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sexta-feira, 28 de junho de 2019

Heróis Também Perdem Batalhas

Tenente (SEAL) Michael Murphy: Agraciado com a Medalha de Honra por ações durante a Operação Red Wings em 28 Jun 2005.
Em 28 de junho de 2005, bem atrás das linhas inimigas a leste de Asadabad, no Hindu Kush do Afeganistão, uma equipe de quatro homens do Navy SEAL realizava uma missão de reconhecimento na altitude implacável de aproximadamente 3.000 metros. 
Os Tenente Michael Murphy, o Técnico Mnt Armt de 2ª Classe Danny Dietz, o Técnico de Sonar de 2ª Classe Matthew Axelson e o Técnico de Saúde de 2º Classe Marcus Luttrell tinham uma tarefa vital. Os quatro SEALs buscavam localizar Ahmad Shah - um terrorista de 30 e poucos anos que cresceu nas montanhas mais ao sul.
Sob o nome de Muhammad Ismail, Shah liderava um grupo guerrilheiro conhecido na região como os "Tigres da Montanha" que se alinharam com o Taleban e outros grupos militantes perto da fronteira com o Paquistão. 
A missão SEAL foi comprometida quando a equipe foi flagrada por cidadãos locais, que presumivelmente relataram sua presença e localização para os talibãs.
Equipe SEAL (Sea, Air, Land) operando no Afeganistão.
Da esquerda para a direita: Tec Sonar  2ª Classe Matthew G. Axelson, 29 anos; Tec Sist Info Sênior Daniel R. Healy, 36 anos; Intendente de 2ª Classe James Suh, 28 anos; Tec Saúde de 2ª Classe Marcus Luttrell; Tec Mnt 2ª Classe Eric S. Patton, 22 anos; e Tenente Michael P. Murphy, 29 anos.
Com exceção de Luttrell, todos foram mortos em 28 Jun 2005 em apoio a Operação Redwing.
Um tiroteio violento irrompeu entre os quatro SEALs e uma força inimiga muito maior, de mais de 50 milicianos anti-coalizão. O inimigo tinha enorme superioridade numérica sobre os SEALs. Eles também tinham vantagem no terreno. Eles lançaram um ataque bem organizado de três frentes contra os SEALs. O tiroteio continuou incessantemente enquanto a esmagadora milícia forçava a equipe a se aprofundar em uma ravina.
Tentando alcançar a segurança, os quatro homens, agora feridos, começaram a descer pelos lados íngremes da montanha, fazendo saltos de 2 a 3 metros. Aproximadamente depois de 45 minutos de luta, oprimidos por forças avassaladoras, Dietz, o responsável pelas comunicações, procurou um local ao ar livre para fazer uma chamada de socorro à base. Mas antes que conseguisse, ele foi baleado na mão, o tiro lhe quebrou o polegar.
Apesar da intensidade do tiroteio e de ter recebido ferimentos de tiros, Murphy destacou-se por arriscar sua própria vida para salvar a vida de seus companheiros de equipe. Ele, com a intenção de fazer contato com a base, mas percebendo isso seria impossível desde a posição no terreno onde eles estavam lutando, sem hesitação e com total desrespeito por sua própria vida, moveu-se para campo aberto, onde teria uma posição melhor para transmitir uma chamada e conseguir ajuda para seus homens.
Afastando-se das rochas montanhosas protetoras, ele conscientemente se expôs. Este ato deliberado e heroico privou-o de cobertura e fez dele um alvo fácil para o inimigo. Enquanto continuava a ser alvejado, Murphy fez contato com a Força de Reação Rápida na Base Aérea de Bagram e solicitou ajuda. Ele forneceu a localização de sua unidade e o tamanho da força inimiga enquanto solicitava apoio imediato para sua equipe. Atingido por um tiro que o acertou nas costas, o impacto fez com que ele soltasse o transmissor. Mas ele completou a ligação e continuou atirando no inimigo que estava se aproximando. Severamente ferido, o tenente Murphy retornou à posição de cobertura com seus homens e continuou a luta.
Um helicóptero MH-47 Chinook, com oito SEALs e oito  "Night Stalkers" membros do 160º Special Operations Aviation Regiment (Airborne) foi enviado para uma missão de extração e retirar os quatro SEALs em apuros. O MH-47 foi escoltado por helicópteros de ataque do Exército fortemente blindados. Entrando na zona de combate, os helicópteros de ataque foram usados ​​inicialmente para neutralizar o inimigo e tornar a área mais segura para o helicóptero de transporte de pessoal, de blindagem leve.
O maior peso dos helicópteros de ataque diminuiu o avanço da formação, levando o MH-47 a ultrapassar sua escolta blindada. Eles sabiam do tremendo risco de entrar em uma área inimiga ativa à luz do dia, sem o apoio das aeronaves de ataque e sem a cobertura da noite. O risco seria, obviamente, minimizado se eles colocassem o helicóptero em uma zona segura. Mas sabendo que seus irmãos guerreiros foram baleados, cercados e gravemente feridos, a equipe de resgate optou por entrar diretamente na batalha que se aproximava na esperança de conseguir pousar no terreno brutalmente perigoso.
Quando o Chinook chegou na área da batalha, uma granada lançada por um lança-rojão atingiu o helicóptero, matando todos os 16 homens a bordo.
  Equipe do SEAL DVTeam 1:
- Tec  2ª Classe (SEAL) Eric S. Patton, 22 anos;
- Tec de Sist Info (SEAL) Daniel R. Healy, 36; e
- Intendente 2ª Classe (SEAL) James Suh, 28.
Equipe do SEAL DVTeam 2:
- Atirador 2ª Classe (SEAL) Danny P. Dietz, 25.
Equipe do SEAL Team 10
- Bombeiro Chefe (SEAL) Jacques J. Fontan, 36;
- Tenente Comandante (SEAL) Erik S. Kristensen, 33;
- Técnico em Eletrônica 1ª Classe (SEAL) Jeffery A. Lucas, 33;
- Tenente (SEAL) Michael M. McGreevy Jr., 30; e
- Paramédico 1ª Classe (SEAL) Jeffrey S. Taylor, 30 anos.
 "Night Stalkers" do 3º Batalhão do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (SOAR):
- Sargento Shamus O. Goare, 29 anos;
- Chief Warrant Officer (Subtenente) Corey J. Goodnature;
- Sargento Kip A. Jacoby, 21;
- Sargento 1ª Classe Marcus V. Muralles, 33;
- Major Stephen C. Reich, 34;
- Sargento 1ª Classe Michael L. Russell, 31;
- Chief Warrant Officer (Subtenente) Chris J. Scherkenbach, 40.
 "Night Stalker" da Companhia do QG, 160º SOAR (Airborne):
- Sargento Mestre James W. Ponder III, 36 anos.
No chão e quase sem munição, os quatro SEALs, Murphy, Luttrell, Dietz e Axelson continuaram a luta. No final do tiroteio de duas horas que ecoava nas colinas e penhascos, Murphy, Axelson e Dietz foram mortos. Estima-se que 35 talibãs também estavam mortos.
O quarto SEAL, Luttrell, foi atingido por uma granada e caiu inconsciente. Recuperando a consciência algum tempo depois, ele conseguiu escapar gravemente ferido e lentamente se arrastou para o lado de um penhasco. Desidratado, com uma ferida de tiro em uma perna, com estilhaços metidos nas duas pernas, três vértebras rachadas; a situação para Luttrell era sombria. Helicópteros de resgate foram enviados, mas ele estava muito fraco e ferido para fazer contato. Viajando sete milhas a pé, ele evitou o inimigo por quase um dia. Felizmente, os cidadãos locais vieram em sua ajuda, levando-o para uma aldeia próxima, onde o mantiveram por três dias. Membros do Taleban foram à aldeia várias vezes exigindo que Luttrell fosse entregue a eles. Os aldeões recusaram. Um dos aldeões foi para um posto da Marinha com uma nota de Luttrell, e as forças dos EUA lançaram uma operação massiva que o resgatou do território inimigo em 2 de julho.
Por sua destemida coragem, espírito de luta intrépido e devoção inspirada a seus homens diante da morte certa, o tenente Murphy conseguiu transmitir a posição de sua unidade, um ato que finalmente levou ao resgate de Luttrell e à recuperação dos restos mortais dos três que foram mortos na batalha.
Este foi o pior número de mortos das Forças dos EUA em um único dia desde o início da Operação Liberdade Duradoura, quase seis anos antes. Foi a maior perda de vida da Naval Special Warfare desde a Segunda Guerra Mundial.
A comunidade Naval Special Warfare (NSW) se lembrará para sempre de 28 de junho de 2005 e os heroicos esforços e sacrifícios de nossos operadores especiais. Nós mantemos com reverência o último sacrifício que eles fizeram enquanto estavam engajados nessa feroz luta de fogo nas linhas de frente da guerra global contra o terrorismo.
Tenente Michael Murphy foi contratado como um aspirante da Marinha em 13 de dezembro de 2000, e começou seu treinamento Básico Subaquático de Demolição/SEAL (BUD/S) em Coronado, Califórnia, em janeiro de 2001. BUD/S é um Curso de formação de seis meses e o primeiro passo para se tornar um SEAL da Marinha.
Após a formatura do BUD/S, ele frequentou a Escola de Paraquedistas do Exército, o Treinamento de Qualificação SEAL e o Curso de Delivery Vehicle (SDV). O Tenente Murphy ganhou seu Tridente de SEAL e foi servir no SDV Team (SDVT) 1 em Pearl Harbor, Havaí, em julho de 2002. Em outubro de 2002, ele foi transferido com o Pelotão Foxtrot para a Jordânia como oficial de ligação do Exercício Early Victor.
Após sua temporada com o SDVT-1, o Tenente Murphy foi designado para o Comando Central de Operações Especiais na Flórida e enviado para o Catar em apoio à Operação Iraqi Freedom. Depois de voltar do Qatar, o tenente Murphy foi enviado para o Chifre da África, Djibuti, para auxiliar no planejamento operacional das futuras missões da SDV.
No início de 2005, Murphy foi designado para a Equipe de SDV SEAL 1 como oficial assistente encarregado do Pelotão Alfa e enviado ao Afeganistão em apoio à Operação Liberdade Duradoura.
O tenente Murphy foi enterrado no Cemitério Nacional de Calverton a menos de 30 quilômetros de sua casa de infância. 
Ele recebeu uma Citação Especial (Elogio) pessoal do Presidente George W. Bush. Os outros prêmios pessoais do tenente Murphy incluem o Purple Heart, o Combat Action Ribbon, a Medalha de Comenda do Serviço Conjunto, a Medalha de Comenda da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais, o Ribbon da Campanha do Afeganistão e a Medalha do Serviço de Defesa Nacional.
Fonte: tradução livre de Medalha de Honra-USNavy
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quarta-feira, 5 de junho de 2019

O Exército de Todos Nós

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por Sérgio Pinto Monteiro*
Era 15 de fevereiro de 1630 e o nordeste brasileiro começava a viver o pesadelo da invasão dos holandeses da Companhia das Índias Ocidentais. Naquele dia, a cidade de Recife acordou sob o bombardeio da esquadra do Almirante Hendrick Loncq, formada por 50 navios e 7.000 homens. Começava a segunda tentativa dos batavos de se apossar do território brasileiro. Seis anos antes, em 8 de maio de 1624, atacaram e ocuparam Salvador. A reação luso-brasileira, apoiada pela população, não se fez esperar. Militarmente inferiorizadas, nossas forças reagiram com uma intensa guerra de emboscadas. A metrópole portuguesa, com o apoio da Espanha, mandou ao Brasil uma poderosa esquadra de 52 navios e 12.000 homens, entre soldados e marinheiros portugueses e espanhóis, que expulsaram os holandeses da Bahia em 30 de abril de 1625, menos de um ano após o início da ocupação.
Cinco anos decorridos da derrota em solo baiano, a posição estratégica de Recife, a excelência de seu porto natural, a proximidade da Europa e da África e as fracas defesas locais, proporcionaram ao invasor as condições favoráveis a uma nova e vitoriosa campanha, colocando, por 24 anos, parte do nordeste brasileiro sob o domínio holandês.
Os pernambucanos resistiram ao invasor e contra ele lutaram bravamente. Matias de Albuquerque proclamou para toda a Capitania a disposição de lutar até a morte. O inimigo, após conquistar Recife e Olinda, tratou de fortificar suas posições. Como na Bahia, nossa resistência era baseada, principalmente, em emboscadas. Hoje, diríamos que seriam ações de comandos e forças especiais. Construímos, em local estratégico, como baluarte para impedir a penetração do adversário no interior, a fortificação do Arraial do Bom Jesus, que resistiu por cinco anos às investidas dos batavos.
No dia 23 de maio de 1645, dezoito líderes da Insurreição Pernambucana assinaram um Termo Compromisso onde, pela vez primeira em documento, se usava a palavra pátria, no seu sentido atual. Há também, no Compromisso, providências que hoje seriam consideradas como mobilização de Reservas:
“Nós abaixo assinados nos conjuramos e prometemos em serviço da liberdade, não faltar a todo o tempo que for necessário, com toda ajuda de fazendas e de pessoas, contra qualquer inimigo, em restauração da nossa pátria; para o que nos obrigamos a manter todo o segredo que nisto convém...”.
Estava criado, segundo o mestre Capistrano de Abreu, o sentimento da existência nacional brasileira, que iria se fortalecer ao longo dos próximos dois séculos, até a Independência em 1822. 
Paralelamente, surgia, consolidado, o Exército de Patriotas, formado pela fusão das três etnias  branca, negra e índia  com suas miscigenações. Nascia o Exército Brasileiro, democracia multirracial, sem discriminações nem preconceitos, sem cotas, numa pluralidade étnica e social unida pela alma de combatente do nosso soldado.
Em 18 de abril de 1648, o exército holandês com 7.400 homens marchou no sentido Barreta-Guararapes, tendo como objetivo final apoderar-se do cabo de Santo Agostinho. O exército patriota, com 2.200 homens, deslocou-se para interceptar o invasor. O Sargento-mor Antônio Dias Cardoso, como “soldado mais prático e experiente” sugeriu que o melhor campo de batalha seria o Boqueirão dos Guararapes. Na manhã de 19 de abril, primeiro domingo após a páscoa (pascoela), dia de Nossa Senhora dos Prazeres, Dias Cardoso, no comando de 200 homens, investiu contra a vanguarda inimiga para, em seguida, retrair em direção ao interior do Boqueirão onde o restante do nosso exército estava escondido, pronto para a batalha. Ao comando de “ás de espadas” os patriotas se lançaram sobre o inimigo. O terço (regimento) de Pernambuco, comandado por João Fernandes Vieira, auxiliado por Dias Cardoso, rompeu o inimigo nos alagados; os índios de Felipe Camarão assaltaram a ala direita dos holandeses; o terço dos negros de Henrique Dias atacou a ala esquerda, ficando as tropas de Vidal de Negreiros em reserva. Os batavos contra-atacaram com suas reservas de 1.200 homens, enquadrando o terço de Henrique Dias. Os patriotas, habilmente, lançaram a reserva de Vidal de Negreiros no momento adequado. Foram 4 horas de confronto, entre alagados e morros. Ao final, o exército holandês, derrotado, retirou-se com pesadas perdas  1.038 combatentes entre mortos e feridos. Já os patriotas, tiveram 84 mortos e 400 feridos.
A batalha final que culminou com a derrota e expulsão do invasor holandês ocorreu em 14 de janeiro de 1654, quando o exército patriota atacou o último reduto inimigo em Recife. Após dez dias de combates, a cidade foi reconquistada. No dia 26 de janeiro, na Campina da Taborda, os holandeses assinaram a rendição e retiraram todas as suas forças do Brasil. As vitórias nas Batalhas dos Guararapes uniram, no nascedouro, os conceitos de pátria e exército. E o dia da primeira vitória  19 de abril de 1648  por decreto presidencial de 24 de março de 1994, foi escolhido para Dia do Exército.
Em 19 de abril, decorridos 371 anos da primeira vitória que culminou com a expulsão do invasor holandês, o Exército Brasileiro  instituição detentora dos maiores índices de confiabilidade do nosso povo  comemorou a sua data de origem, num momento em que a nação vivencia tempos de mudanças, onde o cidadão de bem, estarrecido, constata que, nos últimos anos, o nosso país foi vilipendiado por maus compatriotas que, durante o dia ludibriaram o povo em nome de uma falsa democracia para, na calada da noite, tramarem contra ela e assaltarem os cofres da nação. As últimas eleições revelaram, claramente, que a sociedade nacional despertou de um longo pesadelo. O resultado das urnas evidenciou que a população clama por novos rumos, onde prevaleçam os princípios, tradições e valores que forjaram a nacionalidade e a HONESTIDADE, COMPETÊNCIA e JUSTIÇA sejam dominantes nos poderes da república. O Brasil não é um reduto de traidores, corruptos, incapazes e sectários. Somos um povo simples, bondoso, às vezes até meio ingênuo, mas profundamente patriota e sempre pronto a defender a grandeza e a soberania da nação. Novas e importantes lideranças estão surgindo. E a ESPERANÇA de um país renovado brilha, novamente, no horizonte da Pátria.
As Forças Armadas, por sua gloriosa história e elevada envergadura moral, são hoje o sustentáculo de melhores tempos. O Dia do Exército foi comemorado condignamente nas organizações militares. Mas a data que lembra as vitórias de Guararapes e a epopeia daquele punhado de bravos, não foram destaques numa parcela da mídia que, comprometida ideologicamente ou movida por interesses escusos, mantém uma postura hostil aos militares. Felizmente, as redes sociais são hoje um fortíssimo instrumento de revelação da vontade popular. E lá vimos as mensagens de cumprimentos da população ao Exército de todos nós.
PARABÉNS, MEU INVENCÍVEL EXÉRCITO!
*o autor é historiador, oficial R/2 do Exército Brasileiro, Patrono do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva, Presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis.
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sexta-feira, 10 de maio de 2019

Dia da Cavalaria

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Para um povo que não valoriza sua Historia.
por Carlos Alberto Bastos Moreira
Cada americano conhece o Álamo. Por aqui, é-se apenas capaz de saber a escalação da seleção brasileira em 195... ou da Escola Samba vencedora em ....
Era ele um jovem de dezesseis anos e já estava no bojo da Historia. Totalmente diferente de quem rebola a bunda em bailes funks, nessa idade.
Um Alferes de Cavalaria, no Passo do Rosário (lá na BR tem a indicação do lugar). Em feroz luta contra os castelhanos que queriam reivindicar aquela parcela do território, o Alferes tem seu pelotão dizimado numa emboscada. 
E abre o galope na pampa, para salvar a própria vida, depois de ter lutado o que podia ser lutado. 
Tem apenas 16 anos.
Dois gaúchos argentinos lhe partem ao encalço, para a degola. 
E o jovem galopa, galopa, perseguido cada vez mais de perto pelos dois machos criados... É só o verde da pampa e resfolegar de cavalos. Coração no máximo...
Um dos perseguidores lhe joga uma boleadeira, da qual o jovem consegue desviar o cavalo. Mas vai ser alcançado em breve...
Então decide tudo ou nada: 
De súbito estaqueia o cavalo e faz meia volta. Com um tiro de pistola na cara do oponente, recebe o primeiro, o qual tomba na relva. E o segundo já lhe vem por cima. Com o cano da pistola (um só tiro) se defende do violento golpe de sabre que lhe é desferido e, em seguida, fende o cranio do inimigo com a coronha da pistola descarregada.... 
Dois cavalos correm soltos pela Pampa... 
O menino de 16 anos ainda está assustado por tudo que passou... Ele está sozinho ainda. Aguardará a noite para, ao passo silencioso do cavalo, tentar retornar para o seu Esquadrão. Ainda sera General e estará presente em campo na maior batalha das America - Tuiuti. 
E ainda vai levar um tiro no maxilar, em meio a tormenta chuvosa que se desencadeou na batalha de Avaí. Amarrou o queixo caído com um lenço e ficou em campo, para não desestimular seus homens. Sofreu muito com posteriores cirurgia... 
Eu acho que esse país não lhe merecia. Que os jovens brinquem de skate ou brinquem de comunistas avançados. Que brinquem de serem bichas escandalosas... De corruptos, de Bolivarianos. Certamente Osório está bem longe.
C.A.B.Moreira 
(aquele a quem o conhecimento traz as alegria que compensa o sofrimento produzido pela percepção de estar cercado pela turba ignara, sejam analfabetos ou "doutores ")
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domingo, 24 de fevereiro de 2019

A Tomada de La Serra: 74 Anos

por Sérgio Pinto Monteiro*
Há setenta e quatro anos um pelotão do Regimento Sampaio escreveu, nos campos de batalha da Itália, páginas gloriosas da história da Força Expedicionária Brasileira. Seu comandante era o Primeiro-Tenente da reserva convocado Apollo Miguel Rezk.
Apollo nasceu no Rio de Janeiro em 09 de fevereiro de 1918. Era filho de imigrantes: pai libanês e mãe síria. Fez seus estudos no Colégio Pedro II. Em 1935 tentou, sem êxito, entrar para a Escola Militar do Realengo. Seus pés planos e uma reprovação em Física impediram a realização do sonho de ingressar na carreira militar.
A idade de prestação do serviço militar obrigatório conduziu o jovem Apollo ao CPOR do Rio de Janeiro. Aprovado nos exames médico, físico e intelectual, após os três anos do curso do CPOR foi declarado Aspirante a Oficial da Reserva e classificado em 10º lugar entre os setenta concludentes da Arma de Infantaria, turma de 1939.
Em 1940 formou-se Perito-Contador na Escola Superior de Comércio do Rio de Janeiro. No ano seguinte foi convocado para realizar o Estágio de Instrução no Regimento Sampaio, promovido a Segundo-Tenente e desligado do serviço ativo do Exército. Em 1942 foi convocado para o Estágio de Serviço, novamente no Regimento Sampaio. Estudioso, concluiu em 1943 o bacharelado em Ciências Econômicas na Faculdade de Administração e Finanças da Escola de Comércio do Rio de Janeiro.
Ainda nesse ano foi promovido a Primeiro-Tenente e convocado para a Força Expedicionária Brasileira, em fase de formação e adestramento.
Apollo embarcou para a Itália como oficial subalterno, Comandante de pelotão da 6ª Companhia do II Batalhão do Regimento Sampaio. O 2º escalão da FEB seguiu para o Teatro de Operações no navio transporte de tropas americano “U.S. General W. A. Mann”, que partiu do armazém nº 11 do porto do Rio de Janeiro em 22 de setembro de 1944, ancorando em Nápoles no dia 06 de outubro.
Na noite de 23 e madrugada de 24 de fevereiro de 1945, atuando em apoio à 10ª Divisão de Montanha americana no ataque a La Serra, o pelotão comandado pelo tenente Apollo, após ultrapassar um extenso campo minado, atacou as posições fortificadas alemãs. Apesar do intenso fogo inimigo, o pelotão Apollo cercou o objetivo, investiu contra a posição e pôs em fuga os alemães, fazendo cinco prisioneiros. Ferido em combate por volta das 23 horas, o tenente Apollo, cercado e contra-atacado, manteve a posição durante toda a madrugada e manhã do dia 24.

19.05.45 – Ten Apollo, único brasileiro 
agraciado com a Cruz de Serviços Notáveis,
 dos  EUA, é condecorado pelo
Gen Truscott – Alessandria, Itália.
Por esta missão foi condecorado pelo governo americano, em 19 de maio de 1945, com a “Distinguished-Service Cross”, único brasileiro agraciado com essa importante medalha de bravura:
“... por heroísmo extraordinário ... a despeito de campos de minas desconhecidos, terreno excessivamente difícil e forte oposição, o Primeiro-Tenente Rezk conduziu galhardamente os seus homens através de uma cortina de fogo de metralhadoras, morteiros e artilharia, para assaltar e arrebatar o objetivo do inimigo. Embora gravemente ferido quando dirigia o ataque, o Primeiro-Tenente Rezk nunca hesitou: pelo contrário, continuou firmemente o avanço ... repeliu três fortes contra-ataques, infligindo pesadas perdas aos alemães pela sua habilidade na condução do tiro. Depois, embora em posição vulnerável ao fogo das casamatas do inimigo circundante e a despeito das bombas que caiam e da gravidade dos seus ferimentos, o Primeiro-Tenente Rezk defendeu resolutamente La Serra contra todas as tentativas fanáticas dos alemães para retomar a posição. Pelo seu heroísmo, comando inspirado e persistente coragem, o Primeiro-Tenente Rezk praticou feitos que refletem as mais altas tradições do serviço militar.”
(tradução de trechos do documento original em inglês feita pela Seção Especial do Comando da FEB).
O comandante da FEB, General João Baptista Mascarenhas de Moraes, em Citação de Combate de 09 de abril de 1945, assim se manifestou quanto às ações do tenente Apollo na conquista de La Serra:
“... a personalidade forte, o espírito de sacrifício, a combatividade, a tenacidade, o destemor do tenente Apollo constituem belos exemplos, dignos da tropa brasileira.”
30.03.45 - Ten Apollo recebe a "Silver Star" 
do Cmt do V Exército americano, Gen Lucian 
Truscott, Lizano de Belvedere – Itália.
Anteriormente, graças ao seu desempenho no ataque a Monte Castelo em 12 de dezembro de 1944, o Tenente Apollo já havia sido agraciado pelos Estados Unidos com a medalha “Silver Star”. Terminada a Campanha da Itália, o Tenente Apollo recebeu quatro condecorações brasileiras: Cruz de Combate de 1ª Classe, Medalha de Sangue, Medalha de Campanha e Medalha de Guerra.
Quando da promoção do Tenente Apollo ao posto de Capitão, em 03 de setembro de 1951, assim se expressou o Ministro da Guerra no despacho em que deferiu a proposta:
“Deferido. A promoção se justifica, sobretudo, em virtude da conduta excepcional desse Oficial no Teatro de Operações da Itália, onde, entre diversas condecorações recebidas por bravura, lhe foi conferida a medalha “Distinguished-Service Cross” do Exército Americano, por heroísmo extraordinário em ação, distinção máxima somente concedida a este combatente brasileiro...”.
O destino, que no passado não permitira ao jovem Apollo a realização do sonho de ingressar na carreira militar através da Escola do Realengo, ainda haveria de, novamente, pregar-lhe outra peça. A tão sonhada carreira, que finalmente lhe chegara não pela via da Escola Militar, mas através do CPOR e da própria guerra, como também, e principalmente, por sua bravura e eficácia no cumprimento do dever, seria interrompida precocemente. 
Seus pés planos não resistiram ao esforço do combate e ao congelamento nas trincheiras da Itália. O Capitão Apollo, em 12 de dezembro de 1957, aos 39 anos, depois de vinte anos no exército, foi julgado inapto para o serviço ativo e reformado no posto de Major.
Conheci o nosso herói já no ocaso de sua vida. Era um bravo. Foram muitos sábados e domingos de intermináveis conversas. Jamais o Major Apollo admitiu o seu heroísmo. Pessoa simples, culta e educada era, sobretudo, um gentleman. Absorvi, voraz e intensamente, cada relato de suas ações na guerra. O Exército era realmente a sua paixão. E a Pátria, o seu bem maior. Ficamos amigos, o que me enche de orgulho e gratidão.
A nação, na tristeza daquele 21 de janeiro de 1999, perdeu um filho exemplar. E o Exército viu partir um de seus grandes guerreiros. A filha Nádia comunicou-me o falecimento do pai pela manhã, bem cedo. Desloquei-me rapidamente para a sede do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva, no quartel do CPOR/RJ, de onde fiz os contatos relativos ao passamento do Major Apollo. Enviei um necrológio aos jornais, avisei ao CComSEx, aos comandantes do Regimento Sampaio e do Batalhão de Guardas - onde ele servira no após guerra - bem como à Embaixada dos Estados Unidos, já que era ele detentor de duas condecorações americanas. Informei, também, à Comunicação Social da Presidência da República e aos governos estadual e municipal do Rio de Janeiro.
O sepultamento foi no cemitério do Caju. Presentes, familiares, ex-combatentes da FEB e amigos do nosso herói, bem como quase uma centena de oficiais R/2. Um pelotão do Regimento Sampaio executou as honras fúnebres. O governo americano enviou, de Brasília, um oficial superior, fardado, para representá-lo. Os governos federal, estadual e municipal não enviaram representantes, nem formularam condolências à família enlutada. Jamais esquecerei o constrangimento que senti ao ouvir o Oficial americano dizer aos filhos do major Apollo:
“Eu não entendo vocês brasileiros. Na minha terra, alguém com as importantes condecorações de guerra do Major Apollo, teria recebido, ao longo de sua vida, as homenagens, o respeito e a gratidão do seu povo.”
Na tristeza daquele momento, assumi, intimamente, o compromisso - como missão - de divulgar a história do Major Apollo. Nesses dezenove anos desde o seu falecimento, tenho viajado pelo nosso país ministrando palestras - nos meios militar e civil - relatando os seus atos de bravura e heroísmo. O meu livro “O Resgate do Tenente Apollo”, escrito em parceria com o tenente Orlando Frizanco, terá a 2ª edição publicada ainda este ano. Há, também, disponível, embora não biográfico, o livro do tenente Luiz Mergulhão “Major Apollo Miguel Rezk: O Herói Esquecido”. O Conselho Nacional de Oficiais da Reserva criou a Medalha Major Apollo Miguel Rezk, para homenagear personalidades que se destaquem no apoio aos oficiais da reserva.


Revista Manchete - Ed 2426 - 03 Out 1998
Um dos desejos não realizados do herói era ser promovido a Tenente-Coronel, a exemplo de alguns de seus companheiros que obtiveram a promoção por via judicial. Quem sabe o Exército Brasileiro, ou mesmo o Congresso Nacional, lhe concedam, ainda que tardiamente, essa honraria, como derradeira homenagem póstuma, já que em vida não logrou recebê-la sob a forma de promoção por bravura, o que teria sido, inquestionavelmente, um ato de inteira justiça.
Os feitos do Tenente Apollo ultrapassaram os limites de sua existência física. Na verdade, já não mais lhe pertenciam quando, naquela madrugada de 21 de janeiro de 1999 foi vencido pelo inexorável. São episódios gloriosos da história militar de um país que teima em não cultuar seus heróis.
A Força Expedicionária Brasileira - e seus bravos - não pode ser esquecida. Ela simboliza a pujança e o valor de um povo. A nação lhe deve eterno respeito e imorredoura gratidão.
*o autor é historiador, Oficial da Reserva do Exército, membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, da Academia Brasileira de Defesa e do Instituto Histórico de Petrópolis. É presidente do Conselho Deliberativo da Associação Nacional dos Veteranos da FEB. É fundador e ex-presidente do Conselho Nacional de Oficiais da Reserva - CNOR.
Fonte:  Informativo O Tuiuti nº 278-Jun-2018,
 .

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

EsSA - Concurso/2018 - CFS 2019/2020

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Passado o período de Exame Intelectual do Concurso aos Cursos de Formação de Sargentos do Exército Brasileiro que funcionarão em 2019 e 2020, podemos aqui manifestar alguns pontos de opinião, atualizando postagem feita em 2014.
De acordo com o edital publicado no Diário Oficial, são 1.070 vagas dividas nas áreas de aviação e geral, em que 910 são destinadas ao sexo masculino e 100, para o feminino; e, outras 60 são para área da Saúde, destinadas para técnicos de enfermagem. 
Com aproximadamente 94.000 candidatos inscritos no Concurso de Admissão 2018 aos Cursos de Formação de Sargentos 2019-20, a concorrência por área é a seguinte:
- 75 candidatos/vaga para a ÁREA Geral/Aviação (Masculino);
- 171 candidatos/vaga para a ÁREA Geral/Aviação (Feminino);
- 78 candidatos/vaga para a ÁREA Música; e,
- 93 candidatos/vaga para a ÁREA Saúde.

Uma demanda considerável, se comparada a outros concursos para cargos em função pública. 
Neste ano de 2018 houve um acréscimo de quase 100% de candidatos em relação a 2014, quando houve 48.173 candidatos confirmados.
Temos então que, apesar do esforço de algumas 'otoridades' - infelizmente com o apoio da grande mídia - em desmoralizar e desmotivar os profissionais das armas, a carreira militar continua a encantar nossos jovens que amam o Brasil e não temem sair de sob as asas dos seus pais.
Espero que entre os candidatos aprovados não haja quem espere "levar vantagem", pois se houver vai se decepcionar. A carreira castrense é para quem se sujeita a uma vida de sacrifícios com remuneração somente suficiente para a sobrevivência familiar.
Aos que tiverem sucesso nas provas, alguns pequenos esclarecimentos que não é costume serem feitos, mas que eu os faço previamente para que, mais tarde, não usem o argumento covarde de que não sabiam direito o que estavam fazendo:


- Diferentemente do que ocorre em Concursos para Cargos Públicos Civis, preparem-se para começar a "mostrar serviço" depois de frequentarem o Curso de Formação, quando começarem efetivamente sua carreira profissional; e isso vai continuar por 30 anos de serviço, no mínimo. É costume dizer que Sargentos devem provar a cada dia que são bons profissionais.
- Preparem-se, também, para permanecerem por sete ou oito anos na graduação de 3º Sargento, com vencimentos brutos mensais, após 01 Jan 2019, por volta de R$ 5.050,00. A isto podem ser agregados mais 10 ou 20% do soldo (R$ 382,50 ou R$ 765,00) se forem servir em regiões consideradas inóspitas.
- Preparem-se, ainda - também diferentemente das funções públicas civis -, para serem destinados para servir em qualquer parte do território nacional, independentemente dos interesses familiares (casa própria, emprego da esposa, curso universitário, doenças de pais, avós, sogros, etc).

- Depois do Curso, no exercício das funções de Sargento as condições profissionais continuarão difíceis (passar frio, cansaço, acampamentos em condições precárias, escalas de serviço apertadas - sem direito a recebimento de "horas extras" -, formaturas, exercícios físicos, "tempo zero" para estudos fora do EB, etc), acrescidas da responsabilidade de repassar seus conhecimentos, com os devidos cuidados de segurança, para seus subordinados (os Soldados incorporados anualmente para o Serviço Militar Inicial).
- Quanto aos aspectos financeiros, a cada promoção terão um acréscimo de 15 a 20% em seus vencimentos, chegando à graduação de Subtenente com o vencimento bruto, também a partir de 01 Jan 2019) valendo aproximadamente R$ 8.360,00.
Caso alcancem o oficialato, poderão chegar ao posto de Capitão, que terão vencimentos brutos, após 01 Jan 2019, por volta de R$ 14.700,00. Ao vislumbrar esses valores, a grosso modo, deve ser calculado o abatimento de cerca de 11%, a título de descontos obrigatórios para atendimentos de saúde e para o fundo que financiará, no futuro, a Pensão de sua viúva. Depois desse desconto, ainda tem que prestar contas com o famigerado e faminto Leão do Imposto de Renda.
- Os que não prestaram o Serviço Militar Inicial devem atentar para um detalhe importantíssimo: se acharem que as condições oferecidas durante o Curso de Formação não lhe agradaram, não insista. Se você teve capacidade para ser aprovado no Concurso do CFS, certamente tem capacidade para fazer outros concursos para atividades profissionais onde se sinta melhor. 
Se não gostou do Curso, não irá gostar do dia-a-dia da caserna, assim, busque sua felicidade seguindo outra carreira e não se torne um mau profissional (desmotivado, mal-humorado, dos que só enxergam motivos para reclamar e criticar, desagregador, sem disposição para consertar ou melhorar seu ambiente de trabalho).
- Aos que entenderem que podem passar seus dias dedicando-se às atividades castrenses, sejam bem vindos! Terão trinta e poucos anos de atividade profissional extremamente gratificante, em um ambiente que tem por característica principal a camaradagem!
Aproveito para citar cinco princípios a serem seguidos para um bom desempenho profissional:
- Conheça sua profissão (saiba qual seu papel na sociedade como profissional);
- Interesse-se por sua profissão (busque conhecimentos sobre como melhorar seu desempenho profissional);
- Conheça seus subordinados (identifique as características pessoais de cada um, a fim de melhor destinar missões, recompensas e sanções);
- Mantenha seus subordinados bem informados (só assim, eles poderão desenvolver sua iniciativa no sentido de melhor cumprir suas missões); e
- Interesse-se, verdadeiramente, pelo bem estar de seus subordinados.
Essas regras, que parecem simples, na realidade são difíceis de serem seguidas, pois são as que diferenciam os Líderes dos Chefes. E uma das principais características exigidas ao Sargento é ser Líder.
E sejam Sargentos, profissionais conscientes de pertencerem a uma das Instituições mais respeitadas por nossa população decente!

Imagens: "Futuro Sargento do EB"  no Facebook
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sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Descoberto Abrigo Fortificado Subterrâneo do ELN

Entrada do bunker -  Foto: Exército Colombiano
Na perseguição aos delinquentes do "Exército de Libertação Nacional" (ELN) que agem na região do "baixo Cauca antioquenho" - cerca de 160 Km ao norte de Medellin -, o Exército Colombiano vem descobrindo esconderijos, depósitos e acampamentos; e pela primeira vez foi encontrado um "bunquer" subterrâneo.
O local é de difícil detecção e havia sido construído por ordem do criminoso alcunhado por "Mocho Tierra", por quem é oferecida uma recompensa de até 200 milhões de pesos colombianos (cerca de 200 mil reais). 
Nos primeiros dias de agosto, tropas da 7ª Divisão do Exército Colombiano que desenvolvem operações de controle territorial de área e com o objetivo de atingir e afetar as redes logísticas e criminais do ELN no Baixo Cauca Antioquenho conseguiram localizar e neutralizar um bunquer construído no meio da espessa selva dessa zona.
O achado se produziu graças a dados de Inteligência Militar obtidos pelo Comando de Operações de Estabilização e Consolidação Aquiles, cujos membros chegaram até a vereda Alto San Juan, na zona rural do município de Cáceres, onde depois de detalhada busca encontraram o lugar.
O local, construído por ordem direta do chefete da "Frente Darío Ramírez Castro" do ELN, vulgo "Mocho Tierra", tinha características especiais que permitem presumir que era empregado para esconder lideranças da quadrilha, drogas ou material bélico, bem como servir como refúgio ante bombardeios realizados pela Força Pública contra as organizações terroristas.
Após a inspeção do lugar, as tropas puderam determinar, com ajuda de pessoal da Engenharia Militar, que o bunquer tinha uma profundidade aproximada de três metros, e suas paredes tinham 70 centímetros de espessura”, explicou o Coronel José Manuel Gómez Valenzuela, Comandante do Comando de Estabilização e Consolidação Aquiles.
Além disso, o esconderijo possuía 13 metros de comprimento por cinco de largura e em seu interior havia três quartos, um banheiro e uma cozinha. Também contava com energia elétrica e exaustores de ar que eram alimentados por uma rede construída de forma primitiva, subterrânea, desde uma residência abandonada nas proximidades. Havia, ainda, duas geladeiras, pacotes de alimentos e materiais de construção, pelo que, se presume que o lugar já havia sido usado pelos criminosos para fugir das diferentes operações militares que a 7ª Divisão do Exército Colombiano vem efetuando na região.
Esta é a primeira vez que é encontrada uma obra desse tipo, razão pela qual já foram enviadas mais tropas por terra e ar, com o objetivo de localizar outros esconderijos desse tipo que possam haver, assim como buscar os bandoleiros da "frente" Darío Ramírez Castro do ELN.
Entrada do bunker -  Foto: Exército Colombiano
Entrada do bunker -  Foto: Exército Colombiano
Fonte: tradução livre de textos do
COMENTO: como os criminosos das FARC, conseguiram uma negociação vantajosíssima com o ex-presidente Juan Manoel Santos - que traiu a confiança dos colombianos e acatou praticamente todas as exigências dos bandidos sem estabelecer claramente mecanismos de punição aos crimes por eles cometidos, concedendo-lhes até acesso ao parlamento colombiano - os bandoleiros do ELN repetem a estratégia daqueles criminosos e alegam querer negociar com o governo colombiano, ao mesmo tempo em que intensificam sua atuação criminosa objetivando ganhar terreno e influência sobre a população campesina, sem abrir mão do gerenciamento do narcotráfico nas áreas sob seu domínio. Esperemos que o novo presidente colombiano corrija os erros cometidos no acordo com as FARC e negocie de forma correta com os quadrilheiros do ELN estabelecendo as devidas punições a quem as merece. 
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sexta-feira, 27 de julho de 2018

Colômbia - A Comissão da Meia Verdade e a Segurança Nacional

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Vários dos documentos requeridos pela Comissão da Verdade ao Ministério da Defesa se direcionam ao cerne da segurança nacional, que todo país protege escrupulosamente.
Imagem:   Edo (https://twitter.com/edoilustrado)
A Comissão da Verdade solicitou ao Ministério da Defesa que lhe entregue uma extensa lista de material documental para, segundo alega em carta de 13 de junho passado - dada a conhecer nesta semana -, "cumprir a missão de esclarecimento do conflito armado, oferecer uma explicação ampla da complexidade do conflito e promover um entendimento compartilhado na sociedade sobre as dinâmicas e fatos, especialmente dos aspectos menos conhecidos do conflito".
De fato, as citações da carta são algumas das missões encomendadas à Comissão da Verdade. A lista completa de ditas funções está fixado no acordo com as FARC, na Reforma Constitucional de 2017 (Ato Legislativo nº 1 daquele ano) e em um dos Decretos-Lei expedidos sob o trâmite especial em busca da paz (Decreto-Lei 588/2017).
Essas normas dispõem que a Comissão da Verdade poderá solicitar informação e documentação a todas a entidades públicas, e que estas e seus funcionários deverão apresenta-las, sob pena de incorrer em causa de má conduta punível disciplinarmente. Sim, a lei diz que tal documentação será para efeitos de cumprimento da missão da Comissão da Verdade, que não é jurisdicional, ou seja, seu objetivo - diferente da Jurisdição Especial de Paz - não é o de determinar responsabilidades penais, mas sim políticas e éticas.
No Decreto-Lei expedido pela Administração Santos, se impõe aos funcionários públicos a proibição de contrapor sigilo por razões de segurança nacional quando se trate de informação relativa a fatos constitutivos de violação de direitos humanos, ao direito internacional humanitário (DIH) e crimes de lesa humanidade.
Somente agora, quando essa atribuição da Comissão da Verdade se exerce ante uma entidade tão relevante para o desenvolvimento e resolução do conflito, como é o Ministério da Defesa, boa parte da opinião pública pareceu se dar conta do alcance dos poderes dessa Comissão da Verdade, sobre a qual parece que a sociedade colombiana não estava interessada quando foi negociada pelo Governo e as FARC.
A Comissão da Verdade, então, pede um volume de 40 grupos de informações, algumas compreensíveis e relacionadas com sua missão, mas outras muito preocupantes.
Por exemplo, se pede ao Ministério da Defesa que forneça cópias dos currículos - e, portanto, a identidade - do pessoal de Inteligência e Contra-Inteligência. Ou "os métodos de combate utilizados e estratégias de controle territorial" das FFAA. Ou os documentos de planejamento de ações e operações relacionadas com narcotráfico, ou com o controle de fronteiras.
É grave porque existem pelo menos um grupo guerrilheiro (ELN) ativo, vários do narcotráfico e bandos do Crime Organizado, que estarão interessados em ter acesso a tais documentos, que lhes darão "de bandeja", a estratégia estatal para combate-los. O golpe à segurança nacional pode ser letal. ¿Quem garante que esses documentos de altíssima sensibilidade e de caráter secreto em qualquer país do mundo, não vão chegar a mãos da criminalidade? O simples fato do vazamento dessa carta da Comissão ao Ministério mostra a pouca garantia de sigilo. Isto pode causar graves danos. Que seriam incalculáveis se, da mesma forma que a carta, arquivos de caráter reservado sejam vazados.
Assim como na Comissão da Verdade há comissionados com as mais altas qualidades éticas, também há os que tem irrefutáveis afinidades - evidenciadas em múltiplas publicações - com os grupos guerrilheiros. Olhar a lista da documentação que está sendo exigida ao Ministério da Defesa e às Forças Armadas gera uma verdadeira vertigem.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: Há algum tempo, comentei que a "Comisión de la Media Verdad" colombiana faria o mesmo que sua correspondente brasileira. Com o agravante de terem a experiência do ocorrido no Brasil. Assim, buscam informações melhores para posteriormente atacarem com sucesso os que defenderam a sociedade colombiana contra a narco-quadrilha. Olhem para o Brasil, militares colombianos! O que nossos heróis sofreram serão os sofrimentos de vocês. Agora, no Brasil, boa parte da sociedade pede que os militares voltem a atuar na política e eles se negam, intimidados ao recordar a perseguição que os mais velhos sofreram.
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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Colômbia - Historias de Infiltrados no Crime - Parte 2/2

Um triunfo para a missão, mas uma derrota para o infiltrado
Em 22 de setembro de 2010 foi morto Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”, durante um bombardeio a seu acampamento em La Macarena, Meta. FOTO: Archivo
por Nelson Matta C. e Javier Alexánder Macías
Quando um servidor público atua como agente encoberto, sabe que está em jogo muito mais que o êxito de uma missão.
Entre as histórias de hoje, com que concluímos a postagem sobre os Infiltrados no Crime, a de um militar que terminou aleijado depois de estar 12 anos vivendo com o inimigo.
Nem sempre o Estado recompensa a esses agentes. A norma não distingue seu trabalho e, ao aposentar-se, recebem uma pensão igual a qualquer outro”, conta o especialista em segurança, Coronel (Res) John Marulanda.
Ele conclui que “a inteligência técnica tem um grande desenvolvimento, mas grupos irregulares, como guerrilhas ou o Estado Islâmico, se blindam usando sistemas antigos de comunicação, como cartas e mensageiros. Em troca, nem sempre logram detetar o trabalho da inteligência humana


O Capitão Que Ganhou a Confiança de Um Chefe das FARC
Em 13 de maio de 1996, Mejía(*), um Capitão especialista em infiltrar-se nas guerrilhas, recebeu a ordem que temeu por mais de seis meses: deveria internar-se nas selvas de Meta para buscar a quem na época se considerava como um dos comandantes mais temidos das FARC: Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”.
Mejía, acostumado a lidar com guerrilheiros rasos, não sabia como chegar até a região de El Borugo, uma localidade em Meta que servia de bastião ao comandante do Bloco Oriental, e onde mais tarde se instalariam as jaulas nas quais mantiveram os soldados e policiais sequestrados, imagens que deram volta ao mundo e mostraram o lado mais desumano de “Jojoy”.
Nesse dia fui para casa pensando em como chegar. ¿Que proposta levar a meus comandantes no outro dia para começar a infiltração? Me senti pressionado”, recorda o Capitão.
Essa noite se fez eterna pensando na missão. O sono o venceu pelas 3:30 a.m. e sentiu que o mundo se acabava. Atrás ficaria sua família, por um trabalho do qual nem sabia se poderia regressar.
Um vendedor de cacarecos
Em 13 de agosto de 1996 no parque de La Macarena, Meta, um sujeito com um carrinho de mão percorreu as vielas poeirentas desse município encravado no verdor da selva oriental colombiana. Eram umas duas da tarde e através de um megafone, sua voz oferecia todo tipo de coisas: “compre chinelos, compre sabão, potes para azeite...”.
Chegou vestido de “malandro”. “Me lembro que vesti uma camisa branca guayabera, uma calça café e mocassim. Nesse dia no armazém, eu os ensinei como fazer durar mais as baterias para os rádios”, relata.
Se enturmou no local com essa estória e outros truques de mecânica aprendidos no Exército. Ninguém entendia como nesse povoado afundado no abandono estatal, no qual se chegava por avião em viagens semanais, um antioquenho fosse vender objetos que se conseguia em qualquer esquina. Ele foi posto sob observação. A guerrilha vigiava cada passada de seu carrinho.
Comecei a ver que me seguiam e questionavam por que vendia coisas que eles tinham nessa vila afastada de tudo, então dei mais realismo ao meu trabalho e comecei a vender tênis e roupa que conseguia em Medellín e me chegavam por encomenda, com o avião, a cada duas semanas em La Macarena”.

Conta o Capitão Mejía que o negócio cresceu tanto, que até os guerrilheiros saíam dos acampamentos para comprar meias, roupa intima, calças e camisas para sair de vez em quando para tomar trago nas poucas cantinas que existiam no lugar. “Foi o melhor que me sucedeu, porque assim pude identificar quem era guerrilheiro e quem não era. Em muitas ocasiões eu os via com as camisas quadriculadas que lhes vendia. E dessa forma pude viajar até o acampamento do ‘Mono Jojoy’”.
“Pondo 'Jojoy' a estrear a camisa”
Quatro meses depois de chegar a La Macarena, o Capitão revelou seu nome de infiltrado. Disse a um guerrilheiro que foi busca-lo porque tinha uma razão especial. Seu comandante “Mono Jojoy” queria que “o paisa que vende camisas” lhe levasse uma em especial.
— “¿E como é que tu te chamas?”.
— “Iván Darío Pinzón”, respondeu o militar ao insurgente.
— “A cédula”, replicou o guerrilheiro.
— “Aqui está”, disse o Capitão.
Verificado o número de identidade, o subversivo soltou a pérola esperada por quatro meses:
— “O Mono quer duas camisetas, uma número 24 e outra 31. E uma garrafa de uísque e duas galinhas. Será que tu podes conseguir?”, perguntou.
— “Eu trago tudo que seja”.

E assim foi. Viajou a Bogotá com a missão de trazer o que foi pedido pelo comandante do Bloco  Oriental. Antes da viagem, o Capitão solicitou falar com o chefe guerrilheiro para saber exatamente o que ele queria.
Me levaram ao seu acampamento. Estava gordo e enfermo. Pediu uma camisa xadrez e uma camiseta branca”. Esta viagem foi o primeiro contato com seus superiores em quatro meses de ausência. Dali em diante, a estratégia mudaria para chegar ao “Mono Jojoy”.
Servindo de enfermeiro
O Capitão Mejía regressou com tudo o que pediu “Jojoy”. Se hospedou em um hotel de La Macarena, cuja dona preparava pratos diferentes para “Mono”. — Esse cara mandava fazer até 200 tamales por semana para  distribuir na população —, conta.
Com a entrada livre ao acampamento, Mejía  ganhou a confiança do comandante. Cuidou o  diabetes dele, aplicava a insulina que conseguia em Villavicencio e levava uísque para que se emborrachasse recordando sua terra natal: Chaparral, Tolima.
Mejía, com a desculpa de trazer encomendas de  “Jojoy”, saia para a vila mais próxima, e de um telefone público dava informações a seus superiores. Foi assim que se inteiraram que este comandante era bondoso com os guerrilheiros rasos, que estudava todos os dias até as 12 da noite, se levantava às 5:00 a.m., tomava um café e enviava correspondências eletrônicas ao Secretariado das FARC.
Ganhei tanto sua confiança que inclusive revisava tudo o que lhe chegava e administrei uma de suas granjas na zona de distensão durante as conversações com o governo de Andrés Pastrana”.
Entre 1996 e 2008, o Capitão Mejía entregou informações às Forças Militares que ajudaram a fechar o cerco sobre o “Mono Jojoy”. Foi seu cozinheiro, assessor, enfermeiro e provador de bebidas.
Vi muitas coisas nesses 12 anos infiltrado. O que mais me doeu foi ver cair os meus companheiros e depois ver muitos deles nessas jaulas. Algumas vezes quis me ir, mas pensava que fazia por eles e desistia da ideia”, recorda Mejía.
Enfrentando a morte
Quieto hijueputa o se muere. Yo sí sabía que era un sapo”, disse o guerrilheiro “Oswaldo” quando encontrou o Capitão Mejía transmitindo um relatório sobre o “Mono Jojoy”, em 22 de junho de 2008. Ele dava as coordenadas para uma  primeira operação.
Vinham seguindo ele há um mês e comprovaram suas suspeitas quando pediu permissão para ir buscar umas botas para o chefe subversivo e foi telefonar. Ao se ver descoberto, o Capitão Mejía se pôs a correr montanha abaixo sob uma torrente de balas. Ferido, se jogou no rio Guayabero e nadou até sentir desvanecer sua vida. Foi resgatado por uma patrulha do Exército que o levou à base e dali foi transladado ao Hospital Militar. Hoje o Capitão Mejía passa seus dias em uma cadeira de rodas. Perdeu a mobilidade de suas pernas, mas sente que valeu a pena dar tudo pela pátria que o viu nascer.



Perdeu sua Família por Desmantelar Uma Rede de Narcos
Por seu trabalho de 12 anos, em que se infiltrou varias vezes na máfia como negociador de armas e drogas, o Departamento Administrativo de Segurança (DAS) escolheu o detetive Gabriel(*) para a missão.
O caso surgiu desde a Embaixada da Austrália, segundo a qual havia uma organização clandestina traficando cocaína desde a Colômbia para a Oceania. Era a primeira vez que escutávamos sobre uma rota de narcos para esse destino”, recordou um dos agentes que conheceu a operação.
A pedido da Polícia Federal Australiana (AFP), Gabriel devia atuar como agente encoberto para identificar os integrantes da rede. Segundo consta no Relatório Anual de Operações Controladas da AFP (2010-11), dali em diante o denominaram “Undercover Operative 57189”.
Este foi o primeiro caso documentado em nosso país, com base no novo Código Penal (Ley 906 de 2004), onde um juiz de controle de garantias autorizou um procedimento deste tipo.
Os australianos sabiam que no mercado negro havia gente buscando estupefacientes em Bogotá para enviar a Melbourne, e essa era a oportunidade que deviam aproveitar. Gabriel não tinha claro quanto duraria a missão. Em novembro de 2006 se despediu de sua esposa e seus dois filhos pequenos, e não voltou a sua casa nem a seu escritório.
Devia deixar para trás sua vida cotidiana e transformar-se em comerciante de um dos San Andrecito [feiras de produtos estrangeiros] de Bogotá. “Uma quadrilha de extorsionistas era dona de uma loja de roupas. Pressionamos para que nos entregassem esse espaço, em troca de não captura-los. Em questões de Inteligência, às vezes há que fazer tratos com bandidos”, indicou a fonte.
Gabriel apareceu como o novo dono do negocio e tinha como empregada uma vendedora que ignorava a trama de fundo. Para fortalecer sua fachada, a embaixada arrendou um apartamento de luxo na localidade de Usaquén e lhe entregou, junto com um Chevrolet Aveo, um automóvel que naquele momento era una novidade na Colômbia.

Os detetives identificaram o encarregado que buscava a droga. Gabriel fez contato e disse que estava em condições de conseguir uma carga de alta qualidade e se pactuou uma reunião deste e o comprador no apartamento de Usaquén. O DAS instalou câmaras e microfones na sala, cozinha e sala de jantar, e na rua em frente permanecia uma caminhonete de Inteligência Técnica, com a aparência de uma ambulância, registrando cada movimento.
Para surpresa de todos, o comprador era um jovem de apenas 24 anos, que chegou em um automóvel Bora e se fazia chamar “Iguano”. “Era um jovem aparentando boa vida, roupas de marca, com corpo 'malhado', 1.80 metros de estatura, despreocupado, desses que acordam às dez da manhã”.

Como teste, foi vendido um quilo de cocaína de alta pureza. O estupefaciente foi fornecido pela embaixada, produto de uma apreensão anterior. "Iguano" viajaria com a encomenda por via aérea, e assim Gabriel entregou a mercadoria em uma caixa de papelão com um minúsculo dispositivo GPS escondido em sua parede corrugada. A droga partiu do aeroporto Eldorado e fez escala no Chile, para depois chegar a Melbourne. Dessa maneira, o DAS e a AFP começaram a decifrar a rota.
Aos 35 anos, o agente 57189 era um pai de família abnegado, que ia à ciclovia com as crianças, ao mercado com a esposa e comia em quiosques. Mas para entrar no círculo de confiança do “Iguano” devia aparentar o estilo de vida de um playboy solteiro.
No apartamento houve ao menos oito festas, com mulheres e trago para todo lado. Também festas eternas em discotecas da moda, onde se tomavam uísque sem piedade,
para que o rapaz soltasse a língua.
Nas manhãs, Gabriel ia ao San Andrecito para receber o balanço das vendas, fazia pedidos e saudava os demais comerciantes com normalidade. Nas tardes seguia a dramatização, almoçando com garotas estonteantes em restaurantes tão caros que os agentes de apoio que o seguiam à sombra nem entravam, por falta de orçamento.

Nessa época, funcionários públicos como Gabriel não ganhavam mais que $1’500.000 mensais (cerca de 1500 reais). Agora, com uma conta de gastos reservados alimentada pelas arcas da embaixada, o agente podia fingir, ao menos por algum tempo, que era um ricaço.

Ausências que doem
O teatro deu seus frutos. O “Iguano” começou a tratá-lo como amigo e o convidou para ser acionista nas encomendas. O detetive forneceu dinheiro, com o qual foi comprada droga nas Planícies do Leste. Assim aprendeu outra rota de envios por mar: Buenaventura-Tahití-Ilhas Cook-Australia. E também soube o nome real de seu sócio: Fabio Esneider Rodríguez Mora, dono de lojas em outro San Andrecito.
Os avanços no caso tiveram um alto preço na vida pessoal de Gabriel, que durante oito meses, não pode visitar sua família. A equipe de apoio, que o vigiava em cada deslocamento, percebeu que havia homens suspeitos que o seguiam em motos. Era claro que os traficantes queriam saber com quem estavam lidando. Quando isso sucedia, o DAS coordenava uma falsa detenção com a estação policial mais próxima. Se pedia como favor aos patrulheiros que o detivessem na via e, sob o pretexto de verificar seus documentos, o levavam ao comando. Em uma dessas ocasiões, Gabriel havia prometido a seus filhos que iria visita-los, mas no caminho seus colegas detectaram a perseguição e ordenaram sua detenção e traslado à estação de Suba [bairro de Bogotá].
A falta de seus seres queridos começou a lhe afetar. Queria abraça-los, estar com eles. Uma noite, bêbado e em plena festa com “Iguano”, ligou por telefone à sua esposa. Desejava escutar sua voz, mas seu personagem o traiu e ele chamou sua mulher pelo nome de outra, desencadeando uma forte discussão do casal.
A missão concluiu em julho de 2007, quando já estavam identificados os comerciantes da cocaína na Austrália. Segundo consta nos jornais daquele país - The Age e The Herald Sun -,  em Bogotá
foi capturado o “Iguano” e, em Melbourne caíram seu tio José Arturo Quiroga e os sócios Carlos Hernán Torres Ortegón, Cenk Van e Paul Pavlou.
Gabriel voltou para casa, onde a ferida de sua ausência já não fechava. Alguns companheiros intercederam, falaram com a esposa, mas não podiam revelar em que missão ele esteve. Ela não acreditou, “vocês se cobrem com o mesmo cobertor”, replicava. A historia terminou em divorcio.
A Gabriel foi concedido uma menção honorífica, sigilosa, na Diretoria do DAS em Bogotá. Depois de sacrificar seu lar na luta contra o crime, foi só o que recebeu.

(*) Os nomes dos agentes foram modificados para proteger sua segurança.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
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