições cristãs e democráticas da República, e perturba a tranquilidade e o sossego públicos”. Ser comunista dava cadeia de 1 a 5 anos em uma colonia penal.
Em abril de 1951, a embaixada reportou a Washington que “monsenhor Zoltan afirmou que Kibedi levou a cabo uma missão de espionagem internacional para o governo comunista de Budapeste e que esteve sob vigilância da polícia secreta espanhola, que descobriu contatos com comunistas estrangeiros”.
O mesmo documento diz que Vajta assegurava que Kibedi e seu irmão Irving, “que também está em um país de Sul-americano, eram agentes comunistas”: “Vajta está convencido de que Kibedi é um agente da Russia e que está levando a cabo uma missão de espionagem na Colômbia”. A foto de Kibedi que acompanha o relatório foi confirmada pelo próprio Vajta.
A mesma versão terminou em mãos do general do Exército Régulo Gaitán, um dos ‘duros’ da segurança colombiana da época. O Governo ordenou interceptar a correspondência de Kibedi e seguir todos seus movimentos e os de sua família. Finalmente optaram por deporta-lo do país sob a imputação de promover o comunismo. “A expulsão de Kibedi foi resultado dos esforços de Ferenc Vajta”, diz outro comunicado dos EUA. Que acrescenta: “A vigilância ao correio de Kibedi pela Polícia indicou um sustancial volume de correspondência sobre temas sociais e laborais, mas as autoridades nunca encontraram uma prova concreta de conexões comunistas”.
A expulsão do professor da Javeriana, em 1952, foi um escândalo nacional que pôs parte da Igreja colombiana em choque com o Governo. Vajta, em uma conversação com a embaixada, se queixava de que os estilhaços de seu papel neste caso lhe haviam fechado varias portas: “O sujeito ainda ensina ciências sociais na Universidade dos Andes, em Bogotá (...) Recentemente tentou complementar sua renda obtendo um cargo de professor na Universidade Nacional, mas não conseguiu. O motivo dado por Vajta é que líderes da Igreja católica o bloquearam por suas atividades contra Kibedi”. Este se instalou no Chile e se converteu em um dos dirigentes sindicais mais importantes do continente.
Nessa época, Vajta começou a escrever para a revista Semana, na seção Internacional, e era frequentemente consultado por seus conhecimentos da situação europeia. Ensinava, também, historia francesa em um colégio para moças, e seu radical discurso anticomunista começava a gerar muitos ruídos.

Doc 1: Bogotá, Abril de 1952
"O Quartel General foi avisado pelo Serviço de Imigração e Naturalização que Ferenc Vajta, que foi deportado dos Estados Unidos em 5 de fevereiro de 1950, é um sujeito indesejável devido a suas atividades relacionadas com os nazis durante a Segunda Guerra Mundial; deseja insistir para obter seu visto para os Estados Unidos. Com essa intenção escreveu ao senador McCarran afirmando que deseja voltar aos EUA para "continuar" sua luta contra os comunistas". Vajta pediu ao senador McCarran, que é presidente do Comitê Judicial, para que o Comitê o ajude a revisar seu caso de Imigração, aparentemente para obter reivindicação moral e para que o senador o ajude a ser readmitido (...) Em sua carta ao senador, Vajta caracteriza a Martin Himmler, que foi a principal testemunha dos Estados Unidos no processo de deportação, como "um húngaro nascido em  Hungria no Serviço Secreto e antigo comunista".


Doc 2: Hungria, 5 de dezembro de 1945
"Ferenc Vajtga é um jornalista húngaro e criminoso de guerra que escapou de uma prisão americana na Áustria. Esteve em Roma em novembro e viaja rumo a Paris. Seus amigos em Roma foram informados por ele mesmo de que discutirá seus planos para a restituição do antigo regime húngaro com o general De Gaulle. Vajta espera um papel principal no planejamento e execução dos planos franceses sobre Hungria(...)"


Doc 3:
Bogotá, 23 de junio de 1952 
"A expulsão de (Jorge) Kibedi (da Colômbia) é principalmente resultado dos esforços de Ferenc Vajta (...) As suspeitas também foram alimentadas por um importante jesuíta húngaro em Bogotá. A vigilância do correio de Kibedi pela Polícia encontrou um importante volume de correspondência sobre assuntos sociais e trabalhistas. As autoridades nunca obtiveram uma prova concreta de conexões comunistas (...)".


Doc 4: 
Bogotá, 23 de fevereiro de 1954 
"O sujeito regressou a Colômbia em janeiro de 1954 e está de novo ensinando na Universidade dos Andes e em uma escola. Assegura que não há nada que fazer, mas que fará o melhor na situação e esperará uma oportunidade mais favorável para regressar a França (...) Vajta crê que seu fracasso para obter o visto francês é consequência de que seu nome ainda aparece em uma lista negra elaborada imediatamente depois da guerra quando as influencias dos comunistas cresceram no governo francês (...)"

Doc 5: 
Bogotá, 18 de fevereiro de 1956 
"Em 17 de fevereiro de 1956, o Consulado notificou que o sujeito Ferenc Vajta está se esforçando por um visto (para os Estados Unidos). "(Nome omitido no documento) assegura que o sujeito é o mais anticomunista (...), muito inteligente, tem um amplo número de conexões no país e fala bem cinco idiomas. Ele pensa que o sujeito foi um húngaro pro-nazi e que provavelmente ainda guarda sentimentos pro-nazis".

Doc 6: 
Bogotá, 1950. 
Carta ao senador Pat McCarran
A carta:  "Eu deportei a mim mesmo" 
"Sou Ferenc Vajta, um antigo cônsul húngaro, que durante a última Guerra Mundial supostamente ajudou a Hitler a "assassinar milhões de pessoas indefesas" e que supostamente é o grande responsável pelo massacre de pilotos americanos na Hungria (...) Tenho 36 anos, não tenho uma nação, sou um jornalista de profissão e vivo na Sul-America (...) Cheguei livremente, em um voo, e no aeroporto havia alguns velhos e queridos amigos que me receberam. Exceto eles, ninguém sabe aqui quem sou e por que escolhi este país para 'reiniciar' minha vida. Estou vivendo em uma humilhação constante e rara vez tenho um momento no qual realmente não deseje esquecer tudo. Desperto cada dia com a decisão de, a partir desse momento, não recordar nunca mais meu passado, mas até as coisas de minha rotina tornam impossível que possa matar minhas recordações (...) Meus problemas, a humilhação na ilha Ellis, minha própria deportação de um país que amo (e o que é pior, que sigo amando com todo meu coração) nunca permitirão romper essas correntes invisíveis que me atam com incrível força. Antes de sair da cela 222 da Ilha Ellis, nunca imaginei, nem por um momento, que na verdade não existe liberdade para um homem cuja honra tenha sido arruinada (...) "Em abril de 1944, quando os alemães ocuparam a Hungria, eu era um simples editor de noticias que defendia os judeus e exigia um tratamento mais humanitário para eles, e ainda hoje, depois de tudo que passei, não me arrependo do que fiz, não lamento te-los defendido. É tudo o que tenho que dizer a esses que tratam de fazer propaganda de anti-semitismo com meu caso. Mas também é natural que eu lute e trate de lutar sempre para que me façam justiça. Do contrario nunca terei paz".

Quinto ato: o solitário mecenas do teatro
¿Quantos sabiam de sua historia na Universidade dos Andes? Não há nenhuma evidencia de que houvesse, por parte dos Estados Unidos, alguma entrega de informação nesse sentido. Nos documentos só aparece uma conversação de um funcionário da embaixada com Frans Von Hildebrand, um dos mais destacados professores daquela universidade e cuja família teve que fugir da Alemanha de Hitler em 1933 por sua pública oposição ao projeto totalitário. “Hildebrand diz que não aprova as ideias políticas defendidas por Vajta no passado, mas diz que o sujeito parece estar por fora de atividades políticas na Colômbia tem certeza de que ele não tem recebimentos diferentes dos que recebe da universidade”, informa um relatório de 1953. O biólogo Martin von Hildebrand, filho do professor, descreve Vajta como “um homem de aparência triste e que dava a impressão de que sofria muito”. Era recebido na casa de seu pai como outros muitos professores dos Andes vindos da Europa, entre eles muitos judeus. “Às vezes, algumas pessoas perguntavam ao meu pai como podia tolerar a Vajta, tendo o passado que tinha. Ele dizia que não podia julgar uma pessoa por uma decisão de estar no lado equivocado que todo um povo havia adotado. Mas não creio que meu pai nem os outros conheceram em profundidade a sua historia”, disse o reconhecido antropólogo e diretor da Fundação Gaia.
O grande ator Kepa Amuchastegui, que estudou nos Andes nos 60, via Vajta indo tomar o chá na casa dos Von Hildebrand. “Era intelectualmente muito respeitado (...) Não tratei muito com ele porque era de outra geração, mas era uma figura reconhecida, mais porque estava muito vinculado ao mundo do teatro”, assinala. Também recorda que em voz baixa diziam que havia defendido ideias nazis, mas diz que sempre foi mais um rumor que um questionamento concreto.
Durante duas décadas, Ferenc Vajta seguiu tentando, sem êxito, conseguir um visto dos Estados Unidos para “reivindicar” sua historia. Em uma carta que titulou ‘Eu deportei a mim mesmo’, escrita em Bogotá, assegurava que “ainda se sentia prisioneiro” por ter que carregar uma fama de nazi que, segundo ele, foi invenção de seus inimigos comunistas e judeus: “Não há liberdade para um homem cuja honra tenha sido arruinada”, dizia. E em sua defesa escreveu que quando a Áustria foi ocupada pelos russos, ao final da guerra, ele foi “imediatamente trabalhar com a Inteligencia francesa para organizar um centro anticomunista”. Ele escreveu a congressistas republicanos e democratas e até pediu aos gringos que o contatassem durante uma viajem à Europa, no começo de 1954, para concretizar seu plano de criar uma comunidade de exilados contra Moscou. 
“Se eu puder me colocar de acordo com os serviços (secretos) dos Estados Unidos e trabalhar com eles, somente eu serei responsável por minha vida. Como não sou um covarde, não estou interessado em meu futuro e não me importa se devo pagar com minha vida por minha futura missão”, escreveu à embaixada em Bogotá antes de viajar. A CIA recebeu cada carta sua, mas ninguém chegou a procura-lo.
Nos 90, o mesmo estigma caiu sobre Gerardo Reichel-Dolmatoff, o austríaco que foi o 'pai' da antropologia na Colômbia e herói da França na guerra de Resistência contra os alemães, quando se revelou que em sua juventude havia servido nas temíveis SS de Hitler.
Vajta terminou regressando a sua vida de professor na Colômbia apesar de outro relato, dizer que “estava totalmente entediado” no país, que “não tinha interesse em seu trabalho atual” e estava desesperado por voltar à Europa. 
Em 1956, por pouco tempo, foi nomeado correspondente da revista Time. E a mesma Embaixada advertiu o Departamento de Estado para contatar os editores nos EUA e os advertir sobre seu perfil. O episódio durou um mês e, em abril do mesmo ano, o diário Intermedio (a versão de El Tiempo durante a ditadura de Rojas Pinilla) informou que “o professor Ferenc Vajta renunciou a seu cargo como correspondente”, pois “devido a suas atividades universitárias não podia dedicar suficiente tempo à revista”. A embaixada havia sido informada dias antes de que em Time tomaram nota “do histórico do sujeito” e que “estavam dispostos a fazer uma mudança em vista da informação” que haviam recebido.
A partir desse momento — ainda que até o final de seus dias insistiu em pedir visto aos Estados Unidos, que foi negado todas as vezes —, o professor Vajta pareceu dedicar todos seus esforços em promover a cultura colombiana, especialmente os nascentes projetos de teatro moderno. Em 1957, com recursos que ele mesmo obteve entre a comunidade diplomática acreditada no país, foi um dos organizadores do Festival Nacional que ocorreu ano após ano até 1963 no Teatro Colón, ao lado de figuras como Gloria Zea, Ramón de Zubiría e o maestro Bernardo Romero Lozano. Desse experimento cultural começaram a surgir grandes figuras como Enrique Buenaventura, Carlos José Reyes e Santiago García, entre outros. Também foi muito próximo ao grande poeta Eduardo Carranza e, apesar do anticomunismo que corria em suas veias, apareceu, em 1960, acompanhando Orlando Fals Borda e ao padre Camilo Torres na criação da famosa faculdade de Sociologia da Universidade Nacional.
O maestro Reyes, que o conheceu no começo daquela década, recorda de Vajta promovendo ativamente a discussão sobre os temas que se tratavam nas obras de teatro do Festival: “Conhecia muito bem o teatro europeu e apoiou projetos de escolas colombianas que estavam iniciando. Chegou até a sustentar várias apresentações com recursos próprios, ou os que obtinha com seus contatos nas embaixadas”. Reyes também ouviu os rumores sobre o passado do professor da los Andes, mas garante que nunca o escutou defender ideias extremistas e que jamais censurou alguma obra, por mais ‘tirada’ à esquerda que fosse. “Sempre era visto com ar doutoral, muito acadêmico, mas muito respeitoso”, diz. Por essa época, inclusive, aparecia na Radio Nacional, com seu espanhol marcado pelo forte acento centro-europeu, comentando as adaptações teatrais em companhia de famosos como Gloria Valencia de Castaño. 
Ainda que tenha chegado com sua esposa e um filho ao país, Ferenc Vajta morreu só no final dos anos 60. Seu corpo foi encontrado vários dias depois, segundo relatos da época. Foi um epílogo dramático para um ator de primeira linha na Segunda Guerra Mundial que terminou sua existência em um país, Colômbia, em que nunca pensou viver mas ao qual dedicou as últimas duas décadas de sua existência. E até o final, em segredo, tratou de mudar o bordão que o perseguiu até depois de sua morte: “o único nazista a ser deportado dos Estados Unidos”, comentou o ex-promotor norte-americano Allan A. Ryan, que investigou e perseguiu nazis que emigraram para aquele país e escreveu vários livros sobre os criminosos de guerra que conseguiram uma segunda oportunidade sobre a terra ao fugir para a América.

CRÉDITOS:
— Diretor do Especial: Jhon Torres, Editor de Mesa Central 
— Desenho Digital: Sandra Rojas
— Diagramação: Carlos Alberto Bustos
— Editor de Multimídias Especiais: José Alberto Mojica
Fonte: tradução livre de  El Tiempo

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Porque Não Sou de Esquerda

por Roberto Motta
Não sou de esquerda porque essa posição ideológica é baseada em três crenças equivocadas: a de que totalitarismo produz liberdade, a de que a distribuição da riqueza é mais importante que sua criação, e a de que o Estado deve dirigir nossas vidas nos mínimos detalhes.
Essas crenças são a base do comunismo e do socialismo, que são a mesma coisa: sistemas filosóficos, morais e políticos mórbidos, usados por psicopatas e aventureiros para transformar o ser humano em um farrapo corroído por fome, miséria e degradação.
Esse é o resumo breve do que é “esquerda”.
Faltou dizer que a esquerda sempre contou com o apoio dos intelectuais e, por isso, tem um marketing incomparável: foi assim que uma ideologia totalitária, violenta e empobrecedora se tornou promotora da “justiça social” (seja lá o que for isso) e ganhou o apelido de “progressista”.
Quando as revoluções sangrentas saíram de moda, a esquerda abraçou as bandeiras das minorias, do feminismo e da ecologia para se manter no poder. Percebam a ironia de ter esquerdistas liderando movimentos feministas, antirracistas e ecológicos: basta contar quantos negros já foram presidentes de Cuba ou Venezuela, quantas mulheres já foram chefes do Partido Comunista Soviético ou Chinês, ou lembrar do desastre ambiental da China e da usina nuclear ucraniana de Chernobyl.
No ano passado os Estados Unidos foram paralisados pelos protestos contra a morte de George Floyd. Em qualquer país comunista, você jamais teria ouvido falar do George Floyd; ele teria sumido rápida e completamente, e toda sua família e amigos teriam sido internados em algum campo de “reeducação”.
Todo os regimes comunistas da história foram ditaduras. Não há uma única exceção. Opositores são perseguidos, presos, torturados e mortos. Os países são cercados de muros para que ninguém escape.
Apesar disso, o comunismo ainda é apresentado como o regime da solidariedade e do amor, onde “cada um dá o que pode e recebe o que precisa”.
O comunismo é um remédio que mata 100% dos doentes, mas que continua sendo vendido até para crianças. “Pode confiar”, diz o fabricante. “Da próxima vez vai dar certo”.
Essa mentira assombrosa é divulgada nas artes plásticas, na literatura, na arquitetura, no teatro, no cinema e na TV como verdade.
Livros escolares usados por nossos filhos plantam, em suas mentes imaturas, uma ideia que significará, para muitos, uma vida de frustração, revolta vazia, vício e pobreza.
Escolas de direito doutrinam futuros juízes, promotores e defensores públicos no ódio ao capitalismo e à prosperidade, e na promoção de um Estado intervencionista, autoritário e onipresente.
O esquerdismo, socialismo ou “progressismo” é isso: um equívoco moral e lógico, um instrumento de violência e opressão, e uma armadilha emocional e intelectual, glamourizada, divulgada e promovida pelos segmentos mais influentes e charmosos da sociedade.
Quem paga o preço disso são os que não podem se informar ou se defender.
Como disse Theodore Dalrymple, “os pobres colhem o que os intelectuais semeiam”.
E é por isso que eu não sou de esquerda.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Cármen Lúcia Decretou que o Único Culpado é o Juiz

por José Roberto Guzzo
Imagem:  web
Ao longo dos 520 anos de existência do Brasil houve um momento, apenas um, em que a população brasileira acreditou que havia realmente justiça em seu País
; acreditou, nesses instantes, que de fato existiam leis e que elas eram aplicadas a todos por igual, incluindo os milionários, os influentes e os poderosos. Isso aconteceu durante o período, poucos anos atrás, em que o juiz Sérgio Moro, à frente de uma vara penal em Curitiba, julgou, condenou e mandou para a cadeia um ex-presidente da República sentenciado por corrupção e lavagem de dinheiro, prendeu empresários-gigante que confessaram publicamente os seus crimes e recuperou bilhões de reais em dinheiro roubado da Petrobrás e outros cofres do Estado. Mas foi apenas um intervalo fugaz. A maior conquista já alcançada pela justiça brasileira foi transformada em ruínas pela ação direta de um Supremo Tribunal Federal em que oito dos onze ministros foram nomeados justamente pelos dois governos mais corruptos da história nacional — e os que mais sentiram as punições aplicadas por força da Operação Lava Jato.
Foi um trabalho contínuo, cauteloso e deliberado. No começo, os ministros foram devagar com sua operação de desmanche da Lava Jato. Temiam, então, causar resistências sérias aos seus atos — especialmente por parte das Forças Armadas, que chegaram a avisar, nas primeiras manobras do STF em favor dos acusados de corrupção, que não aceitariam a promoção da impunidade no mais alto tribunal do país. Mas, com o tempo, foi ficando cada vez mais claro que ninguém ia fazer nada. Os ministros, então, foram perdendo o medo, ganharam a certeza de que podiam agir com impunidade e acabaram por jogar na lata de lixo anos a fio de valioso trabalho da justiça brasileira. Nesta fase final do ataque em favor da corrupção e dos corruptos, aquilo que começou com uma calamidade, com a decisão do ministro Edson Fachin de anular todas as ações penais contra Lula, acabou com um deboche, agora por obra da ministra Cármen Lúcia — ela tomou a extraordinária decisão de decretar que, após a roubalheira histórica dos governos Lula e Dilma, o único culpado é o juiz que puniu os ladrões.
Não se notou, em nenhum dos dois casos, sequer aqueles escrúpulos apressados que em geral entram em cena nessas circunstâncias. Fachin, em sua decisão, conseguiu não dizer uma única sílaba sobre culpa, provas e outros elementos básicos de uma ação penal; anulou tudo porque achou, cinco anos e três instâncias depois, que o processo contra Lula não deveria ter corrido em Curitiba, e sim em Brasília. Cármen, por sua vez, viveu um momento de pura superação, baseando seu decreto sobre a “suspeição” de Moro em informações obtidas através de atos criminosos — isso na mais alta corte de justiça da nação. De um lado, um ministro anula os processos de Lula invocando uma miserável questãozinha burocrática. De outro, a ministra aceita gravações flagrantemente ilegais como “prova” contra Moro. É o “garantismo” à moda da casa.
As instituições brasileiras estão em vias de liquidação — e no ponto específico da insegurança jurídica, a marca das sociedades subdesenvolvidas que tanto envenena o Brasil de hoje, vamos chegando a extremos cada vez mais incompreensíveis. O STF, como se diz a cada decisão tomada por seus ministros, tornou-se o mais agressivo fator de insegurança no país. A ministra Cármen foi além: provou que não há segurança nem nos votos que os próprios ministros dão. Ela já tinha votado, neste mesmíssimo caso, contra a defesa de Lula. Agora, sem que tenha acontecido absolutamente nada de novo, vem dizer que o voto que tinha dado não vale mais nada — e apareceu com um outro voto, exatamente ao contrário do que já havia decidido, este a favor de Lula.
Quando nem o voto de um ministro tem qualquer significado, jurídico ou moral, podendo mudar à medida em que mudam os seus interesses, estamos no limite da insanidade.

quarta-feira, 10 de março de 2021

A Terrível Lição da Maior Reforma Agrária da História

Mulher famélica pede comida numa imagem rotineira da China revolucionária
Era preciso tirar a China comunista da miséria e estagnação. E em 1957 o líder comunista Mao Tsé Tung lançou o chamado Grande Salto Adiante, um inumano esforço igualitário para tirar a economia socialista daquela situação.
Foi de um desastre para outro muito pior. Mao descobriu que o país andava sobre duas pernas: a industrial e a agrícola. E excogitou o impensável: todo o sangue da agrícola devia passar para a indústria.
O método é bem conhecido no Brasil: a coletivização da terra e a organização militarizada do campesinato em comunas, ou assentamentos. Acabou sendo o modelo inspirador da reforma agrária socialista confiscatória brasileira, das CEBS agrícolas e do MST.
A desgraça da coletivização forçada da terra, executada em aras de uma utopia igualitária, gerou a pior fome da historia da humanidade: 45 milhões de cadáveres, segundo as mais recentes estatísticas.
O Grande Salto Adiante virou o Grande Salto Mortal para dezenas de milhões de chineses que se extinguiram sem terem o que comer, bem como para centenas de milhões de outros que com dificuldades indizíveis fugiram da extinção pela carência.
Poderia ter sido o destino do Brasil, e ainda poderá sê-lo caso se apliquem as fantasias teológico-igualitárias da CNBB e de seus ativistas, pregadores e tentáculos subversivos.
Frank Dikötter é o autor do estudo mais minucioso e recente sobre aquela explosão de inumanidade. Acaba de vir a lume na Espanha seu livro “A grande fome na China de Mao. Historia da catástrofe mais devastadora de China (1958-1962)”.
Aquela espantosa extinção dos famélicos foi durante muito tempo, um segredo proibido sob o socialismo maoista.
“A China desceu ao inferno” numa tentativa enlouquecida de acelerar o crescimento
Em 1988 o regime ousou dar a cifra oficial de 23 milhões de mortos de inanição e doença. “O livro negro do comunismo”, espécie de catálogo dos horrores dos regimes social-comunistas contabilizou um máximo de 43 milhões no período 1959-61.
David Priestland, autor de uma história condescendente do comunismo contou entre 20 e 30 milhões entre os anos 1958-61.
O trabalho de Dikötter, professor das universidades de Hong Kong e Londres, foi procurar dados nos arquivos chineses recentemente abertos e entrevistar sobreviventes.
O resultado foi estarrecedor.
Ele começa dizendo que “entre 1958 e 1962 a China desceu ao inferno”. E qualifica aquela imensa reforma agrária de “um dos maiores assassinatos de massa na história humana”.
Mao quis desenvolver rapidamente o país destruindo seu passado tradicional.
A fé cega nos dogmas materialistas ensinados pela Rússia entregou aos fanáticos — a “vanguarda do proletariado” —, quanto mais iletrados melhor, a execução do plano irreal.
Para granjear os elogios dos chefes, os ideólogos que dirigiam as comunidades de base falsificavam os dados, mesmo quando a realidade contradizia cruelmente todas as previsões do Líder Máximo.
As metas eram inatingíveis, sádico o poder, a corrupção caracterizava os que subiam na escala do Partido Comunista e o medo era o instrumento preferido para a tormenta infernal que aniquilou 45 milhões de chineses.
O Grande Salto Adiante foi também o pretexto para exterminar a oposição anticomunista no país e os comunistas moderados do Partido.
Quando a dissonância da realidade com a utopia ficou ovante a máquina socialista instalou um sistema de autocríticas humilhantes, de “seminários de correção”, de expurgos sistemáticos, de culto à personalidade num país que tinha virado um imenso campo de concentração.
Então a fome foi reforçada por desapiedada perseguição política, punidora de todos aqueles que não cumpriam os objetivos impossíveis de cumprir, que fraquejaram no trabalho coletivo de sol a sol ou que eram suspeitos de falta de entusiasmo pelo Partido, pelo Líder e pelas metas do socialismo.
As fazendas coletivas, campos comunitários ou assentamentos não se distinguiam dos campos de concentração
Os piores desatinos e o auge da mortandade se deram nas zonas dirigidas pelos socialistas maoistas mais puros e radicais.
O livro “A grande fome na China de Mao” ganhou o prêmio Samuel Johnson na categoria ensaio.
Ele fala da dinâmica do poder num Estado de partido único devorado pela corrupção e pelas denúncias mútuas. Ele entrevista pessoas comuns, recolhe suas táticas de oposição e subversão larvadas, seus esforços imaginosos de sobrevivência incluindo a mentira, a ocultação, o roubo, o contrabando ou a falsificação das contabilidades.
Ele só não só fala do afundamento de um sistema econômico e social que a Teologia da Libertação e as reformas agrárias latino-americanas tentaram parodiar.
O livro pretende entender a complexidade da conduta humana nos tempos de desespero e catástrofe, comenta “El Mundo”.
Deus não o permita, mas isso pode vir a se tornar tema por demais candente na hora em que catástrofes se anunciam nos quatro quadrantes do planeta.
Escritor, jornalista,
sócio do IPCO

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Crimes das FARC em Julgamento

Assim foi a atuação de cada gangue das FARC
por Colômbia em Transição
Os sete blocos da narco-guerrilha, cometeram sequestros de forma indiscriminada. A Justiça Especial para a Paz (JEP) documentou sequestros de crianças e adolescentes; execuções de sequestrados e cobranças pela devolução de corpos.
Em 20 Fev 2002, as FARC sequestraram um avião para sequestrar Jorge Géchem Turbay.  Imagem: AP/ALEJANDRO SAAVEDRA
Em sua acusação contra o Secretariado das FARC pela captura de reféns ou sequestro, a Justiça Especial para a Paz (JEP) foi enfática em que esta foi uma política que implementaram desde sua origem, para financiar suas operações. Segundo a Vara de Reconhecimento, isso “convertia os seres humanos em coisas cujo valor não consistia na dignidade humana, mas no valor de barganha por dinheiro”.
No Processo 0092 de 2021, a JEP documentou o que buscava cada um dos sete blocos que conformaram a narco-guerrilha das FARC, por meio do sequestro: fortalecer suas finanças, exercer domínio territorial ou forçar uma “troca de prisioneiros” com o Estado.
A Vara também revelou as principais zonas donde mantiveram os sequestrados. O Bloco Nor-ocidental, nos limites entre Antioquia, Chocó e a fronteira com Panamá; o Bloco Sul e o Ocidente, no planalto Pacífico de Cauca, Nariño e a bacia do rio Patía; o Bloco Caribe, na Serra de Perijá (fronteira com Venezuela) e o Bloco Oriental, em Meta, quando lá estava a Zona de Distensão, ou nas bacias dos rios Tunia, em Chiribiquete, Inírida, Vaupés e Apaporis.
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Bloco Oriental
Foi o maior bloco das FARC e tinha o objetivo de tomar Bogotá. Atuou em Arauca, Boyacá, Vichada, Guanía, Casanare, Cundinamarca, Tolima, Meta, Guaviare, parte de Caquetá e teve domínio nas vias que ligam Bogotá com Villavicencio, Medellín, Tunja, Melgar e Chiquinquirá.
Sua principal modalidade de sequestro foram as “pescas milagrosas”, especialmente entre 1997 e 2003. Esse termo se refere a bloqueios ilegais instalados pela insurgência nos quais sequestravam de maneira aleatória.
Também sequestraram pessoas que estavam em suas chácaras de descanso, como ocorreu com Carlos Upegui Zapata, membro da junta administrativa da Organização Ardila Lülle, e o jornalista Guillermo la Chiva Cortés.
O Bloco Oriental se aliou com bandos delinquenciais e, inclusive, membros da Força Pública para sequestrar. Em sua declaração voluntaria, Julián Gallo, vulgo Carlos Antonio Lozada, reconheceu que algumas estruturas dessa unidade executaram operações com um bando chamado os Calvos (Carecas) para realizar sequestros nas cidades. Um dos casos conhecidos pelos magistrados foi o do cidadão japonês, Chikao Muramatsu, vice-presidente de uma companhia japonesa de autopeças para veículos. Foi rendido na esquina da Calle 102 com Autopista Norte, em Bogotá, e ficou dois anos e meio no cativeiro, apesar do governo japonês ter pago por sua liberdade. Em 2003 foi encontrado, sem vida e trajado de camuflado, em San Juan de Rioseco (Cundinamarca).
Este bloco executou trocas de vitimas por familiares, pediu pagamento para devolver cadáveres de pessoas sequestradas e, também, em vários casos se negou a dar informação às famílias sobre o destino dos retidos. Sequestraram menores de idade, como no caso de uma menina de 10 anos em Fortul (Arauca) e adultos idosos, como ocorreu com Gerardo Angulo e sua esposa Carmen Rosa Castañeda, ambos de 68 anos. O casal foi assassinado por seus captores após a instrução de que se não podiam caminhar, deviam ser executados.
Comando Conjunto Central
Esta estrutura funcionou em parte do Valle, Quindío, Risaralda, Tolima, Huila, Caldas e Cundinamarca. Foi desarticulada pela Força Pública em 2000. Se financiou especialmente de sequestros após o não pagamento de extorsões e criou um grupo exclusivamente para preparar os sequestros: a Companhia Financeira Manuelita Sáenz.
Os bandoleiros do Comando Central asseguraram em depoimentos à JEP que “comprar e vender gente” foi uma pressão dos órgãos superiores por dar resultados financeiros. Um dos declarantes, Víctor Silva Eric, vulgo el Chivo reconheceu que sequestraram até bebês para cobrar por sua liberdade. Este bando também se caracterizou, segundo a JEP, por cobrar os resgates “em prestações”, e exigir pagamentos “em especie” ou com a troca do sequestrado por um familiar como garantia de pagamento.
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Bloco Sul
Há registradas ante a JEP, 21 vítimas de sequestros perpetrados pelo bloco Sul, que agia em Caquetá, Huila, Cauca, Nariño, Putumayo e Amazonas. Em uma conferencia do Estado Maior do dito bloco, em 1995, foi estabelecido que as “retenções” eram uma forma de financiamento. Também sequestraram para cumprir as metas financeiras impostas pelo Secretariado, máxima instancia de decisão da guerrilha. Assim reconheceram Milton de Jesús Toncel, conhecido como Joaquín Gómez, e Milton de Floresmiro Burbano, vulgo Martín Corena, os quais comandaram essa unidade.
A JEP estabeleceu que o bloco Sul sequestrava as pessoas que se negavam a pagar extorsões. “Duas vítimas reportaram, terem sido castigadas por não pagar as cotas, não só com a privação da liberdade, mas também com outros castigos como violência sexual e trabalhos forçados”, se lê nos autos.
Dito bloco também sequestrou políticos sob o argumento de realizar um “julgamento político”. Foi o caso de Carlos Velázquez, ex-prefeito de Funes (Putumayo), sequestrado em 14 de janeiro de 2002 e liberado quatro dias depois, quando sua esposa pagou por sua libertação.
A Coluna Móvel Teófilo Forero, uma estrutura conhecida no país por perpetrar o atentado contra o Club El Nogal, sequestrava personas que iam vender bens. “As vítimas contam que as faziam dirigir-se até uma propriedade oferecida como parte do pagamento e, ao ir visitar tal propriedade, eram sequestradas”, pontualiza o documento.
A JEP também assinalou que dita unidade contava com ajuda de milicianos para tomar edifícios urbanos. Um caso lembrado é a tomada do edifício Miraflores, em Neiva (Huila), em 2001, em meio da qual foram sequestradas 16 pessoas.
Hernán Darío Velásquez, que comandou por anos a Teófilo, faz parte da dissidência Segunda Marquetalia.
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Bloco Magdalena Médio
O Bloco Magdalena Médio (BMM) era comandado por Rodrigo Londoño, Timochenko, e por Pastor Alape. Fazia presença em Santander, Norte de Santander, Antioquia e Magdalena, Cesar e Bolívar. A JEP registra 12 vítimas de sequestros cometidos por esse bloco.
Os sequestros eram uma maneira de pressionar as empresas para que pagassem extorsões. Os pecuaristas também foram continuamente extorquidos. “Duas vitimas efetivas descrevem como, depois de efetuado o pagamento e a liberação, o grupo armado as continuava fustigando e ameaçando para que desembolsassem mais dinheiro, sob a ameaça de serem detidas novamente no caso de não obedecer”, consta nos autos.
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Bloco Ocidental
Esta estrutura, que era comandada por Guillermo León Sáenz, Alfonso Cano e Pablo Catatumbo, foi responsável pelo sequestro — e posterior assassinato — dos 12 deputados do Valle del Cauca, em 11 de abril de 2002. O Bloco Ocidental atuava nesse departamento, em Chocó, Nariño e Cauca. Os sequestros imputados a essa quadrilha ocorreram em sua maioria nas proximidades de Cali, Popayán e na rodovia que comunica Cali com Buenaventura.
Tinham duas maneiras de sequestrar: mediante prévia investigação financeira sobre as vitimas; ou de maneira fortuita nas retenções ilegais de tráfego. A JEP também estabeleceu que o Bloco Ocidental reteve menores de idade. “Três casos são narrados pelas vitimas conferidas, incluindo uma jovem de 15 anos e um menor de três anos”, se lê no documento. Também ocorreram execuções em cativeiro, como a de Oswaldo Díaz Cifuentes, fato que foi reconhecido pelas FARC em 2013.
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Bloco Caribe
Este bando, que operou em La Guajira, Atlántico, Cesar, Bolívar, Magdalena e Sucre, sequestrou a maioria de suas vítimas (pecuaristas, agricultores e trabalhadores de empresas) em retenções, em suas granjas ou nos lugares de trabalho ou de trânsito. A JEP registrou 65 vítimas. As retenções, ainda, foram usadas para deter caminhões de carga e saquear os bens transportados em troca de não sequestrar os condutores. “Serviam também para abastecer-se de alimentos, materiais de higiene e medicamentos, entre outras coisas”, está registrado.
Como a segunda modalidade mais usada por esta quadrilha, a JEP identificou o sequestro de membros de famílias donas de fazendas de gado e agro-produtivas. As informações, segundo Abelardo Caicedo, vulgo Solís Almeida, ex-chefe da frente 59, vinham de “unidades de inteligência financeira que estavam inseridas nas comissões financeiras das frentes e se dedicavam de maneira exclusiva a essa tarefa”.
Roberto Lacouture foi sequestrado em 6 de outubro de 1989 pela frente 41. Os guerrilheiros instalaram um bloqueio em uma estrada de Becerril (Cesar), fizeram o pecuarista regressar a sua fazenda e, em lombo de mula, o levaram para a Cordilheira de Perijá. Esteve mês e meio amarrado a uma árvore, era ameaçado constantemente e, depois de sua família ter pago o resgate, foi libertado em 24 de dezembro. “Este fato, unido ao constante roubo de gado e as ameaças, o obrigaram a se mudar”. Uma vítima relatou: “Fomos 15, os sequestrados na forma de Lacouture, e nos mataram um tio”.
O sequestro de trabalhadores de empresas mineradoras do sul de Bolívar, e carvoeiras de La Guajira e Magdalena, também foi uma prática comum do Bloco Caribe. Este é o testemunho de uma vítima: “(…) estávamos na qualidade de sequestrados e a empresa devia pagar um resgate por nós e pela maquinaria que utilizávamos, mas a companhia nunca aceitou”.
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Bloco Nor-ocidental
Esta gangue, presente em Chocó, Córdoba, Caldas, Risaralda e Antioquia, utilizou três modalidades principais: “Através de retenções na via, onde as pessoas eram selecionadas de maneira fortuita; para obrigar agricultores, pecuaristas e empresas a pagar extorsões; e através da seleção de pessoas que tinham chácaras de recreio nas zonas próximas às cidades principais, especialmente Medellín”.
Na primeira modalidade, a JEP identificou que se realizavam em vias principais e, ainda, que se cometeram, inclusive, contra menores de idade. Como foi o caso da menina Luisa Cano Madrid, de 5 anos. Quando ia com sua mãe em um ônibus para Urrao (Antioquia), em 15 de abril de 2000, desembarcaram elas e as sequestraram. Para libera-las, a família aceitou pagar o exigido. No entanto, para a frente 34 pareceu pouco dinheiro e somente a mãe foi liberada em 10 de junho. Em 22 de junho, finalmente, a menina foi liberada. O fato foi reconhecido pelos depoentes. Outro caso em que houve menores de idade, e que se enquadra na segunda modalidade usada, foi o sequestro de Luz González Pérez e Andrea Gil González. Luz, a mãe, foi levada pela Frente 36 em 9 de junho de 2002 de seu sítio na zona rural de Carolina del Príncipe (Antioquia). Para que a liberassem, a família teve que entregar Andrea, sua filha de 14 anos, “como garantia de pagamento”. Andrea ficou 40 dias sequestrada e só a liberaram quando foi pago o resto do dinheiro que as FARC exigiu. No total, 100 milhões de pesos (cerca de R$ 100 mil).
A Vara de Reconhecimento destaca que, apesar das “pescas milagrosas” serem cometidas por esta quadrilha, os bandidos tinham dificuldades para obter informação exata sobre a situação econômica das vítimas. “Inclusive, chegaram a usar os bloqueios só para recolher informações. Assim, dois depoimentos de vítimas descrevem que foram detidas para que dessem informação à guerrilha sobre possíveis vítimas”. 
Criadores de gado e comerciantes também foram privados de liberdade. Como foi o caso de Danilo Conta Marinelli, em 4 de agosto de 1996 em Samaná (Caldas), e de Alberto Duque Gutiérrez, em 23 de novembro de 2002 em Pacora (Caldas).
Outro fato de grande impacto foi o sequestro e assassinato do comerciante Jesús Antonio Higuita, privado da liberdade em 9 de setembro de 2004 em uma retenção na via Sonsón-La Unión (Antioquia). Sua família se negou a negociar sua libertação. “Finalmente se adotou a decisão de fuzilar o senhor e informar à família para que fossem recolher o corpo”, disse um depoente. Ao local foi uma equipe de bombeiros voluntários e um motorista. Os bombeiros William Alejandro Correa e Juan Fernando Oquendo foram assassinados e o motorista teve que levar os três cadáveres. Segundo as FARC, as vítimas estavam fazendo investigações, mas as famílias negam rotundamente essa acusação.
Fonte: tradução livre de El Espectador
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Assim funcionou a macabra máquina dos sequestros das FARC
Ex-guerrilheiros dizem que havia normas para proteger os cativos. Dossiê revela até violações.
Abusos sexuais e violações. Maus tratos permanentes. Tortura psicológica através de falsos fuzilamentos. Cobrança de resgate por cadáveres. Sequestros indiscriminados, inclusive de mulheres grávidas e crianças. Trabalhos forçados. Assassinatos e desaparecimentos.
Esses crimes de lesa humanidade contra vítimas das FARC foram documentados pela JEP no extenso dossiê do Caso 001, que pôs oito antigos membros da cúpula a responder ante a justiça transicional pelos milhares de sequestros perpetrados por essa guerrilha durante mais de duas décadas.
Com uma documentação histórica que recolhe testemunhos de vítimas e desmobilizados, investigações da Procuradoria e da Justiça e Paz, além de informes de ONGs, a JEP marca o inicio dos processos contra os maiores responsáveis da narco-guerrilha que se submeteram à sua jurisdição para o cumprimento da paz.
Os magistrados reconstruíram como o sequestro indiscriminado foi uma estrategia ordenada desde a cúpula das FARC como “parte de uma política que convertia os seres humanos em coisas cujo valor não radicava na dignidade humana, mas no valor da troca pelo dinheiro que tinham e que poderiam repassar à organização”.
Ainda que os ex-chefes tenham assegurado em sua defensa que os Estatutos da quadrilha proibiam as “retenções” (sic) indiscriminadas e os maus tratos aos cativos, dezenas de casos referenciados pela JEP em seu informe de 322 páginas demonstram o contrario. Assim, dizem os magistrados, “a organização central (o Secretariado e o Estado Maior conjunto) focava em controlar o gasto, pedindo orçamentos e relatórios detalhados dos gastos e castigando os que davam mau uso ao dinheiro ou se o roubassem, não em disciplinar os que tratavam mal os cativos ou cometiam “erros” na seleção de vítimas”.
Os cálculos da JEP sobre o número de pessoas sequestradas pelas FARC chegam às 21.396 desde os anos 80 (o mais alto até agora, realizado por uma autoridade colombiana). Delas, 1.860 estão reportadas como vítimas de desaparição forçada e outras 627, como assassinadas.
O que diz a Justiça Especial para a Paz é que a ordem que tinham todas as frentes era, sem importar como, conseguir recursos para o secretariado. “A Vara determinou, a partir da comparação de fontes, que cada comandante de frente tomava as decisões relativas à seleção da vitima e as decisões próprias do tratamento dado às pessoas sequestradas, assim como as decisões sobre a seleção das pessoas que as custodiavam, a negociação das liberações e o desfecho do cativeiro”.
E prossegue: “O funcionamento das FARC dava a esses comandantes uma grande discricionalidade nesses assuntos, já que o interesse da organização a nível central era no dinheiro e não na forma em que se conseguía”.
Segundo o documento, vários grupos acostumaram a ‘negociar’ pessoas sequestradas por delinquentes comuns, e a ‘tarifa’ era de entre 10 a 15 por cento do resgate obtido.
Raúl Medina Agudelo, um ex-chefe de frente, assinalou: “O secretariado jamais dizia 'sequestre dez pessoas', somente me diziam: tem que cumprir a meta estabelecida”.
Negar-se a pagar o resgate conduzia a um só resultado: a morte, que em todos os casos era, sim “consultada a instâncias superiores”. Mas a informação sobre o propósito final do corpo e os contatos posteriores com as famílias ficavam nas mãos de chefes locais. Isto dava margem a novos delitos.
“Outra modalidade especialmente grave identificada pela Vara para este Bloco (o Oriental) é a cobrança pelo cadáver — diz o documento — (...) Algumas das vítimas de privações da liberdade levadas a cabo pela Frente 22 narraram fatos relacionados com a cobrança de pagamento para recuperação do cadáver de seu familiar sequestrado e morto em cativeiro”. Isso ocorreu com a família de Rafael Moreno, a quem pediram 199.510 milhões de pesos (+/- 200 mil reais) pelo corpo.
O dossiê recolhe as denuncias de maus tratos e abusos cometidos por guerrilheiros: “Dos 1.480 fatos reportados por vítimas registradas, 38 incluem violência sexual de maneira explícita, com e sem acesso carnal”.
Até mesmo a ex-candidata presidencial Ingrid Betancourt denunciou ante a JEP que “foi vítima de toques e gestos obscenos que não eram castigados, mas sim celebrados pelos comandantes”. Ela também foi vítima “de golpes na cabeça, com as coronhas de fuzis e socos em diferentes partes de seu corpo”. Outros sequestrados denunciaram que, para aterroriza-los, os guerrilheiros fingiam falsos fuzilamentos.
Os membros do secretariado e o Estado Maior são apontados pela JEP como máximos responsáveis dos crimes cometidos pelos homens a seu comando.
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¿Foi sequestro ou tomada de reféns?
Não tem faltado polêmica após a decisão da Jurisdição Especial para a Paz (JEP) de trocar o nome do Caso 01, que passou de ‘Retenção ilegal de pessoas por parte das FARC’ para ‘Tomada de reféns e outras privações graves de liberdade’.
A decisão, segundo explicou a magistratura dessa jurisdição, se deu para fixar o termo jurídico que recibe o delito de sequestro à luz do Direito Penal Internacional. Mas, algumas vozes manifestaram seu repúdio.
“A JEP não pode minimizar a gravidade do que foi o sequestro por parte das FARC chamando agora ‘tomada de reféns e privações de liberdade’, isso é inaudito, quando o que houve foram graves violações à dignidade humana”, escreveu em seu Twitter a senadora do Centro Democrático, María del Rosario Guerra.
Por sua parte, a senadora Paloma Valencia disse: “Se bem que se inclui como delito de lesa humanidade, não me agrada o nome. Foram sequestros extorsivos, com os quais as FARC tiraram mais de $5 bilhões em recursos das famílias”.
Advogados especialistas no tema, coincidiram em explicar que, ao contrario das críticas, a denominação de ‘toma de reféns’ eleva a gravidade dos fatos. Para Juana Acosta, professora de Direito Internacional da Universidade de La Sabana, os fatos  analisados se referem a privações graves de liberdade, que no direito nacional tem sido qualificadas tradicionalmente como sequestros. No entanto, explica, quando estas condutas incluem certos elementos de contexto, como ser sistemáticas e/ou generalizadas, ou estão relacionadas com o conflito armado, “podem e devem ser qualificadas, não como delitos nacionais, mas sim como crimes internacionais, de guerra e de lesa humanidade”.
Segundo a advogada, dada a gravidade destes crimes, se não fossem investigados pelos próprios Estados, poderiam ser investigados pela Corte Penal Internacional e poderiam ativar o exercício da jurisdição universal por Estados diferentes a Colômbia.
Nessa mesma linha, Juan Felipe García, diretor do departamento de Filosofia e Historia do Direito da Javeriana, assegurou que chamar no Caso 01 toma de reféns, em lugar de sequestro, “não é uma redução, mas sim, amplia o espectro de condutas”.
Frente à denominação deste delito no sistema de Justiça e Paz, pelo qual se desmobilizaram os Paramilitares, García assegurou que essa jurisdição “tinha a limitante de circunscrever suas imputações à linguajem do ordenamento jurídico colombiano”, por isso ali se manteve o termo de sequestro. “Um dos aprendizados é que se necessitava dar competência à JEP para que seu marco jurídico se ampliasse. E se ampliou à linguajem do Direito Penal Internacional”, indicou García.
Fonte: tradução livre de El Tiempo

domingo, 31 de janeiro de 2021

A Minoria Torpe que Pensa Ser Dona do Brasil

por Luiz Carlos Nemetz
Quem conhece um pouco da história do Brasil, sabe que desde Getúlio Vargas uma casta política tomou as entranhas do poder no Brasil e segue encravada nele até hoje.
Uma imensa minoria egoísta, atrevida e sem limites que pensa serem os donos do país.
São pequenas oligarquias que chamo de aristocracia medieval brasileira.
Pequenos exemplos: Fernando Henrique Cardoso é filho e sobrinho de generais que conspiraram para derrubar Getúlio, levando-o ao suicídio, por terem seus interesses pessoais contrariados.
Rodrigo Maia é genro do genro do genro de Getúlio. O líder gaúcho que criou essa cultura. Dava cartórios, capitanias hereditárias e sustentava a imprensa para conseguir governar.
É um grupelho acostumado no bem bom. Quase sempre líderes sem votos, mas hábeis na arte da malandragem (andar pelo mal), da chantagem, do compadrio, do aparelhamento das estruturas do Estado, que se perpetuam ao longo das décadas agarrados as mamatas e gordas mordomias vidas do poder público.
O mais hábil destes grupos tem sua gênese na ala ruim da antiga UDN (que tinha uma ala boa), ainda viva e atuante como a velha “banda de música”, sempre prontos para em simuladas contendas, tomarem o poder na mão grande, criando crises artificiais para dividir o butim. Que quando não conseguem o que querem, partem para derrubar governos.
Fizeram o levante militar em 64. Deram o tapa, mas depois, esconderam a mão, quando viram seus interesses e o acesso ao baleiro ser dificultado.
São malabaristas na arte da manipulação. Na sua grande maioria são líderes com grande repulsa popular, figuras abjetas. Põe a frente para representa-los líderes de ocasião aos quais comandam com rédeas curtas, espora e mango via das “instituições” das quais nunca desgrudam, como o comando do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal.
Aliaram-se a democratas legítimos se passando por eles para restabelecer a democracia quando perceberam que poderiam novamente montar no petiço e mamar nas gordas tetas do erário no movimento das Diretas Já.
Levaram sorte e um dos seus mais representativos líderes, Sarney, num acaso do destino abocanhou o poder.
Ato seguinte, sob os auspícios de Roberto Marinho, levaram um inconsequente à Presidência. Fernando Collor de Mello, Filho de Arnon de Mello (Ministro de Getúlio), embaixador da família global na então capitania hereditária das Alagoas.
O jovem tresloucado chutou o balde e quis reinar sozinho. Dividiram-se. E, insatisfeitos com a partilha do poder, derrubaram o caçador de marajás sem dó nem piedade.
Sempre sob a editoria da Globo, elegeram o maior enganador que o país já viu: Fernando Henrique Cardoso, cuja maior habilidade é sempre falar sem dizer absolutamente nada. Mas como vive bem essa peça...
Sem líderes para suceder aquele que melhor distribuiu o butim, perceberam que ninguém mais seguraria Lula depois de ter sido derrotado em 3 eleições seguidas.
O líder operário, vadio, guloso, caipira, radical, percebeu que perderia novamente se não aderisse às dinastias que mandavam no Brasil.
Transmutou-se em “Lulinha paz e amor”, que se revelou um misto de comunista inculto e analfabeto com capitalista ganancioso.
O sapo barbudo cumpriu o dito de Maquiavel e se aliou aos adversários de fígado. E vice-versa. Cada lado com o claro propósito de enganar uns aos outros.
Por meio de juras recíprocas Lula acenou com obediência. E os conspiradores deram-lhe apoio. Lula partilhou o Estado e o afano comeu solto.
Falso líder, vaidoso e com ambição desmedida, Lula levou os seus ao poder. E a petezada conheceu o pistache, os bons vinhos, as lagostas e “dolce far niente”. E se lambuzaram ficando sem unhas de tanto raspar os cofres. E pouco a pouco foi colocando os oligarcas de lado, substituindo-os aqui e ali no começo, e por todos os lados no fim, no comando do erário.
A Dilma foi uma espécie de sucessora hereditária deste reino com muitos reis. As coisas saíram do controle. Derrubaram-na.
Hoje podemos perceber que neste teatro de operações foram inseridos vários líderes e peças chaves.
Somente para não deixar sem registro, surge o juiz paladino, Sérgio Moro, que hoje se sabe, agiu a serviço e a mando da casta, para cumprir o papel bem desenhado, legitima e seletivamente bem feito, de cortar a cabeça das serpentes que saíram do controle e quebraram os acordos de partilhar a pacoteira de dólares.
Ávida a minoria egoísta que se move somente pelas vantagens, ensaiou novos líderes. Contudo, nunca, jamais, em tempo algum, tiveram por foco o bem-estar do povo ou a felicidade geral da nação.
De cheiradores a bons moços de fala mansa, buscaram fabricar líderes que tentaram ser levados a sério, buscando engodar o eleitorado como os artistas de circo e de espetáculos saltimbancos fazem com suas plateias.
Tudo com um só objetivo: assegurar a preservação dos seus interesses e seguir no controle do poder central, seus ministérios e empresas públicas.
Mas eis que surge um “offside” com o qual não contavam e que não aparecia nos radares dos mais hábeis analistas. É Bolsonaro.
Tentaram de todas as formas não deixar acontecer a candidatura. Buscaram derrotá-lo nas urnas. Agora, sob o perverso código de honra que sempre une os conspiradores, tentam impedir que governe, buscando confiscar seus poderes com machadadas seguidas de machadadas.
Nesta altura da história os camaleões já tinham duas cabeças: a de sempre e a nova representada pela união retrógrada da desmoralizada esquerda. Mas o que se vê é que a aliança do mal está dividida e dissipada ainda que o PT e PSOL se abracem tentando botar fogo no circo onde tem uma baleia adestrada.
Todos sabiam, como ainda sabem, que um governo de um líder independente, patriota, com significativo e participativo apoio popular, seria o fim do jogo de cartas marcadas.
A esquerdalha perdeu a boquinha. As castas corruptas e oligarcas usaram da inteligência de sempre. Acionaram seus tentáculos de várias formas para por a encilha no burro indomável.
Foram de Sérgio Moro de infiltrado no governo a dissidente em bulha ao controle do Congresso. Sempre tentando impedir o Governo de governar.
Do terrorismo diuturno e ininterrupto da mídia que míngua sem o abastecimento das gordas verbas de publicidade ao mais indecente e escancarado ativismo judiciário jamais visto na história da nossa República.
E seguem tentando de todas as formas possíveis e imagináveis refazer o sistema podre.
Mas, apesar dos defeitos, da falta de polidez e por vezes até da aparente (mas não real) inabilidade política, estamos vendo o aperfeiçoamento do governo.
Se não como sonhamos, mas como está sendo possível. Está diante de nós a extinção dos privilégios, a ausência de corrupção, o cumprimento das promessas e compromissos de campanha, ungidas pelas urnas.
Sem caça às minorias, sem racismo, sem machismos, tudo dentro de uma enorme paciência de Jó, fôlego de gato e normalidade constitucional e democrática.
Bolsonaro cumpre a missão que tem pela frente se mostrando um paciente reformador. Não um rei ditador e déspota, mas um líder “reinento” que não teme a repressão de uma minoria autocrática.
Um Presidente que não cede à violência da ameaça revolucionária.
Que mal ou bem, com acerto e erros, passa à nação uma sensação de virtudes cívicas e de patriotismo nunca vistas nos últimos séculos.
É de surpreender? Sim, é! Tentam de todas as formas apagar-lhe a chama.
Ora com a libélula cintilante como lantejoulas expostas ao sol, vestido com suas calças apertadas e portando-se como um homem dama em constante estado de TPM e de conspiração como é o caso do tresloucado João Dória.
Ora com as editorias mordazes, desleais da rede Globo e do seu patético grupelho de palpiteiros comentaristas.
Olhemos pela janela. E observemos: quem é que brada? Seguramente quem perdeu uma bocada ou uma boquinha é que está latindo ou uivando. Ou quem não tem leitura política nem percepção histórica. Observem um por um.
A verdade é que hoje temos um governante que mesmo transpassado pelas setas (e pela faca) dos seus inimigos, tal qual como São Sebastião, defende com um sorriso por vezes desnecessariamente provocativo, a sua autoridade com todos os parcos recursos dos quais dispõe. Mas, dentre eles, ainda detém o mais poderoso fuzil que existe numa democracia: o apoio popular expresso pela única arma da qual deixaram o homem comum ser portador: o voto!
Esperemos para ver! Quem está ao lado da nação e tem a nação ao seu lado, não vai ceder para as intrigas de gabinetes, aos conchavos dos partidos, aos interesses dos corruptos e corruptores, às editorias de jornais falidos e sem credibilidade, ou aos conspiradores em desespero. Bolsonaro, como diria Churchill quando se referia à Laurence da Arábia:
“O mundo sente, não sem uma certa apreensão, que ali está alguém de fora de sua jurisdição; alguém diante do qual as tentações podem-se espalhar em vão; alguém estranhamente emancipado, indomável, descompromissado com convenções, movendo-se livre das correntes da ação humana; um ser capaz, num ápice, da mais violenta revolta ou de um sacrifício supremo; um homem solitário, austero, para quem a existência não é senão um dever, e dever para ser fielmente cumprido”.
Alguns podem achar ruim com ele. Mas todos teriam a certeza que seria muito pior sem ele.
COMENTO: discordo da primeira frase. A casta política que se adonou do Brasil vem desde as Capitanias Hereditárias. Uma análise genealógica das pessoas que mandam e desmandam no país, apontará raízes profundamente derivadas dos doze donatários enviados por Portugal no Século XVI. Assim, podemos restringir o conteúdo do texto como atinente à nossa elite emergente no Século passado, totalmente desprendida da História e do futuro do Brasil.