quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Por que Nossos “Espiões” Têm que Ficar no Brasil?

por Fábio Pereira Ribeiro
Alguns anos venho estudando a área de inteligência e o impacto dos serviços secretos nas relações internacionais, e considerando todo o peso do Brasil no cenário internacional, suas condicionantes políticas e todo problema de segurança internacional e crime organizado transnacional, me pergunto todos os dias, por que o Brasil não tem uma estrutura efetiva de analistas de Inteligência no exterior?
Ao mesmo tempo me pergunto, por que a nossa agência de Inteligência (ABIN) ainda é jungida a um General de Exército, ou a um Gabinete de Segurança Institucional? Não seria mais prudente, e até mesmo inteligente, que a ABIN estivesse vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos?
Depois de tantos anos de Estado ditatorial, o Brasil já teve história suficiente para aprender que a atividade de inteligência não é sinônimo de “porão”, e que a falta da mesma gera reflexos extremamente perigosos para a Nação.
Se analisarmos profundamente os impactos da violência pública que tanto cresce no Brasil, perceberemos que boa parte dos impactos são causados diretamente pela falta de ações de inteligência do Brasil em suas fronteiras, das falhas de integração entre os diversos núcleos de inteligência que alimentam o Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) e da falta de oficiais de inteligência nas diversas embaixadas brasileiras espalhadas pelo mundo. Sem contar que a falta de estrutura de inteligência no exterior deixa o Brasil desguarnecido de informações estratégicas sobre economia e geopolítica.
Nossos analistas de inteligência, além de toda estrutura operacional, vivem em geladeiras de informações. O país sofrendo com riscos estruturais do crime organizado transnacional, fluxo migratório de imigrantes (humanitários e criminosos), narcotráfico, contrabando de armas, máfias, espionagem internacional, bio-pirataria, africanos tomando posições em sub-prefeituras em grandes centros, somalianos em território nacional (com apoio de células terroristas), haitianos se perdendo nos rincões (prato cheio para o crime organizado por uma questão puramente natural), até quando trataremos inteligência como burrice operacional?
Não precisamos do romantismo “a lá James Bond”, mas com certeza precisamos de uma estrutura de inteligência que realmente possa dar condições de segurança e competitividade para o país.
O Brasil precisa avançar com a sua agenda de inteligência exterior. Não precisamos de espiões lendo jornais dentro do território nacional, precisamos de oficiais de Inteligência nas fronteiras e nos grandes centros estratégicos para as relações exteriores com o Brasil.
Praticamente nossas operações no exterior acontecem entre Buenos Aires e Caracas. Mas por que não temos ninguém em Nova York, Washington, Paris, Londres, Shangai, Luanda, Bogotá, Jerusalém, Moscou, Nova Déli, entre outros grandes centros estratégicos para produção de inteligência, troca de tecnologia, economia, além das questões de segurança internacional.
O caso Snowden escancarou o descaso político e governamental com as questões de inteligência. A nossa contra-espionagem sofre em proteger o mínimo, e nossos políticos confirmam o quanto piegas são em relação às questões de segurança internacional.
Temos um grupo bom de analistas de Inteligência, mas lógico que sempre tem algum “aloprado ideológico”. O problema que com o tempo, o descaso político irá afastar os analistas, e óbvio, que até na Inteligência a fuga de cérebros é uma questão mais do que evidente.
Que os presidenciáveis se atentem para esta agenda. E que a Política Nacional de Inteligência (PNI) avance, pois assim o controle da atividade estará assegurado, e a funcionalidade da inteligência realmente atenda os anseios da Nação.
Fábio Pereira Ribeiro é Diretor
Fonte:  Brasil no Mundo
COMENTO:  apesar de algumas falhas de concordância na redação, o texto aponta para um grave lapso no nosso Sistema de Inteligência e alerta os candidatos ao cargo máximo da Nação para que atentem para a questão. Por outro lado, manifesto aqui que a crítica que o autor faz à subordinação da ABIN ao estamento militar não procede pois a Atividade de Inteligência, desde sua origem histórica, foi balizada por objetivos de manutenção ou aquisição de Poder Estatal, isto é, propósitos que em última instância podem ser considerados militares (conhecimento em tempo útil de ameaças, vulnerabilidades e possibilidades possíveis de uso nos campos geográfico, militar, político e psicossocial). Posteriormente, foram agregadas as necessidades sobre os aspectos econômicos e de infra estrutura. Assim, Inteligência é uma atividade com a qual os militares sempre conviveram, por necessidade, e com base na qual formulam seus planos e estratégias, sendo, por isso, os melhores gestores da mesma.
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domingo, 24 de agosto de 2014

Algumas Provocações - Pense e Responda Para Você Mesmo

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E Se Eu Lhe Disser Que a Democracia é Uma Fraude?
por Nelci Gomes
E se eu lhe disser que você só pode votar porque seu voto não faz diferença? E se eu lhe disser que, não importa em quem você vote, a mesma elite política, os mesmos lobistas, e os mesmos grupos de interesse sempre estarão no comando? E se eu lhe disser que o conceito de uma pessoa/um voto era apenas uma ficção criada pelo governo e por esses grupos de interesse para induzir a sua complacência?
E se você descobrir que a democracia, em seu formato atual, é extremamente perigosa para as liberdades individuais? E se você descobrir que a democracia desvirtua totalmente o conceito que as pessoas têm de direitos naturais, fazendo com que elas passem a acreditar que tomar a propriedade alheia é um "direito adquirido"? E se você descobrir que a democracia não passa de um verniz capaz de transformar as campanhas políticas em meros concursos de beleza?
E se você descobrir que, se o número de pessoas que for às urnas para votar a favor de uma medida criada pelo governo (como em um referendo) for maior do que o número que for votar contra, a democracia permite que o governo faça tudo o que ele quiser?
E se você descobrir que o propósito da democracia moderna é o de convencer as pessoas de que elas podem prosperar não pelo trabalho e pela criação voluntária de riqueza, mas sim pela apropriação da riqueza de terceiros?
E se eu lhe disser que a única maneira moral de adquirir riqueza é por meio da atividade econômica voluntária? E se eu lhe disser que o governo é capaz de persuadir as pessoas de que é perfeitamente aceitável adquirir riqueza por meio da atividade política? E se eu lhe disser que a atividade política inclui todas as coisas parasíticas e destrutivas que o governo faz? E se eu lhe disser que o governo jamais é capaz de criar riqueza? E se eu lhe disser que tudo o que governo possui adveio do roubo de cidadãos produtivos?
E se você descobrir que a ideia de que precisamos de um governo para tomar conta de nós não passa de uma ficção que foi exitosamente perpetrada para aumentar o tamanho e o poder do estado? E se você descobrir que o objetivo dos políticos e burocratas que ocupam o governo é expandir seu controle sobre a população?
E se eu lhe disser que nossas qualidades individuais e culturais dependem não do poder do governo mas sim do quão livre somos em relação ao governo?
E se você descobrir que essa mistura de governo inchado e democracia gera dependência? E se você descobrir que, tão logo esse tal 'governo democrático' cresce, ele começa a enfraquecer as pessoas, acabando com sua auto-suficiência? E se eu lhe disser que um governo inchado destrói a iniciativa e a motivação das pessoas, e que a democracia as convence de que a única motivação de que precisam é 'votar certo' e aceitar os resultados?
E se eu lhe disser que o homicida Josef Stalin estava certo quando disse que a pessoa mais poderosa do mundo é aquela que conta os votos? E se você descobrir que os votos que realmente contam ocorrem em segredo, atrás dos bastidores?
E se eu lhe disser que o problema da democracia é que a maioria se acredita apta a 'consertar o que está errado', a criar qualquer tipo de lei, a tributar qualquer tipo de atividade, a regular qualquer tipo de comportamento, e a se apossar daquilo que mais lhe aprouver? E se o maior tirano da história estiver hoje entre nós? E se esse tirano tiver o apoio da maioria? E se ele chegar ao poder? E se a maioria não reconhecer limites ao seu poder?
E se o governo for astuto o bastante para ludibriar os eleitores, de modo que estes passem a defender e justificar tudo o que o governo quiser fazer? E se o governo comprar o apoio das pessoas por meio de benesses que ele distribui? E se o governo der assistencialismo para os pobres, universidades para a classe média e protecionismo para os empresários ricos, de modo a manter todos dependentes dele?
E se eu lhe disser que uma república vibrante depende não do processo democrático da votação, mas sim de eleitores informados e ativos, que entendem corretamente os princípios da existência humana, dentre eles a posse inalienável de direitos naturais?
E se eu lhe disser que podemos nos libertar do jugo do estado interventor, mas que os defensores do establishment não querem isso? 
E se eu lhe disser que o governo será o mesmo não importa quem vença as eleições? E se eu lhe disser que existe apenas um grande partido político, o qual é subdividido em duas alas, social-democrática e socialista? E se eu lhe disser que ambas as alas querem impostos, assistencialismo, protecionismo, regulamentações e crescimento contínuo do governo, diferindo apenas muito polidamente quanto aos meios para se alcançar estes objetivos? E se eu lhe disser que este partido único criou leis eleitorais que tornam praticamente impossível o surgimento e o sucesso de uma concorrência política?
E se você descobrir que o sucesso do governo depende de sua habilidade de fingir e enganar? E se eu lhe disser que nossos ancestrais acreditavam que o rei era divino? E se eu lhe disser que eles acreditavam que o rei era infalível? E se eu lhe disser que eles acreditavam que a voz do rei era a voz de Deus?
E se você descobrir que o governo é bom em fazer os outros acreditarem? E se você descobrir que o governo fez o povo acreditar que tem voz? E se você descobrir que o governo fez o povo acreditar que os políticos eleitos são o próprio povo? E se você descobrir que o governo fez o povo acreditar que os políticos são servidores do povo?
E se você descobrir que o governo fez o povo acreditar que a maioria democrática nunca erra? E se eu lhe disser que a tirania da maioria é tão destrutiva para a liberdade humana quanto a tirania de um indivíduo louco?
Nelci Gomes é estudante de Direito 
Fonte:  Jus Brasil 
COMENTO: acrescente às questões apresentadas um raciocínio sobre o papel social da mais deletéria profissão surgida depois da advocacia - o propagandista, também conhecido como "marqueteiro".
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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Para Quando a Canonização?

por Janer Cristaldo
A igreja de Roma elegeu seus doutores por sua sapiência, crença em Deus e piedade. Com os tempos, jogou suas doutrinas ao lixo. É o caso do aborto. Admitido por São Tomás e Santo Agostinho, é punido com excomunhão pela Santa Madre.
Mas não só o aborto. Para Agostinho, inversamente, o suícidio é um crime. A vida é um dom sagrado de Deus e só ele dela pode dispor. Sua doutrina, em A Cidade de Deus, é enfática:
“Nós dizemos, declaramos e confirmamos de qualquer forma que ninguém tem o direito de espontaneamente se entregar à morte sob pretexto de escapar aos tormentos passageiros, sob pena de mergulhar nos tormentos eternos; ninguém tem o direito de se matar pelo pecado de outrem; isso seria cometer um pecado mais grave, porque a falta de um outro não seria aliviada; ninguém tem o direito de se matar por faltas passadas, porque são sobretudo os que pecaram que mais necessidade têm da vida para nela fazerem a sua penitência e curar-se; ninguém tem o direito de se matar na esperança de uma vida melhor imaginada depois da morte, porque os que se mostram culpados da sua própria morte não terão acesso a essa vida melhor”. 
Deste crime, não eximiu sequer a casta Lucrécia, da antiga Roma. Violentada pelo filho de Tarquínio, revelou o fato a seu marido e a um parente, exigindo deles vingança. Mesmo assim, decidiu matar-se. O bispo de Hipona não perdoa. Na mesma obra, afirma que a casta Lucrécia foi assassinada:
“Que castigo vossa severa justiça reserva então para o assassino? Mas esse assassino é Lucrécia, essa tão enaltecida Lucrécia; foi ela que derramou o sangue inocente da virtuosa e casta Lucrécia”.
São Tomás não deixa por menos. O cristianismo condena o suicídio como violação ao quinto mandamento, não matarás. Para o aquinata, três são as justificativas para condenar o suicídio:
O suicídio é contrário à inclinação natural da pessoa de amar a si mesma; é um atentado à comunidade à qual a pessoa pertence e, seguindo Agostinho: a vida é um bem dado ao homem por Deus e quem a tira viola o direito divino de determinar sua duração na Terra.
Na Bíblia, onde encontramos seis suicidas – Abimeleque, Saul, Samuel, o escudeiro de Saul, Aitofel, Zinri e Judas – o suicídio é visto como assassinato. Há quem considere o gesto de Sansão como suicida, mas vá lá: seu objetivo era matar os filisteus e não a si mesmo. Só a Deus cabe decidir quando e como uma pessoa deva morrer. Agostinho admite não só a decisão de Sansão, como a de Santa Pelágia, que se matou para defender sua virgindade. Estes se distinguem da morte de Judas, considerada como uma morte ruim, a morte da traição, constituindo crime e pecado.
A Igreja Católica sempre negou assistência religiosa aos suicidas, como missa e enterro. Mas pra teólogos modernosos, a Igreja não lhes atribui a condenação eterna. “Somente Deus sabe o que se dá no foro interno da alma, quais as suas últimas disposições depois de desferir o golpe mortal; um suicida que se tenha sinceramente arrependido, embora não haja podido manifestar-se como tal, recebe de Deus o pleno perdão”.
Como não se sabe o que se passa na cabeça de um homem que se joga de um penhasco ou edifício no momento da queda, fica o dito pelo não dito. Seja como for, o suicídio sempre foi condenado pela Bíblia, pela Igreja e por seus doutores. Exceto, nestes dias que correm, quando o santo é de esquerda.
Manchete de hoje (8/8/14) no Estadão:
O mártir da ditadura é Frei Tito de Alencar Lima, preso por ligações com a Ação Libertadora Nacional (ALN), da qual participaram Marighella, Dilma Roussef... e Aloyso Nunes, vice de Aécio Neves. Estes dois últimos tiveram melhor sorte. Preso e torturado no Brasil em 69 e 70, Frei Tito foi deportado para o Chile em janeiro de 71 e de lá fugiu para Roma, onde não encontrou apoio da Igreja Católica. Foi então para Paris e acabou se suicidando em Évreux, onde residia no convento Sainte-Marie de la Tourrete, em 10 de agosto de 1974.
Enterrado no cemitério do convento, seu corpo foi trasladado em 83 para Fortaleza. Antes passou por São Paulo, onde foi realizada uma celebração litúrgica de corpo presente em sua memória. O oficiante foi Dom Paulo Evaristo Arns, aquele cardeal que escrevia ternas missivas ao ditador Fidel Castro. A missa foi celebrada em trajes vermelhos, usados em celebrações dos mártires. Afinal, embora seja comum o número de estudantes suicidas nas capitais européias (inclusive eu tive um amigo que se enforcou em Berlim), considerou-se óbvio que a culpa da morte de frei Tito era da ditadura militar.
Os amigos e parentes de Frei Tito de Alencar Lima lembram, neste fim de semana, em São Paulo, os 40 anos de seu martírio, com missa, palestras e testemunhos de historiadores e teólogos que conviveram com ele no período da ditadura. A missa será celebrada, às 19 horas de sexta-feira, por d. Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito de Blumenau (SC), na Igreja de São Domingos, na rua Caiubi, 164, anexa ao Convento das Perdizes, onde Frei Tito e outros frades foram presos, em 1969, na véspera da morte de Carlos Marighella. 
No sábado, a programação começará às 9h30, no Colégio Rainha da Paz, na rua Dona Elisa de Moraes Mendes, 39, Alto de Pinheiros. O professor de literatura Alfredo Bosi, da Universidade de São Paulo (USP), falará na abertura sobre a importância de se recordar Frei Tito hoje. Em seguida, o economista João Pedro Stédile, da direção do MST e da Via Campesina, dividirá com o padre e teólogo José Oscar Beozzo o tema Sentido Histórico da Ditadura civil-militar no Brasil e o papel da Igreja na Resistência Armada. 
Santo de esquerda pode suicidar-se à vontade, sempre terá as homenagens das esquerdas católicas, com participação especial de um invasor de terras. Diz-me quem por ti chora e dir-te-ei quem és. 
O Brasil precisa de santos. Para quando a canonização?
Fonte:  Janer Cristaldo
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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Plácido de Castro e o Descaso Brasileiro Para Com Sua História

E o dia 6 de agosto, maior marco da bravura do povo brasileiro, passou mais uma vez em brancas nuvens
por Carlos Newton
É decepcionante constatar que o Brasil não cuida de sua memória. Se você perguntar a algum historiador brasileiro sobre o dia 6 de agosto, possivelmente ele não lembrará do que se trata. Se o historiador for católico, pode ser que se lembre de que se trata do Dia de Nosso Senhor do Bonfim ou de Bom Jesus da Lapa. Se for estudioso da História das Américas, poderá lembrar que foi em 6 de agosto que Simón Bolívar entrou em Caracas, após a vitória de Taguanes, e recebeu o título honorífico de Libertador, e 12 anos depois, também num 6 de agosto, Bolívar declarou a independência do país que levou seu nome, a Bolívia.
Mas dificilmente o historiador se lembrará do que deveria significar o 6 de agosto para os brasileiros, por ser a data em que se iniciou a revolução que culminou na anexação do Acre ao território nacional, livrando a Amazônia da possibilidade de ser colonizada pelo Império britânico, que na época (1902) dominava a maior parte do mundo e estava tentando usurpar a Amazônia com apoio dos Estados Unidos, que mal começava a ser firmar como grande potência.

A CORRIDA DA BORRACHA
Naquele início de século XX, a borracha já se tornara uma das mais importantes e estratégicas matérias-primas, e toda a produção mundial provinha de um só lugar, a Amazônia, onde vicejava a nativa hevea brasiliensis, que era mais abundante justamente no território boliviano do Acre, uma extensa região que desde os anos 1870 vinha sendo colonizada por brasileiros, que emigravam para viver da borracha. Lá havia seringueiros e aventureiros de todo o país, mas a imensa maioria vinha do Nordeste, sobretudo do Ceará.
Um desses aventureiros chama-se José Plácido de Castro, era gaúcho de São Gabriel, filho do capitão Prudente da Fonseca Castro, veterano das campanhas do Uruguai e do Paraguai, e de Dona Zeferina de Oliveira Castro.
Plácido de Castro um dos maiores heróis da História do Brasil
Plácido começou a trabalhar aos 12 anos – quando perdeu o pai – para sustentar a mãe e os seis irmãos. Aos 16 anos, ingressou na vida militar, chegando a 2° sargento, entrou na Escola Militar do Rio Grande do Sul e depois lutou na Revolução Federalista ao lado dos “maragatos”, chegando ao posto de Major. Com a derrota para os “pica-paus”, que defendiam o governo Floriano Peixoto, Plácido decidiu abandonar a carreira militar e recusou a anistia oferecida aos envolvidos na Revolução.
Mudou-se para o Rio de Janeiro, foi inspetor de alunos do Colégio Militar, depois empregou-se como fiscal nas docas do porto de Santos, em São Paulo e, voltando ao Rio, obteve o título de agrimensor. Inquieto e à procura de desafios, viajou para o Acre, em 1899, para tentar a sorte como agrimensor e logo arranjou trabalho por lá.

O BOLIVIAN SYNDICATE
Havia uma antiga disputa de terras entre Brasil e Bolívia, os colonos brasileiros já tinham até declarado duas vezes a independência do Acre, mas o governo brasileiro mandara tropas para devolver o território à Bolívia. Até que surgiu a notícia de que a Bolívia havia arrendado o Acre aos Estados Unidos, através do Bolivian Syndicate, uma associação anglo-americana sediada em Nova York e presidida pelo filho do então presidente dos EUA, William McKinley.
O acordo autorizava o Bolivian Syndicate a usar força militar como garantia de seus direitos na região, as leis e os juízes seriam norte-americanos, a língua oficial seria o inglês e os Estados Unidos se comprometiam a fornecer todo o armamento que necessitassem. Além disso, tinham a opção preferencial de compra do território arrendado, caso viesse a ser colocado à venda. E a Bolívia também se comprometia em, no caso de uma guerra, a entregar a região aos Estados Unidos.
Plácido de Castro estava demarcando o seringal Victória, quando ficou sabendo do acordo pelos jornais e viu nisto uma ameaça à integridade do Brasil. Tinha 27 anos, era o único militar de carreira que morava naquela região e decidiu liderar uma resistência. Convocou os comerciantes, seringalistas e emigrantes brasileiros, formou um pequeno grupo de guerrilheiros e aproveitou o dia 6 de agosto, feriado nacional na Bolívia, para iniciar a revolução.

A REVOLUÇÃO COMEÇA…
Quando Plácido chegou com cerca de 60 guerrilheiros ao pequeno quartel do Exército boliviano na vila de Rio Branco, às margens do Rio Acre, o oficial boliviano julgou que os brasileiros vinham comemorar o feriado. “Es temprano para la fiesta”, disse ele, e Castro respondeu: “No es fiesta, es revolución”. E a guerra começou, para desespero do governo brasileiro, que não se interessava pelo Acre.
O governo boliviano logo enviou mais um contingente de 400 homens, comandados por Rosendo Rojas. Mas Plácido de Castro, percursor da guerrilha na selva, se revelou um grande estrategista e conseguiu enfrentar e derrotar o Exército e a Marinha da Bolívia em várias batalhas.
Os combates da Revolução Acreana duraram vários meses e a revolução só acabou em janeiro de 1903, com a assinatura do Tratado de Petrópolis, pelo qual o Brasil comprou o território do Acre à Bolívia, anexando essas terras ao nosso país.
Além do Brasil seguir dominando o comércio mundial da borracha, outro resultado da vitória da Revolução liderada por Plácido de Castro foi o sepultamento do sonho anglo-americano de dominar o Acre e a Amazônia. Ao vencer o Exército e a Marinha da Bolívia, aqueles valorosos guerrilheiros brasileiros na verdade estavam derrotando também a maior potência militar do mundo, a Inglaterra, e seu principal aliado, os Estados Unidos.
Esta é uma história linda, que infelizmente não se aprende nos colégios brasileiros. Somente é lembrada . Mas um dia o major Plácido de Castro há de ser lembrado e homenageado como um dos maiores heróis deste país.
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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Democracia é o Oposto a Liberdade e Tolerância

por Frank Karsten & Karel Beckman
Um dos mitos mais persistentes sobre a democracia é que ela é o mesmo que 'liberdade'. Para muitas pessoas, 'liberdade e democracia' caminham juntas, como as estrelas e a lua. Mas, na verdade, a liberdade e a democracia são opostas. Em uma democracia, todos devem se submeter às decisões do governo. O fato de que o governo é eleito pela maioria, é irrelevante. Coerção é coerção, quer seja ela exercida pela maioria ou por um único governante.
Em nossa democracia, ninguém pode escapar das decisões tomadas pelo governo. Se você não obedecer, será multado e, se se recusar a pagar a multa, você acabará na cadeia. É simples assim. Tente não pagar uma multa de trânsito. Ou seus impostos. Neste sentido, não há diferença fundamental entre uma democracia e uma ditadura. Para alguém como Aristóteles, que viveu em uma época em que a democracia ainda não tinha sido santificada, isso era óbvio. Ele escreveu: "A democracia ilimitada, assim como a oligarquia, é uma tirania espalhada por um grande número de pessoas."
Liberdade significa que você não tem que fazer o que a maioria dos outros homens quer que você faça, mas que você pode decidir por si mesmo. Como o economista John T. Wenders disse uma vez: "Há uma diferença entre democracia e liberdade. A liberdade não pode ser medida pela possibilidade de se poder votar. Ela pode ser medida pelo âmbito daquilo sobre o qual não se vota".
Esse âmbito é muito limitado em uma democracia. A nossa democracia não nos trouxe a liberdade, mas o seu contrário. O governo aprovou inúmeras leis que impossibilitaram muitas interações e relações sociais voluntárias. Inquilinos e proprietários não são livres para fazerem contratos da forma que acharem melhor, os empregadores e os trabalhadores não podem decidir livremente sobre os salários e as condições de trabalho que desejarem, médicos e pacientes não estão autorizados a decidirem livremente quais os tratamentos ou medicamentos que irão ser utilizados, as escolas não são livres para ensinar o que elas quiserem, os cidadãos não estão autorizados à 'discriminação', as empresas não estão autorizadas a contratar quem elas quiserem, as pessoas não são livres para assumir qualquer profissão que quiserem, em muitos países os partidos políticos têm de permitir candidatos do sexo feminino para cargos públicos, as instituições de ensino estão sujeitas a cotas raciais e a lista continua. Tudo isso tem pouco a ver com liberdade. Porque as pessoas não têm o direito de assinar qualquer tipo de contratos ou acordos que elas quiserem? Porque é que os outros têm que se meter em acordos sobre os quais eles não são parte interessada?
Leis que interferem na liberdade do povo de celebrar acordos voluntários, podem beneficiar determinados grupos, mas elas, invariavelmente, prejudicam outros grupos. Leis de salário mínimo beneficiam certos trabalhadores, mas prejudicam as pessoas que são menos produtivas do que o salário mínimo exige. Essas pessoas se tornam muito caras para serem contratadas e, assim, ficam desempregadas.
Da mesma forma, as leis que protegem as pessoas de serem demitidas podem beneficiar algumas pessoas mas desencorajam os empregadores de contratarem novas pessoas. Quanto mais rígidas são as leis trabalhistas, mais os empregadores têm razões de temerem ficar presos às pessoas de quem não podem se livrar quando o negócio deles requerer que o façam. O resultado é que eles contratam o mínimo de pessoas possível, mesmo quando os negócios vão bem. Novamente, isso tende a prejudicar, em particular, as pessoas com baixas qualificações. Ao mesmo tempo, o alto desemprego resultante faz com que as pessoas que têm um trabalho tenham medo de mudar de carreira.
Da mesma forma, leis de controle de aluguel beneficiam os inquilinos existentes, mas desencorajam os proprietários de alugarem habitações vagas e investidores de desenvolverem novos empreendimentos imobiliários. Assim, estas leis levam à escassez de habitação e elevam o valor dos aluguéis, prejudicando as pessoas que estão procurando um lugar para viver.
Ou considere as leis que ditam padrões mínimos para os produtos e serviços. Será que elas não beneficiam a todos? Bem, não. A desvantagem dessas leis é que elas limitam a oferta, reduzem a escolha do consumidor e aumentam os preços (mais uma vez, elas prejudicam, principalmente, os pobres). Por exemplo, leis que exigem normas de segurança para automóveis elevam os seus preços e os tornam inacessíveis para os grupos de renda mais baixa, que são privados de decidirem, por si mesmos, quais os riscos que eles querem assumir nas estradas.
Para ver porque tais regulamentos de 'proteção' têm sérios inconvenientes, imagine que o governo proíba a venda de qualquer carro abaixo da qualidade de um Mercedes Benz. Será que isso não iria garantir que vamos todos estar dirigindo os melhores automóveis e os mais seguros? Mas, claro, somente aqueles que podem pagar um Mercedes Benz ainda estariam dirigindo. Ou pergunte a si mesmo: porque o governo não triplica o salário mínimo? Nós todos estaríamos ganhando muito mais dinheiro, não é mesmo? Bem, aqueles que ainda tivessem emprego, sim. Os outros, não. O governo não pode fazer mágica com suas leis, mesmo que muitas pessoas pensem assim.
Em uma democracia, você tem que fazer o que o governo diz, já que, basicamente, tudo que você faz precisa de permissão do estado. Na prática, aos indivíduos ainda são permitidas muitas liberdades, mas a ênfase é sobre o permitir. Todas as liberdades que temos em uma nação democrática são concedidas pelo estado e podem ser tiradas a qualquer momento.
Embora ninguém peça permissão ao governo antes de tomar uma cerveja, esse consentimento é, no entanto, implicitamente necessário. Nosso governo, democraticamente eleito, pode nos proibir de beber cerveja, se quiser. Na verdade, isto aconteceu nos Estados Unidos durante a Proibição. Hoje em dia você tem que ter 21 anos para que seja autorizado a beber.
Outros estados democráticos têm regras semelhantes. Na Suécia, você só pode comprar bebidas destiladas em lojas estatais. Em muitos países e estados, a prostituição é ilegal. Os cidadãos noruegueses não estão sequer autorizados a 'comprar sexo' fora da Noruega. Na Holanda, você precisa de permissão do governo para construir um galpão ou mudar a aparência de sua casa. Claramente essas são todas instâncias de ditadura, não de liberdade.
É por vezes pensado que, nas democracias ocidentais, a maioria não pode simplesmente fazer o que quiser ou mesmo que as democracias, de fato, tipicamente protegem os direitos das minorias. Isso é um mito. Sim, há atualmente algumas minorias que gozam de 'proteção' especial do estado, como por exemplo feministas, gays e minorias étnicas. Outras minorias, como os mexicanos, fumantes, usuários de drogas, empresários, sem tetos, cristãos — não podem contar com tratamento preferencial. A popularidade de algumas minorias tem mais a ver com a moda do que com a democracia.
Em uma democracia, as razões pelas quais algumas minorias são deixadas em paz ou tratadas preferencialmente, são variadas. Algumas das minorias têm vozes muito ativas e imediatamente saem às ruas quando seus 'direitos' (isto é, privilégios) estão ameaçados. Alguns funcionários públicos ou trabalhadores sindicalizados ou agricultores na França são exemplos desses grupos. Outros são tratados com cautela porque eles são propensos a reagirem agressivamente quando eles têm que cumprir regras, como por exemplo, hooligans ou gangues étnicas, ou ativistas verdes. Se os fumantes, quando ainda eram a maioria, tivessem respondido violentamente quando as suas liberdades estavam sendo espezinhadas, muitas leis antitabagismo, provavelmente, nunca teriam passado.
O ponto principal é, não há nada no sistema democrático em si ou no princípio da democracia que garanta os direitos das minorias. O princípio da democracia é, justamente, que a minoria não tem direitos inalienáveis. O Parlamento ou o Congresso podem aprovar qualquer lei que queiram, sem levar em conta as minorias. E as modas mudam. As minorias mimadas de hoje podem ser os bodes expiatórios de amanhã.
Mas as democracias não possuem constituições para nos proteger contra a legislação tirânica da maioria? Até certo ponto, sim. Mas note que a Constituição dos EUA foi adotada antes de os EUA serem uma democracia. E a Constituição pode ser alterada pelo sistema democrático de qualquer forma que a maioria quiser — e muitas vezes tem sido. A Proibição do Álcool foi aprovada por uma Emenda Constitucional. Assim como o Imposto de Renda. A própria existência de Emendas Constitucionais mostra que a Constituição está sujeita ao controle democrático, isto é, à vontade da maioria. E nem era perfeita a Constituição [dos EUA] original. Ela permitia a escravidão.
Outros países democráticos têm constituições que são ainda menos protetoras da liberdade individual do que a Constituição dos EUA. Nos termos da Constituição holandesa, o estado deve proporcionar empregos, habitação, meios de subsistência, saúde, redistribuição de riqueza e assim por diante. Esta Constituição parece mais um programa eleitoral socialdemocrata do que um manifesto de liberdade individual. A União Europeia tem uma Constituição que diz que ela 'deve trabalhar para o desenvolvimento sustentável da Europa, baseada num crescimento econômico equilibrado e na estabilidade dos preços, numa economia de mercado social competitiva, visando o pleno emprego e o progresso social e um elevado nível de proteção e melhoria da qualidade do meio ambiente'. Aqueles e outros artigos neste documento dão às autoridades europeias muita margem de manobra para regular a vida das pessoas. Aliás, as populações da França e Holanda votaram contra esta Constituição em referendos, mas ela acabou sendo aprovada mesmo assim.
A democracia é também vista, muitas vezes, como andando de mãos dadas com a liberdade de expressão, mas, novamente, isto é um mito. Não há nada nos ideais da democracia que favoreça a liberdade de expressão, como Sócrates descobriu. Os países democráticos têm todos os tipos de regras que limitam a liberdade de expressão. Na Holanda, é proibido insultar a rainha.
Nos Estados Unidos, a Primeira Emenda da Constituição garante a liberdade de expressão, mas 'com exceção de obscenidade, difamação, incitação ao motim e palavras de luta, bem como o assédio, comunicações privilegiadas, segredos comerciais, material secreto, direitos autorais, patentes, conduta militar, comerciais tais como publicidade, e restrições de tempo, lugar e modo'. Um monte de exceções.
Porém, o ponto importante a ser considerado é que a Constituição dos EUA — e a liberdade de expressão que veio com ela — foi adotada antes do advento da democracia. A razão pela qual as pessoas, nas democracias ocidentais, desfrutam de uma série de liberdades não é porque elas são democracias mas porque elas têm tradições liberais clássicas ou libertárias, que surgiram nos séculos XVII e XVIII, antes de se tornarem democracias. Muitas pessoas, nesses países, não querem desistir dessas liberdades, mesmo que o espírito de liberdade esteja constantemente sendo corroído pelo espírito de intromissão democrática.
Em outras partes do mundo, as pessoas têm menos conexões com as liberdades individuais. Muitas democracias não-ocidentais mostram muito pouco respeito pela liberdade individual. Em países democráticos islâmicos, como o Paquistão, as mulheres têm pouca liberdade e nem há liberdade de expressão ou liberdade de religião. Nesses países, a democracia é uma justificativa para a opressão. Se a democracia fosse introduzida em monarquias absolutas, como o Dubai, Qatar ou Kuwait, isso conduziria, provavelmente, a menos liberdade. Os palestinos na Faixa de Gaza elegeram, democraticamente, o fundamentalista Hamas, que não é muito amante da liberdade (um resultado que, ironicamente, não foi na época aceito pelos EUA e pelos outros governos democráticos ocidentais).
Frank Karsten é fundador do Mises Instituut Nederland.  www.mises.nl.
Karel Beckman é escritor e jornalista, editor chefe do European Energy Review.  www.charlieville.nl.
COMENTO: é claro que o texto exagera em seu segundo parágrafo pois no Brasil o cidadão não vai preso por deixar de pagar impostos, multas ou taxas, mas tem sua vida imensamente atrapalhada, o que pode ser considerada como uma prisão. Como complemento, deixo como comentário parte de um texto de Lenilton Morato, cujo teor completo pode ser lido clicando-se AQUI, ele também trata, de forma oblíqua, a forma como o regramento estatal vai sufocando a liberdade, sem melhorar as condições de nossa Democracia.
"... Concentrando em suas mãos os poderes político e econômico e, ainda, a cultura e educação, o Partido-Estado brasileiro infiltrou-se em todos os setores da vida pública. Aparelhou universidade, redações de jornais, rádio e televisão (por meio de seus intelectuais orgânicos e outros idiotas úteis) bancos e empresas estatais, agências reguladoras, sindicatos, conselhos e outras entidades de classes. Isso para falar o mínimo. Com tamanho poder em suas mãos fica muito facilitada a promoção da agenda socialista. Não é à toa que ela está sendo empregada com pleno sucesso. 
Duvidam? Já pararam para pensar que nós não temos mais a liberdade de sermos contrários a uma orientação sexual? Que o proprietário de um bar não tem a liberdade de permitir ou não a entrada de fumantes em seu estabelecimento?(antes do mimimi: ninguém que eu conheça jamais foi obrigado a entrar em qualquer estabelecimento contra a sua vontade); que em nossas escolas, o ensino da chamada "versão oficial da História" foi substituído por uma "versão alternativa" e que esta, sem que nos déssemos conta, tomou o lugar daquela? Já pararam para pensar que todo jornalista ou articulista que se posiciona contra o governo, denunciando o golpe que se aproxima, é afastado de suas funções ou censurado? (mesmo que depois a empresa empregadora volte atrás); que a quantidade de impostos e tributos pune com severidade inacreditável as pessoas que efetivamente geram empregos e riqueza? Já pararam para pensar que o Estado retirou de cada cidadão brasileiro o direito de auto defesa através do Estatuto do Desarmamento? (ok pode-se comprar armas no Brasil, mas a burocracia e os impostos cobrados são tão absurdos que a aquisição se torna completamente inviável). ..."
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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Vítimas do Terrorismo - Agostos

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Neste agosto de 2014, reverenciamos a todos os que, em agostos passados, tombaram pela fúria política de terroristas. Os seus assassinos, sob a mentira de combater uma ditadura militar, na verdade queriam implantar uma ditadura comunista em nosso país. Para isso, atentaram contra o Brasil, desprezando os direitos humanos verdadeiros e os princípios realmente democráticos.
A esses heróis o reconhecimento da Democracia e a garantia da nossa permanente vigilância, para que o sacrifício de suas vidas não tenha sido em vão:

20/08/69 - José Santa Maria (Gerente de Banco - RJ)
Morto por terroristas que assaltaram o Banco de Crédito Real de Minas Gerais, do qual era gerente.

25/08/69 - Sulamita Campos Leite (Dona de casa - PA)
Parente do terrorista Flávio Augusto Neves Leão Salles.
Morta na residência dos Salles, em Belém, ao detonar, por inadvertência, uma carga de explosivos escondida pelo terrorista.

31/08/69 - Mauro Celso Rodrigues (Soldado PM - MA)
Morto quando procurava impedir a luta entre proprietários e posseiros, incitada por movimentos subversivos.

12/08/70 - Benedito Gomes (Capitão do Exército - SP)
Assassinado por terroristas, no interior do seu carro, na Estrada Velha de Campinas.

19/08/70 - Vagner Lúcio Vitorino da Silva (Guarda de segurança - RJ)
Morto durante assalto do Grupo Tático Armado da organização terrorista MR8, ao Banco Nacional de Minas Gerais, no bairro de Ramos.
Sônia Maria Ferreira Lima foi quem fez os disparos que o mataram. Participaram, também, dessa ação os terroristas Reinaldo Guarany Simões, Viriato Xavier de Melo Filho e Benjamim de Oliveira Torres Neto, os dois últimos recém chegados de curso em Cuba.

29/08/70 - José Armando Rodrigues (Comerciante - CE)
Proprietário da firma Ibiapaba Comércio Ltda. Após ter sido assaltado em sua loja, de onde foram roubados 32 mil cruzeiros sem qualquer reação, ele foi seqüestrado, barbaramente espancado, conforme laudo cadavérico, e assassinado a tiros tendo seu corpo lançado num precipício, na Serra de Ibiapaba, em São Benedito, CE.
Autores: Ex-seminaristas Antônio Espiridião Neto e Waldemar Rodrigues Menezes (autor dos disparos), recém chegados de curso em Cuba; José Sales de Oliveira, Carlos Timoschenko Soares de Sales, Francisco William de Montenegro Medeiros e Gilberto Telmo Sidney Marques, todos militantes da ALN.

Os mortos acima relacionados não dão nomes a logradouros públicos, nem seus parentes receberam indenizações mas os responsáveis diretos ou indiretos por suas mortes dão nome à escolas, ruas, estradas e suas famílias receberam vultosas indenizações, pagas com o nosso dinheiro.
Fonte: texto adaptado de A Verdade Sufocada
COMENTO: por uma questão de justiça, também lembrarei aqui alguns membros de organizações terroristas que foram "justiçados" por seus companheiros de luta. Para isso, relato mais um desses "justiçamentos". Trata-se de Amaro Luis de Carvalho, o "Capivara", dirigente do PCR com cursos em Cuba e na China, foi preso do dia 27 Jan 1970 por sequestro de avião em São Paulo e por ter organizado um foco de subversão em Pernambuco onde era líder camponês do Sindicato Rural de Barreiros, tendo sido responsável pelo trabalho militar das ligas camponesas coordenando ações em Pernambuco e Goiás. Ele cumpria sua pena de dois anos de reclusão na casa de detenção de Recife, quando foi morto. Sua morte, ocorrida em 22 Ago 1971, foi atribuída aos seus próprios companheiros de prisão, por represália política. A necropsia, assinada pelos legistas Nivaldo José Ribeiro e Antônio Victoriano da Costa Barbosa indicava “hemorragia pulmonar, decorrente de traumatismo do tórax, por instrumento contundente, o que também consta no atestado de óbito”. Houve denúncias de que os matadores teriam sido Dercílio de Brito, Odilon Marculino e Severino Caboclo, mas nada foi provado. A imprensa divulgou a versão de ataque cardíaco: "Coração trai Capivara a dois meses da liberdade" (Diário da Noite, 24/08/1971); e "Líder do Terror Morreu na Casa de Detenção" (Diário de Pernambuco, 24/08/1971).
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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Terrorismo em Guararapes - 48 Anos

Vídeo sobre o triste e desprezível ato covarde do terrorismo comunista, ocorrido em 25 de JULHO de 1966, por ser necessário relembrar e divulgar aos mais jovens para demonstrar como os bandidos que estão no poder agiam, matando inocentes, e hoje mentem nas comissões que chamam da “verdade”.
Saudações
Ernesto Caruso


Será que naquele local ainda existe a placa com o texto abaixo?
“Homenagem da Cidade do Recife aos que tombaram neste Aeroporto dos Guararapes no dia 25 de julho de 1966 vitimados pela insensatez dos seus semelhantes.
- Almirante Nelson Fernandes – Jornalista Edson Regis 
“Glorificados pelo sacrifício, seus nomes serão sempre lembrados recordando aos pósteros o violento e trágico atentado terrorista,
praticado à sorrelfa pelos inimigos da Pátria.”​

Fonte: adaptado do Blog do Lício Maciel
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domingo, 20 de julho de 2014

'O Correto Uso do Papel Higiênico'

Esta foi a última crônica escrita por João Ubaldo Ribeiro
23 Jan 41 - 18 Jun 2014
O título acima é meio enganoso, porque não posso considerar-me uma autoridade no uso de papel higiênico, nem o leitor encontrará aqui alguma dica imperdível sobre o assunto. Mas é que estive pensando nos tempos que vivemos e me ocorreu que, dentro em breve, por iniciativa do Executivo ou de algum legislador, podemos esperar que sejam baixadas normas para, em banheiros públicos ou domésticos, ter certeza de que estamos levando em conta não só o que é melhor para nós como para a coletividade e o ambiente. Por exemplo, imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28%, com a consequência de que mais lixo será gerado e mais árvores serão derrubadas para fazer mais papel. E a maneira certa de passar o papel higiênico também precisa ter suas regras, notadamente no caso das damas, segundo aprendi outro dia, num programa de tevê.
Tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais. Nos banheiros públicos, como os de aeroportos e rodoviárias, instalarão câmeras de monitoramento, com aplicação de multas imediatas aos infratores. Nos banheiros domésticos, enquanto não passa no Congresso um projeto obrigando todo mundo a instalar uma câmera por banheiro, as recém-criadas Brigadas Sanitárias (milhares de novos empregos em todo o Brasil) farão uma fiscalização por escolha aleatória. Nos casos de reincidência em delitos como esfregada ilegal, colocação imprópria do rolo e usos não autorizados, tais como assoar o nariz ou enrolar um pedacinho para limpar o ouvido, os culpados serão encaminhados para um curso de educação sanitária. Nova reincidência, aí, paciência, só cadeia mesmo.
Agora me contam que, não sei se em algum Estado ou no País todo, estão planejando proibir que os fabricantes de gulodices para crianças ofereçam brinquedinhos de brinde, porque isso estimula o consumo de várias substâncias pouco sadias e pode levar a obesidade, diabete e muitos outros males. Justíssimo, mas vejo um defeito. Por que os brasileiros adultos ficam excluídos dessa proteção? O certo será, para quem, insensata e desorientadamente, quiser comprar e consumir alimentos industrializados, apresentar atestado médico do SUS, comprovando que não se trata de diabético ou hipertenso e não tem taxas de colesterol altas. O mesmo aconteceria com restaurantes, botecos e similares. Depois de algum debate, em que alguns radicais terão proposto o Cardápio Único Nacional, a lei estabelecerá que, em todos os menus, constem, em letras vermelhas e destacadas, as necessárias advertências quanto a possíveis efeitos deletérios dos ingredientes, bem como fotos coloridas de gente passando mal, depois de exagerar em comidas excessivamente calóricas ou bebidas indigestas. O que nós fazemos nesse terreno é um absurdo e, se o Estado não nos tomar providências, não sei onde vamos parar.
Ainda é cedo para avaliar a chamada lei da palmada, mas tenho certeza de que, protegendo as nossas crianças, ela se tornará um exemplo para o mundo. Pelo que eu sei, se o pai der umas palmadas no filho, pode ser denunciado à polícia e até preso. Mas, antes disso, é intimado a fazer uma consulta ou tratamento psicológico. Se, ainda assim, persistir em seu comportamento delituoso, não só vai preso mesmo, como a criança é entregue aos cuidados de uma instituição que cuidará dela exemplarmente, livre de um pai cruel e de uma mãe cúmplice. Pai na cadeia e mãe proibida de vê-la, educada por profissionais especializados e dedicados, a criança crescerá para tornar-se um cidadão modelo. E a lei certamente se aperfeiçoará com a prática, tornando-se mais abrangente. Para citar uma circunstância em que o aperfeiçoamento é indispensável, lembremos que a tortura física, seja lá em que hedionda forma – chinelada, cascudo, beliscão, puxão de orelha, quiçá um piparote –, muitas vezes não é tão séria quanto a tortura psicológica. Que terríveis sensações não terá a criança, ao ver o pai de cara amarrada ou irritado? E os pais discutindo e até brigando? O egoísmo dos pais, prejudicando a criança dessa maneira desumana, tem que ser coibido, nada de aborrecimentos ou brigas em casa, a criança não tem nada a ver com os problemas dos adultos, polícia neles.
A manifestação humana da Simpatia.
Vai fazer falta! 
Sei que esta descrição do funcionamento da lei da palmada é exagerada, e o que inventei aí não deve ocorrer na prática. Mas é seu resultado lógico e faz parte do espírito desmiolado, arrogante, pretensioso, inconsequente, desrespeitoso, irresponsável e ignorante com que esse tipo de coisa vem prosperando entre nós, com gente estabelecendo regras para o que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta ou publicamos e podendo punir até uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social. Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar uma espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos. Temos que ser protegidos até da leitura desavisada de livros. Cada livro será acompanhado de um texto especial, uma espécie de bula, que dirá do que devemos gostar e do que devemos discordar e como o livro deverá ser comentado na perspectiva adequada, para não mencionar as ocasiões em que precisará ser reescrito, a fim de garantir o indispensável acesso de pessoas de vocabulário neandertaloide. Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se.

sábado, 12 de julho de 2014

Segurança Não é Para Amadores‏

A SEGURANÇA DE AUTORIDADES E OS ESCÂNDALOS DO BRASIL
por Vinicius Domingues Cavalcante
Em fins de junho de 2014, ainda no transcurso da Copa do Mundo, os jornais reportavam que, na abertura da competição, um sniper que cobria a tribuna das autoridades teria solicitado autorização para disparar contra um policial do esquadrão de bombas da PM de São Paulo, que circulava uniformizado e armado por uma área onde a sua presença não seria esperada, junto ao palanque onde se encontrava a Presidente Dilma Roussef, o Vice-Presidente Michel Temer, o Presidente da FIFA, o Secretário Geral das Nações Unidas e diversos outros dignitários do exterior. 
Sabedor de uma grande quantidade de atentados perpetrados por criminosos travestidos de policiais, o atirador desconfiado, teria inquirido sobre o alvo ao comando da operação que teria assegurado que o suposto policial militar não estaria autorizado a estar ali. Em face da resposta ele teria pedido autorização para disparar. Segundo narrava a notícia o comando da operação solicitou que ele aguardasse, e teriam transcorrido alguns minutos até que um policial na sala de controle o identificou como um integrante do grupo policial de elite da PMESP, que teria se dirigido ao local em face de uma suspeita de artefato explosivo.
Tenho cá certas dúvidas se alguém, além do policial militar do GATE, realmente correu riscos nessa situação. Os dignitários no palanque tinham uma segurança aproximada que deveria estar bem próxima ao policial militar que ingressou na área restrita e ele, a menos que estivesse muito próximo de uma autoridade, talvez sequer tivesse chance de efetuar um disparo. Ressalte-se que ele, na condição de técnico de explosivos circulando numa área estéril e controlada, não deveria estar portando fuzis, granadas, só mesmo sua pistola de uso pessoal. Frente à segurança que deveria existir naquele local não acredito que um único agressor apresentasse assim tanto perigo; mas a verdade é que, como objetivo de tais missões, o risco tem de ser zerado, e a segurança, a mais perfeita que for possível!
Garantir a segurança de dignitários num evento como a Copa envolve muitos profissionais das mais diferentes instituições. Isso torna a coordenação desses eventos algo que requer muito trabalho e planejamento. A execução das missões de segurança com muitas agências pode realmente gerar equívocos, tanto pela dificuldade de comunicação entre as agências, pela distribuição de atribuições no âmbito do planejamento e até na interpretação equivocada de ordens. Quando eu era "menudo" vi o DPF e os Fuzileiros quase se engalfinharem em Salvador, por problemas quanto à divisão de missões numa segurança de dignitários...
Curiosamente, quando a notícia apareceu nas redes sociais, as postagens me surpreenderam, não por analisarem eventuais falhas no esquema da segurança ou cobrarem providências para que elas não mais venham a ocorrer, mas por sugerirem que a tarefa do policial deveria ser a de disparar contra as próprias autoridades brasileiras que estavam no local. Isso me remeteu a outros tempos...
Houve uma época, enquanto eu ainda engatinhava na atividade de segurança de dignitários, que um velho Mestre costumava dizer: “Neste ramo, ninguém consegue render 110% se não estabelecer para com o protegido um forte laço de admiração”. É fácil compreender a verdade que tais palavras encerram, pois se o agente de segurança é o principal responsável pela completa integridade de uma pessoa, e se tal “serviço”, ao menos teoricamente, tem prioridade sobre a vida do próprio agente, não se imagina que o segurança assuma para si a tarefa de correr máximos riscos por alguém a quem ele — intimamente — não imaginasse valer à pena. Embora se possa discorrer laudas sobre o que se entende por profissionalismo neste ramo de atividade, e saiba que inúmeros agentes morrem no desempenho cotidiano das missões de segurança pessoal, estou certo de que o empenho e o arrojo do homem na atividade de proteger uma autoridade está diretamente associado ao conceito em que ele tem aquele dignitário. Sendo a vida o nosso bem mais precioso, ninguém me convenceu até hoje, que um segurança — por mais profissional que ele apregoe ser — se disporá a trocá-la pela de um segurado que ele considere não ser merecedor de tal sacrifício. Em última instância, em se tratando de uma atividade de extremo risco, o segurança sempre pode vir a perecer num atentado, porém aqueles relatos de reações de agentes em que transparece um admirável senso de dever, bravura e despojamento são de uma relação que, no meu entender, transcendem ao mero relacionamento profissional, onde os guardiões se empenham por alguém que, sabem, merece ser realmente protegido.
Hoje os fatos da crônica política brasileira envergonham-nos mais do que em outras épocas. Talvez nem tanto pelos montantes de dinheiro sujo envolvidos, mas pelo fato de que as esperanças de uma expressiva parcela da nação brasileira foram levadas de roldão. Numa avalanche de histórias de corrupção agravadas pela flagrante desonestidade intelectual, inúmeras autoridades assumiram, de fato, que seu discurso bonito e democrático proferido ao longo de anos se destinava apenas a permitir-lhes galgar o poder, apropriar-se dos recursos da nação e geri-los ao seu bel prazer. Com a onda de escândalos envolvendo políticos e altas autoridades, por dever de ofício não daria pra deixar de pensar no que vai pela cabeça dos homens a quem o Estado paga para protegerem tais pessoas. Convenhamos, não se trata de uma tarefa fácil. Estar diuturnamente protegendo alguém acarreta, quase que de forma inconsciente, observar-lhe os hábitos e avaliar seu caráter e sua personalidade. No desempenho de suas tarefas diárias o homem de segurança acaba obrigatoriamente por penetrar na intimidade dos segurados: conhece os locais por onde ele circula, estabelece seus círculos de amizade, sobretudo, às vezes vê e ouve muito mais do que seria desejável para a manutenção da privacidade do protegido.
Nesse contexto, o segurança, com extremo profissionalismo, a tudo presencia, assiste, escuta e se cala, mantendo uma postura crítica e se autopoliciando de forma a não imiscuir-se na vida daquele a quem está protegendo. Porém é aí que reside o “X” da questão: quando se começa a conhecer a fundo quem se está protegendo, muitas das vezes o segurança pode esbarrar em indícios dos escândalos como os que hoje, como cidadãos, assistimos chocados. A segurança de um dignitário é uma “função de Estado”, na medida que se protege o detentor do cargo, independentemente de quem for. Os agentes de segurança são funcionários públicos de carreira, que, ao menos teoricamente deveriam agir de forma apolítica, protegendo ao governo do dia, independentemente de sua matiz partidária ou ideológica. Trata-se de uma questão quase marcial; normalmente diríamos que não compete aos seguranças emitir conceitos de juízo acerca da personalidade protegida, porém, na realidade isso se torna muito difícil em virtude da impossibilidade humana de abstrair-se dos próprios sentimentos.
Embora desde o princípio dos tempos, todas as instituições e as boas ideias da humanidade sempre necessitassem da proteção de guerreiros profissionais escolhidos, a história nem sempre registra o que tais homens pensavam acerca da tarefa que lhes era creditada, sobretudo em conjunturas como a que vivemos atualmente no Brasil.
É um dilema excepcionalmente complexo: como que o cidadão, cujos bons princípios, a retidão de caráter e honestidade se constituíram em atributos essenciais para a sua seleção no âmbito de um serviço de segurança de autoridades, pode tomar conhecimento de atos lesivos ao interesse da nação a quem serve e passivamente silenciar-se? A alegação de que “Eu estou aqui para proteger e não sou pago para ficar observando essas coisas” conflita com o escrúpulo daquele que vai deparar-se com a malversação dos esforços do povo e dos impostos que ele próprio, enquanto cidadão, paga sem poder reclamar. Vendo autoridades procederem de forma criminosa na gestão da coisa pública, os profissionais responsáveis por proteger podem revoltar-se enquanto cidadãos, e isso vai comprometer a sua atuação como segurança daqueles dignitários. Quem de sã consciência vai querer correr risco por alguém que achamos, deveria estar encarcerado, cumprindo pena? É possível trabalhar normalmente, salvaguardando a integridade de alguém que desvia o dinheiro dos programas assistenciais mais urgentes, da educação, dos remédios, hospitais e do leite das nossas criancinhas? Não pretendo discutir brios profissionais com quem quer que seja, porém, por mais devotado à instituição a que trabalha, tenho minhas dúvidas se o profissional estará disposto realmente disposto a por sua vida em jogo para defender uma autoridade desse quilate. 
Seguranças pessoais descontentes com a atuação de seus dignitários são um perigo que não pode ser desprezado. Em 1984, a Primeira-Ministra da Índia, Indira Gandhi foi assassinada por membros de sua própria guarda pessoal, pertencentes à etnia Sikh. Um dos assassinos, o inspetor Beni Singh, integrava em sua segurança pessoal há dez anos e era guarda-costas em que Indira Gandhi mais confiava. O crime fora motivado como represália à invasão, por ordem da Primeira-Ministra, do Templo Dourado dos sikhs em Amristar, quando morreram oitocentos sikhs, seu líder máximo Singh Bhindranwale e cem soldados hindus. Mesmo sem chegar ao extremo da execução, não nos faltam histórias de informações reservadas, deliberadamente divulgadas por assessores, seguranças e motoristas particulares. O testemunho de um motorista, profissional que obrigatoriamente deve inserir-se no círculo de segurança de um dignitário, foi fundamental para a aprovação do processo de “impeachment “ do presidente Collor. Em 1995, depois de vinte dois anos, o mundo ficou sabendo que informações essenciais sobre o escândalo Watergate, o qual culminou com a renúncia do presidente americano Richard Nixon, foram vazadas pelo então vice-Diretor do FBI.
O que devem fazer os seguranças se, ou quando, descobrem que aquele a quem protegem não merece mais do uma boa condenação criminal por improbidade administrativa ou por outros ditos “crimes de colarinho branco”? Agir em perfeito acordo com o que manda sua própria consciência! Fazer o que acha que deve ser certo!...
Num homem, a linha que divide o profissional de segurança pessoal do cidadão é tênue, às vezes imperceptível. Só criminosos ou gente de índole suspeita contrataria alguém sabidamente desonesto como guardião de sua integridade. O agente encarregado de segurança de uma autoridade deve obrigatoriamente ser íntegro e um homem íntegro, ao menos em tese, não se presta ao conluio com dignitários de moral duvidosa. Em se tratando da segurança de autoridades públicas, o profissionalismo, completamente dissociado do senso do dever cidadão, me cheira ao mercenarismo. Eu particularmente não conheço bons agentes de segurança pessoal que trabalhem apenas por dinheiro. No Brasil de hoje acredito que essa combinação de “proteger sem refletir ou fazer perguntas” se insira num contexto até muito mais grave, talvez até quadrilhesco. Em nome da gratificação que recebem, alguns homens (e mulheres) acabam por fazer vista grossa para o fato de que seus protegidos são ladrões do erário e acabam se tornando, de certa forma, cúmplices daqueles que estão “por cima”.
Não é meu intento fazer apologia à traição, delação e muito menos instando ao assassinato dos maus dignitários, mas é fato que este país precisa de verdadeiros profissionais, que sejam tecnicamente hábeis, éticos e corretos, independentemente de sua esfera de atuação. Na administração pública, na política e também na segurança, precisamos de pessoas que sejam capazes de fazer aquilo para o qual se qualificaram, capazes de honrar palavra, compromissos e proceder com a lisura que sempre, com muito mais propriedade, cobraram aos outros. Autoridades decentes com certeza serão protegidas com muito mais empenho, por seguranças conscientemente leais, cada vez mais devotados à boa desincumbência de seus afazeres. O segredo sempre vai ser tentar se constituir naquele exemplo que, se espera, possa inspirar aos outros; ou, adaptando as palavras de Claudiano: “Regis ad exemplum totus componitur orbis” (“O mundo inteiro regula-se pelo exemplo do Rei”).
Vinicius Domingues Cavalcante, é Consultor em Segurança 
e Diretor da Associação Brasileira de Profissionais de Segurança – ABSEG – Rio de Janeiro.
E-mail:  vdcsecurity@hotmail.com

terça-feira, 8 de julho de 2014

O Tempo em que Brizola foi o Homem de Fidel no Brasil

O dirigente cubano parece ter acreditado que Brizola era o Fidel do Brasil e enviou um milhão de dólares para sua guerrilha, que não ocorreu
Imagem: Rede mundial
Se a história do Egito é inesgotável — daí a permanência de uma indústria editorial que inventa e reinventa romancistas-historiadores-arqueólogos —, imagine a história recente brasileira, sobretudo a pós-64. Em 1987, José Wilson da Silva lançou um livro, “O Tenente Vermelho”, que conta, entre outras histórias, que “Fidel Castro entregou 1 milhão de dólares para os exilados brasileiros no Uruguai (Brizola, Jango e Darcy Ribeiro) financiarem movimentos de guerrilha no Brasil”. O livro de José Wilson é muito interessante, mas pessimamente editado pela Tchê!, o que certamente reduziu a sua repercussão. Treze anos depois, a doutora em história pela Universidade Fluminense Denise Rollemberg amplia o que José Wilson antecipou. No livro “O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil — O Treinamento Guerrilheiro” (Editora Mauad, 2001), de apenas 94 páginas, Denise produz um documento de grande valia, ainda que lacunar, pois Brizola e José Dirceu, por exemplo, não quiseram falar sobre suas relações com Cuba. Denise também não conseguiu fazer entrevistas em Cuba, porque a bolsa do CNPq “exclui qualquer possibilidade de viagem ao exterior”. De resto, o livro de Denise parece sugerir, mais do que um texto definitivo, uma obra em andamento. O leitor especializado certamente achará estranha a ausência, na bibliografia, dos livros “O Tenente Vermelho”, de José Wilson, e “A Revolução Impossível”, de Luís Mir.
Pode-se dizer que a guerrilha brasileira (no fim da década de 60 e no início da década de 70) foi financiada por Cuba e pelos bancos (assaltados ou, como quer a esquerda, “expropriados”). Mas Cuba não só apoiou com dinheiro — menos certamente do que se costuma pensar, pois Cuba não era uma mina de ouro — a esquerda armada. O governo da pequena ilha, duas vezes menor do que Goiás, treinou, na avaliação do Centro de Informações do Exército, 219 militantes “treinados ou suspeitos de terem treinado em Cuba”.
Treinar em Cuba era como estudar em Harvard ou Cambrigde, segundo Mário Japa (codinome de Shizuo Osawa): “Todo mundo queria ir. Era quase um batismo de fogo: tinha que participar de uma ação militar e tinha que ir treinar em Cuba”.
A força de Fidel
As “pequenas” interpretações de Denise valem o livro, aqui e ali incompleto, mas sempre instigante. Baseada no livro “Vida e Morte da Revolução Cubana” (que tem um capítulo com o título de “Exportar a Revolução”), de Benigno (nome de guerra de Dariel Alarcón Ramírez), Denise conclui que Fidel não pensava tão-somente em construir o socialismo em outros países. Pensava além disso: queria mostrar aos seus inimigos, aos próximos e aos não tão próximos, que o pequeno país era forte e, até mesmo, financiava a revolução em outros pontos, como no gigantesco Brasil. Assim, a exportação da revolução tinha como objetivo assegurar o socialismo cubano, a manutenção da revolução cubana.
Apesar das pressões da União Soviética — que não apostava na exportação da revolução —, Fidel Castro continuou incentivando os guerrilheiros até meados da década de 70. Antes disso, conta Denise, “os revolucionários passaram a contar a história da vitória (da Revolução Cubana) de tal maneira que construíram um dos maiores mitos da esquerda latino-americana dos anos 1960: o do foco guerrilheiro”. O foco guerrilheiro teria construído a revolução, mas, ressalva Denise, propositadamente, para ampliar a força do foco, ignorou-se a conjuntura. “Quando os revolucionários desembarcaram em Cuba, um episódio tantas vezes narrado como um quadro épico, não estavam sozinhos. Ao contrário, encontravam uma situação plenamente favorável à sublevação.”
Entre julho e agosto de 1967, a conferência que gerou a Organização Latino-Americana de Solidariedade (OLAS) decidiu que, como olas (ondas), a revolução seria estendida em toda a América Latina. Apesar das resistências dos dirigentes soviéticos, a rota dos guerrilheiros para chegar a Cuba passava por Moscou e Praga.
Denise mostra que Fidel apoiou a “revolução” brasileira mesmo antes de 1964. “Quanto à revolução brasileira, Cuba apoiou a formação de guerrilheiros, desde o momento em que assumiu a função de exportar a revolução, quando o Brasil vivia sob o regime de democrático do governo João Goulart, ou seja, antes da instauração da ditadura. A maior parte foi treinada a partir de 1968, quando Cuba já havia se voltado para a construção do socialismo em único país, com o apoio da URSS. Embora um caso isolado, chegou a haver treinamento mesmo ao longo de 1973, quando a guerrilha no Brasil já estava aniquilada, à exceção da guerrilha do PC do B, no Araguaia (1972-1974).”
As Ligas Camponesas
As Ligas Camponesas surgiram em 1955 e se destacaram na década de 1960. As Ligas eram lideradas por Francisco Julião e uma ala ligada ao Partido Comunista Brasileiro, representada pelo advogado e ex-deputado estadual Clodomir dos Santos Morais. Radical, a ala afastou-se do PCB, então acusado de ter uma atitude conciliatória com a “burguesia” brasileira. Mesmo colocando-se como aliado de Cuba, Julião não era tão radical quando parecia o seu discurso. “Mantendo relações estreitas com Cuba e radicalizando suas posições nos famosos discursos que fazia, Julião, entretanto, se opôs à facção favorável à guerrilha, liderada por Clodomir Morais, Carlos Montarroyo e Tarzan Castro [Denise exclui o “de” — Tarzan de Castro]. Julião, inclusive, participou das eleições, nesse mesmo ano de 1962, apesar de criticá-las, como candidato a deputado federal.”
Denise conta que, “com Clodomir Morais, dissidente do PCB, deu-se início à formação dos campos de treinamento de guerrilhas no Brasil com o apoio de Cuba. (...) O apoio de Cuba se concretizou na implantação desses campos, na verdade, fazendas compradas, em Goiás, Acre, Bahia e Pernambuco, ‘formados por alguns camponeses e, em sua maioria, estudantes secundaristas e universitários vindos de Pernambuco’.” (O trecho entre aspinhas foi extraído do livro “As Ligas Camponesas”, de Fernando Antônio Azevedo, da Editora Paz e Terra.) Denise acrescenta: “Houve ainda o fornecimento de armas, dinheiro e orientação para a implantação da guerrilha. Apesar do fluxo constante de lideranças e militantes a Cuba, o treinamento seria dado no Brasil”.
Em 1962, o governo de João Goulart “desbaratou o plano de formação de um campo de treinamento das Ligas, no interior de Goiás, Dianópolis” (hoje, Tocantins). Entre os guerrilheiros estavam os goianos Tarzan de Castro e João Neder (promotor de justiça aposentado). O líder era Carlos Montarroyo. De início, eles conquistaram o povo mais pobre da região, mas depois, sob a acusação de comunistas, foram rechaçados.
O Fidel brasileiro
Com a queda das Ligas Camponesas como agente da revolução, ainda antes do golpe de 64, Fidel Castro e seus aliados voltaram-se para Leonel Brizola, o, quem sabe, Fidel brasileiro, um homem de classe média como o cubano. Exilado no Uruguai, Brizola, no início, só pensava num contragolpe. “Brizola resistia à teoria cubana do foco, tão em moda na época, preferindo a ‘tradição gaúcha’: ‘Falava [Brizola] de sua teoria do carvalho [guerrilha] e da batatinha [contragolpe, levante popular]. O carvalho demora para crescer e a batatinha dá ligeiro”, escreve Denise, aqui baseada em “A Rebelião dos Marinheiros” (Editora Artes e Ofícios), de Avelino Bioen Capitani.
No Uruguai, como se fosse uma espécie de coronel (ou general, para ser mais apropriado), Brizola “agrupou em torno de si os sargentos e marinheiros expulsos das corporações e perseguidos pelos militares e formou uma espécie de Estado-Maior com o ex-deputado Neiva Moreira, o seu assessor no governo no Rio Grande do Sul, Paulo Schilling, o ex-deputado pelo PSB, Max da Costa Santos, e o coronel Dagoberto Rodrigues”, relata Denise.
Como a quartelada não deu certo — os militares estavam firmes no poder, com o presidente Castello Branco obtendo grande apoio no meio civil —, “Brizola acabou ‘aderindo’ à teoria do foco guerrilheiro cubano. A partir daí, os planos da luta armada ganharam novos rumos. Seriam implantados três focos: um na Serra de Caparaó, na divisa de Minas Gerais e Espírito Santo, sob o comando do ex-sargento Amadeu Felipe; um no norte do Mato Grosso (fronteira com a Bolívia), comandado por Marco Antônio da Silva Lima, ex-fuzileiro naval; e outro na região norte de Goiás, que acabou se concentrando em Imperatriz, oeste do Maranhão, sob o comando de José Duarte, ex-marinheiro, também treinado em Cuba. Haveria mais ‘um grupo de apoio na região fronteiriça do RS até MT’”, escreve Denise. [José Duarte mora em Goiânia.]
A historiadora avalia que, “provavelmente, a possibilidade de contar com o apoio do governo cubano tenha sido decisiva para a reorientação de Brizola”. Denise expõe as contradições: “Muitos defendem que a ‘adesão’ de Brizola ao foco merece aspas, e nada tem de ideológico, mas sim de circunstancial. Flávio Tavares, no entanto, testemunha todo o entusiasmo de Brizola com a possibilidade de reeditar a experiência cubana no Brasil e com o poder que o treinamento teria de transformar homens em guerrilheiros, em uma estranha metamorfose, fazendo deles não super-homens, mas bichos”.
Escreve Flávio Tavares, no livro “Memórias do Esquecimento” (Editora Globo): “Brizola estava literalmente inundado pela concepção de guerrilha, lia revista do Vietnã do Norte e me contou, inclusive, que fazia exercícios de tiro e assalto a baioneta. (Seu instrutor, o coronel Atila Escobar, da Brigada Militar gaúcha, com formação convencional de quartel, já estava lendo — ou prometera ler — o manual de guerrilhas do Che Guevara.) Toda a veemência dos seus 43 anos concentrava-se em defender o ‘foco’”. Em seguida, Tavares ressalva: “No fundo, bem no fundo, ele nunca esteve muito convencido da guerrilha e aceitara tudo, e assimilara tudo, na maré que invadia o exílio uruguaio”. Poderia se dizer de modo diferente: não havia outra opção — era aceitar o apoio cubano, com sua ideia de revolução baseada no foco, ou nada. Brizola e seus aliados fundaram o Movimento Nacionalista Revolucionário (a Revolução Cubana, no seu início, não era rigorosamente comunista).
Os contatos de Brizola se deram, inicialmente, por intermédio da Embaixada Cubana em Montevidéu, segundo Paulo Schilling. Brizola, como diz Denise, não gosta de falar sobre o dinheiro cubano. Escreve a historiadora: “Ninguém parece saber a quantia recebida. Brizola nunca prestou conta do dinheiro nem a Cuba nem aos militantes, fosse dirigentes ou de base. Tinha-o como um ‘empréstimo pessoal’, a ele Brizola, e que seria devolvido. Acredita-se ter havido gastos nos quais o dinheiro foi usado, mas apenas uma parte”.
Avelino Capitani apresenta sua versão: “Dizem que Cuba deu muito dinheiro para o MNR, para o Brizola... (...) O dinheiro foi mandado, Cuba diz que mandou, mas não chegava à guerrilha, chegava muito pouco”. Denise acrescenta: “Brizola nunca teria ajudado os guerrilheiros presos e suas famílias com o dinheiro de Cuba”. Adversários de Brizola costumam dizer que Fidel Castro, durante muito tempo, o chamava de “El Ratón”.
“O Tenente Vermelho”, livro aparentemente não consultado por Denise, que não o cita, é revelador (e não foi desmentido por Brizola). Escrito pelo capitão José Wilson da Silva (o tenente vermelho, na época), que foi assessor militar de Brizola, o livro é, no mínimo, polêmico. Na página 201, no capítulo “Os discutidos recursos”, José Wilson escreve: “Participei de quase tudo que foi feito lá [no Uruguai], nos tempos mais quentes, desde o comando do coronel Jefferson e Alvarez até o grupo menor em torno de Brizola. Não sabia de tudo o que Brizola fazia, porque ele nunca abre o jogo completo, mas a grande maioria dos fatos que lá se passavam eu terminava sabendo, geralmente por ele próprio, por estar incluído no grupo mais chegado. (...) Que eu saiba, o primeiro contato feito com Cuba foi através do deputado uruguaio Ariel Collazo, levando nossa disposição de uma retomada da democracia no Brasil”.
Segundo José Wilson, “Fidel enviou, a título de ajuda, 500 mil dólares. Desta importância, segundo um relatório de Brizola para nós, um terço teria ficado com Jango, pois a este estavam ligados vários exilados necessitados. Outro terço teria ficado com Darcy Ribeiro, por questão de segurança e que também tinha parte de responsabilidade. O outro terço teria ficado com Brizola. Lembro-me que ele, Brizola, ficou muito aborrecido porque as ações mais positivas estavam sendo feitas pela nossa gente e ficamos desse modo com relativamente pouco dinheiro. Parte desta importância foi gasta com elementos no exílio, parte com a assistência a companheiros no Brasil em situações críticas, como presos com a família sem recursos etc., e parte com os nossos homens-correios para implantação já de esquemas de trabalho, aliás, tudo em função de um plano de ação armada”.
José Wilson acrescenta: “Mais tarde o companheiro Lélio Carvalho completou outro contato com Fidel no acerto de novo auxílio que foi realizado e canalizado por Darcy Ribeiro. Mais 500 mil dólares, estes sim, em sua maioria para o esquema de resposta armada. (...) Com aquele dinheiro foi possível montar alguns esquemas de arregimentação no Brasil, com o do companheiro Daudt que comprou um mato de eucaliptos para comercializar, disfarçando o real motivo de reunir um elevado número de homens para ação armada. Até hoje há pessoas que dizem ter Daudt comprado uma fazenda com dinheiro do Uruguai, enquanto outros passavam necessidades. Não sabiam o risco que Daudt estava correndo para tentar reunir gente disposta. (...) Alguns receberam e empregaram mal o dinheiro. (...) Com este dinheiro foi montada quase toda a operação Caparaó, último recurso e esperança de fazer algo, talvez para justificar o precioso recurso vindo do povo sofrido de Cuba. Fidel teria se disposto a colaborar com mais recursos, caso as ações entrassem em prática, mas com 4 mil toneladas de açúcar para serem colocadas em compradores da Europa. Como não tínhamos vendedores nem as ações tiveram prosseguimento, este auxílio não se concretizou. Este açúcar poderia ter dado à época cerca de 4 milhões de dólares”.
Há uma história no mínimo curiosa contada por José Wilson: seus companheiros Maranhão (engenheiro) e Saulo Gomes (jornalista) assaltaram ou “desapropriaram” um cofre de João Goulart e levaram dólares.
Guevara e Brizola
Em 1966, ano do início da guerrilha (que não houve) de Caparaó, Che Guevara teria se encontrado com Brizola, em Montevidéu. Benigno garante que outras cidades, mas não Montevidéu, estavam na rota de Che. “Capitani afirma que o coronel Dagoberto Rodrigues, do MNR, acompanhou Che do Uruguai à Bolívia. Nesta mesma época do possível contato de Che com Brizola, teria havido o encontro de Che, em São Paulo, com Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, dirigentes da ALN. Capitani atesta que o foco do Mato Grosso e a frente fronteiriça tinham a função de manter a ligação com Che e outra frente no norte do Paraná manteria a conexão nas fronteiras. Não fica claro, no entanto, como se daria esta ligação. A própria escolha de Caparaó pode ter a ver com as articulações com Cuba”, registra Denise.
Apesar das evidências, mas na falta da confirmação de Brizola e Neiva Moreira, a historiadora é cautelosa. Ela diz que fica difícil “saber se seus projetos [de Brizola] estavam — e como estavam —, de fato, articulados ao de Che Guevara”. As relações entre Fidel e Brizola se tornaram tensas ao longo do tempo. Não restou nenhuma admiração de um pelo outro. Brizola não fez a revolução — não conseguiu ser o Fidel brasileiro. Fidel, segundo alguns, não teria enviado os recursos necessários. De resto, Fidel abandonou Brizola e sua turma e passou a negociar diretamente com a esquerda radical e internacionalista, como a Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighella.
Versão de José Dirceu contraria tese da historiadora Denise Rollemberg
A historiadora Denise Rollemberg não conseguiu entrevistar o deputado José Dirceu (PT), um dos integrantes do Molipo. Mas José Dirceu falou comigo, em abril de 1999, no seu gabinete de deputado federal em Brasília (sentados ao seu lado, estavam Marco Aurélio Garcia, o hoje ideólogo do governo Lula, e o advogado Sebastião Ferreira Leite, o Juruna), sobre a sua participação no Movimento de Libertação Popular, e sua versão é diferente das versões apresentadas pela pesquisadora e seus entrevistados.
José Dirceu conta que morou na casa, em Cuba, onde se deu a cisão, na Ação Libertadora Nacional (ALN), que originou o MOLIPO. “Fui convidado por amigos e companheiros de longa data do movimento estudantil para morar numa casa e a direção da ALN não quis. Mas esses companheiros se impuseram e eu fui morar nessa casa. Convivi com esse grupo todo e voltei com ele para o Brasil. (...) Insisto num ponto: em 1971, fui convidado para morar na casa dos futuros fundadores do MOLIPO. Qual era o meu cacife? Tinha sido líder estudantil no Brasil”, conta José Dirceu. “Eu voltei para o Brasil, em 1971, pelas mãos do MOLIPO. Mas não consegui ficar clandestino no Brasil. Como não havia condições objetivas de sobrevivência, voltei para Cuba.”
Se foi integrante do MOLIPO, José Dirceu diz que não chegou a liderá-lo. “Eu não era nada no Molipo.” E, aqui, se revela a divergência básica em relação à tese esboçada no livro “O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil — O Treinamento Guerrilheiro”, de Denise Rollemberg: “A tese de que os cubanos incentivaram a criação do MOLIPO é equivocada. Eu sou testemunha de que os cubanos eram contra a nossa volta para o Brasil. Como eles não queriam que eu voltasse em 1974 para o Brasil. Durante mais de um ano eles me seguraram”.
Fonte:   Revista Bula
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