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domingo, 20 de outubro de 2019

Como os EUA "Hackearam" o Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS)

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Neal na sala com os Operadores Cibernéticos militares da Força-Tarefa Conjunta ARES no lançamento da Operação que se tornaria uma das maiores e mais longas Operações Cibernéticas ofensivas da história militar dos EUA. 
Arte de Josh Kramer para NPR
A sala lotada aguardava uma palavra: "Fogo".
Todos estava uniformizados; havia diversos briefings programados, discussões de última hora, ensaios finais. "Eles queriam me olhar nos olhos e dizer: 'Você tem certeza de que isso vai funcionar?'" disse o Operador chamado Neal. "Toda vez, eu tinha que dizer que sim, não importa o que eu pensasse." Ele estava nervoso, mas confiante. O Comando Cibernético dos EUA e a NSA (Agência de Segurança Nacional) nunca haviam trabalhado juntos em algo tão grande antes.
Quatro equipes estavam sentadas em estações de trabalho montadas como carteiras de escolas do ensino médio. Os Sargentos estavam sentados diante dos teclados; analistas de inteligência de um lado, linguistas e equipe de apoio do outro. Cada estação estava armada com quatro monitores de computador de tela plana com braços ajustáveis ​​e uma pilha de listas de alvos, endereços IP e pseudônimos online. Eles eram guerreiros cibernéticos e estavam todos sentados no tipo de cadeiras de escritório de tamanho grande que os jogadores da Internet instalam antes de uma longa noite.
"Eu senti que havia mais de 80 pessoas na sala, entre membros das equipes e outros junto à parede dos fundos que queriam assistir", lembrou Neal  ele pediu que se usasse apenas seu primeiro nome para proteger sua identidade. "Não tenho certeza de quantas pessoas há nos telefones ouvindo ou nas salas de bate-papo".
Do seu ponto privilegiado em uma pequena baía um pouco acima na parte de trás do piso de operações, Neal tinha uma linha de visão nítida em todas as telas dos operadores. E o que eles continham não eram linhas de código brilhantes: em vez disso, Neal podia ver telas de login  as telas de login reais dos membros do ISIS a meio mundo de distância. Cada um cuidadosamente pré-selecionado e colocado em uma lista de alvos que, no dia da operação, havia se tornado tão longa que estava em um pedaço de papel de 1,5m x 1,5m, pendurado na parede.
Parecia um cartão gigante de bingo. Cada número representava um membro diferente da operação de mídia ISIS. Um número representava um editor, por exemplo, e todas as contas e endereços IP associados a ele. Outro poderia ser o designer gráfico do grupo. Enquanto os membros do grupo terrorista dormiam, uma sala cheia de operadores cibernéticos militares em Fort Meade, Maryland, perto de Baltimore, estava pronta para assumir suas contas e quebrá-las.
Tudo o que eles estavam esperando era Neal, para dizer uma palavra: "Fogo".
Em agosto de 2015, a NSA e o Comando Cibernético dos EUA  o principal braço cibernético dos militares  estavam numa encruzilhada sobre como responder a um novo grupo terrorista que havia entrado em cena com ferocidade e violência incomparáveis. A única coisa na qual todos pareciam concordar é que o Estado Islâmico do Iraque e Síria (ISIS) havia encontrado uma maneira de fazer algo que outras organizações terroristas não tinham: transformou a Web em uma arma. O ISIS costumava usar aplicativos criptografados, mídias sociais e revistas e vídeos on-line para espalhar sua mensagem, encontrar recrutas e lançar ataques.
Uma resposta ao ISIS exigia um novo tipo de guerra, e assim a NSA e o Comando Cibernético dos EUA criaram uma força-tarefa secreta, uma missão especial e uma operação que se tornaria uma das maiores e mais longas operações cibernéticas ofensivas da história militar dos EUA. Poucos detalhes sobre a Força Tarefa Conjunta (JTF ARES) e a Operação Glowing Symphony (Sinfonia Brilhante) foram publicados.
"Era um castelo de cartas"
Steve Donald, um capitão da Reserva Naval, é especialista em operações criptográficas e cibernéticas e, quando não está de uniforme, está lançando startups de segurança cibernética fora de Washington, DC.. Na primavera de 2016, ele recebeu um telefonema do líder de sua unidade de reserva. Ele convidava Donald para um encontro.
"Eu disse, bem, não estou de uniforme [e ele disse] não importa — se você tem um distintivo", disse Donald. "Não acredito que posso dizer isso, mas eles estavam construindo uma força-tarefa para conduzir operações cibernéticas ofensivas contra o ISIS".
Donald teve que montar uma equipe de especialistas para fazer algo que nunca havia sido feito antes  invadir a operação de mídia de uma organização terrorista e derrubá-la. A maioria do efetivo veio da sede das Forças Conjuntas, uma operação cibernética do Exército na Geórgia. Donald também trouxe especialistas em contraterrorismo que entendiam o ISIS e o viram evoluir de uma equipe desorganizada de islâmicos iraquianos para algo maior. Havia operadores  as pessoas que estariam nos teclados encontrando servidores-chave na rede do ISIS e desativando-os  e especialistas em engenharia digital que tinham profundo conhecimento dos sistemas operacionais de computadores.
"Eles podem dizer o que é bom, isso é ruim, é aqui que estão os arquivos que nos interessam", disse ele. Ele encontrou analistas, especialistas em malware, "comportamentalistas" e pessoas que passaram anos estudando os menores hábitos dos principais atores do ISIS. A missão, explicou a eles, era apoiar a derrota do ISIS  negar acesso, degradar e atrapalhá-los no ciberespaço.

Isso foi mais complicado do que parecia.
A batalha contra o grupo havia sido esporádica até então. O Comando Cibernético dos EUA vinha montando ataques à rede de computadores do grupo, mas assim que um servidor era desativado, novos hubs de comunicação reapareciam. Os alvos do ISIS estavam sempre em movimento e o grupo possuía boa segurança operacional. Apenas derrubar fisicamente os servidores do ISIS não era suficiente. Precisava haver um componente psicológico para que qualquer operação contra o grupo funcionasse bem.
"Esse ambiente cibernético envolve pessoas", disse Neal. "Envolve os hábitos deles. A maneira como eles operam; a maneira como nomeiam suas contas. Quando eles entram durante o dia, quando saem, que tipos de aplicativos eles têm no telefone. Eles clicam em tudo o que entra em suas caixas de entrada das contas? Ou eles são muito rígidos e restritivos no que usam? Todas essas peças eram o que procurávamos, não apenas o código ".
Neal é um reservista da Marinha de aproximadamente 30 anos, e não seria exagero dizer que a Operação Sinfonia Brilhante foi ideia dele. "Estávamos no porão da NSA e tivemos uma inspiração", disse ele. Ele acompanhava o departamento de propaganda do ISIS há meses  rastreando meticulosamente o caminho reverso de vídeos e revistas enviados, até suas fontes, procurando padrões para revelar como eles foram distribuídos ou quem os estava postando. Então ele percebeu algo que ninguém havia percebido antes: o ISIS estava usando apenas 10 contas e servidores principais para gerenciar a distribuição de seu conteúdo em todo o mundo.
"Toda conta, todo IP, todo domínio, toda conta financeira, toda conta de e-mail ... tudo", disse Neal. Os administradores de rede do grupo não foram tão cuidadosos quanto deveriam. Eles pegaram um atalho e continuaram voltando às mesmas contas para gerenciar toda a rede de mídia ISIS. Eles compraram coisas online através desses nós; eles carregaram mídia ISIS; eles fizeram transações financeiras. Eles até tinham compartilhamento de arquivos através deles. "Se pudermos assumir o controle", disse Neal, sorrindo, "ganharemos tudo".
O jovem fuzileiro correu para o seu escritório no Quartel General da NSA, pegou um marcador e começou a desenhar círculos e linhas malucas em um quadro branco. "Eu estava apontando para todos os lugares e dizendo: 'Está tudo conectado; esses são os pontos principais. Vamos lá", lembrou. "Eu me senti como se estivesse em It's Always Sunny, in Philadelphia, quando estavam investigando misteriosamente Pepe Silvia. Fotos na parede e fios vermelhos em todos os lugares e ninguém estava me entendendo".
Mas, enquanto Neal ia explicando e desenhando, podia ver os chefes começarem a assentir. "Eu desenhei este pneu de bicicleta com raios e todas as coisas que estavam ligadas a este nó e depois havia outro", disse ele. "Era um castelo de cartas."
Confirmamos este relato com três pessoas que estavam lá na época. E a partir desses rabiscos, a missão conhecida como Operação Sinfonia Brilhante começou a tomar forma. O objetivo era formar uma equipe e uma operação que desmentissem, degradassem e interrompessem a operação de mídia do ISIS.
A missão - conduzida por uma unidade especial do Comando Cibernético dos EUA e a NSA - era entrar na rede ISIS e interromper a operação de mídia da organização terrorista.
Arte: Josh Kramer para NPR
O equivalente cibernético de um ataque cirúrgico
A primavera e o verão de 2016 foram gastos nos preparativos para o ataque. E embora os membros da JTF ARES não tenham revelado tudo o que fizeram para invadir a rede do ISIS, uma coisa que eles usaram desde o início foi uma isca de hackers: um e-mail de phishing. Os membros do ISIS "clicaram em algo ou fizeram algo que nos permitiu ganhar controle e começar o movimento", disse o General Edward Cardon, o primeiro Comandante da JTF ARES.
Quase toda "invasão" começa com a "quebra" de um ser humano, a quebra de uma senha ou a descoberta de alguma vulnerabilidade não corrigida de baixo nível no software. "A primeira coisa que você faz quando consegue um acesso é ter persistência e se espalhar", disse Cardon, acrescentando que o ideal é obter uma conta de administrador. "Você pode operar livremente dentro da rede porque se parece com uma pessoa normal de TI." (O ISIS não tinha apenas pessoal de TI; tinha todo um departamento de TI.)
Uma vez que os operadores da ARES estavam dentro da rede ISIS, começaram a abrir back doors (portas dos fundos) e soltar malwares nos servidores enquanto procuravam pastas que continham coisas que poderiam ser úteis mais tarde, como chaves de criptografia ou pastas com senhas. Quanto mais a ARES entrava na rede do ISIS, mais parecia que a teoria sobre os 10 "entroncamentos" estava correta.
Mas havia um problema. Esses entroncamentos não estavam na Síria e no Iraque. Eles estavam por toda parte  em servidores ao redor do mundo, instalados ao lado de conteúdo civil. E que coisas complicadas. "Em todos os servidores pode haver coisas de outras entidades comerciais", disse o General da Força Aérea Tim Haugh, o primeiro vice-comandante da JTF ARES trabalhando sob Cardon. "Nós apenas tocaríamos aquela pequena fatia do espaço adversário e não perturbaríamos mais ninguém".
O pessoal da ARES teve que mostrar aos funcionários do Departamento de Defesa e membros do Congresso que, se o ISIS houvesse armazenado algo na nuvem ou em um servidor localizado, na França, por exemplo, os Operadores Cibernéticos dos EUA tinham habilidade suficiente para fazer o equivalente cibernético de um ataque cirúrgico: atacar o material do ISIS em um servidor sem remover o material civil armazenado ao lado dele.
Eles passaram meses lançando pequenas missões que mostravam que podiam atacar o conteúdo do ISIS em um servidor que também continha algo vital como registros hospitalares. Ser capaz de fazer isso significava que eles poderiam ter como alvo o material do ISIS fora da Síria e do Iraque. "E olhei para esse jovem fuzileiro naval e disse: 'Até onde podemos ir?' e ele disse: 'Senhor, nós podemos fazer em âmbito global'. Eu disse: 'É isso aí  escreva, vamos levar para o general Cardon'. "
O fuzileiro citado era Neal. Ele começou a estimular a liderança com idéias. E conversou com eles sobre não hackear somente uma pessoa ... ou o ISIS na Síria e no Iraque, mas como derrubar toda a rede global da operação de mídia. "É assim que esses ataques funcionam", disse Neal. "Eles começam muito simples e se tornam mais complexos".
Havia outra coisa na JTF ARES que era diferente: operadores jovens como Neal estavam instruindo os Generais diretamente. "Muitas [idéias] surgem dessa maneira, quando alguém diz: 'Bem, podemos obter acesso e fazer isso com os arquivos.' Sério? Você pode fazer isso? 'Oh, sim.' Alguém notaria? 'Bem, talvez, mas as chances são baixas.' É como, hummm, isso é interessante, coloque isso na lista. "
Cardon explica que os jovens operadores da JTF ARES entendiam o hackeamento de modo arraigado e, em muitos aspectos, entendiam melhor que os Comandantes o que era possível no ciberespaço; portanto, ter uma linha direta com as pessoas que tomavam as decisões era fundamental.

"Uma corrida incrível"
No outono de 2016, já havia uma equipe, a JTF ARES; havia um plano chamado Operação Sinfonia Brilhante, e havia briefings  que haviam chegado diretamente ao presidente. Foi só então que, finalmente, houve uma chance. O relato da primeira noite da Operação Glowing Symphony é baseado em entrevistas com meia dúzia de pessoas diretamente envolvidas.
Depois de meses analisando páginas da web estáticas e catando caminhos através das redes do ISIS, a força-tarefa começou a fazer login como o inimigo. Eles deletaram arquivos; alteraram senhas. "Clique aqui", dizia um especialista forense digital. "Estamos dentro", o operador responderia.
Houve alguns momentos involuntariamente cômicos. Seis minutos nos quais pequenas coisas aconteceram, lembra Neal. "A Internet estava um pouco lenta", disse ele sem ironia. "E então você sabe que o minuto sete, oito, nove, dez começaram a fluir e meu coração começou a bater novamente."
Eles começaram a explorar as redes do ISIS que haviam mapeado por meses. Os participantes descrevem que foi como assistir a ação de uma equipe limpando uma casa, exceto que tudo estava online. Entrar nas contas que eles seguiram. Usando senhas que eles descobriram. Então, no momento em que sua movimentação pelos alvos começou a acelerar, um obstáculo: uma questão de segurança. Uma pergunta de segurança do tipo "qual era o seu mascote do ensino médio".
A pergunta: "Qual é o nome do seu animal de estimação?"
A sala ficou em silêncio.
"Estamos presos em nossa trilha", disse Neal. "Todos olhamos um para o outro, pensando: o que podemos fazer? Não temos como entrar. Isso vai nos fazer perder uns 20 ou 30 alvos depois disso".
Então, um analista se levantou no fundo da sala.
— "Senhor, 1-2-5-7", disse ele.
— "Como é que é?" Neal diz.
— "Senhor, 1-2-5-7."
— "Como você sabe disso? [E ele disse] 'Eu estou observando esse cara há um ano. Ele usa isso para tudo.' E nós somos assim, sistemáticos ... seu animal de estimação favorito é 1-2-5-7.
— "E bum, estávamos dentro."
Depois disso, a coisa começou a crescer. Uma equipe obtinha imagens de telas, reunindo informações para mais tarde; outra impedia o acesso dos video-makers do ISIS à suas próprias contas.
— "Redefinido com êxito" dizia uma tela.
— "Diretório de pastas excluído", dizia outra.
As telas que eles estavam vendo na Sala de Operações no campus da NSA eram as mesmas que alguém na Síria poderia estar olhando em tempo real, até que alguém na Síria as recarregasse. Uma vez que ele fizesse isso, ele veria: "404 erro: Destino ilegível".
— "O alvo 5 está pronto", alguém gritaria.
Outra pessoa atravessaria a sala e riscaria o número correspondente na grande folha de alvos na parede. "Estamos tirando nomes da lista. Estamos excluindo contas da lista. Estamos eliminando IPs da lista", disse Neal. E toda vez que um número diminuía, eles gritavam uma palavra: "Jackpot (Bingo)!"
"Nós fazíamos o traço e eu tinha pilhas de papel no canto da minha mesa", disse Neal. "Eu sabia nos primeiros 15 minutos que estávamos no ritmo de realizar exatamente o que precisamos realizar."
Depois de assumir o controle das dez junções e apartar as pessoas-chave de suas contas, os operadores do ARES continuaram a percorrer a lista de alvos. "Passamos as próximas cinco ou seis horas apenas pescando peixes em um barril", disse Neal. "Estávamos esperando muito tempo para fazer isso e vimos muitas coisas ruins acontecerem e ficamos felizes em fazê-las desaparecer".
E havia algo mais que Neal disse que era difícil de descrever. "Quando você pesquisa por um computador e encontra do outro lado uma organização terrorista, e você chega tão próximo que toca em algo que é deles, que eles possuem, que dedicam muito tempo e esforço para ferir você, é um avanço incrível", disse ele. "Você vê que tem a capacidade de tirar o controle das mãos deles."

O suficiente para deixá-lo louco
O Brigadeiro-general Jennifer Buckner foi uma das pessoas que assumiram o comando da JTF ARES após o início da Glowing Symphony. E depois daquela primeira noite, a missão passou para uma segunda fase, que visava manter a pressão sobre o ISIS com essencialmente cinco linhas de esforço: manter o trabalho da mídia terrorista sob pressão; dificultar a operação do ISIS na Web de maneira geral; usar a cibernética para ajudar as forças no terreno a combater o ISIS, diminuir sua capacidade de arrecadar dinheiro e trabalhar com outras agências nos EUA e aliados no exterior.
A segunda fase da Operação Sinfonia Brilhante se concentrou em semear confusão no ISIS. Os operadores da Força Tarefa ARES trabalharam para fazer com que o ataque parecesse problemas de TI cotidianos: baterias descarregadas, downloads lentos, senhas esquecidas.
Arte: Josh Kramer para NPR
Depois que os centros de distribuição foram interrompidos, a segunda fase da missão foi mais criativa. Os operadores da JTF ARES começaram a fazer que todas aquelas coisas da tecnologia atual que nos enlouquecem  downloads lentos, queda de conexões, acesso negado, falhas no programa  começassem a acontecer com os combatentes do ISIS. "Alguns desses efeitos não são sofisticados, mas não precisam ser", disse Buckner. "A ideia de que ontem eu poderia entrar na minha conta do Instagram e hoje não posso é confusa".
E potencialmente enfurecedor. Quando você não consegue acessar uma conta de e-mail, o que você faz? Você pensa: Talvez eu tenha digitado errado o login ou a senha. Então você o coloca novamente e ele ainda não funciona. Então você digita mais cuidadosamente. E toda vez que você digita, pressiona enter e o acesso é negado, você fica um pouco mais frustrado. Se você estiver no trabalho, liga para o Departamento de TI, explica o problema e eles perguntarão se você tem certeza de que digitou seu login e senha corretamente. É o suficiente para te deixar louco. Pode nunca acorrer para você, ou para o ISIS, que isso pode fazer parte de um ataque cibernético.
Era com isso que as fases subsequentes da Operação Glowing Symphony contavam. Psy-ops (Operações Psicológicas) com um toque de alta tecnologia. Um membro do ISIS ficava acordado a noite toda editando um filme e pedia a um colega da organização que o postasse na rede. Operadores da JTF ARES faziam com que o arquivo não chegasse exatamente ao seu destino. O membro do ISIS que ficou acordado a noite toda começa a perguntar ao outro membro do ISIS por que ele não fez o que havia pedido. Ele fica com raiva. E assim por diante.
"Nós tivemos que entender: como tudo isso funciona?" disse Buckner. "E então, concluir: qual é a melhor maneira de causar confusão online?"
As idéias que surgiram de operadores como Neal eram infinitas. Vamos descarregar suas baterias de celular; ou inserir fotografias em vídeos que não deveriam estar lá. A Força-Tarefa ARES observaria, reagiria e ajustaria seus planos. Eles mudavam as senhas ou compravam nomes de domínio, excluíam o conteúdo, tudo de uma maneira que fazia com que parecesse (na maioria das vezes) apenas problemas comuns de TI.
"Rosquinhas da morte; a rede está funcionando muito devagar", Cardon não pôde deixar de sorrir enquanto percorria a lista. "Os caras estão ficando frustrados."
De acordo com três pessoas que estavam a par dos relatórios pós-ação, a estrutura de mídia do ISIS já era uma sombra do que era seis meses depois que Neal disse "Fire" iniciando a Operação Glowing Symphony. A maioria dos servidores de operações da organização estava inoperante e o grupo não conseguiu reconstituí-los.
Havia muitas razões para isso, e não menos importante: não é fácil conseguir um novo servidor no meio de uma zona de guerra no interior da Síria. O ISIS tinha muito dinheiro, mas poucos cartões de crédito, contas bancárias ou e-mails respeitáveis ​​que permitiriam solicitar novos servidores de fora do país. Comprar novos nomes de domínio, usados ​​para identificar endereços IP, também é complicado.
A popular revista on-line do ISIS, Dabiq, começou a perder prazos e acabou sendo subjugada. Os sites em língua estrangeira do grupo  em diversos idiomas, do bengali ao urdu  também nunca mais voltaram. O aplicativo móvel da Agência Amaq, o serviço de notícias oficial do grupo, desapareceu.
"Nos primeiros 60 minutos, eu sabia que estávamos tendo sucesso", disse o general Paul Nakasone, diretor da NSA, em entrevista à NPR. "Nós víamos os alvos começarem a cair. É difícil descrever, mas você pode sentir que, na atmosfera, os operadores sabem que estão indo muito bem. Eles não  diziam isso, mas você está lá e você sabe disso."
Nakasone estava lá porque era o chefe da JTF ARES quando a Operação Glowing Symphony realmente foi lançada. Nakasone disse que antes do ARES a luta contra o ISIS no ciberespaço era episódica. O JTF ARES garantiu que ela fosse contínua. "Nós estávamos conseguindo garantir que, sempre que o ISIS levantasse dinheiro ou se comunicasse com seus seguidores, estaríamos lá".
Alguns críticos disseram que o simples fato de o ISIS ainda estar na Web significa que a Operação Glowing Symphony não funcionou. Nakasone, naturalmente, vê de forma diferente. Ele diz que o ISIS teve que mudar sua maneira de operar. Já não é tão forte no ciberespaço como era. Ainda está lá, sim, mas não da mesma maneira.
"Estávamos vendo um adversário que foi capaz de alavancar o ciberespaço para arrecadar uma quantidade enorme de dinheiro para fazer proselitismo", disse ele. "Estávamos vendo uma série de vídeos e postagens e produtos de mídia sofisticados. Não vimos mais isso recentemente. ... Quando o ISIS mostra sua cabeça ou mostra uma nova forma de agir, estamos lá . "
Três anos depois que Neal disse "Fire", o ARES ainda está nas redes ISIS. O general Matthew Glavy é agora o comandante da JTF ARES. Ele diz que seus operadores ainda agem nas operações de mídia do ISIS; o grupo ainda está tendo muitos problemas para operar livremente na web. Mas é difícil ter certeza do motivo disso. Além da ARES ter invadido o ISIS no ciberespaço, forças no terreno expulsaram o grupo da maior parte da Síria e do Iraque.
O próprio ISIS se espalhou. Agora, tem combatentes na Líbia e Mali e até nas Filipinas. Glavy diz que seus operadores ainda estão atentos. "Não podemos permitir que eles voltem a ter o impeto que vimos no passado", ele me disse. "Temos que aprender essa lição."

"O objetivo da máquina do dia do juízo final"
Durante a maior parte do governo Obama, as autoridades se recusaram a falar sobre ataques cibernéticos. Agora, os EUA não apenas confirmaram a existência de armas cibernéticas, mas começaram a contar a jornalistas  como os da NPR  sobre como eles atuam. Os ataques cibernéticos, que antes eram tabus para discussões, estão se tornando assuntos comuns. Em seu projeto de autorização militar no ano passado, o Congresso abriu caminho para o secretário de Defesa autorizar alguns ataques cibernéticos sem ir à Casa Branca.
Mas há um lado sombrio nesse novo arsenal. Os EUA não são o único país que se voltou para o ciberespaço. Considere o caso do jornalista do Washington Post Jamal Khashoggi, que foi assassinado em uma Embaixada saudita no final do ano passado; suspeita-se que cyber-ferramentas foram usadas nesse caso. "Grande parte da preparação para isso e as orientações tiveram a ver com a Arábia Saudita usando armas ofensivas", disse Ron Deibert, diretor do Laboratório de Cidadania da Munk School of Global Affairs da Universidade de Toronto.
Os pesquisadores de Deibert encontraram ferramentas virtuais ofensivas rastreando o jornalista e seu círculo interno. "Quando falamos de operações cibernéticas ofensivas, acho que é importante entender que nem sempre existe um sabor", disse Deibert, acrescentando que o caso Khashoggi está longe de ser a exceção. Somente no México, o Laboratório de Cidadania encontrou 27 casos desse tipo de armas virtuais ofensivas contra rivais políticos, repórteres e advogados de direitos civis. Seis anos atrás, descobriu-se que a China estava invadindo as redes de computadores do Dalai Lama.
Deibert está preocupado com a amplificação. "Você realmente cria condições para a escalada de uma corrida armamentista no ciberespaço que realmente poderia assombrar os Estados Unidos a longo prazo", disse Deibert. "Há um efeito de exibicionismos. O equipamento, o software, os métodos, os recursos proliferam". Deibert diz que a relutância dos EUA em usar ciberataques ofensivos desapareceu. "Agora ... o que estamos falando é como tornar algo mais eficiente", disse ele.
Nakasone deixou claro que as coisas haviam mudado quando ele conversou com a NPR, alguns meses atrás, no campus da NSA em Fort Meade. Ele usa termos como "engajamento persistente" e "avançar na defesa". Ele diz que eles são "parte da estratégia cibernética do DoD que fala sobre agir fora de nossas fronteiras para garantir que mantemos contato com nossos adversários no ciberespaço".
Em outras palavras, você não espera para ser atacado no ciberespaço. Você faz coisas que lhe permitirão revidar se houver um ataque no futuro. Isso poderia ser feito implantando uma pequena equipe em outro país que peça ajuda ou "buscando em nossas redes a procura de malwares, ou poderia ser, como fizemos na Operação Glowing Symphony, adquirir a percepção de poder impactar uma infraestrutura em qualquer parte do mundo", afirmou ele.
Tudo isso é importante agora, porque você pode traçar uma linha reta da JTF ARES até uma nova unidade do NSA e do Comando Cibernético dos EUA: algo chamado Pequeno Grupo da Rússia. Assim como a JTF ARES se concentrou no ISIS, o Pequeno Grupo da Rússia está organizado da mesma maneira em torno dos ciberataques russos.
A missão contra o ISIS no ciberespaço continua, embora exista um lado sombrio na luta com esse novo arsenal: os EUA não são o único país que usa esse tipo de arma e os especialistas se preocupam com a proliferação.
Arte: Josh Kramer para NPR
Em junho, o New York Times informou que os EUA invadiram a rede elétrica russa e plantaram malwares lá. Nakasone não confirmou a história do Times, mas não é difícil ver que semear malwares, antecipando a sua necessidade posterior, se encaixaria nas operações do Pequeno Grupo da Rússia se ele foi modelado no ARES.
Nakasone disse que a primeira coisa que ele fez quando se tornou diretor da NSA em 2018 foi revisar o que os russos haviam feito antes da eleição presidencial dos EUA, para que o Cyber ​​Command dos EUA pudesse aprender com isso e fazer engenharia reversa para ver como funciona. "Isso nos forneceu um roteiro muito, muito bom do que eles poderiam fazer no futuro", disse Nakasone. Ele disse que o Comando Cibernético está pronto para agir se os russos tentarem invadir as eleições de 2020. "Imporemos custos", disse ele, "aos adversários que tentam impactar nossas eleições. Acho importante que o público americano entenda que, como em qualquer domínio  aéreo, terrestre, marítimo ou espacial  no ciberespaço é da mesma maneira; nossa nação tem força".

Então, por que Nakasone está falando sobre isso agora?
Deibert acha que isso faz parte de uma justificativa de dissuasão. "Você não pode ter operações cibernéticas para deter significativamente seus adversários, a menos que eles saibam que você tem esses recursos", afirmou. "Mas o que provavelmente não está sendo discutido ou apreciado é até que ponto há um efeito sistêmico do uso dessas operações. Outros países observam".
No final do filme de Stanley Kubrick, Dr. Strangelove [no Brasil, Dr Fantástico], há uma cena icônica em que a bomba do dia do juízo final é vista como o maior impedimento desse final, mas só funcionaria como um impedimento se as pessoas soubessem que ele existia. Se você não contar a ninguém sobre sua existência, de que serve? "Todos os pontos obtidos com a máquina do dia do juízo final serão perdidos se você a guardar em segredo", conclui Peter Sellers no filme.
Você poderia dizer o mesmo sobre as operações cibernéticas ofensivas americanas. Eles são tão furtivos há tanto tempo que talvez as pessoas não percebam que elas existem.
Ouvimos tudo sobre as campanhas de influência da Rússia e os roubos de propriedade intelectual chineses e hackers iranianos que controlam a infraestrutura americana, mas raramente ouvimos de maneira detalhada a resposta americana. Nakasone parece estar começando a resolver isso.
A ironia é que o alvo mais rico da cyber ofensiva somos nós. "Os Estados Unidos são o país mais dependente dessas tecnologias", disse Deibert. "E sem dúvida, o mais vulnerável a esse tipo de ataque. Acho que deveria haver muito mais atenção dedicada ao pensamento sobre sistemas adequados de segurança, à defesa".
Isso significaria tentar encontrar uma maneira de fortalecer metas flexíveis em todo o país, fazendo com que empresas privadas aumentassem sua segurança cibernética, fazendo com que o governo dos EUA exigisse padrões. Os ataques cibernéticos ofensivos, neste momento, podem parecer muito fáceis.
Adelina Lancianese, da NPR, contribuiu para esta história.
Fonte: tradução livre de National Public Radio

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Heróis Também Perdem Batalhas

Tenente (SEAL) Michael Murphy: Agraciado com a Medalha de Honra por ações durante a Operação Red Wings em 28 Jun 2005.
Em 28 de junho de 2005, bem atrás das linhas inimigas a leste de Asadabad, no Hindu Kush do Afeganistão, uma equipe de quatro homens do Navy SEAL realizava uma missão de reconhecimento na altitude implacável de aproximadamente 3.000 metros. 
Os Tenente Michael Murphy, o Técnico Mnt Armt de 2ª Classe Danny Dietz, o Técnico de Sonar de 2ª Classe Matthew Axelson e o Técnico de Saúde de 2º Classe Marcus Luttrell tinham uma tarefa vital. Os quatro SEALs buscavam localizar Ahmad Shah - um terrorista de 30 e poucos anos que cresceu nas montanhas mais ao sul.
Sob o nome de Muhammad Ismail, Shah liderava um grupo guerrilheiro conhecido na região como os "Tigres da Montanha" que se alinharam com o Taleban e outros grupos militantes perto da fronteira com o Paquistão. 
A missão SEAL foi comprometida quando a equipe foi flagrada por cidadãos locais, que presumivelmente relataram sua presença e localização para os talibãs.
Equipe SEAL (Sea, Air, Land) operando no Afeganistão.
Da esquerda para a direita: Tec Sonar  2ª Classe Matthew G. Axelson, 29 anos; Tec Sist Info Sênior Daniel R. Healy, 36 anos; Intendente de 2ª Classe James Suh, 28 anos; Tec Saúde de 2ª Classe Marcus Luttrell; Tec Mnt 2ª Classe Eric S. Patton, 22 anos; e Tenente Michael P. Murphy, 29 anos.
Com exceção de Luttrell, todos foram mortos em 28 Jun 2005 em apoio a Operação Redwing.
Um tiroteio violento irrompeu entre os quatro SEALs e uma força inimiga muito maior, de mais de 50 milicianos anti-coalizão. O inimigo tinha enorme superioridade numérica sobre os SEALs. Eles também tinham vantagem no terreno. Eles lançaram um ataque bem organizado de três frentes contra os SEALs. O tiroteio continuou incessantemente enquanto a esmagadora milícia forçava a equipe a se aprofundar em uma ravina.
Tentando alcançar a segurança, os quatro homens, agora feridos, começaram a descer pelos lados íngremes da montanha, fazendo saltos de 2 a 3 metros. Aproximadamente depois de 45 minutos de luta, oprimidos por forças avassaladoras, Dietz, o responsável pelas comunicações, procurou um local ao ar livre para fazer uma chamada de socorro à base. Mas antes que conseguisse, ele foi baleado na mão, o tiro lhe quebrou o polegar.
Apesar da intensidade do tiroteio e de ter recebido ferimentos de tiros, Murphy destacou-se por arriscar sua própria vida para salvar a vida de seus companheiros de equipe. Ele, com a intenção de fazer contato com a base, mas percebendo isso seria impossível desde a posição no terreno onde eles estavam lutando, sem hesitação e com total desrespeito por sua própria vida, moveu-se para campo aberto, onde teria uma posição melhor para transmitir uma chamada e conseguir ajuda para seus homens.
Afastando-se das rochas montanhosas protetoras, ele conscientemente se expôs. Este ato deliberado e heroico privou-o de cobertura e fez dele um alvo fácil para o inimigo. Enquanto continuava a ser alvejado, Murphy fez contato com a Força de Reação Rápida na Base Aérea de Bagram e solicitou ajuda. Ele forneceu a localização de sua unidade e o tamanho da força inimiga enquanto solicitava apoio imediato para sua equipe. Atingido por um tiro que o acertou nas costas, o impacto fez com que ele soltasse o transmissor. Mas ele completou a ligação e continuou atirando no inimigo que estava se aproximando. Severamente ferido, o tenente Murphy retornou à posição de cobertura com seus homens e continuou a luta.
Um helicóptero MH-47 Chinook, com oito SEALs e oito  "Night Stalkers" membros do 160º Special Operations Aviation Regiment (Airborne) foi enviado para uma missão de extração e retirar os quatro SEALs em apuros. O MH-47 foi escoltado por helicópteros de ataque do Exército fortemente blindados. Entrando na zona de combate, os helicópteros de ataque foram usados ​​inicialmente para neutralizar o inimigo e tornar a área mais segura para o helicóptero de transporte de pessoal, de blindagem leve.
O maior peso dos helicópteros de ataque diminuiu o avanço da formação, levando o MH-47 a ultrapassar sua escolta blindada. Eles sabiam do tremendo risco de entrar em uma área inimiga ativa à luz do dia, sem o apoio das aeronaves de ataque e sem a cobertura da noite. O risco seria, obviamente, minimizado se eles colocassem o helicóptero em uma zona segura. Mas sabendo que seus irmãos guerreiros foram baleados, cercados e gravemente feridos, a equipe de resgate optou por entrar diretamente na batalha que se aproximava na esperança de conseguir pousar no terreno brutalmente perigoso.
Quando o Chinook chegou na área da batalha, uma granada lançada por um lança-rojão atingiu o helicóptero, matando todos os 16 homens a bordo.
  Equipe do SEAL DVTeam 1:
- Tec  2ª Classe (SEAL) Eric S. Patton, 22 anos;
- Tec de Sist Info (SEAL) Daniel R. Healy, 36; e
- Intendente 2ª Classe (SEAL) James Suh, 28.
Equipe do SEAL DVTeam 2:
- Atirador 2ª Classe (SEAL) Danny P. Dietz, 25.
Equipe do SEAL Team 10
- Bombeiro Chefe (SEAL) Jacques J. Fontan, 36;
- Tenente Comandante (SEAL) Erik S. Kristensen, 33;
- Técnico em Eletrônica 1ª Classe (SEAL) Jeffery A. Lucas, 33;
- Tenente (SEAL) Michael M. McGreevy Jr., 30; e
- Paramédico 1ª Classe (SEAL) Jeffrey S. Taylor, 30 anos.
 "Night Stalkers" do 3º Batalhão do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (SOAR):
- Sargento Shamus O. Goare, 29 anos;
- Chief Warrant Officer (Subtenente) Corey J. Goodnature;
- Sargento Kip A. Jacoby, 21;
- Sargento 1ª Classe Marcus V. Muralles, 33;
- Major Stephen C. Reich, 34;
- Sargento 1ª Classe Michael L. Russell, 31;
- Chief Warrant Officer (Subtenente) Chris J. Scherkenbach, 40.
 "Night Stalker" da Companhia do QG, 160º SOAR (Airborne):
- Sargento Mestre James W. Ponder III, 36 anos.
No chão e quase sem munição, os quatro SEALs, Murphy, Luttrell, Dietz e Axelson continuaram a luta. No final do tiroteio de duas horas que ecoava nas colinas e penhascos, Murphy, Axelson e Dietz foram mortos. Estima-se que 35 talibãs também estavam mortos.
O quarto SEAL, Luttrell, foi atingido por uma granada e caiu inconsciente. Recuperando a consciência algum tempo depois, ele conseguiu escapar gravemente ferido e lentamente se arrastou para o lado de um penhasco. Desidratado, com uma ferida de tiro em uma perna, com estilhaços metidos nas duas pernas, três vértebras rachadas; a situação para Luttrell era sombria. Helicópteros de resgate foram enviados, mas ele estava muito fraco e ferido para fazer contato. Viajando sete milhas a pé, ele evitou o inimigo por quase um dia. Felizmente, os cidadãos locais vieram em sua ajuda, levando-o para uma aldeia próxima, onde o mantiveram por três dias. Membros do Taleban foram à aldeia várias vezes exigindo que Luttrell fosse entregue a eles. Os aldeões recusaram. Um dos aldeões foi para um posto da Marinha com uma nota de Luttrell, e as forças dos EUA lançaram uma operação massiva que o resgatou do território inimigo em 2 de julho.
Por sua destemida coragem, espírito de luta intrépido e devoção inspirada a seus homens diante da morte certa, o tenente Murphy conseguiu transmitir a posição de sua unidade, um ato que finalmente levou ao resgate de Luttrell e à recuperação dos restos mortais dos três que foram mortos na batalha.
Este foi o pior número de mortos das Forças dos EUA em um único dia desde o início da Operação Liberdade Duradoura, quase seis anos antes. Foi a maior perda de vida da Naval Special Warfare desde a Segunda Guerra Mundial.
A comunidade Naval Special Warfare (NSW) se lembrará para sempre de 28 de junho de 2005 e os heroicos esforços e sacrifícios de nossos operadores especiais. Nós mantemos com reverência o último sacrifício que eles fizeram enquanto estavam engajados nessa feroz luta de fogo nas linhas de frente da guerra global contra o terrorismo.
Tenente Michael Murphy foi contratado como um aspirante da Marinha em 13 de dezembro de 2000, e começou seu treinamento Básico Subaquático de Demolição/SEAL (BUD/S) em Coronado, Califórnia, em janeiro de 2001. BUD/S é um Curso de formação de seis meses e o primeiro passo para se tornar um SEAL da Marinha.
Após a formatura do BUD/S, ele frequentou a Escola de Paraquedistas do Exército, o Treinamento de Qualificação SEAL e o Curso de Delivery Vehicle (SDV). O Tenente Murphy ganhou seu Tridente de SEAL e foi servir no SDV Team (SDVT) 1 em Pearl Harbor, Havaí, em julho de 2002. Em outubro de 2002, ele foi transferido com o Pelotão Foxtrot para a Jordânia como oficial de ligação do Exercício Early Victor.
Após sua temporada com o SDVT-1, o Tenente Murphy foi designado para o Comando Central de Operações Especiais na Flórida e enviado para o Catar em apoio à Operação Iraqi Freedom. Depois de voltar do Qatar, o tenente Murphy foi enviado para o Chifre da África, Djibuti, para auxiliar no planejamento operacional das futuras missões da SDV.
No início de 2005, Murphy foi designado para a Equipe de SDV SEAL 1 como oficial assistente encarregado do Pelotão Alfa e enviado ao Afeganistão em apoio à Operação Liberdade Duradoura.
O tenente Murphy foi enterrado no Cemitério Nacional de Calverton a menos de 30 quilômetros de sua casa de infância. 
Ele recebeu uma Citação Especial (Elogio) pessoal do Presidente George W. Bush. Os outros prêmios pessoais do tenente Murphy incluem o Purple Heart, o Combat Action Ribbon, a Medalha de Comenda do Serviço Conjunto, a Medalha de Comenda da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais, o Ribbon da Campanha do Afeganistão e a Medalha do Serviço de Defesa Nacional.
Fonte: tradução livre de Medalha de Honra-USNavy
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domingo, 10 de fevereiro de 2019

A Nova 'Catástrofe' Palestina: Um Shopping Center Contratando Palestinos

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Foto: um supermercado da rede Rami Levy em Jerusalém Ocidental.
(Imagem: Yoninah/Wikimedia Commons)
Os dirigentes da facção FATAH do presidente Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina reagiram à inauguração de um novo shopping center em Jerusalém Oriental, no qual a maioria dos funcionários e clientes é árabe, de uma maneira que escancara como os líderes palestinos continuam torpedeando o que for positivo ao seu povo.
por Bassam Tawil
Os dirigentes da facção FATAH do presidente Mahmoud Abbas da Autoridade Palestina estão furiosos. Tudo porque um empresário judeu israelense acabou de construir um shopping center em Jerusalém Oriental e a maioria dos funcionários e clientes são árabes.
Os líderes da FATAH apregoaram o boicote ao shopping.
A FATAH, que via de regra é retratada como uma facção moderada pela mídia ocidental, reagiu ao empreendimento do shopping de modo a escancarar a maneira pela qual os líderes palestinos continuam torpedeando o que for positivo ao seu povo.
Onde já se viu um líder condenar um projeto que fornece empregos a centenas de pessoas de seu povo? Onde já se viu um líder convocar seu povo a boicotar um shopping ou um supermercado que oferece preços competitivos em roupas e alimentos? Onde já se viu um líder retratar a abertura de um projeto comercial que beneficiará seu povo como catástrofe ("nakba")?
Rami Levy, empresário e proprietário da terceira maior rede de supermercados de Israel, investiu mais de US$50 milhões na construção de um shopping no Parque Industrial Atarot, na região nordeste de Jerusalém. Apesar do chamamento ao boicote, alguns palestinos alugaram lojas dentro do shopping, considerado um modelo de convivência entre árabes e judeus. O novo shopping também possui um espaçoso supermercado pertencente à rede de supermercados de Levy.
Os supermercados de Levy tanto em Jerusalém quanto na Cisjordânia são muito procurados pelos consumidores palestinos. Eles dizem que os preços de lá são mais baixos do que os das empresas árabes. Talvez seja por esta razão que centenas de palestinos tenham se dirigido ao recém inaugurado supermercado no shopping quando da sua inauguração em 8 de janeiro. Os supermercados israelenses contratam centenas de palestinos da Cisjordânia, bem como residentes árabes de Jerusalém, que trabalham lado a lado dos colegas judeus.
Segundo Levy, metade de seus 4 mil funcionários são palestinos ou árabes israelenses. "Comecei a dar emprego a palestinos e árabes israelenses no primeiro empreendimento Rami Levy, uma barraca no mercado Mahane Yehuda, em Jerusalém, inaugurado em 1976. Os árabes já faziam parte dos primeiros funcionários", salientou ele.
"Os funcionários continuam trabalhando na Rami Levy Hashikma, nossos atacadões, e muitos subiram na carreira, juntamente com a empresa. O primeiro funcionário que contratei há 35 anos é um homem chamado Ibrahim, árabe de Jerusalém Oriental, que permanece na Rami Levy, atualmente é diretor de logística. Outros funcionários árabes israelenses e palestinos que se juntaram à equipe de Rami Levy também foram promovidos a cargos de direção e gerência. Rami Levy não discrimina o candidato conforme a etnia, gênero ou religião ao contratar e promover funcionários. Todos os funcionários, sejam eles palestinos ou israelenses, são tratados igualmente e recebem os mesmos benefícios. O salário se baseia unicamente no cargo e desempenho do funcionário. A meta da Rami Levy é dar a mesma oportunidade a todos os funcionários de alcançarem o sucesso. Tal objetivo só pode ser alcançado se o princípio da igualdade for implementado em todos os ofícios da empresa".
Para os funcionários do alto escalão da FATAH de Abbas, no entanto, a imagem de palestinos e judeus trabalhando em harmonia é repugnante. Eles não gostam da ideia de trabalhadores palestinos estarem recebendo bons salários e serem tratados com respeito pelo empregador israelense. Eles também não gostam de ver consumidores palestinos fazendo fila para comprar alimentos e mercadorias de melhor qualidade oferecidos a preços competitivos. As autoridades da FATAH preferem ver seu povo desempregado ou pagar mais caro no mercado palestino do que fazer as compras em um shopping center de propriedade de um judeu.
Em vez de comemorar a inauguração do shopping que oferece oportunidades de emprego a dezenas de palestinos além de praticar preços mais baixos, as autoridades da FATAH veem nisso um plano israelense para "debilitar" a economia palestina. "Foi um dia triste para Jerusalém", realçou Hatem Abdel Qader Eid, funcionário de alto calibre da FATAH, ao se referir à inauguração do novo shopping. "Este projeto visa minar o comércio árabe em Jerusalém e subordiná-lo à economia israelense."
As centenas de palestinos que se acotovelavam no novo shopping no dia da inauguração, no entanto, ao que tudo indica, discordam da imagem sombria pintada por Abdel Qader Eid. O enorme número de pessoas que lá se aglomeravam, é sem sombra de dúvida positivo: mostra que os palestinos são clientes como em qualquer país do mundo que preferem produtos de melhor qualidade a preços mais baixos. Para eles, esse não foi um "dia triste", como disse o representante da FATAH, mas sim empolgante. Finalmente um shopping foi inaugurado perto da casa deles, oferecendo uma ampla gama de produtos a preços competitivos.
Não obstante, Abdel Qader Eid estava certo em relação a uma coisa: seu lamento com respeito à ausência de investidores e capital palestinos. "Os capitalistas palestinos são covardes", ressaltou ele. Os investidores palestinos, salientou Eid, bem que poderiam ter inibido Rami Levy de construir o novo shopping se eles tivessem investido na construção de um shopping palestino. "É verdade que há empresários palestinos com muito dinheiro. Mas apesar de serem muito ricos, são medíocres quando se trata de disposição e formação".
Lamentavelmente o representante da FATAH está dizendo que os empresários palestinos não botam fé no povo, preferindo investir seu dinheiro em outro lugar.
Osama Qawassmeh, outro cacique da FATAH, foi ainda mais eloquente quanto ao incitamento. Ele advertiu que qualquer palestino que faça compras ou alugue algum espaço no novo shopping será acusado de "trair a terra natal". Ele continuou com a velha ladainha das calúnias palestinas, segundo as quais, comprar produtos israelenses é um ato de "apoio aos assentamentos e ao exército israelense".
O incitamento da FATAH contra o novo shopping center não caiu no vazio. No dia em que o shopping foi inaugurado, palestinos lançaram um sem-número de bombas incendiárias no complexo, forçando os compradores (palestinos) a fugirem para salvar a própria pele. Por sorte ninguém ficou ferido, nem houve prejuízos materiais às lojas ou veículos que se encontravam no estacionamento.
A campanha de incitamento contra o shopping de Levy começou há vários meses, quando ainda estava em fase de construção, continuando até hoje. Já que a campanha deu com os burros n'água não conseguindo impedir a abertura do shopping, a FATAH e seus seguidores apelaram para ameaças e violência. As ameaças estão sendo dirigidas a consumidores e comerciantes palestinos que alugaram algum espaço no novo shopping. Os vândalos que atacaram o shopping com bombas incendiárias poderiam ter ferido ou matado palestinos. Os vândalos, que segundo consta são afiliados à FATAH, preferem que seu povo morra do que deixar que se divirtam ou comprem produtos a preços atraentes em um shopping israelense.
Ao liderar a campanha de incitamento e intimidação, a FATAH de Abbas está mais uma vez mostrando a sua verdadeira cara. Como é possível imaginar que Abbas ou algum de seus subordinados da FATAH venham algum dia a fazer a paz com Israel, quando não conseguem sequer tolerar a ideia de palestinos e judeus trabalharem juntos para o simples bem comum?
Se um palestino que compra leite israelense é considerado traidor aos olhos da FATAH, não é difícil imaginar o destino de qualquer palestino que ouse ponderar sobre um entendimento com Israel. Se ele tiver sorte, terá um encontro íntimo com uma bomba incendiária. Se ele não tiver sorte, será enforcado em praça pública. Como isso se reflete na disposição palestina de participar de um processo de paz com Israel?

Bassam Tawil, árabe muçulmano, radicado no Oriente Médio.
Tradução: Joseph Skilnik

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Hezbollah na Tríplice Fronteira - O Bazar da Mentira

O grupo terrorista libanês mantêm suas conexões na fronteira argentino-brasileiro-paraguaia. Desde lá, seus agentes lavam dinheiro, traficam cocaína e enviam recursos às organizações de apoio. 
Um encontro com o homem considerado o máximo agente do Hezbollah na América Latina em Ciudad del Este. 
O cruzamento com o narcotráfico. As manobras através dos cassinos.
por Gustavo Sierra

"¡Entre! ¡Veja! ¡Aqui não temos nada que ocultar!", grita o nervoso Mohammad Youssef Abdallah, enquanto sobe as escadas da Mesquita Verde dos xiitas de Ciudad del Este. Se move como o dono do lugar, que é. Também, como o "líder espiritual e comandante regional do Hezbollah", a qualificação que lhe da a justiça estadunidense. E - de acordo com acusação do assassinado fiscal Alberto Nisman -, um dos envolvidos no atentado contra a AMIA.
"¡Venha, venha!", insiste enquanto caminha dando voltas, e acomoda as pastilhas de Turbah - as cerâmicas redondas que os xiitas usam para rezar e colocam no chão onde tocam com a fronte ao prostrar-se -, fecha um exemplar do Corão e olha ao redor buscando ajuda. Chama a um dos homens que acaba de terminar sua reza e lhe diz algo em árabe. Tenta convence-lo a que fale conosco. O homem, impertérrito, repete "não, não, não, não" e se vai. "Bueno", se resigna Abdallah, "eu vou te responder". Me tira o microfone da mão e não espera nenhuma pergunta. Começa a recitar em voz alta e com um forte acento de Médio Oriente em seu portuñol básico. "¿Quê vês aqui? ¿Vê algum terrorista? ¡Nós não somos terroristas! ¡Aqui não ocultamos nada!", diz olhando para todos lados como se temesse que alguém se acercasse para golpeá-lo. "¡Pergunte, pergunte, pergunte!", repete sem esperar nenhuma pergunta.
"Dizem que somos assim ou não sei como. Mas tu podes ver: somos gente de paz. Viemos aqui para rezar. Esta mesquita fui eu quem a fez. ¿Quê? ¿Financiamos o Hezbollah? Aqui não fazemos política. ¡Pergunte, pergunte, pergunte! ¿Acusados pela justiça de Estados Unidos? ¿Quê justiça é essa? ¡Inventam tudo! Nós estamos aqui já faz 40 anos. Eu construí esta mesquita. Hezbollah está no Médio Oriente. Não aqui. ¿Quê? ¿Lavamos dinheiro para Hezbollah? Todas acusações falsas. ¡Sim, há vários integrantes de nossa comunidade presos! Porém são todas acusações falsas. Sim, o mesmo que isso do atentado da AMIA. Outra mentira … Agora, me vou. ¡Filme o que quiser!".
Abdallah desaparece. É pequeno e, apesar de seus 66 anos se move com agilidade. Só se escuta o ruído dele descendo as escadas "chancleteando" (NT: ruído ao caminhar usando galochas)  com velocidade. Nos deixa no silêncio desta simples mesquita situada dentro de um edifício de 19 pisos na Rua Boquerón, no lado paraguaio da Tríplice Fronteira.

Mohammad Youssef Abdallah, líder da Mesquita Verde de Ciudad del Este. Segundo a justiça estadunidense, também é Comandante regional do Hezbollah e arrecadador do grupo terrorista na região (Lihueel Althabe)
Há três homens rezando, que olham surpresos mas não parecem preocupados em serem filmados. A galeria superior, a das mulheres, está vazia. Descendo pela escada está o setor da ablução, onde os fiéis se lavam antes de rezar. Mais adiante os sapatos, todos acomodados como em uma sapataria antiga. Ninguém pode pisar o tapete da mesquita se não estiver descalço. A saída é por uma galeria que transporta de imediato ao clima de uma viela da cidade antiga de Jerusalém, Bagdá ou Beirute. Uma barbearia com dois grandes televisores onde cantam e bailam artistas libanesas, um local com vitrais cobertos que parece uma "caverna" de transações financeiras e o restaurante "Mezquita", considerado como o mais autêntico dos de comida árabe desta segunda cidade paraguaia. Comemos um kibe cozido de carne picada e trigo burgol enquanto ao nosso redor vários homens tomam café com rolinhos doces de baklava e soltam fumaça dos narguiles. As mulheres só passam com seus filhos para tomar o elevador que as leva até seus apartamentos. De todos modos, o dia já terminava. São apenas quatro da tarde, mas nesse incrível e sofisticado "mercado persa" de Ciudad del Este se trabalha desde o amanhecer e pelo meio da tarde as ruas ficam desertas, cobertas de papelão e lixo.
Enquanto avançávamos entre essa rede de vendedores, aparatos de altíssima tecnologia, a maior variedade imaginável de garrafas térmicas para mate ou tereré e painéis de LED como em Times Square, perguntar pelas atividades de Abdallah e sua mesquita é inútil. Todos fazem cara de bobo, sorriem e perguntam se gostamos da comida árabe.
O informe do Departamento do Tesouro estadunidense – Ato de Prevenção do Financiamento Internacional do Hezbollah, 2015/2016 - diz que Abdallah é o principal arrecadador do grupo terrorista na região. Possui dezenas de propriedades e comércios em Ciudad del Este. Seu domicilio legal está na avenida Presidente Kubitscheck de Foz do Iguaçu, cruzando a Ponte da Amizade sobre o rio Paraná. Nasceu em junho de 1952 no povoado de Khalia do Líbano. Tem dupla nacionalidade paraguaio-libanesa. Está casado e tem dois filhos e uma filha que vivem em Foz e trabalham, como ele, em Ciudad del Este. É um contribuinte permanente de fundos para as associações de beneficência que o Hezbollah controla para manter as famílias de menores recursos do sul do Líbano e o Vale do Bekaa. Através da agência Piloto Turismo teria facilitado passaportes falsos e uma base de comunicações para os agentes libaneses que em 1994 colocaram a bomba na AMIA. Também, de acordo com o Departamento do Tesouro, foi o organizador de uma reunião de alto nível que se realizou em 2004 em Foz com arrecadadores do grupo terrorista libanês de toda América Latina. Viaja frequentemente a Beirute onde se registraram vários encontros com os líderes mais importantes do Hezbollah.

Abdallah também é o dono da Galeria Uniamérica (ex Pagé) assinalada como o centro das atividades dos agentes do Partido de Deus libanês por vinte anos. Hoje, o lugar é só mais uma das muitas espeluncas desse enorme mercado ao ar livre integrado por shoppings de primeira qualidade, como as tendas Paris, Mona Lisa e China, até os milhares de postos armados nas veredas com lonas e suportes de cano. O nome na entrada está bastante descascado. E ao olharmos para cima só vemos quatro pisos de chapas enferrujadas e janelas em ruínas. Vários locais vendem tabaco aromático para fumar com cachimbo de água. Não faltam os comércios de celulares e outros eletrônicos de duvidosa procedência. Os donos dos locais são todos libaneses que falam espanhol com um forte sotaque. Alguns são muito amáveis e até convidam o cliente com um café. O edifício é uma construção muito elementar de três pisos. Ao final do segundo piso há outra saída para a rua. Esse é o caminho que percorrem, ao menos uma vez ao dia, milhares destes comerciantes muçulmanos xiitas para chegar até a mesquita do Profeta Mohammed, duas quadras adiante. Em geral, as outras quatro rezas são feitas em seus próprios negócios. Os sunitas vão a outra mesquita situada a umas quinze quadras, a de Alkhaulafa Al-Rashdeen, na avenida Alejo Garcia. Um domo branco imponente de 18 metros de altura e dois minaretes. O sheik Mohamed Khalid está em seu outro trabalho. Atende sua loja no Shebai Center. É só mais uma das milhares de lojas de vendas de celulares.
Quando conseguimos contornar os turistas brasileiros e argentinos em busca de ofertas, perguntamos pelo Sheik a uma das vendedoras. Khalid sai irritado de seu diminuto escritório para nos dizer que não podia nos atender por falta de tempo e só quer deixar claro que "somos sunitas, não xiitas, e não temos nada que ver com terrorismo". A divisão da comunidade está clara.
A mesquita sunita é a mais imponente de Ciudad del Este. Ali se esforçam por destacar que não tem nada que ver com os xiitas e o terrorismo
Ninguém quer parecer ligado aos personagens que nos últimos meses foram detidos na Tríplice Fronteira conectados com o financiamento do Hezbollah, a lavagem de dinheiro, o contrabando e o narcotráfico. Assad Ahmad Barakat, considerado o maior arrecadador do grupo terrorista na América Latina, esteve fugitivo por quase uma década até que a Polícia de Foz o deteve em 21 de setembro de 2018 a pedido da justiça paraguaia. Formalmente, é acusado de falsificação de passaporte. Mas há muito mais. Em 2004, o Departamento do Tesouro o incluiu na lista de financiadores do terrorismo. "É capaz de por em prática todas as manobras de crimes financeiros que já pudemos detetar", foi a conclusão naquela ocasião de um dos funcionários do edifício vizinho à Casa Branca, em Washington. Na única entrevista que deu, Assad Barakat admitiu ante um repórter da Associated Press em 2001 que era um "simpatizante e contribuinte" do Hezbollah. Emanuele Ottolenghi da Fundação para Defesa das Democracias, um dos maiores especialistas internacionais nas atividades da organização libanesa, assegura que Barakat "é o líder do clã que inclui dezenas de familiares com os quais operou durante anos a nível internacional triangulando remessas desde a Tríplice Fronteira para o Líbano apesar das sanções que pesavam contra ele".
O prestigiado Centro Simon Wiesenthal ficou satisfeito com a detenção de Barakat. "Temos monitorado as atividades terroristas na Tríplice Fronteira há 20 anos. Esta detenção é um sinal de que os três países começaram a trabalhar para erradicar o Hezbollah da América Latina". Assad Barakat está encarcerado no Brasil esperando a extradição ao Paraguai ou diretamente a Nova York onde é responsabilizado em vários casos por lavagem de dinheiro. Assad nasceu em 1967 no sul do Líbano. Depois de perder um irmão e vários outros parentes na guerra civil naquele país emigrou para o Paraguai em 1985. Logo apareceu à frente de varias companhias de importação e exportaçãoApollo, Mondial Constructions – junto a seus irmãos Hatem e Hamzi que operavam na Tríplice Fronteira e na zona franca de Arica, no Chile. Na época viajava com regularidade a Beirute e Teerã para levar dinheiro e manter reuniões com Hassan Nasrrallah, o principal líder do Hezbollah. Nessas viagens teria passado informações vitais para os comandos que depois atacaram a AMIA. Em 2001 foi acusado no Paraguai por evasão de impostos e associação criminosa. Em junho de 2002 foi preso em Foz e extraditado para Assunção onde cumpriu uma sentença de seis anos e meio. Em 2009 regressou ao Brasil de onde continuou operando nas sombras até sua nova detenção. 
Assad Ahmad Barakat foi preso em 21 de setembro de 2018. É investigado por lavagem de dinheiro, contrabando, narcotráfico e inúmeras manobras financeiras para financiar o Hezbollah.

Um de seus sócios é Sobhi Mahmoud Fayad, que chegou a Ciudad del Este vindo do Líbano em meados da década de 90. A policia paraguaia o prendeu em 1999 quando realizava uma tarefa de vigilância frente à embaixada dos Estados Unidos em Assunção. Era membro de uma rede que planejava um atentado. Ele cooperou na investigação e deu dados substanciais nos interrogatórios dos agentes da CIA. Ele foi liberado um ano mais tarde. Depois se descobriu que Fayad enviou ao menos 3,5 milhões de dólares à Organização de Mártires do Hezbollah (al-Shahid), pelo que recebeu uma carta de agradecimento do comandante supremo Sayyed Hassan Nasrallah.
O Departamento Antiterrorista da Policia Nacional paraguaia (DAT) acredita que Sobhi Fayad, Assad Barakat e Ali Hassan Abdallah foram os três principais captadores de fundos do Hezbollah designados para a região. O Comitê contra o Terrorismo das Nações Unidas divulgou um informe indicando que o clã arrecada mais de 200 milhões de dólares ao ano para enviar a Beirute.
Outro personagem importante do clã foi Ali Khalil Mehri, um libanês naturalizado paraguaio, residente em Ciudad del Este. Mehri foi acusado pela policia paraguaia de vender milhões de dólares em software falsificado e canalizar os ganhos para o Hezbollah e suas organizações paralelas al-Muqawama e al-Shahid. Também produziu varias películas de propaganda para o Partido de Deus. Mehri fugiu em 2000 e se acredita que morreu 15 anos mais tarde na guerra civil síria enquanto comandava um grupo de assalto do Hezbollah.
Outro Barakat, Mahmoud Ali, foi extraditado pela justiça paraguaia aos Estados Unidos em novembro de 2018. Está acusado de lavagem de dinheiro do narcotráfico. E de transferir parte desses fundos a contas em um paraíso fiscal do Caribe relacionadas com o Hezbollah. Foi detido em 25 de junho em sua casa no segundo piso do edifício Líder 4, na rua Estrella quase esquina com O'Leary, de Assunção. Na mesma operação também caiu Nader Mohamad Farhat, sócio deste Barakat, que manejava as transferências através das sucursais da casa de cambio Unique S.A.
em Ciudad del Este, da qual era dono junto a sua esposa taiwanesa Wu Pei Yu. O fiscal Marcelo Pecci, da Unidade de Luta contra o Crime Organizado paraguaia, acredita que esses homens formavam parte de uma rede mais ampla por meio da qual enviavam drogas e recursos ilícitos à Europa e Oriente Médio. Eles teriam realizado operações superiores a 1.300 milhões de dólares. De acordo com uma fonte judicial paraguaia, sua extradição a Miami – onde é buscado por narcotráfico - está sofrendo forte resistência da Embaixada libanesa em Assunção. "Evidentemente, é um homem com contatos poderosos no Líbano", comenta.
Mahmoud Ali Barakat, extraditado em novembro passado aos EUA onde será julgado por lavar dinheiro do narcotráfico e transferir o dinheiro a uma conta do Hezbollah no  Caribe (Ministério Público do Paraguai)
Em agosto de 2018, se descobriu outra manobra do Clã Barakat e sua colaboração com o Hezbollah: a lavagem de dinheiro através dos cassinos de Porto Iguaçu, no lado argentino. Desta vez era Hassan Ali Barakat, sobrinho de Assad, que trocou fichas no valor de 3.750.000 dólares e introduziu o valor no sistema bancário brasileiro sem o declarar ao fisco. Ele cruzou as fronteiras 620 vezes entre 1º de janeiro de 2015 e 19 de outubro de 2017, incluindo 332 entradas na Argentina. Houve ocasiones em que viajou até três vezes em um dia a Porto Iguaçu. Em geral, era acompanhado por seu irmão Hussein. Ao detetar a manobra, a Unidade de Inteligência Financeira da Argentina (UFI) emitiu um alerta a 50 bancos, casas de câmbio, cassinos e financeiras de todo o mundo onde haviam circulado "ativos relacionados com o crime organizado ou o financiamento do terrorismo" deste grupo. Foram detidas 14 pessoas, todas de origem libanesa. Três com dupla nacionalidade paraguaia e o resto brasileiros.
Dois meses antes, em junho de 2018, foi desbaratada outra grande operação dos Barakat pela qual pretendiam apoderar-se do estratégico aeroporto municipal de Capitão Bado, em território paraguaio e bem próximo da fronteira com o Brasil. Em uma manobra fraudulenta, o Instituto Nacional de Desenvolvimento Rural e da Terra (Indert) do Paraguai cedeu o imóvel por apenas 5 milhões de Guaranis (menos de 1.000 dólares) a Alí Hatem Barakat, um jovem de 24 anos, sobrinho de Assad Barakat. Na manobra esteve implicado o então presidente do Indert, Luis Ortigoza, que entregou os nove hectares onde se encontra a pista de 1.100 metros,  pavimentada com cascalho, onde podem aterrissar aviões de pequeno porte como os que diariamente transportam cocaína da Bolívia para Argentina e Brasil. O imóvel está situado a metros da fronteira seca paraguaio-brasileira e junto a estrada que une Capitão Bado à cidade de Pedro Juan Caballero. Segundo os dados do caso, Alí Hatem Barakat nasceu em Ciudad del Este em 13 de janeiro de 1990. Na solicitação de compra do lote CH-92 se declarou "agricultor com cinco anos de ocupação do imóvel". Mas em seu perfil no Facebook assegura que reside em Santiago de Chile e viaja permanentemente a Foz do Iguaçu. Pelas fotos se pode ver que Alí Hatem leva uma vida muito melhor que a de um pequeno agricultor. É filho de Hatem Barakat, irmão de Assad, que vive atualmente em Iquique, Chile, onde se dedica ao comercio na zona franca dessa cidade. Segundo o portal da embaixada estadunidense em Assunção, Hatem foi investigado pela Interpol de Buenos Aires por sua vinculação com células do Hezbollah. Um terceiro irmão, Hamze Ahmad Barakat, também comerciante que integrava a sociedade que ia ficar com o aeroporto, foi detido em maio passado em Curitiba, Brasil, acusado de perpetrar uma fraude milionária.

Apesar das evidencias, a comunidade xiita assegura que tudo é uma manobra para desprestigia-los. "Isso é o que fazem habitualmente com a gente da Tríplice Fronteira para vincula-la ao Hezbollah e montar a imagem de que há tráfico de drogas, de que há lavagem de dinheiro e que se ajuda o Hezbollah com as finanças. Isso é irreal e falso", diz Galeb Moussa, um jornalista de origem libanesa correspondente do serviço em espanhol da rede iraniana HispanTV e vinculado à mesquita xiita do bairro de Flores em Buenos Aires. A especialista em segurança e inteligência venezuelano-estadunidense, Vanessa Newmann, coloca isso em contexto: "Na Tríplice Fronteira todo está misturado. A maioria da comunidade libanesa nos três países faz negócios, alguns lícitos e outros nem tanto. Mas entre eles há outros comerciantes que mantém suas conexões com o Hezbollah e estão fortemente comprometidos através de suas famílias. Fazem negócios um pouco para eles e outro pouco para o Partido de Deus que protege a seus parentes no Líbano. E a isto há que somar alguns agentes operativos diretamente relacionados com o grupo terrorista".
A mesquita xiita Husseiniyya Iman Al-Khomeini de Foz do Iguaçu permaneceu fechada na semana em que estivemos na zona. O sheik Khalid está viajando, me informa seu filho Mortadha. Foi visitar seus colegas de Curitiba e São Paulo. Ali há uma ampla comunidade árabe xiita. Em todo Brasil há uns oito milhões de libaneses e seus descendentes. Como no resto do mundo, 80% são sunitas e uns 15% xiitas. Ninguém quer falar dos Barakat ou do Hezbollah. "Para nós é um tema com o qual não temos nada que ver", diz uma pessoa que me responde do outro lado do interfone e que não quer informar seu nome. Na outra mesquita sunita de Omar Ibn Al-Khattab, na rua Meca de Foz, Mohamed Beha Rahal, presidente do Centro de Beneficência Muçulmana
nos recebe. "Somos mais ou menos 20.000 libaneses aqui em Foz, quase 10% do total da população. E somos brasileiros. Estamos aqui desde 1949 quando tudo isto era uma enorme selva", explica com voz amável em seu melhor portuñol. "Eu respondo por minha comunidade sunita. E tenho a certeza de que nenhum de nós está envolvido com nada que tenha que ver com o terrorismo. … Eles que respondam por si mesmos. Eu não posso responder por eles", agrega. Aqui também se sente a cisão e o rancor pelos que operam para o Hezbollah. E o jornalista Ali Farhat, chega a atribuir essa má imagem ao presidente eleito Jair Bolsonaro que ganhou em Foz com 56% dos votos. "Se aproveitou do assunto. Usou como propaganda. Disse que estava ameaçado pelo Hezbollah. E todo mundo sabe que isso é mentira", diz com voz firme e atitude aborrecida.
O sol vai caindo e o Paraná parece dourado desde o marco que assinala esta frágil fronteira. Um barquinho vai de uma margem à outra em apenas cinco minutos. A Ponte da Amizade adquire uma calma momentânea que se romperá em apenas umas horas. Será quando dezenas de milhares de pessoas voltem a cruzar desde Foz para Ciudad del Este antes do amanhecer e em sentido contrario ao meio da tarde. E entre eles, camuflados, agachados, disfarçados entre a maré de comerciantes, carregadores, compradores e curiosos, os agentes do Hezbollah dispostos a encontrar alguma nova brecha para lavar dinheiro, envia-los aos combatentes de Beirute ou preparar toda a infraestrutura para o momento que se decida atacar.
Fonte:  tradução livre de InfoBae-América
COMENTO: de tempos em tempos, surgem publicações como esta, citando locais e personagens da Tríplice Fronteira suspeitos de ligação com o terrorismo internacional. Tenho a suspeita de que os serviços de Inteligência com interesse no assunto incentivam essas publicações para que autoridades dos três países citados investiguem as supostas atividades suspeitas. 
Por outro lado, o cuidado com nossas fronteiras deve ter um destaque nos planos do novo governo. Não podemos continuar nessa situação de enormes deficiências no controle da entrada de estrangeiros por nossas extensas fronteiras, assunto já tratado aqui
Em 13 de maio de 2014, a coluna do jornalista Claudio Humberto, publicou uma nota preocupante. Segundo ele, o Itamaraty, emitiu a circular telegráfica nº 94443/375, de 7 de maio daquele ano, instruindo embaixadas e consulados a darem vistos – sem consulta prévia ao Brasil – para nacionais do Afeganistão, Irã, Iraque, Jordânia, Líbano, Líbia, Palestina, Paquistão e Síria, regiões tomadas por grupos terroristas.
Essa decisão irresponsável do Itamaraty, que afeta a crítica área de segurança, é agravada pela falta de estrutura e pessoal qualificado nas embaixadas e consulados, que se valem de contratados locais para analisar os pedidos de vistos.
Há quem afirme que esse ingresso aparentemente desorganizado de haitianos e naturais do denominado "Mundo Islâmico", somados aos cubanos do "mais médicos" - programa já extinto mas cujo efetivo foi denunciado estar infiltrado por muitos médicos militares com experiência de combate na África -, colombianos ligados à narcoguerrilha e paraguaios do mesmo naipe, na realidade serve para uma muito bem organizada invasão de "cumpanhêrus" revolucionários.
Quero destacar que nada há aqui contra os seguidores do Islã, somente usei o termo "Mundo Islâmico" para referir geograficamente os nacionais cujo ingresso no Brasil foi facilitado de forma inusual
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Felizmente, temos passado incólumes, em termos de terrorismo internacional, por grandes eventos mundiais como os Jogos Pan-Americanos de 2007, o Encontro Mundial da Juventude Católica de 2013, a Copa do Mundo de 2014, as Olimpíadas de 2016 além da posse do novo Presidente da República no último dia 1º de janeiro. A atuação "suspeita" de agentes iranianos no Cone Sul não é novidade. Após muitos anos de protelações, ressurge periodicamente a denúncia de "acordo" entre os governos iraniano e argentino para "abafar o caso" AMIA. Será que continuaremos tendo a sorte de não sermos vítimas de atentados terroristas em função de "todos amarem o Brasil" (e servirmos de base de refúgio para bandidos de todos os naipes, inclusive terroristas procurados na Europa e Oriente Médio, que para cá se dirigem até "baixar a poeira")? Ou podemos confiar em nossos dispositivos de segurança?
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