quinta-feira, 15 de julho de 2021

Colombianos e o Magnicídio no Haiti

Momento em que os eventuais mercenários chegam à residencia do presidente enquanto uma vizinha grava e narra os fatos. 
Fonte: Canal de Marcel Ramirez Rhor
Cabos soltos do magnicídio no Haití
Ex-militar revela detalhes do recrutamento de colombianos: ‘Estão escondendo informação'.
Doze tiros de fuzil e de pistola 9 mm, orifícios de bala na testa e em cada mamilo, três disparos no quadril, outro no abdome, e seu braço e pé direitos fraturados.
A necropsia do assassinado presidente do Haití, Jovenel Moïse, e imagens de varias câmeras de segurança estão deixando em evidencia o que ocorreu na noite e madrugada de 6 para 7 de julho, em Pétion-Ville, o exclusivo bairro de Porto Príncipe onde está localizada a residencia do mandatário morto.
Agencias de quatro países estão investigando quem está por trás do magnicídio de Moïse, que liderava a cinco anos esse convulsionado país.
O presidente Jovenel Moise permaneceu 5 anos no poder.
Planejava um referendum para uma nova constituição.
Foto: AFP / Valerie Baeriswyl
Nas ruas de sua capital, hordas de cidadãos e autoridades realizaram uma caça aos membros do comando armado que esteve no local do crime. Ao mesmo tempo, o primeiro ministro, Claude Joseph, declarou o estado de sitio.
Para piorar a situação, 24 horas depois do magnicídio, o comandante da Polícia, León Charles, fez uma revelação bombástica. Afirmou que 26 colombianos conformavam o comando armado, três dos quais foram aniquilados na Rue Pinchinat, em Pétion.
Até agora, são 26 os colombianos envolvidos no crime do presidente do Haití. Foto: EFE/ Jean Marc Hervé Abélard

Nesse momento, Charles já tinha em suas mãos um informe com dados dos ex-militares, que o presidente Iván Duque havia ordenado elaborar para as autoridades haitianas.
Também, foi pactuado que pessoal de Inteligência da Polícia e da Direção Nacional de Inteligencia (DNI) apoiarão no terreno a investigação levada a efeito pelo FBI.
Recrutadores e Hérard
Duberney Capador, segundo
 sua família, foi ao Haití para 
trabalhar em uma empresa
de segurança.
Foto: Arquivo familiar
Sem que a investigação sequer tivesse tomado impulso, a noticia de que ex-militares colombianos estavam envolvidos no magnicídio deu a volta ao mundo.
Internacionalmente se fala da Colômbia como uma fonte de mercenários, resquícios do conflito interno.
Por enquanto há evidência de que sete civis e treze ex-militares — dois oficiais, três suboficiais e oito soldados (todos veteranos)  estão implicados nos fatos. Mas há mais.
Houve contato com um dos militares colombianos (*), que narrou como terminou encurralado no Haití, depois de ser um combatente condecorado.
Ele diz que foi contratado pelo Vice-primeiro Sargento (r.) Duberney Capador, de 40 años, que morreu depois da operação. Capador serviu na Brigada 30 de Cúcuta, até janeiro de 2020 — a mesma onde explodiu um carro bomba há um mês atrás. Além desse detalhe, ele é apontado como um dos recrutadores, ainda que isto seja negado por  conhecidos dele.
Dimitri Herard, Chefe da Segurança Presidencial, 
deverá depor em 13 de junho.  Foto: Arquivo Particular


Também buscam saber se Marco Antonio Palacios, que viajou com o grupo, tem ascendência haitiana. E o FBI rastreia se a empresa de segurança privada de Dimitri Hérard, o Chefe de Segurança do Palácio Nacional, teve contato com os colombianos.
Além disso, querem estabelecer o quê fez Hérard em sua viagem relâmpago ao Equador em 22 de maio deste ano — país onde foi treinado, em 2012 —, e que incluiu uma escala em Bogotá.
Foram apreendidas armas, e
 passaportes dos colombianos
detidos. Foto: Polícia do Haití
Dimitri Hérard já vinha sendo investigado por possível tráfico de armas. E está citado para depor na próxima semana, junto com Jean Laguel Civil, coordenador de Segurança do presidente Moïse.
As autoridades querem que expliquem como permitiram que o presidente fosse torturado com sanha e depois assassinado em sua própria residencia; por que ninguém do anel de segurança resultou ferido; e como o grupo armado ingressou sem ser detetado e sem que houvesse sequer um intercambio de disparos.
Segundo o ex-militar colombiano (*), o Haití oculta informação. Diz que a entrada de colombianos naquele país foi rápida e sem perguntas. Foi dito a eles que estavam sendo contratados pelo Governo.
Como em maio ou junho, se criou um grupo de WhatsApp no qual começaram a oferecer o trabalho. A ideia era prestar segurança em setores afetados por bandos de sequestradores, em especial uma que opera em Laule 12. Também, proteger o presidente se fosse preciso. Ofereciam entre 2.300 e 2.800 dólares por mês, dependendo do treinamento”, explicou.
E acrescentou que, para atrair gente, houve reuniões em hotéis na zona de Corferias, em Bogotá.
A vivenda onde assassinaram o presidente do Haití está situada no bairro Perelin, en Puerto Príncipe. 
Foto: Jean Marc Herve. EFE
As Mensagens
Irão os que tenham passaporte em dia, Curso de Comandos, de Lanceiro ou de Forças Especiais”, se lê em uma das mensagens que ele mostra.
E em outra, se lê: “Levem duas camisetas pretas e duas calças caqui [para usar] enquanto esperam chegar o suprimento (...). Vão receber armas longas e curtas (...). Vamos lá!”.
Vários tinham esses cursos, entre eles Capador, Manuel Grosso Guarín e Francisco Eladio Uribe Ochoa, que estiveram juntos no Batalhão de Chiquinquirá, Boyacá, diz um investigador.
Manuel Antonio Grosso Guarín, um dos colombianos que estaria envolvido. Foto: obtida em redes sociais.
Grosso (primo distante do conselheiro presidencial para a Segurança, Rafael Guarín) foi motorista de confiança do Chefe do Estado-Maior da Brigada de Forças Especiais, em Tolemaida. E Uribe, membro do GAULA (Grupo de Ação Unificada para Liberdade Pessoal)  Militar, onde terminou envolvido em ‘falsos positivos’.
Agora, os colombianos capturados estão pedindo que as autoridades revisem as câmeras de segurança. Ali, dizem, está registrado que o presidente foi assassinado por volta das 1:30 horas; e o comando de colombianos chegou pelas 2:40 horas.
Dois dos detidos declararam que se dirigiram ao lugar porque lhes relataram que ocorria um tiroteio. E também, que eles socorreram a primeira dama, Martine Moïse, gravemente ferida.
Mas os estadunidenses de origem haitiana, capturados — James Solages e Joseph Vincent —  deram uma versão diferente. Dizem que foram à casa do presidente para efetivar uma ordem de detenção de um juiz e não para matá-lo.
Em todo caso, aos investigadores, chama a atenção que o recrutamento na Colômbia — que teria tido apoio de quatro firmas de segurança privada locais — se deu pouco depois da decisão de Moïse de permanecer no poder por mais um ano.
Três dos colombianos foram mortos após o assalto à casa presidencial. Há oito fugitivos e outros implicados.
Foto: Jean Marc Hervé Abélard / EFE
Esse anuncio desatou a ira da oposição e de alguns poderosos (do setor energético, bancário, da construção e inclusive juízes) e líderes de vários partidos, já muito incomodados pelo fato de que Moïse vinha governando por decreto desde 2020, ante a não realização de eleições para o Congresso em outubro de 2019.
De fato, o mandatário já havia advertido que sabia de um plano para assassiná-lo ou dar um golpe de Estado, apesar de ter convocado as eleições de 26 de setembro.
Inclusive se acredita que a fratura em seu braço, encontrada na necropsia, se deveu a terem forçado para assinar sua demissão.
Mas, no aspecto penal, as duas grandes interrogações são: 
— ¿quem ordenou o assassinato? e 
¿os  colombianos  estão  envolvidos  no magnicídio ou foram utilizados para desviar a investigação?
A maneira como foi pago o deslocamento dos ex-militares — que se moveram desde Bogotá, via aérea, por Panamá e República Dominicana — pode esclarecer para quem eles trabalhavam.
Também traria pistas, saber quem alugou as luxuosas casas em que foram hospedados. Una destas, situada no exclusivo bairro Thomassin, foi ocupada, meses atrás, por Magalie Habitant, do partido haitiano PHTK, aliada do presidente Moïse. Segundo ela explicou, um advogado alugou a casa dela.
Ainda chamou a atenção o fato que James Solages, um dos estadunidenses de origem haitiana capturados, trabalhou para a empresa Sogener. Se trata da eletrificadora vinculada à família do falecido ex-presidente René Preval. Por sua vez, Solages assegurou que encontrou na internet, a oferta de ser tradutor do grupo de ex-militares.
Mas, no Haiti, muitos já concluem quem são os responsáveis: achegados de Moïse, inclusive seu embaixador na Colômbia, Jean Mary Exil, tem dito que a guerra que este desatou contra a corrupção, com vistas a executar uma mudança estrutural, trouxe incômodo a muitos.

A primeira dama
O presidente haitiano, Jovenel Moise, durante a cerimonia de investidura com sua esposa, Martine Marie Etienne Joseph, no Palácio Legislativo em Porto Príncipe. Foto: Efe

Ela é o caminho mais curto para saber o que ocorreu. De fato, no sábado começou a dar pistas. Em um áudio, de 2 minutos e 20 segundos, atribuiu o ataque a “mercenários que não deixaram nem trocar uma palavra” com seu esposo.


E assegura que ele foi eliminado pelo desejo de celebrar um referendum para aprovar uma nova Constituição.

Tormenta interna
Na Colômbia, houve quem arremetesse contra o Exército e o Governo pela falta de controle sobre os militares altamente treinados que passam à inatividade. Mas para o doutor em direito internacional Eric Tremolada, não é pertinente ligar o sucedido no Haiti com o Governo ou o Exército.
Ao não ser agentes do Estado, o tratamento que teriam é o de criminosos comuns e ordinários ante a justiça haitiana. Enquanto não sejam militares ativos, Colômbia não tem que assumir responsabilidade internacional”, explica o acadêmico.
E John Marulanda, líder da Associação Colombiana de Oficiais Retirados (ACORE), saiu a rechaçar que se tente estigmatizar o Exército. E advertiu que uma coisa é contratar militares (inativos) qualificados, como os colombianos, para labores de segurança; e outra, lançar mão de mercenários, uma atividade proscrita no âmbito internacional.
Não foi uma operação de comando para abater a um objetivo. Parece mais uma emboscada”, pontualizou Marulanda.

A pista do narcotráfico na ilha
Na classificação que o Departamento de Estado faz sobre países vinculados ao tráfico de drogas, Colômbia e Haití sempre aparecem. 
O Cel (r) John Marulanda é
 consultor de segurança nacional
 e internacional.
Foto Twitter: @JohnMarulandaM
Por isso não se descarta que mafias do narcotráfico hajam articulado o plano para assassinar o presidente Jovenel Moïse, em conjunto com outras forças.
A DEA considera que a ilha é o centro de distribuição da cocaína produzida na Colômbia (que sai via Venezuela), e da mariguana da Jamaica.
A corrupção de seu sistema judicial e o pouco controle de suas fronteiras marítimas são capitalizados por poderosos carteis.
República Dominicana prometeu que em julho iniciaria a construir um muro para fechar a fronteira com o Haití, devido ao alto contrabando de carros, tráfico de pessoas, narcotráfico e delinquência.
Essa ampla fronteira é propicia para que ocorram fatos como o de ingresso de mercenários”, diz John Marulanda, líder da ACORE e consultor internacional em segurança.
Observação: (*) - Não identificado visando preservar sua integridade.
Unidad Investigativa
u.investigativa@eltiempo.com
Notícias relacionadas:
Fonte: tradução livre de  El Tiempo
COMENTO: Dois pontos a serem destacados. Primeiro, os candidatos a mercenários não aprenderam que no mundo das operações veladas praticamente nada é o que parece serSegundo ponto. O Presidente morto se propôs a reerguer seu país  batendo de frente contra a criminalidade consolidada no Haiti — e ousou querer sustentar sua luta por mais um mandato. Acabou a paciência dos delinquentes, que uniram-se para dar cabo em quem ousou enfrenta-los. Que nos sirva de  lição. Há povos que não possuem capacidade de discernimento para viver em estado democrático, só a mão firme do Leviatã os mantém sob controle. Bandidos são bandidos e cometem ações inerentes a bandidos. Em todos os lugares! Repito: que nos sirva de lição!!
ATUALIZAÇÃO: Não há muito de novidade. Quatro dos colombianos presos confessaram que o assassinato do Presidente haitiano foi planejado por Joseph Badio ex-funcionário do Ministério da Justiça do Haiti. O Presidente teria sido executado pelo colombiano Victor Albeiro Pinea Cardona, o Mike. 19 Ago 2021.
Fonte: El Tiempo

segunda-feira, 5 de julho de 2021

As Pressões dos Canalhas Para Viabilizar o Golpe

por Gélio Fregapani
Para que uma máquina funcione bem cada peça tem que fazer o seu trabalho, uma falhando o desempenho da máquina será prejudicado e conforme a importância da peça pode até emperrar todo o sistema.
Há alguma analogia entre uma máquina e o mecanismo de um governo, mas se nas máquinas as peças estragam por causas mecânicas nas instituições as peças podem não funcionar por vontade própria. Isto fica evidenciado na atitude do STF em retardar indefinidamente os julgamentos de processos que chegam até a sua instância, prejudicando o funcionamento do sistema como um todo, mas isto não chegou a paralisar o sistema governamental o qual, mesmo prejudicado, continuou funcionando. 
Fosse o STF peça de uma máquina certamente seria trocada ainda nesta fase em que ficou claro que, mesmo sendo importante, não era essencial para o funcionamento do governo. As duas instâncias anteriores já forneceriam ao menos a justiça indispensável ao funcionamento da sociedade. 
Porém uma peça de um sistema de governo tem vontade própria e se porventura essa vontade for apenas contrariar o Executivo a situação se complica. 
Poderia se esperar até que, dentro das deformações do jogo democrático, que o STF apoiasse a sua ideologia partidária em prejuízo da verdade, mas não haveria expectativa de que tentasse legislar como se legislativo fosse e a usurpar funções privativas do executivo, parecia fora de cogitação. Entretanto, é isto que acontece pois o STF — ou alguns de seus ministros, quando interessa à sua ideologia ou à seus patronos, legislam, investigam e julgam quando a função legal deles se resume a julgar assuntos constitucionais, pessoal com foro privilegiado e recursos de terceira instância os quais em parte, esperam até a sua prescrição.
Surpreende aos menos atentos a conformidade dos demais poderes em face do avanço do STF, que no legislativo pode ser exemplificado pela ordem de abrir a CPI para investigar a “responsabilidade” do Presidente na epidemia. Ainda que possa haver variadas motivações para que o Senado ceda a essa imposição, não há como evitar a impressão que existam tantos senadores comprometidos com corrupções, que ministros da Suprema Corte os mantenham reféns enquanto esperam pelas prescrições, mas é mais difícil compreender o porquê de o Presidente, que não tem o rabo preso, tolerar a intromissão do STF, que desde a sua posse, empenha-se em impedir as medidas desejadas pelo Presidente, na esperança de que seu governo seja um fracasso. O STF não está sozinho no desejo de derrubá-lo, as velhas raposas políticas previam que seu governo não resistiria a sete meses e prepararam uma perigosa rebelião da maioria dos governadores e a traição de aliados que tinham ajudado a derrotar o PT  o Mandeta e o Moro, os mais prestigiados de seu ministério. Seu único aliado ostensivo continuava a ser o apoio popular, pois as Forças Armadas estavam mudas, chefiadas por comandantes que aparentemente, dedicavam sua lealdade mais a fachada de democracia do que ao bem da Pátria.
Passado o momento de maior perigo, Bolsonaro continuou tolerando as intromissões do STF, mas o ambiente foi se agravando, tendendo para um confronto pois o STF, impulsionado pelos partidos de esquerda continua a forjar um pretexto para retirar Bolsonaro da presidência, enquanto este da mostras que não cairá sem reagir, sabendo que conta com o apoio da opinião pública e que terá o Exército atrás de si se for necessário virar a mesa.
O grande apoio popular aponta para que nas próximas eleições, se houver lisura, serão varridos muitos dos deputados e senadores oposicionistas/corruptos e com sua base aumentada o Presidente conseguiria governar com maior sucesso, portanto é do interesse do governo evitar o conflito. As oposições, vendo que o tempo trabalha contra elas, sentem que precisam alijar o Bolsonaro da presidência antes da eleição e provocam de todas as formas na esperança de que um ato de força do governo lhes dê um pretexto jurídico para declará-lo afastado. Não conseguindo ainda resta às oposições fraudar a eleição, por isto se opõem ferozmente a qualquer forma de voto auditável, afirmando que as urnas eletrônicas são seguras, quando até a mais ingênua das criaturas sente que houve fraudes em todas as nossas eleições, inclusive na última, apenas nesta não foi suficiente.
Podemos esperar que o STF continue a ocupar cada vez mais espaço até provocar uma reação que arranhe as leis, na esperança de que as Forças Armadas se quedem neutralizadas pela aparente legalidade dos tribunais. Num cenário assim certamente o Exército decidiria de forma unanime por apoiar a legitimidade da opinião pública mesmo contra a aparente legalidade de um JUDICIÁRIO CORROMPIDO.
No final, como sempre, o poder se origina na boca dos fuzis. Que o Criador abençoe nossas armas e nossas mentes.
Gelio Augusto Barbosa Fregapani,
é Coronel, Veterano do Exército
Paraquedista e amante da Amazônia.

sábado, 19 de junho de 2021

Conjunto Farroupilha o Grupo Que Apresentou o Gauchismo ao Mundo

DE PILCHA, MUNDO AFORA
Grupo formado na Rádio Farroupilha em setembro de 1948 foi responsável por levar a música com o sotaque do Rio Grande do Sul a EUA, China e Rússia, entre outros países.
por William Mansque
A partir da esquerda: Tasso Bangel, Alfeu, Danilo, Estrela D’Alva e Inah, na BBC de Londres, onde teriam sido vistos pelos Beatles 
Imagem: Arquivo RBS
Em entrevista ao projeto Three Pieces, no qual músicos de todo o mundo falam sobre três canções ou artistas que marcaram suas vidas, o russo Andrey Makarevich escolheu o Conjunto Farroupilha entre uma de suas opções. Aos 64 anos, líder da banda Mashina Vremeni, em atividade desde 1969, Makarevich é um ícone do rock da Rússia. No vídeo publicado em 2012 no canal do YouTube do Three Pieces, ele lembrou shows do grupo gaúcho naquele país nos anos 1960 e seus dois discos lançados por lá, com destaque para a faixa Tem que Ter Mulata, composição do sambista gaúcho Túlio Piva. Entre suas impressões sobre essa música, Makarevich a descreve como "mágica", antes de começar a cantar, em português — com sotaque:
"O samba pra ser samba brasileiro/ Tem que ter pandeiro/ Tem que ter pandeiro/ O samba pra ser samba na batata/ Tem que ter mulata/ Tem que ter mulata".
Makarevich ainda sublinhou sua relação com o Conjunto Farroupilha:
 Faz lágrimas sentimentais caírem dos meus velhos olhos.
Internacional, brasileiro e gaúcho: o mundo era pequeno para o Conjunto Farroupilha, cuja fundação completa 70 anos neste mês de setembro [de 2018]. Afinal, não são muitos os músicos que podem fazer a seguinte constatação:
 Posso te dizer que conheço todo o planeta Terra.
A frase é do maestro Tasso Bangel, 87 anos, arranjador, acordeonista e líder do Conjunto Farroupilha. O grupo foi pioneiro na concepção da música regional gaúcha e, também, ao mostrar essa música no Exterior.
 Com certeza foi o primeiro grupo a levar a música do Rio Grande do Sul para fora do país. Também há a parte performática, de vestir trajes (pilcha e vestido de prenda), localizando um gaúcho no sul do Brasil, além daquele da Argentina — afirma o compositor e historiador Vinícius Brum.
O conjunto foi criado em 1948 para ser o grupo Rádio Farroupilha. Uma de suas incentivadoras foi Inah Vital, que viria a se casar com Tasso Bangel. A soprano costumava se apresentar nos estúdios da emissora.
 Ela era a primeira cantora do Rio Grande do Sul. Ainda não era o tempo de Elis Regina — garante o maestro Bangel.
Inah não gostava de cantar sozinha, por isso pressionava a direção da rádio para que um conjunto fosse formado. Na época, Tasso havia se mudado de Taquara para Porto Alegre, onde estudava música no Instituto Belas Artes. Como também tocava com frequência na emissora, logo seu nome foi lembrado para o grupo. Além do futuro casal, a primeira formação do conjunto contava com Danilo Vital (irmão de Inah), Alfeu de Azevedo e Eddy Gomes (que sairia em 1950). O conjunto teve ainda Estrela D’Alva (entrou em 1951), Sidney do Espírito Santo (que substituiu Alfeu), Lourdinha Pereira e Norma Nagib.
Como destaca a doutora em música Luciana Prass no artigo Nas Asas da Varig e da Panair: o Conjunto Farroupilha e o Espalhamento da Música Popular Brasileira e Gaúcha nos Anos 50 e 60 do Século XX, o quinteto seria o primeiro conjunto vocal brasileiro a misturar vozes masculinas e femininas. No início, o grupo foi influenciado pelas big bands de jazz norte-americanas, como a de Glenn Miller. O primeiro arranjo executado foi Please, Don't Say No, Say Maybe, de Sammy Fain e Arthur Freed, sucesso em 1945.
 Naquela época, as rádios costumavam ter seus conjuntos com músicos contratados. Nos anos 1940, a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, era a emissora mais ouvida do Brasil. As rádios daqui, como a Farroupilha, pegavam as playlists do que era tocado no Rio naquele momento, e aí os arranjadores locais faziam novos arranjos para essas mesmas músicas. Era um repertório brasileiro unificado — explica o músico e pesquisador Arthur de Faria.
Além da influência do jazz das grandes orquestras americanas, o grupo trazia em sua sonoridade reminiscências ao tango dos países do Prata e dialogava com grupos vocais do Brasil e dos EUA. Mas logo em seguida o Conjunto Farroupilha se encontraria com os então jovens folcloristas Barbosa Lessa e Paixão Côrtes. E, a partir disso, passaria a ter um repertório mais identificado com a cultural local.
O conjunto em uma imagem clássica, com Bangel ao centro - Arquivo RBS
O regional resiste
Ao longo das décadas de 1940 e 1950, Côrtes e Lessa se empenharam na pesquisa da tradição gaúcha, criando uma série de solenidades que visavam a chamar a atenção para os símbolos socioculturais do Estado: a Chama Crioula como uma extensão da Chama da Semana da Pátria, o Desfile dos Cavalarianos, a Ronda Crioula e o primeiro Centro de Tradições Gaúchas, estabelecido em 1948 com o nome de 35.
 No fundo, é tudo uma reação à americanização do mundo no pós-guerra. Durante os anos 1940, a cultura americana passou a ser foco do mundo, e os regionalistas passaram a ter medo de que suas culturas acabassem e tudo ficasse dominado pelos EUA. Então, surgiram esses movimentos de resistência local, às vezes inconsciente. No Rio Grande do Sul, houve o Érico Veríssimo escrevendo O Tempo e o Vento, surgiu o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), o 35 CTG, tudo nessa segunda metade dos anos 1940 — observa Arthur de Faria.
Porém, o resgate às tradições e ao folclore só seria completo com a difusão de suas danças e músicas. No livro Danças e Andanças da Tradição Gaúcha, de 1975, Côrtes e Lessa relatam que, no começo dos anos 1950, uma nova fábrica de discos do Rio chamada Rádio introduzia uma novidade no Brasil, o long-play (LP), com suas gravações em 33 rotações por minuto (rpm). Até então, somente se conhecia o disco com uma música em cada face, em 78 rotações. Conforme a publicação, a fábrica convidou o Conjunto Farroupilha para gravar um LP, mas exigiu que ele tivesse músicas típicas do Sul. "Não possuindo repertório para isso, os rapazes e moças do conjunto entraram em contato conosco. Mostramos canções nossas e também melodias de projeção folclórica", escreveram os dois folcloristas.
Lançado em 1953, Gaúcho traz sete faixas propostas por Lessa e Côrtes, além de Amargo, de A. Amábile e Lupicínio Rodrigues. Nesse álbum, aparecem músicas como Negrinho do Pastoreio e Tatu. Contando com vocais harmoniosos acompanhados por orquestra, o disco foi um aceno para o que seria chamado por Paixão Côrtes, no livro Aspectos da Música e Fonografia Gaúchas, de 1984, de "Estilo Conjunto Farroupilha" — o qual combina a sonoridade do folclore gaúcho com elementos de outros "rincões". Segundo Côrtes, essa linha se iniciou na década de 1940, com o grupo vocal Quitandinha Serenaders, e teve continuidade com Os Sinuelos, Os Gaudérios e Os Araganos. Foi nesse momento que a tradição pesquisada pelos folcloristas seria incorporada ao visual dos integrantes, que passaram a vestir a indumentária gaúcha.
Em 1957, Gaúchos em Hi-Fi deu sequência à proposta do álbum de estreia, trazendo novamente canções folclóricas recolhidas e compostas por Lessa e Côrtes  como Balaio, Maçanico, Noites Gaúchas e Prenda Minha. No disco lançado pela gravadora Columbia, o conjunto aproveitou recursos tecnológicos da época combinados com arranjos modernos assinados pelo maestro italiano Enrico Simonetti.
 Gaúchos em Hi-Fi é um dos ápices da chamada canção regional. Ele foi lançado 14 anos antes da Califórnia da Canção, que é o segundo episódio conformador desse espectro da música regional, evidentemente, em paralelo a outras correntes e festivais — avalia Vinícius Brum.
Para Brum, o trabalho do Conjunto Farroupilha, "que alia a sofisticação musical, a excelência estética e os textos voltados para a temática rural ou folclórica do Rio Grande do Sul", constitui "um marco decisivo" para que a canção regional gaúcha alcance a enorme popularidade que detém hoje.
De todo modo, paradoxalmente, o Rio Grande do Sul foi pequeno para a sonoridade do Conjunto Farroupilha.

Inspiração brasileira
De Norte a Sul (1956), disco lançado entre Gaúcho (1953) e Gaúchos em Hi-Fi (1957), já dava uma amostra de que a inspiração para o grupo iria além do Mampituba. O Farroupilha explorou regionalismos de outras partes do Brasil, apresentando faixas de compositores de São Paulo, Alagoas, Bahia, Pernambuco e Pará. Há clássicos como Tristeza do Jeca, Boi Bumbá e Festa de Rua, esta última de Dorival Caymmi.
 Um diferencial do Conjunto Farroupilha foi ter uma ambição nacional, que possivelmente foi herdada de Pedro Raymundo, que se vestiu de gaúcho e foi tocar no centro do país antes do grupo. Tanto que o Farroupilha gravou bossa nova, samba, entre outros gêneros. Não queria se circunscrever ao ambiente regional. Eram músicos muito bons tecnicamente — opina o músico e historiógrafo Henrique Mann, fazendo referência ao catarinense (de Imaruí) Pedro Raymundo, cuja figura inspirou ícones do gauchismo como Gildo de Freitas e Teixeirinha.
No mesmo ano em que lançou De Norte a Sul, o conjunto se desligou da Rádio Farroupilha e deixou o Estado.
 Concluímos que queríamos mais. Queríamos grandes palcos, grandes lugares, e fomos para o Rio — conta Tasso.  Antes, já íamos ao centro do país, porque a Farroupilha integrava a rede associada do Assis Chateaubriand, assim como as rádios Tupi de Rio e São Paulo. Representávamos o Rio Grande do Sul nos festivais nacionais.
Depois, saindo do Rio, os integrantes do conjunto ainda foram morar em São Paulo, onde se mantiveram até o encerramento das atividades do grupo.
Seus discos posteriores mesclariam canções de Côrtes e Lessa com músicas de outros compositores brasileiros e internacionais. Os Farroupilhas na TV (1960) traz a primeira gravação de Samba de uma Nota Só, de Tom Jobim e Newton Mendonça, música que ganharia o mundo no disco Jazz Samba (1962), de Stan Getz e Charlie Parker, que levou a bossa nova aos EUA.
 Estávamos gravando no estúdio da Columbia quando apareceu por lá o Tom Jobim. Ele estava com a Maísa. Esperou que nós terminássemos para fazer as coisas dele. Foi ali que nos ouviu. E perguntou: "Quem é o arranjador?". Era comigo. Ele me disse: "Parabéns, achei o conjunto lindo. Tenho um samba, e queria ver se essa melodiazinha te agrada". Me deu a música. Lógico, eu adorei e gravamos — recorda Tasso.
Os Farroupilhas também estiveram no programa semanal Gessy 21 e 30, das TVs Rio, Record e Tupi:
 A cada programa, nós fazíamos um repertório dedicado a um tema específico: automóvel ou praia, por exemplo. Havia um episódio em que nosso cenário era um posto de gasolina, e nós éramos frentistas cantando. Tudo fantasia. As pessoas também não sabiam que era tudo dublado — diverte-se o maestro.

Farroupilha internacional
Conjunto Farroupilha em Londres
Arquivo Pessoal / Tasso Bangel
Ainda em meados dos anos 1950, o Conjunto passou a promover os eventos da Varig, vendendo uma imagem da cultura do Brasil ao redor do mundo — aonde quer que a companhia aérea fundada no Rio Grande do Sul fosse pousar.
 A empresa nos disse que gostaria de contar conosco porque nós cantávamos uma variedade de músicas. Além das nacionais e regionais, apresentávamos canções americanas, francesas e alemãs.
Só os sucessos da época. Então, eles queriam que a gente fosse nesses eventos, por exemplo, na França, e tocasse não só as músicas brasileiras, mas também as locais, fazendo essa mistura. Sempre nos mandavam antecipadamente a música de maior êxito naquele momento no país que visitaríamos. Quando a cantávamos, o público ia à loucura — diz Tasso.
Conjunto Farroupilha na Rússia
Arquivo Pessoal / Tasso Bangel
Assim, o conjunto viajou para Alemanha, França, Uruguai, Argentina, Porto Rico, EUA, Venezuela, Inglaterra, Portugal, Espanha, Noruega e Finlândia, entre outros países. A cada viagem, o grupo trazia canções internacionais em voga à época para seus discos, casos de Liechtensteiner Polka (Kotscher e Lindt) e Clases de Cha-Cha-Cha (Ramo’n Marquez e Sergio Marmolejo).
Para a Rússia do roqueiro Andrey Makarevich — e também para a China —, o Conjunto Farroupilha viajou a partir de uma associação com o Ministério das Relações Exteriores, que levou o grupo com o objetivo de divulgar a cultura nacional.
 O aplauso dos russos era arremessar flores. Nós ficávamos nos defendendo delas no final de cada apresentação. Coisa linda! — rememora Tasso.
Entre as apresentações no Exterior, destaque também para uma temporada dividida com o espetáculo burlesco do Moulin Rouge, que veio de Paris para mais de um mês em cartaz em Buenos Aires, seguindo depois para Mar del Plata, também na Argentina, e Montevidéu.
Anúncio de show do Conjunto
Farroupilha no Radio City
Music Hall, em Nova Iorque
Arquivo Pessoal / Tasso Bangel
Em Nova York, em 1960, o Conjunto Farroupilha se apresentou por várias semanas na icônica casa de espetáculos Radio City Music Hall.
 Lá, os shows foram fantásticos, pois havia orquestra nos acompanhando — afirma o maestro.
Segundo Luciana Prass, nessa ocasião o conjunto cumpria uma agenda em um país que, àquele momento, almejava ser mais cosmopolita:
 Quando os americanos gravavam uma polka alemã, uma canção russa ou um sucesso da Venezuela, eles estavam cumprindo o papel de ser uma indústria de música do mundo. Para mim, o Farroupilha era muito mais do que a face regional. Era cosmopolita, tanto na estética dos arranjos quanto na compreensão do repertório.
Um história folclórica do Farroupilha teria acontecido quando o grupo se apresentou na BBC, em Londres, no início dos anos 1960. Os integrantes estavam pilchados e ensaiando Samba de uma Nota Só. Até que a atenção do conjunto se voltou para a entrada do estúdio.
 A porta se abriu e tinha três cabecinhas olhando a gente cantar.
De repente, a Estrela D'Alva perguntou para um funcionário quem estava nos observando o tempo todo. Ele disse que não sabia e foi averiguar. Depois, trouxe a resposta: "Me disseram que, aparentemente, o nome deles é Beatles"  relata Tasso.
O maestro especula sobre o que teria chamado a atenção dos Beatles:
 Estavam interessados em algo diferente deles. Estávamos vestidos de gaúcho, exigência dos produtores do programa. Era o começo deles também, ainda não eram ninguém. O jeito que nós cantávamos os atraiu.

Legado a ser organizado
Tasso Bangel com "Gaúchos em Hi-Fi" (em LP)
Imagem: Andréa Graiz / Agencia RBS
De acordo com Tasso Bangel, o Conjunto Farroupilha teria encerrado suas atividades em 1992, totalizando 44 anos de carreira. Contudo, é difícil encontrar registros de atividades após o disco Farroupilha 35 (1983).
 O mercado musical estava mudando, e fomos indo até vermos que não dava mais para a gente. Eu também já tinha a minha vida musical como arranjador. Já não precisávamos mais financeiramente do Farroupilha para sobreviver — calcula o maestro, que formou o grupo Tom da Terra nos anos 1990 e hoje comanda o conjunto instrumental Camerata Pampeana.
Ainda há muitos pontos imprecisos na biografia do Conjunto Farroupilha, como as datas de entradas e saídas de integrantes e registros de apresentações históricas. Muito da história do grupo foi transmitida de forma oral, o que gera contradições e ocasiona a perda de informações. Por exemplo, nem Tasso consegue precisar o período em que Inah saiu do grupo em definitivo — ela morreu em 2007.
Para recuperar e preservar a memória do Conjunto Farroupilha, Luciana Prass criou em 2014 o projeto de pesquisa Tasso Bangel e o Eterno Aprender, que mantém um site cuja finalidade é reunir fotos, músicas, discografia e entrevistas do maestro. Para ela, o Farroupilha foi fundamental para ajudar a imprimir uma identidade à música regional gaúcha:
 A música do Rio Grande do Sul não possuía identidade naquela época. Até já havia surgido Pedro Raymundo. O choro era muito forte no Estado, havia uma cena de boemia. Mas o que teria um caráter mais regional não aparecia. O Farroupilha foi muito importante na divulgação desse repertório do Paixão e do Lessa. Eles cantavam essas canções singelas e bucólicas, inserindo aquelas vozes e uma orquestra, aquilo ali saía como um produto muito sofisticado.
Para Arthur de Faria, o Conjunto Farroupilha dava uma roupagem pop à música regional:
 Antes do grupo, a música regional gaúcha que existia era muito simplória. Quem deu uma cara contemporânea, moderna e pop para esse repertório foi o Conjunto Farroupilha. Era a música pop da época: o conjunto pegava o que existia e transformava aquilo em outra coisa. Não é muito diferente do que Chico Science fazia, por exemplo, ao estilizar e botar em sintonia o regional com o que de mais moderno era feito no mundo naquele momento. Foi isso que o Conjunto fez: pegou um repertório absolutamente local e pôs, nele, uma cara de arranjo e sonoridade que era sintonizada com o que mais moderno se fazia no mundo, o que basicamente remete aos grupos vocais norte-americanos que estavam na moda. Era música pop de alta qualidade. Não é a toa que, para onde eles iam, em qualquer parte do mundo, não havia estranhamento. O público não via o grupo pelo exótico, mas pela sua excelência.
Vinicius Brum sublinha o pioneirismo do grupo:
 Antes de propor ou manter uma tradição, o que o Conjunto Farroupilha fez foi inaugurar uma linguagem, propor a canção regional do Rio Grande do Sul como a gente a conhece hoje. Parece que ela sempre existiu, mas tem 70 anos.
Tasso Bangel diz que, no legado do conjunto, deve estar incluído o protagonismo feminino.
 Os conjuntos gaúchos sempre foram muito masculinos. No nosso, predominavam as vozes femininas. Não teve mais ninguém que nos desse essa continuidade — frisa o maestro.
Ele completa:
 Na época em que se usava um violãozinho e uma gaitinha ponto, nós entramos na música gaúcha com arranjos e orquestra sinfônica. Era uma coisa que nós podíamos fazer porque eu tinha estudado música mesmo. Não era uma aventura, não era uma brincadeira de guri. Acho que o maior legado que deixamos foi essa qualidade musical, inovadora naquele tempo.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Sobre as Influências Árabes nas Origens da Cultura Gaúcha

Como os muçulmanos expulsos da Espanha no século XVI deram origem a cultura gaúcha
por Shamsuddin Elía
As primeiras correntes mouriscas instalaram-se no Rio da Prata durante os séculos XVI e XVII. Entre outras coisas, eles nos trouxeram a cultura equestre e a origem da palavra "gaúcho".
Nossa tese, baseada em extensa e detalhada bibliografia, é que o gaúcho tem sua origem na civilização de Al-Andalus, a Espanha muçulmana (711-1492), berço dos povos ibero-americanos, de onde recebemos legados como a língua castelhana, na sua versão andaluza, com o seseo (pronúncia com um s assobiado ao invés do som de ce) e o yeísmo (que consiste em pronunciar tanto ll como y soando iguais em "llave" ou em "yerba", tão comuns entre os rio-platenses), ambos de origem mourisca.
A palavra mourisco (1) comumente designa os muçulmanos do Reino Nacérida de Granada  rendido pelos Reis Católicos em 2 de janeiro de 1492, quando liderado por Maomé XII (Boabdil),  que, após a rebelião do bairro de Albaicín (1501), foram forçados a se converter ao Cristianismo (2).
Este nome também seria aplicado aos mudéjares, do árabe mudayyan: "aqueles que ficaram", ou Al-ad-dayn: "pessoas que permanecem, que se dominam"; por extensão, "domesticados", "dominados”. Estes "mouros submetidos" gozaram de períodos de tolerância nos reinos hispano-cristãos do século XI,  sob a égide de soberanos como Afonso X, o Sábio (1221-1284), e Pedro I, "O Justiceiro" (1334-1369). Estes mudéjares desenvolveriam uma arte que transformaria o perfil da Espanha cristã e seriam a base fundamental da chamada "arte colonial espanhola" na América (3).
Após a rebelião malsucedida de 1568  afogada em sangue por Felipe II e seu meio-irmão João da Áustria , a nobreza da Espanha, mais germânica do que espanhola, obcecada pela "pureza de sangue" e pelo medo de um levante mouro apoiado pelos turcos otomanos (4), pressionou o rei Filipe III a prosseguir com a expulsão em massa dos mouriscos. A operação foi realizada entre 1609 e 1614 (5). Os mouriscos fixaram-se então no Norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia). Alguns permaneceram vivendo em Espanha e em Portugal, fingindo-se cristãos-novos ou ciganos, mas mantendo-se fiéis à fé islâmica (6). O restante emigrou para a América em condições clandestinas semelhantes.
Os mouriscos que vieram para a América chegaram camuflados com os conquistadores e fugindo do estigma imposto pelo inquisidor. Aqui, na América, eles forjaram culturas equestres: a dos gaúchos (Argentina, Uruguai e Brasil), huasos (Chile) e llaneros (Colômbia e Venezuela), com múltiplas influências na música, costumes e estilos, do folclore argentino à escola mexicana de Guadalajara (talapatía). Elas simbolizava sua fé, sua tradição e seu tremendo desejo de independência e liberdade. Também construíram igrejas, catedrais e residências mudéjares que ainda nos impressionam, pequenas Alhambras (palacetes) que tinham como berço a magnífica e exuberante geografia aninhada entre a Cordilheira dos Andes e o Caribe (7).
O tradicionalista e jurista argentino Carlos Molina Massey (1884-1964), que estudou a origem do gaúcho, questiona: “Os oito séculos de conquista moura colocaram sua marca racial característica na população ibérica: oitenta por cento da população peninsular que chegou em nossas praias trazia sangue mourisco. O gaúcho era por isso como um avatar, como uma reencarnação da alma das mourarias fundida com a alma indígena no grande ambiente libertário da América ” (8)
A etimologia da palavra "gaúcho"
A palavra "gaúcho" também aparece no vasto e rico legado andaluz. O jurisconsulto de origem francesa e estudioso dos gaúchos por excelência, Emilio Honório Daireaux (1843-1916), faz esta reconstrução:
Na época das primeiras populações na América, o domínio dos árabes na Espanha estava terminando por expulsão ou submissão; muitos destes derrotados emigraram. Nos pampas encontraram um ambiente onde puderam dar continuidade às tradições da vida pastoril de seus ancestrais. Foram os primeiros a sair das muralhas da cidade para cuidar dos primeiros rebanhos. Isso é tão verdade que muitos costumes e artefatos empregados lá são designados por palavras árabes: o poço, em espanhol, é chamado de jagüel, uma desinência árabe; e a água é retirada deles à maneira árabe.
Gaúcho é uma palavra árabe desfigurada.
É fácil encontrar sua relação com a palavra "chauch", que em árabe significa "condutor de gado". Ainda em Sevilha (na Andaluzia), mesmo em Valência, o boiadeiro chama-se “chaucho(9). O primeiro grande teórico sobre as origens hispano-árabes do gaúcho, o jurisconsulto, escritor e jornalista Federico Tobal (1840-1898), diz:
O traje gaúcho nada mais é do que uma degeneração do traje árabe e é até possível confundi-lo, à primeira vista. O chiripá, o poncho, a jaqueta, o tirador, o lenço na cabeça e embaixo do chapéu nada mais são do que modificações das peças do vestuário árabe; mas modificações pequenas, que não constituem um traje à parte, como o nosso, europeu. (...) Tudo no gaúcho é oriental e árabe: sua casa, sua comida, seus trajes, suas paixões, seus vícios e virtudes e até suas crenças. (...) Seria interminável esgotar essa tese. As coisas, os fatos e os acidentes de relacionamento que confirmam a origem são oferecidos em todos os lugares. A semelhança é tão vívida que a menor atenção é suficiente para percebê-la. Ela nos segue como uma sombra ao seu corpo (...) Por mais indolente que o gaúcho se torne, mesmo se em sua casa faltar árvores ou pomar, mas nunca lhe faltara o poço que é a cisterna (jagüel ou aljibe) para abluções frequentes, altamente necessários no seu estilo de vida e que é especialmente perceptível entre os povos paraguaios e correntinos, que certamente não é de origem indígena(10).
Os conceitos reveladores de Lugones
O escritor e político argentino Leopoldo Lugones (1874-1938) é um dos grandes defensores da alma gaúcha, da cultura dos pampas e de seu legado andaluz. Nas citações a seguir resumimos suas reflexões sobre o assunto:
Ginete por excelência, era impossível concebê-lo desmontado e, portanto, o arreio de montar era a base de seu traje. A sua forma de encilhar o cavalo teve, sem dúvida, origem mourisca. (...) As rédeas e o jáquima (11) ou buçal, muito finos, abrandavam ao máximo os arreios (jaezes) (12), cujo propósito não era conter ou dominar servilmente o animal, mas apenas uni-lo ao cavaleiro, permitindo grande liberdade de movimentos (...) Ademais, sabe-se que a arte de cavalgar e de lutar a la [à moda] jineta, bem como o seu arreio, foi introduzida na Espanha pelos mouros, cujos zenetes  ou cavaleiros da tribo berbere de Banu Marín  deram-lhe o seu nome específico. Assim, jinete, a pronúncia castelhana de zenete, era por excelência o indivíduo hábil na equitação. (...) As largas cinchas de tecido ornadas (taraceadas(13) com tafiletes [tiras de pelica] coloridos (14) são até hoje à moda mourisca. (...) Assim, também, são os enfeites entalhados na madeira usados ​​para enfeitar os portões dos gaúchos da região serrana; aquele avental duplo de couro cru, que amarrado à parte dianteira da sela, abria dos dois lados, protegendo as pernas e o corpo até o peito, nada mais é do que a adaptação da armadura mourisca (15) para combate, que tinha os mesmos adornos e acabamento quase idêntico: eram rígidos na metade superior e flexíveis na parte inferior, de modo que podiam se curvar sobre o quadril do animal ."(16)
Bombachas gaúchas
E assim como a tradição e a herança cavalheiresca eram muçulmanas, as roupas do gaúcho também eram muçulmanas. As mais evidentes delas são as famosas bombachas (as calças por excelência em todas as regiões islâmicas, do Marrocos ao Paquistão) e a faixa à volta da cintura (típica dos mouros para esconder a gumia ou adaga).
É por isso que Lugones diz com razão:
Chiripá
Mais tarde perceber-se-ia que aquela bombacha aberta (o chiripá), facilita montar no cavalo bravio. A peça adquiriu uma largura adequada; e as franjas e listras que esvoaçam sobre os pés foram a adaptação dos aventais de linho e renda com que os cavaleiros do século XVII cobriam os canos de suas botas de campanha (...) como os árabes sempre utilizaram (...) De onde se originaram os "zaraguéis" (17)  calções grandes, largos e mal feitos  chamados de Valência e de Murcia, por sua origem e fabricação. A camisa larga, a jaqueta andaluz, o sombrero ou chapéu de meia copa, o poncho herdado dos vegueros (pequenos agricultores) de Valência (18), completavam aquele conjunto de soltura e flexibilidade” (19).
Assim como Daireaux, Lugones demonstra a origem árabe da palavra "gaucho", mas derivando-a de uahsh ou uahshi, que em árabe significa montanhoso, bravo, ranzinza, carrancudo; da mesma forma, explica como sua variação fonética atinge termos como huaso, guaso, guácharo, guacho, etc (20).
Moharras
A terminologia gaúcha que deriva do árabe é vasta. Basta nomear a alpargata (Al-bargat="o sapato"), o aljibe (Al-yubb="o poço"), a guitarra ou violão (Al-qitar="a corda"), a moharra (mohárrib="afiado", o crescente de ferro (21) com uma ponta que era colocada na base das pontas das lanças gaúchas), e o gadual: aquele argentinismo que identifica um terreno que se encharca quando chove e que deriva do árabe uadi ("rio"), termo que deu origem a uma infinidade de topônimos no mundo hispano-americano (Guadalquivir, Guadalajara, Guadalcanal, Guadiana, etc.). Os exemplos não faltam. A especialista espanhola Dolores Oliver Pérez, em artigo, explica a origem de ¡arre!, arriar, arriero, do árabe harrik, harraka, haraka, harakat, que dá a ideia de mover-se, de movimento, de viajante (22).
Jogos e destrezas hispano-árabes
Os estudos do desportista, camponês e gaúcho Justo P. Saénz (1892-1970) mostraram a enorme influência da escola de cavalaria andaluza (23) na equitação gaúcha, na montada a la jineta e nos jogos de destreza:
É conhecida a importância que a equitação berbere desenvolveu na Espanha. Sua famosa escola de "la jineta" revolucionou o sul da Europa desde sua adoção. Durante a Conquista da América, esta escola atingiu seu apogeu (...) Dom Leopoldo Lugones dá como etimologia da palavra recado a palavra árabe "rekab" e esta é uma observação que se deve ter em conta (...) O juego de cañas que foi praticado pelos espanhóis desde o tempo da dominação árabe, foi exportado para suas colônias na América como parte de seus costumes(24). Os gaúchos do Brasil futuramente seriam agregados às pesquisas comprovando essa linhagem andaluza. Manoelito de Ornellas (1903-1969), por exemplo, etnógrafo e fazendeiro brasileiro, escreveu várias monografias acadêmicas no início da década de 1950 comprovando fascínios semelhantes no gaúcho rio-grandense (25).
E o fato é que o gaúcho mouro nunca foi exclusividade do Rio da Prata ou dos pampas da Argentina, Uruguai e Brasil, mas de toda a América: dos vales do Chile às pradarias da Califórnia e do México, passando pelas imensas planícies do Orinoco na Colômbia e Venezuela, com todas as suas denominações relacionadas e convenientes: huaso (26), o llanero (27) colombiano e venezuelano, e o charro (28) mexicano. 
Os huasos chilenos
Assim, como pode ser vista a influência árabe e mourisca nos gaúchos dos pampas argentinos, uruguaios e brasileiros, também se encontra “nas roupas e trajes do huaso chileno, na ornamentação de seus estribos e esporas repletas de arabescos, em seu modo de cavalgar a la jineta, em seus jogos e alegrias, no romance espanhol conhecido como "corrido", como em al-Andaluz.
Uma curiosa "jarcha" da última estrofe de uma muwashshaha (moaxaja) do popular cancioneiro árabe do século IX, encontrado na compilação e restauração feita pelo professor Sayed Ghazi, em sua obra "Diván de Muwashshahas Andaluzas", apresenta-nos a pintura plástica coreográfica do homem e da mulher dançando a cueca ... A importância desta jarcha árabe consiste em fazer parte de um conjunto de cantos e danças populares, o que nos faria supor a origem árabe-andaluza da cueca.
A esse respeito, deve-se notar que a etimologia da palavra cueca indicaria a possibilidade de uma origem árabe desta dança: cueca, zamacueca e sua conexão viável com o termo árabe samakuk que se origina do espanhol zamacuco: malicioso (29), homem rude, nome derivado do verbo árabe Kauka, que indica a ação sedutora realizada pelo galo para conquistar a galinha que, coincidentemente, carregaria o simbolismo da cueca ... (30)Outro exemplo da marca da cultura árabe na nossa seria uma grande variedade de jogos equestres praticados na colônia, como a corrida de picadeiro, as cañas, o jogo de patos, as corridas, e muitas derivações destas, magnificamente descritas na obra de Don Eugenio Pereira Salas, "Jogos Coloniais e Alegrias no Chile" (31).
É perceptível que al-Andalus foi uma civilização privilegiada, fundada graças à miscigenação de múltiplos povos e tradições.
Desde o primeiro momento, os recém-chegados berberes e árabes muçulmanos começaram a se casar com mulheres hispânicas (hispano-romanas, celtiberas, góticas). O resultado é um admirável tipo de cultura que deve ser apropriadamente chamada de andaluza. Quando esses hispano-muçulmanos foram conquistados por seus vizinhos ao norte da Península  primeiro se tornando mudéjares e depois mouriscos  e forçados a emigrar, muitos vieram para a América em condições clandestinas. Ali se daria uma nova e generosa miscigenação, desta vez com mulheres indígenas, cujo ponto culminante é o biótipo do gaúcho, o huaso, o llanero, com seus traços mouriscos, mas também com todas as suas novas aquisições e originalidades típicas da América.
O que queremos assinalar aqui não é que os cavaleiros dos pampas ou das planícies fossem de raça árabe, seria um equívoco tão grande como dizer que os andaluzes também eram árabes (não existem raças, e sim línguas e culturas), ao contrário, os gaúchos, huasos, llaneros ou charros eram portadores de uma herança que  muitas vezes a despeito de si mesmos  marcavam padrões de conduta, costumes e pensamento.
Todas as citações e fragmentos que enumeramos até agora nos mostram com segurança que os imigrantes sírios e libaneses  que chegaram em sua maioria ao Rio da Prata a partir de 1900  não foram os primeiros a apontar os sinais mudéjares desse biótipo dos pampas — consequência do cruzamento de índios e mouros, ou da imigração de mouros de linhagem pura como os Maragatos (32)  —, mas dos argentinos de raça pura ou mesmo estrangeiros, na sua maioria europeus, que tiveram a sorte de conhecer pessoalmente os últimos gaúchos que ainda cavalgaram a la jineta e usavam lenços como capuzes sob seus chapéus.
As limitações deste artigo não nos permitem aprofundar certas questões direta ou indiretamente ligadas às origens hispano-muçulmanas das culturas equestres da América. É o caso dos mouriscos no Peru, como "las tapadas de Lima", mencionadas pelo historiador e filólogo espanhol Américo Castro (1885-1972) (33), que deram origem a uma riquíssima cultura de miscigenação, e no México, onde a influência moura foi projetada de Chiapas até a costa norte da Califórnia (34). Outra é o profundo monoteísmo ligado à mais pura tradição muçulmana descrito em Martín Fierro, a "Bíblia gaúcha" do poeta José Hernández, e as mil e uma tradições camufladas na cultura argentina que devem ser reveladas mais cedo ou mais tarde.

Bibliografia e Notas:
(1) Parece que a palavra "mourisco" se forma como "berberisco", em um diminutivo, que mais tarde foi usado para identificar o hispano-muçulmano que permaneceu na Península após a queda de Granada.
(2) O responsável por esta medida foi o Inquisidor Geral e confessor da Rainha Isabel la Católica, o Cardeal Francisco Jiménez de Cisneros (1436-1517), o mesmo que em 18 de dezembro de 1499 havia queimado à porta de Bib Rambla em Granada, as bibliotecas dos mouros; mais de oitenta mil manuscritos árabes da Espanha muçulmana foram perdidos para sempre.
(3) "Se o sentido estrito da palavra "mudéjar" for respeitado  diz o arquiteto e islamólogo espanhol Leopoldo Torres Balbás (1888-1960) , esse nome seria dado exclusivamente à arte dos muçulmanos que habitavam o território cristão (Leopoldo Torres Balbás. Arte almóada, arte nasrid, arte mudéjar, Ars Hispaniae-história universal da arte hispânica, vol. 4, Editorial Plus Ultra, Madrid, 1949, pp. 237-238). Checar vários autores: El arte mudéjar. La estética islámica en el arte cristiano, Museo Sin Fronteras/Electa (Grijalbo Mondadori), Viena, 2001.
(4) Apesar das repetidas teorias que falam de conspirações incubadas entre mouriscos e otomanos  como é o caso das teses de vários autores: Andrew C. Hess: Os mouriscos: uma quinta coluna otomana na Espanha do século XVI, The American Historical Review 74, Nova York, outubro de 1968, pp. 1-25; e Charles Petrie: Don John of Austria, London, 1967 (cap. 4 sobre a rebelião dos mouros) , os otomanos nunca estiveram em posição de ajudar o sultanato de Granada no século 15 ou os mouros no século 16 porque eles nunca conseguiram estabelecer um poder naval sólido, mesmo no Mediterrâneo oriental. O avanço de uma frota otomana em direção à Espanha teria sido um suicídio em face do poder concentrado dos Habsburgos, do Papado e de Veneza (Solimão, o Magnífico, falhou miseravelmente em sua invasão de Malta em maio-setembro de 1565). A intenção dos ousados ​​corsários berberes  Jairuddin Barbarroja (m. 1546) e outros  ao aproximarem seus navios da costa peninsular era apenas resgatar os refugiados mouros que buscavam se estabelecer no norte da África. As especulações em torno de uma hipotética ajuda dos mouros aragoneses pelos huguenotes liderados por Henrique IV, rei de Navarra (1562-1610) e da França (1589-1610) foram ampliadas, porém é interessante analisar os contatos entre ambos (cfr . Duc de La Force: Le maréchal de La Force. Un serviteur de sept rois, 1558-1652, Paris, 1950; Louis Cardaillac: Morisques et protestants, Al-Andalus, XXXVI, 1971, pp. 29-63). Para tirar dúvidas e esclarecer o panorama sobre este assunto, recomendamos o estudo de Francisco Márquez Villanueva: "O mito da grande conspiração mourisca", Atas do II Simpósio Internacional do CIEM sobre religião, identidade e fontes documentares sobre os Mouriscos Andaluses, Institut Supérieur de Documentation, Tunis, 1984, 2, pp. 267-284.
(5) Ver Francisco Márquez Villanueva: O problema dos Mouros (De outras encostas), Coleção Al-Quibla, Libertarias, Madrid, 1991; Míkel de Epalza: Os mouros antes e depois da expulsão, Mapfre, Madrid, 1992; Julio Caro Baroja: Os mouros do Reino de Granada, Istmo, Madrid, 1991 (4ª ed.); Anais do III Simpósio Internacional de Estudos Mouros "As práticas muçulmanas dos mouros da Andaluzia (1492-1609)", sob a direção do Professor Abdejelil Temimi, Zaghouan (Tunísia) 1989.
(6) O escritor de Málaga e líder andaluz Blas Infante (1885-1936)  assassinado pelos rebeldes com a eclosão da Guerra Civil Espanhola  aponta que estes "mouros, estes andaluzes ferozmente perseguidos, refugiados em cavernas, alienados da sociedade espanhola, encontravam no território andaluz um meio de legalizar, por assim dizer, a sua existência, evitando a morte ou a expulsão. Alguns bandos errantes, perseguidos ferozmente, mas sobre as quais não pesava o anátema de expulsão e de morte, vagam agora de lugar para lugar, constituindo comunidades organizadas por caudilhos e abertas a todos os peregrinos desesperados (...) Para entrar neles basta realizar um rito de iniciação. Os andaluzes entraram neles em rebanhos, estes últimos descendentes daqueles homens que dominavam as mais belas culturas do mundo, mas que agora não passavam de fazendeiros refugiados (em árabe, trabalhador fugido ou expulso significa "fellahmengu"). Compreendes agora por que os ciganos da Andaluzia constituem, segundo os escritores, o povo cigano mais numeroso da Terra?" (Blas Infante: El Ideal andaluz, Madrid, 1976, pp. 107-108).
(7) Sobre a preponderante presença da arte islâmico-mudéjar na mal denominada "arte colonial espanhola", ver as obras de J. Mariano Filho: Influenças muçulmanas na architectura tradicional brasileira, A. Noite, Rio de Janeiro, 1943; F. Prat Puig: El prebarroco en Cuba. Una escuela criolla de arquitectura morisca, La Habana, 1947; Varios Autores: El mudéjar iberoamericano. Del Islam al Nuevo Mundo, Lunwerg, Barcelona, 1995; Varios Autores: El Arte Mudéjar, Ediciones UNESCO, Zaragoza, 1996; Rafael López Guzmán: Arquitectura Mudéjar, Manuales Arte Cátedra, Cátedra, Madrid, 2000; Varios Autores: El arte mudéjar. La estética islámica en el arte cristiano, Museo Sin Fronteras, Viena, 2000.
(8) Marcos Estrada: Apuntes sobre el gaucho argentino, Ediciones Culturales Argentinas, Subsecretaría de Cultura, Ministerio de Cultura y Educación, Buenos Aires, 1981, pp. 9-10.
(9) E. Daireaux: Vida y Costumbres en el Plata. Vol I, Cap. II: "Caracteres étnicos de la Nación Argentina", Félix Lajouane Editor, Buenos Aires/París, 1888, p. 32.
(10) F. Tobal: Los libros de Eduardo Gutiérrez: El gaucho y el árabe, artículo publicado em capítulos no jornal La Nación, Buenos Aires, nos dias 16, 23, e 28 de fevereiro, e em 2 e 4 de março de 1886.
(11) Do árabe sakima, artefato de corda que funciona como cabresto.
(12) Do árabe yehez, qualquer adorno colocado nos cavaleiros (neste caso, as jaeces).
(13) Do árabe tar'zi, incrustação.
(14) De tafilelt berbere, couro polido e lustroso, muito mais fino que o cordovês.
(15) Do árabe al-darqa, escudo de couro, oval ou em forma de coração.
(16) L. Lugones: The payador, Ayacucho Library, Caracas, 1991, pp. 31-33.
(17) Do árabe sarauil, uma espécie de calça larga com pregas.
(18) Lugones insere a seguinte nota: “Os monges beneditinos usavam na Idade Média, para proteger o hábito do trabalho rural, verdadeiros ponchos de pano cuja memória meramente simbólica persiste nos escapulários e casulas (vestes religiosas) atuais. Vestimentas rudimentares como o poncho, o chiripá e a bota [garrão] de potro pertencem mais ou menos a todos os povos de pouca civilização. Às vezes, há retrocessos, como o chiripá em relação à bombacha mourisca. Acrescento que a clássica aba (kandora) dos árabes, nada mais é do que uma peça de pano listrado aberto no meio para passar a cabeça. Daí viria a peça análoga dos vegueros valencianos, bem como os mencionados escapulários. (idem, p. 35).
(19) L. Lugones: El payador, Biblioteca Ayacucho, Caracas, 1991, pp. 34-35.
(20) L. Lugones: Voces americanas de procedencia arábiga, V nota, en La Nación, Buenos Aires, domingo 9 de marzo de 1924, 3ª sección, p. 8.
(21) A lua hilal ou crescente é um símbolo tradicional entre os muçulmanos que reflete o calendário lunar que regula sua vida religiosa. A lua crescente anuncia o mês sagrado do Ramadã. A tribo árabe Banu Hilal (Filhos do Crescente) ou Hilali, até então estacionada a leste do Nilo, foi enviada pelo califa fatímida al-Mustansir (r. 1036-1094) para espalhar e consolidar o Islã entre os berberes do Norte da África. O hilal tornou-se especialmente importante entre os otomanos. A tradição diz que a bandeira turca mostra o crescente com uma estrela no centro porque o sultão Mehmet II Fatih (o Conquistador) entrou em Constantinopla (agora Istambul) sob uma lua semelhante na madrugada de 29 de maio de 1453. Foi assim como esta dinastia turca adotou esse símbolo como um emblema oficial. O fato de que por quinhentos anos o Império Otomano conteve numerosas nações muçulmanas dentro de suas fronteiras, bem como sua influência sobre os povos muçulmanos de língua turca da Ásia Central, influenciou a decisão das nações islâmicas que surgiram ao longo do século XX de inserir em suas bandeiras o hilal e a estrela como símbolo de fé e tradição. Assim, podemos citar os da Argélia, Azerbaijão, Comores, Federação da Malásia, Maldivas, Mauritânia, Paquistão, Cingapura, Tunísia, Turcomenistão e Uzbequistão.
(22) D. Oliver Pérez: Dos arabismos nacidos de un imperativo árabe... en la Revista Al-Qantara, vol. XIV, Fasc. 1, Madrid, 1993, pp. 163-176.
(23) Cfr. Varios autores: Al-Ándalus y el caballo, Lunwerg Editores, Barcelona, 1995.
(24) J. P. Saénz: Equitación gaucha en la Pampa y Mesopotamia, Emecé, Buenos Aires, 1997, pp. 15, 50 e 157.
(25) Manoelito de Ornellas: Gaúchos e Beduínos. A origem étnica e a formação social do Rio Grande do Sul, Livraria José Olympio Editôra, Rio de Janeiro, 1948 y 1956; A Filigrana Árabe nas Tradições Gaúchas, Edição "Arte do Livro", Porto Alegre, 1950; A cruz e o alfanje. A expansão da cultura árabe, Livraria Progresso Editora, Bahia, 1960.
(26) "Sua vestimenta e o implemento de seu cavalo são uma mistura de elementos hispano-mouriscos e indígenas (...) ... o huaso descende dos andaluzes ..." René León Echaiz: Interpretacion histórica del huaso chileno, Editorial Francisco de Aguirre, Buenos Aires, 1971, pp. 28 y 32.
(27) Cfr. Daniel Mendoza y José E. Machado: El llanero. Estudio de sociología venezolana con un estudio sobre el gaucho y el llanero, El Ateneo, Buenos Aires, 1944.
(28) Cfr. J. Álvarez del Villar: Historia de la charrería, México, 1941; C. Rincón Gallardo: El libro del charro mexicano, México, 1946.
(29) Zamacuco é também uma pessoa dissimulada, que se cala e age conforme a sua própria vontade, características dos perseguidos e clandestinos, como os mouros e os gaúchos.
(30) Eugenio Chahuán Chahuán: Presencia Árabe en Chile, Revista Chilena de Humanidades, Nº 1, 1983, Facultad de Filosofía, Humanidades y Educación, Universidad de Chile, Santiago de Chile, pp. 40-41.
(31) Cfr. S. Claro Vilches: Cueca chilena, cueca tradicional, Universidad Católica de Chile, Santiago de Chile, 1986.
(32) Sessenta quilômetros ao sul de Asyut (Egito), a meio caminho entre as cidades de Tahta e Suhaj, está a cidade de al-Maraghat (em árabe: caverna, gruta). No início do século VIII, um grupo de maragatos (maragatún) juntou-se ao contingente de 18 mil homens que o árabe Musa Ibn Nusair (640-714) conduziu à Península Ibérica por volta de 712 para consolidar as posições que o seu tenente berbere Tariq Ibn Ziad (m. 720) havia conquistado no ano anterior. O islamólogo holandês Reinhart Dozy (1820-1883), em sua detalhada obra Recherches sur l'histoire et la littérature des arabes d'Espagne pendant le Moyen Age (3ª ed., Paris, 1881) e o antropólogo espanhol Dr. Aragón e Escacena em sua obra Estudo Antropológico do Povo Maragato (Anales de la Soc. Esp. de HN, XXX, Madrid, 1902) consideram os Maragatos descendentes da imigração berbere. Os Maragatos se estabeleceram desde o início nas terras de León, norte da Espanha, em uma área montanhosa que seria chamada de Maragatería (350 km2), localizada entre Astorga e o pico Teleno, a sudoeste da cidade de León. Séculos depois passam para Portugal e depois para os Açores onde uma das aldeias da Ilha do Pico ostenta a marca da sua passagem: Maragaia. Posteriormente, durante os séculos XVII e XVIII, chegaram ao Prata numerosas famílias de maragatos de Leão, do porto de La Corunha, e muitas outras dos Açores. Eles se instalaram principalmente nos departamentos de Soriano e San José da Banda Oriental (atual Uruguay). Como os Maragatos sempre se destacaram por serem excelentes areeiros, em breve irão desenvolver este e outros ofícios no país. No final do século 18 eles serão identificados com os gaúchos da região. Os maragatos impuseram alguns pilchas gaúchos, como o calzoncillo crivado (semelhante ao chiripá com franjas).
Ao longo do século XIX, os Maragatos participaram ativamente da política. No sul do Brasil, as forças gaúchas do Rio Grande se unirão na chamada Guerra dos Farrapos e na revolta federalista de 1893-1894. Na República Oriental do Uruguai, eles se juntarão às montoneras do libertador José Gervásio Artigas (1764-1850) e às do Partido Branco dos caudilhos nacionalistas Timóteo Aparício (1814-1882), Gumercindo Saraiva (1852-1894) e Aparício Saraiva (1855-1904) até a trágica batalha de Masoller (1º de setembro de 1904). Uma anedota que fala claramente dessa identidade é que um desses personagens "encurralado por alguns montoneros, tenta fazer valer sua condição de homem branco mencionando sua origem maragato, já que San José sempre foi um reduto oribista: "nu mi mate qui soy maragato di San Cusé!" (Cf. Abdón Arozteguy: A revolução de 1870, Félix Lajouane Editor, Buenos Aires, 1889, volume 1, página 158; Carlos Machado: Historia de los Orientales, Ediciones de la Banda Oriental, Montevidéu, 1973, p. 252).
Manuel Gálvez (1882-1962), o famoso historiador revisionista argentino, fornece uma informação-chave e esclarece a questão: "Popularmente, cada bando deu ao seu oposto um apelido: para federalistas ou revolucionários, os apoiadores do governo são os "picapaus ", o nome de um pássaro, e eles chamam assim porque, como o picapote ou o carpinteiro, na árvore, eles estão sempre "picando" as pessoas com impostos e taxas, e para eles, os federalistas são os "maragatos". porque há entre eles alguns uruguaios de San José, chamados "maragatos". Na Espanha os habitantes de Las Hurdes recebem esse nome (Las Hurdes é o nome de uma região espanhola natural que se estende pelas províncias de Cáceres e Salamanca), que são considerados descendentes puros dos mouros e muito lutadores" (Manuel Gálvez: Vida de Aparicio Saravia. El gaucho de la libertad. Editorial Tor, Buenos Aires, 1957, p. 62). A longa e lendária peregrinação dos Maragatos produzirá o estabelecimento de uma colônia nos arredores de Carmen de Patagones, às margens do Rio Negro, na província de Buenos Aires. A toponímia da região também fala de sua presença: há uma ilha de Maragatas, no departamento uruguaio de San José, e uma lagoa de Maragato, no distrito de Villarino, na província de Buenos Aires.
(33) Cfr. Américo Castro: España en su historia. Cristianos, moros y judíos, Grijalbo Mondadori, Barcelona, 1996, pp. 82-103. Vemos sobre este fenômeno, por exemplo, a tese do professor Ángel Santisteban Mendevil (Universidad de Lima): Sabores hispano-árabes en la tradición culinaria del Perú, Terceras Jornadas de Cultura Árabe "Al-Ándalus allende los Andes", Coloquio Interdisciplinario del Mudéjar Iberoamericano, Centro de Estudios Árabes de la Facultad de Filosofía y Humanidades, Universidad de Chile, (Santiago, agosto de 1999), Santiago, 2001.
(34) Cfr. A. Garrido Aranda: Moriscos e indios. Precedentes hispánicos de la evangelización en México, UNAM, Mexico, 1980; Elizabeth McMillian: Casa California. Spanish-Style Houses from Santa Barbara to San Clemente, Rizzoli, Nueva York, 1996.
Fonte: tradução livre de Raíces de Tradición
e revisão do texto de História Islâmica