segunda-feira, 24 de março de 2014

O Gigante Sonhador que Acordou na Ditadura

por Marcel van Hattem(*)
O gigante foi dormir na democracia. Sonhou bem e sonhou muito. Sonhou radicalmente com a igualdade. Não “achava-se”, afinal, era um gigante: sabia-se tolerante. Sabia-se sem preconceitos: “todos são iguais”. Todos deveriam ser iguais. Seu sonho foi ficando tão radicalmente perfeito, que, mesmo que houvesse leis e costumes no caminho, tudo se esfacelava para dar lugar ao ideal de igualdade absoluta que vislumbrava.
Preguiçosos foram sendo igualados aos esforçados; bandidos e criminosos, igualados às pessoas honestas e de bem. Prostitutas a donas de casa, vagabundos a virtuosos. Até políticos corruptos passaram a ser igualados aos poucos políticos dignos que restavam — claro, desde que os corruptos tivessem sido apenas “mensaleiros” e roubado pela Causa Maior. Houve inclusive um que não foi nem investigado: o Grande Líder da Causa Maior precisou apenas afirmar que, da corrupção que todos viram, nada sabia — e assim se safou.
Aproximavam-se as primeiras horas da manhã. O doce sonho do gigante foi ficando amargo. Preguiçosos exigiam mais dinheiro para não trabalhar. Bandidos exigiam mais direitos (humanos) para atuar no crime sem maiores dificuldades. E os políticos extorquiam mais impostos e acumulavam mais poder para continuar governando. Mais e mais poder. 
Não demorou e os corruptos pela Causa Maior começaram a ser declarados inocentes, e o Grande Líder passava a afirmar que a corrupção nem havia existido. O sonho foi virando pesadelo sem que o gigante compreendesse bem a transição — mas se tivesse estudado história ao invés de alimentar perigosas utopias, ele poderia ter previsto a catástrofe. O sonho virou pesadelo, do tipo cuja lembrança mais marcante é o gosto ruim que fica na boca quando acordamos. O gigante dormiu na democracia. Sonhou igualdade radical, até mesmo entre o que não pode ser igualado. Acordou em uma ditadura.
(*) Cientista político, jornalista e 
consultor para relações internacionais

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