segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Até Onde Vai a Disciplina e a Hierarquia?


O Chefe do Estado Maior Conjunto (JCS da sigla em inglês), o General dos Fuzileiros (Marines) Joseph Dunford fez o que nenhum presidente do JCS jamais fez antes! Sem surpresa, foi preciso um General Marine para enfrentar o presidente Barack Obama, na esteira de mais uma de suas duvidosas decisões de Segurança Nacional.
A mesma equipe insensata de negociação Obama/Kerry que firmou um acordo com o Irã minando a nossa segurança nacional, recentemente tentou fazer um acordo com a Rússia tão questionável como aquele. Este obrigava a participação do Pentágono, em um acordo de compartilhamento de Inteligência com o Comando Central da Rússia na Síria - constituído mediante um cessar-fogo abrindo o caminho para as negociações de paz em Genebra, Suíça.
Mas, ao contrário do acordo nuclear do Irã, onde o Chefe do JCS nada fez, o atual, general Dunford, expressou publicamente a sua objeção.
Testemunhando perante a Comissão de Serviços Armados do Senado em 22 de setembro, Dunford deixou claro que os militares se recusam a executar o que foi o elemento central da nova política Síria de Obama, ou seja, a partilha de informações com a Rússia, apesar da ordem do presidente de que isso fosse feito.
Chamando-a de uma má idéia, Dunford disse: "O papel militar dos EUA não incluirá o intercâmbio de informação com os russos." Sentado ao lado de Dunford durante o depoimento estava seu chefe civil, o secretário de Defesa Ash Carter, que não levantou qualquer objeção.
A implicação de seu testemunho era óbvia – o acordo do presidente com a Rússia estava minando a segurança nacional dos EUA. Dunford, tendo se libertado do redemoinho de Obama, não estava disposto a aceitar isso.
Durante seus oito anos no cargo, Obama demonstrou uma incrível capacidade de pôr em perigo os interesses de segurança nacional dos EUA sem nunca ter sido desafiado pelos responsáveis ​​em executá-la.
O Congresso abandonou completamente a sua responsabilidade a este respeito, mais notavelmente ao permitir que Obama driblasse o Senado para colocar um acordo nuclear com o Irã em vigor. O acordo – sendo juridicamente um tratado, carece de aprovação de dois terços do Senado – foi apresentado como um não-tratado, ou seja, uma ordem executiva, pois Obama sabia que não poderia conseguir essa aprovação.
O acordo com o Irã, depois de, tanto o candidato presidencial Obama como o presidente Obama, ter prometido mais de duas dezenas de vezes não fazê-lo, abriu o caminho para Teeran obter armas nucleares – legalmente em dez anos, antes, se feito de forma ilegal.
Sem o conhecimento do Congresso, o acordo também incluiu acordos laterais – um dos quais permitia que Teeran realizasse os seus próprios controles sem sequer o principal negociador, secretário de Estado John Kerry, saber os detalhes. Também resultou no levantamento das sanções contra o Iran e a transferência de bilhões de dólares, com algumas transferências em dinheiro que foram escondidas do Congresso.
Os votos do Senado daqueles que conhecendo os detalhes do acordo nuclear com o Irã ou, apesar da obrigação de conhecê-los, deixaram de aprendê-los, em última instância possibilitaram que Obama subvertesse a Constituição dos Estados Unidos e aprovasse um tratado com menos do que a maioria obrigatória de dois terços.
O acordo, que Obama promoveu como abertura de uma porta para melhorar as relações entre os EUA e o Irã, resultou naquela porta sendo fechada na cara dos norte americanos. Uma vez que o Senado aprovou o acordo, o número de confrontos navais com o Irã dobrou, com Teeran, agora, chegando a ameaçar abater os aviões espiões dos EUA que operam no espaço aéreo internacional.
Mas não foi só o Senado que falhou com o povo americano em assegurar que fosse dada prioridade aos interesses de segurança nacional dos EUA, liquidando o acordo nuclear com o Irã.
Os Fundadores dos EUA impuseram limitações aos militares dentro da Constituição para garantir que eles sempre se mantivessem subordinados à autoridade civil. Por mais de dois séculos, a Constituição tem trabalhado de forma eficaz para garantir isso.
Assim, no ano passado, quando o JCS revisou os termos de um acordo nuclear do Irã negociado pela autoridade civil, o presidente do JCS, General de Exército Martin Dempsey teve pleno conhecimento de seus termos e dos acordos laterais secretos, cabia a ele agir de acordo com os interesses da segurança nacional norte americana, conforme permitido dentro da Constituição.
De nenhuma maneira um líder militar responsável poderia ter endossado este acordo, sabendo que os acordos secretos laterais abriam o caminho para um Irã com armas nucleares. Dempsey tinha a obrigação de advertir Obama sobre isso. E, caso Obama ignorasse seu conselho, Dempsey deveria ser forçado pela ética a pedir sua demissão. Isso teria transmitido a mensagem de que o Senado deveria rejeitar o acordo também. Dempsey deixou de fazê-lo, permitindo que o Senado aprovasse um tratado injusto.
Tornou-se claro, quando Obama conseguiu colocar Kerry e outros no governo, bem como no serviço militar, para apoiar as suas iniciativas questionáveis ​​de segurança nacional, que ele tem uma habilidade fascinante para atrair outros à sua rede de pensamento perigoso para a segurança nacional.
Claramente, Obama criou um vórtice em Washington girando em sentido contrário aos interesses da segurança nacional dos EUA. Este redemoinho provou ser capaz de sugar para dentro dele aqueles no governo responsáveis por garantir que ações questionáveis ​​de segurança nacional do presidente não passassem em branco.
Mas a esperança pode agora estar no horizonte devido à posição de princípio de Dunford.
É inconcebível aceitar que o presidente procure compartilhar inteligência com a Rússia por duas razões.
Em primeiro lugar, como um aliado do Irã, Moscou, obviamente, compartilharia o que soubesse com Teeran, comprometendo os futuros esforços de cobrança dos EUA.
Em segundo lugar, Dunford, durante suas audiências de confirmação de Julho de 2015, havia alertado o Congresso que a Rússia representava "uma ameaça existencial para os Estados Unidos... se você olhar para o seu comportamento, é no mínimo alarmante."
Quatorze meses depois, a avaliação da Dunford não tinha mudado, testemunhando "uma combinação de seu comportamento, bem como da sua capacidade militar me fariam acreditar que eles representam o maior desafio, potencialmente, a ameaça mais significativa, para os nossos interesses nacionais."
Felizmente para os norte americanos, mas infelizmente para os sírios, o cessar-fogo falhou depois de 300 violações, negando, pelo menos em curto prazo, o esquema de partilha de inteligência de Obama com a Rússia e, assim, poupando de qualquer outro comprometimento a segurança nacional dos EUA.
É desconfortável saber que Obama ainda tem quatro meses restantes de mandato. É reconfortante saber, no entanto, que o general Dunford, tendo sucesso em se libertar do vortex de Obama, estará lá para desafiar qualquer outra decisão presidencial duvidosa tentando minar a segurança norte americana.
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O autor do texto, Tenente-Coronel James G. Zumwalt, USMC (Reformado), Editor colaborador do Family Security Matters (“Questões de Segurança da Família”), é oficial de Infantaria da Marinha reformado, serviu na Guerra do Vietnam, na invasão do Panamá e na primeira guerra do Golfo. Ele é o autor de "Bare Feet, Iron Will Stories the Other Side of Vietnams Battlefields" (Pés Descalços, Vontade de Ferro - Histórias do outro lado dos campos de batalha do Vietnam, em tradução livre) e freqüentemente escreve sobre questões de defesa e política externa.
Tradução: William Uchoa
Publicado em Papéis Avulsos
COMENTO: a relação entre o Presidente dos EUA e seus Generais nem sempre é marcada pela cordialidade. 
É conhecido o dialogo que ele manteve com o General Stanley McChrystal por ocasião da exoneração deste último do Comando das tropas yankees no Afeganistão. Repriso o que foi difundido à época.
Quando McChrystal foi chamado ao Salão Oval por Barack Obama, já sabia que as coisas não estavam indo bem, mas estava preparado e quando o presidente o repreendeu por não apoiá-lo em seu papel político como Presidente, respondeu-lhe: "Sr. Presidente, não é o meu trabalho apoiá-lo como político, é o meu dever apoiá-lo como Comandante-em-chefe", e entregou a sua renúncia a Obama. 
Não satisfeito com o pedido de renúncia de McChrystal, o presidente ainda quis fazer uma graça na despedida dele dizendo: "Aposto que quando eu morrer, você vai ficar muito feliz em mijar na minha sepultura." 
O general fez uma continência e disse: "Sr. Presidente, eu sempre disse a mim mesmo que depois de deixar o Exército, nunca mais vou entrar em filas."
Esses incidentes nos mostram que os Comandantes Militares norte americanos aceitam ser comandados por um civil, desde que esse não extrapole sua autoridade colocando o país em risco. No Brasil, tivemos alguns casos em que Oficiais Generais expuseram, com a franqueza peculiar dos que labutam na caserna, seus pontos de vista divergentes de autoridades civis. Os políticos não gostam de enfrentar essa verdade: cargos políticos são temporários, cargos militares são vitalícios. A profissão Militar é a única que exige o juramento de defender a Pátria com o sacrifício da própria vida. Pode parecer demagogia, mas é a verdade. Não há cidadão mais preocupado com os destinos da Nação do que um militar dedicado.
Para finalizar, lembro duas frases marcantes na História do Brasil, formuladas no início do século passado. A primeira do General Bertholdo Klinger (1884-1969), que referindo-se a importância do cargo de chefe do Executivo diz: “O posto supremo do País é problema de Estado-Maior.”
A outra frase é do também General, Pedro Aurélio de Góis Monteiro (1889-1956), em seu livro A Revolução de 30 e a Finalidade Política do Exército: (...) sendo o Exército um instrumento essencialmente político, a consciência coletiva deve-se criar no sentido de se fazer a política do Exército e não a política no Exército. A política do Exército é a preparação para a guerra e esta preparação interessa e envolve todas as manifestações e atividades da vida nacional, no campo material — no que se refere à economia, à produção e aos recursos de toda a natureza (...).

3 comentários:

Anônimo disse...

É muito bonitinho essa pregação da indiciplina de um Of Gen em relação ao presidente. Só queria ver se estes mesmos of gen aceitariam isso de um Cel ou Maj.

Ou se um Sgt usar este exemplo para desobedecer a ordem de um Cap; ou um Sd fizer a mesma coisa com o Ten.

Se o Irã é ou não é uma ameaça aos EUA quem decide é o Presidente. Esta é uma decisão política.

Quanto à Rússia o que será melhor? Cooperação com ela ou o risco de iniciar a III GM?

G.M. Ferraz disse...

Ao Anônimo.
Primeiramente, grato por sua deferência em ler o blog.
Em segundo lugar, longe de mim pregar indisciplina. Como escrevi no comentário ao texto, cargos políticos são temporários, mesmo quando seu detentor consegue se "profissionalizar". Os militares, bons ou maus profissionais, dedicam suas vidas à Pátria. Os que efetivamente fazem jus ao adjetivo de bons militares vivem em constante preocupação e estudos sobre os destinos de seu País. Isto lhes dá embasamento para saber as melhores escolhas. Fazer ou desfazer acordos e amizades em âmbito internacional é uma decisão política. Colocar em risco a segurança nacional é uma temeridade que "o povo em armas" não podem permitir passivamente.
No caso do texto, compartilhar informações pode ser um bom negócio, mas sem que TUDO seja exposto. No caso do diálogo Obama-McCrystal, se realmente ocorreu, foi uma resposta inteligente a uma provocação desnecessária. Afinal, o General discordou do Presidente e "pediu para sair", não ocorrendo indisciplina, somente a recusa em fazer algo que sua responsabilidade condenava.
Acredito que recusar-se a fazer algo que sua consciência entende ser errado é um direito de qualquer um, militar ou não. Em meus 37 anos de serviço, mais de uma vez me aconteceu isso. Sem indisciplina nem arrogância, dentro dos parâmetros da boa educação, lealdade e camaradagem, consegui convencer meus Chefes que estavam equivocados e chegamos a boas soluções. Acredito piamente nisso. Auxiliar é nem sempre concordar!

Rindo dos analfabetos políticos disse...

Os militares americanos representam a industria de guerra, que gera lucros estratosfericos! Somente um inocente acha que eles querem parar ou diminuir as atividades bélicas. O presidente dos eua é apenas um boneco, que externa o que lhe é determinado pelos verdadeiros donos do poder.