sábado, 19 de junho de 2021

Conjunto Farroupilha o Grupo Que Apresentou o Gauchismo ao Mundo

DE PILCHA, MUNDO AFORA
Grupo formado na Rádio Farroupilha em setembro de 1948 foi responsável por levar a música com o sotaque do Rio Grande do Sul a EUA, China e Rússia, entre outros países.
por William Mansque
A partir da esquerda: Tasso Bangel, Alfeu, Danilo, Estrela D’Alva e Inah, na BBC de Londres, onde teriam sido vistos pelos Beatles 
Imagem: Arquivo RBS
Em entrevista ao projeto Three Pieces, no qual músicos de todo o mundo falam sobre três canções ou artistas que marcaram suas vidas, o russo Andrey Makarevich escolheu o Conjunto Farroupilha entre uma de suas opções. Aos 64 anos, líder da banda Mashina Vremeni, em atividade desde 1969, Makarevich é um ícone do rock da Rússia. No vídeo publicado em 2012 no canal do YouTube do Three Pieces, ele lembrou shows do grupo gaúcho naquele país nos anos 1960 e seus dois discos lançados por lá, com destaque para a faixa Tem que Ter Mulata, composição do sambista gaúcho Túlio Piva. Entre suas impressões sobre essa música, Makarevich a descreve como "mágica", antes de começar a cantar, em português — com sotaque:
"O samba pra ser samba brasileiro/ Tem que ter pandeiro/ Tem que ter pandeiro/ O samba pra ser samba na batata/ Tem que ter mulata/ Tem que ter mulata".
Makarevich ainda sublinhou sua relação com o Conjunto Farroupilha:
 Faz lágrimas sentimentais caírem dos meus velhos olhos.
Internacional, brasileiro e gaúcho: o mundo era pequeno para o Conjunto Farroupilha, cuja fundação completa 70 anos neste mês de setembro [de 2018]. Afinal, não são muitos os músicos que podem fazer a seguinte constatação:
 Posso te dizer que conheço todo o planeta Terra.
A frase é do maestro Tasso Bangel, 87 anos, arranjador, acordeonista e líder do Conjunto Farroupilha. O grupo foi pioneiro na concepção da música regional gaúcha e, também, ao mostrar essa música no Exterior.
 Com certeza foi o primeiro grupo a levar a música do Rio Grande do Sul para fora do país. Também há a parte performática, de vestir trajes (pilcha e vestido de prenda), localizando um gaúcho no sul do Brasil, além daquele da Argentina — afirma o compositor e historiador Vinícius Brum.
O conjunto foi criado em 1948 para ser o grupo Rádio Farroupilha. Uma de suas incentivadoras foi Inah Vital, que viria a se casar com Tasso Bangel. A soprano costumava se apresentar nos estúdios da emissora.
 Ela era a primeira cantora do Rio Grande do Sul. Ainda não era o tempo de Elis Regina — garante o maestro Bangel.
Inah não gostava de cantar sozinha, por isso pressionava a direção da rádio para que um conjunto fosse formado. Na época, Tasso havia se mudado de Taquara para Porto Alegre, onde estudava música no Instituto Belas Artes. Como também tocava com frequência na emissora, logo seu nome foi lembrado para o grupo. Além do futuro casal, a primeira formação do conjunto contava com Danilo Vital (irmão de Inah), Alfeu de Azevedo e Eddy Gomes (que sairia em 1950). O conjunto teve ainda Estrela D’Alva (entrou em 1951), Sidney do Espírito Santo (que substituiu Alfeu), Lourdinha Pereira e Norma Nagib.
Como destaca a doutora em música Luciana Prass no artigo Nas Asas da Varig e da Panair: o Conjunto Farroupilha e o Espalhamento da Música Popular Brasileira e Gaúcha nos Anos 50 e 60 do Século XX, o quinteto seria o primeiro conjunto vocal brasileiro a misturar vozes masculinas e femininas. No início, o grupo foi influenciado pelas big bands de jazz norte-americanas, como a de Glenn Miller. O primeiro arranjo executado foi Please, Don't Say No, Say Maybe, de Sammy Fain e Arthur Freed, sucesso em 1945.
 Naquela época, as rádios costumavam ter seus conjuntos com músicos contratados. Nos anos 1940, a Rádio Nacional, do Rio de Janeiro, era a emissora mais ouvida do Brasil. As rádios daqui, como a Farroupilha, pegavam as playlists do que era tocado no Rio naquele momento, e aí os arranjadores locais faziam novos arranjos para essas mesmas músicas. Era um repertório brasileiro unificado — explica o músico e pesquisador Arthur de Faria.
Além da influência do jazz das grandes orquestras americanas, o grupo trazia em sua sonoridade reminiscências ao tango dos países do Prata e dialogava com grupos vocais do Brasil e dos EUA. Mas logo em seguida o Conjunto Farroupilha se encontraria com os então jovens folcloristas Barbosa Lessa e Paixão Côrtes. E, a partir disso, passaria a ter um repertório mais identificado com a cultural local.
O conjunto em uma imagem clássica, com Bangel ao centro - Arquivo RBS
O regional resiste
Ao longo das décadas de 1940 e 1950, Côrtes e Lessa se empenharam na pesquisa da tradição gaúcha, criando uma série de solenidades que visavam a chamar a atenção para os símbolos socioculturais do Estado: a Chama Crioula como uma extensão da Chama da Semana da Pátria, o Desfile dos Cavalarianos, a Ronda Crioula e o primeiro Centro de Tradições Gaúchas, estabelecido em 1948 com o nome de 35.
 No fundo, é tudo uma reação à americanização do mundo no pós-guerra. Durante os anos 1940, a cultura americana passou a ser foco do mundo, e os regionalistas passaram a ter medo de que suas culturas acabassem e tudo ficasse dominado pelos EUA. Então, surgiram esses movimentos de resistência local, às vezes inconsciente. No Rio Grande do Sul, houve o Érico Veríssimo escrevendo O Tempo e o Vento, surgiu o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG), o 35 CTG, tudo nessa segunda metade dos anos 1940 — observa Arthur de Faria.
Porém, o resgate às tradições e ao folclore só seria completo com a difusão de suas danças e músicas. No livro Danças e Andanças da Tradição Gaúcha, de 1975, Côrtes e Lessa relatam que, no começo dos anos 1950, uma nova fábrica de discos do Rio chamada Rádio introduzia uma novidade no Brasil, o long-play (LP), com suas gravações em 33 rotações por minuto (rpm). Até então, somente se conhecia o disco com uma música em cada face, em 78 rotações. Conforme a publicação, a fábrica convidou o Conjunto Farroupilha para gravar um LP, mas exigiu que ele tivesse músicas típicas do Sul. "Não possuindo repertório para isso, os rapazes e moças do conjunto entraram em contato conosco. Mostramos canções nossas e também melodias de projeção folclórica", escreveram os dois folcloristas.
Lançado em 1953, Gaúcho traz sete faixas propostas por Lessa e Côrtes, além de Amargo, de A. Amábile e Lupicínio Rodrigues. Nesse álbum, aparecem músicas como Negrinho do Pastoreio e Tatu. Contando com vocais harmoniosos acompanhados por orquestra, o disco foi um aceno para o que seria chamado por Paixão Côrtes, no livro Aspectos da Música e Fonografia Gaúchas, de 1984, de "Estilo Conjunto Farroupilha" — o qual combina a sonoridade do folclore gaúcho com elementos de outros "rincões". Segundo Côrtes, essa linha se iniciou na década de 1940, com o grupo vocal Quitandinha Serenaders, e teve continuidade com Os Sinuelos, Os Gaudérios e Os Araganos. Foi nesse momento que a tradição pesquisada pelos folcloristas seria incorporada ao visual dos integrantes, que passaram a vestir a indumentária gaúcha.
Em 1957, Gaúchos em Hi-Fi deu sequência à proposta do álbum de estreia, trazendo novamente canções folclóricas recolhidas e compostas por Lessa e Côrtes  como Balaio, Maçanico, Noites Gaúchas e Prenda Minha. No disco lançado pela gravadora Columbia, o conjunto aproveitou recursos tecnológicos da época combinados com arranjos modernos assinados pelo maestro italiano Enrico Simonetti.
 Gaúchos em Hi-Fi é um dos ápices da chamada canção regional. Ele foi lançado 14 anos antes da Califórnia da Canção, que é o segundo episódio conformador desse espectro da música regional, evidentemente, em paralelo a outras correntes e festivais — avalia Vinícius Brum.
Para Brum, o trabalho do Conjunto Farroupilha, "que alia a sofisticação musical, a excelência estética e os textos voltados para a temática rural ou folclórica do Rio Grande do Sul", constitui "um marco decisivo" para que a canção regional gaúcha alcance a enorme popularidade que detém hoje.
De todo modo, paradoxalmente, o Rio Grande do Sul foi pequeno para a sonoridade do Conjunto Farroupilha.

Inspiração brasileira
De Norte a Sul (1956), disco lançado entre Gaúcho (1953) e Gaúchos em Hi-Fi (1957), já dava uma amostra de que a inspiração para o grupo iria além do Mampituba. O Farroupilha explorou regionalismos de outras partes do Brasil, apresentando faixas de compositores de São Paulo, Alagoas, Bahia, Pernambuco e Pará. Há clássicos como Tristeza do Jeca, Boi Bumbá e Festa de Rua, esta última de Dorival Caymmi.
 Um diferencial do Conjunto Farroupilha foi ter uma ambição nacional, que possivelmente foi herdada de Pedro Raymundo, que se vestiu de gaúcho e foi tocar no centro do país antes do grupo. Tanto que o Farroupilha gravou bossa nova, samba, entre outros gêneros. Não queria se circunscrever ao ambiente regional. Eram músicos muito bons tecnicamente — opina o músico e historiógrafo Henrique Mann, fazendo referência ao catarinense (de Imaruí) Pedro Raymundo, cuja figura inspirou ícones do gauchismo como Gildo de Freitas e Teixeirinha.
No mesmo ano em que lançou De Norte a Sul, o conjunto se desligou da Rádio Farroupilha e deixou o Estado.
 Concluímos que queríamos mais. Queríamos grandes palcos, grandes lugares, e fomos para o Rio — conta Tasso.  Antes, já íamos ao centro do país, porque a Farroupilha integrava a rede associada do Assis Chateaubriand, assim como as rádios Tupi de Rio e São Paulo. Representávamos o Rio Grande do Sul nos festivais nacionais.
Depois, saindo do Rio, os integrantes do conjunto ainda foram morar em São Paulo, onde se mantiveram até o encerramento das atividades do grupo.
Seus discos posteriores mesclariam canções de Côrtes e Lessa com músicas de outros compositores brasileiros e internacionais. Os Farroupilhas na TV (1960) traz a primeira gravação de Samba de uma Nota Só, de Tom Jobim e Newton Mendonça, música que ganharia o mundo no disco Jazz Samba (1962), de Stan Getz e Charlie Parker, que levou a bossa nova aos EUA.
 Estávamos gravando no estúdio da Columbia quando apareceu por lá o Tom Jobim. Ele estava com a Maísa. Esperou que nós terminássemos para fazer as coisas dele. Foi ali que nos ouviu. E perguntou: "Quem é o arranjador?". Era comigo. Ele me disse: "Parabéns, achei o conjunto lindo. Tenho um samba, e queria ver se essa melodiazinha te agrada". Me deu a música. Lógico, eu adorei e gravamos — recorda Tasso.
Os Farroupilhas também estiveram no programa semanal Gessy 21 e 30, das TVs Rio, Record e Tupi:
 A cada programa, nós fazíamos um repertório dedicado a um tema específico: automóvel ou praia, por exemplo. Havia um episódio em que nosso cenário era um posto de gasolina, e nós éramos frentistas cantando. Tudo fantasia. As pessoas também não sabiam que era tudo dublado — diverte-se o maestro.

Farroupilha internacional
Conjunto Farroupilha em Londres
Arquivo Pessoal / Tasso Bangel
Ainda em meados dos anos 1950, o Conjunto passou a promover os eventos da Varig, vendendo uma imagem da cultura do Brasil ao redor do mundo — aonde quer que a companhia aérea fundada no Rio Grande do Sul fosse pousar.
 A empresa nos disse que gostaria de contar conosco porque nós cantávamos uma variedade de músicas. Além das nacionais e regionais, apresentávamos canções americanas, francesas e alemãs.
Só os sucessos da época. Então, eles queriam que a gente fosse nesses eventos, por exemplo, na França, e tocasse não só as músicas brasileiras, mas também as locais, fazendo essa mistura. Sempre nos mandavam antecipadamente a música de maior êxito naquele momento no país que visitaríamos. Quando a cantávamos, o público ia à loucura — diz Tasso.
Conjunto Farroupilha na Rússia
Arquivo Pessoal / Tasso Bangel
Assim, o conjunto viajou para Alemanha, França, Uruguai, Argentina, Porto Rico, EUA, Venezuela, Inglaterra, Portugal, Espanha, Noruega e Finlândia, entre outros países. A cada viagem, o grupo trazia canções internacionais em voga à época para seus discos, casos de Liechtensteiner Polka (Kotscher e Lindt) e Clases de Cha-Cha-Cha (Ramo’n Marquez e Sergio Marmolejo).
Para a Rússia do roqueiro Andrey Makarevich — e também para a China —, o Conjunto Farroupilha viajou a partir de uma associação com o Ministério das Relações Exteriores, que levou o grupo com o objetivo de divulgar a cultura nacional.
 O aplauso dos russos era arremessar flores. Nós ficávamos nos defendendo delas no final de cada apresentação. Coisa linda! — rememora Tasso.
Entre as apresentações no Exterior, destaque também para uma temporada dividida com o espetáculo burlesco do Moulin Rouge, que veio de Paris para mais de um mês em cartaz em Buenos Aires, seguindo depois para Mar del Plata, também na Argentina, e Montevidéu.
Anúncio de show do Conjunto
Farroupilha no Radio City
Music Hall, em Nova Iorque
Arquivo Pessoal / Tasso Bangel
Em Nova York, em 1960, o Conjunto Farroupilha se apresentou por várias semanas na icônica casa de espetáculos Radio City Music Hall.
 Lá, os shows foram fantásticos, pois havia orquestra nos acompanhando — afirma o maestro.
Segundo Luciana Prass, nessa ocasião o conjunto cumpria uma agenda em um país que, àquele momento, almejava ser mais cosmopolita:
 Quando os americanos gravavam uma polka alemã, uma canção russa ou um sucesso da Venezuela, eles estavam cumprindo o papel de ser uma indústria de música do mundo. Para mim, o Farroupilha era muito mais do que a face regional. Era cosmopolita, tanto na estética dos arranjos quanto na compreensão do repertório.
Um história folclórica do Farroupilha teria acontecido quando o grupo se apresentou na BBC, em Londres, no início dos anos 1960. Os integrantes estavam pilchados e ensaiando Samba de uma Nota Só. Até que a atenção do conjunto se voltou para a entrada do estúdio.
 A porta se abriu e tinha três cabecinhas olhando a gente cantar.
De repente, a Estrela D'Alva perguntou para um funcionário quem estava nos observando o tempo todo. Ele disse que não sabia e foi averiguar. Depois, trouxe a resposta: "Me disseram que, aparentemente, o nome deles é Beatles"  relata Tasso.
O maestro especula sobre o que teria chamado a atenção dos Beatles:
 Estavam interessados em algo diferente deles. Estávamos vestidos de gaúcho, exigência dos produtores do programa. Era o começo deles também, ainda não eram ninguém. O jeito que nós cantávamos os atraiu.

Legado a ser organizado
Tasso Bangel com "Gaúchos em Hi-Fi" (em LP)
Imagem: Andréa Graiz / Agencia RBS
De acordo com Tasso Bangel, o Conjunto Farroupilha teria encerrado suas atividades em 1992, totalizando 44 anos de carreira. Contudo, é difícil encontrar registros de atividades após o disco Farroupilha 35 (1983).
 O mercado musical estava mudando, e fomos indo até vermos que não dava mais para a gente. Eu também já tinha a minha vida musical como arranjador. Já não precisávamos mais financeiramente do Farroupilha para sobreviver — calcula o maestro, que formou o grupo Tom da Terra nos anos 1990 e hoje comanda o conjunto instrumental Camerata Pampeana.
Ainda há muitos pontos imprecisos na biografia do Conjunto Farroupilha, como as datas de entradas e saídas de integrantes e registros de apresentações históricas. Muito da história do grupo foi transmitida de forma oral, o que gera contradições e ocasiona a perda de informações. Por exemplo, nem Tasso consegue precisar o período em que Inah saiu do grupo em definitivo — ela morreu em 2007.
Para recuperar e preservar a memória do Conjunto Farroupilha, Luciana Prass criou em 2014 o projeto de pesquisa Tasso Bangel e o Eterno Aprender, que mantém um site cuja finalidade é reunir fotos, músicas, discografia e entrevistas do maestro. Para ela, o Farroupilha foi fundamental para ajudar a imprimir uma identidade à música regional gaúcha:
 A música do Rio Grande do Sul não possuía identidade naquela época. Até já havia surgido Pedro Raymundo. O choro era muito forte no Estado, havia uma cena de boemia. Mas o que teria um caráter mais regional não aparecia. O Farroupilha foi muito importante na divulgação desse repertório do Paixão e do Lessa. Eles cantavam essas canções singelas e bucólicas, inserindo aquelas vozes e uma orquestra, aquilo ali saía como um produto muito sofisticado.
Para Arthur de Faria, o Conjunto Farroupilha dava uma roupagem pop à música regional:
 Antes do grupo, a música regional gaúcha que existia era muito simplória. Quem deu uma cara contemporânea, moderna e pop para esse repertório foi o Conjunto Farroupilha. Era a música pop da época: o conjunto pegava o que existia e transformava aquilo em outra coisa. Não é muito diferente do que Chico Science fazia, por exemplo, ao estilizar e botar em sintonia o regional com o que de mais moderno era feito no mundo naquele momento. Foi isso que o Conjunto fez: pegou um repertório absolutamente local e pôs, nele, uma cara de arranjo e sonoridade que era sintonizada com o que mais moderno se fazia no mundo, o que basicamente remete aos grupos vocais norte-americanos que estavam na moda. Era música pop de alta qualidade. Não é a toa que, para onde eles iam, em qualquer parte do mundo, não havia estranhamento. O público não via o grupo pelo exótico, mas pela sua excelência.
Vinicius Brum sublinha o pioneirismo do grupo:
 Antes de propor ou manter uma tradição, o que o Conjunto Farroupilha fez foi inaugurar uma linguagem, propor a canção regional do Rio Grande do Sul como a gente a conhece hoje. Parece que ela sempre existiu, mas tem 70 anos.
Tasso Bangel diz que, no legado do conjunto, deve estar incluído o protagonismo feminino.
 Os conjuntos gaúchos sempre foram muito masculinos. No nosso, predominavam as vozes femininas. Não teve mais ninguém que nos desse essa continuidade — frisa o maestro.
Ele completa:
 Na época em que se usava um violãozinho e uma gaitinha ponto, nós entramos na música gaúcha com arranjos e orquestra sinfônica. Era uma coisa que nós podíamos fazer porque eu tinha estudado música mesmo. Não era uma aventura, não era uma brincadeira de guri. Acho que o maior legado que deixamos foi essa qualidade musical, inovadora naquele tempo.

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Sobre as Influências Árabes nas Origens da Cultura Gaúcha

Como os muçulmanos expulsos da Espanha no século XVI deram origem a cultura gaúcha
por Shamsuddin Elía
As primeiras correntes mouriscas instalaram-se no Rio da Prata durante os séculos XVI e XVII. Entre outras coisas, eles nos trouxeram a cultura equestre e a origem da palavra "gaúcho".
Nossa tese, baseada em extensa e detalhada bibliografia, é que o gaúcho tem sua origem na civilização de Al-Andalus, a Espanha muçulmana (711-1492), berço dos povos ibero-americanos, de onde recebemos legados como a língua castelhana, na sua versão andaluza, com o seseo (pronúncia com um s assobiado ao invés do som de ce) e o yeísmo (que consiste em pronunciar tanto ll como y soando iguais em "llave" ou em "yerba", tão comuns entre os rio-platenses), ambos de origem mourisca.
A palavra mourisco (1) comumente designa os muçulmanos do Reino Nacérida de Granada  rendido pelos Reis Católicos em 2 de janeiro de 1492, quando liderado por Maomé XII (Boabdil),  que, após a rebelião do bairro de Albaicín (1501), foram forçados a se converter ao Cristianismo (2).
Este nome também seria aplicado aos mudéjares, do árabe mudayyan: "aqueles que ficaram", ou Al-ad-dayn: "pessoas que permanecem, que se dominam"; por extensão, "domesticados", "dominados”. Estes "mouros submetidos" gozaram de períodos de tolerância nos reinos hispano-cristãos do século XI,  sob a égide de soberanos como Afonso X, o Sábio (1221-1284), e Pedro I, "O Justiceiro" (1334-1369). Estes mudéjares desenvolveriam uma arte que transformaria o perfil da Espanha cristã e seriam a base fundamental da chamada "arte colonial espanhola" na América (3).
Após a rebelião malsucedida de 1568  afogada em sangue por Felipe II e seu meio-irmão João da Áustria , a nobreza da Espanha, mais germânica do que espanhola, obcecada pela "pureza de sangue" e pelo medo de um levante mouro apoiado pelos turcos otomanos (4), pressionou o rei Filipe III a prosseguir com a expulsão em massa dos mouriscos. A operação foi realizada entre 1609 e 1614 (5). Os mouriscos fixaram-se então no Norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia). Alguns permaneceram vivendo em Espanha e em Portugal, fingindo-se cristãos-novos ou ciganos, mas mantendo-se fiéis à fé islâmica (6). O restante emigrou para a América em condições clandestinas semelhantes.
Os mouriscos que vieram para a América chegaram camuflados com os conquistadores e fugindo do estigma imposto pelo inquisidor. Aqui, na América, eles forjaram culturas equestres: a dos gaúchos (Argentina, Uruguai e Brasil), huasos (Chile) e llaneros (Colômbia e Venezuela), com múltiplas influências na música, costumes e estilos, do folclore argentino à escola mexicana de Guadalajara (talapatía). Elas simbolizava sua fé, sua tradição e seu tremendo desejo de independência e liberdade. Também construíram igrejas, catedrais e residências mudéjares que ainda nos impressionam, pequenas Alhambras (palacetes) que tinham como berço a magnífica e exuberante geografia aninhada entre a Cordilheira dos Andes e o Caribe (7).
O tradicionalista e jurista argentino Carlos Molina Massey (1884-1964), que estudou a origem do gaúcho, questiona: “Os oito séculos de conquista moura colocaram sua marca racial característica na população ibérica: oitenta por cento da população peninsular que chegou em nossas praias trazia sangue mourisco. O gaúcho era por isso como um avatar, como uma reencarnação da alma das mourarias fundida com a alma indígena no grande ambiente libertário da América ” (8)
A etimologia da palavra "gaúcho"
A palavra "gaúcho" também aparece no vasto e rico legado andaluz. O jurisconsulto de origem francesa e estudioso dos gaúchos por excelência, Emilio Honório Daireaux (1843-1916), faz esta reconstrução:
Na época das primeiras populações na América, o domínio dos árabes na Espanha estava terminando por expulsão ou submissão; muitos destes derrotados emigraram. Nos pampas encontraram um ambiente onde puderam dar continuidade às tradições da vida pastoril de seus ancestrais. Foram os primeiros a sair das muralhas da cidade para cuidar dos primeiros rebanhos. Isso é tão verdade que muitos costumes e artefatos empregados lá são designados por palavras árabes: o poço, em espanhol, é chamado de jagüel, uma desinência árabe; e a água é retirada deles à maneira árabe.
Gaúcho é uma palavra árabe desfigurada.
É fácil encontrar sua relação com a palavra "chauch", que em árabe significa "condutor de gado". Ainda em Sevilha (na Andaluzia), mesmo em Valência, o boiadeiro chama-se “chaucho(9). O primeiro grande teórico sobre as origens hispano-árabes do gaúcho, o jurisconsulto, escritor e jornalista Federico Tobal (1840-1898), diz:
O traje gaúcho nada mais é do que uma degeneração do traje árabe e é até possível confundi-lo, à primeira vista. O chiripá, o poncho, a jaqueta, o tirador, o lenço na cabeça e embaixo do chapéu nada mais são do que modificações das peças do vestuário árabe; mas modificações pequenas, que não constituem um traje à parte, como o nosso, europeu. (...) Tudo no gaúcho é oriental e árabe: sua casa, sua comida, seus trajes, suas paixões, seus vícios e virtudes e até suas crenças. (...) Seria interminável esgotar essa tese. As coisas, os fatos e os acidentes de relacionamento que confirmam a origem são oferecidos em todos os lugares. A semelhança é tão vívida que a menor atenção é suficiente para percebê-la. Ela nos segue como uma sombra ao seu corpo (...) Por mais indolente que o gaúcho se torne, mesmo se em sua casa faltar árvores ou pomar, mas nunca lhe faltara o poço que é a cisterna (jagüel ou aljibe) para abluções frequentes, altamente necessários no seu estilo de vida e que é especialmente perceptível entre os povos paraguaios e correntinos, que certamente não é de origem indígena(10).
Os conceitos reveladores de Lugones
O escritor e político argentino Leopoldo Lugones (1874-1938) é um dos grandes defensores da alma gaúcha, da cultura dos pampas e de seu legado andaluz. Nas citações a seguir resumimos suas reflexões sobre o assunto:
Ginete por excelência, era impossível concebê-lo desmontado e, portanto, o arreio de montar era a base de seu traje. A sua forma de encilhar o cavalo teve, sem dúvida, origem mourisca. (...) As rédeas e o jáquima (11) ou buçal, muito finos, abrandavam ao máximo os arreios (jaezes) (12), cujo propósito não era conter ou dominar servilmente o animal, mas apenas uni-lo ao cavaleiro, permitindo grande liberdade de movimentos (...) Ademais, sabe-se que a arte de cavalgar e de lutar a la [à moda] jineta, bem como o seu arreio, foi introduzida na Espanha pelos mouros, cujos zenetes  ou cavaleiros da tribo berbere de Banu Marín  deram-lhe o seu nome específico. Assim, jinete, a pronúncia castelhana de zenete, era por excelência o indivíduo hábil na equitação. (...) As largas cinchas de tecido ornadas (taraceadas(13) com tafiletes [tiras de pelica] coloridos (14) são até hoje à moda mourisca. (...) Assim, também, são os enfeites entalhados na madeira usados ​​para enfeitar os portões dos gaúchos da região serrana; aquele avental duplo de couro cru, que amarrado à parte dianteira da sela, abria dos dois lados, protegendo as pernas e o corpo até o peito, nada mais é do que a adaptação da armadura mourisca (15) para combate, que tinha os mesmos adornos e acabamento quase idêntico: eram rígidos na metade superior e flexíveis na parte inferior, de modo que podiam se curvar sobre o quadril do animal ."(16)
Bombachas gaúchas
E assim como a tradição e a herança cavalheiresca eram muçulmanas, as roupas do gaúcho também eram muçulmanas. As mais evidentes delas são as famosas bombachas (as calças por excelência em todas as regiões islâmicas, do Marrocos ao Paquistão) e a faixa à volta da cintura (típica dos mouros para esconder a gumia ou adaga).
É por isso que Lugones diz com razão:
Chiripá
Mais tarde perceber-se-ia que aquela bombacha aberta (o chiripá), facilita montar no cavalo bravio. A peça adquiriu uma largura adequada; e as franjas e listras que esvoaçam sobre os pés foram a adaptação dos aventais de linho e renda com que os cavaleiros do século XVII cobriam os canos de suas botas de campanha (...) como os árabes sempre utilizaram (...) De onde se originaram os "zaraguéis" (17)  calções grandes, largos e mal feitos  chamados de Valência e de Murcia, por sua origem e fabricação. A camisa larga, a jaqueta andaluz, o sombrero ou chapéu de meia copa, o poncho herdado dos vegueros (pequenos agricultores) de Valência (18), completavam aquele conjunto de soltura e flexibilidade” (19).
Assim como Daireaux, Lugones demonstra a origem árabe da palavra "gaucho", mas derivando-a de uahsh ou uahshi, que em árabe significa montanhoso, bravo, ranzinza, carrancudo; da mesma forma, explica como sua variação fonética atinge termos como huaso, guaso, guácharo, guacho, etc (20).
Moharras
A terminologia gaúcha que deriva do árabe é vasta. Basta nomear a alpargata (Al-bargat="o sapato"), o aljibe (Al-yubb="o poço"), a guitarra ou violão (Al-qitar="a corda"), a moharra (mohárrib="afiado", o crescente de ferro (21) com uma ponta que era colocada na base das pontas das lanças gaúchas), e o gadual: aquele argentinismo que identifica um terreno que se encharca quando chove e que deriva do árabe uadi ("rio"), termo que deu origem a uma infinidade de topônimos no mundo hispano-americano (Guadalquivir, Guadalajara, Guadalcanal, Guadiana, etc.). Os exemplos não faltam. A especialista espanhola Dolores Oliver Pérez, em artigo, explica a origem de ¡arre!, arriar, arriero, do árabe harrik, harraka, haraka, harakat, que dá a ideia de mover-se, de movimento, de viajante (22).
Jogos e destrezas hispano-árabes
Os estudos do desportista, camponês e gaúcho Justo P. Saénz (1892-1970) mostraram a enorme influência da escola de cavalaria andaluza (23) na equitação gaúcha, na montada a la jineta e nos jogos de destreza:
É conhecida a importância que a equitação berbere desenvolveu na Espanha. Sua famosa escola de "la jineta" revolucionou o sul da Europa desde sua adoção. Durante a Conquista da América, esta escola atingiu seu apogeu (...) Dom Leopoldo Lugones dá como etimologia da palavra recado a palavra árabe "rekab" e esta é uma observação que se deve ter em conta (...) O juego de cañas que foi praticado pelos espanhóis desde o tempo da dominação árabe, foi exportado para suas colônias na América como parte de seus costumes(24). Os gaúchos do Brasil futuramente seriam agregados às pesquisas comprovando essa linhagem andaluza. Manoelito de Ornellas (1903-1969), por exemplo, etnógrafo e fazendeiro brasileiro, escreveu várias monografias acadêmicas no início da década de 1950 comprovando fascínios semelhantes no gaúcho rio-grandense (25).
E o fato é que o gaúcho mouro nunca foi exclusividade do Rio da Prata ou dos pampas da Argentina, Uruguai e Brasil, mas de toda a América: dos vales do Chile às pradarias da Califórnia e do México, passando pelas imensas planícies do Orinoco na Colômbia e Venezuela, com todas as suas denominações relacionadas e convenientes: huaso (26), o llanero (27) colombiano e venezuelano, e o charro (28) mexicano. 
Os huasos chilenos
Assim, como pode ser vista a influência árabe e mourisca nos gaúchos dos pampas argentinos, uruguaios e brasileiros, também se encontra “nas roupas e trajes do huaso chileno, na ornamentação de seus estribos e esporas repletas de arabescos, em seu modo de cavalgar a la jineta, em seus jogos e alegrias, no romance espanhol conhecido como "corrido", como em al-Andaluz.
Uma curiosa "jarcha" da última estrofe de uma muwashshaha (moaxaja) do popular cancioneiro árabe do século IX, encontrado na compilação e restauração feita pelo professor Sayed Ghazi, em sua obra "Diván de Muwashshahas Andaluzas", apresenta-nos a pintura plástica coreográfica do homem e da mulher dançando a cueca ... A importância desta jarcha árabe consiste em fazer parte de um conjunto de cantos e danças populares, o que nos faria supor a origem árabe-andaluza da cueca.
A esse respeito, deve-se notar que a etimologia da palavra cueca indicaria a possibilidade de uma origem árabe desta dança: cueca, zamacueca e sua conexão viável com o termo árabe samakuk que se origina do espanhol zamacuco: malicioso (29), homem rude, nome derivado do verbo árabe Kauka, que indica a ação sedutora realizada pelo galo para conquistar a galinha que, coincidentemente, carregaria o simbolismo da cueca ... (30)Outro exemplo da marca da cultura árabe na nossa seria uma grande variedade de jogos equestres praticados na colônia, como a corrida de picadeiro, as cañas, o jogo de patos, as corridas, e muitas derivações destas, magnificamente descritas na obra de Don Eugenio Pereira Salas, "Jogos Coloniais e Alegrias no Chile" (31).
É perceptível que al-Andalus foi uma civilização privilegiada, fundada graças à miscigenação de múltiplos povos e tradições.
Desde o primeiro momento, os recém-chegados berberes e árabes muçulmanos começaram a se casar com mulheres hispânicas (hispano-romanas, celtiberas, góticas). O resultado é um admirável tipo de cultura que deve ser apropriadamente chamada de andaluza. Quando esses hispano-muçulmanos foram conquistados por seus vizinhos ao norte da Península  primeiro se tornando mudéjares e depois mouriscos  e forçados a emigrar, muitos vieram para a América em condições clandestinas. Ali se daria uma nova e generosa miscigenação, desta vez com mulheres indígenas, cujo ponto culminante é o biótipo do gaúcho, o huaso, o llanero, com seus traços mouriscos, mas também com todas as suas novas aquisições e originalidades típicas da América.
O que queremos assinalar aqui não é que os cavaleiros dos pampas ou das planícies fossem de raça árabe, seria um equívoco tão grande como dizer que os andaluzes também eram árabes (não existem raças, e sim línguas e culturas), ao contrário, os gaúchos, huasos, llaneros ou charros eram portadores de uma herança que  muitas vezes a despeito de si mesmos  marcavam padrões de conduta, costumes e pensamento.
Todas as citações e fragmentos que enumeramos até agora nos mostram com segurança que os imigrantes sírios e libaneses  que chegaram em sua maioria ao Rio da Prata a partir de 1900  não foram os primeiros a apontar os sinais mudéjares desse biótipo dos pampas — consequência do cruzamento de índios e mouros, ou da imigração de mouros de linhagem pura como os Maragatos (32)  —, mas dos argentinos de raça pura ou mesmo estrangeiros, na sua maioria europeus, que tiveram a sorte de conhecer pessoalmente os últimos gaúchos que ainda cavalgaram a la jineta e usavam lenços como capuzes sob seus chapéus.
As limitações deste artigo não nos permitem aprofundar certas questões direta ou indiretamente ligadas às origens hispano-muçulmanas das culturas equestres da América. É o caso dos mouriscos no Peru, como "las tapadas de Lima", mencionadas pelo historiador e filólogo espanhol Américo Castro (1885-1972) (33), que deram origem a uma riquíssima cultura de miscigenação, e no México, onde a influência moura foi projetada de Chiapas até a costa norte da Califórnia (34). Outra é o profundo monoteísmo ligado à mais pura tradição muçulmana descrito em Martín Fierro, a "Bíblia gaúcha" do poeta José Hernández, e as mil e uma tradições camufladas na cultura argentina que devem ser reveladas mais cedo ou mais tarde.

Bibliografia e Notas:
(1) Parece que a palavra "mourisco" se forma como "berberisco", em um diminutivo, que mais tarde foi usado para identificar o hispano-muçulmano que permaneceu na Península após a queda de Granada.
(2) O responsável por esta medida foi o Inquisidor Geral e confessor da Rainha Isabel la Católica, o Cardeal Francisco Jiménez de Cisneros (1436-1517), o mesmo que em 18 de dezembro de 1499 havia queimado à porta de Bib Rambla em Granada, as bibliotecas dos mouros; mais de oitenta mil manuscritos árabes da Espanha muçulmana foram perdidos para sempre.
(3) "Se o sentido estrito da palavra "mudéjar" for respeitado  diz o arquiteto e islamólogo espanhol Leopoldo Torres Balbás (1888-1960) , esse nome seria dado exclusivamente à arte dos muçulmanos que habitavam o território cristão (Leopoldo Torres Balbás. Arte almóada, arte nasrid, arte mudéjar, Ars Hispaniae-história universal da arte hispânica, vol. 4, Editorial Plus Ultra, Madrid, 1949, pp. 237-238). Checar vários autores: El arte mudéjar. La estética islámica en el arte cristiano, Museo Sin Fronteras/Electa (Grijalbo Mondadori), Viena, 2001.
(4) Apesar das repetidas teorias que falam de conspirações incubadas entre mouriscos e otomanos  como é o caso das teses de vários autores: Andrew C. Hess: Os mouriscos: uma quinta coluna otomana na Espanha do século XVI, The American Historical Review 74, Nova York, outubro de 1968, pp. 1-25; e Charles Petrie: Don John of Austria, London, 1967 (cap. 4 sobre a rebelião dos mouros) , os otomanos nunca estiveram em posição de ajudar o sultanato de Granada no século 15 ou os mouros no século 16 porque eles nunca conseguiram estabelecer um poder naval sólido, mesmo no Mediterrâneo oriental. O avanço de uma frota otomana em direção à Espanha teria sido um suicídio em face do poder concentrado dos Habsburgos, do Papado e de Veneza (Solimão, o Magnífico, falhou miseravelmente em sua invasão de Malta em maio-setembro de 1565). A intenção dos ousados ​​corsários berberes  Jairuddin Barbarroja (m. 1546) e outros  ao aproximarem seus navios da costa peninsular era apenas resgatar os refugiados mouros que buscavam se estabelecer no norte da África. As especulações em torno de uma hipotética ajuda dos mouros aragoneses pelos huguenotes liderados por Henrique IV, rei de Navarra (1562-1610) e da França (1589-1610) foram ampliadas, porém é interessante analisar os contatos entre ambos (cfr . Duc de La Force: Le maréchal de La Force. Un serviteur de sept rois, 1558-1652, Paris, 1950; Louis Cardaillac: Morisques et protestants, Al-Andalus, XXXVI, 1971, pp. 29-63). Para tirar dúvidas e esclarecer o panorama sobre este assunto, recomendamos o estudo de Francisco Márquez Villanueva: "O mito da grande conspiração mourisca", Atas do II Simpósio Internacional do CIEM sobre religião, identidade e fontes documentares sobre os Mouriscos Andaluses, Institut Supérieur de Documentation, Tunis, 1984, 2, pp. 267-284.
(5) Ver Francisco Márquez Villanueva: O problema dos Mouros (De outras encostas), Coleção Al-Quibla, Libertarias, Madrid, 1991; Míkel de Epalza: Os mouros antes e depois da expulsão, Mapfre, Madrid, 1992; Julio Caro Baroja: Os mouros do Reino de Granada, Istmo, Madrid, 1991 (4ª ed.); Anais do III Simpósio Internacional de Estudos Mouros "As práticas muçulmanas dos mouros da Andaluzia (1492-1609)", sob a direção do Professor Abdejelil Temimi, Zaghouan (Tunísia) 1989.
(6) O escritor de Málaga e líder andaluz Blas Infante (1885-1936)  assassinado pelos rebeldes com a eclosão da Guerra Civil Espanhola  aponta que estes "mouros, estes andaluzes ferozmente perseguidos, refugiados em cavernas, alienados da sociedade espanhola, encontravam no território andaluz um meio de legalizar, por assim dizer, a sua existência, evitando a morte ou a expulsão. Alguns bandos errantes, perseguidos ferozmente, mas sobre as quais não pesava o anátema de expulsão e de morte, vagam agora de lugar para lugar, constituindo comunidades organizadas por caudilhos e abertas a todos os peregrinos desesperados (...) Para entrar neles basta realizar um rito de iniciação. Os andaluzes entraram neles em rebanhos, estes últimos descendentes daqueles homens que dominavam as mais belas culturas do mundo, mas que agora não passavam de fazendeiros refugiados (em árabe, trabalhador fugido ou expulso significa "fellahmengu"). Compreendes agora por que os ciganos da Andaluzia constituem, segundo os escritores, o povo cigano mais numeroso da Terra?" (Blas Infante: El Ideal andaluz, Madrid, 1976, pp. 107-108).
(7) Sobre a preponderante presença da arte islâmico-mudéjar na mal denominada "arte colonial espanhola", ver as obras de J. Mariano Filho: Influenças muçulmanas na architectura tradicional brasileira, A. Noite, Rio de Janeiro, 1943; F. Prat Puig: El prebarroco en Cuba. Una escuela criolla de arquitectura morisca, La Habana, 1947; Varios Autores: El mudéjar iberoamericano. Del Islam al Nuevo Mundo, Lunwerg, Barcelona, 1995; Varios Autores: El Arte Mudéjar, Ediciones UNESCO, Zaragoza, 1996; Rafael López Guzmán: Arquitectura Mudéjar, Manuales Arte Cátedra, Cátedra, Madrid, 2000; Varios Autores: El arte mudéjar. La estética islámica en el arte cristiano, Museo Sin Fronteras, Viena, 2000.
(8) Marcos Estrada: Apuntes sobre el gaucho argentino, Ediciones Culturales Argentinas, Subsecretaría de Cultura, Ministerio de Cultura y Educación, Buenos Aires, 1981, pp. 9-10.
(9) E. Daireaux: Vida y Costumbres en el Plata. Vol I, Cap. II: "Caracteres étnicos de la Nación Argentina", Félix Lajouane Editor, Buenos Aires/París, 1888, p. 32.
(10) F. Tobal: Los libros de Eduardo Gutiérrez: El gaucho y el árabe, artículo publicado em capítulos no jornal La Nación, Buenos Aires, nos dias 16, 23, e 28 de fevereiro, e em 2 e 4 de março de 1886.
(11) Do árabe sakima, artefato de corda que funciona como cabresto.
(12) Do árabe yehez, qualquer adorno colocado nos cavaleiros (neste caso, as jaeces).
(13) Do árabe tar'zi, incrustação.
(14) De tafilelt berbere, couro polido e lustroso, muito mais fino que o cordovês.
(15) Do árabe al-darqa, escudo de couro, oval ou em forma de coração.
(16) L. Lugones: The payador, Ayacucho Library, Caracas, 1991, pp. 31-33.
(17) Do árabe sarauil, uma espécie de calça larga com pregas.
(18) Lugones insere a seguinte nota: “Os monges beneditinos usavam na Idade Média, para proteger o hábito do trabalho rural, verdadeiros ponchos de pano cuja memória meramente simbólica persiste nos escapulários e casulas (vestes religiosas) atuais. Vestimentas rudimentares como o poncho, o chiripá e a bota [garrão] de potro pertencem mais ou menos a todos os povos de pouca civilização. Às vezes, há retrocessos, como o chiripá em relação à bombacha mourisca. Acrescento que a clássica aba (kandora) dos árabes, nada mais é do que uma peça de pano listrado aberto no meio para passar a cabeça. Daí viria a peça análoga dos vegueros valencianos, bem como os mencionados escapulários. (idem, p. 35).
(19) L. Lugones: El payador, Biblioteca Ayacucho, Caracas, 1991, pp. 34-35.
(20) L. Lugones: Voces americanas de procedencia arábiga, V nota, en La Nación, Buenos Aires, domingo 9 de marzo de 1924, 3ª sección, p. 8.
(21) A lua hilal ou crescente é um símbolo tradicional entre os muçulmanos que reflete o calendário lunar que regula sua vida religiosa. A lua crescente anuncia o mês sagrado do Ramadã. A tribo árabe Banu Hilal (Filhos do Crescente) ou Hilali, até então estacionada a leste do Nilo, foi enviada pelo califa fatímida al-Mustansir (r. 1036-1094) para espalhar e consolidar o Islã entre os berberes do Norte da África. O hilal tornou-se especialmente importante entre os otomanos. A tradição diz que a bandeira turca mostra o crescente com uma estrela no centro porque o sultão Mehmet II Fatih (o Conquistador) entrou em Constantinopla (agora Istambul) sob uma lua semelhante na madrugada de 29 de maio de 1453. Foi assim como esta dinastia turca adotou esse símbolo como um emblema oficial. O fato de que por quinhentos anos o Império Otomano conteve numerosas nações muçulmanas dentro de suas fronteiras, bem como sua influência sobre os povos muçulmanos de língua turca da Ásia Central, influenciou a decisão das nações islâmicas que surgiram ao longo do século XX de inserir em suas bandeiras o hilal e a estrela como símbolo de fé e tradição. Assim, podemos citar os da Argélia, Azerbaijão, Comores, Federação da Malásia, Maldivas, Mauritânia, Paquistão, Cingapura, Tunísia, Turcomenistão e Uzbequistão.
(22) D. Oliver Pérez: Dos arabismos nacidos de un imperativo árabe... en la Revista Al-Qantara, vol. XIV, Fasc. 1, Madrid, 1993, pp. 163-176.
(23) Cfr. Varios autores: Al-Ándalus y el caballo, Lunwerg Editores, Barcelona, 1995.
(24) J. P. Saénz: Equitación gaucha en la Pampa y Mesopotamia, Emecé, Buenos Aires, 1997, pp. 15, 50 e 157.
(25) Manoelito de Ornellas: Gaúchos e Beduínos. A origem étnica e a formação social do Rio Grande do Sul, Livraria José Olympio Editôra, Rio de Janeiro, 1948 y 1956; A Filigrana Árabe nas Tradições Gaúchas, Edição "Arte do Livro", Porto Alegre, 1950; A cruz e o alfanje. A expansão da cultura árabe, Livraria Progresso Editora, Bahia, 1960.
(26) "Sua vestimenta e o implemento de seu cavalo são uma mistura de elementos hispano-mouriscos e indígenas (...) ... o huaso descende dos andaluzes ..." René León Echaiz: Interpretacion histórica del huaso chileno, Editorial Francisco de Aguirre, Buenos Aires, 1971, pp. 28 y 32.
(27) Cfr. Daniel Mendoza y José E. Machado: El llanero. Estudio de sociología venezolana con un estudio sobre el gaucho y el llanero, El Ateneo, Buenos Aires, 1944.
(28) Cfr. J. Álvarez del Villar: Historia de la charrería, México, 1941; C. Rincón Gallardo: El libro del charro mexicano, México, 1946.
(29) Zamacuco é também uma pessoa dissimulada, que se cala e age conforme a sua própria vontade, características dos perseguidos e clandestinos, como os mouros e os gaúchos.
(30) Eugenio Chahuán Chahuán: Presencia Árabe en Chile, Revista Chilena de Humanidades, Nº 1, 1983, Facultad de Filosofía, Humanidades y Educación, Universidad de Chile, Santiago de Chile, pp. 40-41.
(31) Cfr. S. Claro Vilches: Cueca chilena, cueca tradicional, Universidad Católica de Chile, Santiago de Chile, 1986.
(32) Sessenta quilômetros ao sul de Asyut (Egito), a meio caminho entre as cidades de Tahta e Suhaj, está a cidade de al-Maraghat (em árabe: caverna, gruta). No início do século VIII, um grupo de maragatos (maragatún) juntou-se ao contingente de 18 mil homens que o árabe Musa Ibn Nusair (640-714) conduziu à Península Ibérica por volta de 712 para consolidar as posições que o seu tenente berbere Tariq Ibn Ziad (m. 720) havia conquistado no ano anterior. O islamólogo holandês Reinhart Dozy (1820-1883), em sua detalhada obra Recherches sur l'histoire et la littérature des arabes d'Espagne pendant le Moyen Age (3ª ed., Paris, 1881) e o antropólogo espanhol Dr. Aragón e Escacena em sua obra Estudo Antropológico do Povo Maragato (Anales de la Soc. Esp. de HN, XXX, Madrid, 1902) consideram os Maragatos descendentes da imigração berbere. Os Maragatos se estabeleceram desde o início nas terras de León, norte da Espanha, em uma área montanhosa que seria chamada de Maragatería (350 km2), localizada entre Astorga e o pico Teleno, a sudoeste da cidade de León. Séculos depois passam para Portugal e depois para os Açores onde uma das aldeias da Ilha do Pico ostenta a marca da sua passagem: Maragaia. Posteriormente, durante os séculos XVII e XVIII, chegaram ao Prata numerosas famílias de maragatos de Leão, do porto de La Corunha, e muitas outras dos Açores. Eles se instalaram principalmente nos departamentos de Soriano e San José da Banda Oriental (atual Uruguay). Como os Maragatos sempre se destacaram por serem excelentes areeiros, em breve irão desenvolver este e outros ofícios no país. No final do século 18 eles serão identificados com os gaúchos da região. Os maragatos impuseram alguns pilchas gaúchos, como o calzoncillo crivado (semelhante ao chiripá com franjas).
Ao longo do século XIX, os Maragatos participaram ativamente da política. No sul do Brasil, as forças gaúchas do Rio Grande se unirão na chamada Guerra dos Farrapos e na revolta federalista de 1893-1894. Na República Oriental do Uruguai, eles se juntarão às montoneras do libertador José Gervásio Artigas (1764-1850) e às do Partido Branco dos caudilhos nacionalistas Timóteo Aparício (1814-1882), Gumercindo Saraiva (1852-1894) e Aparício Saraiva (1855-1904) até a trágica batalha de Masoller (1º de setembro de 1904). Uma anedota que fala claramente dessa identidade é que um desses personagens "encurralado por alguns montoneros, tenta fazer valer sua condição de homem branco mencionando sua origem maragato, já que San José sempre foi um reduto oribista: "nu mi mate qui soy maragato di San Cusé!" (Cf. Abdón Arozteguy: A revolução de 1870, Félix Lajouane Editor, Buenos Aires, 1889, volume 1, página 158; Carlos Machado: Historia de los Orientales, Ediciones de la Banda Oriental, Montevidéu, 1973, p. 252).
Manuel Gálvez (1882-1962), o famoso historiador revisionista argentino, fornece uma informação-chave e esclarece a questão: "Popularmente, cada bando deu ao seu oposto um apelido: para federalistas ou revolucionários, os apoiadores do governo são os "picapaus ", o nome de um pássaro, e eles chamam assim porque, como o picapote ou o carpinteiro, na árvore, eles estão sempre "picando" as pessoas com impostos e taxas, e para eles, os federalistas são os "maragatos". porque há entre eles alguns uruguaios de San José, chamados "maragatos". Na Espanha os habitantes de Las Hurdes recebem esse nome (Las Hurdes é o nome de uma região espanhola natural que se estende pelas províncias de Cáceres e Salamanca), que são considerados descendentes puros dos mouros e muito lutadores" (Manuel Gálvez: Vida de Aparicio Saravia. El gaucho de la libertad. Editorial Tor, Buenos Aires, 1957, p. 62). A longa e lendária peregrinação dos Maragatos produzirá o estabelecimento de uma colônia nos arredores de Carmen de Patagones, às margens do Rio Negro, na província de Buenos Aires. A toponímia da região também fala de sua presença: há uma ilha de Maragatas, no departamento uruguaio de San José, e uma lagoa de Maragato, no distrito de Villarino, na província de Buenos Aires.
(33) Cfr. Américo Castro: España en su historia. Cristianos, moros y judíos, Grijalbo Mondadori, Barcelona, 1996, pp. 82-103. Vemos sobre este fenômeno, por exemplo, a tese do professor Ángel Santisteban Mendevil (Universidad de Lima): Sabores hispano-árabes en la tradición culinaria del Perú, Terceras Jornadas de Cultura Árabe "Al-Ándalus allende los Andes", Coloquio Interdisciplinario del Mudéjar Iberoamericano, Centro de Estudios Árabes de la Facultad de Filosofía y Humanidades, Universidad de Chile, (Santiago, agosto de 1999), Santiago, 2001.
(34) Cfr. A. Garrido Aranda: Moriscos e indios. Precedentes hispánicos de la evangelización en México, UNAM, Mexico, 1980; Elizabeth McMillian: Casa California. Spanish-Style Houses from Santa Barbara to San Clemente, Rizzoli, Nueva York, 1996.
Fonte: tradução livre de Raíces de Tradición
e revisão do texto de História Islâmica

sexta-feira, 30 de abril de 2021

História: Ferenc Vajta — O Espião Que Fugiu Para a Colômbia

O húngaro Ferenc Vajta chegou em meados do Século à Colômbia e se converteu em um reputado Acadêmico.
Era fichado pela CIA e pelo FBI.
por Jhon Torres — @jhontorreset
Na Bogotá dos anos 50, ainda provinciana e ardentemente católica, se movimentou nos mais importantes salões um ex-espião que, se os documentos de segurança gringos são corretos, escapou dos julgamentos contra criminosos nazistas, teve contatos secretos com o Papa Pío XII e com o General Charles de Gaulle para tentar frear o comunismo internacional; tentou montar um governo no exílio quando seu país foi absorvido pelo bloco soviético e, já na Colômbia, conspirou contra compatriotas seus aos quais acusava de serem agentes dos bolcheviques.
Ferenc Vajta — um dos membros da ‘legião estrangeira’ que em meados do século passado chegaram fugindo dos estragos da Segunda Guerra Mundial e que aqui encontraram uma nova vida como professores da Universidade dos Andes e outros destacados centros de educação — é lembrado como mecenas do teatro moderno, humanista que consagrou sua vida à academia, e como ‘salvador’ de centenas de seus compatriotas refugiados na Áustria.
Nascido em 1914, educado na Sorbonne de Paris e na Itália, poliglota e ex-diplomata, seu rastro foi se perdendo com a passagem das décadas. E, ainda, nos anos 50 e 60 foi protagonista de primeira linha na vida universitária, social e cultural de Bogotá, jornalista de temas internacionais, e até correspondente por breve tempo da prestigiosa revista Time. Isso na esfera pública.
Em segredo, era objeto de um minucioso seguimento da Inteligência e Embaixada dos Estados Unidos, e informante desse governo e de agencias de segurança nacionais. Até sua morte, no final dos 60, foi um intenso lobista ante Washington, visando cancelar a marca de criminoso de guerra que o impediu de cumprir o plano de viver no país do norte e dirigir desde ali sua ‘cruzada contra o comunismo’.
Tudo isso é o que contam centenas de relatos secretos da poderosa Agencia Central de Inteligencia (CIA) que vem sendo desclassificados desde os anos 80. Vários deles foram recolhidos em livros e versões de imprensa publicados nos EUA que denunciavam como a Casa Branca fez vistas grossas frente a dezenas de reconhecidos nazistas que buscaram refúgio em todo o hemisfério.
O quadro que a CIA pintava de Ferenc Vajta era bem diferente do que se conheceu na Colômbia e que pouco mudou apesar de que, marginalmente, até aqui tenham chegado os ecos de seu passado. Inclusive conhecendo os rumores, poucos haviam imaginado que o homem corpulento, de nariz grande e cabelo negro engomado, que em 1957 foi um dos impulsores do primeiro Festival Nacional de Teatro (que se realizou no Teatro Colón), tivesse uma vida secreta. Um lado obscuro que, segundo a CIA, incluía além de seu passado nazi, capítulos como agente da Hungria, França, Vaticano e até mesmo dos EUA, e também a entrega de um tesouro de ouro na Áustria para evitar ser julgado e até fuzilado pelo que fez durante a guerra.

Primeiro ato: A guerra e o ouro
Ferenc Vajta é um jornalista húngaro e criminoso de guerra (...) Ex-cônsul em Viena antes da ocupação russa, escapou da custodia americana para a zona francesa em junho de 1945. Nove solicitações diferentes foram feitas para sua entrega a nossas tropas, diz um relato da CIA de março de 1952. Segundo o oficial norte-americano que o capturou, “Vajta deu aos franceses informação que foi usada para recuperar seis toneladas de ouro puro. Como recompensa, foi recrutado como informante pelas forças francesas de segurança”. O ouro e também uma carga de diamantes, agregam os documentos, provinha de fundos públicos húngaros que os governantes haviam movimentado para Áustria durante a guerra, como seguro se tivessem que sair fugindo de Budapeste (como de fato ocorreu), e que caíram nas mãos dos aliados após a derrota nazista. O informe assinala que, “apesar da promessa francesa de entrega-lo, isto não foi cumprido” e, pelo contrario, “o ajudaram ou lhe permitiram escapar para Itália”.
¿Quais eram as acusações contra ele? Segundo os arquivos desclassificados, Ferenc Vajta — que se apresentava publicamente como um perseguido pelo comunismo e atribuía aos russos e a seus aliados na Hungria uma suposta montagem contra ele — era conhecido em sua nação como uma especie de ‘campeão’ da causa hitleriana através de seus escritos periodísticos: “Seus artigos glorificavam os nazis. Em abril de 1943 fundou o jornal AZ Orszag, um panfleto semi-oficial do Ministério do Exterior húngaro que chamava o povo a unir-se ao lado alemão”.
Em 1944, o regime de Miklós Horthy, alinhado com a Alemanha, começou a debilitar-se e Hitler decidiu enviar suas tropas a Budapeste. E em setembro daquele ano, quando se descobriu que Horthy buscava um acordo secreto com os aliados ante a iminente derrota do Eixo, a ala radical nazi deu um golpe de Estado que pôs no comando a Ferenc Szálasi, de quem Vajta era muito aproximado. E não só seguiu publicando seu periódico, mas meses depois foi nomeado cônsul em Viena, a segunda capital do Terceiro Reich. A explicação do salto de jornalista a diplomático foi dada por  outra nota da CIA: “Em novembro de 1944, o avanço das tropas russas ameaçou engolir toda a Hungria. O governo de Szálasi estava pronto para fugir para Viena. Nesta situação, significativamente nomeou Vajta como primeiro cônsul húngaro na Áustria”. Ali se instalou em uma “suntuosa vila” apontada pelos alemães.
Sobre o que fez Vajta na Áustria há duas versões. A dele, segundo cartas enviadas desde Bogotá a altos funcionários dos EUA, pedindo ajuda para que revisassem seu caso, era esta: “Nunca fui nazi (...) Aceitei o consulado em Viena para atender o problema dos refugiados húngaros que saíram quando os russos cercaram Budapeste (...) Em abril de 1945, pouco antes do fim da guerra, contamos cerca de 400.000 refugiados. Trabalhei algumas vezes entre 14 e 16 horas ao dia e ainda assim não era suficiente para atende-los”. E argumentava: “No crescente caos (os aliados bombardeavam diariamente as linhas férreas austríacas) não era possível achar uma adequada solução para todos, mas fizemos o que pudemos. Se eu aceitei minha nomeação em Viena o fiz somente porque queria ajudar os húngaros a escapar”. Também assegurava que não só ele, senão todo seu país, havia estado do lado alemão durante a guerra, e que seu crime era assistir a seus compatriotas, sem importar qual era sua ideologia, quando fugiram “do paraíso comunista”. Quase as mesmas palavras com que foi apresentado um artigo seu sobre ‘Problemas europeus’, publicado na revista da Universidad Javeriana de Bogotá em 1950: “Vajta, um jovem diplomata húngaro residente atualmente na Colômbia e professor de vários centros de educação, desempenhou o consulado de sua pátria em Viena e desde esse cargo procurou auxiliar a numerosos compatriotas seus, vítimas da perseguição marxista”.

Segundo ato: a fuga
A CIA contava outra historia. Em 1949 seus agentes na Europa enviaram relatos como estes a Washington: “Em geral, a historia de Vajta é a de um húngaro fascista com conexões com os nazis antes e durante a Segunda Guerra Mundial.
Os arquivos revelam que foi reportado como agente do serviço secreto húngaro em Roma, Belgrado e Istambul e que seus serviços foram importantes para a Gestapo nesse tempo (...) É culpável de atrocidades de guerra como o envio, durante o regime de Szálasi, de 20.000 judeus húngaros que foram forçados a marchar de Budapeste a Viena. Durante essa marcha, mais de 6.000 pereceram”. E sobre o que lhe teria acontecido se não houvesse escapado com a ajuda dos franceses, o aviso secreto é contundente: “Teria sido, com toda probabilidade, imediatamente fuzilado se houvesse caído em mãos de soviéticos”.
Outro despacho assinala que os norte-americanos estavam prontos para envia-lo ao tribunal de Nüremberg ou ao do Povo da Hungria — que julgavam os criminosos de guerra — quando fugiu e apareceu protegido pelos franceses. Martin Himmler, do Exército dos Estados Unidos, testemunhou que Vajta havia enviado judeus húngaros para os campos de concentração na Áustria e que em seu poder foram achados bens esbulhados:No começo do cerco de Viena desapareceu com o tesouro (húngaro na Áustria) e outros bens valiosos como tapetes e objetos de arte, além dos valores de seu escritório. Quando foi preso pelos americanos, algumas das propriedades roubadas foram achadas em sua casa”. Ele, por seu lado, sempre acusou a Himmler de inventar as provas que o indiciavam.
Naquela época, recém finalizada a guerra, Colômbia não figurava para nada nos planos de Ferenc Vajta. Os documentos desclassificados da CIA o localizavam, após a fuga da Áustria, na Itália; ali foi recebido pelo círculo mais próximo ao papa Pio XII, cujo papel na guerra segue gerando polêmica porque muitos consideram que não fez o suficiente contra o genocídio. Seu sócio em Roma era um jesuíta também húngaro que, como ele, veio se acomodar em Bogotá poucos anos depois: Nyisztor Zoltan, então chefe de imprensa do Vaticano e também com fama de pró-nazi.
Na Itália, Vajta foi um dos promotores do Parlamento Húngaro no exílio e fundou um periódico, Salve Hungría, que atacava de frente o novo governo comunista de seu país. Ali foi preso pela segunda vez, acusado por crimes de guerra. 
Graças a seus contatos, assinala o arquivo da CIA, foi liberado pela segunda vez, mas o advertiram para que se fosse porque não poderiam protege-lo de novo. E lhe facilitaram tudo para viajar ao reduto fascista que restou na Europa após a guerra: a Espanha de Franco. Segundo se percebe, Vajta conhece muito das atividades da Inteligencia francesa na Áustria, mas parece irritado com eles porque não cumpriram as promessas que lhe fizeram. Também parece irritado com os britânicos porque não o defenderam (...) Vajta se ofereceu para trabalhar com os italianos se eles garantissem sua segurança pessoal, notificou a Agencia. Entre a queda de Viena, em 1945, e sua nova prisão, Vajta teve contatos com achegados ao herói da Resistência francesa, o general De Gaulle, pois Paris supostamente via nele uma figura chave para fazer contrapeso ao comunismo húngaro. Esses contatos, sem dúvida, cessaram com a mudança de governo na França, em 1946.
Na Espanha foram documentadas reuniões com funcionários do regime do ‘Generalíssimo’ e com o controvertido arcebispo de Toledo, Enrique Plá y Deniel, um dos líderes mais ultraconservadores da Igreja católica. Também contatou a embaixada dos Estados Unidos com a oferta de estabelecer em Madrid o ‘Centro Anticomunista da Europa Ocidental’. Os informes dizem que “aparentemente tinha uma grande soma de dinheiro a sua disposição, aparentemente originada no Vaticano”. Nessa época era um dos cabeças de um movimento chamado Intermarium, de extrema direita, que congregava varias forças anti-soviéticas.
Em dezembro de 1947, com visto yankee apesar de seus antecedentes e acompanhado por um vice-cônsul americano, voou de Madrid a Nova York. Sua ideia, dizem os documentos, era “contatar os exilados húngaros” para uni-los a seu movimento. Mas em janeiro de 1948 estourou o escândalo por seu ingresso em território americano; e ele foi preso e confinado na ilha Ellis. Como a Hungria comunista nunca respondeu para que fundamentassem as acusações de guerra contra Vajta, ao final, decidiram deporta-lo sob o motivo de ser considerado “prejudicial aos interesses dos Estados Unidos.

Terceiro ato: preso nos EE.UU.
Passou quase 26 meses detido. Então, é quando aparece pela primeira vez a Colômbia no mapa de Ferenc Vajta. ¿Como aconteceu isto? Nos anos 80, com milhares de documentos desclassificados pela primeira vez desde os anos 40, a imprensa norte-americana acusou o Vaticano de Pio XII de haver realizado uma enorme operação de movimento clandestino de fascistas e nazistas para a América Latina. As opções para o húngaro eram ser enviado a Itália (que se negou a recebe-lo) ou a seu país natal, onde o esperavam para julga-lo; mas ele alegou que sua vida estava em perigo. E, já com a expulsão decidida, surpreendeu ao pedir que o enviassem a Bogotá, uma cidade que nunca havia mencionado em seus escritos. Inclusive, informou que já tinha passagem da Avianca para 5 de fevereiro de 1950. 
Nunca se estabeleceu claramente como ele foi aceito pelo Governo colombiano, que seguía "ao pé da letra" as diretrizes de Washington em matéria de assuntos exteriores e certamente não teria recebido a ninguém de seu perfil sem um tranco americano. Vajta pode ter recebido ajuda de Pat McCarran, senador democrata de Nevada e um dos mais beligerantes anticomunistas do congresso dos Estados Unidos. McCarran, como muitos outros, acreditava que em plena Guerra Fria o inimigo era Moscou e que os antigos nazis podiam ser valiosos aliados. E é muito significativo que, na mesma época, monsenhor Nyistor Zoltan, seu contato no Vaticano, preparava as malas para vir ao país.
Após serem notificados de sua chegada, os oficiais da embaixada em Bogotá o apelidavam de “personagem indesejável” e avisaram a Washington que iam seguir sua pista, coisa que fizeram por anos. Os informes secretos não só chegaram à CIA mas também a J. Edgar Hoover, o quase eterno diretor do FBI.
Seus antecedentes não eram desconhecidos para o governo conservador da época. A embaixada reportou um Informe da Inteligencia colombiana que destacava o seguinte: Um documento da Polícia Nacional, Chefia de Segurança, datado de 27 de novembro de 1951 assinado pelo funcionário Manuel Antonio Orduz Duarte e dirigido ao dr. Pablo Jaramillo Arango, ministro encarregado da carteira de Governo, diz que o professor Vajta foi membro do serviço secreto francês em Innsbruck e finalmente do serviço secreto norte-americano na Colômbia”. E outro aviso, datado em Bogotá a 2 de março de 1950, resenha uma conversação entre Robert Newbegin, então conselheiro da Embaixada, e o dirigente liberal Álvaro García Herrera: “García disse que se subentende que essa pessoa (Vajta) está agora na Colômbia e que o Governo considera usá-lo em conexão com a polícia secreta (...) García expressou sua preocupação porque uma pessoa com o passado de Vajta possa influenciar em que os liberais sejam tratados de maneira brutal”. Preocupação que, por certo, nunca teve um piso real.

Quarto ato: um espião no país
O que se acredita é que Vajta seguiu, durante seus anos no país, com a ideia de sua cruzada anticomunista. A CIA revelou que ele e o monsenhor Zoltan acusaram ante a embaixada e ante o serviço secreto colombiano a outro professor húngaro, Jorge Kibedi, que havia chegado ao país em 1950 para trabalhar com a Universidade Javeriana e fez parte da Missão de Planejamento que modernizou Bogotá.
Em uma ficha sobre Kibedi que chegou a Washington, são mencionados todos seus dados (inclusive o endereço de sua casa no antigo bairro Sears de Bogotá) e as acusações que seus dois compatriotas fizeram indicando-o como suposto espião da União Soviética. Nessa época estava vigente uma norma que proibia “a atividade política do comunismo internacional” porque — destacava — “dita atividade atenta contra a tradição e as instituições cristãs e democráticas da República, e perturba a tranquilidade e o sossego públicos”. Ser comunista dava cadeia de 1 a 5 anos em uma colonia penal.
Em abril de 1951, a embaixada reportou a Washington quemonsenhor Zoltan afirmou que Kibedi levou a cabo uma missão de espionagem internacional para o governo comunista de Budapeste e que esteve sob vigilância da polícia secreta espanhola, que descobriu contatos com comunistas estrangeiros.
O mesmo documento diz que Vajta assegurava que Kibedi e seu irmão Irving, “que também está em um país de Sul-americano, eram agentes comunistas”: “Vajta está convencido de que Kibedi é um agente da Russia e que está levando a cabo uma missão de espionagem na Colômbia”. A foto de Kibedi que acompanha o relatório foi confirmada pelo próprio Vajta.
A mesma versão terminou em mãos do general do Exército Régulo Gaitán, um dos ‘duros’ da segurança colombiana da época. O Governo ordenou interceptar a correspondência de Kibedi e seguir todos seus movimentos e os de sua família. Finalmente optaram por deporta-lo do país sob a imputação de promover o comunismo.A expulsão de Kibedi foi resultado dos esforços de Ferenc Vajta”, diz outro comunicado dos EUA. Que acrescenta: “A vigilância ao correio de Kibedi pela Polícia indicou um sustancial volume de correspondência sobre temas sociais e laborais, mas as autoridades nunca encontraram uma prova concreta de conexões comunistas”.
A expulsão do professor da Javeriana, em 1952, foi um escândalo nacional que pôs parte da Igreja colombiana em choque com o Governo. Vajta, em uma conversação com a embaixada, se queixava de que os estilhaços de seu papel neste caso lhe haviam fechado varias portas:O sujeito ainda ensina ciências sociais na Universidade dos Andes, em Bogotá (...) Recentemente tentou complementar sua renda obtendo um cargo de professor na Universidade Nacional, mas não conseguiu. O motivo dado por Vajta é que líderes da Igreja católica o bloquearam por suas atividades contra Kibedi”. Este se instalou no Chile e se converteu em um dos dirigentes sindicais mais importantes do continente.
Nessa época, Vajta começou a escrever para a revista Semana, na seção Internacional, e era frequentemente consultado por seus conhecimentos da situação europeia. Ensinava, também, historia francesa em um colégio para moças, e seu radical discurso anticomunista começava a gerar muitos ruídos.

Doc 1: Bogotá, Abril de 1952
"O Quartel General foi avisado pelo Serviço de Imigração e Naturalização que Ferenc Vajta, que foi deportado dos Estados Unidos em 5 de fevereiro de 1950, é um sujeito indesejável devido a suas atividades relacionadas com os nazis durante a Segunda Guerra Mundial; deseja insistir para obter seu visto para os Estados Unidos. Com essa intenção escreveu ao senador McCarran afirmando que deseja voltar aos EUA para "continuar" sua luta contra os comunistas". Vajta pediu ao senador McCarran, que é presidente do Comitê Judicial, para que o Comitê o ajude a revisar seu caso de Imigração, aparentemente para obter reivindicação moral e para que o senador o ajude a ser readmitido (...) Em sua carta ao senador, Vajta caracteriza a Martin Himmler, que foi a principal testemunha dos Estados Unidos no processo de deportação, como "um húngaro nascido em  Hungria no Serviço Secreto e antigo comunista".


Doc 2: Hungria, 5 de dezembro de 1945
"Ferenc Vajtga é um jornalista húngaro e criminoso de guerra que escapou de uma prisão americana na Áustria. Esteve em Roma em novembro e viaja rumo a Paris. Seus amigos em Roma foram informados por ele mesmo de que discutirá seus planos para a restituição do antigo regime húngaro com o general De Gaulle. Vajta espera um papel principal no planejamento e execução dos planos franceses sobre Hungria(...)"


Doc 3:
Bogotá, 23 de junio de 1952 
"A expulsão de (Jorge) Kibedi (da Colômbia) é principalmente resultado dos esforços de Ferenc Vajta (...) As suspeitas também foram alimentadas por um importante jesuíta húngaro em Bogotá. A vigilância do correio de Kibedi pela Polícia encontrou um importante volume de correspondência sobre assuntos sociais e trabalhistas. As autoridades nunca obtiveram uma prova concreta de conexões comunistas (...)".


Doc 4: 
Bogotá, 23 de fevereiro de 1954 
"O sujeito regressou a Colômbia em janeiro de 1954 e está de novo ensinando na Universidade dos Andes e em uma escola. Assegura que não há nada que fazer, mas que fará o melhor na situação e esperará uma oportunidade mais favorável para regressar a França (...) Vajta crê que seu fracasso para obter o visto francês é consequência de que seu nome ainda aparece em uma lista negra elaborada imediatamente depois da guerra quando as influencias dos comunistas cresceram no governo francês (...)"

Doc 5: 
Bogotá, 18 de fevereiro de 1956 
"Em 17 de fevereiro de 1956, o Consulado notificou que o sujeito Ferenc Vajta está se esforçando por um visto (para os Estados Unidos). "(Nome omitido no documento) assegura que o sujeito é o mais anticomunista (...), muito inteligente, tem um amplo número de conexões no país e fala bem cinco idiomas. Ele pensa que o sujeito foi um húngaro pro-nazi e que provavelmente ainda guarda sentimentos pro-nazis".

Doc 6: 
Bogotá, 1950. 
Carta ao senador Pat McCarran
A carta:  "Eu deportei a mim mesmo" 
"Sou Ferenc Vajta, um antigo cônsul húngaro, que durante a última Guerra Mundial supostamente ajudou a Hitler a "assassinar milhões de pessoas indefesas" e que supostamente é o grande responsável pelo massacre de pilotos americanos na Hungria (...) Tenho 36 anos, não tenho uma nação, sou um jornalista de profissão e vivo na Sul-America (...) Cheguei livremente, em um voo, e no aeroporto havia alguns velhos e queridos amigos que me receberam. Exceto eles, ninguém sabe aqui quem sou e por que escolhi este país para 'reiniciar' minha vida. Estou vivendo em uma humilhação constante e rara vez tenho um momento no qual realmente não deseje esquecer tudo. Desperto cada dia com a decisão de, a partir desse momento, não recordar nunca mais meu passado, mas até as coisas de minha rotina tornam impossível que possa matar minhas recordações (...) Meus problemas, a humilhação na ilha Ellis, minha própria deportação de um país que amo (e o que é pior, que sigo amando com todo meu coração) nunca permitirão romper essas correntes invisíveis que me atam com incrível força. Antes de sair da cela 222 da Ilha Ellis, nunca imaginei, nem por um momento, que na verdade não existe liberdade para um homem cuja honra tenha sido arruinada (...) "Em abril de 1944, quando os alemães ocuparam a Hungria, eu era um simples editor de noticias que defendia os judeus e exigia um tratamento mais humanitário para eles, e ainda hoje, depois de tudo que passei, não me arrependo do que fiz, não lamento te-los defendido. É tudo o que tenho que dizer a esses que tratam de fazer propaganda de anti-semitismo com meu caso. Mas também é natural que eu lute e trate de lutar sempre para que me façam justiça. Do contrario nunca terei paz".

Quinto ato: o solitário mecenas do teatro
¿Quantos sabiam de sua historia na Universidade dos Andes? Não há nenhuma evidencia de que houvesse, por parte dos Estados Unidos, alguma entrega de informação nesse sentido. Nos documentos só aparece uma conversação de um funcionário da embaixada com Frans Von Hildebrand, um dos mais destacados professores daquela universidade e cuja família teve que fugir da Alemanha de Hitler em 1933 por sua pública oposição ao projeto totalitário.Hildebrand diz que não aprova as ideias políticas defendidas por Vajta no passado, mas diz que o sujeito parece estar por fora de atividades políticas na Colômbia tem certeza de que ele não tem recebimentos diferentes dos que recebe da universidade”, informa um relatório de 1953. O biólogo Martin von Hildebrand, filho do professor, descreve Vajta como “um homem de aparência triste e que dava a impressão de que sofria muito”. Era recebido na casa de seu pai como outros muitos professores dos Andes vindos da Europa, entre eles muitos judeus. “Às vezes, algumas pessoas perguntavam ao meu pai como podia tolerar a Vajta, tendo o passado que tinha. Ele dizia que não podia julgar uma pessoa por uma decisão de estar no lado equivocado que todo um povo havia adotado. Mas não creio que meu pai nem os outros conheceram em profundidade a sua historia”, disse o reconhecido antropólogo e diretor da Fundação Gaia.
O grande ator Kepa Amuchastegui, que estudou nos Andes nos 60, via Vajta indo tomar o chá na casa dos Von Hildebrand. “Era intelectualmente muito respeitado (...) Não tratei muito com ele porque era de outra geração, mas era uma figura reconhecida, mais porque estava muito vinculado ao mundo do teatro”, assinala. Também recorda que em voz baixa diziam que havia defendido ideias nazis, mas diz que sempre foi mais um rumor que um questionamento concreto.
Durante duas décadas, Ferenc Vajta seguiu tentando, sem êxito, conseguir um visto dos Estados Unidos para “reivindicar” sua historia. Em uma carta que titulou ‘Eu deportei a mim mesmo’, escrita em Bogotá, assegurava que “ainda se sentia prisioneiro” por ter que carregar uma fama de nazi que, segundo ele, foi invenção de seus inimigos comunistas e judeus: “Não há liberdade para um homem cuja honra tenha sido arruinada”, dizia. E em sua defesa escreveu que quando a Áustria foi ocupada pelos russos, ao final da guerra, ele foi “imediatamente trabalhar com a Inteligencia francesa para organizar um centro anticomunista”. Ele escreveu a congressistas republicanos e democratas e até pediu aos gringos que o contatassem durante uma viajem à Europa, no começo de 1954, para concretizar seu plano de criar uma comunidade de exilados contra Moscou. 
Se eu puder me colocar de acordo com os serviços (secretos) dos Estados Unidos e trabalhar com eles, somente eu serei responsável por minha vida. Como não sou um covarde, não estou interessado em meu futuro e não me importa se devo pagar com minha vida por minha futura missão”, escreveu à embaixada em Bogotá antes de viajar. A CIA recebeu cada carta sua, mas ninguém chegou a procura-lo.
Nos 90, o mesmo estigma caiu sobre Gerardo Reichel-Dolmatoff, o austríaco que foi o 'pai' da antropologia na Colômbia e herói da França na guerra de Resistência contra os alemães, quando se revelou que em sua juventude havia servido nas temíveis SS de Hitler.
Vajta terminou regressando a sua vida de professor na Colômbia apesar de outro relato, dizer que “estava totalmente entediado” no país, que “não tinha interesse em seu trabalho atual” e estava desesperado por voltar à Europa. 
Em 1956, por pouco tempo, foi nomeado correspondente da revista Time. E a mesma Embaixada advertiu o Departamento de Estado para contatar os editores nos EUA e os advertir sobre seu perfil. O episódio durou um mês e, em abril do mesmo ano, o diário Intermedio (a versão de El Tiempo durante a ditadura de Rojas Pinilla) informou que “o professor Ferenc Vajta renunciou a seu cargo como correspondente”, pois “devido a suas atividades universitárias não podia dedicar suficiente tempo à revista”. A embaixada havia sido informada dias antes de que em Time tomaram nota “do histórico do sujeito” e que “estavam dispostos a fazer uma mudança em vista da informação” que haviam recebido.
A partir desse momento — ainda que até o final de seus dias insistiu em pedir visto aos Estados Unidos, que foi negado todas as vezes —, o professor Vajta pareceu dedicar todos seus esforços em promover a cultura colombiana, especialmente os nascentes projetos de teatro moderno. Em 1957, com recursos que ele mesmo obteve entre a comunidade diplomática acreditada no país, foi um dos organizadores do Festival Nacional que ocorreu ano após ano até 1963 no Teatro Colón, ao lado de figuras como Gloria Zea, Ramón de Zubiría e o maestro Bernardo Romero Lozano. Desse experimento cultural começaram a surgir grandes figuras como Enrique Buenaventura, Carlos José Reyes e Santiago García, entre outros. Também foi muito próximo ao grande poeta Eduardo Carranza e, apesar do anticomunismo que corria em suas veias, apareceu, em 1960, acompanhando Orlando Fals Borda e ao padre Camilo Torres na criação da famosa faculdade de Sociologia da Universidade Nacional.
O maestro Reyes, que o conheceu no começo daquela década, recorda de Vajta promovendo ativamente a discussão sobre os temas que se tratavam nas obras de teatro do Festival: Conhecia muito bem o teatro europeu e apoiou projetos de escolas colombianas que estavam iniciando. Chegou até a sustentar várias apresentações com recursos próprios, ou os que obtinha com seus contatos nas embaixadas. Reyes também ouviu os rumores sobre o passado do professor da los Andes, mas garante que nunca o escutou defender ideias extremistas e que jamais censurou alguma obra, por mais ‘tirada’ à esquerda que fosse. “Sempre era visto com ar doutoral, muito acadêmico, mas muito respeitoso”, diz. Por essa época, inclusive, aparecia na Radio Nacional, com seu espanhol marcado pelo forte acento centro-europeu, comentando as adaptações teatrais em companhia de famosos como Gloria Valencia de Castaño. 
Ainda que tenha chegado com sua esposa e um filho ao país, Ferenc Vajta morreu só no final dos anos 60. Seu corpo foi encontrado vários dias depois, segundo relatos da época. Foi um epílogo dramático para um ator de primeira linha na Segunda Guerra Mundial que terminou sua existência em um país, Colômbia, em que nunca pensou viver mas ao qual dedicou as últimas duas décadas de sua existência. E até o final, em segredo, tratou de mudar o bordão que o perseguiu até depois de sua morte: “o único nazista a ser deportado dos Estados Unidos”, comentou o ex-promotor norte-americano Allan A. Ryan, que investigou e perseguiu nazis que emigraram para aquele país e escreveu vários livros sobre os criminosos de guerra que conseguiram uma segunda oportunidade sobre a terra ao fugir para a América.

CRÉDITOS:
— Diretor do Especial: Jhon Torres, Editor de Mesa Central 
— Desenho Digital: Sandra Rojas
— Diagramação: Carlos Alberto Bustos
— Editor de Multimídias Especiais: José Alberto Mojica
Fonte: tradução livre de  El Tiempo