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quarta-feira, 5 de junho de 2019

O Exército de Todos Nós

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por Sérgio Pinto Monteiro*
Era 15 de fevereiro de 1630 e o nordeste brasileiro começava a viver o pesadelo da invasão dos holandeses da Companhia das Índias Ocidentais. Naquele dia, a cidade de Recife acordou sob o bombardeio da esquadra do Almirante Hendrick Loncq, formada por 50 navios e 7.000 homens. Começava a segunda tentativa dos batavos de se apossar do território brasileiro. Seis anos antes, em 8 de maio de 1624, atacaram e ocuparam Salvador. A reação luso-brasileira, apoiada pela população, não se fez esperar. Militarmente inferiorizadas, nossas forças reagiram com uma intensa guerra de emboscadas. A metrópole portuguesa, com o apoio da Espanha, mandou ao Brasil uma poderosa esquadra de 52 navios e 12.000 homens, entre soldados e marinheiros portugueses e espanhóis, que expulsaram os holandeses da Bahia em 30 de abril de 1625, menos de um ano após o início da ocupação.
Cinco anos decorridos da derrota em solo baiano, a posição estratégica de Recife, a excelência de seu porto natural, a proximidade da Europa e da África e as fracas defesas locais, proporcionaram ao invasor as condições favoráveis a uma nova e vitoriosa campanha, colocando, por 24 anos, parte do nordeste brasileiro sob o domínio holandês.
Os pernambucanos resistiram ao invasor e contra ele lutaram bravamente. Matias de Albuquerque proclamou para toda a Capitania a disposição de lutar até a morte. O inimigo, após conquistar Recife e Olinda, tratou de fortificar suas posições. Como na Bahia, nossa resistência era baseada, principalmente, em emboscadas. Hoje, diríamos que seriam ações de comandos e forças especiais. Construímos, em local estratégico, como baluarte para impedir a penetração do adversário no interior, a fortificação do Arraial do Bom Jesus, que resistiu por cinco anos às investidas dos batavos.
No dia 23 de maio de 1645, dezoito líderes da Insurreição Pernambucana assinaram um Termo Compromisso onde, pela vez primeira em documento, se usava a palavra pátria, no seu sentido atual. Há também, no Compromisso, providências que hoje seriam consideradas como mobilização de Reservas:
“Nós abaixo assinados nos conjuramos e prometemos em serviço da liberdade, não faltar a todo o tempo que for necessário, com toda ajuda de fazendas e de pessoas, contra qualquer inimigo, em restauração da nossa pátria; para o que nos obrigamos a manter todo o segredo que nisto convém...”.
Estava criado, segundo o mestre Capistrano de Abreu, o sentimento da existência nacional brasileira, que iria se fortalecer ao longo dos próximos dois séculos, até a Independência em 1822. 
Paralelamente, surgia, consolidado, o Exército de Patriotas, formado pela fusão das três etnias  branca, negra e índia  com suas miscigenações. Nascia o Exército Brasileiro, democracia multirracial, sem discriminações nem preconceitos, sem cotas, numa pluralidade étnica e social unida pela alma de combatente do nosso soldado.
Em 18 de abril de 1648, o exército holandês com 7.400 homens marchou no sentido Barreta-Guararapes, tendo como objetivo final apoderar-se do cabo de Santo Agostinho. O exército patriota, com 2.200 homens, deslocou-se para interceptar o invasor. O Sargento-mor Antônio Dias Cardoso, como “soldado mais prático e experiente” sugeriu que o melhor campo de batalha seria o Boqueirão dos Guararapes. Na manhã de 19 de abril, primeiro domingo após a páscoa (pascoela), dia de Nossa Senhora dos Prazeres, Dias Cardoso, no comando de 200 homens, investiu contra a vanguarda inimiga para, em seguida, retrair em direção ao interior do Boqueirão onde o restante do nosso exército estava escondido, pronto para a batalha. Ao comando de “ás de espadas” os patriotas se lançaram sobre o inimigo. O terço (regimento) de Pernambuco, comandado por João Fernandes Vieira, auxiliado por Dias Cardoso, rompeu o inimigo nos alagados; os índios de Felipe Camarão assaltaram a ala direita dos holandeses; o terço dos negros de Henrique Dias atacou a ala esquerda, ficando as tropas de Vidal de Negreiros em reserva. Os batavos contra-atacaram com suas reservas de 1.200 homens, enquadrando o terço de Henrique Dias. Os patriotas, habilmente, lançaram a reserva de Vidal de Negreiros no momento adequado. Foram 4 horas de confronto, entre alagados e morros. Ao final, o exército holandês, derrotado, retirou-se com pesadas perdas  1.038 combatentes entre mortos e feridos. Já os patriotas, tiveram 84 mortos e 400 feridos.
A batalha final que culminou com a derrota e expulsão do invasor holandês ocorreu em 14 de janeiro de 1654, quando o exército patriota atacou o último reduto inimigo em Recife. Após dez dias de combates, a cidade foi reconquistada. No dia 26 de janeiro, na Campina da Taborda, os holandeses assinaram a rendição e retiraram todas as suas forças do Brasil. As vitórias nas Batalhas dos Guararapes uniram, no nascedouro, os conceitos de pátria e exército. E o dia da primeira vitória  19 de abril de 1648  por decreto presidencial de 24 de março de 1994, foi escolhido para Dia do Exército.
Em 19 de abril, decorridos 371 anos da primeira vitória que culminou com a expulsão do invasor holandês, o Exército Brasileiro  instituição detentora dos maiores índices de confiabilidade do nosso povo  comemorou a sua data de origem, num momento em que a nação vivencia tempos de mudanças, onde o cidadão de bem, estarrecido, constata que, nos últimos anos, o nosso país foi vilipendiado por maus compatriotas que, durante o dia ludibriaram o povo em nome de uma falsa democracia para, na calada da noite, tramarem contra ela e assaltarem os cofres da nação. As últimas eleições revelaram, claramente, que a sociedade nacional despertou de um longo pesadelo. O resultado das urnas evidenciou que a população clama por novos rumos, onde prevaleçam os princípios, tradições e valores que forjaram a nacionalidade e a HONESTIDADE, COMPETÊNCIA e JUSTIÇA sejam dominantes nos poderes da república. O Brasil não é um reduto de traidores, corruptos, incapazes e sectários. Somos um povo simples, bondoso, às vezes até meio ingênuo, mas profundamente patriota e sempre pronto a defender a grandeza e a soberania da nação. Novas e importantes lideranças estão surgindo. E a ESPERANÇA de um país renovado brilha, novamente, no horizonte da Pátria.
As Forças Armadas, por sua gloriosa história e elevada envergadura moral, são hoje o sustentáculo de melhores tempos. O Dia do Exército foi comemorado condignamente nas organizações militares. Mas a data que lembra as vitórias de Guararapes e a epopeia daquele punhado de bravos, não foram destaques numa parcela da mídia que, comprometida ideologicamente ou movida por interesses escusos, mantém uma postura hostil aos militares. Felizmente, as redes sociais são hoje um fortíssimo instrumento de revelação da vontade popular. E lá vimos as mensagens de cumprimentos da população ao Exército de todos nós.
PARABÉNS, MEU INVENCÍVEL EXÉRCITO!
*o autor é historiador, oficial R/2 do Exército Brasileiro, Patrono do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva, Presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis.
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sexta-feira, 10 de maio de 2019

Dia da Cavalaria

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Para um povo que não valoriza sua Historia.
por Carlos Alberto Bastos Moreira
Cada americano conhece o Álamo. Por aqui, é-se apenas capaz de saber a escalação da seleção brasileira em 195... ou da Escola Samba vencedora em ....
Era ele um jovem de dezesseis anos e já estava no bojo da Historia. Totalmente diferente de quem rebola a bunda em bailes funks, nessa idade.
Um Alferes de Cavalaria, no Passo do Rosário (lá na BR tem a indicação do lugar). Em feroz luta contra os castelhanos que queriam reivindicar aquela parcela do território, o Alferes tem seu pelotão dizimado numa emboscada. 
E abre o galope na pampa, para salvar a própria vida, depois de ter lutado o que podia ser lutado. 
Tem apenas 16 anos.
Dois gaúchos argentinos lhe partem ao encalço, para a degola. 
E o jovem galopa, galopa, perseguido cada vez mais de perto pelos dois machos criados... É só o verde da pampa e resfolegar de cavalos. Coração no máximo...
Um dos perseguidores lhe joga uma boleadeira, da qual o jovem consegue desviar o cavalo. Mas vai ser alcançado em breve...
Então decide tudo ou nada: 
De súbito estaqueia o cavalo e faz meia volta. Com um tiro de pistola na cara do oponente, recebe o primeiro, o qual tomba na relva. E o segundo já lhe vem por cima. Com o cano da pistola (um só tiro) se defende do violento golpe de sabre que lhe é desferido e, em seguida, fende o cranio do inimigo com a coronha da pistola descarregada.... 
Dois cavalos correm soltos pela Pampa... 
O menino de 16 anos ainda está assustado por tudo que passou... Ele está sozinho ainda. Aguardará a noite para, ao passo silencioso do cavalo, tentar retornar para o seu Esquadrão. Ainda sera General e estará presente em campo na maior batalha das America - Tuiuti. 
E ainda vai levar um tiro no maxilar, em meio a tormenta chuvosa que se desencadeou na batalha de Avaí. Amarrou o queixo caído com um lenço e ficou em campo, para não desestimular seus homens. Sofreu muito com posteriores cirurgia... 
Eu acho que esse país não lhe merecia. Que os jovens brinquem de skate ou brinquem de comunistas avançados. Que brinquem de serem bichas escandalosas... De corruptos, de Bolivarianos. Certamente Osório está bem longe.
C.A.B.Moreira 
(aquele a quem o conhecimento traz as alegria que compensa o sofrimento produzido pela percepção de estar cercado pela turba ignara, sejam analfabetos ou "doutores ")
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domingo, 24 de fevereiro de 2019

A Tomada de La Serra: 74 Anos

por Sérgio Pinto Monteiro*
Há setenta e quatro anos um pelotão do Regimento Sampaio escreveu, nos campos de batalha da Itália, páginas gloriosas da história da Força Expedicionária Brasileira. Seu comandante era o Primeiro-Tenente da reserva convocado Apollo Miguel Rezk.
Apollo nasceu no Rio de Janeiro em 09 de fevereiro de 1918. Era filho de imigrantes: pai libanês e mãe síria. Fez seus estudos no Colégio Pedro II. Em 1935 tentou, sem êxito, entrar para a Escola Militar do Realengo. Seus pés planos e uma reprovação em Física impediram a realização do sonho de ingressar na carreira militar.
A idade de prestação do serviço militar obrigatório conduziu o jovem Apollo ao CPOR do Rio de Janeiro. Aprovado nos exames médico, físico e intelectual, após os três anos do curso do CPOR foi declarado Aspirante a Oficial da Reserva e classificado em 10º lugar entre os setenta concludentes da Arma de Infantaria, turma de 1939.
Em 1940 formou-se Perito-Contador na Escola Superior de Comércio do Rio de Janeiro. No ano seguinte foi convocado para realizar o Estágio de Instrução no Regimento Sampaio, promovido a Segundo-Tenente e desligado do serviço ativo do Exército. Em 1942 foi convocado para o Estágio de Serviço, novamente no Regimento Sampaio. Estudioso, concluiu em 1943 o bacharelado em Ciências Econômicas na Faculdade de Administração e Finanças da Escola de Comércio do Rio de Janeiro.
Ainda nesse ano foi promovido a Primeiro-Tenente e convocado para a Força Expedicionária Brasileira, em fase de formação e adestramento.
Apollo embarcou para a Itália como oficial subalterno, Comandante de pelotão da 6ª Companhia do II Batalhão do Regimento Sampaio. O 2º escalão da FEB seguiu para o Teatro de Operações no navio transporte de tropas americano “U.S. General W. A. Mann”, que partiu do armazém nº 11 do porto do Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1944, ancorando em Nápoles no dia 06 de outubro.
Na noite de 23 e madrugada de 24 de fevereiro de 1945, atuando em apoio à 10ª Divisão de Montanha americana no ataque a La Serra, o pelotão comandado pelo tenente Apollo, após ultrapassar um extenso campo minado, atacou as posições fortificadas alemãs. Apesar do intenso fogo inimigo, o pelotão Apollo cercou o objetivo, investiu contra a posição e pôs em fuga os alemães, fazendo cinco prisioneiros. Ferido em combate por volta das 23 horas, o tenente Apollo, cercado e contra-atacado, manteve a posição durante toda a madrugada e manhã do dia 24.

19.05.45 – Ten Apollo, único brasileiro 
agraciado com a Cruz de Serviços Notáveis,
 dos  EUA, é condecorado pelo
Gen Truscott – Alessandria, Itália.
Por esta missão foi condecorado pelo governo americano, em 19 de maio de 1945, com a “Distinguished-Service Cross”, único brasileiro agraciado com essa importante medalha de bravura:
“... por heroísmo extraordinário ... a despeito de campos de minas desconhecidos, terreno excessivamente difícil e forte oposição, o Primeiro-Tenente Rezk conduziu galhardamente os seus homens através de uma cortina de fogo de metralhadoras, morteiros e artilharia, para assaltar e arrebatar o objetivo do inimigo. Embora gravemente ferido quando dirigia o ataque, o Primeiro-Tenente Rezk nunca hesitou: pelo contrário, continuou firmemente o avanço ... repeliu três fortes contra-ataques, infligindo pesadas perdas aos alemães pela sua habilidade na condução do tiro. Depois, embora em posição vulnerável ao fogo das casamatas do inimigo circundante e a despeito das bombas que caiam e da gravidade dos seus ferimentos, o Primeiro-Tenente Rezk defendeu resolutamente La Serra contra todas as tentativas fanáticas dos alemães para retomar a posição. Pelo seu heroísmo, comando inspirado e persistente coragem, o Primeiro-Tenente Rezk praticou feitos que refletem as mais altas tradições do serviço militar.”
(tradução de trechos do documento original em inglês feita pela Seção Especial do Comando da FEB).
O comandante da FEB, General João Baptista Mascarenhas de Moraes, em Citação de Combate de 09 de abril de 1945, assim se manifestou quanto às ações do tenente Apollo na conquista de La Serra:
“... a personalidade forte, o espírito de sacrifício, a combatividade, a tenacidade, o destemor do tenente Apollo constituem belos exemplos, dignos da tropa brasileira.”
30.03.45 - Ten Apollo recebe a "Silver Star" 
do Cmt do V Exército americano, Gen Lucian 
Truscott, Lizano de Belvedere – Itália.
Anteriormente, graças ao seu desempenho no ataque a Monte Castelo em 12 de dezembro de 1944, o Tenente Apollo já havia sido agraciado pelos Estados Unidos com a medalha “Silver Star”. Terminada a Campanha da Itália, o Tenente Apollo recebeu quatro condecorações brasileiras: Cruz de Combate de 1ª Classe, Medalha de Sangue, Medalha de Campanha e Medalha de Guerra.
Quando da promoção do Tenente Apollo ao posto de Capitão, em 03 de setembro de 1951, assim se expressou o Ministro da Guerra no despacho em que deferiu a proposta:
“Deferido. A promoção se justifica, sobretudo, em virtude da conduta excepcional desse Oficial no Teatro de Operações da Itália, onde, entre diversas condecorações recebidas por bravura, lhe foi conferida a medalha “Distinguished-Service Cross” do Exército Americano, por heroísmo extraordinário em ação, distinção máxima somente concedida a este combatente brasileiro...”.
O destino, que no passado não permitira ao jovem Apollo a realização do sonho de ingressar na carreira militar através da Escola do Realengo, ainda haveria de, novamente, pregar-lhe outra peça. A tão sonhada carreira, que finalmente lhe chegara não pela via da Escola Militar, mas através do CPOR e da própria guerra, como também, e principalmente, por sua bravura e eficácia no cumprimento do dever, seria interrompida precocemente. 
Seus pés planos não resistiram ao esforço do combate e ao congelamento nas trincheiras da Itália. O Capitão Apollo, em 12 de dezembro de 1957, aos 39 anos, depois de vinte anos no exército, foi julgado inapto para o serviço ativo e reformado no posto de Major.
Conheci o nosso herói já no ocaso de sua vida. Era um bravo. Foram muitos sábados e domingos de intermináveis conversas. Jamais o Major Apollo admitiu o seu heroísmo. Pessoa simples, culta e educada era, sobretudo, um gentleman. Absorvi, voraz e intensamente, cada relato de suas ações na guerra. O Exército era realmente a sua paixão. E a Pátria, o seu bem maior. Ficamos amigos, o que me enche de orgulho e gratidão.
A nação, na tristeza daquele 21 de janeiro de 1999, perdeu um filho exemplar. E o Exército viu partir um de seus grandes guerreiros. A filha Nádia comunicou-me o falecimento do pai pela manhã, bem cedo. Desloquei-me rapidamente para a sede do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva, no quartel do CPOR/RJ, de onde fiz os contatos relativos ao passamento do Major Apollo. Enviei um necrológio aos jornais, avisei ao CComSEx, aos comandantes do Regimento Sampaio e do Batalhão de Guardas - onde ele servira no após guerra - bem como à Embaixada dos Estados Unidos, já que era ele detentor de duas condecorações americanas. Informei, também, à Comunicação Social da Presidência da República e aos governos estadual e municipal do Rio de Janeiro.
O sepultamento foi no cemitério do Caju. Presentes, familiares, ex-combatentes da FEB e amigos do nosso herói, bem como quase uma centena de oficiais R/2. Um pelotão do Regimento Sampaio executou as honras fúnebres. O governo americano enviou, de Brasília, um oficial superior, fardado, para representá-lo. Os governos federal, estadual e municipal não enviaram representantes, nem formularam condolências à família enlutada. Jamais esquecerei o constrangimento que senti ao ouvir o Oficial americano dizer aos filhos do major Apollo:
“Eu não entendo vocês brasileiros. Na minha terra, alguém com as importantes condecorações de guerra do Major Apollo, teria recebido, ao longo de sua vida, as homenagens, o respeito e a gratidão do seu povo.”
Na tristeza daquele momento, assumi, intimamente, o compromisso - como missão - de divulgar a história do Major Apollo. Nesses dezenove anos desde o seu falecimento, tenho viajado pelo nosso país ministrando palestras - nos meios militar e civil - relatando os seus atos de bravura e heroísmo. O meu livro “O Resgate do Tenente Apollo”, escrito em parceria com o tenente Orlando Frizanco, terá a 2ª edição publicada ainda este ano. Há, também, disponível, embora não biográfico, o livro do tenente Luiz Mergulhão “Major Apollo Miguel Rezk: O Herói Esquecido”. O Conselho Nacional de Oficiais da Reserva criou a Medalha Major Apollo Miguel Rezk, para homenagear personalidades que se destaquem no apoio aos oficiais da reserva.


Revista Manchete - Ed 2426 - 03 Out 1998
Um dos desejos não realizados do herói era ser promovido a Tenente-Coronel, a exemplo de alguns de seus companheiros que obtiveram a promoção por via judicial. Quem sabe o Exército Brasileiro, ou mesmo o Congresso Nacional, lhe concedam, ainda que tardiamente, essa honraria, como derradeira homenagem póstuma, já que em vida não logrou recebê-la sob a forma de promoção por bravura, o que teria sido, inquestionavelmente, um ato de inteira justiça.
Os feitos do Tenente Apollo ultrapassaram os limites de sua existência física. Na verdade, já não mais lhe pertenciam quando, naquela madrugada de 21 de janeiro de 1999 foi vencido pelo inexorável. São episódios gloriosos da história militar de um país que teima em não cultuar seus heróis.
A Força Expedicionária Brasileira - e seus bravos - não pode ser esquecida. Ela simboliza a pujança e o valor de um povo. A nação lhe deve eterno respeito e imorredoura gratidão.
*o autor é historiador, Oficial da Reserva do Exército, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis. É presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB. É fundador e ex-presidente do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva - CNOR.
Fonte:  Informativo O Tuiuti nº 278-Jun-2018,
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

AI-5 - 50 Anos de Uma Atitude Drástica Necessária

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Após a deposição de João Goulart pela Contrarrevolução de 31 Mar 64, os maus brasileiros  que já se sentiam vitoriosos na empreitada iniciada em 1935  viram mais uma vez seus planos irem por água abaixo. Imaginemos a decepção de gente como  Luiz Carlos Prestes, o dirigente do PCB que alguns dias antes havia afirmado que “Já estamos no poder, embora ainda não tenhamos o governo nas mãos”.
Assim, movidos pela crença doentia no socialismo, os dirigentes comunistas não desanimaram e passaram a insuflar os militantes mais jovens, para que enfrentassem uma luta fratricida e suicida, tentando recuperar o terreno perdido mais uma vez.
Essa reação, desesperada e criminosa, se deu por meio de atos de terrorismo praticados por militantes treinados e financiados por Cuba desde o final dos anos 50 e organizados desde o início da década de 60  vide, dentre outros mecanismos montados em plena vigência da democracia, os "Grupos dos Onze", organizados por Leonel Brizola em 1963  fato comprovado conforme narrado ao final de uma postagem antiga deste blog.
Tais atos terroristas desenvolveram-se em uma sequência de crescente violência, dos quais salientamos alguns:
19 Jul 1964 — uma bomba jogada pela madrugada contra as Mercearias Nacionais, em Pilares, Guanabara, fere o comerciante Antônio Monteiro.
12 Nov 1964  — explosão de uma bomba no cinema Bruni, na praia do Flamengo, Rio de Janeiro, em protesto contra a aprovação da Lei Suplicy, que extinguiu a UNE e a UBES, provoca seis feridos graves e a morte do vigia Paulo Macena. Na véspera, outra explosão havia ocorrido na Faculdade de Direito, sem causar feridos. 
— 28 Nov 1964  tentativa, frustrada, de descarrilamento de um trem, em Sete Lagoas, Minas Gerais.
— 1º Dez 1964 — explosão no sistema de refrigeração do Cine São Bento, em Niterói.
22 Abr 1965  — atentado à bomba contra o jornal "O Estado de São Paulo".
22 Set 1965 — duas bombas explodem na Sala dos Pregões da Bolsa de Valores, ferindo dez pessoas.
31 Abr 1966 duas bombas explodem no Recife. A primeira na sede do DCT (Correios e Telégrafos) feriu duas pessoas, e a segunda na residência do então comandante do IV Exército, general Damasceno Portugal.
25 Jul 1966 — atentado à bomba no Aeroporto dos Guararapes, em Recife, contra o general Costa e Silva, no qual morreram o Almirante Nelson Gomes Fernandes e o jornalista Edson Régis de Carvalho e causando mutilações em diversas pessoas, dentre elas o Tenente-Coronel Sylvio Ferreira da Silva, e Sebastião Tomaz de Aquino, Guarda Civil que teve a perna direita amputada.
1º Ago 1966 — explosão de uma bomba no cinema Itajubá, em Santos.
26 Ago 1966 — explosão de uma bomba no teatro Guaíra, em Curitiba.
2 Ago 1967 — explosão de uma bomba na sede do Corpo da Paz, entidade americana, na praia do Russel, Rio de Janeiro, ferindo Ruy Ribeiro, que teve uma das mãos amputada; e as norte-americanas Helen Keln e Patrícia Yander gravemente atingidas, com vários estilhaços nos corpos.
24 Nov 1967 — ocorre o que é considerada a primeira ação terrorista seletiva da ALN: em Presidente Epitácio é assassinado o fazendeiro - Zé Dico - por Edmur Péricles de Camargo, vulgo "Gauchão". O crime, que também teve a participação de Demerval Pinheiro dos Santos e outros 17 "posseiros", e ocorreu na Fazenda Bandeirantes por ordem de Rolando Frate, líder do PCB, em função da resistência que o fazendeiro exercia contra o "movimento camponês" da região. O relato do planejamento e execução do crime foi publicado na Folha de São Paulo, em 1970.
15 Dez 1967  É assassinado o bancário Osiris Motta Marcondes, gerente do Banco Mercantil de São Paulo, durante assalto de terroristas à agência.
15 Mar 1968 — atentado à bomba contra o Consulado americano em São Paulo, com dois feridos. Um deles, o estudante Orlando Lovecchio Filho, de 22 anos, perdeu uma perna e até hoje não conseguiu receber a indenização que pleiteia, diferente do que tem ocorrido com quase todos os terroristas beneficiados pela anistia.
10 Abr 1968 — Explosão à dinamite no QG da Polícia Militar, na Praça Fernando Prestes, em São Paulo.
15 Abr 1968 — Lançamento de bombas contra o antigo QG do II Exército/SP, na rua Conselheiro Crispiniano, próximo ao gabinete do então Comandante, General Sizeno Sarmento. Os petardos, embrulhados em folhas de jornais, feriram uma telefonista de uma loja vizinha e um rapaz que tentou apagar o pavio da bomba com um balde de água.
20 Abr 1968 — Novo atentado à bomba contra o jornal "Estado de S. Paulo". Destruiu a fachada do prédio. O porteiro Mário José Rodrigues ficou gravemente ferido. Prédios vizinhos foram danificados pela explosão. A bomba arremessou longe um veículo que passava pelo local (ferindo também duas pessoas). A sucursal do jornal O Globo, localizada no 19° andar de um prédio em frente, também sofreu danos.
15 Mai 1968 — Atentado à bomba contra a Bolsa de Valores em São Paulo.
18 Mai 1968 — Atentado à bomba contra o Consulado da França em São Paulo.
26 Jun 1968 — Atentado à bomba pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) contra o QG do II Exército, no qual morreu o soldado sentinela Mário Kozel Filho e ficaram gravemente feridos vários soldados da guarda.
1º Jul 1968 — É morto a tiros no Rio de Janeiro o major do Exército alemão Edward Ernest Tito von Westernhagem, cursando uma escola militar brasileira (ECEME), confundido com o capitão boliviano Gary Prado, suposto matador de Che Guevara. Crime do Comando de Libertação Nacional (COLINA).
19 Ago 1968 — Explosão simultânea de bombas em frente ao DOPS e a dois edifícios da Justiça Estadual de S. Paulo.
7 Set 1968 — Assassinato a tiros do soldado Eduardo Custódio de Souza, da PMSP, por terroristas, quando de sentinela no DEOPS/SP.
— 20 Set 1968 — É abatido a tiros o soldado da PMSP, Antônio Carlos Jeffery, quando de sentinela.
12 Out 1968 — Para assinalar um ano da morte de Guevara na Bolívia, é fuzilado pela VPR, na frente de sua mulher e filhos o capitão do Exército americano Charles Rodney Chandler, de 30 anos, estudante de uma universidade de São Paulo e veterano do Vietname, sob a falsa justificativa de ser agente da CIA.
7 Dez 1968 —  bomba de alto poder explosivo é colocada pela madrugada na agência do Correio da Manhã, no Edifício Marquês do Herval, Rio de Janeiro, destruindo as instalações e causando prejuízos calculados inicialmente em NCr$ 300 mil. O deslocamento de ar provocado pela bomba arrebentou vidraças de lojas e escritórios nos dez primeiros andares do prédio. Na agência, abriu uma cratera de mais de um metro de diâmetro, pondo os ferros da laje à mostra. Arrebentou ainda as esquadrias de alumínio, o mármore das paredes, o sistema de refrigeração e sua casa de máquinas. Todo o mobiliário foi danificado. A livraria, que funcionava no mesmo local, teve as suas vitrinas totalmente destruídas. O operário Edmundo dos Santos saiu gravemente ferido. Minutos antes, uma outra bomba explodiu na Faculdade de Ciências Medicas da UEG (Universidade do Estado da Guanabara), destruindo a biblioteca e parte do Diretório Acadêmico, na Avenida 28 de Setembro.
13 Dez 1968 — É editado o Ato Institucional nº 5 com a finalidade de fornecer ao governo os instrumentos necessários para combater o terrorismo e a guerrilha. 
A lista de crimes cometidos, acima relatada, é uma pequena mostra dos atos terroristas ocorridos de 1964 até as vésperas da emissão do AI-5. Outros atentados são elencados no Roitblog, abrangendo o período até 1969. Tomar conhecimento desses violentos delitos auxilia a entender quais foram as motivações que conduziram ao "endurecimento" da repressão ao terrorismo. Também, refuta a "justificativa" mentirosa e covarde, como soe ser qualquer explicação de comunistas, de que o terrorismo foi uma reação ao AI-5.
Na data que assinala meio século da publicação do tão mal falado AI-5, algumas reflexões precisam ser feitas de forma honesta.
Terá sido "pura maldade" dos governantes de então? Quais foram, realmente, os efeitos práticos dele e dos Atos Institucionais anteriores?
Para isto, recomendo a leitura deles. É fácil o acesso, basta clicar em Planalto.gov.br-64.
A começar pelo primeiro deles, cujo projeto foi feito, a pedido do Presidente Ranieri Mazzili, por uma comissão de oito parlamentares  Pedro Aleixo, Martins Rodrigues, Daniel Krieger, Bilac Pinto, Adauto Lúcio Cardoso, Paulo Sarazate, João Agripino e Ulysses Guimarães. Segundo o Senador Daniel Krieger, depois líder do governo do Presidente Costa e Silva: "A minha interferência restringiu-se a discordar do prazo de 15 anos, proposto à comissão por um de seus integrantes - Ulysses Guimarães". O projeto da Comissão foi substituído por outro elaborado pelos professores Francisco Campos e Carlos Medeiros, comenta Krieger: "Devo registrar, entretanto, que o redigido pelos citados parlamentares não era mais liberal do que o dos eminentes mestres." (Daniel Krieger, Desde as Missões - Saudades, Lutas, Esperanças - José Olympio - Rio de Janeiro, 1978 - 2º edição pág. 172). O fato, muito pouco conhecido, é relembrado pela Folha de São Paulo de 1º Mai 1989 (Política, Fl A7, "Há 60 anos Ulysses sonha em ser Presidente da República"); pelo Jornal do Brasil de 14 Out 1992, pág 8 (Do apoio ao Golpe de 1964 ao comando da resistência) e Jornal Inconfidência, ed 256, pág 23.
Verificando o teor dos Atos Institucionais, observamos que o objetivo das eleições indiretas eram simplesmente para completar o mandato interrompido. Inicialmente, foram previstas eleições presidenciais para outubro de 1965. As "garantias constitucionais" suspensas por seis meses eram as de "vitaliciedade e estabilidade", obviamente visando facilitar a exclusão de funcionários acusados de algum delito, ou seja, executar a necessária limpeza dos traidores do povo e corruptos instalados nos diversos cargos públicos.
Os Atos Institucionais que se seguiram, ocorreram em virtude do recrudescimento da oposição irracional e do terrorismo, e da necessidade de combater este último com a devida energia e fundamento legal.
Lendo o texto do AI-5 nos dias de hoje (e pouca gente faz isso) temos a nítida sensação de que algo parecido se faz necessário no Brasil atual!
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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Lucho, o Policial Que Aniquilou 19 Chefes das FARC


O agente da Polícia morreu de câncer.
Partiu com 14 condecorações e a gratidão de sua pátria.
 Luis Sierra em dois momentos de sua vida: internado na selva (dir.) e recebendo o Premio de melhor policial
 Foto:   Arquivo particular
Por Unidad Investigativa
A Polícia se prepara para render honras póstumas a Luis Eduardo Sierra Guerrero, o Subintendente (grau hierárquico superior aos Patrulheiros e subordinado aos Comissários) especialista em Inteligência que passou a metade de seus treze anos de carreira infiltrado nas FARC.
Aos 26 anos se internou na zona de Darién e do Urabá para localizar acampamentos, camuflar dispositivos de localização por satélites que permitir o Exército e a Força Aérea colombiana bombardear com precisão pelo menos quinze objetivos de alto valor da guerrilha.
Suas atuações foram retribuídas por dezenove citações elogiosas e quatorze Condecorações de seus superiores, que ele só podia receber durante os dias de descanso que tinha entre uma missão e outra.

Para se infiltrar nos bandos de ladrões de joalherias e de guerrilheiros, Sierra assumiu os papéis de indigente, serralheiro, fornecedor de víveres e até de pretendente da prima de um líder guerrilheiro.
“Quando alguém se infiltra tem que trocar o chip. Adeus família e adeus até a teu nome. Se não souberes manejar a situação, isto pode te custar a vida”, disse Sierra a El Tiempo há um mês, quando recebeu o Prêmio Coração Verde, como melhor policial da Colômbia.
Nessa ocasião, chegou à entrevista ajudado por uma bengala e admitiu que o prêmio revigorava seu desejo de viver, depois que foi diagnosticado com um câncer agressivo e terminal
Suas batalhas
Apesar da evidente deterioração física, Sierra conseguiu revelar ao país alguns episódios desconhecidos que ele e seus companheiros da Direção de Inteligência da Polícia (DIPOL) vivem para subjugarem a guerrilha e a outras organizações armadas à margem da lei.

Eles passam meses infiltrados na selva, sem contatar a família e até choram em silêncio. Mas depois que as operações são lançadas, o esforço vale a pena. Desarticulamos várias estruturas de guerrilha e apoiamos operações de  outras forças”, disse o Subintendente a El Tiempo.
Sierra nasceu em Manizales em 2 de maio de 1985 e cresceu no bairro Cervantes, que na época era um dos mais turbulentos da capital de Caldas.

Seus amigos contam que desde sua infância identificava e se acercava dos delinquentes da zona, como meio para proteger sua vida e a de sua família. 
Ingressou na Polícia em maio de 2004, com apenas 19 anos, no cargo de Auxiliar. Dois anos depois já era Patrulheiro de Vigilância no Departamento de Polícia do Valle.

Mas foi em 2007 que iniciou sua carreira na Inteligência Policial.
Nessa época, foi nomeado Investigador em Buenaventura, onde chegou até a dormir na rua, fazendo-se passar por indigente, com a finalidade de desarticular uma quadrilha de ladrões que assolavam o porto.
Urinei sobre uma roupa velha, deixei no sol, a coloquei e me caracterizei como mendigo para executar minha primeira missão como membro de Inteligência da Polícia Nacional: capturar uma quadrilha de assaltantes que roubava joalherias e casas de penhores em Buenaventura. Depois de dormir varias noites na rua e fingir que consumia alucinógenos, tivemos sucesso, e meu Major pediu que me indicassem ao Grupo Especial de Inteligência de objetivos de alto valor das FARC”, contou Sierra a este diário.

E afirmou que, embora muitos não acreditem, foi difícil seduzir uma parente de um guerrilheiro a fim de localizar outros acampamentos na fronteira com o Panamá.
Lá, noivei com a prima de um dos chefes da segurança da guerrilha, em uma questão puramente estratégica. Foi difícil corteja-la e estar com ela. Eu tinha 27 anos, e ela era uma morena nove anos mais velha, e eu concebo o amor de uma maneira diferente. Foi incômodo, mas consegui até compartilhar um sancocho (ensopado típico) com o primo. Me convidaram até para as festas de fim de ano. Aguentei porque visávamos o chefe das FARC que manejava o narcotráfico da zona e a compra de armamento para quase todas as frentes guerrilheiras. E logramos captura-lo”, narrou.
Conforme seu currículo, Sierra participou de sete Operações chaves e classificadas como Secretas, que permitiram a eliminação de quinze chefes de bandos e capturar dezenove criminosos classificados como de "alto valor", inclusive um chefe das FARC que posteriormente compôs a delegação de paz dos guerrilheiros em Havana.
O Ocaso
Quando Sierra recebeu o reconhecimento como melhor policial da Colômbia, em 28 de setembro passado, já estava tomando uma dúzia de diferentes medicamentos diariamente, a maioria à base de morfina, para amenizar a dor.
E, ainda que tenha chegado altivo para receber o prêmio, uma semana depois confessou a El Tiempo que já havia perdido a mobilidade em 60% de seu corpo e que tinha que se deslocar usando uma cadeira de rodas.
O tumor de 19 por 14 centímetros, descoberto em 2016 em sua glândula suprarrenal direita, se converteu em seu pior inimigo. Apesar de ter sido retirado cirurgicamente, já havia feito metástases em seus pulmões, fígado, coluna e em outras cinco partes de seu corpo. E, mesmo que Sierra o tenha enfrentado bravamente, terminou levando-o.
O Diretor da Polícia, General Jorge Nieto, se encarregou de informar ao país que o valente Subintendente Sierra havia falecido.
Semanas antes de o internarem em uma clínica de Medellin, tudo estava pronto para que o promovessem a Intendente, um reconhecimento que a Instituição fará postumamente à sua família.
Creio firmemente em Deus e vou lutar por minha vida. Recebi o premio em nome dos 180.000 policiais bons que saem diariamente a arriscar suas vidas pela pátria”, disse em sua última entrevista.
Unidad Investigativa
u.investigativa@eltiempo.co
Twitter: @uinvestigativa
Fonte:  tradução livre de El Tiempo

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

EsSA - Concurso/2018 - CFS 2019/2020

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Passado o período de Exame Intelectual do Concurso aos Cursos de Formação de Sargentos do Exército Brasileiro que funcionarão em 2019 e 2020, podemos aqui manifestar alguns pontos de opinião, atualizando postagem feita em 2014.
De acordo com o edital publicado no Diário Oficial, são 1.070 vagas dividas nas áreas de aviação e geral, em que 910 são destinadas ao sexo masculino e 100, para o feminino; e, outras 60 são para área da Saúde, destinadas para técnicos de enfermagem. 
Com aproximadamente 94.000 candidatos inscritos no Concurso de Admissão 2018 aos Cursos de Formação de Sargentos 2019-20, a concorrência por área é a seguinte:
- 75 candidatos/vaga para a ÁREA Geral/Aviação (Masculino);
- 171 candidatos/vaga para a ÁREA Geral/Aviação (Feminino);
- 78 candidatos/vaga para a ÁREA Música; e,
- 93 candidatos/vaga para a ÁREA Saúde.

Uma demanda considerável, se comparada a outros concursos para cargos em função pública. 
Neste ano de 2018 houve um acréscimo de quase 100% de candidatos em relação a 2014, quando houve 48.173 candidatos confirmados.
Temos então que, apesar do esforço de algumas 'otoridades' - infelizmente com o apoio da grande mídia - em desmoralizar e desmotivar os profissionais das armas, a carreira militar continua a encantar nossos jovens que amam o Brasil e não temem sair de sob as asas dos seus pais.
Espero que entre os candidatos aprovados não haja quem espere "levar vantagem", pois se houver vai se decepcionar. A carreira castrense é para quem se sujeita a uma vida de sacrifícios com remuneração somente suficiente para a sobrevivência familiar.
Aos que tiverem sucesso nas provas, alguns pequenos esclarecimentos que não é costume serem feitos, mas que eu os faço previamente para que, mais tarde, não usem o argumento covarde de que não sabiam direito o que estavam fazendo:


- Diferentemente do que ocorre em Concursos para Cargos Públicos Civis, preparem-se para começar a "mostrar serviço" depois de frequentarem o Curso de Formação, quando começarem efetivamente sua carreira profissional; e isso vai continuar por 30 anos de serviço, no mínimo. É costume dizer que Sargentos devem provar a cada dia que são bons profissionais.
- Preparem-se, também, para permanecerem por sete ou oito anos na graduação de 3º Sargento, com vencimentos brutos mensais, após 01 Jan 2019, por volta de R$ 5.050,00. A isto podem ser agregados mais 10 ou 20% do soldo (R$ 382,50 ou R$ 765,00) se forem servir em regiões consideradas inóspitas.
- Preparem-se, ainda - também diferentemente das funções públicas civis -, para serem destinados para servir em qualquer parte do território nacional, independentemente dos interesses familiares (casa própria, emprego da esposa, curso universitário, doenças de pais, avós, sogros, etc).

- Depois do Curso, no exercício das funções de Sargento as condições profissionais continuarão difíceis (passar frio, cansaço, acampamentos em condições precárias, escalas de serviço apertadas - sem direito a recebimento de "horas extras" -, formaturas, exercícios físicos, "tempo zero" para estudos fora do EB, etc), acrescidas da responsabilidade de repassar seus conhecimentos, com os devidos cuidados de segurança, para seus subordinados (os Soldados incorporados anualmente para o Serviço Militar Inicial).
- Quanto aos aspectos financeiros, a cada promoção terão um acréscimo de 15 a 20% em seus vencimentos, chegando à graduação de Subtenente com o vencimento bruto, também a partir de 01 Jan 2019) valendo aproximadamente R$ 8.360,00.
Caso alcancem o oficialato, poderão chegar ao posto de Capitão, que terão vencimentos brutos, após 01 Jan 2019, por volta de R$ 14.700,00. Ao vislumbrar esses valores, a grosso modo, deve ser calculado o abatimento de cerca de 11%, a título de descontos obrigatórios para atendimentos de saúde e para o fundo que financiará, no futuro, a Pensão de sua viúva. Depois desse desconto, ainda tem que prestar contas com o famigerado e faminto Leão do Imposto de Renda.
- Os que não prestaram o Serviço Militar Inicial devem atentar para um detalhe importantíssimo: se acharem que as condições oferecidas durante o Curso de Formação não lhe agradaram, não insista. Se você teve capacidade para ser aprovado no Concurso do CFS, certamente tem capacidade para fazer outros concursos para atividades profissionais onde se sinta melhor. 
Se não gostou do Curso, não irá gostar do dia-a-dia da caserna, assim, busque sua felicidade seguindo outra carreira e não se torne um mau profissional (desmotivado, mal-humorado, dos que só enxergam motivos para reclamar e criticar, desagregador, sem disposição para consertar ou melhorar seu ambiente de trabalho).
- Aos que entenderem que podem passar seus dias dedicando-se às atividades castrenses, sejam bem vindos! Terão trinta e poucos anos de atividade profissional extremamente gratificante, em um ambiente que tem por característica principal a camaradagem!
Aproveito para citar cinco princípios a serem seguidos para um bom desempenho profissional:
- Conheça sua profissão (saiba qual seu papel na sociedade como profissional);
- Interesse-se por sua profissão (busque conhecimentos sobre como melhorar seu desempenho profissional);
- Conheça seus subordinados (identifique as características pessoais de cada um, a fim de melhor destinar missões, recompensas e sanções);
- Mantenha seus subordinados bem informados (só assim, eles poderão desenvolver sua iniciativa no sentido de melhor cumprir suas missões); e
- Interesse-se, verdadeiramente, pelo bem estar de seus subordinados.
Essas regras, que parecem simples, na realidade são difíceis de serem seguidas, pois são as que diferenciam os Líderes dos Chefes. E uma das principais características exigidas ao Sargento é ser Líder.
E sejam Sargentos, profissionais conscientes de pertencerem a uma das Instituições mais respeitadas por nossa população decente!

Imagens: "Futuro Sargento do EB"  no Facebook
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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Colômbia - Historias de Infiltrados no Crime - Parte 2/2

Um triunfo para a missão, mas uma derrota para o infiltrado
Em 22 de setembro de 2010 foi morto Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”, durante um bombardeio a seu acampamento em La Macarena, Meta. FOTO: Archivo
por Nelson Matta C. e Javier Alexánder Macías
Quando um servidor público atua como agente encoberto, sabe que está em jogo muito mais que o êxito de uma missão.
Entre as histórias de hoje, com que concluímos a postagem sobre os Infiltrados no Crime, a de um militar que terminou aleijado depois de estar 12 anos vivendo com o inimigo.
Nem sempre o Estado recompensa a esses agentes. A norma não distingue seu trabalho e, ao aposentar-se, recebem uma pensão igual a qualquer outro”, conta o especialista em segurança, Coronel (Res) John Marulanda.
Ele conclui que “a inteligência técnica tem um grande desenvolvimento, mas grupos irregulares, como guerrilhas ou o Estado Islâmico, se blindam usando sistemas antigos de comunicação, como cartas e mensageiros. Em troca, nem sempre logram detetar o trabalho da inteligência humana


O Capitão Que Ganhou a Confiança de Um Chefe das FARC
Em 13 de maio de 1996, Mejía(*), um Capitão especialista em infiltrar-se nas guerrilhas, recebeu a ordem que temeu por mais de seis meses: deveria internar-se nas selvas de Meta para buscar a quem na época se considerava como um dos comandantes mais temidos das FARC: Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”.
Mejía, acostumado a lidar com guerrilheiros rasos, não sabia como chegar até a região de El Borugo, uma localidade em Meta que servia de bastião ao comandante do Bloco Oriental, e onde mais tarde se instalariam as jaulas nas quais mantiveram os soldados e policiais sequestrados, imagens que deram volta ao mundo e mostraram o lado mais desumano de “Jojoy”.
Nesse dia fui para casa pensando em como chegar. ¿Que proposta levar a meus comandantes no outro dia para começar a infiltração? Me senti pressionado”, recorda o Capitão.
Essa noite se fez eterna pensando na missão. O sono o venceu pelas 3:30 a.m. e sentiu que o mundo se acabava. Atrás ficaria sua família, por um trabalho do qual nem sabia se poderia regressar.
Um vendedor de cacarecos
Em 13 de agosto de 1996 no parque de La Macarena, Meta, um sujeito com um carrinho de mão percorreu as vielas poeirentas desse município encravado no verdor da selva oriental colombiana. Eram umas duas da tarde e através de um megafone, sua voz oferecia todo tipo de coisas: “compre chinelos, compre sabão, potes para azeite...”.
Chegou vestido de “malandro”. “Me lembro que vesti uma camisa branca guayabera, uma calça café e mocassim. Nesse dia no armazém, eu os ensinei como fazer durar mais as baterias para os rádios”, relata.
Se enturmou no local com essa estória e outros truques de mecânica aprendidos no Exército. Ninguém entendia como nesse povoado afundado no abandono estatal, no qual se chegava por avião em viagens semanais, um antioquenho fosse vender objetos que se conseguia em qualquer esquina. Ele foi posto sob observação. A guerrilha vigiava cada passada de seu carrinho.
Comecei a ver que me seguiam e questionavam por que vendia coisas que eles tinham nessa vila afastada de tudo, então dei mais realismo ao meu trabalho e comecei a vender tênis e roupa que conseguia em Medellín e me chegavam por encomenda, com o avião, a cada duas semanas em La Macarena”.

Conta o Capitão Mejía que o negócio cresceu tanto, que até os guerrilheiros saíam dos acampamentos para comprar meias, roupa intima, calças e camisas para sair de vez em quando para tomar trago nas poucas cantinas que existiam no lugar. “Foi o melhor que me sucedeu, porque assim pude identificar quem era guerrilheiro e quem não era. Em muitas ocasiões eu os via com as camisas quadriculadas que lhes vendia. E dessa forma pude viajar até o acampamento do ‘Mono Jojoy’”.
“Pondo 'Jojoy' a estrear a camisa”
Quatro meses depois de chegar a La Macarena, o Capitão revelou seu nome de infiltrado. Disse a um guerrilheiro que foi busca-lo porque tinha uma razão especial. Seu comandante “Mono Jojoy” queria que “o paisa que vende camisas” lhe levasse uma em especial.
— “¿E como é que tu te chamas?”.
— “Iván Darío Pinzón”, respondeu o militar ao insurgente.
— “A cédula”, replicou o guerrilheiro.
— “Aqui está”, disse o Capitão.
Verificado o número de identidade, o subversivo soltou a pérola esperada por quatro meses:
— “O Mono quer duas camisetas, uma número 24 e outra 31. E uma garrafa de uísque e duas galinhas. Será que tu podes conseguir?”, perguntou.
— “Eu trago tudo que seja”.

E assim foi. Viajou a Bogotá com a missão de trazer o que foi pedido pelo comandante do Bloco  Oriental. Antes da viagem, o Capitão solicitou falar com o chefe guerrilheiro para saber exatamente o que ele queria.
Me levaram ao seu acampamento. Estava gordo e enfermo. Pediu uma camisa xadrez e uma camiseta branca”. Esta viagem foi o primeiro contato com seus superiores em quatro meses de ausência. Dali em diante, a estratégia mudaria para chegar ao “Mono Jojoy”.
Servindo de enfermeiro
O Capitão Mejía regressou com tudo o que pediu “Jojoy”. Se hospedou em um hotel de La Macarena, cuja dona preparava pratos diferentes para “Mono”. — Esse cara mandava fazer até 200 tamales por semana para  distribuir na população —, conta.
Com a entrada livre ao acampamento, Mejía  ganhou a confiança do comandante. Cuidou o  diabetes dele, aplicava a insulina que conseguia em Villavicencio e levava uísque para que se emborrachasse recordando sua terra natal: Chaparral, Tolima.
Mejía, com a desculpa de trazer encomendas de  “Jojoy”, saia para a vila mais próxima, e de um telefone público dava informações a seus superiores. Foi assim que se inteiraram que este comandante era bondoso com os guerrilheiros rasos, que estudava todos os dias até as 12 da noite, se levantava às 5:00 a.m., tomava um café e enviava correspondências eletrônicas ao Secretariado das FARC.
Ganhei tanto sua confiança que inclusive revisava tudo o que lhe chegava e administrei uma de suas granjas na zona de distensão durante as conversações com o governo de Andrés Pastrana”.
Entre 1996 e 2008, o Capitão Mejía entregou informações às Forças Militares que ajudaram a fechar o cerco sobre o “Mono Jojoy”. Foi seu cozinheiro, assessor, enfermeiro e provador de bebidas.
Vi muitas coisas nesses 12 anos infiltrado. O que mais me doeu foi ver cair os meus companheiros e depois ver muitos deles nessas jaulas. Algumas vezes quis me ir, mas pensava que fazia por eles e desistia da ideia”, recorda Mejía.
Enfrentando a morte
Quieto hijueputa o se muere. Yo sí sabía que era un sapo”, disse o guerrilheiro “Oswaldo” quando encontrou o Capitão Mejía transmitindo um relatório sobre o “Mono Jojoy”, em 22 de junho de 2008. Ele dava as coordenadas para uma  primeira operação.
Vinham seguindo ele há um mês e comprovaram suas suspeitas quando pediu permissão para ir buscar umas botas para o chefe subversivo e foi telefonar. Ao se ver descoberto, o Capitão Mejía se pôs a correr montanha abaixo sob uma torrente de balas. Ferido, se jogou no rio Guayabero e nadou até sentir desvanecer sua vida. Foi resgatado por uma patrulha do Exército que o levou à base e dali foi transladado ao Hospital Militar. Hoje o Capitão Mejía passa seus dias em uma cadeira de rodas. Perdeu a mobilidade de suas pernas, mas sente que valeu a pena dar tudo pela pátria que o viu nascer.



Perdeu sua Família por Desmantelar Uma Rede de Narcos
Por seu trabalho de 12 anos, em que se infiltrou varias vezes na máfia como negociador de armas e drogas, o Departamento Administrativo de Segurança (DAS) escolheu o detetive Gabriel(*) para a missão.
O caso surgiu desde a Embaixada da Austrália, segundo a qual havia uma organização clandestina traficando cocaína desde a Colômbia para a Oceania. Era a primeira vez que escutávamos sobre uma rota de narcos para esse destino”, recordou um dos agentes que conheceu a operação.
A pedido da Polícia Federal Australiana (AFP), Gabriel devia atuar como agente encoberto para identificar os integrantes da rede. Segundo consta no Relatório Anual de Operações Controladas da AFP (2010-11), dali em diante o denominaram “Undercover Operative 57189”.
Este foi o primeiro caso documentado em nosso país, com base no novo Código Penal (Ley 906 de 2004), onde um juiz de controle de garantias autorizou um procedimento deste tipo.
Os australianos sabiam que no mercado negro havia gente buscando estupefacientes em Bogotá para enviar a Melbourne, e essa era a oportunidade que deviam aproveitar. Gabriel não tinha claro quanto duraria a missão. Em novembro de 2006 se despediu de sua esposa e seus dois filhos pequenos, e não voltou a sua casa nem a seu escritório.
Devia deixar para trás sua vida cotidiana e transformar-se em comerciante de um dos San Andrecito [feiras de produtos estrangeiros] de Bogotá. “Uma quadrilha de extorsionistas era dona de uma loja de roupas. Pressionamos para que nos entregassem esse espaço, em troca de não captura-los. Em questões de Inteligência, às vezes há que fazer tratos com bandidos”, indicou a fonte.
Gabriel apareceu como o novo dono do negocio e tinha como empregada uma vendedora que ignorava a trama de fundo. Para fortalecer sua fachada, a embaixada arrendou um apartamento de luxo na localidade de Usaquén e lhe entregou, junto com um Chevrolet Aveo, um automóvel que naquele momento era una novidade na Colômbia.

Os detetives identificaram o encarregado que buscava a droga. Gabriel fez contato e disse que estava em condições de conseguir uma carga de alta qualidade e se pactuou uma reunião deste e o comprador no apartamento de Usaquén. O DAS instalou câmaras e microfones na sala, cozinha e sala de jantar, e na rua em frente permanecia uma caminhonete de Inteligência Técnica, com a aparência de uma ambulância, registrando cada movimento.
Para surpresa de todos, o comprador era um jovem de apenas 24 anos, que chegou em um automóvel Bora e se fazia chamar “Iguano”. “Era um jovem aparentando boa vida, roupas de marca, com corpo 'malhado', 1.80 metros de estatura, despreocupado, desses que acordam às dez da manhã”.

Como teste, foi vendido um quilo de cocaína de alta pureza. O estupefaciente foi fornecido pela embaixada, produto de uma apreensão anterior. "Iguano" viajaria com a encomenda por via aérea, e assim Gabriel entregou a mercadoria em uma caixa de papelão com um minúsculo dispositivo GPS escondido em sua parede corrugada. A droga partiu do aeroporto Eldorado e fez escala no Chile, para depois chegar a Melbourne. Dessa maneira, o DAS e a AFP começaram a decifrar a rota.
Aos 35 anos, o agente 57189 era um pai de família abnegado, que ia à ciclovia com as crianças, ao mercado com a esposa e comia em quiosques. Mas para entrar no círculo de confiança do “Iguano” devia aparentar o estilo de vida de um playboy solteiro.
No apartamento houve ao menos oito festas, com mulheres e trago para todo lado. Também festas eternas em discotecas da moda, onde se tomavam uísque sem piedade,
para que o rapaz soltasse a língua.
Nas manhãs, Gabriel ia ao San Andrecito para receber o balanço das vendas, fazia pedidos e saudava os demais comerciantes com normalidade. Nas tardes seguia a dramatização, almoçando com garotas estonteantes em restaurantes tão caros que os agentes de apoio que o seguiam à sombra nem entravam, por falta de orçamento.

Nessa época, funcionários públicos como Gabriel não ganhavam mais que $1’500.000 mensais (cerca de 1500 reais). Agora, com uma conta de gastos reservados alimentada pelas arcas da embaixada, o agente podia fingir, ao menos por algum tempo, que era um ricaço.

Ausências que doem
O teatro deu seus frutos. O “Iguano” começou a tratá-lo como amigo e o convidou para ser acionista nas encomendas. O detetive forneceu dinheiro, com o qual foi comprada droga nas Planícies do Leste. Assim aprendeu outra rota de envios por mar: Buenaventura-Tahití-Ilhas Cook-Australia. E também soube o nome real de seu sócio: Fabio Esneider Rodríguez Mora, dono de lojas em outro San Andrecito.
Os avanços no caso tiveram um alto preço na vida pessoal de Gabriel, que durante oito meses, não pode visitar sua família. A equipe de apoio, que o vigiava em cada deslocamento, percebeu que havia homens suspeitos que o seguiam em motos. Era claro que os traficantes queriam saber com quem estavam lidando. Quando isso sucedia, o DAS coordenava uma falsa detenção com a estação policial mais próxima. Se pedia como favor aos patrulheiros que o detivessem na via e, sob o pretexto de verificar seus documentos, o levavam ao comando. Em uma dessas ocasiões, Gabriel havia prometido a seus filhos que iria visita-los, mas no caminho seus colegas detectaram a perseguição e ordenaram sua detenção e traslado à estação de Suba [bairro de Bogotá].
A falta de seus seres queridos começou a lhe afetar. Queria abraça-los, estar com eles. Uma noite, bêbado e em plena festa com “Iguano”, ligou por telefone à sua esposa. Desejava escutar sua voz, mas seu personagem o traiu e ele chamou sua mulher pelo nome de outra, desencadeando uma forte discussão do casal.
A missão concluiu em julho de 2007, quando já estavam identificados os comerciantes da cocaína na Austrália. Segundo consta nos jornais daquele país - The Age e The Herald Sun -,  em Bogotá
foi capturado o “Iguano” e, em Melbourne caíram seu tio José Arturo Quiroga e os sócios Carlos Hernán Torres Ortegón, Cenk Van e Paul Pavlou.
Gabriel voltou para casa, onde a ferida de sua ausência já não fechava. Alguns companheiros intercederam, falaram com a esposa, mas não podiam revelar em que missão ele esteve. Ela não acreditou, “vocês se cobrem com o mesmo cobertor”, replicava. A historia terminou em divorcio.
A Gabriel foi concedido uma menção honorífica, sigilosa, na Diretoria do DAS em Bogotá. Depois de sacrificar seu lar na luta contra o crime, foi só o que recebeu.

(*) Os nomes dos agentes foram modificados para proteger sua segurança.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
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