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sábado, 21 de abril de 2018

Colômbia - Historias de Infiltrados no Crime - Parte 1/2

por Nelson Matta Colorado
Em tempos de ataques com drones, espionagem satelital e hackeamento eletrônico, a inteligência humana segue tendo um valor incalculável. E de modo particular, aquela realizada por agentes encobertos, homens e mulheres que estão atrás das linhas inimigas, metidos na boca do lobo. 
Na Colômbia, a DNI (Dirección Nacional de Inteligencia), a Polícia e as Forças Militares realizam Operações encobertas. Os procedimentos são regulamentados pela Lei de Inteligência e Contrainteligência (Lei nº 1.621, de 2013), pelo Código de Processo Penal (Art 242), por diretrizes ministeriais e decisões da JIC (Junta de Inteligência Conjunta).  
Graças à coragem desses agentes, importantes golpes tem sido dados nas guerrilhas, cartéis e quadrilhas que afligem o país há décadas.
Na sequência, apresentaremos quatro histórias de membros das Forças de Segurança que se infiltraram em grupos criminosos. Uns conseguiram alcançar seus objetivos e saíram ilesos, outros só sacrificaram suas vidas e seus lares na empreitada.

O policial interiorano que se infiltrou no Clã do Golfo
Alvo:  “Tommy”
Entre os integrantes da quadrilha, diziam que se pegassem um 'sapo' ("boca grande"), o penalizavam. Eu não acreditava, até que me contaram a historia de ‘Willy’, um antigo companheiro deles, e me mostraram por celular as fotos de suas pernas, braços e partes esquartejadas. Aí engoli em seco e pensei que o mesmo me podia acontecer se me descobrissem”.
O Policial Meléndez(*), de 29 anos, tem vivo na memória essa experiência, pois esteve 12 meses como agente encoberto na organização criminosa "Clã do Golfo". Foram tempos brutais, em que sua vida esteve a borda do precipício. Seu relato continua assim:
Me designaram a missão em junho de 2016. O objetivo era identificar os cabeças e membros da "frente Jorge Iván Arboleda", uma subestrutura do Clã que delinque no Nordeste e no Magdalena Médio, na Antioquía e se dedica às extorsões, narcotráfico, sicariato e mineração ilegal de ouro.
A cobertura era entrar na zona como empregado de chácara. Fui escolhido porque conhecia esses municípios e me criei em uma picada com camponeses, conheço os trabalhos do campo.
Cheguei pedindo trabalho e me ajudaram em uma granja. A jornada era das sete às dezesseis horas, ordenhando vacas, remediando terneiros, consertando cercas e arando terras.
Uma vez, chegou na granja uma esquadra composta por 'Hernán', o chefe da equipe, e sete seguranças. Descansaram ali. Foi a primeira vez que o vi, e reportei ao meu Oficial de Controle o tipo de armamento que portavam e suas descrições físicas.
Em quatro meses, já conhecia os 'pontos', assim denominam as pessoas que fazem a vigilância em lugares fixos. Para ganhar a confiança deles, eu lhes avisava quando via policiais ou gente diferente no povoado.
Quando completou seis meses que estava na zona e eles estavam acostumados à minha presença, me ofereceram $480.000 (cerca de 480 reais) para ser olheiro. Este foi o meu ingresso na organização. Com o tempo, me deixaram ir aos acampamentos e assim conheci o 'Tomy', o comandante da 'frente', e a seu irmão 'Brandon'". 

Mais um deles
“Me recrutaram em janeiro de 2017, por um pagamento de $800.000 mensais, e me tornei patrulheiro do Clã do Golfo no monte. Também servia de 'pássaro', que é como eles denominam os escoltas de civil, e acompanhava a ‘Hernán’ a todas partes, fazia compras e buscava as prostitutas que chegavam de Medellín em Vegachí , garotas entre 18 e 23 anos, não muito bonitas.
A rotina com eles não era fácil. Havia ex-paramilitares impiedosos que não tinham coração, e alguns membros que foram recrutados mediante engôdos choravam porque se desertassem eram homens mortos. Quando já formava fila na esquadra, vi como castigavam sem piedade a sua tropa. A um garoto, acusaram de 'sapo' e lhe deram o castigo: o comandante o golpeava a coronhadas de fuzil, pontapés, socos e com paus, ou o enforcavam até que desmaiava;  quem quisesse podia unir-se à surra. Eu me mantive quieto, olhando como seis deles batiam no rapaz.
Um dos momentos de maior risco foi em março de 2017, quando nos ordenaram ir a Yondó lutar contra o ELN, para recuperar o controle desse município. Nos deslocamos durante 15 dias, com armamento pesado, e eu pensava ‘¿que vou fazer agora?’. Havia probabilidade de morrer, porque na Força Pública ao menos há um apoio, e aqui sequer sabíamos o que fazer. Por sorte, quando estávamos em Puerto Berrío, mudaram a ordem e mandaram outra 'frente'.
Toda vez que podia, me comunicava com o Oficial de Controle, via chat de celular, para informar o que se passava. Eu tinha uma bolsa e uma mochila equipadas com câmaras diminutas, e um localizador satelital em uma bota. Com isso, marcava as coordenadas dos lugares onde acampávamos.
Por volta de junho de 2017 já havia identificado a 60 integrantes. Minha missão chegava ao fim, mas minha fuga ainda estava pendente. ¿Como ia fazer para não levantar suspeitas?
O Oficial de Controle me advertiu que uns pelotões do Exército estavam chegando à área. O medo era que se armasse um tiroteio, porque aí ninguém pergunta quem é quem. Tinha que me ir já, fosse como fosse.
Por pura coincidência, estávamos fazendo um deslocamento pela selva, caí e torci o tornozelo. Aproveitei a situação, exagerei a dor e disse ao chefe de esquadra que não podia caminhar. Me disse que eu era um fraco, um 'cu-de-cachorro' e me deu socos no estômago. Me chutou no chão, me tirou a arma e o uniforme camuflado, deixando-me descalço e de bermudas.
Quando se foram e me deixaram, caminhei varias horas e saí em uma picada de Maceo. Cheguei a uma granja onde me deram botas e um moletom, mas por medo, porque sabiam que eu era do Clã do Golfo. Depois fui ao distrito La Susana, onde estava o Exército, e me entreguei, simulando uma desmobilização para que a estória ficasse redonda. Estando na guarnição militar liguei para meu chefe e este esclareceu a situação ao Coronel do Batalhão, e meus companheiros foram recolher-me com o pretexto de me processar. Assim pude sair da zona.
Graças à informação que consegui durante esse ano de encoberto, a Polícia fez quatro operações contra a 'frente Jorge Iván Grisales'. Em 14 de maio de 2017, em Yalí, foi capturado Heder Cabrera Quejada, vulgo ‘Hernán’, com sete subalternos e um arsenal; em 19 de junho seguinte detivemos a outros nove em Yolombó e San Roque, ainda que nesse procedimento eles nos mataram o patrulheiro Luis Javier Ruiz Palomino.
Em 18 de janeiro de 2018, em uma chácara da vereda La Alondra de Yalí, foi morto o chefe William Soto Salcedo (’Tomy’) e um escolta que chamavam de ‘Gorra’. E em 9 de março capturamos a Heiner Soto Salcedo (’Brandon’), nesse mesmo município.
“Tomy” (no destaque) e seu escolta “Gorra” morreram em um enfrentamento com a Polícia, em Yalí.
FOTO CORTESÍA
Me lembro que nas reuniões, ‘Tomy’ sempre dizia que não se deixaria prender, que antes se mataria. Ninguém se alegra pela morte de alguém, mas eu sou do campo, sei como sofrem os campesinos por culpa desses grupos. Por isso, completar esta missão foi gratificante”.

Uma Traição Transforma a Operação em Armadilha Mortal
Alvo:   “Megateo”
A operação foi planejada corretamente, o problema é que se rompeu o sigilo”, confessou o então diretor do DAS (Departamento Administrativo de Seguridad - extinto em 2011), Andrés Peñate, assumindo a responsabilidade por uma das maiores calamidades que já atingiram a Inteligência colombiana em sua historia.
A tragédia começou quando o informante Óscar Murillo se acercou do organismo estatal, em janeiro de 2006, dizendo que podia facilitar a captura do ex-guerrilheiro e narcotraficante Víctor Ramón Navarro Serrano, vulgo “Megateo”, chefe da "frente Libardo Mora Toro", uma dissidência do EPL. Este homem delinquía na região do Catatumbo, limítrofe com Venezuela, uma zona de ordem pública complexa, onde também atuavam as FARC e o ELN. Entrar ali era muito difícil, por isso não se podia perder esta oportunidade.
O caso foi destinado ao meu companheiro José Elvar Cárdenas Bedoya. Ele era de meia idade, de muita experiência, com uns 17 anos de serviço”, relata o detetive Pares(*), que conheceu os detalhes do sucedido.
José Elvar, por intermédio do informante Murillo, contatou “Megateo”. Sua "cobertura" era a de um traficante de armas, e depois de varias semanas de negociação, foi pactuada a venda de um lote de 50 fuzis.
O plano do DAS era capturar o alvo durante a entrega do arsenal, em 20 de abril de 2006. Para o procedimento selecionaram 10 detetives com treinamento tático de combate e seis militares das Forças Especiais, que se reuniram um dia antes no Batalhão Santander, em Ocaña.
Na base acondicionaram o "cavalo de Troia": um caminhão com carroceria gradeada de transporte de caixotes, no meio dos quais ia acondicionado um caixão blindado. Dentro desse cofre iriam os soldados e oito agentes armados até os dentes, cada um com 15 carregadores de munição.
O caixão blindado havia sido usado antes, dentro de um caminhão-tanque de leite. Saíamos a caçar barreiras da guerrilha na estrada de Florencia a San Vicente, em Caquetá”, detalha o funcionário.
Se tudo saísse segundo planejado, “Megateo” chegaria com dois escoltas ao ponto de encontro, e aí seriam capturados. No caso de haver um tiroteio, os uniformizados poderiam aguentar 10 minutos dentro da cápsula encouraçada, até que chegasse o apoio. Perto do local estariam três pelotões da Brigada 30 do Exército e outros 30 detetives, como reforço ao grupo principal.
Ao amanhecer do dia definido, o caminhão partiu ao seu destino, uma paragem rural no município de Hacarí, Norte de Santander. O condutor era o investigador Jesús Antonio Rodríguez e de co-piloto ia José Elvar.
Às 9:30 a.m. passavam por uma estrada de terra do setor Mesa Rica, quando duas bombas sacudiram o mundo. O veículo se destruiu como una casca de ovo em um punho fechado. Ninguém sobreviveu.
As equipes de reação acudiram de imediato, porém explodiu uma terceira bomba a 500 metros da detonação inicial. A onda jogou pelos ares um tronco de árvore, que acertou o pescoço e a cabeça do Cabo-Segundo Jorge Ayure Rátiva, tirando-lhe a vida. Logo se armou um tiroteio com os dissidentes, que durou até o crepúsculo e deixou três feridos.
Quando, por fim, chegaram ao ponto da tragédia, encontraram as latas retorcidas do caminhão, incrustadas na ladeira da montanha. O estado dos corpos era indescritível. As lâminas blindadas ficaram separadas por toda a cena e, sobre uma delas, os verdugos deixaram sua assinatura com spray vermelho: EPL.
O que sobrou do caminhão em que se deslocavam os 10 detetives e seis militares que iam capturar “Megateo” (destaque), en Hacarí, Norte de Santander. FOTOS: CORTESÍAS
Segundo arquivos da imprensa, as vítimas, além de José Elvar, Jesús Antonio e o Cabo Ayure, foram os detetives José Acosta, Alexis López, Dubián Moncada, Oliverio Cañón, Luis Albarracín, John Castellanos, Rubén Vacca e José González; o Sargento-Segundo Alfonso Catalán, o Cabo Norberto Burgos e os Soldados Luis Gutiérrez, Julio Ochoa, Edwin Ramírez e Carlos Cordero.
Recursos Humanos mandaram psicólogos a todos os grupos do DAS. Foi um momento muito difícil”, acresce Pares.

O Contragolpe
Era claro que o ocorrido em Hacarí havia sido uma armadilha, ¿mas onde houve a fuga de informação? Nos meses seguintes, vários agentes encobertos foram enviados à zona, uns como camponeses, outros de transportadores e comerciantes. O primeiro achado foi o corpo do informante Murillo, que estava como "NN" em um cemitério de Ocaña. Seus assassinos o torturaram, queimaram seus dedos para apagar as impressões digitais e arrancaram seu rosto.
A segunda pista obtida no terreno foi que um sujeito apelidado “Rastrillo” havia vendido a “Megateo” a informação sobre o plano de captura, para que o 'capo' pudesse preparar a armadilha mortal.
“Rastrillo” era um olheiro que trabalhava para quem melhor pagasse. Fingia cooperar com o Exército, inclusive saia fardado com a tropa para conduzi-la a depósitos e laboratórios de drogas no Catatumbo, mas também passava segredos ao inimigo.
No dia em que os funcionários prepararam o caminhão, ele estava presente no Batalhão Santander, e assim se inteirou da trama.
Eu estava lá quando capturamos ‘Rastrillo’ no batalhão, em dezembro de 2006. Ia sair com os soldados, mas o chamamos ao gabinete do comandante e lá o algemamos. Depois o levamos a um quiosque, enquanto aguardávamos a chegada do transporte. Me tocou ver como chegaram vários companheiros e, um a um, lhe esbofetearam”, disse a fonte.
Na mesma operação foram detidos 15 integrantes da rede de apoio de “Megateo”, mas ele escapou nesse momento e em outras duas oportunidades: em um choque armado sobreviveu a um disparo no abdome; e quando se jogou da traseira de uma caminhonete em que o levavam algemado.
O DAS o perseguiu até o último dia, até que o Governo desmantelou a instituição em 2012”, observa Pares.
Por fim, “Megateo” não se saiu bem. Nove anos mais tarde outros agentes encobertos do Exército infiltraram seu anel de segurança, desta vez com o disfarce de vendedores de explosivos. Em 2 de outubro de 2015 combinaram um encontro em um prédio na vila San José del Tarra, em Hacarí. E quando estava dentro de uma casa que funcionava como armaria, fizeram explodir uma das bombas que lhe prometiam vender.
Quando foi divulgada essa morte, o DAS já não existia, mas restavam as marcas daquele brutal atentado em seus antigos integrantes. Pares não pode evitar sentir-se aliviado.

(*) Os nomes dos agentes foram modificados para proteger sua segurança.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
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quinta-feira, 5 de abril de 2018

A Fábula do Leão Manso

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A respeito da gritaria generalizada vinda de canalhas de diversos naipes e pelos, como reação à manifestação do Comandante do Exército, me lembrei de uma velha fábula que bem retrata o ocorrido.
O Leão Manso
por Jacornélio M. Gonzaga
Era uma vez um homem que tinha um leão. Comprou-o recém nascido, para criá-lo em sua casa. 
A casa do homem era grande e bonita, construída em um enorme terreno onde o homem tinha flores e frutos e os cuidava e guardava com muito orgulho e carinho. 
O leão, quando grande, pela presença, deveria dissuadir os invejosos de suas inconfessáveis ambições sobre sua rica propriedade.
O tempo foi passando, e o leão, tratado com carinho e bem alimentado, cresceu bonito e forte, impressionando a todos pelo tamanho e pela obediência ao homem, era realmente muito disciplinado.
O homem tinha muito orgulho do leão e de si próprio, afinal, a ideia de ter um felino daquele porte lhe trazia grande tranquilidade. Sua simples presença era a garantia de que ninguém ousaria adentrar, sem seu conhecimento, na rica propriedade. Todos admiravam, respeitavam e temiam o leão.
Com o passar dos anos, o homem achou que havia nas redondezas um temor exagerado de seu leão, além do que ele julgava necessário. Até seus vizinhos evitavam passar por perto dos muros da casa, com medo do leão.
Embora ele afirmasse que o leão era manso, todos o temiam. Havia gente que perdia o sono ao ouvir um simples rugido do leão.
O homem, preocupado com o temor dos vizinhos, valendo-se da disciplina e da obediência do leão, condicionou-o a fazer e manter o silêncio! O leão, submisso, parou de rugir, apenas ronronava, era a única manifestação de seu instinto que a autoridade do dono lhe permitia!
O silêncio do leão tranquilizou as redondezas e convenceu a todos de que o leão era realmente manso.
Passado algum tempo, o homem acordou pela manhã e deparou-se com pichações nos muros de sua preciosa casa, devastação no jardim e no pomar, flores e frutos roubados, e constatou, horrorizado, que a presença do leão não intimidava mais os invejosos, eles haviam constatado que o leão era inofensivo, guardavam-lhe a admiração pelo porte e pela obediência mas não mais o respeitavam, pois era inofensivo, sequer rugia!
Moral da história: "O leão pode ser disciplinado e obediente, mas não inofensivo, precisa, pelo menos, rugir de quando em vez para se fazer respeitado".
Fonte:  Ternuma

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Militar, a Obediência e a Cidadania

por Sérgio Pinto Monteiro*
Recentemente, o General Villas Bôas, digno e respeitadíssimo Comandante do Exército Brasileiro, em seu Twitter, relembrou Samuel Huntington, consagrado economista e pensador americano, professor de Ciência Política das Universidades de Harvard e Columbia: 
"A lealdade e a obediência são as mais altas virtudes militares; mas quais serão os limites da obediência?" E conclui o ilustre chefe militar: “O Estado, ao nos delegar poder para exercer a violência em seu nome, precisa saber que agiremos sempre em prol da sociedade da qual somos servos.
Excluídas, por inverídicas, as manifestações de alguns esquerdopatas de que a referida postagem seria uma ameaça à democracia, o tema, deveras polêmico, nos remete a algumas indagações e reflexões.
Caberia às Forças Armadas, diante de um quadro de caos social - e institucional - agirem em defesa da nação? (leia-se da sociedade nacional, ou ainda, do povo brasileiro). A resposta, positiva e óbvia, está muito clara na postagem do General Villas Bôas. E o que seria um cenário de caos social? População desassistida pelo poder público? Hospitais abandonados e à míngua? Ensino público em estado calamitoso? Funcionários públicos sem pagamento? Banditismo generalizado nas ruas? Criminosos, altamente organizados e armados, derrotando a polícia na guerrilha urbana? População acuada, impedida de sair à noite, enjaulada em suas casas e sem a opção de portar uma arma em busca da defesa que o Estado é incapaz de lhe proporcionar? Propriedades rurais - e até urbanas - invadidas, lavouras destruídas, criações dizimadas - impunemente - por “movimentos sociais” que se autoproclamam “exércitos”, sob a complacência e conivência de diferentes níveis de autoridades? Doze milhões de desempregados? Definitivamente, o caos social já é uma triste realidade em nosso país.
E a insegurança institucional? Confronto entre poderes? Já os temos, explicitamente. Membros dos Legislativos - federal, estadual e municipal - comprometidos com a corrupção e crimes correlatos? São notórios. Governantes dos Executivos - nos três níveis - incompetentes, ineficientes, desacreditados, desmoralizados, envolvidos em todo tipo de tramoias, muitas vezes presos ou denunciados? Basta ver a mídia diária e as pesquisas populares. Integrantes do Judiciário, em especial das mais altas cortes, exercitando o seu poder e sabedoria jurídica - muitas vezes duvidosa - para proteger e dar guarida a políticos, administradores, empresários e governantes corruptos, postergando julgamentos, anos a fio, em busca de prescrições fraudulentas e outras benesses? Tudo isso, e muito mais, configura uma reconhecida e constrangedora realidade. Não seria, então, o caos institucional?
Dir-se-á que órgãos como o Ministério Público e a Polícia Federal estão combatendo a criminalidade, ao lado de alguns membros do Judiciário. É verdade. São patriotas que, dignamente, enfrentam todas as dificuldades imagináveis para processar e punir os quadrilheiros que de há muito se apossaram do país. Estão enfrentando bandidos muito poderosos, governantes, legisladores e até julgadores. Tememos por eles e suas famílias.
Resta-nos abordar a situação dos militares. Anos atrás, quando se iniciou a era populista no Brasil, as forças armadas foram alijadas do centro do poder nacional com a criação do Ministério da Defesa. Venceu a doutrina de que os militares devem estar submetidos ao poder civil. Foram anos de ofensas, agressões, inverdades e até humilhações. Comissões da Verdade foram implantadas, onde a verdade era o que menos importava. Tentaram, inutilmente, denegrir o Exército Brasileiro e impuseram dor e sofrimento a antigos combatentes - e seus familiares - cujo único “crime” foi cumprir o seu dever e o juramento de defender a Pátria.
Hoje, aqueles derrotados do passado e seus aliados oportunistas, que se apoderaram do país e implantaram o caos em que vivemos, ainda temem os princípios e valores que norteiam as ações e sentimentos dos militares. Como detêm o poder, controlam a mídia e mantêm ativas as rotinas gramscistas. Por isso, o pavor diante de eventuais manifestações de militares. Os políticos da oposição vociferam diuturnamente contra o atual governo federal. Não poupam o presidente da república, ministros de estado e seus métodos de governo. A todo o momento os acusam, livre e impunemente, da compra de votos de parlamentares, negociatas e outras supostas falcatruas. Afinal, segundo os opositores, estamos num regime democrático onde a liberdade de expressão é o esteio do estado de direito. Mas bastou um - apenas um - militar da ativa, em traje civil, num ambiente fechado, manifestar a sua opinião, para provocar a ira dos poderosos, os mesmos que fogem da palavra “pátria” como os vampiros de Hollywood fogem da cruz. Teria o General Mourão que, repito, fez um comentário em seu nome pessoal, infringido o Regulamento Disciplinar do Exército? Não me cabe julgar. Mas defendo o inalienável direito do brasileiro Hamilton Mourão, em pleno gozo de sua cidadania, após mais de quarenta anos de excelentes serviços prestados ao exército e à nação, expressar o seu desencanto sobre o infortúnio que se abateu sobre o nosso país.
Ao concluir essas breves reflexões, reitero as palavras de Samuel Huntington tão bem lembradas pelo Comandante do Exército Brasileiro: "A lealdade e a obediência são as mais altas virtudes militares; mas quais serão os limites da obediência?(grifo meu). 
* membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil,
da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis.
COMENTO:  Este é um assunto muito incômodo aos militares pois envolve a relativização de valores como disciplina e hierarquia, considerados pilares fundamentais ao segmento castrense da sociedade. tratamos sobre ele aqui e vimos que não só no Brasil, alguns incidentes mostram que Comandantes Militares sempre aceitam ser comandados por civis, desde que esses não extrapolem suas atribuições colocando o país em risco. Já tivemos alguns casos em que Oficiais Generais expuseram, com a franqueza peculiar dos que labutam na caserna, seus pontos de vista divergentes de autoridades civis. Os políticos não gostam de enfrentar essa verdade: cargos políticos são temporários, cargos militares são vitalícios. A profissão Militar é a única que exige o juramento de defender a Pátria com o sacrifício da própria vida. Pode parecer demagogia, mas é a verdade. Não há cidadão mais preocupado com os destinos da Nação do que um militar consciente de seu papel social ante a Pátria.
Lembro duas frases marcantes na História do Brasil, formuladas no início do século passado. A primeira do General Bertholdo Klinger (1884-1969), que referindo-se a importância do cargo de chefe do Executivo diz: “O posto supremo do País é problema de Estado-Maior.
A outra frase é do também General, Pedro Aurélio de Góis Monteiro (1889-1956), em seu livro A Revolução de 30 e a Finalidade Política do Exército: (...) sendo o Exército um instrumento essencialmente político, a consciência coletiva deve-se criar no sentido de se fazer a política do Exército e não a política no Exército. A política do Exército é a preparação para a guerra e esta preparação interessa e envolve todas as manifestações e atividades da vida nacional, no campo material — no que se refere à economia, à produção e aos recursos de toda a natureza (...).
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domingo, 26 de novembro de 2017

A Tragédia do ARA San Juan - A Lição Que Fica

Junto com a enorme dor que nos golpeou nas últimas horas, se acenderam centenas de luzes vermelhas e a sociedade argentina começou a fazer perguntas que deveriam ter sido formuladas há décadas.
Chegará, é inevitável, o tempo da prestação de contas, da metafórica "entrega de faturas", da busca implacável de responsáveis. E posso afirmar, quase com a mesma certeza, que essa rendição de contas se limitará naqueles que usam um quepe branco com escudo da Armada.
Durante décadas, nós que temos tripulado e comandado navios de guerra no mar, tivemos que lutar contra a apatia, a indolência e a ignorância daqueles que tomavam as decisões sobre nosso orçamento.
Portanto, sair ao mar implicava uma dose às vezes sobre-humana de vontade, de amor pela camiseta, de orgulho profissional e até de rebeldia.
Aprendemos a suprir a falta de recursos com criatividade, pedir equipamentos ou sobressalentes ao navio do lado, conseguir um reparo de última hora nas oficinas, maximizar a imaginação para resolver com ideias aqueles problemas que só se resolvem com recursos materiais e finalmente, por que não, amarrar com arame e rezar para que aguente.
De fato, esta criatividade voluntariosa e às vezes voluntarista, passou a ser um dos atributos mais valorizados nos jovens oficiais ou suboficiais da Armada.
De vez em quando nos perguntávamos: "¿E se tentarmos com dinheiro?", sabendo que lamentavelmente era uma pergunta retórica.
Simplesmente, a Nação não nos atribuía um papel relevante, em consequência não havia respaldo orçamentário e ao final, a opção era assumir os riscos ou paralisarmos definitivamente.
Esta situação é mais extrema nos meios de operação mais arriscada: aviões e submarinos. Aviadores navais e submarinistas devem ser muito mais rigorosos porque suas vidas estão em jogo de modo muito mais evidente e imediato.
Esta situação penosa se estendeu durante anos. Não ocorreu durante algum governo em particular, ainda que seja evidente que algumas gestões nos castigaram mais que outras.
Creio que mais de 90 por cento de nosso pessoal iniciou sua carreira depois da restauração democrática, porém a renovação vegetativa não importa muito quando a desconfiança é virtualmente inata e nos alcança pelo simples fato de ser o que queremos ser.
Agora aí está. Agora perdemos um submarino com 44 almas a bordo.
O mais doloroso é a perda de jovens vidas, certamente. Porém as insinuações sobre a irresponsabilidade implícita na operação de um navio em condições precárias é quase tão dolorosa, por  serem essencialmente injustas. É assim para aqueles dos quais conhecemos o enorme esforço, carinho e compromisso com que eles levaram adiante sua vocação. Nós sabemos porque sentimos o mesmo.
Como disse linhas acima, esta tragedia é de todos ainda que a responsabilidade só recaia em alguns.
Quando a carreira de um militar é interrompida por algum erro severo, ocorre algo especial: esse homem perde sua profissão definitivamente, sem chance de voltar atrás. Isto ocorre também com policiais e gendarmes.
Isto não é uma crítica nem uma queixa, é um dado da realidade. Nos matam com um único tiro, e muitas vezes "pelas dúvidas". E isto é o que vai ocorrer agora. Afirmo isto porque já começou a ocorrer.
Durante a última semana de pesadelo que viveram os argentinos, em particular os marinheiros, se produziram "fricções" entre militares e políticos.
¿Por que ocorrem? Porque pensamos de maneira distinta, cada um com sua própria estrutura de valores, ideais e objetivos legítimos.
Minha ética profissional me impõe, por exemplo, pedir minha demissão se o navio que comando sofre uma quebra, colisão ou incidente grave. Depois vamos ver se sou culpado, porém minha responsabilidade me exige o proverbial "paso al costado" [NT: "dar passagem"] ainda que seja provisório.
Agora, nossos dirigentes se dedicarão à lucrativa tarefa de "estabelecer responsabilidades". Gostaria de perguntar se irão buscar em suas casas os ministros de Defesa dos últimos 50 anos, ou se vão questionar, ainda que seja frente ao espelho, suas próprias decisões ou a falta delas.
Esta semana foi dolorosa para todos os marinheiros argentinos, mas especialmente para aqueles que aspiram continuar com sua incipiente carreira. Seu futuro é incerto e eles sabem disto.
Vozes tão estridentes como ignorantes falam hoje com equívoca fartura de conceitos técnicos que se leva uma vida inteira para compreender. Eram diretores técnicos há dois meses, peritos forenses no mês passado e submarinistas experientes hoje. É inevitável, mas doloroso, especialmente quando desde um microfone questionam atitudes profissionais sobre as quais não estão nem remotamente capacitados para avaliar.
Castiguemos os culpáveis, está bem, ainda que só seja a alguns. Se não podemos castigar aos que deveríamos, ao menos façam-lo com aqueles mais facilmente castigáveis.
Mas depois, quando se aplaquem os ânimos e se curem as dores da alma, saibamos que apesar das adversidades, pese à injustiça de pretender que suportem os erros de mais de 40 anos, pese à indolência e a apatia de uma sociedade que deveria velar por eles, segue havendo jovens argentinos cuja principal aspiração é defender a sua Pátria no mar.
Sua Pátria deveria permitir que o façam.
(*) Capitão de Navio (Inativo)
 e veterano da Guerra das Malvinas.
Fonte: tradução livre de Tribuna de Periodistas
COMENTO: Que essa tragédia que atingiu os Submarinistas Argentinos e o próprio povo argentino, sirva de exemplo aos dirigentes daquele país e de outros, particularmente do Brasil. Distribuir tarefas sem a devida distribuição de meios é ato de extrema irresponsabilidade!

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Quando Tudo Falhar, Chame o Joe - Um Herói da CIA

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Lembrando o herói e membro-fundador da CIA, Joe Procaccino
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"Você tem que saber onde esteve para saber onde está"
(Joe Procaccino)
Joseph A. Procaccino é uma lenda da CIA. Tendo servido sob todos os diretores da CIA, Joe alcançou um marco único em 2014: 71 anos no serviço de inteligência.
Joe fez parte de todos os aspectos das missões da Agência, desde os primórdios do Escritório de Serviços Estratégicos (OSS) até a Unidade de Serviços Estratégicos (SSU) e do Grupo de Inteligência Central (CIG) de curta duração, até se tornar um membro fundador da CIA, em 1947. 
Ele recebeu numerosos prêmios, incluindo a prestigiosa Medalha do Diretor, e foi um herói em Langley. Mas foram seus sábios conselhos e orientações honradas, no entanto, que o fizeram muito estimado.
"Quando tudo mais falhar, pergunte ao Joe", tem sido um ditado popular na Agência há anos.
Joe morreu tranquilamente aos 93 anos de idade, em 8 de janeiro de 2015, após complicações de uma doença respiratória. 

Nasce uma lenda
Joe, que nasceu na Itália, entrou no mundo da Inteligência por suas habilidades com línguas estrangeiras.
Ele nasceu em 1921 em Bisaccia e veio para os Estados Unidos em 1933. Ele estabeleceu-se com sua família no Bronx, NY, onde freqüentou o DeWitt Clinton High School. 
Como adolescente, ele foi um vocalista notável que cantou na rádio local e em clubes como "The Young Caruso". Ele se formou no City College de Nova York em 1942, com especialização em lingüística.
"Concentrei-me na faculdade em línguas românicas, aspirando a ser professor de italiano", lembrou Joe durante uma palestra que ele deu na sede da CIA, em 2011. "Em dezembro de 1942, um coronel do Exército dos EUA esteve em Nova York entrevistando estudantes com fortes inclinações linguísticas para aprender japonês. Achei que era uma boa oportunidade para aprender um novo idioma". 
Joe foi aceito no Serviço de Inteligência Militar, e começou estudando japonês na Escola de Serviço de Inteligência Militar, na Universidade de Michigan e em Camp Savage em Minnesota

"Missão Dixie"
Então, de março a junho de 1945, Joe foi membro do Grupo Observador dos EUA que fazia parte da "Missão Dixie" na China.
O objetivo da missão era conseguir que os comunistas e os nacionalistas governantes formassem uma coalizão para lutar contra os japoneses.
Para fazer isso, o primeiro contingente dos EUA da missão viajou de avião para Yenan, a capital comunista sob Mao Tse-Tung. 
O segundo contingente, incluindo Joe, viajou mais de 1.200 milhas por comboio motorizado em estradas nunca antes viajadas, da capital nacionalista chinesa de Chungking para Yenan.
Lá, eles moravam em salas que realmente eram cavernas na encosta, sem eletricidade e iluminadas apenas por velas.
Joe trabalhou em estreita colaboração com os comunistas para colecionar inteligência militar sobre as forças japonesas, obter ajuda para resgatar aviadores avariados dos EUA em território inimigo e coletar informações sobre personalidades comunistas, bem como condições meteorológicas.

De Militar a OSS
Enquanto servia na China pós-guerra, Joe deixou seu trabalho militar e se juntou ao OSS. Quando o OSS foi dissolvido no final de setembro de 1945, seus restos foram alojados no Departamento de Guerra como a Unidade de Serviços Estratégicos (SSU).
O Grupo Central de Inteligência (CIG) foi criado em janeiro de 1946 pela Ordem Executiva, e o SSU foi dobrado nesse verão.
Em 1947, Joe tornou-se um membro fundador da recém-criada CIA.
Em uma palestra em 2011 na sede da Agência, Joe enfatizou que as mudanças na inteligência americana após 1945 e o trabalho pioneiro feito pelos precursores da CIA, não são amplamente conhecidos hoje.
"É difícil transmitir o significado dessas organizações de inteligência predecessoras porque não são prontamente discutidas", disse Joe. "Eu posso ser um dos últimos membros restantes capazes de contar seus triunfos".
Joe fez sua missão educar a força de trabalho da Agência em seu passado e enfatizar a importância de aprender com sua história.

Um Herói em Langley
Uma dedicação insuperável para a missão e as pessoas da CIA fizeram de Joe uma lenda.
Em uma visita à CIA em 2004, o Hall of Famer Cal Ripken se encontrou com Joe e, tendo aprendido o serviço em sete décadas diferentes, escreveu: "Joe, agora é uma série impressionante". 
Descrito pelo ex-diretor da CIA, George Tenet, como "O Pai dos Diretores de Todos os Relatórios", Joe inventou, criou ou foi pioneiro em muitas das políticas e procedimentos de gerenciamento de informações que ainda usamos hoje. 
É nesta área que Joe teve talvez o maior impacto.
Joe ajudou a estabelecer padrões para a produção e avaliação de inteligência humana, funções básicas que tocam virtualmente cada parte da CIA.
Ele desempenhou um papel decisivo na colocação em linha do primeiro sistema eletrônico de disseminação da Agência na década de 1970, substituindo um processo puramente manual.
Depois do 11 de setembro, ele empregou seus antecedentes legais - ele obteve seu diploma de Direito em 1955 e foi membro do DC Bar - para moldar, analisar e melhorar as diretrizes que regem a passagem e uso de inteligência por autoridades policiais e de segurança interna.
Nunca se afastou de um desafio, Joe era freqüentemente visto como um líder entre seus colegas.
Ele disse: "A liderança é ação - não apenas uma posição". Era um padrão que ele tentava viver todos os dias em sua própria vida, e um valor que ele passou para as novas gerações de oficiais que regularmente buscavam seu conselho.
Por sua dedicação e serviço excepcional, em 26 de fevereiro de 2003, Joe foi premiado com a Medalha do Diretor de "Fidelidade Extraordinária e Serviço Essencial". Joe já havia sido premiado com a Medalha de Inteligência do Mérito e a Medalha de Inteligência Distinguida, entre outros.

"Ask Joe"
Nenhum resumo de sua carreira ou lista de suas honras e decorações pode capturar toda a extensão das contribuições de Joe para a CIA e para a Comunidade de Inteligência.
Como um serviceman, um oficial de inteligência e um consultor, Joe definiu a forma como a inteligência americana trabalha em todo o mundo.
Sua própria avaliação foi caracteristicamente modesta: "Relembro mais do que nunca sobre os primeiros anos para afetar positivamente o futuro. Tenho a honra de ter sido parte de todas as facetas desta organização e só espero que as gerações mais jovens dos oficiais da CIA entendam seus papéis notáveis ​​e como o que eles fazem hoje afeta o futuro da Agência ".
Na Agência, costumava ser dito que, não importa o problema ou pergunta, a resposta sempre pode ser encontrada nas palavras de um cartaz acima da mesa de Joe: "Pergunte ao Joe". Infelizmente, não podemos mais fazer isso.
Mas Joe nos deixou com um legado diferente de qualquer outro. Sua história está integrada nos próprios fundamentos da Agência, e as futuras gerações olharão para ele por respostas, assim como ele procurou o conselho daqueles que vieram antes dele.
Quando tudo mais falhar, esses futuros oficiais perguntarão: "O que Joe diria?"
Fonte: tradução livre de CIA
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sexta-feira, 31 de março de 2017

Aos Que Não Viveram a Contra-Revolução de 31 de Março de 1964

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Texto de 2004, do saudoso Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra
No dia 31 de março próximo faz 40 anos que foi deposto o Presidente da República, João Goulart.
Uns chamam esse acontecimento de golpe militar, outros de tomada do poder, alguns outros de Revolução de 1964. Eu prefiro considerá-lo como a Contra-Revolução de 31 de março de 1964.
Vou lhes explicar o meu ponto de vista ao longo deste artigo. Espero que ao final vocês tenham dados suficientes para julgar se estou certo.
Vocês foram cansativamente informados por seus professores, jornais, rádios, TV e partidos políticos:
- que os militares tomaram o poder dos civis para impedir que reformas moralizantes fossem feitas; 
- que para combater os "generais que usurparam o poder" os jovens da época uniram-se e lutaram contra a ditadura militar e que muitos deles morreram, foram mutilados, presos e torturados na luta pela "redemocratização" do país;
- que os militares assim agiram a mando dos Estados Unidos, que temiam o comunismo instalado no Brasil; 
- que jovens estudantes, idealistas, embrenharam-se nas matas do Araguaia para lutar contra a ditadura e pela redemocratização do país.
Com quantas inverdades fizeram a cabeça de vocês! E por que essas mentiras são repetidas até hoje? Foi a maneira que eles encontraram para tentar justificar a sua luta para implantar um regime do modelo soviético, cubano ou chinês no Brasil.
Por intermédio da mentira, eles deturparam a História e conseguiram o seu intento. Vocês que não viveram essa época acreditam piamente no que eles dizem e se revoltam contra os militares. 
Vamos aos fatos, pois eu vivi e participei dessa época.
Em março de 1964 eu era Capitão e comandava uma bateria de canhões anti-aéreos do 1º Grupo de Artilharia Anti-Aérea, em Deodoro, no Rio de Janeiro.
A maioria dos oficiais que servia no 1º Grupo de Artilharia AAe, entre eles eu, teve uma atitude firme para que o Grupo aderisse à Contra-Revolução.
Eu era um jovem com 31 anos. O país vivia no caos. Greves políticas paralisavam tudo: transportes, escolas, bancos, colégios. Filas eram feitas para as compras de alimentos. A indisciplina nas Forças Armadas era incentivada pelo governo. Revolta dos marinheiros no Rio; revolta dos sargentos em Brasília. Na minha bateria de artilharia havia um sargento que se ausentava do quartel para fazer propaganda do Partido Comunista, numa kombi, na Central do Brasil.
Isto tudo ocorria porque o governo João Goulart queria implantar as suas reformas de base à revelia do Congresso Nacional. Pensava, por meio de um ato de força, em fechar o Congresso Nacional com o apoio dos militares "legalistas".
Vocês devem estar imaginando que estou exagerando para lhes mostrar que a Contra-Revolução era imperativa naqueles dias. Para não me alongar, vou citar o que dizem dois conhecidos comunistas:
- depoimento de Pedro Lobo de Oliveira no livro "A esquerda Armada no Brasil" - "muito antes de 1964 já participava na luta revolucionária no Brasil na medida de minhas forças. Creio que desde 1957. Ou melhor, desde 1955". "Naquela altura o povo começava a contar com a orientação do Partido Comunista".
- Jacob Gorender - do PCBR, escreveu no seu livro "Combate nas Trevas": "Nos primeiros meses de 1964, esboçou-se uma situação pré-revolucionária e o golpe direitista se definiu, por isso mesmo, pelo caráter contra-revolucionário preventivo. A classe dominante e o imperialismo tinham sobradas razões para agir antes que o caldo entornasse".
Diariamente eu lia os jornais da época: O Dia, O Globo, Jornal do Brasil, Tribuna da Imprensa, Diário de Notícias, etc... Todos eram unânimes em condenar o governo João Goulart e pediam a sua saída, em nome da manutenção da democracia. Apelavam para o bom senso dos militares e até imploravam a sua intervenção, para que o Brasil não se tornasse mais uma nação comunista.
Eu assistia a tudo aquilo com apreensão. Seria correto agirmos para a queda do governo? Comprei uma Constituição do Brasil e a lia seguidamente. A minha conclusão foi de que os militares estavam certos ao se antecipar ao golpe de Jango. 
Às Forças Armadas cabe zelar para a manutenção da lei, da ordem e evitar o caos. Nós não tínhamos que defender o governo; tínhamos que defender a nação.
O povo foi às ruas com as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, no Rio, São Paulo e outras cidades do país. Todos pedindo o fim do governo João Goulart, antes que fosse tarde demais.
E, assim, aconteceu em 31/03/1964 a nossa Contra-Revolução. 
Os jornais da época (Estado de São Paulo, O Globo, Jornal do Brasil; Tribuna da Imprensa e outros) publicaram, nos dias 31/03/64 e nos dias seguintes, editoriais e mais editoriais exaltando a atitude dos militares. Os mesmos jornais que hoje combatem a nossa Contra- Revolução.
Os comunistas que pleiteavam a tomada do poder não desanimaram e passaram a insuflar os jovens, para que entrassem numa luta fratricida, pensando que lutavam contra a ditadura. E mentiram tão bem que muitos acreditam nisso até hoje. Na verdade, tudo já estava se organizando. Em 1961, em pleno governo Jânio Quadros, Jover Telles, Francisco Julião e Clodomir dos Santos Morais estavam em Cuba acertando cursos de guerrilha e o envio de armas para o Brasil. Logo depois, alguns jovens eram indicados para cursos na China e em Cuba. Bem antes de 1964 a área do Araguaia já estava escolhida pelo PCdoB para implantar a guerrilha rural.
Em 1961 estávamos em plena democracia. Então para que eles estavam se organizando? Julião já treinava as suas Ligas Camponesas nessa época, que eram muito semelhantes ao MST de hoje. Só que sem a organização, o preparo, os recursos, a formação de quadros e a violenta doutrinação marxista dos atuais integrantes do MST.
E foi com essa propaganda mentirosa que eles iludiram muitos jovens e os cooptaram para as suas organizações terroristas.
Então, começou a luta armada.
Foram vários atos terroristas: o atentado ao aeroporto de Guararapes, em Recife, em 1966; a bomba no Quartel General do Exército em São Paulo, em 1968; o atentado contra o consulado americano; o assassinato do industrial Albert Boilesen e do capitão do Exército dos Estados Unidos Charles Rodney Chandler; sequestros de embaixadores estrangeiros no Brasil .
A violência revolucionária se instalou. Assassinatos, ataques a quartéis e a policiais aconteciam com freqüência. 
Nessa época, eles introduziram no Brasil a maneira de roubar dinheiro com assaltos a bancos, a carros fortes e a estabelecimentos comerciais. Foram eles os mestres que ensinaram tais táticas aos bandidos de hoje. Tudo treinado nos cursos de guerrilha em Cuba e na China.
As polícias civil e militar sofriam pesadas baixas e não conseguiam, sozinhas, impor a lei e a ordem.
Acuado, perdendo o controle da situação, o governo decretou o AI-5, pelo qual várias liberdades individuais foram suspensas. Foi um ato arbitrário mas necessário. A tênue democracia que vivíamos não se podia deixar destruir.
Para combater o terrorismo, o governo criou uma estrutura com a participação dos Centros de Informações da Marinha (CENIMAR), do Exército (CIE) e da Aeronáutica (CISA). Todos atuavam em conjunto, tanto na guerrilha rural quanto na urbana. O Exército, em algumas capitais, criou o seu braço operacional, os Destacamentos de Operações de Informações (DOI). Para trabalharem nos diversos DOI do Brasil, o Exército selecionou do seu efetivo alguns majores, capitães e sargentos. Eram, no máximo, 350 militares, entre os 150 mil homens da Exército.
Eu era major, estagiário da Escola de Estado Maior. Tinha na época 37 anos e servia no II Exército, em São Paulo. Num determinado dia do ano de 1970, fui chamado ao gabinete do Comandante do II Exército, General José Canavarro Pereira, que me deu a seguinte ordem: "Major, o senhor foi designado para comandar o DOI/CODI/II Ex. Vá, assuma e comande com dignidade".
A partir desse dia minha vida mudou. O DOI de São Paulo era o maior do país e era nesse Estado que as organizações terroristas estavam mais atuantes. O seu efetivo em pessoal era de 400 homens. Destes, 40 eram do Exército, sendo 10 oficiais, 25 sargentos e 5 cabos. No restante, eram excelentes policiais civis e militares do Estado de São Paulo. Esses foram dias terríveis! Nós recebíamos ameaças freqüentemente.
Minha mulher foi de uma coragem e de uma abnegação total. Quando minha filha mais velha completou 3 anos de idade, ela foi para o jardim da infância, sempre acompanhada de seguranças. Minha mulher não tinha coragem de permanecer em casa, enquanto nossa filha estudava. Ela ficava dentro de um carro, na porta da escola, com um revólver na bolsa.
Não somente nós passamos por isso! Essa foi a vida dos militares que foram designados para combater o terrorismo e para que o restante do nosso Exército trabalhasse tranqüilo e em paz. 
Apreendemos em "aparelhos" os estatutos de praticamente todas as organizações terroristas e em todos eles estava escrito, de maneira bem clara, que o objetivo da luta armada urbana e rural era a implantação de um regime comunista em nosso país.
Aos poucos o nosso trabalho foi se tornando eficaz e as organizações terroristas foram praticamente extintas, por volta de 1975.
Todos os terroristas quando eram interrogados na Justiça alegavam que nada tinham feito e só haviam confessado os seus crimes por terem sido torturados. Tal alegação lhes valia a absolvição no Superior Tribunal Militar. Então, nós passamos a ser os "torturadores". 
Hoje, como participar de sequestros, de assaltos e de atos de terrorismo passou a contar pontos positivos para os seus currículos eles, posando de heróis, defensores da democracia, admitem ter participado das ações. Quase todos continuam dizendo que foram torturados e perseguidos politicamente. Com isso recebem indenizações milionárias e ocupam elevados cargos públicos. Nós continuamos a ser seus "torturadores" e somos os verdadeiros perseguidos políticos. As vítimas do terrorismo até hoje não foram indenizadas. 
O Brasil com toda a sua população e com todo seu tamanho teve, até agora, 120 mortos identificados, que foram assassinados por terroristas, 43 eram civis que estavam em seus locais de trabalho (estima-se que existam mais cerca de 80 que não foram identificados); 34 policiais militares; 12 guardas de segurança; 8 militares do Exército; 3 agentes da Polícia Federal; 3 mateiros do Araguaia; 2 militares da Marinha; 2 militares da Aeronáutica; 1 major do Exército da Alemanha; 1 capitão do Exército dos Estados Unidos; 1 marinheiro da Marinha Real da Inglaterra.
A mídia fala sempre em "anos de chumbo", luta sangrenta, noticiando inclusive que, só no cemitério de Perus, em São Paulo, existiriam milhares de ossadas de desaparecidos políticos. No entanto o Grupo Tortura Nunca Mais reclama um total de 284 mortos e desaparecidos que integravam as organizações terroristas. Portanto, o Brasil, com sua população e com todo o seu tamanho, teve na luta armada, que durou aproximadamente 10 anos, ao todo 404 mortos.
Na Argentina as mortes ultrapassaram 30.000 pessoas; no Chile foram mais de 4.000 e no Uruguai outras 3.000. A Colômbia, que resolveu não endurecer o seu regime democrático, luta até hoje contra o terrorismo. Ela já perdeu mais de 45.000 pessoas e tem 1/3 do seu território dominado pelas FARC.
Os comunistas brasileiros são tão capazes quanto os seus irmãos latinos. Por que essa disparidade?
Porque no Brasil dotamos o país de leis que permitiram atuar contra o terrorismo e também porque centralizamos nas Forças Armadas o combate à luta armada. Fomos eficientes e isso tem que ser reconhecido. Com a nossa ação impedimos que milhares de pessoas morressem e que esta luta se prorrogasse como no Peru e na Colômbia.
No entanto, algumas pessoas que jamais viram um terrorista, mesmo de longe, ou preso, que jamais arriscaram as suas vidas, nem as de suas famílias, criticam nosso trabalho. O mesmo grupo que só conheceu a luta armada por documentos lidos em salas atapetadas e climatizadas afirma que a maneira como trabalhamos foi um erro, pois a vitória poderia ser alcançada de outras formas. 
Já se declarou, inclusive, que: "a ação militar naquele período não foi institucional. Alguns militares participaram, não as Forças Armadas. Foi uma ação paralela".
Alguns também nos condenam afirmando que, como os chefes daquela época não estavam acostumados com esse tipo de guerra irregular, não possuíam nenhuma experiência. Assim, nossos chefes, no lugar de nos darem ordens, estavam aprendendo conosco, que estávamos envolvidos no combate. Segundo eles, nós nos aproveitávamos dessa situação para conduzir as ações do nosso modo e que, no afã da vitória, exorbitávamos .
Mas as coisas não se passavam assim. Nós que fomos mandados para a frente de combate nos DOI, assim como os generais que nos chefiavam, também não tínhamos experiência nenhuma. Tudo o que os DOI faziam ou deixavam de fazer era do conhecimento dos seus chefes. Os erros existiram, devido à nossa inexperiência, mas os nossos chefes eram tão responsáveis como nós.
Acontece que o nosso Exército há muito tempo não era empregado em ação. Estava desacostumado com a conduta do combate, onde as pessoas em operações têm que tomar decisões, e decisões rápidas, porque a vida de seus subordinados ou a vida de algum cidadão pode estar em perigo.
Sempre procurei comandar liderando os meus subordinados. Comandei com firmeza e com humanidade, não deixando que excessos fossem cometidos. Procurei respeitar os direitos humanos, mas sempre respeitando, em primeiro lugar, os direitos humanos das vítimas e, depois, os dos bandidos. Como escrevi em meu livro "Rompendo o Silêncio", terrorismo não se combate com flores. A nossa maneira de agir mostrou que estávamos certos, porque evitou o sacrifício de milhares de vítimas, como aconteceu com os nossos vizinhos. Só quem estava lá, frente a frente com o terroristas, dia e noite, de arma na mão, pode nos julgar.
Finalmente, quero lhes afirmar que a nossa luta foi para preservar a democracia. Se o regime implantado pela Contra -Revolução durou mais tempo do que se esperava, deve-se, principalmente, aos atos insanos dos terroristas. Creio que, em parte, esse longo período de exceção deveu-se ao fato de que era preciso manter a ordem no país.
Se não tivéssemos vencido a luta armada, hoje estaríamos vivendo sob o tacão de um ditador vitalício como Fidel Castro e milhares de brasileiros teriam sido fuzilados no "paredón" (em Miami em fevereiro, foi inaugurado por exilados cubanos, um Memorial para 30.000 vítimas da ditadura de Fidel Castro).
Hoje temos no poder muitas pessoas que combatemos e que lá chegaram pelo voto popular e esperamos que eles esqueçam os seus propósitos de 40 anos passados e preservem a democracia pela qual tanto lutamos.
O autor (1932-2015), Coronel do Exército, foi
 Comandante do DOI/CODI/ II Ex;
 Instrutor Chefe do Curso de Operações da Escola Nacional de Informações
 e Chefe da Seção de Operações do CIE

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

George Washington - Soldado, Estadista ... e Espião-Mestre

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Recorte de quadro com o general George Washington reunindo suas tropas na batalha de Princeton. 
Pintura original por William Tylee Ranney, na galeria de arte da Universidade de Princeton













Todos os anos, os estudantes norte-americanos celebram o Dia do Presidente (e seu feriado). Nas escolas de ensino fundamental de todo o país, as crianças fazem perucas com bolas de algodão, colorem imagens de George Washington a cavalo, ou de Abraham Lincoln em uma cabana de madeira, enquanto seus professores leem para eles trechos da Declaração de Independência ou do Discurso de Gettysburg.
Dependendo de onde cresceram, os Norte-americanos podem comemorar esse feriado de forma diferente. Devido ao sistema federalista do governo, os estados escolhem como usar o feriado. Alguns o nomeiam como Aniversário de Washington, outros como o Dia do Presidente, outros referem-se a Washington ou Lincoln e, pelo menos um, cita especificamente o nome de Thomas Jefferson.
Mas de acordo com o governo federal, a terceira Segunda-feira de Fevereiro é oficialmente o Aniversário de George Washington (OK, OK, George Washington na verdade nasceu em 22 Fev 1732, mas vamos em frente. Há uma boa história sobre como o feriado veio a ser o que é, e você pode ler a respeito no Arquivo Nacional).
Um dos mais famosos mitos sobre Washington é o da cerejeira. Quase todos os Norte-americanos o conhecem: quando criança, ele cortou a cerejeira que seu pai gostava com uma machadinha. Quando confrontado, ele responde, com uma frase que qualquer aluno do ensino fundamental pode recitar: "Pai, eu não posso dizer uma mentira." O conto fala da virtude inerente de Washington, e ainda fixou sua lenda como o ideal para um líder americano, "Pai" de nosso país.
A lenda do jovem George Washington sendo incapaz de dizer uma mentira. Pintura original por John C. McRae.
Livraria do Congresso 
Poucas crianças aprendem que nosso honrado e honesto "pai fundador", ganhou a Guerra pela Independência não só por causa de suas proezas militares, mas em grande parte também por sua capacidade de enganar. George Washington foi muitas coisas durante sua vida: fazendeiro, amante dos cães, atleta, topógrafo, soldado, presidente ... a lista parece interminável. Mas muitos esquecem ou nem ficam sabendo que ele também era um mestre espião.
Construímos uma mitologia nacional em torno de Washington como um líder destemido e humilde servo. E de acordo com todas as contas, ele era essas coisas. No entanto, muitas das histórias que aprendemos sobre ele foram feitas após a sua morte - como a história da árvore de cereja. São lendas e mitos atribuídos a um homem já grande que não precisava de embelezamento.
Mas nesta história você pode acreditar.
A primeira experiência de Washington com espiões foi ao servir quando jovem oficial na Guerra Francesa e Indiana. Ele aprendeu táticas e técnicas do mesmo Exército Britânico que ele mais tarde enfrentaria na Guerra Revolucionária.
Hoje, a Comunidade de Inteligência dos Estados Unidos é composta por 17 agências e órgãos, todos servindo nossos líderes nacionais - diplomatas, combatentes, o Presidente - de diferentes maneiras. No Exército Britânico dos anos 1700, se um oficial precisasse da Atividade de Inteligência, era geralmente ele quem teria que desenvolver sua própria rede. Washington acreditava tão fortemente no valor da boa Inteligência que gastou aproximadamente 10% de seu orçamento nela.
Mais tarde, como um Revolucionário Norte-americano, Washington construiu e dirigiu o notório (pelo menos para a Coroa Britânica ) grupo de espiões conhecido como o Anel Spy Culper. Ele mesmo recrutou muitos desses espiões. A fim de proteger esses recursos de inteligência, ele muitas vezes teve o cuidado de sempre evitar saber suas identidades reais. Há muitos espiões Culper Ring, cujas identidades permanecem desconhecidas até hoje.
O preço da espionagem na Guerra Revolucionária era alto, tanto para os revolucionários quanto para os leais à Coroa. Normalmente, os espiões presos e condenados eram executados. Nomes como Nathan Hale e Benedict Arnold evocam imagens da forca (embora, Arnold, o espião britânico mais conhecido da Revolução Americana, tenha evitado sua captura e mais tarde se tornado um General britânico).
Muito parecido com os juramentos de hoje, os militares tinham de assinar um juramento de fidelidade aos EUA. Este juramento foi levado a sério, e muitos espiões foram executados. Benedict Arnold, cujo juramento é visto aqui, não foi executado. Ele foi um "vira-casaca" que aceitou uma comissão no exército britânico e foi viver em Londres. Arquivo Nacional.
O Culper Ring ou Anel de Culper é epônimo com dois nomes de cobertura dos espiões, usados ​​em troca de correspondências, Samuel Culper e Samuel Culper Jr. Eram de fato as identidades falsas de Abraham Woodhull e de Robert Townsend, respectivamente. Seus pseudônimos foram usados ​​nas cartas de Culper Ring para que suas atividades de espionagem não fossem conectadas às suas identidades reais.
No mundo real, eles seguiam sua vida colonial normal, usando seu status social e profissional para alimentar com informações valiosas a causa dos revolucionários. Townsend, por exemplo, era um comerciante que dirigia uma loja de café local, e outro membro do Culper Ring, Hercules Mulligan (que ganhou notoriedade recente como um personagem no musical Hamilton), foi um alfaiate para oficiais militares britânicos.
É importante notar também que muitas mulheres contribuíram para as atividades de inteligência de Washington. Mulheres como Anna Strong, que desenvolveu um "código de varal", foram fundamentais para o sucesso das operações de inteligência. Uma mulher, que morreu na prisão, ainda é conhecida pela História como Agente 355.

Cópia de página do Culper Code Book, que
ajudou a manter várias ações  militares
e informações ocultas dos britânicos.
Arquivo Nacional.
Grande parte das técnicas que nós associamos hoje à espionagem - "dead drops" (pontos para troca de dados), mensagens cifradas, nomes de código - todos eles foram usados ​​pelo Culper Ring. Em particular, Washington estava interessado em ter uma maneira de enviar mensagens com segurança. Uma dessas maneiras era tinta invisível.
Algumas tintas invisíveis anteriores eram de natureza ácida e sutilmente alteravam as fibras do papel para que o receptor pudesse lê-lo sob calor. Washington queria algo mais seguro, e contratou James Jay, um médico na Inglaterra e irmão do patriota John Jay, para desenvolver uma nova "mancha simpática".
Uma mancha simpática é uma escrita feita com um produto químico e revelada por outro. Se alguém recebeu uma carta incluindo mensagens secretas, usaria este produto químico secreto para aplicá-lo na carta para revelar o texto oculto.
Alguns no Culper Ring acreditavam que os britânicos também conheciam o produto químico para revelar essa mancha simpática. Assim, os espiões desenvolveram um Livro de Código Culper, onde números substituíam nomes de várias pessoas, lugares e ações. Por exemplo, 727 era a cidade de Nova York. E o agente 711? O próprio Washington.
As táticas de Washington foram excelentes para aquela época, mas o que realmente ganhou a guerra foi a sua capacidade de enganar os britânicos. Uma das táticas mais eficazes para o nosso jovem Exército Revolucionário era o que agora chamamos de Contra-Informação ("decepção militar", ou MILDEC, em inglês). Washington sabia que suas cartas eram muitas vezes, se não sempre, interceptadas. Em vez de mudar táticas o tempo todo, muitas vezes ele aproveitou a oportunidade para plantar algumas informações falsas.
Às vezes, ele exagerava o efetivo de tropas em mensagens que sabia que provavelmente seriam interceptadas. Ele foi mais longe, a ponto de colocar, às vezes, ordens de fornecimento totalmente falsas para fazer os britânicos acreditarem que as forças americanas estavam se preparando para atacar, ou que estavam sendo construídos acampamentos inteiros em locais-chave.
A rendição de Cornwallis a Washington em Yorktown. Os esforços militares e de inteligência de Washington levaram os Patriotas à vitória, ganhando os Estados Unidos a sua independência da Inglaterra.
Pintura por John Trumbull. A pintura está atualmente na exposição no Capitólio dos EU.
A Contra Infomação foi uma parte importante no conflito decisivo da guerra, a Batalha de Yorktown. Washington fez tudo parecer como se os patriotas estivessem planejando atacar a cidade de Nova York, quando, na realidade, os americanos e os franceses objetivavam Yorktown e a baía de Chesapeake. Washington construiu falsos "acampamentos" fora da cidade de Nova York e quando "seus planos de se mudar para a cidade inadvertidamente caíram em mãos erradas", o mal preparado efetivo do Exército Britânico que ocupava Yorktown foi subjugado por um Exército Continental com o dobro do seu tamanho.
O resto, como dizem, é história.
Mas isso não é realmente o fim da história. Após assumir, o Presidente Washington definiu o primeiro Orçamento para a Inteligência da nova nação. Depois de três anos no cargo, o fundo cresceu para US $ 1 milhão. Isso não parece muito agora, mas era 12% do orçamento do governo na época.
O Orçamento também podia ser mantido em segredo do Congresso para proteger as missões realizadas pelo Poder Executivo (hoje nossas principais informações sobre o Orçamento de Inteligência são de conhecimento público). Este investimento seria indispensável para futuros presidentes. Pouco depois da criação do fundo, os sucessores de Washington, Presidentes Thomas Jefferson e James Madison, usaram o fundo para missões internacionais secretas visando promover os interesses dos EUA.
A confiança de Washington no poder da boa Inteligência levou nossa jovem nação para o sucesso militar e diplomático. Enquanto o público em geral pode estar menos familiarizado com a história de George Washington como o primeiro espião da nação, a Comunidade de Inteligência dos EUA ainda honra este importante aspecto do legado do nosso primeiro presidente, com o Prêmio George Washington Spymaster.
Concedido aos Profissionais da carreira de Inteligência cuja "liderança visionária, contribuições inestimáveis ​​e realizações incomparáveis ​​revolucionaram a CI e executaram fundamentalmente Operações de Inteligência para garantir a preservação de nossa segurança nacional", o Prêmio George Washington Spymaster é a maior honra entregue pela Comunidade de Inteligência dos EUA .
O Prêmio George Washington Spymaster em suas diversas formas: de cima para baixo, barreta para uniforme, pin para lapela, miniatura da medalha, e medalha.  Embora o centro pareça a bandeira do DC, foi na verdade Washington, DC, que adotou o brasão da família de Washington.
A medalha em si é um tributo a George Washington. A bússola que forma a peça central da medalha é o símbolo adotado da Comunidade de Inteligência. Dentro dela, o brasão da família de Washington. O azul significa a fidelidade do Anel Spy Culper, e a prata representa a avaliação da verdade.
Embora não esteja visível aqui, a parte traseira contém uma inscrição adotada do lema da família de Washington: "Exitu Acta Probat". Traduzido, significa "Os fins justificam os meios". Washington adicionou-o ao brasão para homenagear o papel da Inteligência na Guerra Revolucionária.
A medalha exibe um Grifo saindo da coroa (coronet), usado no escudo de Washington durante toda sua vida. O Grifo simboliza sabedoria, vingança e força.
Como aconteceu com os membros do Anel Culper, a natureza de muitas das realizações de nossos Spymasters, como a famosa Agente 355, o público em geral nunca saberá seus nomes.
Mas há uma mulher cujas contribuições para a Comunidade de Inteligência não permanecerá em segredo. É a recente ganhadora do Spymaster, Stephanie O'Sullivan, Diretora-Adjunta da Inteligência Nacional recentemente aposentada.
Ela iniciou sua carreira como "garota-prodígio" técnica, formou-se engenheira civil e construiu diversas plataformas de pesquisa para a comunidade de inteligência - a maioria dos quais ainda está altamente classificada e compartimentada, a ponto de muitas pessoas credenciadas nem saberem sobre elas. O'Sullivan se aposentou em janeiro, mas seu legado de proficiência técnica e liderança pessoal permanece.
Sua carreira se estendeu do Escritório de Inteligência Naval sendo promovida nas fileiras da CIA até ser Diretora de Ciência e Tecnologia e, em seguida, alçada ao terceiro cargo na hierarquia: Diretor Adjunto Associado. Ela foi então aproveitada para se tornar a segunda maior profissional de Inteligência do país, tornando-a a mulher de mais alto escalão da Comunidade de Inteligência dos EUA.
O Diretor de Inteligência Nacional James Clapper condecora formalmente a então Diretora Adjunta da Inteligência Nacional Stephanie O'Sullivan com o Prêmio George Washington Spymaster em 13 Dez 2016.
No seu diploma do Prêmio de Spymaster se lê, "Senhora O'Sullivan pessoalmente guiou os esforços da Comunidade de Inteligência para um ambiente integrado de tecnologia da informação e avançou na pesquisa, desenvolvimento e implantação de sistemas de coleta de ponta." Essas tecnologias mudaram a maneira de agir da CI.
"A necessidade de obter boa inteligência é aparente", escreveu Washington em uma carta em 1777. "... Sobre o sigilo, o sucesso depende dele na maioria das empreendimentos, e por falta dele, geralmente ocorrem derrotas".
Embora a Comunidade de Inteligência tenha mudado desde a época de George Washington, mantivemos a sua constante aposta na melhoria dos métodos para obter a melhor informação possível, proteger o nosso povo e permitir que os nossos líderes nacionais tomem as decisões mais embasadas no interesse da segurança dos nossos cidadãos.
Fonte:  tradução livre de Office of the DNI
COMENTO:  Texto sobre o feriado de ontem nos EUA. A linguagem na segunda pessoa do plural ocorre por ser uma tradução de redação feita por uma entidade norte americana.