quarta-feira, 15 de outubro de 2008

A Pobreza Imposta

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por Márcio Accioly
O grande escritor francês, Victor Hugo (1802-85), dizia que “a paixão move os homens”. E como tudo na existência está correlacionado, não causa surpresa o fato de a maioria dos acontecimentos desaguar em paixão. A sociedade humana é dominada por enlouquecida cobiça, em nível de insensibilidade que nos conduz à autodestruição.
Sistemas econômicos são armadilhas que terminam causando, em efeito bumerangue e episódicos, graves danos aos chamados países ricos encarregados de sua armação. São percalços da apaixonada busca pela riqueza, acumulando recursos naturais arrancados dos classificados como emergentes. Mas pagamos a conta inteira, sempre.
A miséria presenciada hoje no mundo obedece a programação bem elaborada, onde refinados estratagemas consolidam forma de atuação da qual é quase impossível escapar. Veja-se o caso do Brasil, País abundante em recursos minerais, condenado paradoxalmente à inanição por conta de sua riqueza.
O Brasil é “dirigido” de fora para dentro, através de meios de comunicação que elegeram a pornografia e a galhofa como bases de ideologia capenga, formando gerações inteiras de idiotas. Nossa cultura é oral, com aversão aos livros e à pesquisa.
Mesmo assim, discute-se tudo, principalmente economia, com a maioria a repetir entre um jogo de futebol e outro aquilo que a televisão bombardeia de forma incessante, numa defesa incompreensível do que nos torna dependentes e miseráveis. Somos ricos pobres, e mais pobres ainda na compreensão de nossa desgraça.
Os governos entreguistas que se sucedem são cada vez mais corruptos e alienantes. A tolerância com a corrupção, na moldagem de sociedade que apodrece a olhos vistos, obedece a controle estrangeiro que centraliza em tal ocorrência o caráter dissimulado de seus objetivos. É necessário ter alguma coisa com que se indignar.
Já que não se entendem as razões do nosso infortúnio, pois a grande imprensa mistifica a abordagem, alarga-se a corrupção e se elege aqui e ali um bode expiatório. Retira-se de foco o fato principal. É a maneira encontrada de conceder à população alguma coisa palpável, assunto concreto para a sua discussão.
E assim foram carregadas para os EUA, no governo do marechal Eurico Gaspar Dutra (1946-51), quarenta milhões de toneladas de manganês do estado do Amapá. O restante dos minérios continuou a ser entregue com o beneplácito dos integrantes dos Três Poderes, agora, por exemplo, na criação de reservas indígenas em Roraima.
No Congresso Nacional, sem exceção, não há quem consiga liderar ou promover iniciativa que ponha fim a tanto descalabro. Temos os parlamentares mais caros do mundo, semi-alfabetizados, a maioria inteiramente despreparada e envolvida em discussões periféricas quando não em escândalos escabrosos.
Nas ruas, pari e passu com a carência crescente, grupos de extermínio ampliam de maneira assustadora o próprio poder, em organizações paramilitares e de criminosos comuns, elevando às dezenas de milhares o registro de homicídios anuais. Sem contar que teremos em médio espaço de tempo explosão incontrolável no sistema carcerário.
O fluxo da existência é assim: a transformação é permanente, as coisas se alternam a todo instante e o mundo em que vivemos é um mundo de morte e ao mesmo tempo de vida.
O problema é que o Brasil está entrando em fase de profunda decadência sem jamais ter conhecido ou alcançado o apogeu.
Escolhemos o caminho do sofrimento, o dos roubados que reagem na galhofaria, enquanto as ruas se tornam perigosas com a criminalidade. Somos induzidos a não levar nada a sério, eis a causa de nossa miséria.
Márcio Accioly é Jornalista.

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