domingo, 28 de agosto de 2022

O Dia em que Começou a Independência do Brasil

por Percival Puggina
Há exatos 200 anos, no dia 28 de agosto de 1822, chegou ao porto do Rio de Janeiro um navio português. Chamava-se Três Corações, nome sugestivo quando faz pensar no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, que se romperia com as determinações que vinham a bordo. Eram ordens alarmantes expedidas pelas Cortes Extraordinárias da Nação Portuguesa.
O príncipe D. Pedro, regente, que desatendera exigência anterior de voltar a Lisboa, teria suas atribuições limitadas ao Rio de Janeiro e perdia a condição de regente. Seus ministros seriam nomeados em Portugal. Seus anteriores “Cumpra-se”, cancelados. As demais províncias se reportariam diretamente a Lisboa. O Brasil perderia seu status e se converteria, na prática, em colônia portuguesa. Entendiam os constituintes lusitanos que nossa economia deveria suprir urgências da nascente monarquia constitucional portuguesa cujas dificuldades fiscais e pobreza eram atribuídas aos “privilégios” a nós concedidos pela família real.
Até então, o Brasil nunca fora, uma “colônia”. Os documentos oficiais sempre se referiam ao Brasil como Estado do Brasil (e, desde 1645, como Principado do Brasil). Vigoravam aqui as mesmas Ordenações Filipinas vigentes em Portugal, utilizadas até a promulgação do nosso próprio Código Civil, em plena República, no ano de 1921. O Brasil era tão membro do reino que nossas províncias tinham direito a 70 representantes nas Cortes Extraordinárias. Quarenta e nove foram para Lisboa, mas chegaram tarde e não conseguiam ser ouvidos.
As Cortes, instituídas em 1821 como desdobramento da Revolução do Porto (1820), haviam sido saudadas, em todo o reino, como adequação portuguesa ao modelo das monarquias constitucionais em generalizado processo de adoção pelas dinastias europeias. No entanto, seus membros, entre os quais os portugueses eram amplamente majoritários, não olhavam para o Brasil com olhos fraternos. Precisavam de soluções econômicas brasileiras para as dificuldades de Portugal.
As determinações desembarcadas no dia 28 de agosto surtiram efeito contrário. Acionaram o gatilho da nossa independência como nação soberana.
Os cinco dias seguintes foram de nervosos entendimentos no Conselho de Ministros, sob a liderança de D. Leopoldina, que estava no exercício das funções de regência, e José Bonifácio. No dia 2 de setembro, D. Leopoldina assinou o decreto de Independência. Após estafante cavalgada em que 500 quilômetros foram vencidos em cinco dias, chegaram a D. Pedro as notícias e o apelo de José Bonifácio. O resto todos sabem.
Escrevo estas linhas em homenagem a duas figuras — Bonifácio e Leopoldina — que deixaram de ser exaltadas pelos nossos contadores de História, mais preocupados com buscar o pouco que nos divide do que em apreciar o muito que nos une como nação. Estamos colhendo os frutos desse maligno trabalho.
Os portugueses defendendo o território; D. João VI trazendo a sede do reino para o Brasil; D. Pedro, D. Leopoldina e José Bonifácio fazendo nossa Independência, mantiveram o Brasil territorialmente unido.
Juntos pelo Brasil no 7 de setembro!
Percival Puggina é membro da Academia Rio-Grandense de Letras, arquiteto, empresário e escritor.
Fonte: Atualização de postagem

domingo, 21 de agosto de 2022

A Duvidosa Estória da Espiã Que se Infiltrou nas FARC

Magaly tem 17 anos e chegou à Colômbia em 6 de novembro de 2021. Diz que passou um mês usando eletrônicos para que a Polícia localizasse o líder da coluna móvel Franco Benavides.
FOTO: copiada de vídeo - Cortesia.
por Javier Alexandre Macias
Na noite em que Magaly* recebeu o envelope de dinheiro, se sentiu a mulher mais feliz do mundo. Não lembra o dia da semana, a única coisa que recorda é que não conseguia lidar com tantas notas: as mãos tremiam enquanto agarrava a sacola, os olhos dispersos olhavam para todos os lados, vigiando para que não chegasse ninguém para roubar o que era dela, e quando tentou ir guardar tanto dinheiro, seus pés não responderam bem e ela terminou de bruços no solo.
Nessa noite correu tanto para se esconder, que quando caiu da cama e abriu os olhos, se liberou rapidamente da almofada que tinha apertada contra o peito e com amarga dor descobriu que só havia sido um sonho. Mas não se desesperou. Na penumbra, seguiu sonhando desperta. Sonhava com o carro que sempre havia querido, sonhava tirar sua irmã do bar de má fama em que trabalhava lá em Nariño desde que deixaram seu país, e sonhava com uma moradia rodeada de luxos para sua mãe.
Distraída pelos pensamentos Magaly* foi surpreendida pela alvorada. Sabia que com os 120 mil dólares (504 milhões de pesos colombianos) que receberia se cumprisse o trabalho proposto, arrumaria a vida dela, de sua pequena de 3 anos e de toda sua família que havia ficado em seu país.
O que Magaly* não desconfiara nas noites de insônia que se seguiram a quando disse sim ao contrato, era que matar um homem custasse tanto, e muito mais o que lhe haviam ordenado assassinar: o chamado "Marlon", comandante da coluna Franco Benavides, das dissidências de as FARC.

Seus dias na Colômbia
Com a promessa da terra prometida, Magalychegou à Colômbia em 6 de novembro de 2021. E foi para Policarpa, Nariño, onde sua irmã trabalhava como garçonete em um salão de bilhar.
Como decidi trabalhar fui fazer uns exames. Usei o nome de minha irmã mais velha para poder começar a trabalhar em um clube. Como as enfermeiras conheciam minha irmã, elas avisaram a SIJIN (Secional de Investigações Judiciais da Polícia Nacional) e me levaram para a Fiscalía (Procuradoria) porque sabiam que não era eu no documento nem tinha essa idade. Fiquei um mês presa, me soltaram com a obrigação de que minha irmã se responsabilizasse por mim. Me levaram para a delegacia de Policarpa, Nariño” relata Magaly*.
Durante os 30 dias que esteve atrás das grades, Magaly*, de 17 anos de idade e figura miúda, só pensava no que iria fazer quando saísse da prisão. No dia em que a libertaram se foi com sua irmã ao local conhecido como La Playa para fumigar coca, mas o odor dos produtos químicos fazia arder “suas narinas”, então decidiram deixar o emprego e  foram trabalhar em um outro local.
Enquanto laborava em seu novo trabalho, uma mulher cuidava de sua filha. Em um descuido da babá, a pequena deu uma cambalhota, e terminou com a cabeça sob a cama e com um hematoma que provocou sua internação por um mês na clínica infantil de Pasto.
Mas como as dores continuaram, o choro da menina se tornou entre anormal e insuportável e Magalyterminou, outra vez, no hospital. Tivemos que levá-la a Pasto e a hospitalizaram no Infantil. Estive um mês com ela, recorda.
A longa estadia em Pasto pareceu curta a Magalypor uma razão: o amor que acreditava ter se extinguido pelos maltratos e má vida que  seus dois companheiros anteriores lhe deram, renasceu quando um agente da SIJIN, que havia conhecido em dezembro em uma discoteca, a encontrou no hospital.
Nossa relação seguiu normal. Um dia me disse que tinha uma  proposta que iria me agradar, algo que ia ser bom para mim economicamente, para sair da situação em que estava, conta.
Mauricio, como chamaremos o investigador da Polícia, cortejou Magalyaté que uma tarde revelou o que ela não esperava, mas ele tinha planejado milimetricamente.
Ele me disse que a proposta era eles me darem 120 mil dólares para que eu ingressasse nas FARC-EP e entregasse cinco comandantes que estavam prejudicando o povo. Como estava necessitada, disse que sim, e depois contei a uma de minhas irmãs e ela me disse que não; eu liguei para ele e disse que aquilo era ruim e que eu não distinguiria as pessoas que deveria entregar, e ele me disse: bem, és tu quem perde”.
Passaram quinze dias daquela declaração, que não foi precisamente de amor, conta Magaly*, que uns agentes da SIJIN a procuraram. Me disseram que se não colaborasse me separavam de minha filha. Tive que me meter nas matas, disse.

Assim ela se infiltrou
Na noite em que Magalydecidiu infiltrar-se como espiã nas fileiras das dissidências das FARC, intuiu que aquele poderia ter sido seu último dia de vida sobre a terra.
Com dor no peito, a jovem de 17 anos se despediu mentalmente de cada um dos integrantes de sua família. Chorou por sua filha que, segundo conta, ficou nas mãos do ICBF, e apresentou-se cedo à SIJIN.
Sem entender o que se passava, Magalyfoi recebida por mais de 15 homens que vociferavam em um salão. Todos ditavam instruções, até que um deles, se acercou e explicou qual seria sua missão.
Ela teria três meses para entregar a eles cinco líderes do grupo dissidente. Os prazos foram determinados em um por mês, e nos primeiros 30 dias ela teria que entregar o chefe principal, vulgo “Marlon”.
Com o plano em sua cabeça, e ao melhor estilo de um filme de espionagem, entregaram a Magalyum par de brincos que serviriam de microfones e, ao mesmo tempo, para ela ouvir. Eram pequenos e pretos e eles me rastreavam onde eu estava. Me escutavam todas as conversas que tinha e as registravam em um computador, diz; e no cotovelo esquerdo lhe implantaram um chip sob a pele para saber como, quando e para onde se movia.
Pensei que a missão seria fácil e que fazer as sabotagens também. Me disseram que a ideia era que eu poderia ir para a cama com um dos comandantes para eu mesma mata-lo e eles fariam o desembarque. Me tocava cativa-lo e mata-lo. Eu não planejei, essa foi a instrução que eles me deram e, como me haviam tirado a menina, eu decidi pois por minha filha faço o que seja; e então, eu estive com o comandante”, conta Magaly*.
Com os apetrechos prontos, a jovem caminhou varias horas até onde sabia que estava o grupo armado ilegal. Ao achar os primeiros homens armados, disse que queria ingressar na quadrilha. Preguntaram por que, e ela respondeu que estava cansada dos maltratos e também necessitava dinheiro para levar comida a sua casa. A partir daí, puseram um quadrilheiro que vigiou todos seus passos e se converteu como sua sombra.
O olheiro, um homem experto nos pormenores da guerra, começou a notar que cada vez que Magalyse isolava os helicópteros voavam baixo e sentiam que as tropas se aproximavam “respirando-lhes na nuca”.
Magalytambém notou que o dissidente começou a segui-la mais que o normal e se encheu de temor, então, na primeira oportunidade avisou aos da SIJIN que não continuaria com o plano para matar “Marlon”.
A jovem equatoriana convertida em espiã, aproveitou um castigo aplicado por insubordinação (?) e se foi até o rio. Subiu em uma canoa tirou os brincos e os lançou ao rio. Depois, com um bisturi fez uma pequena incisão no braço, que cobriu com o uniforme e tirou o chip rastreador, enterrando-o na margem do rio. Desde esse dia e como em um ato de desespero ao perder o contato com a infiltrada, começaram a sobrevoar a baixa altura e a desembarcar tropas, mas as dissidências se moveram selva adentro para evitar o confronto.
Nas palavras da jovem: “Somente uma vez bombardearam e tentaram um assalto. Nós nos movemos para a montanha. Quando me mandaram para baixo subi na canoa os joguei (brincos) no rio, um deles me indagou que por que me desfazia dos brincos e respondi que era porque estavam velhos e oxidados”. Depois daquele episodio, o combatente informou a Marlon, e ele deu a ordem de que algemassem Magaly*. Ela ficou assim durante um mês amarrada a um pau.
Diga a verdade, diga a verdade e te pouparemos sua vida”, recorda a adolescente que lhe diziam, mas ela só desejava que a “atirassem no buraco porque de todas formas iam me matar fora ou lá dentro”.
Contrariando seus pedidos, o tal Marlon decidiu não fuzilar Magaly*, como é norma nos grupos criminosos fazer com quem os traem. Em vez disso, decidiu entregar a garota ao CICR (Comitê Internacional da Cruz Vermelha) no passado dia 5 de agosto, como registraram em um vídeo que publicaram.

La columna móvil Franco Benavides, del Comando Conjunto de Occidente, hacemos (sic) entrega de la menor MBDP, identificada con el número 33... al Comité Internacional de la Cruz Roja, CICR, en perfectas condiciones de salud para que se inicien los trámites pertinentes para su deportación”, diz o comunicado.
De Magalynão se sabe hoje a sua localização. Antes de ir-se assegurou que depois de ter uma segunda oportunidade sobre a terra, não quero voltar a meter-me nunca em nenhum grupo armado.
* Nome trocado por segurança.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: Brincos com transmissores? Chip com localizador? E as baterias para fornecer energia? A "menina", com 17 anos  um histórico de dois ex-companheiros, e uma filha de três anos  foi para a Colômbia seguindo uma irmã, tendo a mãe e o "restante da família" (inclusive a filha de três anos) ficado no Equador. Depois, a criança aparece com ela, mais uma "irmã mais velha" que a aconselha não aceitar a aventura. Por fim, ninguém com um mínimo de conhecimento do assunto, realizaria um "recrutamento" de forma mais atabalhoada. A história, muito mais romanceada do que o normal, parece uma narrativa marqueteira com o objetivo de mostrar os narcoterroristas remanescentes das FARC como bons meninos que evitaram "prejudicar" a jovem equatoriana. Esperei alguns dias e, como não houve desmentidos sobre o caso, estou publicando este texto só como "fato curioso", e para não perder o trabalho da tradução.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

A Geopolítica dos Semicondutores


A competição estratégica pela fabricação e comercialização dos semicondutores, mais conhecidos como chips, é cada vez mais intensa entre potencias como China e Estados Unidos, Taiwan, Coreia do Sul ou Japão.
A geopolítica impacta em nossa vida diária e a competição estratégica a nível global pelos semicondutores, também. Para entender como os semicondutores influem na nossa, é só pensarmos que em cada vez que nos comunicamos com alguém através de nosso dispositivo eletrônico ou que esperamos dele uma resposta instantânea, conforme as instruções que a ele são dadas, há o trabalho de um semicondutor por trás, na maioria das vezes.
Como nuance de atualidade, destacamos a recente aprovação nos Estados Unidos de uma “Lei de Chips” para promover a produção local de semicondutores e competir com a China, em um capítulo mais da guerra tecnológica entre os dois países.O resultado definirá o equilíbrio global de poder durante décadas e impactará na segurança e na prosperidade de todos os estadunidenses”, disse o senador republicano Roger Wicker, um de seus maiores promotores.
Por desgraça, neste momento, não estamos no banco do piloto em uma variedade de tecnologias importantes. Os chineses, sim. China e outras nações são, de forma cada vez mais destacada, os dominantes em inovação tecnológica, o que supõe um risco enorme não só para nossa economia, senão para nossa segurança nacional”.
Além disso, como indica o Diretor de LISA Institute, Daniel Villegas, no Twitter os semicondutores também jogam um papel no conflito entre China e Estados Unidos no Pacífico.
A posição de Taiwan não só é estratégica no tabuleiro internacional, a ilha também é chave pelos produtos tecnológicos que gera, que são vitais para o Ocidente, entre os quais se encontram os semicondutores ou chips.
Segundo explica Isabel Valverde em El Orden Mundial, que os semicondutores estejam no centro da corrida geopolítica do século XXI é devido ao boom tecnológico. “Salvando as distancias, se o carvão foi o combustível da primeira Revolução Industrial, os semicondutores são os propulsores da revolução tecnológica atual. Os avanços nesse setor aumentam a produtividade no resto da economia”, resume Valverde.
A colaboradora de EOM, que participa na equipe docente do Máster Profesional de Analista Internacional y Geopolítico de LISA Institute, também destaca a importância dos semicondutores no âmbito militar. “O mesmo ocorre com as aplicações militares: todo exército moderno necessita chips para seguir desenvolvendo-se. E o valor estratégico desses componentes aumenta na medida em que seus usos crescem em variedade e sofisticação”, acrescenta.

¿E o que é um semicondutor?
O dispositivo que busca quantifica, otimiza e entrega os resultados desejados, na maioria dos casos é um semicondutor”, explicam desde a empresa de processadores AMD que consideram que os semicondutores, também conhecidos como chips, são o “cérebro da eletrônica moderna”.
Os semicondutores são circuitos integrados (CI). Quer dizer, um conjunto de circuitos eletrônicos compostos por vários dispositivos, que estão interconectados entre si e sobrepostos em uma estrutura de material semicondutor, onde o silício é o mais utilizado, por seu preço.
Os semicondutores são um componente básico em dispositivos eletrônicos como computadores, smartphones, consoles de videojogos, etc. Quando utilizamos nosso computador para reservar nossas férias online, buscar recomendações sobre um restaurante ou, inclusive, ver um filme na Netflix a unidade de processamento central (CPU) e a unidade de processamento de gráficos (GPU) do semicondutor do equipamento executam funções de cálculo que transformam as perguntas em respostas no instante.

Fonte: AMD
Para os mais técnicos, destacamos que os semicondutores podem ser classificados em três categorias: semicondutores lógicos, fundamentais para a computação, onde se incluem microprocessadores, micro controladores, chips WiFI ou Bluetooth ou controladores Ethernet; memorias de semicondutores, como as memorias DRAM e NAND; e os semicondutores DAO (Discretos, Analógicos e Opto-eletrônicos), que transmitem, recebem e transformam informação relacionada com parâmetros, como temperatura.
A produção de semicondutores é um processo complexo que maneja prazos de execução extensos e uma grande quantidade de capital, variando os tempos de produção entre três e cinco anos desde a investigação inicial ao produto final.

O mercado global dos semicondutores
A importância dos dispositivos semicondutores fez da produção do silício e do resto dos materiais necessários para sua fabricação um campo de competição geopolítica. Os semicondutores são o quarto produto mais comercializado do mundo e sua cadeia de suprimento está baseada na especialização dos países que os comercializam. Estes são Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, China e Taiwan, assim como a União Europeia.
Na atualidade, cada país se especializa em uma parte da cadeia de produção dos semicondutores. Por exemplo, enquanto os Estados Unidos lideram as atividades mais intensivas em I+D (Pesquisa=Investigação e Desenvolvimento), como a automatização de projetos eletrônicos, Coreia do Sul e Taiwan estão imersos na fabricação de pastilhas de silício. China é o terceiro país na lista dos produtores de semicondutores, apesar de não ter nenhuma das principais empresas que os desenvolvem.
Inicialmente, as empresas da industria dos semicondutores seguíam uma estrutura vertical, que lhes permitia realizar todas as etapas da produção, desde o desenho até a fabricação e venda.
Conforme expõe Jose Matos em Decifrando a Guerra, este era o caso de empresas como Intel, líder mundial em volume de ventas de chips, a sul-coreana Samsung ou Texas Instruments. Entretanto, a partir de 1987, surgiu um novo modelo de produção, baseado na distribuição da fabricação de semicondutores.
As empresas estadunidenses investiam no desenho, na propriedade intelectual e no desenvolvimento de equipamentos de fabricação. Enquanto isso, Taiwan abrigava as cinco maiores fundições do mundo.
Fonte: Decifrando a Guerra
Atualmente, a China é o principal consumidor de semicondutores no mundo, acima dos Estados Unidos, e a porcentagem que ocupa no mercado de fabricação, alcança os 15%. Por sua parte, os Estados Unidos planejam investir uma grande quantidade de dinheiro e atrair às grandes empresas fabricantes, como TSMC e Samsung, para território americano.
Estados Unidos chegaram a produzir 40% dos semicondutores do mundo, mas agora só alcançam 12% deles, tendo perdido sua hegemonia em favor de países como China, Coreia do Sul ou Taiwan.
A Europa depende do desenho industrial estadunidense e asiático para a produção dos semicondutores, pois não há instalações fabris na Europa. Sua participação no mercado de fabricação chegou a ser de 44% nos años 90 mas na atualidade alcança apenas os 9%.
Outro fator desta competição geopolítica é a escassez mundial de semicondutores ou “Chipgeddon”. Segundo os expertos, as principais causas desta situação estariam relacionadas em sua versão mais simples por um excesso da demanda dos dispositivos eletrônicos, as dificuldades surgidas na pandemia de COVID-19 e as peculiaridades da cadeia da produção global e suprimento.
Neste contexto de “escassez” destacamos a corrida geopolítica pela autossuficiência em relação à explosão da demanda de, principalmente, China, Estados Unidos e a União Europeia. Profissionais do setor, como Intel e AMD, tem feito projeções sobre quando a indústria de semicondutores se recuperará desta escassez mundial de chips. É consenso que durará até 2023.

Competição geopolítica dos semicondutores
Como explica EOM, o marco do enfrentamento comercial e tecnológico existente entre China e Estados Unidos, se encontra na denominada “guerra de chips”. Este conflito se intensificou durante o mandato de Donald Trump, que em 2020 sob o pretexto de uma ameaça para a segurança nacional, concebeu um projeto para eliminar os componentes chineses dos dispositivos estadunidenses. O ex-presidente chegou a proibir o uso de dispositivos de marcas chinesas, como Huawei ou ZTE entre os membros do Governo.
TrendForce. Reprodução: Poder360
Por sua parte, a China vem intensificando o desenvolvimento de sua indústria de microchips e fundou a empresa SMIC, cuja participação no mercado de fabricação é de 5%. Coreia do Sul e Taiwan, tem se mostrado reticentes a comercializar com a China.
Por outro lado, Japão e Coreia do Sul, tiveram uma disputa comercial em 2019 que afetou o setor dos microchips. O Japão restringiu a exportação de determinados componentes essenciais para fabricar semicondutores, sob o pretexto de que poderiam ser utilizados com fins militares por outros países que comprassem da Coreia. Desta forma, se viu afetada a indústria sul-coreana, pois não contavam com alternativas para manter seu nível de produção.
Álvaro Sánchez, correspondente de El País, declarou que os semicondutores pertencem a um “setor com uma indústria rígida”, com pouca adaptabilidade para atender as mudanças na oferta e demanda. O setor também conta com condições particulares de produção e a necessidade de ingentes investimentos, assim como da cada vez maior necessidade de semicondutores por dispositivo.
São vários os fatores que condicionam uma indústria cada vez mais necessária, mas que segue limitada a produtos específicos. Sob estas condições, a ameaça geopolítica também aumenta, pois ante a tensão entre China e Estados Unidos durante a administração Trump, as cadeias de suprimento global se viram ameaçadas”, explica.
Isabel Valverde, colaboradora de EOM e do Observatório da Política Chinesa, afirma que a disputa pelos semicondutores é “como a corrida geopolítica do século XXI, junto a outros recursos como as Terras Raras ou a água. Sendo propulsores da revolução digital atual, os semicondutores não são um item substituível”.
*Colaboradora de LISA News.  Especializada em Estudos Internacionais e Ciência Política. Interessada em Segurança Internacional, processos de paz e de resolução de conflitos internacionais.
Fonte:  Lisa News

domingo, 7 de agosto de 2022

Crescimento da Economia na Colômbia

Narcotráfico cresce como nos tempos de Pablo Escobar, ¿Quem o deterá?
O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente de Ecopetrol, um dos economistas mais importantes da Colômbia, analisa o crescimento da produção de cocaína — 8,6 kg por hectare — no país.
Os cultivos, como o da foto no Norte de Santander, se traduzem em uma vida de ricos para narcos disfarçados de “novos ricos”, como o recente caso de Falcon, extraditado aos EUA.
por Juan Carlos Echeverry
(@jcecheverryCol)
Desde os tempos de Pablo Escobar, lá pela década de 1980, o tamanho do negocio da cocaína na Colômbia nunca foi tão grande como aparentemente é agora. A informação das Nações Unidas (UNODC) é preocupante: em um lustro Colômbia passou de uma produção potencial de 290 toneladas métricas (tm) de cloridrato de cocaína puro para 1.200 tm (ver Gráfico 1).
O Departamento de Estado dos EUA tem uma estimativa distinta, como aparece no mesmo gráfico, ainda que não menos preocupante, pois estaríamos a cerca de 970 toneladas métricas de cocaína neste ano (todas as projeções de 2022 são feitas por EConcept com base em diversas fontes).
Como se vê nas duas linhas do Gráfico 1, o crescimento acelerou entre os anos 2013 e 2017. Mais tarde, basicamente se manteve estável a produção, apesar dos aparentes esforços para combatê-la. Se corretas estas cifras, a produção se quadruplicou em menos de cinco anos. É o único sector produtivo da Colômbia com semelhante capacidade de crescimento. Cabe recordar que boa parte de sua atividade ocorre na selva, sob terríveis condições de segurança.
Segundo a ONU, a produtividade estimada de cocaína é de 8,4 kg de cocaína/hectare colhido de folhas de coca, e vai em constante aumento. ¿Quais são as rotas para a exportação? 74% pelo Pacífico, 16% pelo Caribe e 8% por Venezuela.
¿Quanto pode retornar dessa produção para a Colômbia? Segundo estimativas, o preço no atacado oscila entre 7.500 e 10.000 dólares por kg de cocaína pura entregue em alto mar; entre 7,5 e 10 milhões de dólares por tonelada (ver Gráfico 2).
Em consequência, a produção potencial da Colômbia, ao ano valeria entre nove e onze bilhões de dólares (Gráfico 3). Naturalmente, disto se deve subtrair a cocaína apreendida, se realmente ela não volta ao mercado. Para efeitos comparativos, tomaremos o ponto médio destas duas estimativas de ingresso potencial, ou seja, dez bilhões de dólares por ano, na atualidade. Tenhamos em conta que se trata de estimativas e números grosseiros.
Se compararmos esse fluxo potencial de dólares por cocaína com as entradas legais de dólares na Colômbia estimadas para o fim de 2022, o tráfico de cocaína seria na atualidade a terceira fonte de ingressos, depois da exploração do petróleo e o carvão, e das exportações agropecuárias e manufatureiras; e estaria acima das remessas, que se encontram em níveis recorde (que se acercam a nove bilhões de dólares), e o turismo, que também vem se recuperando (Gráfico 4).
De fato, 2022 será um ano recorde de ingressos do exterior, pelas diversas fontes. Podemos dizer que a soma de todos os valores do que vendemos, com o que nossos compatriotas enviam desde o exterior, disparou em 2022. Parte da razão é a boa sorte, que sempre nos acompanha na saída das crises.
Com efeito, o Gráfico 5 mostra que os preços de alguns produtos básicos que exportamos se acham em níveis recorde. Não nos alegremos da boa sorte. A guerra na Ucrânia fez disparar os preços da energia, assim como fenómenos climáticos tem afetado os mercados agrícolas. Se bem que, também fez disparar a inflação, a qual não é benvinda, mas não faz parte do tema que nos ocupa.
Voltando à dinâmica das exportações ilegais, se pode dizer que, apesar da luta contra o narcotráfico e dos apresamentos, o tamanho do negocio da cocaína na Colômbia nunca foi tão grande como agora. Seu poder pode ser tão devastador ou desestabilizador como foi nos tempos de Pablo Escobar e o cartel de Cali. Naquela época, chegou a ser 3% do PIB, e, na atualidade estamos próximos a esse nível.
¿O que pode passar para o futuro? Os preços da cocaína parecem estar no auge, da mesma forma que os de outros produtos básicos. O Gráfico 6 mostra um forte aumento em finais da década passada; esses preços indicariam que se manter-se o imenso incentivo de rentabilidade da cocaína, isso seguirá representando uma seria ameaça para a estabilidade política nas regiões pacífica, sul, oriental e norte da Colômbia.
Uma última reflexão surge ao observar o Gráfico 4. Se forem mantidas as tendências observadas no primeiro semestre de 2022, e ao final do ano se materializa o cenário projetado nessa imagem, Colômbia estaria experimentando em 2022 a maior bonança externa de sua historia. Se esse fosse o caso, ficaria por explicar um aparente paradoxo: ¿como se pode estar desvalorizando o peso colombiano e encarecendo o dólar, em circunstancias de uma bonança externa legal e ilegal de semelhante magnitude?
Certamente, a resposta a essa questão se fixa em que a demanda de dólares está superando a oferta, por maior que esta seja. Apesar da imensa afluência, há mais gente tratando de guardar divisas no exterior, que os que estão tratando de trazê-las ao país. De fato, as importações estão disparadas, e o déficit da  Balança de Pagamentos se ampliou.
Isto indicaria que os colombianos que compram no exterior, e que até maio vinham adquirindo importações em níveis recordes, ou anteciparam uma desvalorização ou se juntaram a um suposto contingente de pessoas que estão sacando divisas (depositando no exterior).
Nesse sentido, há uma controvérsia sobre quanto se deve aos resultados políticos da Colômbia, e quanto se deve ao fenômeno internacional de aumento de juros pelo Federal Reserve dos EUA e ao fortalecimento global do dólar. O Gráfico 7 pode ajudar a responder essas perguntas. Todos os países do gráfico experimentaram alguma pressão de desvalorização. Foi mais forte para Chile e Colômbia, talvez pelos fenômenos políticos recentes. Mas a da Colômbia se manteve, indicando a presença de uma fonte interna que a diferencia dos demais. Bem poderia ser política.
¿Ou a bonança colombiana pode ter como fundo a lavagem de dinheiro?
Fonte: tradução livre de El Colombiano

domingo, 31 de julho de 2022

Zelensky e a Inteligência Ucraniana

Ainda nesta semana, Zelenski demitiu seu chefe dos Serviços de Inteligência, o nº dois do Conselho de Segurança Nacional e Comandante das Forças Especiais do Exército ucraniano.
Nesta semana, o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, demitiu o número dois do Conselho de Segurança Nacional e Defesa da Ucrânia, Mijailovich Dmchenko, e o Comandante das Forças Especiais do Exército ucraniano, Gregori Galagan.
No passado 17 de julho Zelenski anunciou ter destituído tanto o chefe do Serviço de Inteligência da Ucrânia (SBU), Ivan Bakanov, quanto a Fiscal-Geral do país, Irina Venediktova em um decreto presidencial.
No dia seguinte Zelenski anunciou que Ivan Bakanov — que, até então, formava parte do círculo mais íntimo do presidente ucraniano — seria substituído de forma “temporária” como chefe dos serviços de Inteligência.
Segundo o decreto publicado na web da Presidência da Ucrânia, Bakanov foi destituído de conformidade com o Artigo 47 do Estatuto Disciplinar das Forças Armadas da Ucrânia, que alude à falta de desempenho (ou desempenho inadequado de) deveres de serviço com o consequente custo de vidas humanas”.
Contudo, Zelenski publicou no Telegram que ambos estão acusados de protagonizar atos de traição contra Ucrânia após a divulgação de casos de funcionários ucranianos que presumivelmente colaboravam com a Rússia.
Em comentários publicados em “Kiev Independent”, Zelenski também teria revelado que as conexões que se registraram entre os empregados das forças de segurança da Ucrânia e os serviços especiais da Rússia apresentam perguntas muito sérias aos líderes relevantes.
Mais além das declarações sobre as suspeitas de “alta traição” de Zelenski no Twitter, a Presidência ucraniana reforça que os citados não estão exonerados, somente “afastados de seus cargos” enquanto é investigada sua implicação em supostos delitos de colaboração com o inimigo que teriam sido cometidos.
Segundo diversos informes mais de trinta anos depois da dissolução da União Soviética, os serviços de Inteligência russos e ucranianos tem mais em comum do que parece, sobretudo quanto à burocracia de estilo soviético e à corrupção interna.

¿O Ocidente pode confiar na Inteligência ucraniana?
Essas revelações poem à mostra o processo anunciado por Zelenski de “limpar” a possível presença da Rússia em seus círculos mais íntimos e, após os supostos casos envolvendo pessoal de Inteligência nos territórios ocupados pelos russos, que estariam colaborando com Moscou.
Segundo o técnico em Inteligência, Joseph Fitsanakis, a situação é “especialmente problemática” precisamente nas zonas sob controle russo. “A medida que os ucranianos comuns, assim como os funcionários do governo, estão tratando desesperadamente de sobreviver nas áreas ocupadas, enfrentam o dilema de deixar seus postos de trabalho ou continuar trabalhando com a esperança de receber um cheque de pagamento mensal muito necessário. Se elegem esta última opção, Zelensky e seu governo podem acusa-los facilmente de colaboracionistas”, explica em Intelnews.org.
Além disso, segundo Fitsanakis, este enfoque, somado às purgas na Ucrânia, pode criar as “condições previas de uma guerra civil” que “descarrilharia” os esforços ocidentais de apoiar a Ucrânia na guerra.
Expertos e analistas se perguntam se é legítimo desconfiar que os serviços de segurança e Inteligência da Ucrânia sofram intromissão russa, e até se podem confiar em seus homólogos ucranianos. A resposta é invariavelmente, não. De fato, sequer os próprios ucranianos estão em condições de confiar nos seus próprios serviços de Inteligência, declara Fitsanakis.
Neste sentido, é curioso como Zelenski, neste contexto de desconfiança de haver possíveis traidores em áreas sensíveis como a Inteligência ou a Segurança em seu próprio país, basearia suas decisões nas informações obtidas pelos serviços de Inteligência de outros países como Estados Unidos ou Reino Unido.
Recordemos que foram precisamente estes dois serviços de Inteligência os que majoritariamente alertaram sobre a invasão russa à Ucrânia, inclusive meses antes de que ocorresse, em uma estratégia de comunicação de Inteligência nunca antes vista.

Procedimentos penais relacionados com “alta traição”
Na mesma comunicação oficial em que anunciava a restrição de seu chefe de Inteligência, Zelenski também mencionava a detenção do antigo chefe do SBU para a Crimeia, Igor Kulinich, por imputação de traição. O presidente o havia destituído em março, a poucos dias de começar o conflito.
Os empregados da Oficina Estatal de Investigação junto com o Serviço de Segurança da Ucrânia detiveram o ex-chefe da Direção Principal do Serviço de Segurança da Ucrânia na República Autônoma da Crimeia. Essa pessoa foi despedida por mim no começo da invasão em grande escala e, como podemos ver, essa decisão estava completamente justificada. Foram recopiladas provas suficientes para indicar essa pessoa como suspeita de traição, declarou.
Todos os que, junto com ele formavam parte de um grupo criminoso que trabalhava em interesse da Federação da Rússia também terão que render contas. Se trata da transferência de informação secreta ao inimigo e outros fatos de cooperação com os serviços especiais russos”, disse.
Segundo o presidente ucraniano, até hoje se registraram 651 procedimentos penais relacionados com as atividades de traição e colaboração dos empregados das Procuradorias, os órgãos de investigação previa ao juízo e outros organismos encarregados de fazer cumprir a lei. “Em 198 procedimentos penais, se notificou a suspeita das pessoas pertinentes. Em particular, mais de sessenta empregados da Procuradoria e do Serviço de Segurança da Ucrânia permaneceram no território ocupado, e estão trabalhando contra nosso estado”, assegurou Zelenski.
Por último, o presidente ucraniano informou sobre a próxima nomeação de um novo responsável pela Procuradoria Anticorrupção do país, assim como o de uma agência adicional contra a corrupção, de caráter independente, tal como havia solicitado a presidente da Comissão Europeia, Úrsula von der Leyen, como condição para alavancar a adesão da Ucrânia à União Europeia.

Fonte: tradução livre de LISA News

terça-feira, 5 de julho de 2022

Eis o Que Pode Ser Nosso Futuro

A escola liberal preconiza, quase como dogma, que o Capital depende do Trabalho e vice-versa, estipulando um círculo virtuoso desta relação.
Este dogma não é absolutamente verdadeiro, vez que, sim, o Capital empregado na Economia Real, aquela vinculada à produção, tem a virtuosidade de acionar a Equação de Keynes: Emprego > Renda > Consumo > Lucro > Reinvestimento na Produção > Poupança > Produção > Emprego > Renda, e assim por diante, o que explica o ciclo virtuoso relacionado ao termo macroeconômico de crescimento econômico anual do Produto Interno Bruto (PIB), quando atrelado à Economia Real.
Contudo, quando se fala em Economia Financeira, o ciclo é vicioso e é a maior causa desta guerra que se trava, por enquanto, somente por enquanto, na Eurásia, entre Rússia e Ucrânia, que tende a se espalhar por toda a Europa, envolvendo diretamente a China e os Estados Unidos, numa guerra que promete ser nuclear, química e bacteriológica e que provocará, se acontecer, centenas de milhões de mortos.
Explico: A Economia Real tem lastro real, concreto, em moeda norte-americana, na casa aproximada dos 60 trilhões de dólares, enquanto os bancos alavancam um giro de cerca 300 trilhões de dólares, o que equivale dizer que a economia global tem 230 trilhões de dólares meramente contábeis, não físicos, e sim, virtuais, empenhados em títulos governamentais colocados no mercado.
Aí entra outro termo que sempre se ouve e pouco se explica, chamado “spread”, que nada mais é que o índice de risco dos títulos públicos de cada país, representados por seus bancos centrais.
Quanto maior o “spread” (risco), maior será a taxa de juros que os bancos centrais ofertarão no mercado, ou seja, países que são qualificados por agências internacionais, como a Goldman-Sachs  nem sempre honestas e isentas, mas quase sempre servis a interesses das grandes corporações e holdings financeiras (e que lhes pagam regiamente para direcionar o mercado financeiro global) , tidos como países de risco, estes verão o seu desenvolvimento, cada vez mais, a cada dia, a cada mês, a cada ano, se atrasar, e sua população carecer de bens, serviços e infraestrutura, onerando o povo a pagar, via impostos, taxas e que tais, os juros das dívidas expressas nos títulos, quanto aos valores e prazos.
Em poucas palavras, as corporações financeiras, sobretudo, os grandes bancos, sugam do emprego, da produção, da renda, recursos, empobrecendo os povos e os países, para se locupletarem de lucros escabrosos para a presidência das instituições, diretorias e acionistas.
Some-se ao quadro a questão monetária, no sentido que o Ocidente  lendo-se Ocidente como sendo: Estados Unidos da América, Canadá e Europa Ocidental da Zona do Euro , depois da decisão de 1973, do presidente Nixon, da República dos EUA, de que não mais se tem a obrigação em lastrear a sua moeda em ativos reais, passaram a emitir moeda a rodo, de forma absolutamente irresponsável.
Evidente que o “lastro” destas moedas, sobretudo, Euro e Dólar, se fixa nos critérios do crescimento do PIB, sendo que, o desempenho das corporações financeiras, passaram a integrar o cálculo do PIB de cada país.
Equivale escrever que os lucros estratosféricos advindos com a negociação dos títulos no mercado e com a concessão de créditos a juros compostos, pelos bancos e instituições financeiras  integrantes da Economia Financeira , se expressam como “crescimento” do PIB, de forma desvinculada dos índices que expressam o crescimento das empresas voltadas à produção, que integram a Economia Real.
Sabido que o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), é um bloco que se distingue, antes tudo, pelo tamanho territorial dos respectivos países, e pela abundância de seus recursos naturais e tecnológicos.
Evidente que o sistema financeiro e monetário imposto pelo Ocidente Mundialista, é altamente prejudicial à macroeconomia do bloco BRICS, que além de tudo, deve obrigatoriamente, negociar em dólar norte-americano nos mercados internacionais da Economia Financeira e da Economia Real também.
É esta dissonância, é esta desarmonia, é este desiquilíbrio, a causa maior, principal, da Guerra da Ucrânia, na qual China e EUA se digladiam num braço de ferro que tende a colocar fogo no planeta; com a Rússia  armada até os dentes, e que teve oito anos para planificar a guerra e suas consequências, sobretudo, econômicas , sufocando a Zona do Euro, apertando a sua garganta com corte no fornecimento de gás, enquanto exige que seus créditos sejam pagos em rublos, moeda lastreada toda em ouro.
De feita que não é difícil imaginar que a se continuar assim, o sistema financeiro ocidental quebrará, expondo-se a podridão dos títulos alavancados no mercado financeiro global, não mais bastando, como ocorreu em 2008, a ajuda dos governos em trilhões de dólares aos bancos, para que não ocorresse a falência total do sistema.
Por esta razão, o primeiro-ministro italiano Mário Draghi disse que a Rússia não pode vencer esta guerra, pois que tal seria catastrófico para o Ocidente, especialmente, para a Europa, para a Zona do Euro, e para as agendas globalistas impostas pela ONU, sobretudo, em relação aos costumes e à sexualidade, que visam, antes tudo, desagregar as famílias, atacando a gravidez, via aborto, como meio e modo de desarticular a ligação das mulheres com o direito à maternidade, derrubando assim o principal pilar das sociedades nacionais: a mulher com sua prole e a instituição da família!
Basta, para isto ver e saber, que em 2008 os bancos foram salvos pela enxurrada de dinheiros saído dos Bancos Centrais e dos Tesouros Nacionais, aos trilhões, enquanto, para zerar a fome no mundo, bastaria cerca de 100 bilhões de dólares norte-americanos.
Decorre disto o aviso de Musk, no sentido que muitas empresas ocidentais, que giram o seu capital no mercado financeiro, e se financiam pelos títulos públicos  pois que amplamente deficitárias nos seus balanços, e, mesmo assim, continuam a ser providas de créditos continuados pelo sistema que se alimenta desta contabilidade virtual dos “créditos a receber”, mas que jamais serão pagos , quebrarão, acarretando desemprego em massa, pobreza, fome e desagregação social, quiçá, violenta.
Enquanto isso a China quase dobrou a importação, a bom preço, de petróleo da Rússia, enquanto a Índia aumentou as suas importações de petróleo russo em 800%, valendo-se da relação interna como integrante do BRICS.
Daí, o Brasil deve sim se valer de sua posição de integrante do bloco para manter o seu crescimento econômico real, importando petróleo e diesel russo, assim como já vem fazendo com os fertilizantes, o que garante os altos níveis de crescimento da produção agrícola brasileira.
Uma coisa é certa: Os limites da guerra na Ucrânia já desestabilizaram todo o sistema econômico ocidental, que tende a se liquefazer integralmente, atendendo em grande parte o objetivo de Rússia e China, de impor uma moeda comum do BRICS, como meio de pagamento das transações internacionais, a nível global.
Paulo Emendabili Souza Barros De Carvalhosa – OAB/SP 146.868
Dia de Vênus, 01 de julho de 2022
90º da Revolução Constitucionalista.
105º da Revelação em Fátima.

segunda-feira, 6 de junho de 2022

O Que Não Foi Contado Sobre o Dia D

Foto: Getty Images (Colorido por Marina Amaral)
Momentos de loucura, atos heroicos, deserções, ataques inúteis e inclusive paradas no meio de um bombardeio para tomar chá… O prestigiado historiador britânico Antony Beevor nos conta a batalha da Normandia durante a Segunda Guerra Mundial.
por Antony Beevor 
historiador militar
Hoje, dizemos que a vitória do dia D na Batalha da Normandia era incontestável, tendo em vista a superioridade aérea e naval dos aliados.
Se reuniram 7700 barcos e 12.000 aeronaves. Os pilotos narraram depois que havia tal quantidade de embarcações que parecia possível chegar à França andando
Sem dúvidas, na historia nada está predeterminado. Naquele momento, não estava clara a linha entre o triunfo e o desastre absoluto.
No domingo, 4 de junho, o general norte-americano Eisenhower se reuniu com os comandantes aliados em seu posto de comando de Southwick House, ao norte de Portsmouth. Deviam tomar uma decisão crucial: aceitar a previsão dos meteorologistas de que o tempo tormentoso ia melhorar em 6 de junho — não muito, mas o suficiente para entrar em ação — ou postergar toda a operação. 
Eisenhower decidiu por seguir adiante. Se houvesse decidido atrasar o desembarque por duas semanas, a enorme frota invasora teria topado com a pior tempestade do canal da Mancha nos últimos 40 anos. Não me agradam as especulações históricas baseadas em perguntas do tipo ‘¿Que teria ocorrido se…?’, mas é justo reconhecer que o mapa europeu de pós-guerra poderia seria bem diferente se a grande frota aliada houvesse sido dispersada pela tormenta. Teria sido necessário empreender novos preparativos partindo do zero outra vez.
Eisenhower leu o relatório meteorológico e decidiu atuar no dia 6. Se houvesse adiado, uma tempestade teria arruinado a operação.
Churchill queria partir desde a Itália e avançar pelo centro da Europa para evitar uma ocupação soviética. Mas teve que concordar com o desembarque: os americanos mandavam.
Winston Churchill tinha, ainda, outras razões para estar nervoso. Nunca havia aprovado o plano de invadir a Alemanha pelo noroeste da Europa. Isto foi imposto por Stalin e Roosevelt na reunião de Teerã em novembro anterior. Desde o século XVIII, a Grã Bretanha sempre havia preferido ‘a estratégia periférica’: usar a Marinha Real para desgastar o adversário numericamente superior. O sonho de Churchill era partir desde a Itália e avançar pelo centro da Europa para prevenir uma ocupação soviética; mas os americanos, agora, estavam no comando e defendiam ‘a estratégia continental’: o choque massivo de forças terrestres para destruir o inimigo frontalmente.
Todos os que tomaram parte do dia D  soldados, marinheiros ou aviadores  nunca esqueceriam a imagem prévia ao desembarque. A frota reunida para a invasão era a maior da historia: 7.700 barcos e 12.000 aeronaves. Os pilotos contaram depois que, visto do céu, o mar estava tão abarrotado de embarcações que parecia possível chegar caminhando à França.
Seguimos considerando o Dia D e os enfrentamentos na Normandia como uma luta de americanos e britânicos contra alemães. Mas foi a batalha mais multinacional da guerra. Uma divisão canadense desembarcou na praia de Juno. Comandos franceses se lançaram ao assalto de Ouistreham, e paraquedistas franceses desceram sobre a Bretanha. Houve navios de nove países, assim como esquadrilhas aéreas tripuladas por canadenses, neozelandeses, australianos, rodesianos, polacos, franceses, belgas, holandeses, noruegueses…

A dor da população francesa
Há que ter em conta o sofrimento experimentado pelos civis franceses durante a invasão da Normandia. Eisenhower e os estrategistas da invasão sabiam que os aliados encontrariam graves dificuldades ao pisarem na orla, porque os alemães tratariam de reforçar rapidamente suas tropas com blindados Panzer. Por isso idealizaram a chamada ‘Operação Transporte’; o plano era bloquear e isolar a área da invasão mediante o bombardeio das pontes do Loire, no sul; e as do Sena, ao leste… e destruir os povoados e cidades que levavam às praias.
Ao inteirar-se da estimativa de baixas civis, Churchill se horrorizou. Tratou de estabelecer um limite de 10.000 mortos, mas, por insistência do general Eisenhower, Roosevelt finalmente teve a última palavra. As vítimas civis foram 15.000 mortos e até 100.000 feridos só durante os bombardeios preparatórios. Outros 20.000 faleceram nos enfrentamentos na Normandia entre 6 de junho e meados de agosto.
Em alguns locais da Normandia, o bombardeio aliado de áreas urbanas não só foi evitável mas, também, dificultou o avanço, sem prejudicar os alemães. Saint-Lo em agosto de 1944.
Foto: Getty Images (Colorido por Marina Amaral)
A cidade de Caen foi destruída pelos bombardeios de 6 de junho e em 7 de julho. Os soldados britânicos que observaram os fatos sentiam que a terra tremia como gelatina sob seus pés. Davam por certo que a cidade normanda havia sido evacuada, mas não era o caso. Um jornalista perguntou mais tarde, a um dos civis, sobre a sensação vivida durante o bombardeio. O homem respondeu: «Imagine um rato metido dentro de uma bola de futebol durante uma partida internacional. Assim era como nos sentíamos».
Os ajudantes de Hitler não se atreveram a desperta-lo na manhã da invasão. O Führer havia reservado para si o controle dos Panzer.
Em alguns lugares  sobretudo em Caen , o bombardeio da área urbana não só foi evitável, mas também resultou contraproducente, já que dificultou o avanço aliado sem prejudicar os alemães. Em seu conjunto, o sucedido mostra um importante paradoxo. Os exércitos das democracias muitas vezes terminam por matar grande número de civis, pela simples razão de que seus comandos se veem submetidos à pressão da imprensa e do parlamento na retaguarda; a insistência em reduzir ao mínimo as baixas entre suas tropas os leva a exagerar no uso da artilharia e dos bombardeios aéreos.
Rommel foi o primeiro a empregar a expressão ‘o dia mais longo’. Queria sublinhar com isso, o fato de que os alemães só teriam a oportunidade de derrotar os invasores no curso das primeiras 24 horas. Compreendia que, uma vez que os aliados estivessem bem assentados nas praias, os alemães estavam condenados à derrota final. O colossal apoio aéreo e a poderosa artilharia dos barcos aplastariam qualquer contra-ataque em grande escala. Rommel teve a ideia de deslocar divisões Panzer próximas ao litoral, mas encontrou a oposição de seus colegas, que insistiam em mantê-las nos bosques do norte de Paris. Hitler, ao final, tomou as rédeas no assunto e decidiu controla-las pessoalmente desde seu refugio de Berghof, na Alemanha … mas seus assistentes não se atreveram a despertá-lo durante a decisiva manhã da invasão.
Nos ataques aliados a povoados franceses houve 15.000 mortos e até 100.000 feridos só nos bombardeios preparatórios.
Getty Images (Colorido por Marina Amaral)
As divisões alemãs de infantaria adstritas ao 7º Exército, defensor da Normandia, não contavam com homens suficientes, estavam mal armadas e haviam sido adestradas de forma deficiente. Em poucas palavras: não eram bastante fortes para enfrentar os aliados. A invasão logo se converteu em uma batalha de desgaste. Em 10 de junho, quatro jornadas depois do dia D, os aliados e os alemães se encontraram com o avanço bloqueado.

Um massacre brutal
Se supunha que a matança se produziria no mesmo dia D, mas ocorreu mais tarde e no interior da França. Foi então quando as baixas britânicas superaram em 80 por cento as estimativas dos comandos, para angustia de Montgomery e do Secretariado de Guerra. Churchill chegou a preguntar se restaria um exército britânico em pé quando os aliados chegassem a Berlin. No curso da batalha da Normandia, os combates foram tão sangrentos como na frente russa. De fato, as baixas mensais alemãs, por divisão, duplicavam a media registrada na Rússia.
Os porta-vozes da propaganda soviética posteriormente insistiram que os aliados, na Normandia só tiveram que fazer frente aos despojos do exército alemão. Mas a realidade foi que britânicos e canadenses se encontraram ante a maior concentração de divisões Panzer das SS desde a colossal batalha de Kursk.
Os combates em terra normanda resultaram muito mais duros do que o previsto pelo comando aliado. Se supunha que os alemães estariam desmoralizados e aterrorizados pelas incursões aéreas, mas a má visibilidade daquele mês de junho extremamente chuvoso reduziu muito a superioridade aérea aliada. O alto comando também havia subestimado a capacidade do inimigo para defender-se em um terreno como aquele. Em Bocage, na claustrofóbica paisagem normanda de pequenos campos e espessas sebes, os alemães conseguiram infligir pesadas baixas a forças imensamente superiores cavando e usando camuflagem habilmente.

Baixas psiquiátricas
Outras vezes, as baixas eram causadas pela ‘fadiga de combate’, o que hoje se chama ‘transtorno de estresse pós-traumático’. Os números avultam. No lado aliado, o número de baixas por motivos psicológicos foi muito alto, uns 30.000 casos só no 1º Exército estadunidense. Por outro lado, os psiquiatras militares americanos e britânicos não entendiam como tão poucos prisioneiros alemães pareciam sofrer fadiga de combate, apesar dos intensos bombardeios que levavam tempo suportando. Suspeitavam que era pelo doutrinamento nazista. Um médico militar alemão feito prisioneiro, o doutor Damman, considerava que «a propaganda alemã que insta os homens à salvação da pátria contribuiu para limitar o número de baixas por causas neuropsiquiátricas».
O certo é que o exército de Hitler simplesmente não reconhecia a fadiga de combate como doença. Seus oficiais seguramente se haveriam burlado da brandura da disciplina entre os aliados. Seus novos soldados chegavam a ponta de bota. E se disparassem contra suas próprias mãos ou pés, simulando terem sido feridos em combate, eram executados sem delongas. Um  Obergefreiter (recruta) designado à 91ª Divisão Luftlande, relata em uma carta datada em 15 de julho: «Krammer, um jovem, competente e valoroso, cometeu a estupidez de dar um tiro na mão. Agora vão fuzilá-lo».
A carnificina não se deu no dia D, mas depois, no interior da França. Os combates foram tão sangrentos como na frente russa.
As unidades alemãs tinham um problema bem distinto. O ódio visceral gerado pelas mortes de amigos em combate, de noivas ou de familiares falecidos sob as bombas aliadas produziu o fenômeno dos verrückte Helmuts, ‘os Helmuts loucos’. Em quase todas as companhias havia ao menos um destes personagens, convencidos de que já não tinham razões para seguir vivendo, a não ser pela obsessão de matar para vingar-se.
Nem todos os soldados alemães eram fanáticos ou membros das SS. Nas divisões de infantaria, as atitudes podiam ser bem distintas. Eberhard Beck, integrante da 277ª Divisão de Infantaria, escreveu: «Tínhamos claro que a guerra já havia terminado tempos atrás. O único que nos importava era sobreviver. Por minha parte sempre estava pensando nisso». E acrescenta: «Um ferimento, hospital de campanha, hospital na Alemanha, o lar, o final da guerra… O único que me interessava era escapar daquela desolação».

O valor no combate
A questão do valor no combate se reveste de imensa importância.
Os alemães não se desmoralizaram ante a enorme mobilidade aliada: se entrincheiraram e camuflaram muito bem. Na foto, uma vítima aliada do desembarque. Foto: Getty Images (Colorido por Marina Amaral)
Há muito poucos homens que não saibam o que é o medo; de fato, os valentes são aqueles que chegam a superar esse sentimento.
Um informe britânico realizado pouco depois da invasão da Normandia deixava claro que, em um pelotão de uns 30 homens, um pequeño punhado acostumava a assumir o peso do combate, outro reduzido grupo fazia o possível por evitar a luta e até por desaparecer do combate, enquanto que a maioria situada entre ambos grupos secundava os lutadores se as coisas iam bem … mas se deixava tomar pelo pânico e tirava o corpo fora quando pareciam de má previsão.
Montgomery ficou tão chocado ao ler esse documento que fez com que o suprimissem. Sem dúvidas, suas conclusões eram verazes no fundamental, e assim o confirmaram outros estudos realizados por outros exércitos. Em geral, os soldados até se abstinham de disparar suas armas durante o combate. Curiosamente, nos arquivos russos foram encontrados indícios de que os oficiais do Exército Vermelho suspeitavam o mesmo de seus próprios homens. Um oficial muito condecorado chegou a dizer que seria oportuno revisar todos os fuzis, imediatamente depois de cada luta com o inimigo, e fuzilar no ato, como desertor, a todo soldado cuja arma não houvesse sido disparada.
Os alemães logo verificaram que os britânicos eram muito arrojados ao defender-se, mas cautelosos na ofensiva. O fenômeno se explicava por numerosas razões, mas convém recordar que, em 1944, o país levava quase cinco años em guerra, pelo que o cansaço era considerável. E a medida que se acercava o final da contenda, cada vez mais homens queriam sair vivos fosse como fosse. Além disso, soldados e suboficiais também se haviam politizado muito mais que na Primeira Guerra Mundial. Como resultado desenvolveram uma mentalidade ‘sindicalista’ que influía no que, a seu modo de ver, podia ou não ser exigido deles. Uma mentalidade que os levava a limitar-se a fazer o trabalho designado e fim. Um canadense observou que os sapadores britânicos consideravam que disparar contra o inimigo não era tarefa deles; e que o pessoal da infantaria se negava «a aterrar uma cratera ou dar uma mão quando um veículo tinha problemas para avançar em um atoleiro». Dita atitude era praticamente desconhecida nos exércitos alemão ou estadunidense.
Em um pelotão de 30 homens só uns poucos entravam em combate, segundo assinalaram informes britânicos e americanos.
Ingleses com um guia da França antes de desembarcar. Os americanos se assombravam de que os britânicos desfrutavam de pausas regulares para tomar chá. Além disso, haviam desenvolvido uma mentalidade sindicalista, diz o historiador, e se limitavam a fazer o que era mandado.
Os observadores americanos e canadenses também ficavam atônitos ao ver que o soldado britânico se encontrava muito normal ao disfrutar de pausas regulares para tomar chá ou fumar. No mesmíssimo dia D, um número assombroso de britânicos, exaustos ao chegar à orla, consideraram que faziam jus a um merecido descanso. Um oficial estadunidense de ligação comentou que «muitos deles diziam que, com o chegar à terra, já haviam feito bastante, e que tinham tempo de sobra para fumar um cigarro, e até para beber uma xícara de chá, em lugar de seguir adiante com a missão de desmantelar as defesas do inimigo e adentrar no território».
Fonte: tradução livre de XL Semanal