sábado, 18 de julho de 2026

Disciplina e Alienação

por Maynard Marques de Santa Rosa
A disciplina militar prestante/Não se aprende, Senhor, na fantasia, /Sonhando, imaginando ou estudando, /Senão vendo, tratando e pelejando 
(Camões em Os Lusíadas, canto X, estrofe 153).

No diálogo, o realismo de Aníbal ironiza a presunção do filósofo, ao ensinar que a disciplina consciente é a que presta, por se firmar no discernimento e na vivência e por ter sido testada na luta. A disciplina que se adquire por estudo e hábito é inconsciente; logo, não presta.
O soldado da Pátria tem na disciplina o maior desafio à própria coragem moral. Pela tradição prussiana do Exército alemão, o soldado expressa a verdade “até mesmo em presença do rei. A coragem, porém, vai depender do valor intrínseco do homem e pode fraquejar, como ocorreu após a Operação Valquíria (20 Jul 1944), quando Hitler determinou que fossem enforcados os conspiradores. O regulamento militar impedia a punição da forca aos generais, mas um tribunal de honra foi instalado, sob a presidência do Mal de Campo veterano Gerd von Rundstedt, ex-comandante do Gp Ex Sul na campanha da Rússia, e os réus foram condenados à perda do posto, para que se fizesse cumprir a ordem suprema.
As Forças Armadas se regem por protocolos disciplinares que previnem a ingerência militar indevida. Se, por um lado previnem possíveis abusos, por outro servem de escudo para a omissão e o carreirismo internos que cega as instituições para os desvios governamentais, como se guarda pretoriana fossem do regime.
Recentemente, o jornalista americano Glenn Greenwald resumiu a conjuntura brasileira, declarando-se espantado com a permanência do ministro Alexandre de Moraes, mesmo após o vazamento das suas ligações familiares com o banqueiro Daniel Vorcaro. Greenwald, portador dos vazamentos ilegais aceitos pelo STF para liberar os corruptos arrolados na operação lava-jato, destacou que Moraes acumula os papéis de juiz, investigador e vítima, opera fora dos padrões democráticos tradicionais e instala um clima de medo no Brasil. Só que a sua denúncia, desta vez, parece ter caído no vazio.
De fato, a impunidade dos escândalos que ecoam rotineiramente no noticiário desafia a consciência nacional. Em contraste, sobreleva-se o rigor da condenação do ex-presidente da República e generais assessores, baseada na delação duvidosa do seu ajudante de ordens e em rascunhos anônimos de um planejamento hipotético. Um julgamento que, por sua gravidade, deveria ocorrer no pleno do STF, foi conduzido pela 1ª Turma, cuja composição é notoriamente tendenciosa. Os acusados pelo 8 de janeiro de 2023 terminaram condenados sem prova convincente de crime e sem instância de apelação.
No Brasil atual, há jornalista perseguido, rede social censurada e parlamentar condenado, tudo por crime de opinião, mas em alegada defesa da democracia.
O que mais surpreende, do que o espanto do jornalista, é a anomia das instituições garantes da lei e da ordem, rendidas de armas na mão à prepotência e à tirania, por aparente submissão ao falso jugo da disciplina conveniente.
COMENTO: Já em 2017, o desembargador Ledio Rosa de Andrade, do TJSC, dizia que a ditadura da toga é pior que a ditadura militar, porque “vem travestida de justiça, como se estivesse fazendo o bem e não o mal. Ela perdura um tempo como algo bom e legitimado. Uma ditadura que consegue, através de um discurso falso, de um discurso ideológico alienante e enganador, ter a complacência e até o aplauso da população é uma ditadura que não será combatida até que as pessoas se deem conta de que foram enganadas. Me parece que esta descoberta chegou tarde!

sábado, 11 de julho de 2026

A Guerra Errada, Contra o Inimigo Errado, na Hora Errada

Fonte da imagem:  Ultima Hora On Line
por Gen Marco Aurélio Vieira
O primeiro ato de avaliação, o maior deles, de maior alcance que o político e o comandante devem fazer é estabelecer em que tipo de guerra estão se envolvendo, não se enganando com relação a ela, e nem tentando transformá-la em algo que seja alheio à sua natureza. Esta é a primeira de todas as questões estratégicas e a mais abrangente.
(Carl Von Clausewitz in Da Guerra)
A história da humanidade é, em sua essência, uma crônica das guerras. Dizem que, em 3.500 anos, a humanidade teria vivido apenas 268 anos de paz plena — cerca de meros 8% do tempo histórico registrado. Esse realismo sangrento desautoriza teses otimistas, como a do "fim da história" do cientista político nipo-americano Francis Fukuyama. O mundo não convergiu para uma paz liberal; ao contrário, assistimos ao ressurgimento de impérios autoritários, ao capitalismo de Estado chinês e ao pragmatismo militarista.
Nesse tabuleiro, o retorno de Donald Trump à presidência dos EUA marca uma "chacoalhada geoestratégica" global. Sob o lema "América Primeiro", Washington recalibrou suas prioridades: contenção tecnológica da China, protecionismo econômico e a reafirmação da Doutrina Monroe. Enquanto o mundo se fragmenta atualmente em cerca de 120 conflitos armados ativos, e na consolidação do que podemos chamar de Primeira Guerra Híbrida Mundial, o Brasil parece navegar sem bússola, guiado por impulsos ideológicos que ignoram a realidade do poder.
Ao longo de seus mandatos, o Presidente Lula tem falhado em definir uma orientação geopolítica coerente com o peso do país. Em vez de uma estratégia de Estado, o que se vê são opiniões pessoais descoladas das raízes culturais e dos interesses econômicos da nação. A atual política externa brasileira opta pelo alinhamento com regimes totalitários e por um “pacifismo moralista de diretório acadêmico, enquanto trava uma "guerra fria" retórica contra os EUA — nosso aliado histórico e maior potência militar do globo.
As declarações presidenciais, que comparam adversários ideológicos ao nazismo, consideram traficantes como vítimas dos usuários de drogas, ou questionam a hegemonia do dólar no comércio global, sem uma devida retaguarda econômica, ou mínimo poder militar, expõem o país ao ridículo internacional. Esse cenário torna-se ainda mais grave diante do "sincericídio estratégico" do Ministro da Defesa, José Múcio, ao admitir que a proteção do território brasileiro é "precaríssima" e incompatível com nossas necessidades estratégicas.
Há três interpretações possíveis para o atual comportamento do Executivo: uma ignorância profunda sobre segurança nacional; uma desarticulação total entre a presidência e o comando militar; ou, no pior dos casos, um conluio para provocar reações externas e capitalizar politicamente sobre uma suposta "violação da soberania".
Enquanto o governo foca em narrativas ideológicas e críticas ao "imperialismo", e atribui superpoderes de influência na política externa americana a um deputado autoexilado que mal sabe falar inglês, a soberania real se esvai internamente: cerca de 30 milhões de brasileiros vivem sob o domínio de facções criminosas e milícias; o capital chinês já ocupa uma posição de domínio estratégico no país; e não há qualquer planejamento de Estado para fazer frente à fragmentação econômica global. O Brasil está totalmente exposto às retaliações comerciais, enquanto o crime organizado transnacional já bate à porta, lucrando com a falta de uma estratégia de defesa robusta e integrada. Detalhe: países não têm amigos, e presidentes americanos têm interesses americanos.
A herança cultural brasileira é ocidental e democrática. Não há afinidade popular ou histórica que legitime o atual flerte com o autoritarismo russo, chinês ou islâmico, ou ainda que justifique o isolamento em relação aos nossos parceiros comerciais tradicionais. Fomentar hostilidades contra o governo Trump, e fabricar uma imagem de defensor da “soberania” do país, apenas para alimentar dividendos eleitoreiros internos, não só é hipocrisia e cinismo, mas também um erro histórico de proporções trágicas.
O Brasil não pode se dar ao luxo de brincar de geopolítica com uma defesa desaparelhada e uma diplomacia paroquial. Um governo sem estratégia reduz-se à sobrevivência diária, e é incapaz de construir futuros. Ao virar as costas para a realidade e abraçar a barbárie ideológica, o atual governo não protege a soberania; ele a sabota. Soberania sem poder militar é suicídio; diplomacia sem inteligência é cilada. O custo dessa vaidade ideológica será cobrado em atraso, isolamento e na irrelevância internacional do Brasil, no restante século.
O Gen Marco Aurélio Vieira
Foi Comandante da 
Brigada de Operações Especiais e da
 Brigada de Infantaria Paraquedista
COMENTO: a mim, parece que está ocorrendo uma convergência das três hipóteses citadas no quinto parágrafo. Na época anterior em que o atual mandatário esteve à frente da administração do país, havia a queixa de diversos auxiliares, a respeito de sua completa alienação às recomendações feitas, particularmente na área de Inteligência. O Chorume Humano sempre confiou mais em seus "cumpanhêrus", notadamente os que não aparecem na mídia, agindo nas sombras para terem maior desenvoltura. As poderações de profissionais do Itamaraty, da Fazenda, de militares, etc. eram espezinhadas e sobrepujadas pelos palpites do "pessoal de confiança": Marco Aurelio Garcia, já falecido; Gilberto Carvalho, e Celso Amorim, o "megalonanico".  Parece que o costume não mudou. Os sábios aprendem com os erros dos outros, os tolos com os próprios erros e os idiotas não aprendem nunca.