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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O Silêncio do Populismo

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Imagem da Internet
por Renato Sant'Ana
Ela era mulher, negra, jovem e estava mais para pobre que para classe média: recebia o modesto salário em parcelas e atrasado. Marciele Renata dos Santos Alves, 28 anos, policial militar, foi assassinada em ação, no enfrentamento com uma quadrilha no Vale do Rio Pardo, RS.
O que vão dizer agora os "coletivos" que se julgam detentores de mandato para falar em nome das mulheres, dos negros e dos pobres? Cadê o ruidoso (e "fake") ativismo dos direitos humanos?
Quando a vereadora Marielle Franco foi assassinada, um crime repulsivo, claro, em poucas horas, graças à mobilização frenética de certos "movimentos" e com o auxílio inestimável da extrema-imprensa, viu-se a mais agressiva tentativa de provocar comoção e de construir um mito.
Ela morreu na noite de 14/03/2018 com seu motorista, Anderson Gomes. Duas horas após o fato, segundo Rute de Aquino (O Globo, 17/03/18), "eram registrados 594 tuítes por minuto". Até parecia que os "movimentos" estavam de plantão a espera de um cadáver.
Levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV/DAPP), apurou que, das 21h de 14/03/18 (logo após o crime) às 10h30min de 16/03/18, para efeito de impulsionamento de conteúdo nas redes sociais (um truque de manipulação), foram usados 1.833 robôs nos tuítes publicados sobre a morte da vereadora.
O resultado foi considerável. Embora ninguém conhecesse a motivação nem a autoria do crime, em menos de 12 horas, já havia pessoas por todo o país que, jamais tendo ouvido falar no nome dela, se sentiam de luto e até apontavam culpados. E, claro, como esponjas, absorviam o conteúdo subliminar das "narrativas" de redes sociais.
Naqueles dias, inumeráveis crônicas e artigos lembraram o caso da juíza Patrícia Acioli, assassinada com 21 tiros numa emboscada em Niterói.
Tudo para dizer que a comoção pela morte de Marielle foi muito maior.
A juíza, nos últimos 10 de seus 47 anos, mandou para a cadeia cerca de 60 bandidos da Baixada Fluminense ( inclusive policiais e milicianos).
Seu nome entrou numa lista de 12 pessoas que o crime organizado
pretendia executar. Ela, sim, foi testada em sua coragem. E jamais recuou. Patricia Acioli passou à história como "juíza linha dura".
Mas para Samira Bueno, então diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, "Se alguém carregava em si toda a representação do que é a vulnerabilidade gerada pela violência, essa pessoa era ela [Marielle]", isso porque era mulher, negra, de origem simples, "militante" dos direitos humanos e lésbica.
Patricia Acioli não era essa polivítima. Logo, não servia para, de uma só tacada, propagandear as agendas que a esquerda roubou das mulheres, dos negros, dos pobres, dos homossexuais, etc.
A comparação entre Patrícia e Marielle foi um tiro que saiu pela culatra, servindo para desmascarar o planejado "culto à personalidade" da vereadora e o propósito populista desse expediente.
Cada vez mais, mulheres, negros, homossexuais e pobres do país rejeitam a credencial de vítima que a esquerda lhes oferece.
E é cada vez mais ampla a consciência de que bondade, egoísmo, dignidade, estupidez, respeito e propensão ao abuso nada têm a ver com sexo, cor da pele nem classe social.
E a isto chegamos: hoje, apesar da tremenda mobilização inicial e de o nome de Marielle seguir sendo usado a torto e a direito pela mídia amestrada, por estudantes de passeata e assemelhados, a invenção de um Che Guevara de saia não vingou.
De Marciele Renata dos Santos Alves, sabe-se que não vai interessar a "movimentos" populistas. Era uma mulher de ação. Não incorporava o vitimismo. E deu iniludíveis provas de coragem.
Como disse o governador Eduardo Leite, Marciele "Levou ao limite o seu juramento colocando a própria vida em risco para proteger a sociedade."
Ela tem o reconhecimento e a homenagem desta coluna, porque seu exemplo ilumina e inspira.
Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.
E-mail: sentinela.rs@uol.com.br
Fonte:  Blog do Políbio Braga

domingo, 3 de novembro de 2019

Rússia Cria sua Rede Própria e se Prepara Para Uma Possível Ciberguerra

O regime de Vladimir Putin criou normas que, para o ocidente, afetam as liberdades dos cidadãos. A oposição tenta fazer política em um contexto adverso.
FOTO REUTERS
por Juliana Gil Gutierrez
Só depender de si mesmo. Esse é o objetivo da Rússia com a criação do Runet, um projeto soberano da Internet que objetiva que o país garanta o funcionamento da rede e que o sistema russo possa se isolar dos grandes servidores mundiais se detectar uma ameaça externa. Isto, em palavras simples, significa que o governo poderia operar e monitorar a conexão sem necessidades externas.
A Rússia diz que é um método de defesa contra nações hostis como os Estados Unidos, que controla grande parte do espectro, mas os defensores dos direitos humanos indicam que é uma maneira de monitorar e limitar a liberdade. A Human Right Watch, por exemplo, disse que "o governo agora pode censurar diretamente o conteúdo ou até transformar a Internet russa em um sistema fechado sem informar sobre o que fez ou por quê".

O que diz o novo regulamento
Os provedores de Internet terão que instalar equipamentos que direcionam o tráfego através de servidores russos, dando às agências estatais a capacidade de monitorar e controlar informações. É uma tática para rotear o tráfego, o que, na prática, oferece a possibilidade de bloquear conteúdo externo.
Se alguém atacar o sistema, Roskomnadzor  a agência estatal encarregada da Internet , poderá assumir o controle de toda a rede do país e isolá-la dos servidores mundiais. Ele também terá sua própria versão dos sistemas de endereço de rede (DNS), que são grandes bancos de dados que hospedam informações em páginas da internet.
O professor titular de Engenharia de Sistemas da Universidade Javeriana, Rafael González , explica que o RuNet dará à Rússia suficiência de armazenamento e processamento de informações, mas também soberania sobre toda a infraestrutura de rede. "Em um contexto geopolítico, pode ser preocupante, mais em um cenário como o atual, onde já falamos sobre guerra cibernética e defesa cibernética", diz o especialista.
Essa soberania na qual o regime de Vladimir Putin aposta significa que, toda vez que um endereço é pesquisado, o serviço de Internet ao qual ele está conectado deve rastreá-lo nos diretórios que o próprio governo controla. A Rússia também pretende que todos os portais acessados ​​pelo país sejam hospedados no domínio .ru.

Ameaça à liberdade?
A Rússia implementa o RuNet no mesmo contexto em que bloqueou o acesso de seus cidadãos ao Dailymotion, LinkedIn e Telegram. Não é que Moscou viva em uma bolha em relação à rede do resto do mundo: no país você pode entrar no Google, Mozilla Firefox, Facebook, Instagram, entre outras plataformas. A questão é que o regime agora centralizará os movimentos de seus cidadãos em rede.
O El Colombiano consultou uma jornalista que mora em Moscou, e ela informou que, embora na sexta-feira (01 Nov 19) tenha iniciado a vigorar o novo regulamento, até o governo de Putin precisa fazer ajustes que levarão até um ano para implementar completamente o RuNet. Ela diz que acessa sites bloqueados pelo regime por meio de uma VPN (rede virtual privada), uma tecnologia que esse país declarou ilegal em julho de 2017.
Nosso governo quer controlar tudo. Eles não fecharam a Internet, mas pretendem controlar algumas pessoas, especialmente políticos da oposição”, disse em um telefonema desde Moscou.
Por esse motivo, é que o regulamento foi rejeitado pela população e houve até manifestações contra ele em abril e maio, quando ainda estava em andamento na Duma Estatal (Parlamento russo). No final, o projeto de lei foi aprovado, apesar do freio à cidadania.

Disputa com o Ocidente
Países como China e Coréia do Norte estão apostando em uma Internet soberana como a Rússia, uma rede independente do ocidente. No entanto, Pequim foi além: possui redes sociais próprias e centralizou completamente a conectividade de seus cidadãos. O internacionalista russo e professor da Universidade Icesi de Cali, Vladimir Rouvinski , comenta que a medida adotada pelo governo Putin não é semelhante à desses países.
Estamos vendo uma segunda Guerra Fria entre a Rússia e o Ocidente. Moscou teme que a outra parte do mundo possa controlar a Internet dentro do país. Mas não é como na China, e o regulamento tem uma motivação: dar segurança”, diz Rouvinski. O professor também diz que a norma formaliza o que as autoridades vêm fazendo há muito tempo, para que não haja mudanças drásticas no acesso à rede.
Um compromisso com a segurança da Rússia ou um freio à liberdade para o Ocidente, mas o [resultado é que] o país tem sua Internet própria com a qual promete ser soberano na rede. Igual a quando um governo quer ser auto-suficiente para fornecer alimentos ao seu povo, mas com as condições da era digital.

Cerco à oposição
Em julho, o oposicionista russo Alexéi Navalni foi preso por 30 dias por encorajar manifestações pedindo eleições justas. Enquanto Navalni foi privado de sua liberdade, foi envenenado. Em agosto, no meio da campanha para eleições regionais, a polícia revistou casas de candidatos que se opunham ao governo. Esses casos lembraram o de Boris Nemtsov, um forte histórico político adversário de Putin, morto a tiros no centro de Moscou em 2015. O assédio e a falta de garantias de liberdade de expressão, e agora esta regulamentação da Internet, atormentam a oposição na Rússia.

Concluindo
A regulamentação do acesso à Internet na Rússia pode se tornar uma limitação à liberdade de expressão dos cidadãos russos pelo controle estatal implícito nas condições de criação da RuNet.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: este é um assunto que merece um estudo muito bem balanceado entre a manutenção da segurança e as liberdades civis. Até que ponto o Governo de um país deve permitir o livre uso das redes cibernéticas, quando este uso pode afetar a Segurança do país?? Até que ponto um Governo pode regular o uso da Internet pelos cidadãos do país??  É o eterno dilema de quem trata sobre Segurança: dosar Segurança X Liberdade.
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domingo, 27 de outubro de 2019

A Nova Arremetida da Esquerda na América Latina

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O texto abaixo se refere à Colômbia, mas serve de alerta a todos os países da América Latina que julgávamos livres do flagelo marxista, particularmente o Brasil.
Sublevações sob motivos medíocres, são conduzidas criminosamente para se tornarem violentas, provocando as Forças de Segurança, a fim de produzirem vítimas e, assim, colocarem a população em franca oposição aos governos democráticos.
Não devemos nos espantar se fatos semelhantes começarem a surgir no Brasil, em atendimento às diretrizes do Foro de São Paulo, agora disfarçado de "Grupo de Puebla", a nova denominação da quadrilha.
Foto:  Grupo de Lima 
COLÔMBIA DIANTE DE VÁRIOS ESPELHOS
Equador, Chile e Peru: nosso país deve captar os sinais dos países vizinhos. Nem todas as causas são transferíveis, mas há elementos comuns. O caso do Chile é muito relevante.
Foi dito na terça-feira passada que a Colômbia e seu governo devem observar com mais atenção o que está acontecendo no Chile, bem como os fatos recentes no Equador. E acrescentaríamos, ainda, os do final do mês passado no Peru.
Equador, pela ampla mobilização de protestos contra as medidas de ajuste econômico e pela opção, finalmente atendida pelo governo, de revogar a medida de acabar com os subsídios estatais à gasolina, o que havia tornado os preços mais caros para os usuários.
Peru, devido à situação fronteiriça de ingovernabilidade em que o confronto sem saída entre o Poder Executivo e o Congresso levou ao encerramento da legislatura deste e à convocação de eleições legislativas antecipadas.
Chile, em função do que hoje já é uma mobilização de caráter nacional, e que desde seu início extrapolou o protesto pelo aumento de passagens do metrô da capital, Santiago. O governo de Sebastián Piñera, acuado, socorreu-se nos militares e nos últimos dias, tenta recompor pela via politica um grande acordo nacional, junto com o controle da ordem pública, social e econômica.
A autocrítica, com um pedido de perdão incluído, expresso por Piñera em um discurso televisivo nacional, superou até o que os partidos de oposição mais radicais esperavam. Paradoxalmente, depois de ouvi-lo e receber o convite para participar das rodadas de um acordo nacional, as forças de esquerda preferiram marginalizar-se e concentrar seus esforços no incentivo à mobilização nas ruas.
Que não conseguira entender o que se movia sob o descontentamento, e a promessa de iniciar uma reviravolta em toda política econômica e social, foi o mea culpa de Piñera, mas não foi suficiente para tranquilizar o país. A questão de saber se o mesmo poderia acontecer por aqui não é simples alarmismo ou especulação caprichosa.
As circunstâncias são muito específicas para cada país, mas existem correntes de opinião facilmente inflamáveis. Na Colômbia, como no Chile, havia uma opinião especializada que coincidia com a versão segundo a qual as bases macroeconômicas eram tão firmes que não havia riscos, pelo menos iminentes, de instabilidade política e institucional.
Na Colômbia, existe um governo moderado e democrático, mas sujeito a assédio político de vários lados, incluindo aliados parlamentares. A campanha diária e permanente dos adversários é incitar a mobilização social, "sair às ruas" sob qualquer pretexto. Isso ficou explícito em marchas como as dos movimentos estudantis. As imagens do Equador e do Chile produzem entusiasmo inquestionável nos políticos colombianos que gostariam da mesma coisa ocorrendo por aqui.
Ao apelo persistente à responsabilidade dos líderes, políticos ou de opinião, para que não exacerbem o ódio, deve-se unir um mais forte aos dirigentes e àqueles que têm responsabilidades institucionais, para que cumpram os princípios e políticas da boa governança, da luta contra a corrupção, que gerem e não freiem o desenvolvimento, que visem revitalizar a criação de empregos e a formalização do trabalho. Mais que tudo: políticas melhores e mais eficazes de igualdade e equidade social.
Uma população da qual são exigidas contribuições cada vez maiores, enquanto por outro lado, grandes setores são informados de que tudo devem esperar do Estado sem que lhes peçam maiores contribuições para sustentar essas obrigações, unem lado a lado os motivos crescentes de inconformismo. Não devemos antecipar eventos ou gerar pessimismo, mas devemos ouvir sinais que nem os líderes nem a sociedade devem ignorar.
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: se no Chile e na Colômbia a situação politico econômica pode ser qualificada como estável, o mesmo não se pode dizer do Brasil. A "herança maldita" herdada do petismo ainda se faz muito presente nesta parte inicial do governo de Jair Bolsonaro.
Não podemos esquecer dos que, ao se depararem com um país estável graças ao "Plano Real" do esquecido Itamar Franco — não contentes em roubar o máximo possível —, se dedicaram a manterem-se no poder pela compra do "lúmpen proletariado" por meio da criação de direitos e mais direitos, particularmente financeiros, sem a preocupação de sustentar a estabilidade encontrada. E esses meliantes ainda estão agindo ativamente na sabotagem ao atual governante — contando com a cumplicidade de muitos sedizentes aliados, que somente visam colher benefícios políticos enquanto puderem, exibindo suas faces velhacas logo que tais benefícios possam ser obtidos na oposição.
Ao mau indício advindo da renovação do insidioso Foro de São Paulo sob a nova denominação de "Grupo de Puebla", soma-se o novo período de governo obtido por Evo Morales na vizinha Bolívia.
Não se pode desprezar, ainda, a crítica de outro analista colombiano à hesitação de Sebastián Piñera não reprimindo de pronto as primeiras manifestações tresloucadas e, também, ao não ataque aos gastos públicos — leia-se à maquina burocrática ainda dominada por esquerdistas nela encravados. Tudo muito igual a um outro reino "deitado em berço esplêndido" que conhecemos.
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sexta-feira, 22 de março de 2019

Base Espacial Chinesa na Patagônia Preocupa.

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A desproporcional base espacial que o governo nacionalista-populista de Cristina Kirchner concedeu à China na Patagônia causa cada vez mais preocupação na Argentina e no mundo, como pode se ver em reportagem do jornal portenho La Nación”.
Base Chinesa na Patagônia não é só civil, diz Exército dos EUA
Teme-se cada vez mais sobre sua verdadeira finalidade. Recentes fatos, como o pouso de uma nave chinesa no lado escuro da Lua multiplicaram os temores.
A base dirigida pelo Exército Vermelho comunista teria também um objetivo militar.
Durante milênios as guerras e as hegemonias imperiais tinham como objetivo supremo o domínio da superfície terrestre.
Em séculos recentes, os impérios coloniais como o inglês privilegiaram o controle dos mares, e dos estreitos que controlam a navegação.
A II Guerra Mundial transferiu essa importância ao controle do ar.
As forças aéreas os aviões primeiro, e os mísseis posteriormente passaram a ser determinantes para o domínio do mundo ou de continentes inteiros.
Hoje o controle do espaço e das comunicações via satélite para usos militares é campo de luta primordial para as potências.
Nesse contexto foi posta em funcionamento num local desértico e afastado uma estação espacial chinesa de observação e exploração que diz ter finalidades “pacíficas”. E isso é o que cada vez menos se acredita.
Pequim ganhou de mão beijada uma área de 200 hectares, perto do povoado de Bajada del Agrio, na província de Neuquén, na estepe patagônica.
A área é na prática um enclave soberano chinês. Funciona sem supervisão das autoridades argentinas, leia-se só vigora a lei chinesa, os trabalhadores e cientistas só são chineses, que não falam espanhol, quase não se fazem ver e obedecem a um general do Exército vermelho.
Infografia publicada pela imprensa argentina
A agência Reuters obteve acesso a centenas de páginas de documentos oficiais dos acordos, aliás secretos, assinados por Kirchner. A documentação foi revista por especialistas em direito internacional.
Os EUA consideram que a China está “militarizando” o espaço e que a estação da Patagônia, acordada secretamente com um governo corrupto é mais um exemplo de táticas chinesas predatórias da soberania das nações, explicou Garrett Marquis, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca.
Por sua vez, Tony Beasley, diretor do Observatório Nacional de Radioastronomia dos EUA avala que a dita base pode “escutar” os satélites de outros países para surrupiar dados confidenciais. 
Trinta empregados chineses trabalham e moram na base que não admite argentinos, disse a prefeita local, Maria Espinosa. Os habitantes da zona rara vez veem alguém na cidade.
Alberto Hugo Amarilla, dono de um pequeno hotel, conta que um funcionário chinês o saudou com entusiasmo pois tinha sabido que era oficial retirado do exército. O chinês era general...
Base funciona como território soberano chinês.
Apresentando seu informe anual, no Congresso, o chefe do Comando Sul dos EUA, o Almirante Craig S. Faller, manifestou sua “preocupação” porque a base chinesa pode “monitorar alvos estadunidenses”, escreveu o quotidiano Clarin de Buenos Aires. 
Os perigos da penetração informática militar da China na Argentina atingem toda a América do Sul. 
Eles são acrescidos à expansão de empresas engajadas com a telefonia celular, como a Huawei e a ZTE que “penetraram agressivamente na região”, com uma estratégia que “põe em risco a propriedade intelectual, dados privados e segredos de governo”. 
O Pentágono considera, além do mais, que essas empresas incluem dispositivos nos smartphones que comercializam para grampeá-los e repassar os dados à China.
De maneira análoga, segundo a agencia britânica Reuters a base chinesa age como uma “caixa preta” para registrar toda espécie de informações sensíveis. 
Segundo militares citados pela revista Foreign Policy a forma do imenso radar revela que é usado para reunir informação sobre a posição e as atividades dos satélites militares americanos. E sublinham que a China fala muito de um espaço livre de armas, mas é a primeira em não respeitar o que diz. 
No Congresso estadunidense, o almirante Faller elencou entre as “principais ameaças” à paz mundial, a Rússia, a China, o Irã, e seus “aliados autoritários” de Cuba, Nicarágua e Venezuela.
O jornal portenho Clarín publicou fac-símiles do tratado secreto que confirmam esses temores. 
O tratado cria “uma zona de exclusão”, que tem um raio de até 100 kms em volta dos 200 hectares. Nessa “zona de exclusão”, os civis argentinos não poderão acionar aparelhos que usem ondas de rádio “como equipamentos domésticos, dispositivos para carros,” etc.
O prefeito de Bajo del Agrio, a localidade mais próxima à base, Ricardo Fabián Esparza, usou uma metáfora caseira para dizer que tudo se passa como se os chineses quisessem espionar até as peças íntimas de nosso vestuário.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Lucho, o Policial Que Aniquilou 19 Chefes das FARC


O agente da Polícia morreu de câncer.
Partiu com 14 condecorações e a gratidão de sua pátria.
 Luis Sierra em dois momentos de sua vida: internado na selva (dir.) e recebendo o Premio de melhor policial
 Foto:   Arquivo particular
Por Unidad Investigativa
A Polícia se prepara para render honras póstumas a Luis Eduardo Sierra Guerrero, o Subintendente (grau hierárquico superior aos Patrulheiros e subordinado aos Comissários) especialista em Inteligência que passou a metade de seus treze anos de carreira infiltrado nas FARC.
Aos 26 anos se internou na zona de Darién e do Urabá para localizar acampamentos, camuflar dispositivos de localização por satélites que permitir o Exército e a Força Aérea colombiana bombardear com precisão pelo menos quinze objetivos de alto valor da guerrilha.
Suas atuações foram retribuídas por dezenove citações elogiosas e quatorze Condecorações de seus superiores, que ele só podia receber durante os dias de descanso que tinha entre uma missão e outra.

Para se infiltrar nos bandos de ladrões de joalherias e de guerrilheiros, Sierra assumiu os papéis de indigente, serralheiro, fornecedor de víveres e até de pretendente da prima de um líder guerrilheiro.
“Quando alguém se infiltra tem que trocar o chip. Adeus família e adeus até a teu nome. Se não souberes manejar a situação, isto pode te custar a vida”, disse Sierra a El Tiempo há um mês, quando recebeu o Prêmio Coração Verde, como melhor policial da Colômbia.
Nessa ocasião, chegou à entrevista ajudado por uma bengala e admitiu que o prêmio revigorava seu desejo de viver, depois que foi diagnosticado com um câncer agressivo e terminal
Suas batalhas
Apesar da evidente deterioração física, Sierra conseguiu revelar ao país alguns episódios desconhecidos que ele e seus companheiros da Direção de Inteligência da Polícia (DIPOL) vivem para subjugarem a guerrilha e a outras organizações armadas à margem da lei.

Eles passam meses infiltrados na selva, sem contatar a família e até choram em silêncio. Mas depois que as operações são lançadas, o esforço vale a pena. Desarticulamos várias estruturas de guerrilha e apoiamos operações de  outras forças”, disse o Subintendente a El Tiempo.
Sierra nasceu em Manizales em 2 de maio de 1985 e cresceu no bairro Cervantes, que na época era um dos mais turbulentos da capital de Caldas.

Seus amigos contam que desde sua infância identificava e se acercava dos delinquentes da zona, como meio para proteger sua vida e a de sua família. 
Ingressou na Polícia em maio de 2004, com apenas 19 anos, no cargo de Auxiliar. Dois anos depois já era Patrulheiro de Vigilância no Departamento de Polícia do Valle.

Mas foi em 2007 que iniciou sua carreira na Inteligência Policial.
Nessa época, foi nomeado Investigador em Buenaventura, onde chegou até a dormir na rua, fazendo-se passar por indigente, com a finalidade de desarticular uma quadrilha de ladrões que assolavam o porto.
Urinei sobre uma roupa velha, deixei no sol, a coloquei e me caracterizei como mendigo para executar minha primeira missão como membro de Inteligência da Polícia Nacional: capturar uma quadrilha de assaltantes que roubava joalherias e casas de penhores em Buenaventura. Depois de dormir varias noites na rua e fingir que consumia alucinógenos, tivemos sucesso, e meu Major pediu que me indicassem ao Grupo Especial de Inteligência de objetivos de alto valor das FARC”, contou Sierra a este diário.

E afirmou que, embora muitos não acreditem, foi difícil seduzir uma parente de um guerrilheiro a fim de localizar outros acampamentos na fronteira com o Panamá.
Lá, noivei com a prima de um dos chefes da segurança da guerrilha, em uma questão puramente estratégica. Foi difícil corteja-la e estar com ela. Eu tinha 27 anos, e ela era uma morena nove anos mais velha, e eu concebo o amor de uma maneira diferente. Foi incômodo, mas consegui até compartilhar um sancocho (ensopado típico) com o primo. Me convidaram até para as festas de fim de ano. Aguentei porque visávamos o chefe das FARC que manejava o narcotráfico da zona e a compra de armamento para quase todas as frentes guerrilheiras. E logramos captura-lo”, narrou.
Conforme seu currículo, Sierra participou de sete Operações chaves e classificadas como Secretas, que permitiram a eliminação de quinze chefes de bandos e capturar dezenove criminosos classificados como de "alto valor", inclusive um chefe das FARC que posteriormente compôs a delegação de paz dos guerrilheiros em Havana.
O Ocaso
Quando Sierra recebeu o reconhecimento como melhor policial da Colômbia, em 28 de setembro passado, já estava tomando uma dúzia de diferentes medicamentos diariamente, a maioria à base de morfina, para amenizar a dor.
E, ainda que tenha chegado altivo para receber o prêmio, uma semana depois confessou a El Tiempo que já havia perdido a mobilidade em 60% de seu corpo e que tinha que se deslocar usando uma cadeira de rodas.
O tumor de 19 por 14 centímetros, descoberto em 2016 em sua glândula suprarrenal direita, se converteu em seu pior inimigo. Apesar de ter sido retirado cirurgicamente, já havia feito metástases em seus pulmões, fígado, coluna e em outras cinco partes de seu corpo. E, mesmo que Sierra o tenha enfrentado bravamente, terminou levando-o.
O Diretor da Polícia, General Jorge Nieto, se encarregou de informar ao país que o valente Subintendente Sierra havia falecido.
Semanas antes de o internarem em uma clínica de Medellin, tudo estava pronto para que o promovessem a Intendente, um reconhecimento que a Instituição fará postumamente à sua família.
Creio firmemente em Deus e vou lutar por minha vida. Recebi o premio em nome dos 180.000 policiais bons que saem diariamente a arriscar suas vidas pela pátria”, disse em sua última entrevista.
Unidad Investigativa
u.investigativa@eltiempo.co
Twitter: @uinvestigativa
Fonte:  tradução livre de El Tiempo

sábado, 15 de setembro de 2018

Alemanha: Ascensão dos Salafistas

por Soeren Kern
Tradução: Joseph Skilnik
Milhares de pessoas ouvem com atenção o pregador salafista Pierre Vogel discursar em um comício para simpatizantes em 9 de julho de 2011 em Hamburgo, Alemanha. (Foto: Christian Augustin/Getty Images)
O número de salafistas localizados na Alemanha mais que dobrou nos últimos cinco anos, ultrapassando pela primeira vez a marca dos 10 mil, de acordo com a Agência de Inteligência Interna da BfV da Alemanha. A BfV calcula que haja na Alemanha mais de 25 mil islamistas, dos quais praticamente 2 mil representam uma ameaça iminente.
Os dados fazem parte do último relatório anual do Departamento Federal para a Proteção da Constituição (Bundesamt für Verfassungsschutz, BfV), apresentado pelo ministro do interior, Horst Seehofer e pelo presidente do BfV, Hans-Georg Maaßen em Berlim em 24 de julho.
O relatório, considerado o mais importante indicador de segurança interna da Alemanha, desenha um quadro sombrio. O BfV calcula que o número de islamistas presentes na Alemanha aumentou de 24.425 em 2016 para no mínimo 25.810 por volta do final de 2017.
Causa espécie que o relatório não forneça nenhuma estimativa quanto aos dados no tocante aos seguidores do Estado Islâmico ou da al-Qaeda que vivem na Alemanha. Consequentemente, a verdadeira dimensão do número real de islamistas presentes na Alemanha é, indubitavelmente, maior do que 25.810.
Segundo o relatório, os salafistas formam o maior grupo islamista da Alemanha. O número de salafistas presentes na Alemanha saltou para 10.800 em 2017, dos 9.700 em 2016, 8.350 em 2015, 7.000 em 2014, 5.500 em 2013 e 4.500 em 2012.
O relatório do BfV ressalta:
"Os salafistas se veem como guardiões do Islã original, puro. Eles modelam sua prática religiosa e seu estilo de vida exclusivamente nos princípios do Alcorão, do Profeta Maomé e das três primeiras gerações muçulmanas, os assim chamados antepassados justos (Al-Salaf al-Salih em árabe). Como consequência, os salafistas querem implantar uma "teocracia" de acordo com a sua interpretação das diretrizes da Lei Islâmica (Sharia), na qual não se aplica mais a ordem democrática liberal.
"Os jihadistas salafistas e os políticos salafistas nutrem basicamente a mesma ideologia. A diferença primordial são os meios para atingirem seu objetivo, a "teocracia salafista". Os políticos salafistas disseminam a ideologia islamista fazendo uso de intensa propaganda, que eles retratam como 'trabalho missionário' (Dawa), para transformar a sociedade por meio de um processo de longo prazo, segundo as normas salafistas.
Muitos políticos salafistas se posicionam contra o terrorismo. Eles enfatizam a natureza pacífica do Islã e rejeitam o chamamento aberto à violência. No entanto, vale a pena lembrar que o salafismo político tem uma relação ambivalente com a violência porque, em princípio, não exclui a violência inspirada na religião como meio de atingir seus objetivos.
Ao interpretarem o Islã, os políticos salafistas fazem uso seletivo das obras clássicas da literatura jurídica islâmica, que sustenta profunda afinidade com a violência quando se trata de lidar com não muçulmanos. Os salafistas acreditam que a reivindicação universal do Islã, devido à sua superioridade como plano divino de salvação para toda a humanidade, deve ser imposta por meio da força, se necessário, portanto, no cerne, a aprovação do uso da violência é parte intrínseca da ideologia salafista.
"As duas correntes salafistas têm visões diferentes, mas passíveis de conciliação à luz do pré-requisito, a violência pode ser usada. Isso explica porque a transição do salafismo político para o salafismo jihadista é acomodável".
O relatório do BfV assinala que os salafistas estão concentrando seus esforços proselitistas e de recrutamento em migrantes que buscam refúgio na Alemanha:
"Sob o pretexto de ajuda humanitária, os islamistas conseguiram radicalizar inúmeros migrantes. No passado, os salafistas em particular, procuraram estender a mão aos migrantes. Eles visitavam abrigos para refugiados para esse fim, oferecendo assistência. O grupo alvo não era apenas o dos migrantes adultos, era também o dos adolescentes desacompanhados que, devido à sua situação e idade, são particularmente suscetíveis às práticas missionárias salafistas".
As diversas práticas propagandísticas dos salafistas, que eles minimizam como se fosse 'proselitismo' ou 'convite para as pessoas conhecerem o Islã', é na verdade uma doutrinação sistemática e muitas vezes o início da radicalização, com bons resultados: o salafismo islamista está em voga e é o que mais cresce na Alemanha.
O ambiente salafista representa o ponto nevrálgico do recrutamento para a Jihad. Todos que têm alguma conexão alemã, com raríssimas exceções, que se juntaram à jihad estiveram anteriormente em contato com o ambiente salafista."
Segundo o BfV, o crescimento do movimento salafista na Alemanha está sendo alimentado em parte por migrantes da Tchetchênia:
"No ambiente salafista da Alemanha, os atores de origem caucasiana do Norte, em especial os da República da Tchetchênia, ganharam maior importância. Os estados mais afetados são os estados federais da Alemanha Oriental e da região Norte, assim como o estado do Reno, Norte da Westphalia.
O ambiente islamista do Cáucaso do Norte é caracterizado pela disseminação de peculiaridades e redes espalhadas por toda a Europa. Em grande medida é ambiente fechado para o mundo exterior. O fator crítico para a radicalização é um espectro de contato pessoal que conecta elementos da religião e da estrutura tradicional do clã. O islamista do Cáucaso do Norte estabeleceu contatos com grupos jihadistas do Oriente Médio devido aos 'sucessos' dos combatentes do Cáucaso do Norte na Síria e no Iraque."
O relatório do BfV mostra uma ligação direta entre o aumento do antissemitismo na Alemanha e a ascensão dos movimentos islamistas no país:
"A propaganda islamista frequentemente mistura motivações religiosas, territoriais e/ou políticas nacionais com uma visão de mundo antissemita. A 'imagem inimiga do judaísmo', portanto, forma o pilar central da propaganda de todos os grupos islamistas.
O BfV registrou um número enorme de incidentes antissemitas em 2017. O espectro dos incidentes ia desde banners anti-israelenses em eventos públicos e sermões antissemitas a postagens antissemitas nas redes sociais e ataques verbais e até físicos contra judeus.
O BfV constatou que todos os grupos islamistas ativos na Alemanha disseminam e nutrem ideias antissemitas. Isso representa uma ameaça significativa à coexistência pacífica e à tolerância na Alemanha."
De acordo com o BfV, o segundo maior movimento islamista da Alemanha é o Millî Görüş (em turco "Visão Nacional"), que conta com cerca de 10 mil integrantes. O movimento se opõe categoricamente à integração muçulmana na sociedade europeia:
"O movimento acredita que uma ordem política 'justa' é aquela fundamentada na 'revelação divina', ao passo que os sistemas concebidos pelos humanos são 'fúteis'. No momento, a civilização ocidental 'fútil' predomina, baseada na violência, injustiça e na exploração dos mais fracos. Esse sistema 'fútil' deve ser substituído por uma 'ordem justa', baseada exclusivamente nos princípios islâmicos e não nos princípios concebidos pelo homem, portanto, com 'leis arbitrárias'. Todos os muçulmanos devem colaborar para a concretização da 'ordem justa'. Para tanto, os muçulmanos devem adotar uma determinada visão (Görüş) do mundo, a saber: uma visão nacional/religiosa ('Milli'), um Millî Görüş".
Além dos salafistas e o Millî Görüş, os cálculos do BfV indicam que a Alemanha já abriga 1.040 membros da Irmandade Muçulmana, 950 membros do Hezbolah e 320 membros do Hamas.
Após a apresentação do relatório do BfV, o ministro do interior Horst Seehofer exigiu que o governo acelere as deportações dos islamistas. "Nós não temos nada sob controle em nenhuma área", concluiu ele.
Soeren Kern é membro do Gatestone Institute de Nova Iorque.
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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Colômbia - Historias de Infiltrados no Crime - Parte 2/2

Um triunfo para a missão, mas uma derrota para o infiltrado
Em 22 de setembro de 2010 foi morto Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”, durante um bombardeio a seu acampamento em La Macarena, Meta. FOTO: Archivo
por Nelson Matta C. e Javier Alexánder Macías
Quando um servidor público atua como agente encoberto, sabe que está em jogo muito mais que o êxito de uma missão.
Entre as histórias de hoje, com que concluímos a postagem sobre os Infiltrados no Crime, a de um militar que terminou aleijado depois de estar 12 anos vivendo com o inimigo.
Nem sempre o Estado recompensa a esses agentes. A norma não distingue seu trabalho e, ao aposentar-se, recebem uma pensão igual a qualquer outro”, conta o especialista em segurança, Coronel (Res) John Marulanda.
Ele conclui que “a inteligência técnica tem um grande desenvolvimento, mas grupos irregulares, como guerrilhas ou o Estado Islâmico, se blindam usando sistemas antigos de comunicação, como cartas e mensageiros. Em troca, nem sempre logram detetar o trabalho da inteligência humana


O Capitão Que Ganhou a Confiança de Um Chefe das FARC
Em 13 de maio de 1996, Mejía(*), um Capitão especialista em infiltrar-se nas guerrilhas, recebeu a ordem que temeu por mais de seis meses: deveria internar-se nas selvas de Meta para buscar a quem na época se considerava como um dos comandantes mais temidos das FARC: Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”.
Mejía, acostumado a lidar com guerrilheiros rasos, não sabia como chegar até a região de El Borugo, uma localidade em Meta que servia de bastião ao comandante do Bloco Oriental, e onde mais tarde se instalariam as jaulas nas quais mantiveram os soldados e policiais sequestrados, imagens que deram volta ao mundo e mostraram o lado mais desumano de “Jojoy”.
Nesse dia fui para casa pensando em como chegar. ¿Que proposta levar a meus comandantes no outro dia para começar a infiltração? Me senti pressionado”, recorda o Capitão.
Essa noite se fez eterna pensando na missão. O sono o venceu pelas 3:30 a.m. e sentiu que o mundo se acabava. Atrás ficaria sua família, por um trabalho do qual nem sabia se poderia regressar.
Um vendedor de cacarecos
Em 13 de agosto de 1996 no parque de La Macarena, Meta, um sujeito com um carrinho de mão percorreu as vielas poeirentas desse município encravado no verdor da selva oriental colombiana. Eram umas duas da tarde e através de um megafone, sua voz oferecia todo tipo de coisas: “compre chinelos, compre sabão, potes para azeite...”.
Chegou vestido de “malandro”. “Me lembro que vesti uma camisa branca guayabera, uma calça café e mocassim. Nesse dia no armazém, eu os ensinei como fazer durar mais as baterias para os rádios”, relata.
Se enturmou no local com essa estória e outros truques de mecânica aprendidos no Exército. Ninguém entendia como nesse povoado afundado no abandono estatal, no qual se chegava por avião em viagens semanais, um antioquenho fosse vender objetos que se conseguia em qualquer esquina. Ele foi posto sob observação. A guerrilha vigiava cada passada de seu carrinho.
Comecei a ver que me seguiam e questionavam por que vendia coisas que eles tinham nessa vila afastada de tudo, então dei mais realismo ao meu trabalho e comecei a vender tênis e roupa que conseguia em Medellín e me chegavam por encomenda, com o avião, a cada duas semanas em La Macarena”.

Conta o Capitão Mejía que o negócio cresceu tanto, que até os guerrilheiros saíam dos acampamentos para comprar meias, roupa intima, calças e camisas para sair de vez em quando para tomar trago nas poucas cantinas que existiam no lugar. “Foi o melhor que me sucedeu, porque assim pude identificar quem era guerrilheiro e quem não era. Em muitas ocasiões eu os via com as camisas quadriculadas que lhes vendia. E dessa forma pude viajar até o acampamento do ‘Mono Jojoy’”.
“Pondo 'Jojoy' a estrear a camisa”
Quatro meses depois de chegar a La Macarena, o Capitão revelou seu nome de infiltrado. Disse a um guerrilheiro que foi busca-lo porque tinha uma razão especial. Seu comandante “Mono Jojoy” queria que “o paisa que vende camisas” lhe levasse uma em especial.
— “¿E como é que tu te chamas?”.
— “Iván Darío Pinzón”, respondeu o militar ao insurgente.
— “A cédula”, replicou o guerrilheiro.
— “Aqui está”, disse o Capitão.
Verificado o número de identidade, o subversivo soltou a pérola esperada por quatro meses:
— “O Mono quer duas camisetas, uma número 24 e outra 31. E uma garrafa de uísque e duas galinhas. Será que tu podes conseguir?”, perguntou.
— “Eu trago tudo que seja”.

E assim foi. Viajou a Bogotá com a missão de trazer o que foi pedido pelo comandante do Bloco  Oriental. Antes da viagem, o Capitão solicitou falar com o chefe guerrilheiro para saber exatamente o que ele queria.
Me levaram ao seu acampamento. Estava gordo e enfermo. Pediu uma camisa xadrez e uma camiseta branca”. Esta viagem foi o primeiro contato com seus superiores em quatro meses de ausência. Dali em diante, a estratégia mudaria para chegar ao “Mono Jojoy”.
Servindo de enfermeiro
O Capitão Mejía regressou com tudo o que pediu “Jojoy”. Se hospedou em um hotel de La Macarena, cuja dona preparava pratos diferentes para “Mono”. — Esse cara mandava fazer até 200 tamales por semana para  distribuir na população —, conta.
Com a entrada livre ao acampamento, Mejía  ganhou a confiança do comandante. Cuidou o  diabetes dele, aplicava a insulina que conseguia em Villavicencio e levava uísque para que se emborrachasse recordando sua terra natal: Chaparral, Tolima.
Mejía, com a desculpa de trazer encomendas de  “Jojoy”, saia para a vila mais próxima, e de um telefone público dava informações a seus superiores. Foi assim que se inteiraram que este comandante era bondoso com os guerrilheiros rasos, que estudava todos os dias até as 12 da noite, se levantava às 5:00 a.m., tomava um café e enviava correspondências eletrônicas ao Secretariado das FARC.
Ganhei tanto sua confiança que inclusive revisava tudo o que lhe chegava e administrei uma de suas granjas na zona de distensão durante as conversações com o governo de Andrés Pastrana”.
Entre 1996 e 2008, o Capitão Mejía entregou informações às Forças Militares que ajudaram a fechar o cerco sobre o “Mono Jojoy”. Foi seu cozinheiro, assessor, enfermeiro e provador de bebidas.
Vi muitas coisas nesses 12 anos infiltrado. O que mais me doeu foi ver cair os meus companheiros e depois ver muitos deles nessas jaulas. Algumas vezes quis me ir, mas pensava que fazia por eles e desistia da ideia”, recorda Mejía.
Enfrentando a morte
Quieto hijueputa o se muere. Yo sí sabía que era un sapo”, disse o guerrilheiro “Oswaldo” quando encontrou o Capitão Mejía transmitindo um relatório sobre o “Mono Jojoy”, em 22 de junho de 2008. Ele dava as coordenadas para uma  primeira operação.
Vinham seguindo ele há um mês e comprovaram suas suspeitas quando pediu permissão para ir buscar umas botas para o chefe subversivo e foi telefonar. Ao se ver descoberto, o Capitão Mejía se pôs a correr montanha abaixo sob uma torrente de balas. Ferido, se jogou no rio Guayabero e nadou até sentir desvanecer sua vida. Foi resgatado por uma patrulha do Exército que o levou à base e dali foi transladado ao Hospital Militar. Hoje o Capitão Mejía passa seus dias em uma cadeira de rodas. Perdeu a mobilidade de suas pernas, mas sente que valeu a pena dar tudo pela pátria que o viu nascer.



Perdeu sua Família por Desmantelar Uma Rede de Narcos
Por seu trabalho de 12 anos, em que se infiltrou varias vezes na máfia como negociador de armas e drogas, o Departamento Administrativo de Segurança (DAS) escolheu o detetive Gabriel(*) para a missão.
O caso surgiu desde a Embaixada da Austrália, segundo a qual havia uma organização clandestina traficando cocaína desde a Colômbia para a Oceania. Era a primeira vez que escutávamos sobre uma rota de narcos para esse destino”, recordou um dos agentes que conheceu a operação.
A pedido da Polícia Federal Australiana (AFP), Gabriel devia atuar como agente encoberto para identificar os integrantes da rede. Segundo consta no Relatório Anual de Operações Controladas da AFP (2010-11), dali em diante o denominaram “Undercover Operative 57189”.
Este foi o primeiro caso documentado em nosso país, com base no novo Código Penal (Ley 906 de 2004), onde um juiz de controle de garantias autorizou um procedimento deste tipo.
Os australianos sabiam que no mercado negro havia gente buscando estupefacientes em Bogotá para enviar a Melbourne, e essa era a oportunidade que deviam aproveitar. Gabriel não tinha claro quanto duraria a missão. Em novembro de 2006 se despediu de sua esposa e seus dois filhos pequenos, e não voltou a sua casa nem a seu escritório.
Devia deixar para trás sua vida cotidiana e transformar-se em comerciante de um dos San Andrecito [feiras de produtos estrangeiros] de Bogotá. “Uma quadrilha de extorsionistas era dona de uma loja de roupas. Pressionamos para que nos entregassem esse espaço, em troca de não captura-los. Em questões de Inteligência, às vezes há que fazer tratos com bandidos”, indicou a fonte.
Gabriel apareceu como o novo dono do negocio e tinha como empregada uma vendedora que ignorava a trama de fundo. Para fortalecer sua fachada, a embaixada arrendou um apartamento de luxo na localidade de Usaquén e lhe entregou, junto com um Chevrolet Aveo, um automóvel que naquele momento era una novidade na Colômbia.

Os detetives identificaram o encarregado que buscava a droga. Gabriel fez contato e disse que estava em condições de conseguir uma carga de alta qualidade e se pactuou uma reunião deste e o comprador no apartamento de Usaquén. O DAS instalou câmaras e microfones na sala, cozinha e sala de jantar, e na rua em frente permanecia uma caminhonete de Inteligência Técnica, com a aparência de uma ambulância, registrando cada movimento.
Para surpresa de todos, o comprador era um jovem de apenas 24 anos, que chegou em um automóvel Bora e se fazia chamar “Iguano”. “Era um jovem aparentando boa vida, roupas de marca, com corpo 'malhado', 1.80 metros de estatura, despreocupado, desses que acordam às dez da manhã”.

Como teste, foi vendido um quilo de cocaína de alta pureza. O estupefaciente foi fornecido pela embaixada, produto de uma apreensão anterior. "Iguano" viajaria com a encomenda por via aérea, e assim Gabriel entregou a mercadoria em uma caixa de papelão com um minúsculo dispositivo GPS escondido em sua parede corrugada. A droga partiu do aeroporto Eldorado e fez escala no Chile, para depois chegar a Melbourne. Dessa maneira, o DAS e a AFP começaram a decifrar a rota.
Aos 35 anos, o agente 57189 era um pai de família abnegado, que ia à ciclovia com as crianças, ao mercado com a esposa e comia em quiosques. Mas para entrar no círculo de confiança do “Iguano” devia aparentar o estilo de vida de um playboy solteiro.
No apartamento houve ao menos oito festas, com mulheres e trago para todo lado. Também festas eternas em discotecas da moda, onde se tomavam uísque sem piedade,
para que o rapaz soltasse a língua.
Nas manhãs, Gabriel ia ao San Andrecito para receber o balanço das vendas, fazia pedidos e saudava os demais comerciantes com normalidade. Nas tardes seguia a dramatização, almoçando com garotas estonteantes em restaurantes tão caros que os agentes de apoio que o seguiam à sombra nem entravam, por falta de orçamento.

Nessa época, funcionários públicos como Gabriel não ganhavam mais que $1’500.000 mensais (cerca de 1500 reais). Agora, com uma conta de gastos reservados alimentada pelas arcas da embaixada, o agente podia fingir, ao menos por algum tempo, que era um ricaço.

Ausências que doem
O teatro deu seus frutos. O “Iguano” começou a tratá-lo como amigo e o convidou para ser acionista nas encomendas. O detetive forneceu dinheiro, com o qual foi comprada droga nas Planícies do Leste. Assim aprendeu outra rota de envios por mar: Buenaventura-Tahití-Ilhas Cook-Australia. E também soube o nome real de seu sócio: Fabio Esneider Rodríguez Mora, dono de lojas em outro San Andrecito.
Os avanços no caso tiveram um alto preço na vida pessoal de Gabriel, que durante oito meses, não pode visitar sua família. A equipe de apoio, que o vigiava em cada deslocamento, percebeu que havia homens suspeitos que o seguiam em motos. Era claro que os traficantes queriam saber com quem estavam lidando. Quando isso sucedia, o DAS coordenava uma falsa detenção com a estação policial mais próxima. Se pedia como favor aos patrulheiros que o detivessem na via e, sob o pretexto de verificar seus documentos, o levavam ao comando. Em uma dessas ocasiões, Gabriel havia prometido a seus filhos que iria visita-los, mas no caminho seus colegas detectaram a perseguição e ordenaram sua detenção e traslado à estação de Suba [bairro de Bogotá].
A falta de seus seres queridos começou a lhe afetar. Queria abraça-los, estar com eles. Uma noite, bêbado e em plena festa com “Iguano”, ligou por telefone à sua esposa. Desejava escutar sua voz, mas seu personagem o traiu e ele chamou sua mulher pelo nome de outra, desencadeando uma forte discussão do casal.
A missão concluiu em julho de 2007, quando já estavam identificados os comerciantes da cocaína na Austrália. Segundo consta nos jornais daquele país - The Age e The Herald Sun -,  em Bogotá
foi capturado o “Iguano” e, em Melbourne caíram seu tio José Arturo Quiroga e os sócios Carlos Hernán Torres Ortegón, Cenk Van e Paul Pavlou.
Gabriel voltou para casa, onde a ferida de sua ausência já não fechava. Alguns companheiros intercederam, falaram com a esposa, mas não podiam revelar em que missão ele esteve. Ela não acreditou, “vocês se cobrem com o mesmo cobertor”, replicava. A historia terminou em divorcio.
A Gabriel foi concedido uma menção honorífica, sigilosa, na Diretoria do DAS em Bogotá. Depois de sacrificar seu lar na luta contra o crime, foi só o que recebeu.

(*) Os nomes dos agentes foram modificados para proteger sua segurança.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
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sábado, 21 de abril de 2018

Colômbia - Historias de Infiltrados no Crime - Parte 1/2

por Nelson Matta Colorado
Em tempos de ataques com drones, espionagem satelital e hackeamento eletrônico, a inteligência humana segue tendo um valor incalculável. E de modo particular, aquela realizada por agentes encobertos, homens e mulheres que estão atrás das linhas inimigas, metidos na boca do lobo. 
Na Colômbia, a DNI (Dirección Nacional de Inteligencia), a Polícia e as Forças Militares realizam Operações encobertas. Os procedimentos são regulamentados pela Lei de Inteligência e Contrainteligência (Lei nº 1.621, de 2013), pelo Código de Processo Penal (Art 242), por diretrizes ministeriais e decisões da JIC (Junta de Inteligência Conjunta).  
Graças à coragem desses agentes, importantes golpes tem sido dados nas guerrilhas, cartéis e quadrilhas que afligem o país há décadas.
Na sequência, apresentaremos quatro histórias de membros das Forças de Segurança que se infiltraram em grupos criminosos. Uns conseguiram alcançar seus objetivos e saíram ilesos, outros só sacrificaram suas vidas e seus lares na empreitada.

O policial interiorano que se infiltrou no Clã do Golfo
Alvo:  “Tommy”
Entre os integrantes da quadrilha, diziam que se pegassem um 'sapo' ("boca grande"), o penalizavam. Eu não acreditava, até que me contaram a historia de ‘Willy’, um antigo companheiro deles, e me mostraram por celular as fotos de suas pernas, braços e partes esquartejadas. Aí engoli em seco e pensei que o mesmo me podia acontecer se me descobrissem”.
O Policial Meléndez(*), de 29 anos, tem vivo na memória essa experiência, pois esteve 12 meses como agente encoberto na organização criminosa "Clã do Golfo". Foram tempos brutais, em que sua vida esteve a borda do precipício. Seu relato continua assim:
Me designaram a missão em junho de 2016. O objetivo era identificar os cabeças e membros da "frente Jorge Iván Arboleda", uma subestrutura do Clã que delinque no Nordeste e no Magdalena Médio, na Antioquía e se dedica às extorsões, narcotráfico, sicariato e mineração ilegal de ouro.
A cobertura era entrar na zona como empregado de chácara. Fui escolhido porque conhecia esses municípios e me criei em uma picada com camponeses, conheço os trabalhos do campo.
Cheguei pedindo trabalho e me ajudaram em uma granja. A jornada era das sete às dezesseis horas, ordenhando vacas, remediando terneiros, consertando cercas e arando terras.
Uma vez, chegou na granja uma esquadra composta por 'Hernán', o chefe da equipe, e sete seguranças. Descansaram ali. Foi a primeira vez que o vi, e reportei ao meu Oficial de Controle o tipo de armamento que portavam e suas descrições físicas.
Em quatro meses, já conhecia os 'pontos', assim denominam as pessoas que fazem a vigilância em lugares fixos. Para ganhar a confiança deles, eu lhes avisava quando via policiais ou gente diferente no povoado.
Quando completou seis meses que estava na zona e eles estavam acostumados à minha presença, me ofereceram $480.000 (cerca de 480 reais) para ser olheiro. Este foi o meu ingresso na organização. Com o tempo, me deixaram ir aos acampamentos e assim conheci o 'Tomy', o comandante da 'frente', e a seu irmão 'Brandon'". 

Mais um deles
“Me recrutaram em janeiro de 2017, por um pagamento de $800.000 mensais, e me tornei patrulheiro do Clã do Golfo no monte. Também servia de 'pássaro', que é como eles denominam os escoltas de civil, e acompanhava a ‘Hernán’ a todas partes, fazia compras e buscava as prostitutas que chegavam de Medellín em Vegachí , garotas entre 18 e 23 anos, não muito bonitas.
A rotina com eles não era fácil. Havia ex-paramilitares impiedosos que não tinham coração, e alguns membros que foram recrutados mediante engôdos choravam porque se desertassem eram homens mortos. Quando já formava fila na esquadra, vi como castigavam sem piedade a sua tropa. A um garoto, acusaram de 'sapo' e lhe deram o castigo: o comandante o golpeava a coronhadas de fuzil, pontapés, socos e com paus, ou o enforcavam até que desmaiava;  quem quisesse podia unir-se à surra. Eu me mantive quieto, olhando como seis deles batiam no rapaz.
Um dos momentos de maior risco foi em março de 2017, quando nos ordenaram ir a Yondó lutar contra o ELN, para recuperar o controle desse município. Nos deslocamos durante 15 dias, com armamento pesado, e eu pensava ‘¿que vou fazer agora?’. Havia probabilidade de morrer, porque na Força Pública ao menos há um apoio, e aqui sequer sabíamos o que fazer. Por sorte, quando estávamos em Puerto Berrío, mudaram a ordem e mandaram outra 'frente'.
Toda vez que podia, me comunicava com o Oficial de Controle, via chat de celular, para informar o que se passava. Eu tinha uma bolsa e uma mochila equipadas com câmaras diminutas, e um localizador satelital em uma bota. Com isso, marcava as coordenadas dos lugares onde acampávamos.
Por volta de junho de 2017 já havia identificado a 60 integrantes. Minha missão chegava ao fim, mas minha fuga ainda estava pendente. ¿Como ia fazer para não levantar suspeitas?
O Oficial de Controle me advertiu que uns pelotões do Exército estavam chegando à área. O medo era que se armasse um tiroteio, porque aí ninguém pergunta quem é quem. Tinha que me ir já, fosse como fosse.
Por pura coincidência, estávamos fazendo um deslocamento pela selva, caí e torci o tornozelo. Aproveitei a situação, exagerei a dor e disse ao chefe de esquadra que não podia caminhar. Me disse que eu era um fraco, um 'cu-de-cachorro' e me deu socos no estômago. Me chutou no chão, me tirou a arma e o uniforme camuflado, deixando-me descalço e de bermudas.
Quando se foram e me deixaram, caminhei varias horas e saí em uma picada de Maceo. Cheguei a uma granja onde me deram botas e um moletom, mas por medo, porque sabiam que eu era do Clã do Golfo. Depois fui ao distrito La Susana, onde estava o Exército, e me entreguei, simulando uma desmobilização para que a estória ficasse redonda. Estando na guarnição militar liguei para meu chefe e este esclareceu a situação ao Coronel do Batalhão, e meus companheiros foram recolher-me com o pretexto de me processar. Assim pude sair da zona.
Graças à informação que consegui durante esse ano de encoberto, a Polícia fez quatro operações contra a 'frente Jorge Iván Grisales'. Em 14 de maio de 2017, em Yalí, foi capturado Heder Cabrera Quejada, vulgo ‘Hernán’, com sete subalternos e um arsenal; em 19 de junho seguinte detivemos a outros nove em Yolombó e San Roque, ainda que nesse procedimento eles nos mataram o patrulheiro Luis Javier Ruiz Palomino.
Em 18 de janeiro de 2018, em uma chácara da vereda La Alondra de Yalí, foi morto o chefe William Soto Salcedo (’Tomy’) e um escolta que chamavam de ‘Gorra’. E em 9 de março capturamos a Heiner Soto Salcedo (’Brandon’), nesse mesmo município.
“Tomy” (no destaque) e seu escolta “Gorra” morreram em um enfrentamento com a Polícia, em Yalí.
FOTO CORTESÍA
Me lembro que nas reuniões, ‘Tomy’ sempre dizia que não se deixaria prender, que antes se mataria. Ninguém se alegra pela morte de alguém, mas eu sou do campo, sei como sofrem os campesinos por culpa desses grupos. Por isso, completar esta missão foi gratificante”.

Uma Traição Transforma a Operação em Armadilha Mortal
Alvo:   “Megateo”
A operação foi planejada corretamente, o problema é que se rompeu o sigilo”, confessou o então diretor do DAS (Departamento Administrativo de Seguridad - extinto em 2011), Andrés Peñate, assumindo a responsabilidade por uma das maiores calamidades que já atingiram a Inteligência colombiana em sua historia.
A tragédia começou quando o informante Óscar Murillo se acercou do organismo estatal, em janeiro de 2006, dizendo que podia facilitar a captura do ex-guerrilheiro e narcotraficante Víctor Ramón Navarro Serrano, vulgo “Megateo”, chefe da "frente Libardo Mora Toro", uma dissidência do EPL. Este homem delinquía na região do Catatumbo, limítrofe com Venezuela, uma zona de ordem pública complexa, onde também atuavam as FARC e o ELN. Entrar ali era muito difícil, por isso não se podia perder esta oportunidade.
O caso foi destinado ao meu companheiro José Elvar Cárdenas Bedoya. Ele era de meia idade, de muita experiência, com uns 17 anos de serviço”, relata o detetive Pares(*), que conheceu os detalhes do sucedido.
José Elvar, por intermédio do informante Murillo, contatou “Megateo”. Sua "cobertura" era a de um traficante de armas, e depois de varias semanas de negociação, foi pactuada a venda de um lote de 50 fuzis.
O plano do DAS era capturar o alvo durante a entrega do arsenal, em 20 de abril de 2006. Para o procedimento selecionaram 10 detetives com treinamento tático de combate e seis militares das Forças Especiais, que se reuniram um dia antes no Batalhão Santander, em Ocaña.
Na base acondicionaram o "cavalo de Troia": um caminhão com carroceria gradeada de transporte de caixotes, no meio dos quais ia acondicionado um caixão blindado. Dentro desse cofre iriam os soldados e oito agentes armados até os dentes, cada um com 15 carregadores de munição.
O caixão blindado havia sido usado antes, dentro de um caminhão-tanque de leite. Saíamos a caçar barreiras da guerrilha na estrada de Florencia a San Vicente, em Caquetá”, detalha o funcionário.
Se tudo saísse segundo planejado, “Megateo” chegaria com dois escoltas ao ponto de encontro, e aí seriam capturados. No caso de haver um tiroteio, os uniformizados poderiam aguentar 10 minutos dentro da cápsula encouraçada, até que chegasse o apoio. Perto do local estariam três pelotões da Brigada 30 do Exército e outros 30 detetives, como reforço ao grupo principal.
Ao amanhecer do dia definido, o caminhão partiu ao seu destino, uma paragem rural no município de Hacarí, Norte de Santander. O condutor era o investigador Jesús Antonio Rodríguez e de co-piloto ia José Elvar.
Às 9:30 a.m. passavam por uma estrada de terra do setor Mesa Rica, quando duas bombas sacudiram o mundo. O veículo se destruiu como una casca de ovo em um punho fechado. Ninguém sobreviveu.
As equipes de reação acudiram de imediato, porém explodiu uma terceira bomba a 500 metros da detonação inicial. A onda jogou pelos ares um tronco de árvore, que acertou o pescoço e a cabeça do Cabo-Segundo Jorge Ayure Rátiva, tirando-lhe a vida. Logo se armou um tiroteio com os dissidentes, que durou até o crepúsculo e deixou três feridos.
Quando, por fim, chegaram ao ponto da tragédia, encontraram as latas retorcidas do caminhão, incrustadas na ladeira da montanha. O estado dos corpos era indescritível. As lâminas blindadas ficaram separadas por toda a cena e, sobre uma delas, os verdugos deixaram sua assinatura com spray vermelho: EPL.
O que sobrou do caminhão em que se deslocavam os 10 detetives e seis militares que iam capturar “Megateo” (destaque), en Hacarí, Norte de Santander. FOTOS: CORTESÍAS
Segundo arquivos da imprensa, as vítimas, além de José Elvar, Jesús Antonio e o Cabo Ayure, foram os detetives José Acosta, Alexis López, Dubián Moncada, Oliverio Cañón, Luis Albarracín, John Castellanos, Rubén Vacca e José González; o Sargento-Segundo Alfonso Catalán, o Cabo Norberto Burgos e os Soldados Luis Gutiérrez, Julio Ochoa, Edwin Ramírez e Carlos Cordero.
Recursos Humanos mandaram psicólogos a todos os grupos do DAS. Foi um momento muito difícil”, acresce Pares.

O Contragolpe
Era claro que o ocorrido em Hacarí havia sido uma armadilha, ¿mas onde houve a fuga de informação? Nos meses seguintes, vários agentes encobertos foram enviados à zona, uns como camponeses, outros de transportadores e comerciantes. O primeiro achado foi o corpo do informante Murillo, que estava como "NN" em um cemitério de Ocaña. Seus assassinos o torturaram, queimaram seus dedos para apagar as impressões digitais e arrancaram seu rosto.
A segunda pista obtida no terreno foi que um sujeito apelidado “Rastrillo” havia vendido a “Megateo” a informação sobre o plano de captura, para que o 'capo' pudesse preparar a armadilha mortal.
“Rastrillo” era um olheiro que trabalhava para quem melhor pagasse. Fingia cooperar com o Exército, inclusive saia fardado com a tropa para conduzi-la a depósitos e laboratórios de drogas no Catatumbo, mas também passava segredos ao inimigo.
No dia em que os funcionários prepararam o caminhão, ele estava presente no Batalhão Santander, e assim se inteirou da trama.
Eu estava lá quando capturamos ‘Rastrillo’ no batalhão, em dezembro de 2006. Ia sair com os soldados, mas o chamamos ao gabinete do comandante e lá o algemamos. Depois o levamos a um quiosque, enquanto aguardávamos a chegada do transporte. Me tocou ver como chegaram vários companheiros e, um a um, lhe esbofetearam”, disse a fonte.
Na mesma operação foram detidos 15 integrantes da rede de apoio de “Megateo”, mas ele escapou nesse momento e em outras duas oportunidades: em um choque armado sobreviveu a um disparo no abdome; e quando se jogou da traseira de uma caminhonete em que o levavam algemado.
O DAS o perseguiu até o último dia, até que o Governo desmantelou a instituição em 2012”, observa Pares.
Por fim, “Megateo” não se saiu bem. Nove anos mais tarde outros agentes encobertos do Exército infiltraram seu anel de segurança, desta vez com o disfarce de vendedores de explosivos. Em 2 de outubro de 2015 combinaram um encontro em um prédio na vila San José del Tarra, em Hacarí. E quando estava dentro de uma casa que funcionava como armaria, fizeram explodir uma das bombas que lhe prometiam vender.
Quando foi divulgada essa morte, o DAS já não existia, mas restavam as marcas daquele brutal atentado em seus antigos integrantes. Pares não pode evitar sentir-se aliviado.

(*) Os nomes dos agentes foram modificados para proteger sua segurança.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
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