quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Desordem Monetária Internacional

Por Eugênio Gudin
O pecado original que deu lugar à crise monetária internacional que ainda perdura foi, como se sabe, o de terem os Estados Unidos abusado do privilégio de que gozava o dólar, de ser também moeda internacional, como tal recebido e aceito pelo mundo afora. Os Estados Unidos esbaldaram-se despejando dólares no mundo através da guerra do Vietnam e de enormes investimentos na Europa, além do fluxo habitual de turismo. A enorme massa de dólares que ficou ricocheteando pela Europa de país a país tem grande responsabilidade na inflação que se infiltrou na Europa onde atingiu 7% e 8% e mais ao ano, em países de ordem monetária tradicional como Suíça e Alemanha Ocidental.
O que há de curioso na presente conjuntura é que o dólar se depreciou muito mais internacionalmente do que dentro dos Estados Unidos. A taxa de câmbio atual do dólar em termos de marco alemão (julho de 1973) é de apenas de 2,38 marcos por dólar, mas um dólar nos Estados Unidos tem um poder de compra equivalente a 3,17 marcos. Igualmente, a taxa de câmbio na Suíça é de 2,86 francos suíços por dólar, entretanto um dólar compra nos Estados Unidos o equivalente a 3,90 franco suíços.
É um caso típico de desvio da paridade do poder de compra, oriundo de itens outros que não os referentes a mercadorias, especialmente transferência de capitais.
A inflação nos Estados Unidos, a partir de 1965, foi em parte uma inflação de demanda oriunda de vastos déficits orçamentários (RS$ 25 bilhões em 1972, ora estimado em US$ 15 bilhões para 1973), e em outra parte, uma inflação de custos por elevação excessiva de salários em anos recentes (ferroviários 42% em 42 meses, siderúrgicos 30% em 3 anos, General Motors, etc), além da inflação de caráter internacional oriunda das recentes desvalorizações do dólar que encarecem os preços das mercadorias importadas.
Mas a inflação na Europa, oriunda basicamente da expansão de crédito vinda do excesso de dólares flutuantes, não ficou atrás da dos Estados Unidos.
O atual desequilíbrio monetário internacional é devido muito mais aos movimentos de capitais do que às disparidades inflacionárias entre os Estados Unidos e a Europa. Os Estados Unidos, aparentemente mais preocupados com sua atividade econômica interna do que com seu balanço de pagamentos, mantém taxas de juros reputadas baixas, pouco atraentes portanto para dinheiro do exterior. Por outro lado, a falta de confiança no dólar fez com que a esperada repatriação de dólares depois da desvalorização não se verificasse. A demanda de dólares por parte das empresas americanas e das empresas multinacionais, bem como dos árabes do petróleo, não tem correspondido à expectativa.
Do lado das mercadorias (balanço de comércio) a situação está melhorando com o grande encarecimento dos artigos importados à nova taxa cambial; por exemplo, um Volkswagen que custava US$ 1.900,00 passou para US$ 2.300,00. Os algarismos do balanço comercial continuam a melhorar conquanto as exportações não tenham tido o impulso que se poderia esperar. Por outro lado, a importação de petróleo cresceu em volume e em preço; os turistas americanos continuam a voar para o exterior mesmo com preços vinte e cinco por cento mais altos; 600 mil militares no estrangeiro e os empresários americanos continuam a exportar capitais.
Em artigo escrito, neste jornal, em setembro do ano passado, sobre a crise monetária internacional, eu dizia:
"O problema não é fácil nem de rápida solução. Exige muito tempo, talvez anos para sedimentar-se em um consenso generalizado”.
A hipótese de nova volta ao padrão-ouro está fora de cogitação. A crise atual, se de um lado desprestigiou o dólar, serviu, de outro, para mostrar como o ouro é sujeito às influências da especulação e das variações do volume produzido, o que o torna impróprio para servir de padrão de valor para todas as moedas.
Donde se vê que as perspectivas de curto prazo não são animadoras. Nem o projeto Nixon round, de reduções tarifárias, nem a reunião de Nairóbi do FMI, em setembro, nem a Comissão dos Vinte (nem que fossem 40) solucionarão o caso.
O único remédio é o esforço persistente - sobretudo dos Estados Unidos - para restabelecer a confiança no dólar e o equilíbrio de seu balanço de pagamentos, ao nível da taxa cambial que for.
Vencida essa primeira etapa é que se poderá organizar um novo esquema monetário internacional.
Eugênio Gudin (12/07/1886 -  24/10/1986) era Economista. 
Artigo publicado no jornal "O Globo" do Rio de Janeiro, em 17/09/73.
Fonte:  Alerta Total

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