quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Inovação da Kirchner

por Janer Cristaldo
A imprensa brasileira está escandalizada com notícia vinda da Argentina. Segundo Ariel Palácios, correspondente do Estadão no país, o governo da presidente Cristina Kirchner determinou por decreto que o Estado argentino comandará uma revisão oficial da História do país. Para isso, criou o Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Ibero-Americano Manuel Dorrego, que dependerá da Secretaria Federal de Cultura e funcionará com fundos públicos.
A entidade que reescreverá a História argentina será comandada pelo historiador Mario Pacho O’Donnel, declarado admirador dos caudilhos argentinos. Ela também será integrada por ministros do gabinete presidencial, jornalistas alinhados ao governo e líderes políticos.
O decreto determina que o objetivo do instituto será o de “estudar, investigar e difundir a vida e obra de personalidades e circunstâncias destacadas” da História argentina “que não tenham recebido o reconhecimento adequado no âmbito institucional”. No decreto, a presidente Cristina condena a História “escrita pelos vencedores das guerras civis do século 19″.
Grande novidade! Os vencedores sempre reescreveram a história. Stalin reescreveu a história da Rússia, Mao a da China. Mortos e denunciados por suas matanças – sempre da ordem de milhões – tanto Mao como Stalin têm hoje suas versões revisadas. Tiranos e assassinos, foram vistos por décadas como heróis e condutores de povos. Cultuados no século passado, hoje estão voltando à condição de tiranos e assassinos. Hitler perdeu a guerra? Caiu logo na vala dos vilões. Se a tivesse ganho, vilões seriam Churchill e Roosevelt. Nem Stalin teria feito carreira como genocida. E o mundo todo estaria falando alemão em vez de inglês.
Mas se antes as revisões históricas eram feitas em séculos, hoje os ocupantes do poder estão acelerando o ritmo e as fazem em décadas. Vide este país nosso. Não se passaram cinqüenta anos, e as esquerdas brasileiras reescreveram a história do Brasil. Os militares que, em 64, salvaram o país de tornar-se uma republiqueta soviética, são vistos hoje como bandidos.
Desde há muito vem se reescrevendo a história do Brasil. Começou com Ruy Barbosa, destruindo documentos relativos à escravidão. De lá para cá, a história vem sendo revista ano a ano. Lampião, um bandoleiro vulgar, foi promovido a herói. Zumbi, dono de escravos, foi promovido a defensor dos escravos.
A reescritura da história se acelera, dizia. Franco, que salvou a Espanha das investidas de Stalin, morreu em 75. Em julho passado, o El País dedicou vários ensaios relembrando a Guerra Civil Espanhola. Franco, um dos deflagradores do levante – que tomaria as rédeas do país pelos 39 anos seguintes – é visto como vilão. Desde alguns anos, há um movimento de “desfranquização” da Espanha, no sentido de retirar todos os nomes de rua ou monumentos em sua memória, como também os nomes de seus generais.
Quanto aos comunistas que, sob o comando de Stalin, queriam tomar o poder na Espanha, são vistos como os promotores de “una revolución movida en las primeras semanas por el propósito de liquidar físicamente al enemigo de clase, comprendiendo en esta denominación al ejército, la iglesia, los terratenientes, los propietarios, las derechas o el fascismo; una revolución que soñaba edificar un mundo nuevo sobre las humeantes cenizas del antiguo”.
Por mundo nuevo, entenda-se o regime comunista russo, que fez apenas 20 milhões de cadáveres. Franco matou? Matou. Não há guerra sem mortes. Mas matou para defender a Espanha, vítima de uma brutal invasão soviética. Em 1937, a União Soviética já havia colocado na Espanha pilotos de guerra, técnicos militares, marinheiros, intérpretes e policiais. A primeira presença estrangeira em terras de Espanha foi a soviética, com o envio de material bélico e pessoal militar altamente qualificado, em troca de três quartas partes (7.800 caixas, de 65 quilos cada uma) das reservas de ouro disponíveis pelo Banco de España. Pagos adiantadamente.
Em 1936, Juan Negrín, ministro da Fazenda do governo Largo Caballero – conhecido também como o Lênin espanhol -, raspou os cofres do país em troca de aviões, carros de combates, canhões, morteiros e metralhadoras russas. Ao celebrar com um banquete no Kremlin a chegada das 7.800 caixas de ouro, Stalin, evocando um ditado russo, comemorou: "Os espanhóis não voltarão a ver seu ouro, da mesma forma que ninguém consegue ver suas orelhas".
Isto El País não contou. Seus redatores, a seu modo, estão reescrevendo a história.
O mesmo aconteceu cá entre nós. Há mais de década, eu dizia que os militares brasileiros costumavam gabar-se de ter vencido o confronto que culminou com a chamada Revolução de 64. Graças à ação das Forças Armadas, teriam sido derrotados os comunistas e compagnons de route que tentavam transformar o país em uma Cuba meridional. Três décadas depois, cabe a pergunta: foram?
Os celerados que, a mando do comunismo internacional, queriam instalar uma ditadura em Pindorama, são hoje vistos como heróis e gozam de pensões milionárias. No ensino oficial, hoje - e mesmo na imprensa – os militares são os vilões e os comunistas são os heróis. Em agosto passado, foi reeditado no Brasil o livro Vida de Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança – ode de Jorge Amado ao mais estúpido dos gaúchos, publicada originalmente em 1945.
Ainda há pouco eu falava das biografias mentirosas, que pretendem transformar criminosos em heróis. É o caso da cineasta gaúcha Flávia de Castro, que fez um filme – Diário de uma busca – transformando seu pai idiota em mártir. Comentei também o documentário Marighella, de Isa Grinspum Ferraz, cuja estréia estava prevista para outubro passado, que faz de um terrorista um santo. Este gênero literário é antigo e, no Brasil, Amado terá sido um de seus precursores.
Se isto não é reescrever a História, que será reescrever a História? Mas o Brasil nunca teve uma instituição oficial encarregada deste ofício. A inovação da Kirchner foi criar um instituto para isto, pago com o dinheiro do contribuinte.

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