quinta-feira, 5 de abril de 2018

A Fábula do Leão Manso

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A respeito da gritaria generalizada vinda de canalhas de diversos naipes e pelos, como reação à manifestação do Comandante do Exército, me lembrei de uma velha fábula que bem retrata o ocorrido.
O Leão Manso
por Jacornélio M. Gonzaga
Era uma vez um homem que tinha um leão. Comprou-o recém nascido, para criá-lo em sua casa. 
A casa do homem era grande e bonita, construída em um enorme terreno onde o homem tinha flores e frutos e os cuidava e guardava com muito orgulho e carinho. 
O leão, quando grande, pela presença, deveria dissuadir os invejosos de suas inconfessáveis ambições sobre sua rica propriedade.
O tempo foi passando, e o leão, tratado com carinho e bem alimentado, cresceu bonito e forte, impressionando a todos pelo tamanho e pela obediência ao homem, era realmente muito disciplinado.
O homem tinha muito orgulho do leão e de si próprio, afinal, a ideia de ter um felino daquele porte lhe trazia grande tranquilidade. Sua simples presença era a garantia de que ninguém ousaria adentrar, sem seu conhecimento, na rica propriedade. Todos admiravam, respeitavam e temiam o leão.
Com o passar dos anos, o homem achou que havia nas redondezas um temor exagerado de seu leão, além do que ele julgava necessário. Até seus vizinhos evitavam passar por perto dos muros da casa, com medo do leão.
Embora ele afirmasse que o leão era manso, todos o temiam. Havia gente que perdia o sono ao ouvir um simples rugido do leão.
O homem, preocupado com o temor dos vizinhos, valendo-se da disciplina e da obediência do leão, condicionou-o a fazer e manter o silêncio! O leão, submisso, parou de rugir, apenas ronronava, era a única manifestação de seu instinto que a autoridade do dono lhe permitia!
O silêncio do leão tranquilizou as redondezas e convenceu a todos de que o leão era realmente manso.
Passado algum tempo, o homem acordou pela manhã e deparou-se com pichações nos muros de sua preciosa casa, devastação no jardim e no pomar, flores e frutos roubados, e constatou, horrorizado, que a presença do leão não intimidava mais os invejosos, eles haviam constatado que o leão era inofensivo, guardavam-lhe a admiração pelo porte e pela obediência mas não mais o respeitavam, pois era inofensivo, sequer rugia!
Moral da história: "O leão pode ser disciplinado e obediente, mas não inofensivo, precisa, pelo menos, rugir de quando em vez para se fazer respeitado".
Fonte:  Ternuma

terça-feira, 3 de abril de 2018

A “História” Recontada

por  Hiram Reis e Silva
Um povo sem história é um povo vazio. E quem não relembra os feitos de seu povo, não vive, não tem alma, não sente a vida, não vibra”. (Leon Frejda Szklarowsky)
Muro de Berlim
É deprimente verificar o que professam os historiadores de hoje. Forjados, na sua maioria, por uma ideologia ultrapassada e decadente continuam comportando-se como legítimos órfãos do muro de Berlim, insistindo em manter vivo um sistema político desde há muito morto, enterrado e putrefato. São sociólogos, ideólogos, filósofos, professores e políticos que procuram moldar os corações e mentes dos jovens e despreparados estudantes e de uma população anestesiada pelas benesses patrocinadas pela máquina publica através das famigeradas, virulentas e aliciadoras bolsas.
- “Ressignificação da Memória”
A historiografia moderna está de tal forma impregnada pela ideologia ParTidária que se torna cada vez mais difícil ter acesso à versão real dos fatos. Os novos “historiadores” se preocupam, por demais, em atrelar suas convicções ideológicas aos eventos históricos comprometendo, com isso, a veracidade dos acontecimentos.
A “história” reescrita pelos derrotados da “Revolução Redentora de 31 de Março” é carregada de revanchismos e atentados contra os verdadeiros heróis da nacionalidade brasileira transformando-os em vilões enquanto os traidores, ladrões, assassinos e mutiladores de outrora são enaltecidos. Os “pseudo historiadores”, a serviço do ParTido, são capazes de ultrajar a figura de um Duque de Caxias e enaltecer à do déspota paraguaio Solano Lopes. Os livros de história distribuídos pelo Ministério da Educação são um ultraje à memória de nossos antepassados e a inteligência do povo brasileiro.
- “Ressignificando” a Balaiada
O termo “ressignificar” amplamente usado pelos alienados “Companheiros Acadêmicos” foi, na verdade, a maneira encontrada pelos militantes “PeTralhas” de atribuir um significado “politicamente correto”, segundo a visão deles, é claro, a eventos considerados não alinhados com a ideologia do ParTido.
A Balaiada, por exemplo, foi uma ameaça à integridade nacional. Caso não tivesse sido debelada por Caxias, o Maranhão teria se tornado a “República Bem-Te-Vi”. Cosme Bento das Chagas, um dos líderes do movimento, que a esquerda enaltece como um campeão da igualdade, e se autodenominava “Imperador, Tutor e Defensor das Liberdades Bem-te-vis”, vendia títulos e honrarias a seus sequazes (qualquer semelhança com os políticos atuais não é mera coincidência).
O historiador, geógrafo, escritor, político e editor marxista Caio Prado Júnior depois de uma visita à União Soviética, na época de Stálin, publicou “URSS - Um Novo Mundo (1934)”, cuja edição foi apreendida pelo Governo Vargas. Em relação à Balaiada, Prado Júnior faz a seguinte consideração:
na origem deste levante, vamos encontrar as mesmas causas que indicamos para as demais insurreições da época: a luta das classes médias, especialmente urbana, contra a política aristocrática e oligárquica das classes abastadas, grandes proprietários rurais, senhores de engenho e fazendeiros, que se implantara no país”.
Nelson Piletti e Claudino vão mais longe:
A Balaiada, uma das mais vigorosas revoltas populares da História do Brasil, chegava ao fim. Fora esmagada pela botas, pelos fuzis e pelos sabres das forças oficiais para garantir os privilégios (as terras, os escravos e o poder) das elites do Maranhão. (...) O comandante do massacre que inundou as ruas com o sangue de homens brancos pobres, dos mestiços e dos negros que buscavam a liberdade, Luis Alves de Lima e Silva, foi regiamente recompensado pelo governo. Por esse ato de bravura recebeu o título de Barão, e depois, Duque de Caxias, posteriormente tornou-se o patrono do Exército Brasileiro. (...) Os sertanejos, os artesãos, os negros fugidos - o povo pobre do sertão, enfim foram massacrados pelo Exército, simplesmente porque queriam uma vida melhor. A preocupação do governo era quanto ao fato das classes oprimidas estarem participando ativamente do processo político, com armas na mão”. (História e Vida Integrada - Livro didático do 8° ano)
A Balaiada, uma rebelião liderada por facínoras que defendiam seus próprios interesses, foi transformada em luta de classes. Antes mesmo da intervenção de Caxias, a insurreição, que já se encontrava comprometida e debilitada com as divergências entre seus chefes e as lideranças liberais, foi “ressignificada” para atender aos proclames da ideologia marxista.
- Lamarca - o “Heróico” Covarde dos PeTralhas
Entre suas façanhas mais notáveis estão dois assaltos a banco que resultaram na morte do gerente Norberto Draconetti e do guarda-civil Orlando Pinto Saraiva - morto com um tiro na nuca e outro na testa, disparados pelo próprio Lamarca; a ação no Vale do Ribeira em que torturou e assassinou cruelmente o tenente Alberto Mendes Júnior, esfacelando-lhe o crânio a coronhadas; e o assassínio do agente da Polícia Federal Hélio Carvalho de Araújo, durante o sequestro do embaixador suíço”. (Editorial do “O Estado de São Paulo)
- Che Guevara - o Carniceiro de La Cabaña
El Che nunca trató de ocultar su crueldad, por el contrario, entre más se le pedía compasión más él se mostraba cruel. El estaba completamente dedicado a su utopía. La revolución le exigía que hubiera muertos, él mataba; ella le pedía que mintiera, él mentía. En La Cabaña, cuando las familias iban a visitar a sus parientes, Guevara, en el colmo del sadismo, llegaba a exigirles que pasaran delante del paredón manchado de sangre fresca”. (Padre Javier Arzuaga, Ex-Capelão da Cabaña)
Che foi o idealizador do primeiro acampamento de trabalhos forçados, em Guanahacabibes, Cuba ocidental, em 1960. Che dizia:
à Guanahacabibes são mandadas as pessoas que não devem ir para a prisão. As pessoas que tenham cometido faltas à moral revolucionária. É um trabalho duro, não um trabalho bestial”.
Guanahacabibes foi o precursor do confinamento sistemático, a partir de 1965 na província de Camagüey, de dissidentes, homossexuais, católicos, testemunhas de Jeová e outras “escórias”, como eram considerados pelos revolucionários. Os “desadaptados” eram transportados para os campos de concentração que tinham como modelo Guanahacabibes onde, via de regra, eram mortos, violentados ou mutilados.
Jamais se saberá, exatamente, o número de execuções levadas a cabo durante o período revolucionário. María Werlau, Diretora Executiva do Arquivo Cubano, afirmou: “No lo sé, cien mil... doscientos mil ...
Como Procurador-Geral, El Che comandou a “Prisão Fortaleza de San Carlos de La Cabaña”, onde, somente nos primeiros meses da revolução, ocorreram 120 fuzilamentos. Che considerava que: “As execuções são uma necessidade para o Povo de Cuba, e um dever imposto por esse mesmo Povo”.
El Che comandava os fuzilamentos no “paredão”, sendo conhecido, por isso mesmo, pelo codinome de “el Carnicero de la Cabaña”. Ele dirigia pessoalmente os processos contra os representantes do regime deposto, condenando à morte mais de 4.000 pessoas. Na “Cabaña”, havia inimigos políticos e inocentes, mas Che mandava executar a todos. Seu lema era: “Ante la duda, mata”, lema que chegou a aplicar, inclusive, a antigos companheiros de armas.
- As faces de Che 
Alberto Korda imortalizou em 5 de março de 1960, na sua foto mais famosa, o rosto de Che. Sua aparência, de 1956 a 1964, mudou tanto quanto seu nome. Foi conhecido como Ernestito, Teté, Pelao, Chancho, Fuser, Furibundo, Serna, Martín Fierro, Franco-atirador e outros tantos que adotou antes de chegar à Guatemala, onde o cubano Antonio Ñico López o batizou de “Che”.
Fidel Castro enviou Luis García Gutiérrez Fisín a Praga, onde Che se encontrava, e o dentista alterou o rosto de Che fazendo uso de próteses dentárias. As mudanças fisionômicas foram tais que nem mesmo os homens que tinham lutado com Guevara em Cuba e seus filhos, então muito pequenos, o reconheceram. Che usava lentes, ligeiramente obeso, cabeça raspada, uma figura diversa do Guevara que conheciam. Os registros de seu diário de 12 de novembro de 1966 afirmam:
Meu cabelo está crescendo, apesar de muito ralo, e as mechas que se tornaram loiras, começam a desaparecer; nasce-me a barba. Dentro de poucos meses, voltarei a ser eu”.
- “Con su Muerte, Murió el Hombre y Nació la Farsa”
Se evoca siempre su trágico final, asesinado cuando ya se había rendido, después de fracasar en un intento guerrillero que lo llevó hasta las selvas bolivianas al frente de un puñado de hombres”.
Sob o comando de Guevara, 49 jovens inexperientes recrutas, que haviam sido mobilizados para expulsar os invasores cubanos, foram emboscados e mortos.
Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto”, gritou um guerrilheiro magro, fedorento, maltrapilho e imundo nos confins da Bolívia no dia 8 de outubro de 1967. Frase que seus admiradores e biógrafos fazem questão de esquecer, pois o covarde pedido de misericórdia não combina com a imagem por eles forjada. Che foi executado pelos militares bolivianos em La Higuera em 9 de Outubro de 1967. A partir de sua morte, sua imagem foi lapidada apresentando-o como um mártir, idealista, cheio de virtudes, defensor dos fracos e oprimidos. Seus companheiros o chamavam de “el chancho”, o porco, porque não gostava de tomar banho e “tinha cheiro de rim fervido”.
Hoje, graças a uma ardilosa e falaciosa propaganda inúmeras e mal informadas criaturas teimam em ostentar a carranca do diabólico “chancho” em suas camisetas.
- Nós, os Brasileiros
Minha amiga Drª Vania Leal Cintra escreveu, há algum tempo, um interessante artigo que reproduzo por considerá-lo muito atual.
Há uma ordem só: resistência a todo transe”. (Antonio Ernesto Gomes Carneiro)
Nós, os brasileiros, não precisamos, a pretexto de que devemos celebrar exemplos de heroísmo e de desprendimento por amor à Pátria e à coisa pública, continuar ouvindo discursos que vertem lágrimas, recheados de impropérios e muito pouco sérios; nem precisamos continuar assistindo a novelas estúpidas que tenham como protagonistas indivíduos obscuros, alheios a nós, representando personagens pinçados do submundo, com um enredo que se resume a um somatório de fatos inventados por não sabemos bem quem.
Não precisamos mesmo.
Nós, os brasileiros, não precisamos de quem invente conversas tortas, que fogem aos fatos e ao sentido da História, para que, por pretextos mentirosos, possam ser reconhecidos como heróis os que de verdade o são e, ao lado deles, possam ser colocados também os que heróis nunca foram.
Não precisamos mesmo.
Nós, os brasileiros, precisamos apenas continuar honrando a nossa História, a real, lembrando-nos constantemente dos atos de heroísmo que ela mesma se encarregou de consagrar; e precisamos procurar repetir os feitos de nossos heróis em pensamentos, em palavras e em obras, observando as razões de seu comportamento e os objetivos que eles buscavam realizar ou manter sob quaisquer circunstâncias, contra todas as adversidades - eles, os que mereceram, pelo que realmente fizeram por nós, ser desde sempre chamados de heróis.
O Brasil tem, em sua História, que não começou ontem nem anteontem, heróis em quantidade suficiente para que, evocando seus nomes e seguindo seus exemplos, todos saibamos perfeitamente escolher o caminho mais certo e mais seguro, todos saibamos exatamente como nos comportar em benefício de todos nós e todos saibamos por que assim devemos nos comportar. E para que saibamos todos por que, de que e para que podemos nos orgulhar de nós mesmos.
Nada disso nos faltou antes, desde que despontamos como um povo diferenciado de outros povos, dos distantes e dos mais próximos; nada disso nos faltou em todos os momentos nos quais fizemos questão de nos mostrar diferenciados.
Tem nos faltado hoje, no entanto - quando os que puderam, por nossos cochilos e tropeços, chegar ao poder pretendem nos retirar em definitivo essa prerrogativa de identidade, obrigando-nos a nos travestir do que nunca fomos e definitivamente não somos na intenção de nos desencaminhar para seduzir seja quem for, como se apenas isso pudesse justificar a nossa existência.
Nós, os brasileiros, não merecemos isso. Não merecemos mesmo! Nem deveríamos a isso nos submeter. Porque não precisamos.
Precisamos, sim, com coragem e com tenacidade, resistir!”. (Vania Leal Cintra)
Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.
- Livro do Autor:
O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS e na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br). 
Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
Fonte: Novoeste

quinta-feira, 15 de março de 2018

Como Pensar Como um Analista de Inteligência - Parte 2

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Na publicação anterior sobre como pensar como um analista de Inteligência, exploramos modelos mentais e como eles influem nosso julgamento. Nesta publicação, analisamos como estruturar o pensamento crítico e as verificações para evitar as armadilhas dos modelos mentais.
Para resumir a última publicação, quando confrontados com hipóteses concorrentes, tendemos a confirmar o ponto de vista que intuitivamente pensamos ser correto, então procuramos evidências para apoiá-lo. À medida que a evidência se acumula, ficamos ainda mais convencidos de que estamos certos e mais resistentes a evidências que sugerem que estamos errados.
Essa dinâmica mental, quando acontece no nosso dia-a-dia, pode levar a julgamentos ruins. Quando acontece no contexto da análise de Inteligência, pode ter repercussões globais.
O antídoto é um pensamento crítico estruturado. A Comunidade de Inteligencia dos EUA oferece treinamento extensivo aos analistas de Inteligência para ajudá-los a melhorar o desempenho. Se você está interessado em uma carreira em análise de Inteligência, ou mesmo se você quiser melhorar suas habilidades de pensamento crítico, aqui estão alguns detalhes sobre uma abordagem altamente eficaz.
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Análise de Hipóteses concorrentes
Richards J. Heuer, autor de "Psychology of Intelligence Analysis", oferece um modelo de oito partes que ajuda os analistas a estruturar suas análises. Heuer o chama Análise de Hipóteses Concorrentes:
1 - Identifique hipóteses concorrentes - muitas delas. Ao tentar identificar a explicação mais provável, ou resultado de uma situação, uma das etapas mais importantes é a primeira. Você nunca identificará uma hipótese correta se essa hipótese nunca for elaborada. Os analistas de inteligência são incentivados a envolver muitos analistas com origens e perspectivas diferentes no desenvolvimento de hipóteses, o que equivale a uma sessão de brainstorm dirigida.
2 - Faça uma lista de evidências significativas a serem consideradas. Estes são os fatos do caso, além de seus pressupostos e deduções lógicas. Tenha cuidado para não buscar provas apenas para provar sua teoria favorita. Quando você tem uma lista, faça uma pergunta adicional: se uma hipótese fosse verdadeira ou falsa, que evidências eu esperaria ver? Essa pergunta abre sua mente para informações e provas adicionais. Também é importante notar a ausência de evidências, o que em si pode ser evidência.
3 - Identifique se a evidência é consistente ou inconsistente com cada hipótese. É aqui que perguntamos se cada evidência é relevante para uma hipótese, seja de apoio ou refutação. Evidências consistentes têm uma influência na hipótese. A evidência inconsistente não. É útil neste momento criar uma matriz com evidência na coluna do lado esquerdo e hipóteses na linha superior. Marque em cada célula se a evidência é consistente ou inconsistente. Considere uma evidência contra cada hipótese antes de passar para a próxima evidência. 


4 - Refine a matriz e reconsidere as hipóteses. Depois de dar uma boa olhada em como a evidência se relaciona com as hipóteses, você precisa refinar a matriz? Revisar uma hipótese? Se temos evidências listadas que são inconsistentes com todas as hipóteses, elas podem ser excluídas porque não acrescentam nenhum valor de diagnóstico à pesquisa.
5 - Elabore conclusões sobre a probabilidade de cada hipótese. Agora avaliamos cada hipótese de acordo com a evidência, trabalhando em cada coluna de hipóteses. A parte contra-intuitiva deste passo é: em vez de trabalhar para provar as hipóteses, trabalhe para refutá-las. Na maioria dos casos, a hipótese favorita será aquela com menos evidência contra ela, e não a que tenha mais provas disso.
6 - Analise o quão sensível são suas conclusões baseadas em algumas peças de evidência crítica. Agora vem o teste ácido. Alguma das suas hipóteses favoritas é fortemente dependente de algumas provas críticas? Em caso afirmativo, o que acontece com a hipótese se a evidência for errada, enganosa ou sujeita a interpretação? Os atores adversos podem produzir deliberadamente informações enganosas para os Analistas usarem. Existe um motivo, oportunidade e benefício para um ator adverso plantar informações falsas?
7 - Informe as conclusões, destacando a probabilidade de cada uma. Analistas de inteligência relatam os seus resultados para os decisores políticos. É importante comunicar que a precisão das analises podem não ser totais. Elas possuem diferentes graus de probabilidades, e essas probabilidades devem ser especificadas.
8 - Identifique marcos para futuras observações. Nenhum julgamento pode ser considerado final. As circunstâncias mudam. Novas informações estão permanentemente disponíveis. À medida que a análise termina, é fundamental indicar quais evidências devem ter sua evolução acompanhadas no futuro. Pergunte a si mesmo, que mudança de evidência faria com que você alterasse seu julgamento? 
Ao analisar os problemas de acordo com a estrutura acima, você estará dando o primeiro passo para superar os problemas dos modelos mentais. Você estará adquirindo habilidades de pensamento crítico que levarão aos resultados mais plausíveis. E você estará no caminho para pensar como um  Analista de Inteligência.
Fonte: tradução livre de Intelligence Community

quinta-feira, 1 de março de 2018

Espiões "Romeu"

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Margaretha Zelle, ou Mata Hari
Muito antes do surgimento das tradições do Dia dos Namorados, os mestres da espionagem mundial já usavam as artes amorosas para obter segredos de seus adversários. Denominadas "armadilhas de mel", eles envolveram seus adversários neste jogo de amor, atração e mentiras. Uma das sedutoras mais conhecidas foi Mata Hari, uma dançarina exótica holandesa condenada por espionar os alemães durante a Primeira Guerra Mundial. Ela foi acusada de obter suas informações seduzindo proeminentes políticos e oficiais franceses.
A simples menção da palavra "tentadora" evoca imagens de Cleópatra ou Jezabel; raramente produz a imagem de Casanova. Mas homens também foram usados ​​como armadilhas para roubar segredos.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial as autoridades da Alemanha Oriental construíram o Muro de Berlim em 1961, separando a Alemanha Oriental da Alemanha Ocidental. Nenhum dos lados confiava no outro e ambos estavam ansiosos para saber o que o outro estava planejando. Por causa da guerra, muitas mulheres em idade matrimonial ocuparam empregos nas empresas, governo, parlamento, militares e Serviços de Inteligência na Alemanha Ocidental, e elas freqüentemente tinham acesso a segredos governamentais altamente classificados. Com a escassez de homens aspirantes — outra consequência da guerra —, as mulheres solteiras da Alemanha Ocidental, ansiosas pela companhia masculina, tornaram-se alvos frequentes para os espiões machos do leste alemão que só estavam interessados ​​nelas por um motivo: os segredos. Estes homens do lado Oriental ganharam o apelido de "Espiões Romeu".
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O Homem Sem Rosto
Markus Wolf era o autor intelectual dos "Espiões Romeu" do leste alemão. As autoridades ocidentais se referiram a ele como "o homem sem rosto", uma vez que não conseguiram identificá-lo por décadas. Wolf nasceu na Alemanha, mas cresceu em Moscou, onde aprendeu a tradição de espionagem. Ele retornou à Alemanha aos 30 anos e tornou-se o chefe da Divisão de Inteligência Exterior da STASI, o Ministério da Segurança do Estado da Alemanha Oriental. Sua missão era infiltrar instituições de política, militar e de segurança da Alemanha Ocidental. Sua arma de escolha: homens.
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"Romeu, Romeu, por que tens que ser Romeu?"(*)
A ideia dos espiões Romeu se desenvolveu pela praticidade. Os espiões Romeu eram uma maneira econômica de roubar segredos. Wolf acreditava que uma mulher com acesso direto e motivação poderia fornecer mais dados do que dez diplomatas masculinos. Claro, não era qualquer homem que poderia ser um espião Romeu. Houve um rigoroso processo de triagem que eliminou 99% dos candidatos. Dos escolhidos, a maioria tinha entre 25 e 35 anos, bem educados, e tinham bons modos antiquados, o que muitas mulheres achavam irresistível. Os homens selecionados para este programa foram treinados em espionagem e receberam identidades falsas, tipicamente de um cidadão falecido ou de um imigrante. Então foram enviados para a Alemanha Ocidental com uma tarefa de espionagem específica para completar. Uma vez lá, eles identificavam uma potencial "Julieta" que tivesse acesso à informação que eles precisavam. Feito isto, criavam uma oportunidade de encontro, começavam um "caso" e arranjavam uma maneira de fazer com que a "vítima" lhes passassem os segredos desejados.
Antes de serem implantados na Alemanha Ocidental, no entanto, os espiões "Romeu" foram avisados ​​de que eles estavam proibidos de se casar com seus alvos, mesmo que desenvolvessem sentimentos genuínos por eles, o que aconteceu com muitos deles. A verdadeira identidade e intenções do Romeu provavelmente seriam descobertas: as autoridades da Alemanha Ocidental faziam profundas investigações sobre quem procurava casar com um funcionário do estado que tivesse acesso a material classificado. Portanto, os Romeus tinham que convencer seus alvos que não eram o tipo casador.
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Julietas
As mulheres escolhidas pelos Romeus eram todas cidadãs da Alemanha Ocidental. Muitas delas tinham origens de classe média-alta e personalidades fortes. A maioria eram empregadas pelo governo quando foram abordadas por um Romeu. Os homens fizeram sua lição de casa e buscavam saber os gostos, desgostos e vulnerabilidades de uma Julieta em particular antes da criação de uma oportunidade de encontro. Apesar de uma campanha publicitária alertando as mulheres do Oeste sobre essas táticas da STASI, muitas "Julietas" caíram nas armadilhas dos homens jovens bem educados, aparentemente bem intencionados, que alegavam trabalhar para organizações humanitárias.
Inicialmente, a maioria das mulheres era ingênua sobre as verdadeiras intenções de seus Romeus; no entanto, na maioria das vezes, à medida que o relacionamento se desenvolvia, as Julietas começavam a suspeitar que seu Romeu estava trabalhando para o outro lado. A maioria das mulheres não ficaram chocadas quando foram convidadas a espionar para seus homens (embora a proposta quase sempre ocorressem em um país neutro, fora da Alemanha Ocidental, para o caso da Julieta não ser receptiva e os Romeus precisassem de uma fuga rápida).
Embora houvesse muitas mulheres que acabaram com o relacionamento quando convidadas a espionar, neste ponto do relacionamento, algumas mulheres estavam apaixonadas e concordaram em espionar para manter seus romances; alguns relacionamentos duraram décadas. Para aquelas mulheres que se apaixonaram por seus Romeus, as carreiras de espionagem terminaram quando os seus amados se iam. Ocasionalmente, um Romeu "substituto" seria implantado, mas geralmente elas não os aceitavam. Essas mulheres espionaram para seu único e verdadeiro Romeu, e quando esse relacionamento terminava, a espionagem também findava.
Outras mulheres também concordaram em espiar por amor, mas não pelo amor de um Romeu. Essas mulheres se apaixonaram pela excitação da espionagem: seus Romeus eram apenas parte do processo. Neste caso, essas mulheres geralmente aceitavam um Romeu substituto se o primeiro desaparecesse por razões de segurança.
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Dia de cabelo ruim
De vez em quando, um Romeu desaparecia, capturado pelo Ocidente. Durante anos, o Oriente não conseguiu descobrir como o Ocidente estava identificando seus homens. Isso se devia ao seu corte de cabelo. Os Romeus usavam cortes curtos e esticados, enquanto os jovens do Ocidente deixavam crescer seus cabelos. Quando os oficiais da contra-inteligência ocidentais descobriam um homem com um corte curto, seguiam o suspeito e prendiam o Romeu em seu primeiro deslize.
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Os Ataques de Romeu
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O Romeu Original:  O primeiro Romeu — chamado "Félix" pelos alemães do leste — era um estudante de engenharia relutante em abandonar seus estudos para ir em busca do amor, mentiras e segredos. Ele finalmente foi persuadido e começou a trabalhar como um Romeu na década de 1950. Ele se mudou para a Alemanha Ocidental, onde ele elaborou um plano para conhecer as mulheres que trabalhavam na Chancelaria. Ele ficava parado na parada de ônibus, esperando ter um encontro casual com uma das secretárias. Sua trama foi bem-sucedida, e ele estabeleceu um relacionamento com uma secretária, que os alemães do leste nominaram "Norma". Ela se apaixonou por seu Romeu e começou a lhe passar os segredos da Chancelaria. O destino fez com que Felix também se apaixonasse pela secretária. Eles se mudaram juntos e começaram um caso que durou vários anos. Infelizmente, seu amor não duraria. Um infiltrado deixou os alemães do leste saberem que Felix havia caído sob suspeita. Ele foi puxado para o Oriente imediatamente. No dia seguinte, Norma chegou em casa depois do trabalho  encontrou um apartamento vazio. Ela nunca soube a verdadeira identidade de seu amásio nem porque ele desapareceu sem deixar rastro.
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O Romeu Exitoso: Outra desavisada Julieta, com 32 anos, encontrou-se com um Romeu em julho de 1977, nas margens do rio Reno, foi amor à primeira vista para a divorciada. Seu Romeu era sete anos mais velho que ela e desempenhou o papel de cientista empregado em uma empresa de pesquisas dedicadas à paz mundial. O casal amasiou-se três meses após o primeiro encontro. Esta Julieta trabalhava como tradutora e intérprete na Embaixada americana. Ela se encontrava seu Romeu uma vez por mês e passou para ele milhares de documentos secretos, mais do que qualquer outro agente em sua posição. Ela estava loucamente apaixonada por ele e nunca o questionou sobre o que ele fazia com os documentos. O relacionamento durou 12 anos. Em 1991, ela e seu Romeu foram traídos por um desertor da STASI. Romeu morreu mais tarde quando seu carro foi abalroado por um trem. Em 1996, Julieta enfrentou o julgamento por espionagem, durante o qual ela se concentrou apenas em descobrir o máximo que podia sobre seu grande amor, indagando se ele, de fato, realmente a amava. Recebeu uma sentença suspensa de dois anos e foi multada. O juiz presidente concluiu que sua "adoração cega" por seu Romeu a levou a espionar.
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O Super-Romeu: Os alemães do leste se referiram a Romeus seletos como "Super-Romeus" por suas conquistas. Um desses era um diretor de teatro inteligente e atraente. Em 1961, foi enviado a Paris, na França, para se aproximar de uma intérprete do Centro de Comando da OTAN. Três outros Romeus tentaram e falharam. A intérprete era uma católica devota que se apaixonou pelo Romeu número quatro, acreditando que ele era um oficial da Inteligência militar dinamarquesa. Ela começou a passar os segredos da OTAN quando ele chegou a Paris para visitá-la. Eventualmente, sua educação católica a alcançou, e ela sentiu remorso por seu caso e sua espionagem. Ela sentiu um desejo irresistível de confessar seus pecados e se casar com Romeu se seu relacionamento fosse continuar. Romeu esquivou o requisito de casamento, culpando o trabalho. No entanto, ele providenciou um agente de Inteligência da Alemanha Oriental, disfarçado de sacerdote católico dinamarquês, para ouvir a confissão. Julieta confessou seus pecados ao "sacerdote", que a absolveu de todos os erros e a encorajou a continuar espionando com as bênçãos do Bom Deus.
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O Romeo Bi-Sedutor: Alguns Romeus tiveram sorte no amor duas vezes. Embora não forçosamente considerado bonito, este Romeu foi honesto. Ele conheceu sua primeira Julieta em 1960 no "Depósito de Secretárias", como Paris era chamada pelo Oriente em função da abundância de funcionárias do governo da Alemanha Ocidental enviadas para aprender francês. Romeo abriu caminho no coração de uma secretária de 19 anos e revelou sua verdadeira identidade. Sua relação floresceu e continuou por vários anos. Por sua sugestão, ela obteve transferência para o Escritório da Chancelaria em Bonn, onde todos os telegramas das Embaixadas no exterior eram decifrados. Ela colocava cópias dos documentos na bolsa e saía do escritório para encontrar seu Romeu.
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Cinco anos depois, ela foi transferida para Varsóvia, onde a longa distância causou estragos em seu caso. Ela começou a beber muito e terminou confiando em um agente da Contra Inteligência de Bonn, disfarçado de jornalista da Alemanha Ocidental. O agente a convenceu a confessar seus crimes. Ela o fez mas, antes, avisou Romeu, dando-lhe tempo para fugir para Berlim Oriental. A secretária foi julgada por espionagem e recebeu uma sentença de três anos, mais curta do que o habitual, porque ela colaborou, revelando detalhes de seu trabalho com o Oriente.
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Romeu escapou e foi enviado para o Mar Negro na Bulgária para se recuperar. Enquanto lá, ele conheceu uma potencial Julieta — apelidada com o codinome Inge pelo Oriente. Ele inventou uma história de cobertura, se apresentou e começou um caso. Infelizmente para ele, um artigo de jornal sobre seu caso anterior de espionagem e a relação com Julieta, revelou sua verdadeira identidade. Ele recebeu ordens para se livrar de Inge e revelou tudo a ela. Ela apreciou sua honestidade, e o relacionamento continuou. Como Romeu era persona non grata no Oeste, Inge teve que viajar para Berlim Oriental nos fins de semana. O Oriente pagou para ela para aprender francês e estenografia, e ela conseguiu um cargo na Chancelaria, onde durante vários anos passou informações sobre o funcionamento interno do Chanceler. Inge tinha uma reputação de secretária muito trabalhadora entre seus colegas. Ingênuos eles não desconfiavam que ela permanecia até tarde, à noite, para fotocopiar e microfilmar documentos.
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Inge estava apaixonada por seu Romeu e queria se casar com ele, então os alemães do leste organizaram um casamento. O casal trocou anéis e assinou o registro matrimonial. Somente com sua  prisão em 1977 ela descobriu que o casamento havia sido um logro. Ela foi julgada por espionagem e sentenciada a quatro anos e três meses de prisão.
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O Romeu de Alto Alcance: Este Romeu conseguiu seduzir a mulher mais bem colocada da Agência de Inteligência Exterior da Alemanha Ocidental. Eles se encontraram na Alemanha Oriental, onde ela estava trabalhando em sua tese de doutorado. Ele estava disfarçado de mecânico. Eles passaram o verão juntos, após o que Romeu revelou sua verdadeira identidade. Julieta ficou fascinada. Ela voltou para a Alemanha Ocidental, mas visitava o Leste a cada três meses para receber treinamento de espionagem e encontrar seu Romeu. O casal ficou noivo. Em 1973, ela começou a trabalhar como analista político da Agência de Inteligência Exterior do Ocidente. Quando ninguém estava olhando, ela microfilmava documentos e os ocultava em frascos falsos de desodorante. Inicialmente, ela escondia esses frascos nas caixas de descarga dos sanitários de trens que viajavam de Munique para a Alemanha Oriental. Isso foi considerado muito arriscado e ineficaz, então, passou a encontrar uma mulher em uma piscina de Munique e lhe passava as informações nos vestiários. Julieta estava apaixonada, mas não pelo Romeu. Ela se enamorou pela excitação da espionagem.
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No início de 1990, o Oriente percebeu que a unificação entre o Oriente e o Ocidente era inevitável, então eles destruíram toda a documentação de seus arquivos. Infelizmente para Julieta, um oficial superior traiu sua identidade para garantir a imunidade para si mesmo. Ela foi presa em 1990 quando atravessava a fronteira Alemanha-Áustria para uma reunião final com seus manipuladores.
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"Pare em nome do Amor"
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Quarenta mulheres foram processadas na Alemanha Ocidental ao longo de quatro décadas durante a Guerra Fria por cometer espionagem. Elas podem ter sido vítimas da flecha de Cupido, mas elas não eram inteiramente inocentes. No entanto, muitos corações foram quebrados, incluindo os de vários Romeus que realmente amaram suas Julietas. Vários casais superaram o problema, ficaram genuinamente apaixonados, casaram e começaram novas vidas.
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Markus Wolf fugiu para Moscou quando a Alemanha se reunificou. Três anos depois, ele se rendeu em uma fronteira rural na Baviera. Ele foi condenado a seis anos de prisão por traição, mas a condenação foi revogada sob o argumento de que a Alemanha Oriental tinha sido um estado soberano pelo qual tinha tido o direito de espionar. O mesmo aconteceu com os Romeus, que nunca foram condenados, embora vários tenham sido presos pelo Ocidente antes da unificação
"Os fins nem sempre justificam os meios que escolhemos empregar", escreveu Wolf em sua autobiografia, "mas, enquanto houver espionagem, haverá Romeus seduzindo Julietas desavisadas com acesso a segredos. Afinal, eu estava administrando um Serviço de Inteligência, e não um clube de corações solitários ".
Wolf morreu aos 83 anos no 17º aniversário da queda do Muro de Berlim.
Fonte: Central Intelligence Agency
(*) — frase do "monólogo de Julieta" (Ato 2, Cena 2, Linha 33) em "Romeu e Julieta", de Shakespeare.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Como a Espionagem Comunista se Infiltrou no Governo de Dois Ex-presidentes Brasileiros

O ministro da Economia de Cuba, Ernesto “Che” Guevara, e o presidente Jânio Quadros durante encontro no Brasil, em 1960  -  Arquivo - FolhapressArquivo
Dois pesquisadores resgatam a trajetória do serviço secreto da Tchecoslováquia, que foi muito atuante no Brasil nas décadas de 1950 e 1960 e enviou informações para Moscou
por Tiago Cordeiro
Existem espiões em todas as épocas e todos os lugares, especialmente durante conflitos ou situações de tensão entre blocos de países. É natural imaginar que, durante a Guerra Fria, havia agentes e informantes em todos os cantos do planeta.
O Brasil, o maior país da América Latina, era um território estratégico, principalmente depois que um pequeno grupo de guerrilheiros transformou Cuba em uma ilha socialista a poucos quilômetros dos Estados Unidos. Mas quem exatamente circulou no Brasil? Que informantes utilizaram? Que estratégias adotaram
É conhecido o interesse da CIA em interferir nos rumos políticos brasileiros nos anos 1950 e 1960. Afinal, o país abriu boa parte de seus arquivos e o que se sabe já indica que Washington acompanhou bem de perto o contexto do país. Chegou a se preparar para dar apoio militar aos adversários do presidente João Goulart, uma medida que acabou não sendo necessáriaNo caso do bloco soviético, os arquivos em geral permanecem fechados, ou de difícil acesso. Com uma exceção muito importante: a Tchecoslováquia.
O país era influente no Brasil. Empresários importantes, filhos ou netos de tchecos, eram respeitados, principalmente no Sul e Sudeste. Não eram necessariamente adeptos do comunismo, é claro, mas sua presença oferecia bela fachada que os agentes tchecos aproveitaram ao longo dos anos 1950 e 1960. 
Melhor ainda: depois da redemocratização realizada a partir dos anos 1990, a Tchecoslováquia abriu quase todos os seus arquivos que documentam a atuação de seu serviço secreto. Só faltava quem fosse até lá com muita disposição e conhecimento mínimo do idioma.
Com a publicação de 1964: O Elo Perdido, Mauro Kraenski e Vladimir Petrilák começam a suprir essa lacuna. A obra traça um panorama detalhadíssimo a respeito da atuação da Státní Bezpečnost (StB), a polícia secreta tcheca, no Brasil, entre 1952 e 1971. Conclui que assessores muito próximos de pelo menos dois presidentes brasileiros atuaram fornecendo informações para o lado de lá da cortina de ferro. 
Arquivos abertos 
Ao fim da Segunda Guerra Mundial e a formação do bloco de países aliados da Rússia, diferentes serviços secretos surgiram para investigar as populações locais e também espionar e agir no exterior. Sabemos que, no Brasil, agentes da Polônia, da Alemanha Oriental, de Cuba e da Tchecoslováquia moraram no país. Todos repassaram informações para suas sedes. Dali, os relatórios seguiam para Moscou. Quando necessário, os russos interferiam, pedindo mais informações ou assumindo o controle de determinadas operações. 
É realmente impressionante que o serviço de inteligência da pequenina Tchecoslováquia tenha sido capaz de atuar em tantos países do mundo. Foi um verdadeiro serviço de inteligência global em suas atuações. Possuiu suas rezidenturas (sedes) em vários países latino-americanos, como Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Bolívia, México, Equador”, diz Mauro Kraenski, tradutor versado em polonês, com boas noções do idioma tcheco.
Mauro passou dois anos digerindo as informações disponíveis nos arquivos de Praga, a capital. Quando encontrou dificuldades, foi socorrido pelo coautor, o colunista tcheco Vladimir Petrilák. 
Não foi nem um pouco difícil ter acesso aos documentos”, diz Vladimir. “O arquivo é público e está aberto para qualquer um que deseje pesquisar. Não houve censura de documentos, somente em alguns poucos casos recebemos a informação de que determinada pasta deveria passar por um tipo de avaliação. Trata-se de uma formalidade, mas ao fim, depois de um curto período de tempo, estas pastas também foram liberadas”.
O site oficial do livro apresenta alguns desses documentos. 
Visão negativa dos brasileiros
A StB começou a agir entre nós no Rio de Janeiro, com um único agente, o barbeiro por profissão Jiří Kadlec, codinome Treml. Tinha 27 anos e só havia feito um curso de espionagem de dois meses. Seu maior objetivo estava bem claro: “A missão mais importante era a luta contra os Estados Unidos da América e muitas das tarefas tinham como objetivo desacreditar os americanos e prejudicar a sua imagem”. 
Ele vivia sozinho num apartamento que funcionava como a “rezidentura”, o nome das instalações de agentes no exterior. Na mesma época, a rezidentura da StB em Nova York abrigava sete agentes; a de Buenos Aires, quatro. Treml agiu sozinho por dois anos e, em seus relatórios, reclamou muito. Primeiro, porque não tinha estudado português o suficiente antes de se mudar. Segundo, porque seu apartamento mal tinha móveis. Ele não tinha autorização para mobiliá-lo nem verba para levar informantes para passear ou jantar. Poucos anos depois, a situação havia mudado bastante. 
Em 1962, depois de dez anos de atividades, já viviam no Rio vários agentes, que mantinham uma boa rede de relacionamento. Também havia um espião vivendo em Brasília e contatos esporádicos em São Paulo. 
Um manual básico sobre o Brasil para novos espiões, datado dessa época, descrevia o país da seguinte forma:
O funcionário do serviço de inteligência no Brasil terá contato principalmente com a população das grandes cidades, ou seja, com a chamada classe média, da qual procedem a maioria dos funcionários públicos federais. Um brasileiro, ao contatar com um estrangeiro, possui uma tendência em fazer uma grande quantidade de promessas, já supondo que não cumprirá nenhuma delas. São pessoas preguiçosas e bem levianas, com as quais não se pode contar.
O texto continua: “No Brasil, por regra, encontramos pessoas ignorantes, que, mesmo com numerosos títulos científicos, não chegam aos pés da nossa gente com formação primária.” 
Contato com Jânio e Jango 
Além de fazer este tipo de estudo sobre as características sociais, políticas e comportamentais do país, os tchecos tinham um objetivo claro: convencer formadores de opinião nacionalistas, incomodados com a influência dos Estados Unidos sobre o Brasil. Um dos critérios para descartar um possível informante, inclusive, era sua participação em partidos de esquerda, que fariam dele um alvo fácil demais, capaz de expor a própria StB
O serviço de inteligência tchecoslovaco determinava alvos de interesse”, diz Mauro. “No Brasil, podemos citar: Ministério das Relações Exteriores, Congresso Nacional, instituições científicas, polícia, serviço de inteligência, partidos políticos, jornalistas, Petrobrás, Exército, Confederação Nacional da Indústria”. A exceção mais notável foi Francisco Julião: a StB se mostrou muito interessada no líder das Ligas Camponesas e chegou a avaliar seriamente sua capacidade para liderar uma revolução comunista. 
Foi ao buscar este perfil de pessoas, capaz de influenciar a imprensa e a economia, que os agentes tchecos alcançaram figuras de alto escalão no cenário político brasileiro pré-1964, incluindo jornalistas com acesso ao presidente e aos bastidores de eventos, assessores de ministros e diretores de departamentos estratégicos em Brasília. 
Dois casos, em especial, chamam a atenção. O tradutor Alexandr Alexeyev, agente da KGB, ficou próximo de Jânio Quadros quando o então presidente visitava Moscou como político de oposição, em 1958. Nesse caso, os arquivos da StB fornecem um vislumbre da ação do alcance da KGB no Brasil. Alexeyev estava em Cuba quando Jânio foi eleito. A StB ajudou a conseguir o visto para que ele entrasse no Brasil. Graças a um contato dos agentes tchecos em Brasília, o agente russo conseguiu, em 5 de maio de 1961, realizar uma reunião com o presidente. Ouviu de Jânio a promessa de que as relações diplomáticas do Brasil com a URSS seriam reatadas – o que de fato aconteceria, em novembro. 
E há a história da aproximação com João Goulart. Jango visitou a Tchecoslováquia em dezembro de 1960, como vice-presidente. Da visita, os agentes relataram uma impressão positiva. E ficaram mais bem relacionados ainda com Raul Francisco Ryff, um assessor muito próximo de Jango. Durante todo o governo de João Goulart, a StB foi mantida muitíssimo bem informada sobre as intenções do presidente. 
Pró-Cuba
A StB também liderou uma frente de formadores de opinião pró-Cuba. Chegou a formar um grupo, a Frente Nacional de Apoio a Cuba (FNAC), que em 1963 organizou em Niterói o Congresso Continental de Solidariedade a Cuba. Também emplacou artigos em jornais e revistas a favor de Cuba e dos soviéticos e contra os Estados Unidos. 
Ainda assim, a influência junto a essas figuras e a capacidade de organizar eventos em solo nacional não permitiu que a StB percebesse nem a renúncia de Jânio, em 1961, nem a aproximação do golpe militar de 1º de abril de 1964.
Os próprios agentes fazem a autocrítica a respeito dessa falha grave: “A deposição de Goulart foi realizada diretamente pela extrema reação de círculos civis e militares, ou seja, por aquelas mesmas pessoas que realizam golpes em pequenos países centro-americanos”, apontam em seu relatório. “O fato é que nestes círculos nós não possuímos nem nossa rede de agentes, nem contatos secretos”. Sinal de que a meta de se aproximar dos militares nunca foi atingida. 
Reação ao golpe 
Depois do golpe, a StB tentou ajudar a reação. Fez contatos com Leonel Brizola, genro de João Goulart e possível líder de uma reação armada. Mas Brizola adiou a ação, alegando que ainda não havia espaço para uma reação consistente. 
A partir de então, começou a terceira fase do serviço de espionagem tcheco em solo brasileiro. Ela acabou se mostrando um esforço cada vez mais perigoso, na medida em que o regime militar brasileiro aumentava o cerco sobre estrangeiros originários do Leste Europeu. Isso não quer dizer que a permanência não tenha dado nenhum resultado.“A StB sabia que Cuba apoiava a guerrilheiros e inclusive, no âmbito de uma operação que se chamava Manuel ajudou no transporte, via Praga, de latino-americanos, inclusive brasileiros, que faziam treinamento de guerrilha em Cuba”, diz Mauro. 
Em 1971, o escritório da agência foi definitivamente fechado. Em algum momento o serviço de espionagem tcheco teria sido capaz de induzir um golpe de esquerda no Brasil? Não, mas conseguiu ser influente o suficiente para influenciar parcelas da imprensa e municiar Moscou de boas informações sobre os bastidores do governo brasileiro. Não é pouca coisa. As pesquisas de Mauro e Vladimir continuam, mas, por enquanto, já foram localizados mais de três dezenas colaboradores brasileiros. 
Não temos a intenção de denegrir a imagem de ninguém; não somos nós que estamos afirmando que alguém foi um colaborador, são os documentos do arquivo da polícia secreta da Tchecoslovaquia comunista que o dizem”, afirma Vladimir. “Por enquanto, pudemos encontrar informações sobre cerca de 30 colaboradores brasileiros, descritos como agentes ou contatos secretos. Estamos falando de, por exemplo, diplomatas, economistas, jornalistas”.
Fonte:  Gazeta do Povo
COMENTO:  recomendo a leitura, para quem não leu, do livro Camaradas, de Willian Waack - um dos motivos dele ser detestado por parcela dos comuno-socialistas brasileiros, apesar de ter recebido auxílio de um dos filhos de Luis Carlos Prestes na sua elaboração. Aparentemente, o livro tratado nesta postagem, segue no mesmo ritmo, documentando a atuação anti-patriótica e pró-comunista de muita gente que se diz "democrata".  São conhecidos diversos maus brasileiros que em nome de uma ideologia totalitária se submeteram (conscientemente, diga-se de passagem) a fazer parte de redes de espionagem a serviço da extinta União Soviética. Acredito que seja uma boa leitura.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Pensando Como um Analista de Inteligência - Parte 1

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Todos nós gostamos de pensar que tomamos decisões lógicas. Afinal, se decidimos um problema, nossa conclusão faz sentido para nós, ou então não teríamos chegado a essa conclusão, certo?
Além disso, quando descobrimos que outros analisaram a mesma questão e chegam a uma conclusão diferente, o que fazemos? Se formos honestos, a maioria de nós pensará que os outros estão errados e imediatamente procuramos evidências para provar isso.
A verdade é que somos todos suscetíveis a pensar de forma errada. De fato, os processos intelectuais que ajudaram a raça humana a crescer e prosperar são os mesmos processos que nos deixam suscetíveis a um julgamento equivocado.
Esses são os processos que o Analista de Inteligência deve deixar para trás.
Oratória versus Pensamento Crítico
Os Analistas de Inteligência reúnem enigmas. Eles analisam informações de várias fontes para tentar entender o que os adversários estão fazendo e o que é provável que façam a seguir. O pensamento crítico é a chave para o sucesso.
O problema é que muitos de nós não sabem como pensar de forma crítica. David T. Moore, um profissional de IC e autor de "Pensamento Crítico e Análise de Inteligência", afirma que o pensamento crítico não é ensinado em muitos cursos universitários, apesar de muitos dos programas de estudos classificarem o "pensamento crítico" como um objetivo.
O mais próximo que muitos estudantes chegam do pensamento crítico, diz Moore, geralmente é quando aprendem o Método Científico. Por outro lado, é provável que os alunos de cursos não-científicos não tenham o treinamento necessário para serem bem-sucedidos. Isso porque o que é ensinado nas escolas mais frequentemente é uma espécie de retórica, a arte de argumentar para provar um ponto de vista. Começando no ensino médio, somos ensinados a desenvolver uma tese e a "provar" através da argumentação.
Infelizmente, a oratória reforça alguns dos processos mentais que tornam o pensamento crítico tão desafiador, como a busca seletiva de informações que confirmem nosso ponto de vista. E talvez nem tenhamos consciência de que estamos fazendo isso.
Modelos mentais: o bom e o mau
Nossas mentes estão cheias de informações que acumulamos ao longo dos anos, desde a infância até hoje. Nossos cérebros fazem o trabalho maravilhoso de usar essa informação para criar modelos mentais do mundo. Usamos esses modelos mentais diariamente para tomar decisões sobre a vida. Eles fornecem um atalho intelectual que é altamente útil no dia a dia. Mas eles têm um lado ruim.
Richards J. Heuer, autor da "Psicologia da Análise de Inteligência", explica que os modelos mentais muitas vezes colorem e controlam nossa percepção de eventos em medida tão grande que podemos realmente não perceber o que está acontecendo na nossa frente. Em outras palavras, tendemos a perceber o que esperamos perceber.
Como exemplo, dê uma olhada na seguinte imagem *: o que você vê?
Imagem de “Psychology of Intelligence Analysis” de Richards J. Heuer.
Nossos modelos mentais podem nos concentrar nas três formas idênticas. Ou eles podem nos concentrar nos três termos ouvidos comumente. A maioria das pessoas, no entanto, não perceberá que os advérbios em cada uma das três frases são repetidos. (Se você notou, parabéns! Você está na minoria.) Como não esperávamos ver os advérbios repetidos, a maioria das pessoas simplesmente não vê a repetição.
Analistas de Inteligência, explica Heuer, desenvolvem expectativas sobre as motivações dos atores adversos. A evidência que se adapta a essas expectativas tende a ser facilmente assimilada, enquanto a evidência que contradiz essas expectativas tende a ser ignorada.
Esses modelos são notoriamente difíceis de quebrar. Mesmo quando nos são apresentadas evidências que invalidam o modelo, relutamos em ceder. Em vez de analisar a questão de forma objetiva desde vários pontos de vista, ficamos rodopiando a informação que valida aquilo em que já acreditamos.
Olhe ao redor e veja por si mesmo. Os discursos atuais são feitos por pessoas que fazem julgamentos desde modelos mentais muito diferentes. Um lado olha para o outro e simplesmente não consegue entender por que certos fatos não influenciam suas opiniões.
É porque não queremos que nossas opiniões sejam influenciadas. Queremos que os nossos modelos sejam validados. E faremos uma enorme ginástica mental para que isso aconteça.
Na próxima publicação, analisaremos uma amostra de técnicas utilizadas na Comunidade de Inteligência para quebrar esses processos e fazer o pensamento crítico justificar seu próprio nome.
Fonte: tradução livre de Intelligence Community

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A Perene Revolução Socialista no Brasil

General R1 Luiz Eduardo Rocha Paiva
O lançamento do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, em 1848, contribuiu para expandir a ideologia comunista. Anos depois, foram criadas organizações afins nas sucessivas Internacionais Socialistas, que reuniam distintas tendências da revolução socialista mundial.
A III Internacional, realizada em Moscou em 1919, ficou conhecida como a Internacional Comunista (IC). Ela criou o Comitê Internacional (Comintern), órgão do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) encarregado de disseminar a revolução socialista, criando partidos afins em diversos países. Em 1922, nasceu a Seção Brasileira da Internacional Comunista, origem do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de sua futura dissidência, o Partido Comunista do Brasil, após a cisão em 1962.
Para se filiar à IC, a Seção aceitou as 21 condições impostas pelo Comintern. Algumas determinavam que os PC combinariam ações legais com ilegais, fariam campanhas de agitação e propaganda com foco nos exércitos, seriam partidos internacionais subordinados ao PCUS e renunciariam ao patriotismo e à paz social. Por tudo isso, e com o PCB submisso à União Soviética, o socialismo já nasceu incompatibilizado com as Forças Armadas brasileiras, instituições exclusivamente leais à nação, legalistas, patrióticas e fiadoras da paz interna.
A revolução socialista faz um trabalho permanente de acumulação de forças, que culmina com tentativas de tomada do poder quando o partido revolucionário considera ter alcançado condições objetivas para tanto. Foram três tentativas frustradas e a quarta está em pleno e exitoso andamento.
A primeira foi a Intentona Comunista em 1935. O traidor Luiz Carlos Prestes liderou uma frente ampla - Aliança Nacional Libertadora (ANL) - constituída pelo PCB e setores da esquerda. O golpe foi autorizado pelo PCUS e seguiu o modelo bolchevista russo de 1917, ou seja, um golpe de Estado imediato e violento. No Manifesto Revolucionário, convocando a nação, constavam os slogans: todo o poder à ANL; e pão, terra e liberdade. Na revolução bolchevista, os slogans eram: todo o poder aos soviets; e pão, paz e terra. Coincidência?
A segunda iniciativa se intensificou de 1961 a 1964 e usou a via pacífica preconizada pela URSS a partir de 1956. O golpe foi paulatinamente preparado por meio da infiltração em instituições e setores estratégicos, a fim de viabilizar pressões de base e de cúpula para desestabiliza-los, e por meio da subversão (agitação e propaganda), para criar o clima revolucionário e motivar a sociedade para o golpe. Em 1963, Luiz Carlos Prestes declarara que o Brasil disputava a glória de ser o segundo país do continente a implantar o socialismo e que o PCB estava no governo, mas ainda não tinha o poder.
A terceira tentativa foi preparada desde o início dos anos 1960 e se intensificou a partir de 1966. Empregou a forma violenta (linha maoísta) - luta armada prolongada - modelo fortalecido após o fracasso da via pacífica de linha soviética. A revolução socialista recebeu outro duro golpe, mas atrasou por dez anos a redemocratização almejada pela nação. A esquerda revolucionária não teve o reconhecimento de nenhuma democracia e de nenhum organismo internacional de que lutasse por democracia ou representasse parte do povo brasileiro. A redemocratização, em 1978, não foi obra da luta armada, então totalmente desmantelada, mas sim do governo militar, da oposição legal e da sociedade civil ordeira.
Porém, a revolução socialista é perene e, hoje, ela acumula forças para a quarta tentativa de conquistar o poder. Emprega a via pacífica de linha gramcista, estratégia de longo prazo que vem desde os anos 1960. O PT, substituto do PCB e do PCdoB na liderança da revolução, pretende a hegemonia sobre a sociedade para controla-la; e neutralizar o aparato de segurança do Estado, de modo a tomar o poder, destruir o Estado burguês e implantar o regime socialista. A investida sofreu um revés com a saída do PT do governo, mas ele manteve o controle de setores importantes de uma sociedade enfraquecida pela destruição de valores atiçada, há décadas, pela revolução socialista. O PT é um partido socialista, de acordo com os seus próprios documentos, e o fato de muitos de seus líderes terem sido corrompidos pela ganância de poder e riqueza não significa que ele não seja ideológico. É um partido ideológico-fisiológico.
Países com grave divisão ideológica têm altos índices de instabilidade, insegurança interna, debilidade no cenário externo e o futuro comprometido. Isso acontece, em prazos mais curtos, com nações politicamente imaturas e não desenvolvidas, cujas sociedades têm baixos níveis de educação, cultura e civismo. Da mesma forma, o paulatino enfraquecimento das potências ocidentais se explica pela crescente cisão ideológica interna e perda de valores tradicionais, cívicos e cristãos após a introdução da ideologia socialista, particularmente, com sua exitosa pregação da contracultura em suas sociedades. A queda das grandes potências é algo histórico e começa pela decadência moral. No entanto, quando uma nação alcança um alto nível de desenvolvimento e superioridade militar e científico-tecnológica a decadência se arrasta por décadas ou séculos, como foi com Roma, Reino Unido e URSS.
O Brasil tem duas forças internas destrutivas. A liderança política fisiológica, não discutida nesse artigo, e a da revolução socialista permanente, ambas incompetentes para governar, corruptoras, corrompidas e aliadas de 2003 a 2016. A permanência da primeira ou a volta da segunda ao poder comprometerão a paz social, a unidade política, a grandeza moral e o futuro do Brasil.
Nunca antes na história desse país, uma aliança lhe causou tanto mal.
Fonte:   Ternuma

sábado, 20 de janeiro de 2018

A “Surpresita” Que Assusta os Venezuelanos

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Nas pontes internacionais de Cúcuta, a uma semana concentram-se centenas de pessoas
 buscando chegar à Colômbia. - Foto de Julio Cesar Herrera.
por Rosalinda Hernández C.
transcorreram oito dias desde que o presidente Nicolás Maduro anunciou, em uma cadeia nacional de rádio e televisão, que tomaria medidas drásticas, como o fechamento aéreo e marítimo, ante a saída ilegal de produtos nacionais para as ilhas do Caribe - Aruba, Curazao e Bonaire - e que tem uma "surpresinha" pronta para a fronteira colombiana, isto é, Cúcuta e Maicao.
Em consequência, os efeitos não se fizeram esperar e em questão de dias a passagem de venezuelanos pelas pontes internacionais - Simón Bolívar e Francisco de Paula Santander - aumentou a ponto de gerar um colapso. Devido a isso, as autoridades colombianas de Migração e a Polícia Nacional tiveram que intervir e reorganizar as intermináveis filas que se formam e que tem até 300 metros de comprimento.
As ruas adjacentes à Aduana principal de San Antonio estão abarrotadas de transeuntes que correm buscando a saída para a Colômbia.  É o caso de Cesar Salazar a quem as declarações de Nicolás Maduro fizeram tomar a decisão de migrar junto a sua esposa.  “A situação que vive o país é aviltante. Nós decidimos ir para Bogotá, lá estão há cinco meses meus três filhos trabalhando. Maduro está alcançando seu propósito que não é outro que é fazer quem o conteste partir, que saiamos do país. Aqui ficam só os manipuláveis, os que se deixam dominar. Daí vem esses anúncios e ameaças que geram inquietude no povo que quer sair”, assegurou o venezuelano sentado junto a uma pilha de maletas.

Regressou para buscar a família 
As declarações de Maduro cruzaram a fronteira e chegaram até Bogotá, onde reside Ramón Meléndez, um venezuelano de 47 anos que, desde agosto foi trabalhar na capital colombiana para enviar dinheiro à sua família que ficou em Barquisimeto.
Ramón, na passagem por San Antonio, advertiu:  “venho para leva-los”, disse com notável preocupação a El Colombiano.  “Regresso para levar minha esposa e os meus dois filhos. As ameaças extremas e o temor que criaram as recentes declarações do presidente nos fazem pensar muito e é melhor sair antes que se invente qualquer coisa. Venezuela não vai mudar. O país está muito destruído”.
Também há a história de Nereida James que, enquanto se despedia de sua família na ponte internacional, avisou que adiantou a viagem por temor a um eventual fechamento da fronteira. “Entre meus vizinhos e alguns amigos, consegui vender meu carro, uma moto e todos os aparelhos eletrodomésticos da casa e móveis. Não tenho um plano definido, só queremos sair do país”, disse. 

Os mais prejudicados 
Ninguém tem claro na fronteira do que se trata a "surpresa". Sem dúvida, se especula que poderia ser uma manobra política ou um regime especial aduaneiro. O que está claro é que o caos que gerou segue latente.
Aqui ninguém sabe o que vem para a fronteira depois do anúncio do presidente. Não sabemos se a surpresa se trata da implementação de um regime econômico especial, controlado ou por cotas como funciona na Ilha Margarita ou qualquer outra situação. O presidente não pode ser irracional e desumano pretendendo fechar uma importante via de acesso de comidas e remédios ao povo venezuelano”, disse Edgardo Sandoval, empresário aduaneiro de San Antonio.
Ante a multidão que passa diariamente da Venezuela para a Colômbia, o prefeito do município colombiano Vila do Rosário, Pepe Ruiz, assinalou que serão redobradas as medidas de segurança nas imediações da ponte internacional Simón Bolívar.
Infelizmente tem aumentado o ingresso de venezuelanos nos último dias pela fronteira, muito mais do que estamos acostumados a ver na temporada dezembrina. Isto é devido ao grande problema que se apresenta na Venezuela”, disse.
Explicou que implementarão um plano de choque paraevitar que os que chega nos invadam os ginásios, ruas e praças. Os que estão sem documentos terão que ser deportados de novo ao seu país, informou o prefeito colombiano.
Ele também não descartou que após os anúncios de Nicolás Maduro se apresente um novo fechamento na passagem entre ambas as nações.

Contraponto
Um leve incremento no número de entradas e saídas de cidadãos nacionais e estrangeiros, cerca a 7% superior a outros meses do ano, se apresentou nas últimas semanas. Assim observou Christian Krüger Sarmiento, diretor geral de Migração a Colômbia, que indicou que este aumento obedeceria à dinâmica migratória que se apresenta na região durante a temporada de fim de ano, dado que na zona de fronteira a grande maioria das famílias estão compostas por cidadãos de ambos países ou, porque os cidadãos venezuelanos ingressam, durante estas datas, ao território nacional com o propósito de abastecer-se de alimentos e produtos de primeira necessidade, para passar estas festas.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano