sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Ungido

por Lenilton Morato
Virou rotina: A cada semana, somos brindados com um escândalo envolvendo o partido do governo. Entretanto, por mais que sejam julgados e condenados, os envolvidos continuam obtendo o respeito de seus companheiros, que os têm como "os injustiçados". O caso do mensalão é o mais eloquente. As figuras condenadas já receberam o indulto partidário daquele que, um dia, autodenominou-se como sendo o "guardião da moralidade política brasileira". Pudera! Os integrantes julgados são mais que meros quadros da agremiação: são ídolos, fontes de inspiração para as futuras gerações de políticos do partidão; eles são a essência do que é o partido e por isso precisam ser preservados a todo custo. 
Contudo, mesmo blindados, esses elementos não escaparam das cobranças de uns poucos jornalistas e da população em geral, tanto que o ministro Joaquim Barbosa foi alavancado à condição de novo herói nacional por punir os chamados mensaleiros. Esta cobrança, no entanto, só foi possível devido à extensão da podridão que foi revelada com o caso do mensalão (muito embora esta seja apenas a ponta do iceberg). Porém, de todos os envolvidos no esquema (e em muitos outros) apenas um prossegue imune a qualquer questionamento acerca de sua idoneidade: O Ungido.
O Ungido tornou-se um símbolo, uma divindade de uma religião tão forte quanto perigosa: o lulismo. Nela, o ídolo não pode ser nunca manchado, nunca questionado, jamais investigado. Sua sabedoria emana de palavras de fé e de esperança como "eu não sabia de nada" ou "fui apunhalado pelas costas". Com este discurso, ele segue alijado de toda a culpa e de toda a responsabilidade como ex mandatário do Brasil. As pessoas acreditam na sua palavra, na sua índole e na sua honra. Afinal, ele foi santificado pelas graças do partido.
Engana-se, porém, aqueles que acham que a canonização do ídolo deu-se após sua subida à rampa do Planalto. Já na campanha eleitoral de 2002, tivemos uma amostra da sua canonização. O jornalista Boris Casoy ousou arguí-lo sobre as suas relações com o Foro de São Paulo. Acabou demitido. O semblante de reprovação e ódio do então candidato serviu de imediato para constranger o jornalista, algo que não pode acontecer com um profissional dedicado à informação. Via-se, já naquele momento, o poder que o Ungido carregava, capaz de calar a voz de jornalistas e ser idolatrado pelo meio artístico e cultural.
Com sua ascensão à Presidência da República, seu caráter divino agigantou-se. Sua sapiência atravessou fronteiras, servindo como referência a governantes dos Estados Unidos e da Europa. Com seu discurso demagogo, conquistou o meio artístico e cultural, mesmo sem saber o que significam estas palavras. Por ser divinal, foi sumariamente inimputável de todo e qualquer escândalo que envolvesse o seu nome, e não foram poucos. O enriquecimento estranho de seu filho, as relações com as FARC (via Foro de São Paulo), o próprio mensalão, enfim, todos os fatos que pudessem levantar qualquer suspeita sobre sua pessoa ou sobre o seu desempenho como governante foram sumariamente ignorados pela imprensa e esquecidos pela população. Como ele mesmo disse "já fui julgado pelo povo quando elegeu minha sucessora". Precisa mais?
Recentemente, temos o escândalo com uma ex secretária da Presidência da República, que envolve 25 milhões de Euros e o Ungido. E, novamente, ninguém parece querer questioná-lo.
O problema, porém, não é ele, mas seus seguidores. Seus adoradores é que fazem a maior parte do estrago, senão todo. Afinal, seus seguidores localizam-se nas grandes redações dos jornais, na produção cultural e nas cátedras das universidades. A magnitude de seu culto é tão grande que até os que se dizem de oposição o idolatram. São essas pessoas que perpetuam a santidade do Ungido e o tratam como intocável, detentor de todas as respostas e depositário das mais altas qualidades morais. Sendo assim, não existe no meio político ou em nossos meios de comunicação, um único indivíduo sequer que questione as atitudes do ídolo, mesmo quando este estava governando a nação.
Os escândalos se acumulam, as ligações da santidade com esquemas obscuros e corruptos se aprofundam, mas nada parece atingi-lo. A ignorância do povo e a conivência dos formadores de opinião cada vez mais fortalecem a imagem daquele que comandou o maior esquema de corrupção da história do Brasil. Nenhum questionamento, nenhuma análise, nada, absolutamente nada se fala acerca de seu possível envolvimento com esses sem número de escândalo. Realmente, deixaram o homem trabalhar... E ele fez o trabalho direitinho.

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