domingo, 2 de outubro de 2011

As fotos explicam por si

Em 31 de outubro de 2007, uma menina com 15 anos, 1m50 de altura e 38 quilos foi presa por tentativa de furto numa casa de Abaetetuba, cidade paraense a quase 100 quilômetros de Belém. Durante o interrogatório, declarou a idade à delegada de plantão Flávia Verônica Monteiro Teixeira. Por achar o detalhe irrelevante, a doutora determinou que fosse trancafiada na única cela do lugar, ocupada por homens. Já naquela noite, e pelas 25 seguintes, o bando de machos se serviu da única fêmea disponível.
Depois de 10 dias de cativeiro, a garota foi levada à sala da juíza Clarice de Andrade. Também informada de que a prisioneira tinha 15 anos, a segunda doutora da história resolveu devolvê-la à cela. A descoberta do monumento ao absurdo não reduziu a força do corporativismo criminoso: por decisão do Tribunal de Justiça do Pará, ficou estabelecido que o comportamento da juíza Clarice não merecia qualquer reparo. Meses mais tarde, a magistrada foi punida com a aposentadoria compulsória pelo Conselho Nacional de Justiça.
A Secretaria de Políticas para as Mulheres, uma inutilidade inventada pelo governo Lula, não deu um pio sobre o caso.
O pesadelo ocorrido em 2007 foi reprisado há três semanas na colônia penal agrícola Heleno Fragoso, que abriga 320 condenados em Santa Isabel do Pará, a 70 quilômetros de Belém. Desta vez, de novo com a conivência de funcionários da instituição, uma brasileira de 14 anos ficou quatro dias em poder de cinco presos. “Eu e outras duas meninas que ficaram lá também”, informou a garota em 19 de setembro. “Lá dentro eles obrigaram a gente a usar droga e a beber. Eles esqueceram a porta aberta, porque lá eles deixam a porta trancada. Foi quando consegui fugir”.
A Secretaria de Políticas para as Mulheres, uma inutilidade mantida por Dilma Rousseff, não deu um pio sobre o caso.
Não se sabe qual é a posição que meninas violentadas em cadeias ocupam no ranking de prioridades de Iriny Lopes, ministra-chefe da secretaria.
O que o país acaba de descobrir é que a lista é encabeçada pelas peças publicitárias da Hope Lingeries protagonizadas por Gisele Bündchen. Lançada no dia 20, a campanha mostra qual é a melhor maneira de transmitir más notícias ao marido. No vídeo abaixo, por exemplo, Gisele primeiro conta que bateu o carro usando trajes pouco sedutores. Esse é o método errado. Em seguida, ela repete a notícia semivestida com uma lingerie da Hope. É muito mais sensual. E é esse o jeito certo. “Você é brasileira, use seu charme”, ouve-se dizer uma voz masculina. Confira:
No terceiro dia da campanha, movida por “diversas manifestações de indignação contra a peça”, Iriny contra-atacou com dois ofícios. Num, comunicou ao empresário Sylvio Korytowski, diretor da Hope, seu “repúdio” ao desempenho da top model. Noutro, pediu ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, o Conar, que o comercial fosse suspenso. Como a subserviência e a pressa andam de mãos dadas, já nesta quinta-feira o Conar abriu processo contra Gisele de calcinha e sutiã. Atendeu a queixas formuladas por 15 espectadores. Isso mesmo: quinze.
Quinze mais Iriny:A propaganda promove o reforço do estereótipo equivocado da mulher como objeto sexual de seu marido e ignora os grande avanços que temos alcançado para desconstruir práticas e pensamentos sexistas”, declama a ministra. “Também reforça a discriminação contra a mulher, o que infringe a Constituição Federal”. Os avanços passam ao largo de cadeias em delegacias e presídios no campo. E o governo só consegue enxergar discriminação num comercial de alguns segundos na TV.
A exemplo dos colegas de primeiro escalão, Iriny não assina sequer um cartão de Natal sem a autorização de Dilma Rousseff. (Embora não consiga lidar com mais de um assunto por vez, o neurônio solitário faz questão de ser consultado até sobre o cardápio das recepções no Itamaraty). É claro que a ofensiva de Iriny foi combinada com quem, depois de se tornar a primeira mulher a abrir uma assembleia da ONU, virou doutora em questões femininas.
O Brasil anda infestado por tumores que crescem sob o olhar complacente do governo. Exploradores da prostituição infantil, pedófilos impunes, pais que violentam filhos e outras obscenidades vão transformando o país num viveiro de crianças traídas. Com tantas meninas estupradas por aí, Iriny cismou com Gisele Bundchen. Eis um caso que foto explica.
COMENTO:  Num país, onde a televisão e as salas de cinema, revistas, jornais, mídia em geral, estão cheios de publicidade de cervejas, onde aparecem 'gostosas' aos montes, (Juliana Paes que o diga) ninguém se manifestou contra. Porque será agora, essa hipocrisia num comercial até bem humorado, onde Gisele aparece? Será por ser ela. Ou é a dor de cotovelo e o despeito que movem as línguas ferinas, que estão sempre prontas a protestar, quando aparece uma brechinha, uma pequenina chance para isso que seja? (na realidade o comentário me foi repassado pelo "web-colega"  S. MASSA)
ATUALIZANDO: 
Hoje o Julio Ribeiro escreve:

Gisele pode encerar chão e lavar louça
Algumas coisas no Brasil são muito difíceis de entender. Outras beiram ao ridículo, como essa iniciativa da Secretaria de Políticas para Mulheres, do governo federal, de pedir ao CONAR a suspensão de comerciais da Hope, estrelados pela modelo Gisele Bündchen.
É ridículo, porque a propaganda brasileira está cheia de comerciais semelhantes, que brincam com as diferenças entre homens e mulheres, que usam a “guerra de sexos” como mote ou que simplesmente usam homens e mulheres em papéis “desvantajosos” e nunca se viu uma mobilização oficial semelhante.
A própria Gisele faz o papel de uma dedicada dona de casa num comercial da Sky e não se ouviu nada a respeito. Quer dizer, lavar louça, encerar a casa pode, o que não pode é a mulher usar a sua sensualidade para agradar ao marido?!!
Outra, marido pode fazer papel de babaca, de corno e idiota, como em vários comerciais dos quais já comentamos nesse espaço? Aí não é sexismo?
Ora, por favor, que a Ministra Iriny Lopes vá gastar seu tempo e a estrutura de sua Secretaria em coisas mais úteis. Não precisa tutelar o telespectador. Ele já descobriu o controle remoto!

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