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quarta-feira, 11 de julho de 2018

A Ditadura Sob o Disfarce de "Crédito Social"

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Comprar ou não comprar? Comer ou não comer?  O sistema socialista do 'crédito social' dirá se você pode e o que é que pode. Crédito: Kevin Hong
A cadeia financeira Alibaba, o maior conglomerado de comércio eletrônico do planeta, aliás chinês, já passou a incluir em seu sistema o 'Zhima Credit'.
Esse apresenta, ao fazer login via smartphone, um inexplicado número de três algarismos, entre 350 e 950. 
O jornalista do La Nación de Buenos Aires constatou que seu número era 654, uma qualificação considerada 'excelente'. 
Muitos poucos sabem o que significa. Trata-se da entrada no sistema de pontuação social aplicado por Alibaba, para julgar seus clientes.
Oficialmente é uma nota à conduta dos usuários e um indicador da confiança que merecem.
O algoritmo que fixa a qualificação é extremamente opaco, e considera o que compram, de quem, multas e conduta face aos créditos bancários.
A bicicleta é tudo para muitos milhões de chineses. 
O 'crédito social' dirá quem pode usá-las, quando e como. Rua de Suzhou.
Os usuários melhor cotados podem usar sala VIP em aeroportos, alugar sem fazer depósitos de garantia ou receber empréstimos em condições mais favorecidas.
Uma das principais locadoras de bicicletas da China, Mobike, vai usar a pontuação para penalizar os usuários de baixa nota: terão que pagar o dobro. 
E os qualificados como 'deficiente' terão que pagar até cem vezes mais.
O preço fica inacessível e não terão bicicleta. 
Deixar a bicicleta em local improprio ou danifica-la, violar regras do trânsito, implicará queda na qualificação.
Mas isso não é um sistema empresarial: se trata das primeiras penetrações do “crédito social” que o governo comunista aprovou em 2014 e que está introduzindo paulatinamente.
Em seu bojo contém o mais orwelliano sistema de repressão política. 
Tirou uma selfie?
Um número dirá se você ou seus amigos 
são 'bons' ou 'ruins' para a ditadura.
Crédito: Kevin Hong
Essa começa dissimulada sob rótulos como 'credibilidade jurídica'; 'honestidade comercial', 'integridade social' ou ter manifestado nas redes sociais ideias que desagradam ao regime.
Até a pontuação dos amigos afetará os cidadãos que lhe são próximos.
O sistema, ainda não inteiramente implantado, parece ficção cientifica. 
Em março, a Comissão Nacional para Reforma e Desenvolvimento anunciou que os faltosos na administração serão punidos com a proibição de viajar em avião e em trem de alta velocidade. 
Aqueles que tenham pendências na Justiça ou dívidas importantes também serão atingidos. O veto durará um ano e será emendável.
Em 2017, 6,15 milhões de pessoas foram excluídas desses transportes públicos. 
A jovem Pang [nome fictício por segurança] conta:
fiquei sabendo que não poderia voar quando tentei comprar uma passagem pela internet. Apareceu uma página dizendo que estava na lista negra e que teria que procurar um transporte alternativo”, disse a El País”, de Madri.
Sua única alternativa era um trem que demora mais de 14 horas.
O mais grave é o modo como se cria a lista negra. O pai de Pang não pode pagar um crédito no banco, então a filha foi castigada, malgrado ela tenha obtido um refinanciamento do próprio banco.
A lista negra irá se sofisticando na medida em que se digitalizem ou integrem os diferentes bancos de dados pessoais já existentes.
Viajando? Um número dirá se você pode pegar o metrô, 
o trem ou o avião em função da fidelidade ao regime. Crédito: Kevin Hong
Segundo o governo, o propósito é “restringir os movimentos e operações daqueles que não são confiáveis”.
As pessoas julgadas “incômodas” pelo regime terão cerceadas suas liberdades mais básicas, segundo denunciou Human Rights Watch.
Não há mecanismo de defesa para os “desqualificados” como Pang.
O Grande Irmão chinês está cada vez mais onipresente e onipotente, conclui El País”.
O modelo é exportável como a tecnologia chinesa.
E uma nova raça de párias se espalhará pela Terra selecionada e condenada por computadores manipulados pelo Partido Comunista sob o rótulo de “crédito social”.
Alguém poderá dizer que qualquer semelhança com o 666 do Apocalipse não é mera coincidência:
“16. (...) conseguiu que todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, tivessem um sinal na mão direita e na fronte,
17. e que ninguém pudesse comprar ou vender, se não fosse marcado com o nome da Fera, ou o número do seu nome” 
(Apocalipse, 13, 16-17).
Fonte: adaptação de Pesadelo Chinês

COMENTO:  qualquer semelhança com coisas como a nossa Identidade Única do Cidadão ou o Cadastro Positivo e outras ideias em implantação, são pura coincidência, claro. 
ATUALIZANDO:  O Jornal Metro, edição de Brasília, em sua edição de 18 Jul 18, trouxe um excelente texto demonstrando o que vem por aí em termos de controle da população. Tudo apresentado como "avanços" da tecnologia em prol das pessoas. Acredite!  Vale a pena acessar e verificar na página 05 da publicação em pdf.


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terça-feira, 3 de abril de 2018

A “História” Recontada

por  Hiram Reis e Silva
Um povo sem história é um povo vazio. E quem não relembra os feitos de seu povo, não vive, não tem alma, não sente a vida, não vibra”. (Leon Frejda Szklarowsky)
Muro de Berlim
É deprimente verificar o que professam os historiadores de hoje. Forjados, na sua maioria, por uma ideologia ultrapassada e decadente continuam comportando-se como legítimos órfãos do muro de Berlim, insistindo em manter vivo um sistema político desde há muito morto, enterrado e putrefato. São sociólogos, ideólogos, filósofos, professores e políticos que procuram moldar os corações e mentes dos jovens e despreparados estudantes e de uma população anestesiada pelas benesses patrocinadas pela máquina publica através das famigeradas, virulentas e aliciadoras bolsas.
- “Ressignificação da Memória”
A historiografia moderna está de tal forma impregnada pela ideologia ParTidária que se torna cada vez mais difícil ter acesso à versão real dos fatos. Os novos “historiadores” se preocupam, por demais, em atrelar suas convicções ideológicas aos eventos históricos comprometendo, com isso, a veracidade dos acontecimentos.
A “história” reescrita pelos derrotados da “Revolução Redentora de 31 de Março” é carregada de revanchismos e atentados contra os verdadeiros heróis da nacionalidade brasileira transformando-os em vilões enquanto os traidores, ladrões, assassinos e mutiladores de outrora são enaltecidos. Os “pseudo historiadores”, a serviço do ParTido, são capazes de ultrajar a figura de um Duque de Caxias e enaltecer à do déspota paraguaio Solano Lopes. Os livros de história distribuídos pelo Ministério da Educação são um ultraje à memória de nossos antepassados e a inteligência do povo brasileiro.
- “Ressignificando” a Balaiada
O termo “ressignificar” amplamente usado pelos alienados “Companheiros Acadêmicos” foi, na verdade, a maneira encontrada pelos militantes “PeTralhas” de atribuir um significado “politicamente correto”, segundo a visão deles, é claro, a eventos considerados não alinhados com a ideologia do ParTido.
A Balaiada, por exemplo, foi uma ameaça à integridade nacional. Caso não tivesse sido debelada por Caxias, o Maranhão teria se tornado a “República Bem-Te-Vi”. Cosme Bento das Chagas, um dos líderes do movimento, que a esquerda enaltece como um campeão da igualdade, e se autodenominava “Imperador, Tutor e Defensor das Liberdades Bem-te-vis”, vendia títulos e honrarias a seus sequazes (qualquer semelhança com os políticos atuais não é mera coincidência).
O historiador, geógrafo, escritor, político e editor marxista Caio Prado Júnior depois de uma visita à União Soviética, na época de Stálin, publicou “URSS - Um Novo Mundo (1934)”, cuja edição foi apreendida pelo Governo Vargas. Em relação à Balaiada, Prado Júnior faz a seguinte consideração:
na origem deste levante, vamos encontrar as mesmas causas que indicamos para as demais insurreições da época: a luta das classes médias, especialmente urbana, contra a política aristocrática e oligárquica das classes abastadas, grandes proprietários rurais, senhores de engenho e fazendeiros, que se implantara no país”.
Nelson Piletti e Claudino vão mais longe:
A Balaiada, uma das mais vigorosas revoltas populares da História do Brasil, chegava ao fim. Fora esmagada pela botas, pelos fuzis e pelos sabres das forças oficiais para garantir os privilégios (as terras, os escravos e o poder) das elites do Maranhão. (...) O comandante do massacre que inundou as ruas com o sangue de homens brancos pobres, dos mestiços e dos negros que buscavam a liberdade, Luis Alves de Lima e Silva, foi regiamente recompensado pelo governo. Por esse ato de bravura recebeu o título de Barão, e depois, Duque de Caxias, posteriormente tornou-se o patrono do Exército Brasileiro. (...) Os sertanejos, os artesãos, os negros fugidos - o povo pobre do sertão, enfim foram massacrados pelo Exército, simplesmente porque queriam uma vida melhor. A preocupação do governo era quanto ao fato das classes oprimidas estarem participando ativamente do processo político, com armas na mão”. (História e Vida Integrada - Livro didático do 8° ano)
A Balaiada, uma rebelião liderada por facínoras que defendiam seus próprios interesses, foi transformada em luta de classes. Antes mesmo da intervenção de Caxias, a insurreição, que já se encontrava comprometida e debilitada com as divergências entre seus chefes e as lideranças liberais, foi “ressignificada” para atender aos proclames da ideologia marxista.
- Lamarca - o “Heróico” Covarde dos PeTralhas
Entre suas façanhas mais notáveis estão dois assaltos a banco que resultaram na morte do gerente Norberto Draconetti e do guarda-civil Orlando Pinto Saraiva - morto com um tiro na nuca e outro na testa, disparados pelo próprio Lamarca; a ação no Vale do Ribeira em que torturou e assassinou cruelmente o tenente Alberto Mendes Júnior, esfacelando-lhe o crânio a coronhadas; e o assassínio do agente da Polícia Federal Hélio Carvalho de Araújo, durante o sequestro do embaixador suíço”. (Editorial do “O Estado de São Paulo)
- Che Guevara - o Carniceiro de La Cabaña
El Che nunca trató de ocultar su crueldad, por el contrario, entre más se le pedía compasión más él se mostraba cruel. El estaba completamente dedicado a su utopía. La revolución le exigía que hubiera muertos, él mataba; ella le pedía que mintiera, él mentía. En La Cabaña, cuando las familias iban a visitar a sus parientes, Guevara, en el colmo del sadismo, llegaba a exigirles que pasaran delante del paredón manchado de sangre fresca”. (Padre Javier Arzuaga, Ex-Capelão da Cabaña)
Che foi o idealizador do primeiro acampamento de trabalhos forçados, em Guanahacabibes, Cuba ocidental, em 1960. Che dizia:
à Guanahacabibes são mandadas as pessoas que não devem ir para a prisão. As pessoas que tenham cometido faltas à moral revolucionária. É um trabalho duro, não um trabalho bestial”.
Guanahacabibes foi o precursor do confinamento sistemático, a partir de 1965 na província de Camagüey, de dissidentes, homossexuais, católicos, testemunhas de Jeová e outras “escórias”, como eram considerados pelos revolucionários. Os “desadaptados” eram transportados para os campos de concentração que tinham como modelo Guanahacabibes onde, via de regra, eram mortos, violentados ou mutilados.
Jamais se saberá, exatamente, o número de execuções levadas a cabo durante o período revolucionário. María Werlau, Diretora Executiva do Arquivo Cubano, afirmou: “No lo sé, cien mil... doscientos mil ...
Como Procurador-Geral, El Che comandou a “Prisão Fortaleza de San Carlos de La Cabaña”, onde, somente nos primeiros meses da revolução, ocorreram 120 fuzilamentos. Che considerava que: “As execuções são uma necessidade para o Povo de Cuba, e um dever imposto por esse mesmo Povo”.
El Che comandava os fuzilamentos no “paredão”, sendo conhecido, por isso mesmo, pelo codinome de “el Carnicero de la Cabaña”. Ele dirigia pessoalmente os processos contra os representantes do regime deposto, condenando à morte mais de 4.000 pessoas. Na “Cabaña”, havia inimigos políticos e inocentes, mas Che mandava executar a todos. Seu lema era: “Ante la duda, mata”, lema que chegou a aplicar, inclusive, a antigos companheiros de armas.
- As faces de Che 
Alberto Korda imortalizou em 5 de março de 1960, na sua foto mais famosa, o rosto de Che. Sua aparência, de 1956 a 1964, mudou tanto quanto seu nome. Foi conhecido como Ernestito, Teté, Pelao, Chancho, Fuser, Furibundo, Serna, Martín Fierro, Franco-atirador e outros tantos que adotou antes de chegar à Guatemala, onde o cubano Antonio Ñico López o batizou de “Che”.
Fidel Castro enviou Luis García Gutiérrez Fisín a Praga, onde Che se encontrava, e o dentista alterou o rosto de Che fazendo uso de próteses dentárias. As mudanças fisionômicas foram tais que nem mesmo os homens que tinham lutado com Guevara em Cuba e seus filhos, então muito pequenos, o reconheceram. Che usava lentes, ligeiramente obeso, cabeça raspada, uma figura diversa do Guevara que conheciam. Os registros de seu diário de 12 de novembro de 1966 afirmam:
Meu cabelo está crescendo, apesar de muito ralo, e as mechas que se tornaram loiras, começam a desaparecer; nasce-me a barba. Dentro de poucos meses, voltarei a ser eu”.
- “Con su Muerte, Murió el Hombre y Nació la Farsa”
Se evoca siempre su trágico final, asesinado cuando ya se había rendido, después de fracasar en un intento guerrillero que lo llevó hasta las selvas bolivianas al frente de un puñado de hombres”.
Sob o comando de Guevara, 49 jovens inexperientes recrutas, que haviam sido mobilizados para expulsar os invasores cubanos, foram emboscados e mortos.
Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto”, gritou um guerrilheiro magro, fedorento, maltrapilho e imundo nos confins da Bolívia no dia 8 de outubro de 1967. Frase que seus admiradores e biógrafos fazem questão de esquecer, pois o covarde pedido de misericórdia não combina com a imagem por eles forjada. Che foi executado pelos militares bolivianos em La Higuera em 9 de Outubro de 1967. A partir de sua morte, sua imagem foi lapidada apresentando-o como um mártir, idealista, cheio de virtudes, defensor dos fracos e oprimidos. Seus companheiros o chamavam de “el chancho”, o porco, porque não gostava de tomar banho e “tinha cheiro de rim fervido”.
Hoje, graças a uma ardilosa e falaciosa propaganda inúmeras e mal informadas criaturas teimam em ostentar a carranca do diabólico “chancho” em suas camisetas.
- Nós, os Brasileiros
Minha amiga Drª Vania Leal Cintra escreveu, há algum tempo, um interessante artigo que reproduzo por considerá-lo muito atual.
Há uma ordem só: resistência a todo transe”. (Antonio Ernesto Gomes Carneiro)
Nós, os brasileiros, não precisamos, a pretexto de que devemos celebrar exemplos de heroísmo e de desprendimento por amor à Pátria e à coisa pública, continuar ouvindo discursos que vertem lágrimas, recheados de impropérios e muito pouco sérios; nem precisamos continuar assistindo a novelas estúpidas que tenham como protagonistas indivíduos obscuros, alheios a nós, representando personagens pinçados do submundo, com um enredo que se resume a um somatório de fatos inventados por não sabemos bem quem.
Não precisamos mesmo.
Nós, os brasileiros, não precisamos de quem invente conversas tortas, que fogem aos fatos e ao sentido da História, para que, por pretextos mentirosos, possam ser reconhecidos como heróis os que de verdade o são e, ao lado deles, possam ser colocados também os que heróis nunca foram.
Não precisamos mesmo.
Nós, os brasileiros, precisamos apenas continuar honrando a nossa História, a real, lembrando-nos constantemente dos atos de heroísmo que ela mesma se encarregou de consagrar; e precisamos procurar repetir os feitos de nossos heróis em pensamentos, em palavras e em obras, observando as razões de seu comportamento e os objetivos que eles buscavam realizar ou manter sob quaisquer circunstâncias, contra todas as adversidades - eles, os que mereceram, pelo que realmente fizeram por nós, ser desde sempre chamados de heróis.
O Brasil tem, em sua História, que não começou ontem nem anteontem, heróis em quantidade suficiente para que, evocando seus nomes e seguindo seus exemplos, todos saibamos perfeitamente escolher o caminho mais certo e mais seguro, todos saibamos exatamente como nos comportar em benefício de todos nós e todos saibamos por que assim devemos nos comportar. E para que saibamos todos por que, de que e para que podemos nos orgulhar de nós mesmos.
Nada disso nos faltou antes, desde que despontamos como um povo diferenciado de outros povos, dos distantes e dos mais próximos; nada disso nos faltou em todos os momentos nos quais fizemos questão de nos mostrar diferenciados.
Tem nos faltado hoje, no entanto - quando os que puderam, por nossos cochilos e tropeços, chegar ao poder pretendem nos retirar em definitivo essa prerrogativa de identidade, obrigando-nos a nos travestir do que nunca fomos e definitivamente não somos na intenção de nos desencaminhar para seduzir seja quem for, como se apenas isso pudesse justificar a nossa existência.
Nós, os brasileiros, não merecemos isso. Não merecemos mesmo! Nem deveríamos a isso nos submeter. Porque não precisamos.
Precisamos, sim, com coragem e com tenacidade, resistir!”. (Vania Leal Cintra)
Coronel de Engenharia Hiram Reis e Silva
Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS);
Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional.
- Livro do Autor:
O livro “Desafiando o Rio-Mar – Descendo o Solimões” está sendo comercializado, em Porto Alegre, na Livraria EDIPUCRS – PUCRS e na rede da Livraria Cultura (http://www.livrariacultura.com.br). 
Para visualizar, parcialmente, o livro acesse o link:
Fonte: Novoeste

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Como a Espionagem Comunista se Infiltrou no Governo de Dois Ex-presidentes Brasileiros

O ministro da Economia de Cuba, Ernesto “Che” Guevara, e o presidente Jânio Quadros durante encontro no Brasil, em 1960  -  Arquivo - FolhapressArquivo
Dois pesquisadores resgatam a trajetória do serviço secreto da Tchecoslováquia, que foi muito atuante no Brasil nas décadas de 1950 e 1960 e enviou informações para Moscou
por Tiago Cordeiro
Existem espiões em todas as épocas e todos os lugares, especialmente durante conflitos ou situações de tensão entre blocos de países. É natural imaginar que, durante a Guerra Fria, havia agentes e informantes em todos os cantos do planeta.
O Brasil, o maior país da América Latina, era um território estratégico, principalmente depois que um pequeno grupo de guerrilheiros transformou Cuba em uma ilha socialista a poucos quilômetros dos Estados Unidos. Mas quem exatamente circulou no Brasil? Que informantes utilizaram? Que estratégias adotaram
É conhecido o interesse da CIA em interferir nos rumos políticos brasileiros nos anos 1950 e 1960. Afinal, o país abriu boa parte de seus arquivos e o que se sabe já indica que Washington acompanhou bem de perto o contexto do país. Chegou a se preparar para dar apoio militar aos adversários do presidente João Goulart, uma medida que acabou não sendo necessáriaNo caso do bloco soviético, os arquivos em geral permanecem fechados, ou de difícil acesso. Com uma exceção muito importante: a Tchecoslováquia.
O país era influente no Brasil. Empresários importantes, filhos ou netos de tchecos, eram respeitados, principalmente no Sul e Sudeste. Não eram necessariamente adeptos do comunismo, é claro, mas sua presença oferecia bela fachada que os agentes tchecos aproveitaram ao longo dos anos 1950 e 1960. 
Melhor ainda: depois da redemocratização realizada a partir dos anos 1990, a Tchecoslováquia abriu quase todos os seus arquivos que documentam a atuação de seu serviço secreto. Só faltava quem fosse até lá com muita disposição e conhecimento mínimo do idioma.
Com a publicação de 1964: O Elo Perdido, Mauro Kraenski e Vladimir Petrilák começam a suprir essa lacuna. A obra traça um panorama detalhadíssimo a respeito da atuação da Státní Bezpečnost (StB), a polícia secreta tcheca, no Brasil, entre 1952 e 1971. Conclui que assessores muito próximos de pelo menos dois presidentes brasileiros atuaram fornecendo informações para o lado de lá da cortina de ferro. 
Arquivos abertos 
Ao fim da Segunda Guerra Mundial e a formação do bloco de países aliados da Rússia, diferentes serviços secretos surgiram para investigar as populações locais e também espionar e agir no exterior. Sabemos que, no Brasil, agentes da Polônia, da Alemanha Oriental, de Cuba e da Tchecoslováquia moraram no país. Todos repassaram informações para suas sedes. Dali, os relatórios seguiam para Moscou. Quando necessário, os russos interferiam, pedindo mais informações ou assumindo o controle de determinadas operações. 
É realmente impressionante que o serviço de inteligência da pequenina Tchecoslováquia tenha sido capaz de atuar em tantos países do mundo. Foi um verdadeiro serviço de inteligência global em suas atuações. Possuiu suas rezidenturas (sedes) em vários países latino-americanos, como Brasil, Uruguai, Argentina, Chile, Colômbia, Venezuela, Bolívia, México, Equador”, diz Mauro Kraenski, tradutor versado em polonês, com boas noções do idioma tcheco.
Mauro passou dois anos digerindo as informações disponíveis nos arquivos de Praga, a capital. Quando encontrou dificuldades, foi socorrido pelo coautor, o colunista tcheco Vladimir Petrilák. 
Não foi nem um pouco difícil ter acesso aos documentos”, diz Vladimir. “O arquivo é público e está aberto para qualquer um que deseje pesquisar. Não houve censura de documentos, somente em alguns poucos casos recebemos a informação de que determinada pasta deveria passar por um tipo de avaliação. Trata-se de uma formalidade, mas ao fim, depois de um curto período de tempo, estas pastas também foram liberadas”.
O site oficial do livro apresenta alguns desses documentos. 
Visão negativa dos brasileiros
A StB começou a agir entre nós no Rio de Janeiro, com um único agente, o barbeiro por profissão Jiří Kadlec, codinome Treml. Tinha 27 anos e só havia feito um curso de espionagem de dois meses. Seu maior objetivo estava bem claro: “A missão mais importante era a luta contra os Estados Unidos da América e muitas das tarefas tinham como objetivo desacreditar os americanos e prejudicar a sua imagem”. 
Ele vivia sozinho num apartamento que funcionava como a “rezidentura”, o nome das instalações de agentes no exterior. Na mesma época, a rezidentura da StB em Nova York abrigava sete agentes; a de Buenos Aires, quatro. Treml agiu sozinho por dois anos e, em seus relatórios, reclamou muito. Primeiro, porque não tinha estudado português o suficiente antes de se mudar. Segundo, porque seu apartamento mal tinha móveis. Ele não tinha autorização para mobiliá-lo nem verba para levar informantes para passear ou jantar. Poucos anos depois, a situação havia mudado bastante. 
Em 1962, depois de dez anos de atividades, já viviam no Rio vários agentes, que mantinham uma boa rede de relacionamento. Também havia um espião vivendo em Brasília e contatos esporádicos em São Paulo. 
Um manual básico sobre o Brasil para novos espiões, datado dessa época, descrevia o país da seguinte forma:
O funcionário do serviço de inteligência no Brasil terá contato principalmente com a população das grandes cidades, ou seja, com a chamada classe média, da qual procedem a maioria dos funcionários públicos federais. Um brasileiro, ao contatar com um estrangeiro, possui uma tendência em fazer uma grande quantidade de promessas, já supondo que não cumprirá nenhuma delas. São pessoas preguiçosas e bem levianas, com as quais não se pode contar.
O texto continua: “No Brasil, por regra, encontramos pessoas ignorantes, que, mesmo com numerosos títulos científicos, não chegam aos pés da nossa gente com formação primária.” 
Contato com Jânio e Jango 
Além de fazer este tipo de estudo sobre as características sociais, políticas e comportamentais do país, os tchecos tinham um objetivo claro: convencer formadores de opinião nacionalistas, incomodados com a influência dos Estados Unidos sobre o Brasil. Um dos critérios para descartar um possível informante, inclusive, era sua participação em partidos de esquerda, que fariam dele um alvo fácil demais, capaz de expor a própria StB
O serviço de inteligência tchecoslovaco determinava alvos de interesse”, diz Mauro. “No Brasil, podemos citar: Ministério das Relações Exteriores, Congresso Nacional, instituições científicas, polícia, serviço de inteligência, partidos políticos, jornalistas, Petrobrás, Exército, Confederação Nacional da Indústria”. A exceção mais notável foi Francisco Julião: a StB se mostrou muito interessada no líder das Ligas Camponesas e chegou a avaliar seriamente sua capacidade para liderar uma revolução comunista. 
Foi ao buscar este perfil de pessoas, capaz de influenciar a imprensa e a economia, que os agentes tchecos alcançaram figuras de alto escalão no cenário político brasileiro pré-1964, incluindo jornalistas com acesso ao presidente e aos bastidores de eventos, assessores de ministros e diretores de departamentos estratégicos em Brasília. 
Dois casos, em especial, chamam a atenção. O tradutor Alexandr Alexeyev, agente da KGB, ficou próximo de Jânio Quadros quando o então presidente visitava Moscou como político de oposição, em 1958. Nesse caso, os arquivos da StB fornecem um vislumbre da ação do alcance da KGB no Brasil. Alexeyev estava em Cuba quando Jânio foi eleito. A StB ajudou a conseguir o visto para que ele entrasse no Brasil. Graças a um contato dos agentes tchecos em Brasília, o agente russo conseguiu, em 5 de maio de 1961, realizar uma reunião com o presidente. Ouviu de Jânio a promessa de que as relações diplomáticas do Brasil com a URSS seriam reatadas – o que de fato aconteceria, em novembro. 
E há a história da aproximação com João Goulart. Jango visitou a Tchecoslováquia em dezembro de 1960, como vice-presidente. Da visita, os agentes relataram uma impressão positiva. E ficaram mais bem relacionados ainda com Raul Francisco Ryff, um assessor muito próximo de Jango. Durante todo o governo de João Goulart, a StB foi mantida muitíssimo bem informada sobre as intenções do presidente. 
Pró-Cuba
A StB também liderou uma frente de formadores de opinião pró-Cuba. Chegou a formar um grupo, a Frente Nacional de Apoio a Cuba (FNAC), que em 1963 organizou em Niterói o Congresso Continental de Solidariedade a Cuba. Também emplacou artigos em jornais e revistas a favor de Cuba e dos soviéticos e contra os Estados Unidos. 
Ainda assim, a influência junto a essas figuras e a capacidade de organizar eventos em solo nacional não permitiu que a StB percebesse nem a renúncia de Jânio, em 1961, nem a aproximação do golpe militar de 1º de abril de 1964.
Os próprios agentes fazem a autocrítica a respeito dessa falha grave: “A deposição de Goulart foi realizada diretamente pela extrema reação de círculos civis e militares, ou seja, por aquelas mesmas pessoas que realizam golpes em pequenos países centro-americanos”, apontam em seu relatório. “O fato é que nestes círculos nós não possuímos nem nossa rede de agentes, nem contatos secretos”. Sinal de que a meta de se aproximar dos militares nunca foi atingida. 
Reação ao golpe 
Depois do golpe, a StB tentou ajudar a reação. Fez contatos com Leonel Brizola, genro de João Goulart e possível líder de uma reação armada. Mas Brizola adiou a ação, alegando que ainda não havia espaço para uma reação consistente. 
A partir de então, começou a terceira fase do serviço de espionagem tcheco em solo brasileiro. Ela acabou se mostrando um esforço cada vez mais perigoso, na medida em que o regime militar brasileiro aumentava o cerco sobre estrangeiros originários do Leste Europeu. Isso não quer dizer que a permanência não tenha dado nenhum resultado.“A StB sabia que Cuba apoiava a guerrilheiros e inclusive, no âmbito de uma operação que se chamava Manuel ajudou no transporte, via Praga, de latino-americanos, inclusive brasileiros, que faziam treinamento de guerrilha em Cuba”, diz Mauro. 
Em 1971, o escritório da agência foi definitivamente fechado. Em algum momento o serviço de espionagem tcheco teria sido capaz de induzir um golpe de esquerda no Brasil? Não, mas conseguiu ser influente o suficiente para influenciar parcelas da imprensa e municiar Moscou de boas informações sobre os bastidores do governo brasileiro. Não é pouca coisa. As pesquisas de Mauro e Vladimir continuam, mas, por enquanto, já foram localizados mais de três dezenas colaboradores brasileiros. 
Não temos a intenção de denegrir a imagem de ninguém; não somos nós que estamos afirmando que alguém foi um colaborador, são os documentos do arquivo da polícia secreta da Tchecoslovaquia comunista que o dizem”, afirma Vladimir. “Por enquanto, pudemos encontrar informações sobre cerca de 30 colaboradores brasileiros, descritos como agentes ou contatos secretos. Estamos falando de, por exemplo, diplomatas, economistas, jornalistas”.
Fonte:  Gazeta do Povo
COMENTO:  recomendo a leitura, para quem não leu, do livro Camaradas, de Willian Waack - um dos motivos dele ser detestado por parcela dos comuno-socialistas brasileiros, apesar de ter recebido auxílio de um dos filhos de Luis Carlos Prestes na sua elaboração. Aparentemente, o livro tratado nesta postagem, segue no mesmo ritmo, documentando a atuação anti-patriótica e pró-comunista de muita gente que se diz "democrata".  São conhecidos diversos maus brasileiros que em nome de uma ideologia totalitária se submeteram (conscientemente, diga-se de passagem) a fazer parte de redes de espionagem a serviço da extinta União Soviética. Acredito que seja uma boa leitura.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A Perene Revolução Socialista no Brasil

General R1 Luiz Eduardo Rocha Paiva
O lançamento do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, em 1848, contribuiu para expandir a ideologia comunista. Anos depois, foram criadas organizações afins nas sucessivas Internacionais Socialistas, que reuniam distintas tendências da revolução socialista mundial.
A III Internacional, realizada em Moscou em 1919, ficou conhecida como a Internacional Comunista (IC). Ela criou o Comitê Internacional (Comintern), órgão do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) encarregado de disseminar a revolução socialista, criando partidos afins em diversos países. Em 1922, nasceu a Seção Brasileira da Internacional Comunista, origem do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de sua futura dissidência, o Partido Comunista do Brasil, após a cisão em 1962.
Para se filiar à IC, a Seção aceitou as 21 condições impostas pelo Comintern. Algumas determinavam que os PC combinariam ações legais com ilegais, fariam campanhas de agitação e propaganda com foco nos exércitos, seriam partidos internacionais subordinados ao PCUS e renunciariam ao patriotismo e à paz social. Por tudo isso, e com o PCB submisso à União Soviética, o socialismo já nasceu incompatibilizado com as Forças Armadas brasileiras, instituições exclusivamente leais à nação, legalistas, patrióticas e fiadoras da paz interna.
A revolução socialista faz um trabalho permanente de acumulação de forças, que culmina com tentativas de tomada do poder quando o partido revolucionário considera ter alcançado condições objetivas para tanto. Foram três tentativas frustradas e a quarta está em pleno e exitoso andamento.
A primeira foi a Intentona Comunista em 1935. O traidor Luiz Carlos Prestes liderou uma frente ampla - Aliança Nacional Libertadora (ANL) - constituída pelo PCB e setores da esquerda. O golpe foi autorizado pelo PCUS e seguiu o modelo bolchevista russo de 1917, ou seja, um golpe de Estado imediato e violento. No Manifesto Revolucionário, convocando a nação, constavam os slogans: todo o poder à ANL; e pão, terra e liberdade. Na revolução bolchevista, os slogans eram: todo o poder aos soviets; e pão, paz e terra. Coincidência?
A segunda iniciativa se intensificou de 1961 a 1964 e usou a via pacífica preconizada pela URSS a partir de 1956. O golpe foi paulatinamente preparado por meio da infiltração em instituições e setores estratégicos, a fim de viabilizar pressões de base e de cúpula para desestabiliza-los, e por meio da subversão (agitação e propaganda), para criar o clima revolucionário e motivar a sociedade para o golpe. Em 1963, Luiz Carlos Prestes declarara que o Brasil disputava a glória de ser o segundo país do continente a implantar o socialismo e que o PCB estava no governo, mas ainda não tinha o poder.
A terceira tentativa foi preparada desde o início dos anos 1960 e se intensificou a partir de 1966. Empregou a forma violenta (linha maoísta) - luta armada prolongada - modelo fortalecido após o fracasso da via pacífica de linha soviética. A revolução socialista recebeu outro duro golpe, mas atrasou por dez anos a redemocratização almejada pela nação. A esquerda revolucionária não teve o reconhecimento de nenhuma democracia e de nenhum organismo internacional de que lutasse por democracia ou representasse parte do povo brasileiro. A redemocratização, em 1978, não foi obra da luta armada, então totalmente desmantelada, mas sim do governo militar, da oposição legal e da sociedade civil ordeira.
Porém, a revolução socialista é perene e, hoje, ela acumula forças para a quarta tentativa de conquistar o poder. Emprega a via pacífica de linha gramcista, estratégia de longo prazo que vem desde os anos 1960. O PT, substituto do PCB e do PCdoB na liderança da revolução, pretende a hegemonia sobre a sociedade para controla-la; e neutralizar o aparato de segurança do Estado, de modo a tomar o poder, destruir o Estado burguês e implantar o regime socialista. A investida sofreu um revés com a saída do PT do governo, mas ele manteve o controle de setores importantes de uma sociedade enfraquecida pela destruição de valores atiçada, há décadas, pela revolução socialista. O PT é um partido socialista, de acordo com os seus próprios documentos, e o fato de muitos de seus líderes terem sido corrompidos pela ganância de poder e riqueza não significa que ele não seja ideológico. É um partido ideológico-fisiológico.
Países com grave divisão ideológica têm altos índices de instabilidade, insegurança interna, debilidade no cenário externo e o futuro comprometido. Isso acontece, em prazos mais curtos, com nações politicamente imaturas e não desenvolvidas, cujas sociedades têm baixos níveis de educação, cultura e civismo. Da mesma forma, o paulatino enfraquecimento das potências ocidentais se explica pela crescente cisão ideológica interna e perda de valores tradicionais, cívicos e cristãos após a introdução da ideologia socialista, particularmente, com sua exitosa pregação da contracultura em suas sociedades. A queda das grandes potências é algo histórico e começa pela decadência moral. No entanto, quando uma nação alcança um alto nível de desenvolvimento e superioridade militar e científico-tecnológica a decadência se arrasta por décadas ou séculos, como foi com Roma, Reino Unido e URSS.
O Brasil tem duas forças internas destrutivas. A liderança política fisiológica, não discutida nesse artigo, e a da revolução socialista permanente, ambas incompetentes para governar, corruptoras, corrompidas e aliadas de 2003 a 2016. A permanência da primeira ou a volta da segunda ao poder comprometerão a paz social, a unidade política, a grandeza moral e o futuro do Brasil.
Nunca antes na história desse país, uma aliança lhe causou tanto mal.
Fonte:   Ternuma

sábado, 20 de janeiro de 2018

A “Surpresita” Que Assusta os Venezuelanos

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Nas pontes internacionais de Cúcuta, a uma semana concentram-se centenas de pessoas
 buscando chegar à Colômbia. - Foto de Julio Cesar Herrera.
por Rosalinda Hernández C.
transcorreram oito dias desde que o presidente Nicolás Maduro anunciou, em uma cadeia nacional de rádio e televisão, que tomaria medidas drásticas, como o fechamento aéreo e marítimo, ante a saída ilegal de produtos nacionais para as ilhas do Caribe - Aruba, Curazao e Bonaire - e que tem uma "surpresinha" pronta para a fronteira colombiana, isto é, Cúcuta e Maicao.
Em consequência, os efeitos não se fizeram esperar e em questão de dias a passagem de venezuelanos pelas pontes internacionais - Simón Bolívar e Francisco de Paula Santander - aumentou a ponto de gerar um colapso. Devido a isso, as autoridades colombianas de Migração e a Polícia Nacional tiveram que intervir e reorganizar as intermináveis filas que se formam e que tem até 300 metros de comprimento.
As ruas adjacentes à Aduana principal de San Antonio estão abarrotadas de transeuntes que correm buscando a saída para a Colômbia.  É o caso de Cesar Salazar a quem as declarações de Nicolás Maduro fizeram tomar a decisão de migrar junto a sua esposa.  “A situação que vive o país é aviltante. Nós decidimos ir para Bogotá, lá estão há cinco meses meus três filhos trabalhando. Maduro está alcançando seu propósito que não é outro que é fazer quem o conteste partir, que saiamos do país. Aqui ficam só os manipuláveis, os que se deixam dominar. Daí vem esses anúncios e ameaças que geram inquietude no povo que quer sair”, assegurou o venezuelano sentado junto a uma pilha de maletas.

Regressou para buscar a família 
As declarações de Maduro cruzaram a fronteira e chegaram até Bogotá, onde reside Ramón Meléndez, um venezuelano de 47 anos que, desde agosto foi trabalhar na capital colombiana para enviar dinheiro à sua família que ficou em Barquisimeto.
Ramón, na passagem por San Antonio, advertiu:  “venho para leva-los”, disse com notável preocupação a El Colombiano.  “Regresso para levar minha esposa e os meus dois filhos. As ameaças extremas e o temor que criaram as recentes declarações do presidente nos fazem pensar muito e é melhor sair antes que se invente qualquer coisa. Venezuela não vai mudar. O país está muito destruído”.
Também há a história de Nereida James que, enquanto se despedia de sua família na ponte internacional, avisou que adiantou a viagem por temor a um eventual fechamento da fronteira. “Entre meus vizinhos e alguns amigos, consegui vender meu carro, uma moto e todos os aparelhos eletrodomésticos da casa e móveis. Não tenho um plano definido, só queremos sair do país”, disse. 

Os mais prejudicados 
Ninguém tem claro na fronteira do que se trata a "surpresa". Sem dúvida, se especula que poderia ser uma manobra política ou um regime especial aduaneiro. O que está claro é que o caos que gerou segue latente.
Aqui ninguém sabe o que vem para a fronteira depois do anúncio do presidente. Não sabemos se a surpresa se trata da implementação de um regime econômico especial, controlado ou por cotas como funciona na Ilha Margarita ou qualquer outra situação. O presidente não pode ser irracional e desumano pretendendo fechar uma importante via de acesso de comidas e remédios ao povo venezuelano”, disse Edgardo Sandoval, empresário aduaneiro de San Antonio.
Ante a multidão que passa diariamente da Venezuela para a Colômbia, o prefeito do município colombiano Vila do Rosário, Pepe Ruiz, assinalou que serão redobradas as medidas de segurança nas imediações da ponte internacional Simón Bolívar.
Infelizmente tem aumentado o ingresso de venezuelanos nos último dias pela fronteira, muito mais do que estamos acostumados a ver na temporada dezembrina. Isto é devido ao grande problema que se apresenta na Venezuela”, disse.
Explicou que implementarão um plano de choque paraevitar que os que chega nos invadam os ginásios, ruas e praças. Os que estão sem documentos terão que ser deportados de novo ao seu país, informou o prefeito colombiano.
Ele também não descartou que após os anúncios de Nicolás Maduro se apresente um novo fechamento na passagem entre ambas as nações.

Contraponto
Um leve incremento no número de entradas e saídas de cidadãos nacionais e estrangeiros, cerca a 7% superior a outros meses do ano, se apresentou nas últimas semanas. Assim observou Christian Krüger Sarmiento, diretor geral de Migração a Colômbia, que indicou que este aumento obedeceria à dinâmica migratória que se apresenta na região durante a temporada de fim de ano, dado que na zona de fronteira a grande maioria das famílias estão compostas por cidadãos de ambos países ou, porque os cidadãos venezuelanos ingressam, durante estas datas, ao território nacional com o propósito de abastecer-se de alimentos e produtos de primeira necessidade, para passar estas festas.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano

sexta-feira, 17 de março de 2017

A Espiral da Mediocridade

A consequência de décadas desta hegemonia esquerdista é aquilo que chamo de espiral da mediocridade.
por Luis Milman
O ambiente universitário brasileiro, a exemplo do jornalístico, é um terreno no qual sempre proliferou a mentalidade esquerdista. O Partido dos Trabalhadores, desde os anos 80, é o preferido de professores e alunos, que ostentam sua militância abertamente e com orgulho. Na medida em que o PT foi se tornando um partido de governo, partidos de esquerda mais à margem do poder, como o PCdoB, o PSTU e o PSOL, passaram a dividir com os petistas a liderança do movimento estudantil, enquanto os sindicatos docentes, especialmente das universidades públicas, continuaram a ser dominados por petistas. O PT substituiu o antigo PCB, o Partidão – do qual, em muitos aspectos, é um esbirro – na preferência da intelligentsia universitária. Assim, não é novidade que sempre tenha havido, por parte deste setor, uma adesão confessional aos padrões de pensamento e organização marxistas.
Para todos os efeitos, estar vinculado ao PT ou, em segundo plano, aos demais partidos da esquerda, aberta ou informalmente, significa, ainda hoje, possuir uma carta de recomendação ideológica, sem a qual é muito difícil abrir as portas para a participação em grupos que dominam a política e movem a burocracia universitária. A credencial é responsável pela ocupação de cargos diretivos e pela consequente ascensão na carreira docente, sem falar na participação assídua em congressos nacionais e internacionais e, principalmente, nas agências estatais de fomento à pesquisa, que controlam a distribuição de bolsas de estudo para alunos e verbas polpudas para professores. Para aqueles que não se ajustam ao perfil ideológico dominante, que são independentes ou não-alinhados ao ideário hegemônico, resta resignarem-se com um autêntico exercício de sobrevivência profissional, em um contexto que, não raras vezes, torna-se, até mesmo, hostil.
A contra-face deste esquerdismo que sequestrou a Universidade brasileira é a inexistência de setores articulados mais identificados com referências teóricas de direita. Entenda-se por direita, aqui, não o espantalho reacionário que os petistas, ou a esquerda brasileira como um todo, fabricou para justificar sua doutrinação. A direita que importa é aquela dos conservadores e liberais, que defende os valores da democracia republicana, da economia de mercado, da tradição e costumes judaico-cristãos e da liberdade individual. Esta está praticamente extinta na Universidade, muito por culpa de sua própria falta de combatividade e de sua aceitação pacífica do expurgo ideológico a que foi submetida pela esquerda.
Externamente, apenas para fins de propaganda, os esquerdistas que dominam os campi sustentam que são democratas e que há, na universidade, um fluxo de pensamento livre. Não há. Este fluxo é condicionado pela aceitação, por parte da maioria esmagadora de professores e estudantes, de modo tácito ou explícito, da mentalidade revolucionária marxista ou para-marxista e de sua superioridade moral. Um professor, na área de Humanidades, por exemplo, tem muita dificuldade operacional para expor as ideias políticas de Hume, Burk ou Toqueville, ou a crítica ao socialismo de Mises e Hayeck, num ambiente no qual Marx, Gramsci, Adorno e Dvorkin são praticamente vistos como sublimes.
São imperceptíveis, na Universidade brasileira, os registros do debate e da abertura intelectual. Em seu lugar, há um compadrio doutrinário e a consequência de décadas desta hegemonia esquerdista é aquilo que chamo de espiral da mediocridade. Nas salas de aula e nos encontros de pesquisadores repetem-se à exaustão as fórmulas surradas de pensadores marxistas. Há muito espaço, também, para anarco-marxistas, como Foucault, ou para pós-modernistas como Derrida, além de uma penca de autores de expressão menor que seguem estas linhas. Tudo produzido de maneira repetitiva para consumo da clientela acadêmica. Não há diferença entre formação e doutrinação. A reflexão dá lugar ao automatismo e os modos de expressão, na mesma medida em que a capacidade crítica é substituída por uma adesão do sujeito a uma dogmática já existente, limitam-se a propagar e a produzir cópias caricatas dos modelos que habitam o Olimpo das ideias revolucionárias e desconstrutivistas.
É a este quadro, em linhas gerais, que está reduzida a intelectualidade na Universidade brasileira. É de se reconhecer, no entanto, que está surgindo, devido à degradação política do PT, uma demanda por mais inteligência na sociedade. Esta demanda reflete-se no meio acadêmico, onde a situação confortável da esquerda passou a sofrer alguma contestação, mesmo que ainda incipiente. Uma das defesas do esquerdismo, digamos, corporativo da Universidade, é fazer com que suas práticas e hábitos permaneçam opacas para essa mesma sociedade que a sustenta. A vida intelectual e a burocracia universitárias ainda constituem uma caixa-preta para o cidadão comum. É preciso urgentemente devassá-la.
Luis Milman é professor de filosofia e jornalista.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Fidel "Paredón" Castro

por Ives Gandra da Silva Martins 
Passada a emoção da morte do mais sanguinário ditador das Américas, que provocou as mais variadas manifestações de tristeza dos decadentes movimentos da esquerda mundial, mister se faz uma análise fria sobre os anos de chumbo em que vivia e vive o povo cubano, os quais se vêm prolongando desde fins da década de 1950, quando Fidel Castro assumiu o poder na infeliz ilha caribenha.
O primeiro ponto a destacar é a falta de respeito aos direitos humanos. Brutalmente, foram fuzilados, ao estilo da era do Terror da Revolução Francesa, sem julgamento nem direito de defesa, milhares de cubanos, nos famosos paredóns. De 1792 a 1794, quando Robespierre assumiu o controle do governo francês, dezenas de milhares de pessoas foram guilhotinadas, condenadas por tribunais populares. Fidel substituiu as guilhotinas pelos paredóns e fuzilamentos em massa.
Naquela época, nos meus primeiros anos de advocacia, em que era ainda popular tomar a bebida denominada Cuba Libre, era hábito pedir nos bares “Cuba sem Fidel”, pois a ditadura lá se instalou desde os primeiros momentos.
Igor Gielow, comparando diversos arquivos de várias instituições e adotando o considerado mais conservador, apresenta 7.326 mortos ou desaparecidos nas prisões cubanas (quase 6 mil fuzilados em paredóns), não se incluindo nesse número os afogados nas tentativas de fuga da ilha, ou seja, 65 mortos por grupos de 100 mil habitantes. Pelos mesmos critérios, o Chile assassinou, sob Pinochet, 23,2 para cada 100 mil habitantes; o Paraguai, sob Stroessner, 10,4; o Uruguai, 7,6; a Argentina, 30,9, no regime militar; a Bolívia, 6,2; e o Brasil, 0,3. É de lembrar que no período militar brasileiro foram mencionados pela Comissão da Verdade 434 mortos ou desaparecidos, negando-se aquela comissão a apurar as 129 mortes provocadas pelos guerrilheiros, algumas em atentados terroristas em logradouros públicos. Por isso foi alcunhada de “Comissão da Meia Verdade”. É certo que, sob o domínio de Raúl Castro, a letalidade do governo cubano caiu, havendo registro de 264 vítimas de 2006 para cá (Folha de S.Paulo).
O segundo aspecto a ser estudado é o da liberdade. Em artigo que publiquei, O Neoescravagismo Cubano (Folha, 17/2/2014), observei que, após ler o contrato dos médicos cubanos com o governo brasileiro, nele encontrei cláusulas de proibição de receberem no Brasil qualquer visita, mesmo de parentes, sem que houvesse antes autorização de autoridades cubanas. Eles também ficavam com apenas um quarto do salário e transferiam para o governo fidelista três quartos. Mantinha a ditadura, por garantia, seus familiares em Cuba, como reféns, para que voltassem à ilha, eliminando assim o eventual desejo de pedirem asilo às autoridades brasileiras. Talvez nenhum símbolo seja tão atentatório à dignidade da pessoa humana como os termos desse contrato, aceito pelo governo da presidente Dilma Rousseff sem discussão. Não sem razão, o ex-presidente Lula disse ter perdido, com a morte de Fidel, “um irmão mais velho”; José Dirceu declarou, no passado, “ser mais cubano que brasileiro”; e Marco Aurélio Garcia chegou a afirmar que havia “mais democracia em Cuba que nos Estados Unidos”, num de seus costumeiros arroubos.
Quanto à economia, conseguiram os Castros levar sua população à miséria, com salários inferiores à Bolsa Família para a esmagadora maioria dela, independentemente da qualificação profissional. No momento em que ruiu o império soviético e a ilha deixou de ser mantida economicamente pela Rússia, assim como quando desmoronou a equivocada economia Venezuelana, com a perda de apoio do regime chavista – talvez Hugo Chávez ainda estivesse vivo se tivesse ido se tratar em hospitais americanos, e não cubanos –, a economia do país, sem tecnologia, indústria de ponta e investimentos de expressão, viu-se e vê-se sem horizontes, implorando aos americanos apoio para sobreviver, num mundo cada vez mais competitivo.
Politicamente, em lugar de adotarem o modelo chinês, de uma esquerda política e uma direita econômica, o que permitiu à China pular de uma economia com PIB inferior ao do Brasil no início dos anos 1990 para a segunda economia do mundo 20 e poucos anos depois, continuaram, num estilo menos estridente que o do tiranete Nicolás Maduro, a defender o fracasso comprovado, em todos os espaços geográficos e períodos históricos, das teses marxistas, com o que o futuro da ilha está dependendo ou da abertura democrática ou do auxílio externo, pouco provável no mundo em que vivemos.
Fidel Castro instalou a mais longeva ditadura das Américas, só possível por ser pequena a população de seu país e rígido o controle das pessoas, sem liberdade para pensar algo diferente do que pensam as classes dominantes. E os saudosistas brasileiros de uma esquerda mergulhada no maior escândalo de corrupção da História do mundo lamentaram a perda do ditador, cujo irmão, no poder, vê seu mais forte aliado, o incompetente Maduro, verdadeiro exterminador do futuro imediato da Venezuela, mantendo-se à frente de seu governo graças às decisões de um Poder Judiciário escolhido por um Parlamento derrotado, às vésperas de ser substituído, e que se tornou capacho do Executivo.
Friamente examinando o período de domínio do tirano insular, há de se convir que sua figura, para os historiadores que virão, será a de líder cruel e sanguinário, cujo carisma oratório empolgou, todavia, toda uma geração de jovens, a qual acreditou que a melhor forma de combater as injustiças sociais não seria criar empregos e progresso, mas apropriar-se dos bens alheios, mesmo à custa da violência e da destruição dos valores democráticos. Felizmente, essa ilusão começa a ser desfeita, em todos os continentes, pois as ideologias, corruptelas das ideias, não produzem desenvolvimento, mas apenas decepção e sofrimento.
(Publicado originalmente no Estadão
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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sobre Cuba

Faz 5 dias que voltei de Cuba.
Escrevo este texto de um quarto de hotel em Boa Vista, Roraima, uma das cidades "invadidas" por venezuelanos que fogem da fome e do caos. 
O que vou relatar abaixo não tem a ver com o que vim fazer aqui, mas tem tudo a ver com os venezuelanos que eu encontrei pela rua. Tem tudo a ver com os cubanos. E comigo também.
Não fui a Cuba a trabalho. Mas ser repórter, para mim, é algo que vai muito além de trabalho. Se eu vim ao mundo para fazer algo, foi para contar para os outros o que eu andei vendo, ouvindo e sentindo por aí. Este texto é sobre isso.
Fui a Cuba com meu marido, o Diogo, o cara que eu amo, que eu escolhi para, junto comigo, fazer, parir e criar duas pessoas. Fui com o Diogo, um dos caras mais sérios, justos e comprometidos com a verdade dos fatos que eu já conheci na minha vida. O mais comprometido provavelmente. Tanto que, às vezes, acho que ele tem dificuldade de sonhar. E, talvez por isso, não mede esforços para realizar os MEUS sonhos. Ir a Cuba era um deles. Assim como foi pisar a neve pela primeira vez, cruzar a Amazônia, caminhar pelo Himalaia e atravessar um tapetinho até um altar improvisado vestida de noiva. 
Cuba foi nossa segunda lua de mel, a primeira viagem longa depois que tivemos filhos. Daqui a menos de dois meses, nossa primogênita, faz 6 anos. O fim da primeira infância dela é um marco. Comemorar era urgente. 
Por que Cuba? Porque Cuba, Fidel e Che me inquietam há tempos. Eu devia estar na sétima ou oitava série quando ouvi falar pela primeira vez de um lugar "onde todos eram iguais", mas as crianças pediam bala e canetas Bic aos turistas na rua. Lembro bem de uma professora que hoje, se estiver viva, deve ter uns 80 e tantos anos, dizendo que, quando menina, sonhava com Fidel fardado chegando em um cavalo branco para levá-la. Eu não entendia bem aquela paixão, era mais da turma das amigas da minha professora, as quais, dizia ela, eram apaixonadas por Che. 
Aos 15, ganhei dos meus amigos um poster do revolucionário argentino clicado por Alberto Korda. Preguei na parte interna do meu armário, onde ficou até eu deixar a casa da minha mãe, aos 24 anos. Na época em que ganhei o souvenir, nossa curtição era usar boina, fumar charuto e discutir sobre a revolução e o absurdo do capitalismo. De lá para cá, já perdi a conta da quantidade de vezes em que participei de discussões acaloradas entre a turma dos pró e a dos contra Cuba. Em todas elas, sempre havia um sujeito que tentava calar o opositor com o argumento: "Você nunca foi para Cuba, não sabe o que está falando!"
Eu precisava ir a Cuba para saber do que eu estava falando.
Então fomos lá, um casal de jornalistas, em lua de mel em Cuba. 
Em Cuba, eu vi gente cantando e dançando – muito bem – a cada esquina. Ouvir música e dançar em Cuba é comer macarrão com vinho na Itália, amar em Paris, escalar no Himalaia. Em Cuba, eu vi turista por todos os lados, vi os carros antigos (custam cerca de 18 mil dólares e são passados de pai para filho), vi as casas de pé direito alto onde os andares são divididos em dois para caber mais gente. Eu vi casas que desmoronaram de tão velhas, eu vi esgoto a céu aberto, eu vi os mercados só para cubanos onde a maior transgressão é vender amendoim direto à população, sem passar pelo governo. Eu também vi crianças com uniformes impecáveis, escolas cheias, com quadras poliesportivas e prédios não muito diferentes das nossas escolas públicas. Em Cuba, eu vi pouca gente doente na rua e banheiros públicos tinindo de limpos, mesmo que não saísse água da torneira ou da descarga (no do Museu da Revolução, uma senhora abastecia baldes que os visitantes enojadinhos usavam para mandar embora suas necessidades). 
by Giuliana Bergamo
Em Cuba, fiz questão de entrar em um hospital central de Havana para ver a tal fantástica medicina cubana. Dei de cara com um arremedo de pronto socorro público muito parecido com os que topei em minhas apurações no Brasil. Gente se desmilinguindo na sala de espera, chão limpo, mas todo detonado, salas vazias com paredes caindo aos pedaços e um médico-bedel nervoso com a minha presença. Enfiei a cara para dentro do laboratório e fui imediatamente transportada para a década de 1980, quando eu visitava minha mãe no laboratório de análises clínicas onde ela trabalhava. Nostálgico, mas eu sei bem o quanto a medicina andou de lá para cá graças aos novos equipamentos tecnológicos. 
Na rua, conversei com pessoas que – essa foi uma grande surpresa – têm esperança no governo de Trump. Para eles, Obama fez nada pelos cubanos. A retomada das relações foi apenas cosmética. 
Fiz também o roteiro do turismo "oficial" e fui aos museus. Circulando pelas centenas de fotos de Fidel, Che e outros combatentes, suas fardas, pijamas ensanguentados, restos de equipamentos e posters com palavras de ordem e frases de louvor, não conseguia parar de pensar nos trechos do texto que eu lera dias antes de viagem, do livro "A Verdade das Mentiras", de Mario Vargas Llosa: "Numa sociedade fechada, o poder não se arrega apenas o privilégio de controlar as ações dos homens – o que fazem e o que dizem: aspira também governar sua fantasia, seus sonhos e, evidentemente, sua memória." Lembrei do mesmo texto quando entrei nas livrarias, onde os poucos livros exibidos nas estantes quase vazias eram de autores aliados ao governo cubano.
Não satisfeita, quis ter uma conversa franca com um cidadão, digamos, mais antenado. Na manhã de nosso último dia de viagem, W. (a conversa foi absolutamente informal, não me sinto à vontade de publicar o nome dele aqui), um jornalista cubano que resolveu desafiar o poder e contar a verdade das verdades e, por isso, paga com a própria liberdade, veio nos encontrar. 
Dias atrás, depois de cobrir uma ato pró-Trump (sim, teve isso em Cuba), o que ele mesmo julga uma "estupidez", W. foi preso por uma semana. Para proteger a mulher e a filha de 4 anos, W. não vive na mesma casa que elas. Vê a família aos fins de semana apenas. 
Quando foi nos encontrar na manhã do último domingo (20), W. estava tenso. Não, ele não temia estar sendo seguido. Já desistiu de se proteger. Sua aflição era pela prima, que estava em trabalho de parto desde o dia anterior. Eu, que já passei por isso de ficar parindo por horas duas vezes, pensei: "Coisa de homem. Parto é assim mesmo". Aí ele explicou melhor. Em Cuba, praticamente não tem parto cesáreo. "Tentam o parto normal até o fim." E eu novamente pensei: "Mano, você está no paraíso e não sabe!" Mas não era bem isso. Cesária é algo raro mesmo quando é necessária. Por isso, uma outra prima de W. perdeu um bebê que, por complicações de parto, morreu cinco dias depois de nascer. E eu com meus pensamentos novamente: "Mano, isso acontece direto no Brasil..." Só que o priminho de W. foi registrado como natimorto, uma estratégia safadinha para camuflar os dados sobre mortalidade infantil. E eu lembro de Llosa novamente: "Em uma sociedade fechada, a história se impregna de ficção, pois se inventa e reinventa em virtude da ortodoxia religiosa e da política contemporânea ou, mais grosseiramente, de acordo com os caprichos do poder."
Ao longo de nossa conversa e do passeio que fizemos pela periferia de Havana, W. criticou a miséria, a insegurança (a maior parte das casas tem grades), a censura, o povo que não promove a mudança de dentro para fora e fica à espera de um salvador. Em diversos pontos, continuei com minha discussão mental na linha "Mas o brasileiro pobre também passa por isso". 
Questionei W. sobre a educação, uma das bandeiras do governo e um dos argumentos mais utilizados pela turma pró-Fidel nas discussões dos bares da Vila Madalena, onde, aliás, os protagonistas costumam pagar fortunas por escolas onde seus filhos aprendam "a pensar". E eu me incluo nesse balaio aí. W.: "Sim, tem escola para todo mundo. Mas não tem educação. Tem adestramento. Educação, para mim, é ensinar a descobrir, a questionar, a fazer perguntas. Não é isso o que se ensina às crianças cubanas."
Naquele ponto da conversa – e da viagem – eu já estava tristíssima, mas ainda não havia perdido a esperança de encontrar aquela partícula que meus amigos tão encantados pelos país em algum momento acharam. Eu queria ver algo de realmente bom, algo esperançoso. Eu queria achar o samba e o futebol do cubanos. Então perguntei: "W., os cubanos, pelo menos, são felizes de alguma maneira?" W. deu um sorriso irônico e contou uma história para responder minha pergunta. Há pouco tempo, foi contratado por uma agência de notícias para fazer um documentário com o tema "Projeto de Vida". A ideia era entrevistar conterrâneos para saber quais eram os planos para o futuro deles. "Todos deram a mesma resposta: 'Meu projeto de vida é sair daqui. Quero deixar Cuba'. Não, os cubanos não são felizes", disse W.. 
Terminamos aquela manhã tristíssimos, com um buraco no peito. Eu e Diogo continuamos rodando a cidade a pé (quase não usamos carro ou outro tipo de transporte), enfrentamos a fila da chocolateria onde cubanos e turistas esperam um tempão para comer o chocolate mais doce que eu já provei na minha vida, demos de cara com a loja de Benetton em Cuba (!!!) e dissemos "não" às crianças que, na rua, pediam "caramelos" (balas, em português). Voltamos ao hotel, jantamos no único lugar onde encontramos uma comida dessas que acolhem o estômago e a alma, o Paladar Los Amigos, uma espécie de restaurante que funciona dentro de uma casa. Depois, não tivemos mais disposição emocional para fazer nada. E fomos dormir para enfrentar a viagem de volta. 
No dia seguinte, na fileira atrás de nós no avião, uma brasileira chorava copiosamente. Aflitos, os passageiros ao lado tentaram confortá-la. Parei minha leitura que acabara de começar, de "A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera, para ouvir o que ela contou a eles. Chorava porque o "marido" tinha ficado em Cuba. Meses antes, os dois se conheceram no Brasil. Médico, ele viera trabalhar no Programa Mais Médicos. Apaixonaram-se, tentaram fazer com que ele ficasse aqui, mas não teve jeito. Por determinação do governo, ele precisou voltar. Ainda assim, tinha a esperança de ser enviado para uma nova missão, o que lhe foi negado. A moça voltava de uma temporada de um mês com seu amor, seu "marido", ela dizia aos vizinhos de voo. 
Ouvi a história, abracei meu marido, trocamos carinhos e retomei minha leitura com o coração apertado. Logo cheguei à parte do livro em que a Tchecoslováquia é invadida pelos russos e Tomas, um dos protagonistas, tem a possibilidade de imigrar para a Suíça. No início, pensa em ficar. Afinal, Tereza, sua mulher, estava no auge da carreira de fotojornalista. Surpreendentemente, ela diz que está disposta a se mudar, apesar de saber que, na Suíça, vivia uma das amantes de Tomas. Sobre isso, Kundera escreve: "Aquele que quer deixar o lugar onde vive não está feliz." E eu completo: seja ele um personagem de ficção, um venezuelano, um cubano ou eu mesma, quando, em viagem a trabalho, quero voltar para perto dos meus amores.
Fonte: Facebook