terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sobre a Rádio Guaíba de Porto Alegre


O fim do "estilo guaíba", como anuncias e é verdade, pode ter sua abordagem de antropologia: uma programação de décadas, que o Alberto Pasqualini lançou no Teatro São Pedro em 57, anunciando que “seria singela, jamais vulgar”, músicas selecionadas com rigor estético (quando o interminável Fernando Veronesi ainda tinha pique, mais Osmar Meletti e outros...), repórteres de primeiro nível, redação apurada, estrito senso de fidelidade nos noticiários, locução exigente padrão José Fontella (onde anda, por sinal?), Milton Jung e os insuperáveis Egon Bueno / Leonor de Souza... publicidade lida a caráter, ao vivo, etc etc etc.
Todo este apuro de primeiro mundo agora substituído pelo que aí está no rádio e tevê em geral, esta geléia geral de baixaria, bas fond, gritos, jingles, polícia-ladrão, faca, bala & sangue.
Antropologia por que? Porque pode ser um índice de quanto caiu o nível educacional, econômico etc e tal, do povo gaúcho.
Sim, porque, se faturamento é o que importa, e tudo justifica, lembro que, nos idos de 70, a velha Guaíba era uma das cinco rádios com maior faturamento no Brasil, e seu dono, Breno Caldas, era o maior IR pessoa física do Brasil!!!... E pagava bem!!!! E com aquela programação supimpa, de escol, de BBC, da velha bandeirantes (“cada dia melhor que antes”) de São Paulo, da PR1-Radio El Mundo de Buenos Aires (ou Montevideo?...), Voz da América, Deutshe Welle e quetais!
Então, velho, se agora tem de baixar o nível para faturar, é porque o povo quer merda, mesmo! O povo baixou de nível! E isto é provado por outros índices! Ai, Rio Grande, cada vez mais piauizado mesmo, como se previa 30 anos atrás – e hoje, o respeitável Piauí é quem teme virar um RS!!!
Abraço, amigo, eu lamento, acho que muita gente lamenta (principalmente quem já deu o prefixo e saiu do ar, neste éter ou no de cima: Capitão, Florianão, Osmar Meletti, Flávio Alcaraz Gomes, James Bocacio, Amir Domingues, Lauro Quadros, Ruy Ostermann, Euclides Prado, Sergio Jockymann, Enio Berwanger, Pedro Carneiro Pereira, Armindo Ranzolin, Luiz Carlos Prates, Celso Costa, Antonio Carlos Nideraueur, Gilberto Verardi, Lauro Hagemann, Lasier Martins, João Carlos Belmonte, Ivete Brandalise, P. F. Gastal (“Calvero”!), Mendes Ribeiro, Nabor Couto, Mazzeron, Sergio Schüller, Leonor de Souza, Maria Luiza Benitez, Jayme Caetano Braun, Clóvis Seganfredo, Adroaldo Streck... e tantos grandes nomes do rádio, da velha Rádio Guaíba, que já foi considerada a melhor rádio do Brasil, e nem por isso faturava pouco, ao contrário!
(Historinha: Projeto Rondon, 70 e poucos, um amigo meu, então estudante, tava embrenhado nas matas do Pará, com cariocas, paulistas..., e um dia apareceu um rádio receptor, alguém à noite começou a zapear, e o pessoal ia reconhecendo os sotaques e as músicas e, emocionada, chutando: "deve ser a Bandeirantes", "a Tupi do Rio", "a Nacional,", etc etc., até que de repente entrou uma música esplendorosa, diferente, depois uma locução apolínea, perfeita, e a turma ficou vacilando, até que meu amigo arriscou: "pelo estilo, é a Guaíba, lá da minha terra!" - e se emocionou mais ainda quando, pouco depois, o locutor entrou e disse: "Emissoras Brasileiras de Ondas Médias e Curtas da Rádio Guaíba de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil". E a turma toda se impressionou com aquele jeito diferente de rádio.... ainda do tempo em que éramos, os gaúchos - PUC, UGRGS, MDB ETC - realmente diferentes, no melhor sentido, do restante do País!...)
Obrigado.
Estanislau Baptista – ex-radialista, ex-jornalista, ex-advogado,
hoje consultor biocêntrico, facilitador de formação pessoal e de equipes,
Cel: (51) 9696-4499
Fonte: Previdi - 27 Out 09/Dos amigos
COMENTO: me preocupa a pretensão de transformar a melhor programação radiofônica do país em uma "programação popular". Em Porto Alegre, o segmento "popular" já está muito bem consolidado e programação de "bom gosto" - me desculpem os admiradores do "popular" - é rara. Aos administradores da Record/Guaíba: "dinheiro não é tudo"! Salvem a "velha Guaíba"! Aos de fora do RS, recomendo ouvir antes que mude: http://www.radioguaiba.com.br/Aovivo/?Aovivo=FM

ATUALIZANDO: aos "Guaibeiros" saudosistas, informo que a Rádio Princesa FM (101,9) está com uma programação excelente. Lembra muito o bom gosto musical que era executado na "antiga" Guaiba FM. A Rádio Princesa FM pode ser acessada pela internet pelo endereço "http://www.redepampa.com.br/novo/radiosonline/princesafm.php". A transmissão pela internet às vezes falha, mas vale a pena escutar! Um abraço a todos.

6 comentários:

Ricardo Mainieri disse...

Trabalhei na Caldas Jr., final de setenta até início de oitenta, na revisão jornalística.
O chefe era o Dias, dublê de revisor e violinista da OSPA. Tinha muita gente boa: o Geraldo Huf, o Knakack, e tantos outros.
Sempre tive apreço pelo estilo clássico dos veículos da companhia.
Agora, essa Record, trouxe dois cabeças de bagre, com programação popularesca.
E, para completar, na FM substituiram a música bem escolhida por um pastiche da Antena 1, repetindo à exaustão baladas americanas de gosto discutível.
É brabo esta ditadura do faturamento...

Ricardo Mainieri

Paulo disse...

Era um guaibeiro. Desapareci, com o tempo, pois a Guaíba já não existe. Na esquina da Caldas Júnior com Rua da Praia, sobrou uma sucata de rádio. A única coisa que ainda presta é o prédio quase centenário, que eles ainda vão dar um jeito de demolir. Esse é um problema cultural, nosso povo não dá valor às suas tradições aos seus aspectos mais nobres. É uma pena, mas nosso futuro é de uma imensa mediocridade cultural.

MOB disse...

Enviei hoje o seguinte email para a Guaibe ( deve cair no vazio, por lá ...) :
Senhores,

Sou gaúcho de Porto Alegre, tenho 63 anos, e há 32 anos resido fora daí. A Guaíba sempre foi o meu ponto de contato com o Rio Grande e com a cidade. Onde estivesse, sempre dava um jeito de acessá-la, inicialmente em ondas curtas e, mais recentemente, pela bem-vinda Internet, com absoluta clareza de som.
Desde os primórdios, "a música da Guaíba", entremeada por poucos, e rápidos, comerciais apenas lidos pelo locutor, era a característica mais marcante dessa rádio. A qualidade do repertório de músicas era irrepreensível e elogiada por todos que sintonizavam a emissora. A sequenciação e adequação a horários era também perfeita.

Tudo isso acabou : o conteúdo musical que hoje emana das antenas da Guaíba FM não mais se diferencia de todos os outros. É monótono, pobre, mal escolhido, prioriza modernidade barata, que todos sabemos, se contrapõe a qualidade musical ( há muito, desde a "rockalização", a produção brasileira e estrangeira deixam muito a desejar em qualidade ). A Guaíba, no meu modesto entender, igualou a FM à AM, descartou seu repertório tradicional e altamente apreciado, baniu os bons profissionais que o desenvolviam e refinavam, e assim, descartou do seu patrimônio empresarial o seu principal "ativo" cultural.

É triste e lamentável !

Retirei , hoje, a Guaíba, dos "links favoritos" de meu navegador e não mais acessarei o Rio Grande por seu intermédio.

Saudações

Mario Barrros

Gustavo Nisivoccia disse...

DESDE URUGUAY, SIEMPRE ESCUCHÁBAMOS A FERNANDO VERONESE Y SU NOTURNO GUAIBA.
ES UNA LASTIMA PERDER UNA AUDICION "UNICA"
COSTOS DE LA MODERNIDAD?
VERONESE NOS DABA UN ESPACIO DE SOÑAR UN MUNDO ANTERIOR, TRANQUILO, QUE ACASO NO EXISTIRÁ MÁS.
UNA PENA.
GUSTAVO Y MAGELA
AGUAS DULCES, ROCHA, URUGUAY

Anônimo disse...

Mensagem enviada para ouvinte@radioguaiba.com.br, em 02.11.2011:

Tenho 56 anos e resido há mais de 30 em São Sebastião do Caí-RS. Sou ouvinte da Guaíba AM há mais mais de 40 anos, desde quando ainda morava em Sananduva-RS, onde nasci. Aprendi a gostar e a admirar a Guaíba desde os tempos em que os jogos de futebol eram narrados por Pedro Carneiro Pereira e Armindo Antonio Ranzolin, que, aliás, foram os melhores de todos os tempos. Lembro muito bem da programação e da locução na Guaíba AM, com nomes como Flávio Alcaraz Gomes, James Bocacio, Amir Domingues, Ruy Carlos Ostermann, Sérgio Jockymann, Lauro Hagemann, Lasier Martins, Ivete Brandalise, Nabor Couto, Sérgio Schüller, Adroaldo Streck, Samuel Santos, Rogério Mendelski (que agora está de volta), Fernando Veronesi, Milton Jung (que continua lá, mas “escanteado”), Lupi Martins, Rui Strelow, Egon Bueno, Mario Mazeron (falecido), e tantos outros. Mas a característica de mais deixa saudades (inclusive na Guaíba FM, a partir de 1980), era a de que NA GUAÍBA OS LOCUTORES FALAVAM AO VIVO, sem esses malditos e insuportáveis jingles. Eram realmente emissoras diferenciadas, de primeira classe.

Infelizmente, a partir da aquisição da Caldas Júnior pelo Sr. Renato Bastos Ribeiro, começaram as mudanças, para pior, culminando, agora, com a chegada do Grupo Record.

A partir da aquisição pelo Grupo Record, a Rádio Guaíba FM (agora em conjunto com a AM), que era uma referência quando se tratava de música de qualidade, entrou num processo de “popularização” de sua programação, a tal ponto que agora tanto faz ouvir a Guaíba, ou a Caiçara, ou a Farroupilha, ou qualquer outra rádio “chinfrim” que dá no mesmo.

Já na Rádio AM (agora em conjunto com a FM), também a deterioração é sensível. Basta ver os nomes dados aos programas: Ganhando o Jogo e De Salto e Tudo, Mais Preza, só para citar dois deles. Quanto falta de criatividade!

Entre tantos equívocos cometidos, podemos citar o afastamento do Sr. Fernando Veronesi (já falecido e talvez o maior conhecedor de música do Brasil) da programação musical e a conseqüente extinção de um dos melhores programas musicais de todos os tempos no Rádio: Noturno Guaíba. Outro equívoco foi acabar com o mais tradicional noticiário do rádio gaúcho, o Correspondente Renner, há mais de 50 anos no ar. De quebra “escantearam”o Milton Ferretti Jung, o maior locutor de rádio ainda vivo do país.

Para completar, inventaram ou copiaram a idéia de transmitir AM em conjunto com a FM. Ora, todo mundo sabe que cada uma das emissoras deveria ter uma proposta diferente, cada uma com seu público específico. Misturaram tudo. Agora, quem gosta de música e não gosta de futebol e entrevistas, que se dane.

Como se não bastassem os fatos citados acima, para completar a Guaíba perdeu recentemente profissionais do porte de Gustavo Motta, Lisemara Prates, João Garcia, Haroldo de Souza, Jadir Oliveira, entre outros.

Como guaibeiro que sou há mais de 40 anos, ainda tenho a esperança de que algum dia, antes que seja transformada num templo da Igreja Universal, a velha Guaíba retome ao menos em parte as características idealizadas por Breno Caldas e Alberto Pasqualini.

Fica o consolo de que a Guaíba ainda conta com Rogério Mendelski, Edegar Schmidt, Hiltor Mombach e Juremir Machado da Silva para salvar o pouco que resta de bom na sua programação.

Finalmente, faço um pedido aos Srs. Mendelski, Edegar, Hiltor e Juremir: O último que sair, por favor, apague a luz!



Antonio Roque Braghirolli
braghirolli@via-rs.net
São Sebastião do Caí-RS

Nilo Costa disse...

Por 42 anos meus pais trabalharam para uma família de imigrantes austríacos de longa tradição familiar em negócios ligados à cultura. cinemas, livrarias, entrepostos comerciais em comunidades rurais que também funcionavam como sedes sócio culturais, esportivas e recreativas faziam parte do seu rol de negócios. A forte influência cultural recebida levou a habitos culturais acima da média geral. Um filho Bacharel em música e piano faz parte dessa herança recebida. Pouco semanas atrás mencionou em um de seus trabalhos de mestrado, a forte influência musical recebida em sua casa paterna. A Guaíba FM, naturalmente, foi uma das principais fontes. Com o fim da Guaíba FM, tal como era, o Rio grande do Sul perde a principal referência em boa música. Muito triste!
Nilo de Oliveira Costa, atualmente em Recife, Pernambuco.