quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Por que Nossos “Espiões” Têm que Ficar no Brasil?

por Fábio Pereira Ribeiro
Alguns anos venho estudando a área de inteligência e o impacto dos serviços secretos nas relações internacionais, e considerando todo o peso do Brasil no cenário internacional, suas condicionantes políticas e todo problema de segurança internacional e crime organizado transnacional, me pergunto todos os dias, por que o Brasil não tem uma estrutura efetiva de analistas de inteligência no exterior?
Ao mesmo tempo me pergunto, por que a nossa agência de inteligência (ABIN) ainda é jungida a um General de Exército, ou a um Gabinete de Segurança Institucional? Não seria mais prudente, e até mesmo inteligente, que a ABIN estivesse vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos?
Depois de tantos anos de Estado ditatorial, o Brasil já teve história suficiente para aprender que a atividade de inteligência não é sinônimo de “porão”, e que a falta da mesma gera reflexos extremamente perigosos para a Nação.
Se analisarmos profundamente os impactos da violência pública que tanto cresce no Brasil, perceberemos que boa parte dos impactos são causados diretamente pela falta de ações de inteligência do Brasil em suas fronteiras, das falhas de integração entre os diversos núcleos de inteligência que alimentam o Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) e da falta de oficiais de inteligência nas diversas embaixadas brasileiras espalhadas pelo mundo. Sem contar que a falta de estrutura de inteligência no exterior deixa o Brasil desguarnecido de informações estratégicas sobre economia e geopolítica.
Nossos analistas de inteligência, além de toda estrutura operacional, vivem em geladeiras de informações. O país sofrendo com riscos estruturais do crime organizado transnacional, fluxo migratório de imigrantes (humanitários e criminosos), narcotráfico, contrabando de armas, máfias, espionagem internacional, bio-pirataria, africanos tomando posições em sub-prefeituras em grandes centros, somalianos em território nacional (com apoio de células terroristas), haitianos se perdendo nos rincões (prato cheio para o crime organizado por uma questão puramente natural), até quando trataremos inteligência como burrice operacional?
Não precisamos do romantismo “a lá James Bond”, mas com certeza precisamos de uma estrutura de inteligência que realmente possa dar condições de segurança e competitividade para o país.
O Brasil precisa avançar com a sua agenda de inteligência exterior. Não precisamos de espiões lendo jornais dentro do território nacional, precisamos de oficiais de inteligência nas fronteiras e nos grandes centros estratégicos para as relações exteriores com o Brasil.
Praticamente nossas operações no exterior acontecem entre Buenos Aires e Caracas. Mas por que não temos ninguém em Nova York, Washington, Paris, Londres, Shangai, Luanda, Bogotá, Jerusalém, Moscou, Nova Déli, entre outros grandes centros estratégicos para produção de inteligência, troca de tecnologia, economia, além das questões de segurança internacional.
O caso Snowden escancarou o descaso político e governamental com as questões de inteligência. A nossa contra-espionagem sofre em proteger o mínimo, e nossos políticos confirmam o quanto piegas são em relação às questões de segurança internacional.
Temos um grupo bom de analistas de inteligência, mas lógico que sempre tem algum “aloprado ideológico”. O problema que com o tempo, o descaso político irá afastar os analistas, e óbvio, que até na inteligência a fuga de cérebros é uma questão mais do que evidente.
Que os presidenciáveis se atentem para esta agenda. E que a Política Nacional de Inteligência (PNI) avance, pois assim o controle da atividade estará assegurado, e a funcionalidade da inteligência realmente atenda os anseios da Nação.
Fábio Pereira Ribeiro é Diretor
Fonte:  Brasil no Mundo
COMENTO:  apesar de algumas falhas de concordância na redação, o texto aponta para um grave lapso no nosso Sistema de Inteligência e alerta os candidatos ao cargo máximo da Nação para que atentem para a questão. Por outro lado, manifesto aqui que a crítica que o autor faz à subordinação da ABIN ao estamento militar não procede pois a Atividade de Inteligência, desde sua origem histórica, foi balizada por objetivos de manutenção ou aquisição de Poder Estatal, isto é, propósitos que em última instância podem ser considerados militares (conhecimento em tempo útil de ameaças, vulnerabilidades e possibilidades possíveis de uso nos campos geográfico, militar, político e psicossocial). Posteriormente, foram agregadas as necessidades sobre os aspectos econômicos e de infra estrutura. Assim, Inteligência é uma atividade com a qual os militares sempre conviveram, por necessidade, e com base na qual formulam seus planos e estratégias, sendo, por isso, os melhores gestores da mesma.
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