quinta-feira, 31 de março de 2022

Marco Temporal e Soberania do Estado

 

por Ernesto Caruso
Espada de Dâmocles sobre a integridade territorial da Nação Mestiça, Terra de Santa Cruz, edificada ao longo de mais de cinco séculos, como resultante da colonização portuguesa, a unidade linguística, territorial e cristã. Invadida no passado, ambicionada, pressionada e descurada, no presente. Traída?
O sangue do silvícola, tribal, corre nas veias de milhões de brasileiros em número muito maior, dos que habitam as florestas. Das cores lusitanas ao verde-amarelo no cadinho do amor. Indígenas e brancos inicialmente, depois negros africanos, europeus, asiáticos...
A entender que o mundo foi tribal que miscigenando ou não, dos feudos e reinos formaram-se as nações/estados, por vezes com vários idiomas e fé diversa, mas unidos, sob peculiares regimes políticos.
Mas, todos tementes aos enclaves, alimentados por distinção política, social e cultural. O Brasil não pode se submeter, sob quaisquer argumentos, a fraturas na sua concepção original, sob o primado, supremacia do uti possidetis, da Carta de Pero Vaz de Caminha perpassando quinhentos anos de História, luta e sacrifício, com diplomacia e espada.
Não serão onze ministros a degradar o expressivo patrimônio de 213 milhões de brasileiros.
No que se refere às reservas indígenas há de se corrigir o que afronta a Constituição da Republica e a concepção do Estado e rejeitar qualquer iniciativa que ultrapassar o marco temporal estabelecido pelos constituintes de 1988.
Em pauta o Recurso Extraordinário com repercussão geral, RE 1.017.365, que tramita no STF, envolvendo pleitos de grupos sobre áreas de interesse tribal, mas com consequente ameaça ao marco temporal, face à decisão do plenário dessa Corte, que reconheceu por unanimidade a repercussão geral, o que abre uma brecha sobre outras tantas demarcações que atendam a interesses de ONGs sustentadas por entes internacionais.
Assim, impõe o Art. 231, da Constituição: 
— São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes ... e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.
No que se refere a direitos sobre as terras, situa o fato gerador no tempo presente da promulgação da Constituição de 1988, ao referenciá-las com a expressão “... que tradicionalmente ocupam...”.
Nem de soslaio se pode inferir outra interpretação, como se fosse um intervalo aberto à direita, como a predizer, “... que tradicionalmente ocupam e que venham a ocupá-las...”. Insegurança a toda uma população, sob ameaça de pleitos das tribos de todos os cocares, a qualquer momento, retornando às invasões manipuladas, com destruição de fazendas, incêndios de máquinas agrícolas, conflitos armados.
Da votação no STF, em 2008, sobre a Reserva Serra do Sol em Roraima, alguns dados do voto do então ministro Menezes Direto, para apreciação na questão atual.
Na oportunidade, conforme levantamento feito, das 534 terras indígenas, com extensão total de 1.099.744 quilômetros quadrados ou 12,92% de todo o território nacional, sendo que 187 delas se localizam em faixa de fronteira.
No estado de Roraima, 32 áreas, com 103.415 km² a representar 46,11% de todo o território estadual, sendo que todas, exceto três, se localizam em área de fronteira. Também o ex-ministro, já falecido, defendeu a delimitação, como terra indígena, a que era tradicionalmente ocupada por índios em 5 de outubro de 1988, quando foi promulgada a Constituição Federal.
As restrições impostas por Menezes Direito e aceita por seus pares (algumas das 18 apresentadas):
1 — Usufruto das riquezas do solo ... existentes nas terras indígenas pode ser suplantado de maneira genérica sempre que houver o interesse público da União (Art. 231 § 6º, da CF 1988);
2 — Usufruto dos índios não abrange a exploração de recursos hídricos ..., que dependerá sempre da autorização do Congresso Nacional;
3 — O usufruto dos índios não abrange ... a lavra de recursos naturais, que dependerá sempre de autorização do Congresso Nacional. ...
5 — O usufruto dos índios fica condicionado ao interesse da Política de Defesa Nacional. A instalação de bases, unidades e postos militares e demais intervenções militares, a expansão estratégica da malha viária, a exploração de alternativas energéticas de cunho estratégico e o resguardo das riquezas de cunho estratégico a critério dos órgãos competentes (o Ministério da Defesa, o Conselho de Defesa Nacional) serão implementados independentemente de consulta a comunidades indígenas envolvidas e à Funai;
6 — A atuação das Forças Armadas da Polícia Federal na área indígena, no âmbito de suas atribuições, fica garantida e se dará independentemente de consulta a comunidades indígenas envolvidas e à Funai;
7 – O usufruto dos índios não impede a instalação pela União Federal de equipamentos públicos, redes de comunicação, estradas e vias de transporte, além de construções necessárias à prestação de serviços públicos pela União, especialmente os de saúde e de educação. ...
12 — O ingresso, trânsito e a permanência de não-índios não pode ser objeto de cobrança de quaisquer tarifas ou quantias de qualquer natureza por parte das comunidades indígenas;
13 — A cobrança de tarifas ou quantias de qualquer natureza também não poderá incidir ou ser exigida em troca da utilização das estradas ... linhas de transmissão de energia ou de quaisquer outros equipamentos e instalações colocadas a serviço do público ...
17 — É vedada a ampliação da terra indígena já demarcada;
18 — Os direitos dos índios relacionados as suas terras são imprescritíveis e estas são inalienáveis e indisponíveis.
O § 5º/Art. 231 impõe que “É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, ad referendum do Congresso Nacional, em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco sua população, ou no interesse da soberania do País, após deliberação do Congresso Nacional, garantido, em qualquer hipótese, o retorno imediato logo que cesse o risco.”.
Nitidamente, é possível a remoção dos indígenas em duas situações distintas, referendadas pelo parlamento, no interesse da soberania do País e em caso de catástrofe ou epidemia que ponha em risco a sua população; nesta hipótese, cessado o risco da população de catástrofe ou epidemia, “o retorno imediato logo que cesse o risco”.
Não se pode alterar o escrito para dar outro sentido de risco, como situações idênticas. Se o espírito da Lei Maior fosse equivalente seria a seguinte expressão, “É vedada a remoção dos grupos indígenas de suas terras, salvo, ad referendum ... em caso de catástrofe, ou epidemia, ou no interesse da soberania do País...”.
Duas alternativas, com possibilidades da existência de risco e de cessação do risco e, a terceira alternativa se refere à SOBERANIA, sem condicionante, como deve ser, por princípio fundamental.
A observar o texto constitucional no Art. 1º que define o Estado e, impõe como primeiro fundamento da nacionalidade, a soberania, sem a qual o Estado inexiste. E, quem garante a soberania de um país é o poder militar, como parte do poder nacional.
Não sujeição a Estado estrangeiro ou organização internacional. Questionar e verificar organizações não governamentais é preciso.
A concepção do Estado brasileiro e a própria Constituição da Republica tem sido desrespeitada em especial no estabelecimento de reservas indígenas na faixa de fronteira, propositadamente extensas, agregando tribos distintas como sempre foram, nas chamadas áreas contínuas, com objetivos estranhos, como a ‘entregar o ouro ao bandido’, de olho gordo sobre a Amazônia.
As reservas em “ilhas”, fora da faixa de fronteira atenderia às várias etnias, sem submissão aos interesses internacionais. Aberração maior com a reserva Ianomâmi, na fronteira, contígua à sua homônima ao norte na Venezuela. “Prontinho, um enclave perfeito”.
No Brasil, com 96.650 km², na Venezuela, 82.000 km², somando 178.650 km²; isto é, 2,54 a superfície da Irlanda e 7,22 a do Kosovo, que declarou independência em 2008, sendo reconhecida por vários Estados, no jogo político internacional. No balaio o quê? As etnias.
Relembrar e meditar, parece fértil imaginação, comparar uma situação com a outra?
Nas terras indígenas se faz presente constitucionalmente o interesse da sociedade, sob a expressão, “ressalvado relevante interesse público da União” (§ 6º, Art. 231)
O § 2º do artigo 20 da CF considera até 150 km das fronteiras terrestres, como faixa de fronteira, como fundamental para a defesa do território nacional, a ressaltar que 2/3 da faixa de fronteira estão na região norte.
Ainda pequena a ocupação militar, na extensa faixa que engloba o que designam como “comunidades ianomâmi do Brasil e da Venezuela”, três pelotões de fronteira.
Entender todo o trabalho de “formiguinha” com o propósito das ONGs. Uma dessas criada em 1978, se vangloria dos 13 anos de campanha ininterrupta para em 1991 ser demarcada, e registrada em 1992, como ‘Terra Indígena Yanomami’.
Tem nos seus estatutos: 
“— Apoiar os Yanomami na proteção e divulgação de sua cultura ... contribuir para sua capacitação frente a novas realidades ... 
— Apoiar os Yanomami na defesa do seu meio ambiente e no direito à posse permanente das terras tradicionalmente ocupadas e ao usufruto exclusivo dos recursos naturais nelas existentes, podendo propor ações judiciais, inclusive ação civil pública com a finalidade de defender bens e direitos sociais, coletivos ou difusos, especialmente os relativos ao meio ambiente e patrimônio cultural.”
Ora, espaço e dignidade não pressupõe grandes extensões, nem fantasias de sobrevivência de caça e pesca como nos primórdios da civilização. Não é o tamanho da terra que vai proporcionar felicidade e bem-estar aos “silvícolas” dos tempos de Cabral e Pero Vaz de Caminha, viventes no século XXI em gigantescas cápsulas/urnas de múmias vivas, como no museu a céu aberto, para admiração dos que se consideram cultores do humanismo; humanitários, samaritanos do prêmio Nobel.
Uma enganação, ainda que com toda a liberdade de manifestação, a reunião de seis mil “índios” de cor da pele e cabeleiras de vários tons, brigando pelo museu vivo da miséria, do abandono dos silvícolas a própria sorte, do ócio e do vício.
Como noticiado, artista da International Artist Solidarity que arrecadou US$ 300 mil para ajudar os indígenas.
Na plataforma dos ianomâmis, a ONG é a Norwegian Agency for Development Cooperation.
Fonte: JusBrasil
COMENTO:  já em 2008, o jornalista Hélio Fernandes alertava sobre o despropósito que ocorria na "demarcação de terras indígenas" na Amazônia. O Almirante Roberto Gama e Silva também manifestou a picaretagem, citando a história da criação do termo que nomeia os tais índios. Dois anos depois, o jornalista Jorge Serrão desnudava os interesses obscuros que impulsionaram a demarcação da região da Serra da Lua. Se o leitor não achar suficiente os artigos cujos atalhos foram disponibilizados acima, pode digitar o termo "ianoblefe" na caixa de buscar no topo desta página e encontrará bons textos do saudoso jornalista Janer Cristaldo e outros.
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terça-feira, 1 de março de 2022

A Belonave Que Sobreviveu, na Segunda Guerra Mundial Disfarçada de Ilha Tropical


Era março de 1942 e o navio holandês Abraham Crijnssen está navegando no Mar de Java. Ele estava em uma missão para defender o que eram as Índias Orientais Holandesas — hoje conhecidas como Indonésia. Mas, dias antes, a marinha japonesa havia esmagado a frota aliada da qual o Abraham Crijnssen fazia parte. E embora a única opção do navio fosse escapar para a segurança da Austrália, sua falta de velocidade e armamentos iriam colocá-lo em um perigo real durante a travessia. Não havia mais nada a fazer, então, a não ser camuflar de forma inteligente o navio.
Antes que a tripulação do Abraham Crijnssen se encontrasse a bordo de uma ilha tropical improvisada, eles estavam ocupados lidando com os japoneses. A Guerra do Pacífico começou depois que os japoneses fizeram seu ataque surpresa a Pearl Harbor, no Havaí — arrastando os EUA para a Segunda Guerra Mundial como consequência, em 7 de dezembro de 1941. E o território envolvido no conflito incluía as Índias Orientais Holandesas.

Depois de atingir Pearl Harbor, os japoneses lançaram uma variedade de ofensivas pelo Pacífico — incluindo um ataque às Índias Orientais Holandesas. A colônia era considerada o alvo principal por causa de sua riqueza em recursos naturais, e tanto o petróleo quanto a borracha eram essenciais para os japoneses sustentarem sua campanha de guerra.
A Holanda já havia sido efetivamente anexada pela Alemanha nazista após a rendição do país em 7 de maio de 1940. Mesmo assim, o governo holandês, no exílio em Londres, ainda reclamava sua colônia do Pacífico. Em novembro de 1941, os holandeses enviaram uma força da Marinha Real da Holanda para defender sua posse. E no dia seguinte a Pearl Harbor, o governo da Holanda declarou que a nação estava em guerra com o Império Japonês.
Surpreendentemente, em face da declaração holandesa, os japoneses esperaram a hora certa para atacar, apenas entrando formalmente em guerra com a Holanda semanas depois, em 11 de janeiro de 1942. Mas àquela altura, eles já estavam se movendo no território das Índias Orientais Holandesas de Bornéu — em oposição à aliança denominada ABDA. Além do contingente naval holandês, as forças aliadas consistiam em alguns navios britânicos e australianos junto com navios da frota asiática dos EUA. Os americanos acabaram se envolvendo na malsucedida defesa das Filipinas, falhando então em conter o ataque aparentemente imparável do Eixo no Pacífico. E, infelizmente, os japoneses venceriam de forma semelhante a frota ABDA.
Aparentemente, os japoneses não paravam, pois eles capturaram sistematicamente ilha após ilha. Isso apesar do fato de que suas táticas só avançavam até onde sua cobertura aérea permitia. O historiador Samuel Morison descreveu o movimento japonês pelas ilhas das Índias Orientais Holandesas em seu livro de 1948, The Rising Sun in the Pacific ("O Sol Nascente no Pacífico").
“A maneira como os japoneses avançaram se assemelhava ao aperto irresistível de múltiplos tentáculos”, escreveu Morison. “Como um grande polvo, ele agia por estrangulamento de muitos pequenos pontos, em vez da concentração em um órgão vital. Nenhum braço tentou atender a toda a força da frota ABDA. Cada um prendeu-se a uma pequena porção do inimigo e, incapacitando-o localmente, acabou matando o animal inteiro.”
E a frota ABDA foi inicialmente derrotada em uma série de batalhas marítimas. A primeira e mais devastadora delas para os Aliados foi a Batalha do Mar de Java em 7 de fevereiro de 1942, que viu o comandante holandês da frota da ABDA, Contra-Almirante Karel Doorman, ser morto em uma vitória decisiva da Marinha Japonesa. Então, nos dias que se seguiram, os japoneses aumentaram sua vantagem em conflitos navais menores.
Por exemplo, a Batalha do Estreito de Sunda começaria poucas horas após o sucesso no Mar de Java. Em seguida, houve a Segunda Batalha do Mar de Java, alguns dias após a primeira derrota esmagadora da força naval Aliada. E após esses ataques, a frota ABDA foi reduzida a apenas um grande navio de guerra: o antiquado U.S.S. Marblehead.
Mas, embora as forças da ABDA tivessem efetivamente deixado de existir, o velho Marblehead não foi a única embarcação aliada a escapar da carnificina. Outro sobrevivente foi o Abraham Crijnssen — o navio holandês de que tratamos.
O Abraham Crijnssen foi construído no estaleiro Werf Gusto, na cidade holandesa de Schiedam — um subúrbio do principal porto de Roterdão. Ele foi um dos oito caça-minas de classe Jan van Amstel que foram construídos para a Marinha Holandesa durante a década de 1930. Em setembro de 1936, o navio foi lançado do estaleiro Schiedam, sendo comissionado como navio da marinha oito meses depois.
O navio recebeu esse nome em homenagem a Abraham Crijnssen,  uma espécie de herói naval ao estilo fanfarrão. No século 17, ele lutou em várias batalhas navais em águas europeias, embora seja provavelmente mais lembrado por suas façanhas ao conquistar o Suriname para seu país. Crijnssen foi fundamental para derrotar os britânicos em uma batalha de 1667, que fez parte da Segunda Guerra Anglo-Holandesa, com o Suriname permanecendo nas mãos dos holandeses até 1975.
O navio que levava o nome de Crijnssen, tinha 525 toneladas, 54 metros da popa à proa e quase 8 metros de largura em seu ponto mais largo. Os dois motores movidos por um par de hélices também deram a ele uma velocidade máxima de 27,8 km/h. E ele também estava armado com um canhão de 7,62cm e dois canhões menores de 20 mm, bem como uma série de cargas de profundidade anti-submarinas.
Quando os japoneses começaram seu ataque às Índias Orientais Holandesas em 1941, o Abraham Crijnssen foi colocado em ação. Naquela época, ele estava servindo em Surabaya, a principal cidade de Java Oriental. Após a grande derrota da força naval aliada, no entanto, todos os navios sobreviventes receberam ordens de ir para a Austrália — a uns bons 3.200 quilômetros de Surabaya.
No entanto, embora o Abraham Crijnssen devesse fazer a viagem em uma pequena frota com três outros navios, ele finalmente partiu por conta própria. Era uma empreitada extremamente perigosa, pois com velocidade máxima de 27,8 km/h e apenas um trio de canhões de defesa, a embarcação era altamente vulnerável.
Se algum avião japonês avistasse o Abraham Crijnssen — ou se ele encontrasse qualquer navio inimigo em mar aberto — suas chances de sobrevivência eram mínimas. Na verdade, a única maneira que ele poderia possivelmente ter sucesso em alcançar a Austrália em segurança era se ele pudesse fazer isso sem ser visto pelos japoneses. Mas como um navio de 56 metros de comprimento poderia se manter escondido durante uma viagem tão longa?
E não havia dúvida de que o perigo enfrentado pelo Abraham Crijnssen era muito real. Afinal, três de seus navios caça-minas irmãos já haviam sido perdidos durante o ataque japonês às Índias Orientais. Um deles foi deliberadamente afundado em 2 de março em Surabaya para evitar sua captura, com um segundo tendo sofrido o mesmo destino em 8 de março.
Também em 8 de março, o caça-minas Jan Van Amstel encontrou o destróier japonês Arashio — e foi afundado. Portanto, era importante que o capitão e a tripulação do Abraham Crijnssen pudessem definir um plano que maximizasse suas chances de chegar à Austrália.
E a resposta que eles encontraram foi na camuflagem. Curiosamente, porém, a camuflagem de navios de guerra era um complicado problema com o qual os especialistas haviam trabalhado pelo menos desde a Primeira Guerra Mundial. Naquela época, uma resposta aparentemente contra-intuitiva tinha sido tornar os navios mais em vez de menos visíveis.
Essa estranha estratégia da Primeira Guerra Mundial era conhecida como camuflagem deslumbrante e foi idealizada por um britânico chamado Norman Wilkinson — um homem da marinha que também era um artista. A marinha mercante britânica vinha sofrendo muito nas mãos dos submarinos alemães durante a Primeira Guerra Mundial, de modo que a Marinha Real estava desesperada para minimizar as perdas de natureza mercante e naval.
Na prática, a teoria de Wilkinson envolveu pintar navios com cores brilhantes, sendo feitas formas geométricas irregulares — lembrando algumas formas da arte cubista. Essas formas irregulares, conforme ele acreditava, confundiriam os capitães de submarinos o suficiente para que eles não fossem capazes de disparar seus torpedos com precisão. E os comandantes do Almirantado Britânico decidiram que valia a pena tentar esse plano bizarro.
Muitos navios britânicos foram pintados com esses padrões estranhos, e a ideia se espalhou para os EUA, onde mais de 1.200 embarcações receberam o deslumbrante tratamento durante a Primeira Guerra Mundial. Mas se essa estratégia de camuflagem peculiar foi eficaz ou não permanece uma questão em aberto. Analisando dados às vezes contraditórios, os especialistas não conseguiram dar uma resposta conclusiva.
Em qualquer caso, a tripulação do Abraham Crijnssen não teve tempo — nem presumivelmente a tinta — para começar a redecorar seu navio com uma técnica de camuflagem que pode ou não ter sido eficaz. Mas eles estavam desesperados, e o que eles descobriram foi indiscutivelmente tão improvável quanto essa manobra impressionante.
Então, o que eles decidiram fazer? Eles formularam um astuto plano para fazer seu navio parecer, exatamente como uma pequena ilha do Pacífico. O Abraham Crijnssen, portanto, baixou as âncoras na provável primeira ilha que encontrou. E assim que atracaram, os 45 membros da tripulação começaram a trabalhar com vontade.
Usando todas as ferramentas que estavam à mão, os homens, trabalhando no intenso calor tropical, derrubaram toda a vegetação que puderam. Depois disso, eles a levaram para o navio e a anexaram à sua estrutura. Enquanto isso, as partes da embarcação descobertas pela folhagem foram pintadas de cinza para darem a impressão de rochas em meio ao crescimento da exuberante floresta.
Assim que a tripulação terminou seu trabalho, o Abraham Crijnssen parecia tanto com uma ilha tropical quanto qualquer caça-minas poderia ser. E a ideia não era tão estúpida como pode parecer à primeira vista. Afinal, existem cerca de 18.000 ilhas espalhadas ao redor das águas do Mar de Java — muitas delas cobertas por uma densa folhagem da selva.
Além disso, como essas ilhas estão presentes em todos os tamanhos e formas, pelo menos algumas delas poderiam se encaixar nas dimensões de um caça-minas da Segunda Guerra Mundial. Mas, é claro, a estratégia da Marinha Holandesa era um pouco mais sofisticada do que apenas disfarçar o navio como um pedaço de terra tropical. Assim, o Abraham Crijnssen tomaria cuidado para não navegar em mar aberto durante o dia.
Quando o sol nascesse, então, o navio permaneceria ancorado com segurança na orla de uma das ilhas reais. E, como mostram as fotos, essa tática de se misturar ao ambiente foi surpreendentemente eficaz, já que apenas uma olhada mais próxima revelaria o esconderijo do Abraham Crinjssen.
Finalmente, depois do que pôde ter sido uma viagem de oito dias de arrepiar os cabelos, o Abraham Crijnssen alcançou a segurança do porto de Fremantle, na Austrália Ocidental. Ele chegou em 20 de março de 1942 e foi o último navio a escapar das forças japonesas nas Índias Orientais Holandesas.
Mas este não foi de forma alguma o fim da guerra para o Abraham Crijnssen, visto que ele foi posteriormente colocado para servir os australianos. Agora conhecido como H.M.A.S. Abraham Crijnssen — acrônimo para Navio Australiano de Sua Majestade — ele ingressou formalmente na marinha do país em setembro de 1942.
E o tenente Arthur Irwin Chapman assumiu o comando do que agora seria um navio de escolta anti-submarino. Cerca de três décadas depois, Chapman recordaria o momento em que chegou ao seu novo navio com duas fotos emolduradas: uma do rei britânico George VI e a outra de Rita Hayworth "em um roupão preto muito atraente".
“No interesse da boa vontade internacional, foi acordado que Sua Majestade, a Rainha Guilhermina da Holanda permaneceria na sala de guarda do Crijnssen e, portanto, o Rei George foi colocado em minha cabine”, acrescentou Chapman. “Ficou acordado, no entanto, que a Srta. Hayworth era digna de ficar na sala de guarda, e ela foi instalada na anteparo em frente à Rainha Guilhermina.”
Mas nem todos os momentos foram de alegria para o Abraham Crijnssen e os marinheiros holandeses e australianos que compunham sua tripulação. Durante o serviço de escolta em 26 de janeiro de 1943, o equipamento de sonar do navio mostrou uma leitura que parecia sugerir um submarino inimigo a apenas 640 metros de distância. Postos de ação foram devidamente alertados, e a sala de máquinas do Abraham Crijnssen recebeu a ordem: "Velocidade máxima à frente".
O navio então lançou duas de suas cargas de profundidade, calibradas para explodir a apenas 15 metros abaixo da superfície do mar. Estas foram seguidas por mais cargas, que detonaram a 30 metros. Mas enquanto os observadores conseguiam ver alguns detritos na superfície, ninguém enxergou evidências definitivas de um submarino abatido.

O Abraham Crijnssen sofreu alguns danos em sua popa no processo, embora ele tenha sido felizmente capaz de navegar de volta para sua base em Sydney para reparos. E mais tarde, Chapman explicou o que tinha acontecido, escrevendo: "O Crijnssen não ganhou velocidade suficiente com sua velocidade de patrulha, e duas cargas de profundidade colocadas a 15 metros sacudiram severamente a seção posterior, quebrando todos os pedaços de louça, desligando interruptores de luz e acessórios, além de fraturar vários dutos menores.”
Felizmente, não parecia haver nenhum problema permanente, de modo que o navio voltou para a marinha holandesa em maio de 1943, continuando suas tarefas de escolta pelo resto da guerra.
Então, depois que a paz dominou, o Abraham Crijnssen se envolveu em tentativas malsucedidas de negar a independência às Índias Orientais Holandesas. Em 1960, ele também se tornou um navio de treinamento antes de finalmente se mudar para sua casa atual no Museu da Marinha Holandesa. E até hoje, ele permanece quase certamente a única embarcação de seu tipo a sobreviver à Segunda Guerra Mundial fingindo ser uma ilha.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Geolocalização de um Lançamento de Míssil

por Marc Català 
Em setembro de 2021, a Coreia do Norte lançou um míssil balístico desde um trem. Neste trabalho, os conhecimentos de OSINT (Open Source Intelligence ou Inteligência de Fontes Abertas) são utilizados para localizar de onde foi feito o lançamento. Assim, mostra-se que o campo OSINT está disponível para todos.

OSINT está na moda.
Muitos profissionais ligados a Segurança, Inteligência, Jornalismo e Tecnologia estão continuamente em busca das melhores técnicas e ferramentas de OSINT. E eles não estão muito longe do rumo correto.
Na era da informação, das redes sociais, da digitalização massiva, da Internet de Todas as Coisas e da transparência, quem sabe obter informação de fontes abertas tem muito a ganhar a nível pessoal e profissional.
Inclusive, ao combinarmos Investigação Online OSINT com a Análise IMINT (Imagens de Inteligência) e o reconhecimento e identificação de material militar, investigações e análises avançadas podem ser realizadas, como a descrita abaixo.
Este trabalho, realizado por Marc Català, analista internacional e aluno do LISA Institute habilitado no Curso de Analista Internacional, demonstra como OSINT e IMINT estão disponíveis para todos.

Análise do vídeo
Nesta seção, é realizada uma análise IMINT (ou Image Intelligence) do vídeo transmitido pela rede de televisão estatal KCNA em que é mostrado o lançamento do míssil, que pode ser visto aqui.
A primeira coisa que se vê é que estamos em um ambiente quase sem civilização, especificamente em um pequeno vale entre duas montanhas de pouca altitude (1-vermelho). Ao fundo vemos a silhueta de uma serra que poderia nos ajudar a encontrar o local (2-vermelho) e que o céu está muito nublado, embora não chova (3-vermelho).
Observamos como se destacam dois elementos-chave da ferrovia: um túnel (de onde sai o trem) (1-azul) e uma única via (2-azul). Destaca-se a presença de uma torre de alta tensão à direita (1-amarelo). Por fim, destaco duas curiosidades: um artefato, reto como um poste, sobre o túnel (1-roxo) e uma superfície sem vegetação com estrutura de madeira artificial e outro de pedra (2-roxo).
Deste ângulo, podemos ver melhor o lado esquerdo da estrada. Duas coisas se destacam: uma clareira a apenas 20 metros da pista (1-vermelho) e que a montanha do túnel não está completamente coberta de vegetação, mas tem paredes rochosas (2-vermelho). Uma das curiosidades dessa imagem é que o trem anda para trás (1-azul).
Talvez o aspecto mais significativo aqui seja o aparecimento de um poste elétrico no lado direito da pista (1-amarelo), o que indica que esta linha não é eletrificada, pois não é uma catenária e vemos como os cabos sobem a montanha em vez de passar pelo túnel (2-amarelo). A torre de alta tensão ainda é visível deste ângulo (3-amarelo). O que parece um caminho aparece logo à direita da ferrovia e sobe a montanha (1-roxo).
Visto do outro ângulo, vemos como o vale, embora pequeno, existe junto com a planície (1-vermelha). A existência do caminho possível mencionado acima se materializa (2-vermelho), explicando o método de como esses trabalhadores subiram no topo do túnel (3-vermelho). É impressionante que, ao fundo, se vejam duas superfícies que contrastam com a cor escura da montanha, que pode ser um lago, uma enseada ou uma urbanização (4-vermelho) e (5-vermelho). Vale a pena notar a presença de um corpo estranho formado por, possivelmente, dois tubos que talvez formem uma fonte no início do caminho (1-roxo).
A vista de cima revela outra característica distintiva que pode ser útil: uma grande planície no fundo do vale à esquerda da estrada (1-vermelho). Enquanto isso, verificamos que a linha de transmissão não está a serviço da ferrovia (1-amarelo), pois os cabos que saem do posto tomam outra direção ao se aproximar do túnel e, além disso, o trem não possui conectores superiores (porque, como é lógico, dificultaria o lançamento dos mísseis) (1-azul). Por fim, ainda não conseguimos descobrir o que é a "estátua" de dois tubos, mas esse ângulo nos dá uma visão mais privilegiada do que parece ser um pequeno monumento (1-roxo).
Partindo do lado esquerdo da estrada (tomando como ponto de referência o lado oposto ao túnel [o direito nesta foto]), a existência do referido vale é muito mais pronunciada, notando-se como ambas as montanhas descem drasticamente para um fundo que, agora, não vemos (1-vermelho). A fiação elétrica (1-amarelo) fica muito mais visível agora, confirmando que se estende ao longo da pista. Por fim, o carro de transporte dá-nos uma informação muito importante, a sua identificação (1-azul). Embora não seja muito visível, os últimos 6 caracteres correspondem aos números "161597".
Observamos mais de perto os vagões de trem, que agora mostram suas identificações com mais clareza: o ônibus tem o logotipo da Korean State Railways e abaixo dele o código "68-161597" (1-azul), enquanto o vagão da frente tem o mesmo logotipo e abaixo você pode ler "67-151273" (2-azul). Vemos a locomotiva (3-azul) pela primeira vez e, embora apenas parte dela seja visível, podemos começar a adivinhar que tipo de locomotiva foi usada. Por fim, o poste (1-amarelo) pode ser visto com mais detalhes e vemos que é feito de concreto com ranhuras para escalada.
A primeira coisa que se destaca na imagem em termos de terreno é que a encosta esquerda não é um vale que desce até uma planície, mas chega a um ponto onde encontra as duas montanhas (1-vermelho) para depois subir outra montanha (2-vermelho). Também podemos ver a locomotiva quase a 100% (1-azul), podendo afirmar quase exatamente que é uma Classe K-62 Série 600, mas sem poder especificar qual das 64 que o país asiático possui. A fumaça que sai da locomotiva (2-azul), criada a partir da combustão do diesel, confirma isso. Vemos um segundo poste elétrico (1-amarelo) mais para trás e que a fiação elétrica (2-amarelo) segue seu curso junto com a pista. Você pode ver, novamente, o monumento "estranho" à direita (1-roxo). Podemos ver que está a poucos metros da estrada.
Na primeira imagem que temos do túnel (provavelmente da posição dos trabalhadores que estavam acima do túnel na Imagem 3), podemos ver um pequeno mas importante detalhe. Se você olhar para o poste elétrico mais próximo, ele contém uma placa com o número 78 (1-amarelo). Também vemos como o poste mais distante tem outra placa (2-amarela), embora ilegível da nossa posição.
Pode ser o número da linha férrea, mas como não está ligado a ela por meio de catenárias, pode ser a identificação da linha de transmissão. Ainda assim, pode nos dar alguma pista sobre onde estamos. Com referência à Figura 7, caso se confirme que a locomotiva é a proposta, a largura da via (1-azul) não poderia ser diferente de 1.435 mm, padrão universal, reduzindo o campo de busca.
Esta é talvez a cena mais reveladora de todo o vídeo. Começamos pelo poste de luz mencionado anteriormente (1-amarelo), onde se vê novamente a placa com o número 78. Como está dos dois lados, é óbvio pensar, então, que este é o número de identificação do poste na linha de luz e, portanto, descarta-se a hipótese de que o 78 esteja ligado à ferrovia.
O mais importante de todo o vídeo está neste letreiro (1-azul), do lado esquerdo do túnel, onde se lê (ainda que pixelado) "Mundeok". Portanto, assumimos que esta ferrovia, neste sentido, vai para essa cidade. Também vemos como o final do túnel (3-azul) está próximo, portanto é curto. Finalmente, confirmamos que os trabalhadores acima do túnel (1-roxo) estão gravando.
Esta imagem é tremendamente reveladora em termos de terreno. Destacamos como a montanha à direita antes do túnel desliza para baixo (1-vermelho) até chegar a uma planície (um pouco escalonada) sem árvores (2-vermelho). Mais longe, seguindo a mesma linha, surge outra montanha com um declive no mesmo sentido (3-vermelho) e, no final de tudo, avista-se um vale muito maior (4-vermelho), para onde todos estes vales parecem desaguar. A forma lembra uma costela, sendo a estrada o osso central, as montanhas as costelas que levam ao vale distante. O mirante antes do túnel (1-roxo) é muito melhor apreciado, agora com outra visão da estrutura de madeira artificial e com pessoas filmando.
Embora à primeira vista essa imagem não ofereça muita novidade, ela serve para corroborar a teoria da Imagem 10. Os vales que saem da montanha onde está localizada a ferrovia (1-vermelho) ligam-se diretamente a um vale transversal maior do outro lado (2-vermelho).
Este ângulo do túnel, porém mais alto, permite identificar claramente a linha da montanha no horizonte (1-vermelho). Observamos como aparece uma nova torre de alta tensão (1-amarelo), o que significa que a linha de alta tensão segue a direção do vale geral, o mencionado acima. Da mesma forma, vemos como mais postes de baixa tensão (2-amarelo) aparecem ao longo da estrada. Vemos as pessoas no topo do miradouro com a estrutura de madeira artificial (1-roxo).
A visão aérea nos dá uma perspectiva maior quando vamos analisar os dados com o Google Maps ou Google Earth. As duas clareiras em ambos os lados da estrada são claramente visíveis (1-vermelho). O mais interessante desse ponto de vista é que podemos começar a fazer medições, usando a locomotiva como escala. Sabemos que uma Série 600 tem 17,55 metros de comprimento (1-azul). Assim, podemos medir a distância entre os pólos de baixa tensão (1-amarelo), dando-nos aproximadamente duas locomotivas e meia (2-azul) ou quase 44 metros. Podemos fazer o mesmo com o trecho entre o mirante do lado esquerdo da pista e o túnel (1-roxo), que mede seis locomotivas e meia (3-azul) ou 114 metros, aproximadamente.
Esta vista mais distante do miradouro dá-nos uma melhor perspetiva da silhueta da montanha (1-vermelha) que atravessa o túnel. Isso facilitará nosso trabalho quando usarmos o Google Earth. O misterioso poste no topo da referida montanha (1- amarelo) faz sentido, pois é a continuação da linha de baixa tensão que segue a pista, mas sobe a montanha para evitar passar pelo túnel. Vemos à esquerda a torre de alta tensão que vimos anteriormente (2-amarelo).
O ângulo que apreciamos de um ponto alto da montanha para o lado esquerdo da estrada (lembramos sempre que tomamos o lado oposto do túnel como ponto de referência) permite-nos observar uma vista maravilhosa da paisagem montanhosa norte-coreana . Para melhor dividir os achados, o que descobrimos até agora está delineado na forma de linhas e setas de diferentes cores abaixo da linha pontilhada preta.
O que está acima será extremamente útil ao usar o Google Earth e o Google Maps para determinar a área exata do lançamento. Entre todas as silhuetas montanhosas e os vales, detectamos dois possíveis indícios de civilização que contrastam com o verde da vegetação: uma área possivelmente urbanizada no final das grandes montanhas (direita) e duas estranhas figuras brancas não identificadas (esquerda).
Nesta imagem não podemos obter muitas informações, mas é bastante curioso. Primeiro, as letras acima do túnel (1-azul). Anteriormente, vimos como os personagens foram lidos claramente aos 0:08 do vídeo. Por outro lado, o poste mais próximo do túnel (1-amarelo) revela outra pista: um número 79. Ou seja, os postes são, teoricamente, numerados por ordem de colocação e, assim sendo, junto com as medidas que obtivemos acima, podemos conhecer a origem desta linha de energia.
Se retrocedermos o vídeo até o segundo 0:57, pode-se ver como no post anterior (1-amarelo) há uma placa com o número 77. Então, tomando como referência as medidas da Imagem 13, podemos concluir que a fonte de energia desta linha está localizada em aproximadamente 3 km e meio.
O acostamento direito da estrada (2-azul) também é interessante, pois destaca uma pequena mureta e dois pequenos pilares, supostamente para marcar o percurso em tempos antigos. Acima do túnel vemos o cinegrafista (1-roxo) com mais detalhes, mas o mais interessante fica ao lado do poste de energia: um drone (2-roxo) usado para fazer imagens aéreas, que podem ser vistas durante o vídeo e até em transmissões KCNA.
Regressamos a um miradouro junto ao topo do túnel, desta vez com uma vista de cima. Destaco o grande declive da montanha junto à estrada (1-vermelho) porque é a primeira vez que podemos observar o ângulo real desta. Vemos também as silhuetas das montanhas diante do mirante (2-vermelho), que conta com a presença de cinegrafistas (1-roxo), e a serra ao fundo (3-vermelho). Vemos como uma torre de alta tensão (1-amarelo) se destaca acima da montanha mais próxima. Por fim, vale destacar a ferrovia (1-azul) que mantém um trajeto reto, praticamente sem desvio.
Por fim, realizamos uma observação de detalhes da área, para podermos ter uma ideia do que temos que procurar no Google Earth e no Google Maps. A primeira coisa a notar é o terreno. Podemos desenhar as linhas mais altas das montanhas próximas (1-vermelho).
A seguir, vemos mais definidas as extensões reais das clareiras próximas à estrada (2-vermelho). E, finalmente, podemos distinguir duas novas clareiras atrás das montanhas anteriores (3-vermelho). A linha férrea confirma a teoria de que é quase reta até chegar ao túnel (1-azul). O túnel, por sua vez, mede quatro locomotivas (2-azul), totalizando aproximadamente 70 metros. Finalmente, a pista que sai do túnel vira para a esquerda (3-azul).

Análise de mapas

Mapa 1: Geográfico
Se quisermos geolocalizar o lançamento, é vital conhecer a geografia da Coreia do Norte. Este país caracteriza-se por ser montanhoso, especialmente na fronteira com a República Popular da China. De fato, há o Monte Paektu, uma montanha emblemática do país asiático, no topo da qual, na cratera de um vulcão inativo, formou-se o denominado Lago do Céu.
Uma cadeia de montanhas se estende até a Coreia do Sul, deixando apenas uma área plana a oeste, onde fica a capital. Pelo que observamos, o lançamento ocorreu em ambiente montanhoso, longe de qualquer sinal de costa, de modo que a costa e áreas planas e baixas estão descartadas.

Mapa 2: Política
Da mesma forma que na geografia, devemos conhecer a distribuição das várias sub-regiões. Na Imagem 9 vemos uma pista importante, o nome da cidade de Mundeok. Esta cidade pertence à região de Pyongan do Sul (ou Pyongan-Namdo, como aparece no mapa), uma área que contém planícies e montanhas.
Supondo que os nomes dos túneis mostrem cidades da mesma província, assumimos que o túnel está localizado em algum lugar no sul de Pyongan. Isso reduz drasticamente o campo de busca, pois só temos que buscar em uma única região.

Mapa 3: Clima

Mapa 4: Ferrovias
Conhecer o sistema ferroviário norte-coreano é de grande interesse, já que o lançamento é feito a partir de um trem.
A partir deste mapa podemos identificar os diferentes tipos de linhas e a sua geolocalização. Desta forma, podemos identificar mais rapidamente as linhas ferroviárias que nos interessam.

Mapa 5: Relevo
Restringindo ainda mais a área de pesquisa, este mapa de relevo da Província de Pyongan do Sul (ou Pyongan-Namdo) nos mostra as áreas montanhosas, urbanas e planas. Em vermelho indico a cidade de Mundeok, vista em uma placa na imagem 9, para nos dar uma ideia de onde a estrada pode estar localizada.
Isso nos ajuda ainda mais a restringir a área de pesquisa e, em conjunto com os Mapas 3 e 4, determinar a área exata.

Mapa 6: Eletricidade
O outro aspecto que pode nos ajudar é conhecer o mapa de trânsito elétrico do país. Lembre-se que a pista é seguida por duas linhas de energia: uma de baixa tensão e outra de alta tensão. Também temos a pista dos números nos polos de baixa tensão, que nos dão uma ideia aproximada da proximidade de uma usina ou subestação elétrica.

Análise de informações
Vemos pela primeira vez a alegação de que este lançamento não ocorreu em 16 de setembro, mas no dia anterior, 15 de setembro, em uma notícia publicada pelo The San Diego Union-Tribune. As imagens, entretanto, foram publicadas pela rede de televisão estatal KCNA em 16 de setembro.
Com os novos dados, devemos encontrar novos mapas e pistas que possam nos ajudar. Neste caso, o Mapa Meteorológico (Mapa 3) mostrava os dados de 16 de setembro, no dia seguinte, por isso atualizamos para 15 de setembro.
Nesta ocasião apenas conseguimos obter 3 horas de referência para nos orientar (descartando as que são à noite e de madrugada) e, de acordo com os dados obtidos, vemos que é muito provável que os lançamentos tenham sido feitos à tarde, já que foi quando mais nebulosidade foi detectada no céu norte-coreano.
Esta notícia da BBC revela outro fato interessante: os mísseis lançados do trem percorreram cerca de 800 km antes de atingir um alvo de teste no mar oriental do país (Mar do Japão). Esses dados podem nos ajudar a fechar um pouco mais o círculo de busca, pois se houver algum ponto na linha de distância de 800 km que não chegue ao mar ou cruze a fronteira marítima, seria descartado.
Neste mapa com um raio de aproximadamente 800 km (800,56 km especificamente), tomando como ponto central a cidade de Mundeok, vemos que o raio chega até o mar, chegando até a superá-lo em vários pontos. Na verdade, o alcance é tal que até circunda toda a península coreana.
Como não sabemos a localização exata dos alvos de teste, mas eles criaram uma agitação internacional, não podemos descartar a possibilidade de que esses alvos estivessem localizados perto da fronteira japonesa ou sul-coreana.

Conclusões.
A paisagem diz-nos que estamos num local montanhoso, mas não de grande altitude. Caracteriza-se por ter três nervuras do lado direito da estrada, com duas clareiras entre elas, e um pequeno vale ascendente e outra clareira à esquerda. As costelas da esquerda conduzem a um vale transversal que as recolhe, em frente a uma montanha.
Tanto do lado direito como do lado oposto, avistam-se nítidas silhuetas das serras, com pouca (ou nenhuma) presença de urbanização. O céu está completamente nublado, sem nenhuma clareira por onde o Sol possa passar.
Na segunda nervura direita, no topo da montanha, tocando a estrada, vê-se uma pequena clareira ou miradouro, com duas estruturas artificiais (um arco quadrado de madeira e uma pequena escultura de pedras redondas).
Duas linhas de trânsito de eletricidade são identificadas no vídeo: uma de torres de alta tensão, localizada aproximadamente no vale transversal; e outro de postes de baixa tensão, que acompanha a linha férrea. Este último é numerado (vemos os números 78 e 79) e pode nos levar à origem dessa linha de baixa tensão.
A linha férrea na direção do túnel é praticamente reta. Ao atravessá-la, desvia-se ligeiramente para a esquerda, acompanhando o contorno da serra. A largura da via é o padrão universal (1435 mm) e suas condições são excelentes. Esta pista não é eletrificada.
O túnel tem aproximadamente 70 metros de comprimento. À entrada deste, à sua esquerda, distinguimos uma placa onde se lê "Mundeok", o que significa que esta localidade está situada num ponto não muito distante seguindo esta estrada.

Primeira tentativa de geolocalização
A primeira abordagem foi feita nos arredores montanhosos da cidade de Mundeok, tomando todo o sistema da área (que inclui a capital, Pyongyang).
Essas montanhas são amplamente urbanizadas, e é difícil para qualquer um dos vales entre elas não conter um edifício ou uma estrada. É atravessado apenas por uma ferrovia (Dongbungni-Jungi-Galli), que é sempre plana. Apenas a linha a oeste da serra (a Linha Pyongui) chega a Mundeok.

Conclusão
Após examinar detalhadamente a área, concluímos que ela deveria ser descartada.
Em primeiro lugar, o alto nível de urbanização da área impede que ocorram condições como as do vídeo, em que (quase) não se observam sinais de urbanização no entorno e arredores visíveis.
Em segundo lugar, o layout das faixas não corresponde ao do vídeo. Eles cercam todo o vale da montanha, não entrando nele exceto em um ponto ao sul, perto de Pyongyang. Desta forma, e contando com o relevo da zona, é impossível que existam vales e montanhas como os do vídeo.
Terceiro, os túneis. Estes são quase inexistentes em ambas as rotas, e os que existem não coincidem de forma alguma com o do vídeo. Além disso, eles também não estão na área montanhosa, então, novamente, as características do terreno não correspondem ao que estamos procurando.
Por fim, e em linha com os anteriores, tem a ver com o terreno junto aos trilhos. Em nenhum momento as características do terreno (planícies, clareiras, distribuição de serras, nervuras, vales...) se assemelham às da região.
Podemos dar esta primeira tentativa como fracassada, pois não há vestígios do que estamos procurando. Então, vamos tentar uma segunda opção de pesquisa.
Lembre-se que havia linhas de alta tensão perto da área (elas cruzaram o vale transversal). Então, a partir do mapa da linha de energia, devemos encontrar uma estação de energia perto de Mundeok que fica perto dos trilhos do trem.

Segunda tentativa de geolocalização
Neste novo ponto de vista podemos ver as principais usinas da região. Destacamos, sobretudo, a conhecida central nuclear de Yongbyeon, com 50 MW de potência. Este é o centro das atenções dos países vizinhos, uma vez que se supõe que ali seja enriquecido urânio para armas nucleares.
A outra usina a destacar é Huicheon, uma das maiores hidrelétricas de toda a Coreia do Norte.
PET: Usina Termelétrica - PEH: Usina Hidrelétrica - PEN: Usina Nuclear

Conclusão
Esta nova abordagem abre um campo de pesquisa mais amplo, especialmente na zona norte da cidade de Mundeok e mesmo fora da província de Pyongan-Namdo. Ainda assim, esta área é descartada novamente.
Em primeiro lugar, as usinas do sul (Dezembro, Pyongyang-Leste e Munsu-Dong) parecem estar preparadas para abastecer a capital norte-coreana e as cidades vizinhas, já que não se vê sair grandes torres de alta tensão dessas usinas, que levem eletricidade a longas distâncias, além do fato de que as linhas ferroviárias da região também não coincidem com as do vídeo.
Em segundo lugar, a usina hidrelétrica de Huicheon tem linhas de alta tensão, mas elas seguem para o norte e oeste, nem chegando perto da cidade de Mundeok. Por fim, as estações de energia mais próximas (Chongchon-Gang e Yongbyeon) não possuem tomadas de alta tensão, então, novamente, é impossível que elas sejam a fonte da fiação. Além disso, a usina nuclear de Yongbyeon é cercada e guardada pelos militares.
Consideramos, portanto, esta segunda tentativa sem sucesso, pois não encontramos vestígios da linha de alta tensão vista no vídeo. É possível que estejamos dando muita atenção a elementos artificiais e que estejamos ignorando outros campos. Um exemplo disso é que estamos focando a investigação em torno da cidade de Mundeok devido à suposta presença deste nome em uma placa ao lado do túnel.
A sudeste da província, em Yangdeok, identificamos uma cordilheira que poderia ser candidata a sediar o local de lançamento, pois é uma serra e o nível de urbanização é menor. Vamos focar a próxima tentativa lá.

Terceira tentativa de geolocalização
A zona sudeste de Pyongan-Namdo é atravessada por uma linha férrea, a Linha Pyongra, que, embora eletrificada, não pode passar despercebida, uma vez que as características da zona a tornam uma boa candidata a acolher a área de lançamento.
Assim, iniciaremos a busca em Yangdeok, por ser mais distante da capital e, portanto, deve ter um menor grau de urbanização; e seguiremos a linha férrea no sentido leste, para nos afastarmos ainda mais da capital.

A linha férrea é desviada para o norte para a província de Hamyong do Sul. Ainda assim, as previsões estavam corretas e o nível de urbanização nesta área é muito menor do que no noroeste da província. Podemos estreitar ainda mais a área à medida que nos movemos ao longo da ferrovia.
A meio caminho da estação Geocha, partindo da estação Seoktang Oncheon, encontramos uma zona com dois túneis, sendo que o primeiro tem uma boa semelhança com a zona que procuramos.

Passamos a analisá-lo em detalhe.

Conclusão
Como havíamos previsto inicialmente, as características desta área estão mais próximas às do nosso critério de pesquisa: área montanhosa com pouca urbanização. Neste caso, a zona está correta.
Em primeiro lugar, são apreciadas as clareiras e costelas que mencionamos ao longo da investigação. Em segundo lugar, o túnel tem a mesma distância necessária. Além disso, a curvatura da pista ao sair é a mesma do vídeo.
Terceiro, a pista antes da entrada do túnel é quase completamente reta.
Também podemos ver o pequeno miradouro da montanha anterior, onde estavam os cinegrafistas com a estrutura de madeira artificial e a pequena suposta escultura de pedras redondas.
A leste da estrada, embora difíceis de reconhecer, estão as torres de alta tensão que aparecem no vídeo. Finalmente, com a vista aérea no ângulo indicado, vemos como esta imagem e a Imagem 18 são idênticas.
Concluímos, então, que encontramos o local exato do lançamento.  Este está localizado na Linha Pyongra, a mais longa da Coreia do Norte e que liga a capital, Pyongyang, a Rajin, quase na fronteira com a Rússia.
O ponto de lançamento exato foi entre Seoktang Okcheon e Geocha, nas coordenadas 39º16'31"N, 126º48'18"E.

Resultado final

Ferramentas usadas:
— Video.twimg.com,             — Wikipedia,
— Google Maps,                    — Google Earth,
— Google Translate,              — Google Images,
— Canva,                               — BBC,
— Ventusky,                           — San Diego Union
— Tribune.
Fonte: tradução livre de LISA News