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quarta-feira, 8 de março de 2017

Socialite, Espiã e Salvadora


por Hallie Rubenhold
A morte de uma senhora escocesa idosa, em 15 de maio de 1823, na pequena Ville d'Avray, entre Paris e Versalhes, não seria digna de nota a não ser por um detalhe: a vida de Grace Dalrymple Elliot havia sido cheia de intrigas, provações e coragem. Conviveu intimamente com lordes, duques e condes; supostamente, teve um filho do principe de Gales; salvou um marquês durante a Revolução Francesa; e (como ela afirmou) dividiu uma estadia infernal na prisão com uma futura imperatriz.
Wikipedia-Grace_Elliott
Nascida por volta de 1754, Grace foi criada na casa de seus avós maternos em Edimburgo, até a morte de sua mãe em 1765, quando foi mandada para a escola na França. Pouco depois de voltar, em 1771, casou-se com o médico John Eliot, cerca de 20 anos mais velho do que ela. O casamento, porém, não deu certo. Depois de problemas de ambos os lados, acabou quando Eliot, após descobrir as "indiscrições" de Grace com o visconde de Valencia, levou-a à Justiça sob acusação de adultério e, em 1776, obteve o divórcio e uma indenização.
A mais antiga das profissões
Em desgraça e financeiramente arruinada, Grace tornou-se cortesã.
Construiu uma vida luxuosa, apesar da precariedade, através de uma rede de relacionamentos com nobres, notavelmente o Marquês de Cholmondeley e o Principe de Gales - mais tarde, Rei George IV - do qual ela alega ter engravidado de uma menina.
Na primavera de 1779 ela começou a ir a Paris, onde conheceu Luís Felipe II, o Duque de Orleans. Na capital francesa, Grace encontrou não só um ambiente mais tolerante às suas indiscrições, como também muitos nobres ricos que poderiam financiar seu extravagante estilo de vida. Em 1786, mudou-se para Paris visando estreitar suas ligações com Orleans. É claro que ela não conseguiu perceber a iminente derrocada do antigo regime e seus excessos.
Três anos depois, os revolucionários tomaram a Bastilha. Durante o período de tumultos, Grace permaneceu em Paris ao lado de Luís Felipe (agora um jacobino), apesar de sua simpatia pela realeza. E em setembro de 1792 estava totalmente envolvida no conflito. Naquele mês, os jacobinos invadiram as prisões para matar supostos contrarrevolucionários e aristocratas. Grace foi solicitada a ajudar o Marquês de Champcenetz, um ex-camareiro do rei e governador do Palácio das Tulherias, a fugir de Paris. Um mês antes, ele havia sido gravemente ferido durante a invasão do palácio e estava sendo escondido por uma amiga de Grace. Logo que os revolucionários começaram a fazer buscas por nobres nas casas de Paris, a cortesã ofereceu sua casa de campo para esconder Champcenetz.
Depois de acomodá-lo em sua carruagem, ela descobriu que as saídas da cidade estavam fechadas. Então abandonou o veículo e levou o marquês febril para sua casa, carregando-o pelas ruas ocupadas por soldados. Sabendo que seus criados eram partidários da revolução, ela escondeu o fugitivo em seu quarto, dentro do colchão, enquanto os guardas vasculhavam a casa. Dias depois ela conseguiu levá-lo para sua casa de campo e de lá, em janeiro de 1793, para a Inglaterra.
Amazing Women in History.
Este foi um dos muitos incidentes registrados em suas memórias, publicadas postumamente em 1859 com o título Minha Vida Durante a Revolução Francesa. As autoridades francesas suspeitavam de Grace, e por um bom motivo: ela agiu como espiã para os britânicos, passou correspondências entre os émigrés e os contrarrevolucionários, e pode ter ajudado a levar cartas de Maria Antonieta para a Áustria. Mas foram suas relações com o duque que a levaram ao Comitê de Segurança Pública de Robespierre.
Conforme a revolução se radicalizava, até mesmo o jacobino Duque de Orleans e seus seguidores se tornaram suspeitos. Entre a primavera de 1793 e o verão de 1794, Grace afirma que foi interrogada e presa diversas vezes. 
Quando esteve na prisão de Récollets, em Versalhes, no outono de 1793, soube da morte de Maria Antonieta e do Duque de Orleans. Então, em janeiro de 1794, foi levada para a prisão de Carmes onde, segundo conta, dividiu uma cela com Josefina de Beauharnais, mais tarde esposa de Napoleão e imperatriz da França.
Censura
Como Grace conseguiu manter sua cabeça durante o Terror não se sabe: o úItimo capítulo de seu diário foi censurado. Depois de ser libertada, ela dividia seu tempo entre Londres e a França. Morreu em 1823 enquanto visitava a casa o prefeito de Ville d'Avray.
O diário de Grace é um dos melhores relatos de primeira mão sobre a Revoluçao em língua inglesa. Desde sua publicação em 1859, muitos questionam a veracidade do relato, parcialmente devido às suas escandalosas revelações. Mas, apesar de haver imprecisões em suas memórias, não há dúvida de que foi uma mulher notável que teve uma vida turbulenta e fascinante, em uma era turbulenta e fascinante.
Hallie Rubenhold é historiadora e escritora
Fonte:   BBC History Brasil 


domingo, 5 de março de 2017

Na Semana da Mulher, Uma Homenagem a Algumas Que Fizeram Diferença

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Elizabeth Van Lew
Elizabeth Van Lew era filha de um próspero negociante de escravos em Richmond, Virginia.  Quando o pai dela morreu e ela herdou os onze escravos da família, libertou-os e auxiliou na educação deles, inclusive enviando os à Filadélfia. Quando a guerra civil começou, Van Lew era manifestamente leal à União e, ao longo do tempo, operou uma rede de espionagem com doze pessoas, incluindo funcionários dos Departamentos da Guerra e da Marinha e um candidato a prefeito de Richmond. Ela desenvolveu um sistema de criptografia e frequentemente contrabandeava mensagens para fora de Richmond em ovos ocos, usando seus ex-escravos como facilitadores.
Mary Elizabeth Bowser
Um dos seus mais ousados espiões era uma ex-escrava chamada Mary Elizabeth Bowser. Quando a guerra começou, Van Lew enviou a Bowser - então na Filadélfia - um pedido para voltar a Richmond para participar em operações clandestinas. Van Lew, conhecida do Presidente Confederado Jefferson Davis, recomendou Bowser para o cargo de empregada. Uma vez aceita, ela foi infiltrada na casa de Davis e tinha acesso a documentos oficiais e reuniões confidenciais.


George H. Sharpe, o comandante do Escritório de Informações Militares da União, creditou a Van Lew "a maior parte de nossa inteligência em 1864-65." Na primeira visita de Ulysses S. Grant a Richmond depois da guerra, ele tomou chá com Van Lew e declarou "você me enviou as mais valiosas informações recebidas desde Richmond durante a guerra.
Depois da guerra, Van Lew pediu que todos os relatórios da União relacionados com ela e sua rede fossem destruídos, limitando a visibilidade sobre ela e seus espiões. As duas, Van Lew e Bowser foram incluídas no Hall da Fama do Corpo da Inteligência Militar dos Estados Unidos da América.

Fonte:  tradução livre de Defense Intelligence Agency

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Sobre Grampos e Direito à Proteção

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A respeito da polêmica causada pela Operação Métis (vão meter em outro, tô fora!) da Polícia Federal, apesar do asco que tenho pelas figuras políticas envolvidas, gostaria de fazer algumas considerações gerais, usando a velha e batida "estória" de que "todos são iguais perante a Lei".
Pelo que está sendo noticiado, aparentemente Policiais Federais usaram Operações de Busca e Apreensão para, durante a execução das mesmas, instalar - com a devida autorização judicial - equipamentos de escuta em escritórios e residências de senadores investigados nos inúmeros procedimentos a respeito da roubalheira epidêmica que assola nosso país, a fim de obter provas contra os políticos.
Como os patifes investigados podem ser adjetivados de qualquer coisa, menos de ingênuos, usaram sua autoridade política para que tais equipamentos fossem localizados e/ou neutralizados. Esclareço que isto é uma inferência que faço a partir do noticiário divulgado.
E como foi feita essa localização das escutas eletrônicas? Por meio de inspeções técnicas efetuadas por membros da Polícia Legislativa do Senado Federal, denunciadas por um membro que não concordava com tais missões.
Antes de prosseguir, abramos um parêntese. O sigilo das comunicações individuais é um direito constitucional que só pode ser quebrado mediante determinação judicial. Obviamente, nenhum juiz comunica ao investigado que suas conversas telefônicas - ou feitas no interior de sua residência - serão ouvidas e gravadas. Entendo que a decisão dessa "invasão de privacidade" seja fundamentada pelo fato da "linha" telefônica (inclusive celular) ser uma concessão governamental, isto é, em última instância, administrada pelo Estado. Agora, imagine você, caro leitor, sua faxineira lhe apresentando um aparelhinho estranho que ela encontrou sob a mesa de sua sala ou você mesmo encontrar algo assim na cabeceira de sua cama. Ou, ainda, você simplesmente desconfiar (devido a algum peso na consciência) que está sendo vigiado eletronicamente. Que fazer? Chamar a polícia? Promover uma quebradeira nos móveis e paredes de sua moradia na procura de coisas estranhas? Contratar sigilosamente um especialista no assunto? E se você for um Senador da República com uma equipe de especialistas disponíveis para fazer esse trabalho especializado? Apresento essa hipótese com uma ressalva importante: a interceptação telefônica é feita nas centrais, pelas próprias concessionárias. Já a instalação de um dispositivo de escuta em sua moradia ou em seu local de trabalho, me parece uma simples agressão aos direitos constitucionais previstos no Art 5º da CF: 
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação; 
XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial;

O fato de alguém ter capacidade de ouvir o que ocorre em seu domicílio, mesmo que por via eletrônica pode ser considerado similar a que esse mesmo alguém tenha penetrado no local?
Fechemos o parêntese e retornemos ao assunto inicial.
A existência de uma "polícia legislativa" não é novidade. Já nos idos de 1964 o STF, em sua Súmula 397, reconhecia essa capacidade congressual.
SÚMULA Nº 397, de 1964, do STF: O poder de polícia da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, em caso de crime cometido nas suas dependências, compreende, consoante o regimento, a prisão em flagrante do acusado e a realização do inquérito.
A princípio, andei comentando que o Art 144 da Constituição Federal relaciona os órgãos policiais brasileiros e não faz referência a "polícia legislativa", posteriormente, me dei conta de que o citado artigo trata de Segurança Pública.
Reza a Constituição Federal, em seu Art. 52, que compete privativamente ao Senado Federal:
XIII - dispor sobre sua organização, funcionamento, polícia, criação, transformação ou extinção dos cargos, empregos e funções de seus serviços, e a iniciativa de lei para fixação da respectiva remuneração, observados os parâmetros estabelecidos na lei de diretrizes orçamentárias;
Já a Resolução nº 59, de 5 Dez 2002, do Senado Federal, em seu Art. 2º afirma: 
§ 1º São consideradas atividades típicas de Polícia do Senado Federal: 
I – a segurança do Presidente do Senado Federal, em qualquer localidade do território nacional e no exterior; (...) 
III – a segurança dos Senadores e de servidores em qualquer localidade do território nacional e no exterior, quando determinado pelo Presidente do Senado Federal; (...)
Essas "competências" foram ratificadas pelo Ato do Diretor-Geral nº 1516, de 31 Mar 2005, que "Estabelece as competências da Secretaria de Segurança Legislativa do Senado Federal e das Subsecretarias e Serviços a ela subordinados". 
Art. 15 – Ao Serviço de Segurança de Dignitários compete executar o Plano de Segurança dos eventos oficiais no âmbito do Senado Federal; prover a segurança dos Senadores e autoridades brasileiras e estrangeiras nas dependências sob a responsabilidade do Senado Federal; prover a segurança dos Senadores e de servidores em qualquer localidade do território nacional e no exterior, quando determinado pelo Presidente do Senado Federal; dar cumprimento às determinações do Diretor da Subsecretaria de Proteção a Autoridades e executar outras tarefas correlatas.
Não quero prolongar este texto em demasia, assim, desejo expressar algumas inferências minhas.
1 - O conceito de "segurança", quando se trata de autoridades, abrange bem mais que a chamada "segurança física", indo até a segurança da imagem, da honra, etc, da pessoa protegida;
2 - Os "policiais legislativos" agiram no cumprimento de ordens recebidas, de acordo com a legislação que rege suas funções;
3 - Alega-se que foram executadas inspeções eletrônicas - utilização de pessoal e equipamentos públicos - em imóveis de um ex Senador, o que configuraria mau uso de recursos. Todavia, o ex Senador citado é, também, um ex Presidente da República que tem direito a segurança especial, a ser proporcionada pelo Gabinete de Segurança Institucional.
4 - Não foi citada na imprensa a ocorrência de danos a equipamentos de vigilância eletrônica que houvessem sido instalados nos locais inspecionados pela Polícia Legislativa, o que não exclui a possibilidade de que tais danos tenham ocorrido.
Onde quero chegar com toda essa conversa?
Sou um crítico das ações dos defensores dos Direitos Humanos na forma como ocorrem tais ações, sempre agredindo as ações policiais. Porém, isto não quer dizer que não deva haver alguma reação a efetivos abusos cometidos por agentes do Estado.
Mesmo se considerarmos os gastos de recursos públicos nas ações da Polícia Legislativa fora das dependências do Congresso Nacional, me parece ter havido exagero na prisão de agentes e do Chefe da Polícia Legislativa.  Alguém imagina que não há equipes realizando atividades semelhantes em outros órgãos governamentais? Se até grandes empresas possuem departamentos de segurança em suas estruturas, seria muita ingenuidade imaginar que a Polícia Legislativa seja uma exceção no país. 
Assim, me parece que a prisão dos funcionários do Congresso foi um tanto afoita e desproporcional.  
Se um Senador da República - e quero ressaltar novamente meu enorme desapreço pelos envolvidos no fato - não tem o direito de resguardar sua intimidade e vida privada, o que resta de direitos constitucionais ao cidadão comum? 
Ao fim, de tudo isto, penso que essa pantomima foi um "tiro no pé, (equivocado ou proposital) só servindo para reforçar os esforços de Renan Calheiros no sentido de colocar em pauta e aprovar a tal "lei contra os abusos de autoridade".
Recordem (confira na imagem no início) que a "denúncia" do servidor que serviu de estopim ao caso ocorreu em junho de 2016, mas a Operação Métis foi desencadeada agora, quatro meses depois. 
Analise os fatos sem considerar os envolvidos, imaginando que a "vítima" pode ser você (mesmo e principalmente se você nada teme porque nada deve) e responda: a quem interessa e a quem/o que favorece?
(Imagens copiadas da internet)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O Espião Mais Indiscreto da França

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Bernard Barbier, o homem que causou reboliço na Comunidade de Inteligência francesa
Bernard Barbier era tido como o cidadão francês que guardava em seu cérebro os segredos mais inconfessáveis do país. Até este sábado (3/9/16). O mito do personagem mais importante dos serviços de informação da França acabou no chão. Resultou ser o espião mais indiscreto no lugar mais inesperado. O chefe da espionagem exterior entre 2006 e 2014 contou em sua antiga escola como espionou a China, o Canadá e a Espanha; e que Washington grampeava as comunicações de autoridades do Elysee; além de como enviou um Comando francês para matar jihadistas na Mauritânia
Ao se ver no antigo púlpito na Escola Superior de Engenheiros "Centrale Supélec", rodeado de jovens nos mesmos lugares em que estudou, Barbier se desinibiu. Foi no passado mês de junho. Indagado por vários alunos, contou até o que não devia. E se esqueceu de uma regra elementar para um espião: sempre há a possibilidade de estar sendo gravado. Assim foi, e o vídeo acabou nas mãos de um jornalista do diário Le Monde, que publicou a história. 
Como chefe da Direção Geral de Segurança Exterior (DGSE), Barbier criou em 2008 um serviço de captação massiva de dados na Internet, equivalente à NSA norte americana. Um ano depois, talvez para provar sua eficacia, lançou um ataque mundial de pirateamento informático. Entre seus objetivos, organizações iranianas relacionadas ao programa nuclear de Teerã, mas também computadores de autoridades na Espanha, Grécia, Noruega, Argélia, Costa do Marfim e Canadá.
Foram agentes deste último país os primeiros a lançar suspeitas de que a origem do hackeamento massivo estava na França. "E efetivamente, era a França", confessou agora Barbier ante o estupor dos que agora comprovam a inusitada indiscrição de um dos personagens mais poderosos do país.
Contou, também aos hipnotizados alunos que já faz anos que seus espiões estavam "bem conscientes" de que os jihadistas preparavam ataques terroristas contra interesses franceses. Em 2013, por exemplo, seus especialistas e ele mesmo escutaram "interceptações de franceses na Síria, falando a seus familiares e referindo-se claramente a seus projetos de vir a França ..."
Antes disso, em 2010, ele soube que um grupo de islamitas radicais preparava um atentado contra a Embaixada da França na Mauritânia. Os terroristas estavam em um acampamento no deserto e Barbier indicou aos Comandos das Forças Especiais francesas como chegar até eles. "Foram eliminados ao despertarem. Em sinal de agradecimento, o chefe da Equipe de Operações me ofereceu um dos Kalashnikov tomados dos jihadistas".
Outra indiscrição, desta vez tendo os estadunidenses como vítimas. Em 2012, colaboradores diretos do então presidente Nicolas Sarkozy foram espionados por meio de seus computadores. Foi descoberto que, cada vez que entravam no Facebook, e de forma totalmente imperceptível, seus computadores passavam a ser controlados por um hacker.
Em 12 de abril de 2013, e por ordem do já presidente François Hollande, Barbier viajou aos Estados Unidos seguindo a pista dessa espionagem. Ele conta que, ao final de uma reunião com Keith Alexander, chefe da NSA entre 2005 e 2014, escutou uma confissão inesperada. "Estávamos em um ônibus e ele me disse que se sentia decepcionado porque pensava que jamais os detectaríamos. E acrescentou: vocês também são muito bons ..."
Assim, efetivamente, Barbier, criador do ciber exercito francês, contou para aqueles jovens que poderiam ser seus netos que a França é hoje "a primeira potência de espionagem técnica na Europa continental", mas que, em relação ao número de habitantes, "os melhores são os suecos". "Os italianos são ruins. Os espanhóis são um pouco melhores, mas não possuem meios". 
Na hora de dar notas por países, Barbier concluiu com um torpedo dirigido a Londres: Os britânicos, com 6.500 agentes de seu serviço eletrônico, são fortes, ¿mas são europeus?”.
(internacional.elpais.com)
Fonte: tradução livre de Fuerzas Militares

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Sobre a Morte de Alberto Nisman - Cristina Kirshner Envolvida?

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Stiuso: "Os Kirchner tinham Serviços paralelos que lhes 'resolviam' os problemas"
O ex espião falou com La Nación, em sua primeira entrevista desde que regressou ao país
É manhã de domingo. Um homem chega a um bar na Calle Echeverría, em Belgrano. Se senta à mesa do fundo, à esquerda do salão, em uma cadeira que lhe permite ver a porta de entrada. Veste roupa informal: jeans, sapatos e jaqueta esportiva. Abre o diário Clarín e pede dois croissants de manteiga, um café com leite e água sem gás. Passará cerca de uma hora lendo minuciosamente as noticias, com os óculos apoiados na ponta do nariz. Antonio "Jaime" Stiuso parece um homem comum e não um ex agente temido por políticos, juízes e empresários.
O identificamos e nos aproximamos até sua mesa, e ainda que a principio tenha rido ante a proposta de responder algumas perguntas e sido conclusivo ("não falo com a imprensa, somente com a Justiça", disse) finalmente concordou. Quando viu o telefone celular na mesa, reagiu: "¿Por que me gravas?". Depois se tranquilizou quando a jornalista guardou o telefone. Foi se acalmando aos poucos, a medida que se sucediam as perguntas: "¿Como estás?", "¿Quando voltastes?", "¿Como te sentes?". Se permitiu, então, algumas respostas mais concretas. As primeiras à imprensa depois de seu regresso ao país, em fevereiro passado. Afirmou que está "tranquilo" agora que a ex presidente Cristina Kirchner "perdeu seu poder", porque, disse, nem ele nem sua família sofrem mais ameaças. Apontado como armador de "carpetazos" ("finalizamentos" irregulares) contra opositores durante o kirchnerismo, disse que naqueles anos havia um "serviço de inteligencia paralelo" que se ocupava dessa tarefa e do qual, garante, ele não fez parte.
Seu rosto parece muito com o retrato falado difundido pelo então ministro Gustavo Béliz em 2004: o mesmo corte de cabelo, agora um pouco grisalho e magro, com olheiras e um olho caído. Minguém o reconhece: é só mais um lendo o jornal. É difícil não imaginar que ele observou detidamente cada um que tenha adentrado ao bar.
Durante anos, sua relação com o casal Kirchner se manteve em bons termos. O ex presidente havia apresentado Stiuso a Nisman para que trabalhassem ombro a ombro, ainda que o ex agente agora o negue. Uma série de escândalos relacionados com Cristina, em 2014, lhe valeu a acusação de que seria ele quem vazava aquelas informações o que lhe custou a aposentadoria.
Ele lamenta a morte de Nisman, mas acredita que esse desfecho era inevitável: "as gravações que tinha como provas envolviam o Governo", afirma; as acusações contra o kirchnerismo são parte da estratégia judicial que prepara. Descontraído, riu várias vezes e se esquivou com habilidade de muitas perguntas. Depois de tudo, segundo ele mesmo afirma, a sua "é uma profissão que nunca se abandona".
- ¿Como estás?
- Bem, muito tranquilo agora.
- ¿Quando voltastes ao país?
- Voltei depois do aniversário de Cristina (19 de fevereiro). Estive nos Estados Unidos com asilo por todas as ameaças que recebemos, tanto eu como minha família. Ameaças de morte do governo anterior.
- ¿A que te dedicas agora?
- Trabalho em minha empresa, que tenho desde 1997 e na qual sempre trabalhei.
- ¿Se pode deixar de ser do serviço?
- Não, é uma profissão que nunca se abandona.
- ¿Que opinas sobre a causa AMIA?
- Que as coisas não foram bem feitas. Veja que em todos os países do mundo em que houve ataques terroristas a situação se manejou de outra maneira. Aqui nunca se pode esclarecer nada porque os governos sempre trataram de esconder as coisas, de subornar juízes, pressionar funcionários.
- ¿Que te parece o memorando com Irán?
- O governo anterior quis fazer crer que os iranianos não tiveram nada que ver, que a culpa foi dos sírios. ¿Não te parece estranho que Timerman tenha negociado este memorando em Alepo (Siria), onde os sírios supostamente só patrocinaram o encontro?
- ¿Que houve com Alberto Nisman?
- O mataram. Eu podia ter terminado como ele. Houve perseguição, o ameaçaram muitas vezes, tanto a ele como a mim, ameaçaram a sua família.
- ¿E por que seguiu adiante então?
- Porque era seu trabalho e porque o não seguir adiante não implicava que viveria. Nas gravações que tinha como evidencia envolvia o Governo. De uma forma ou outra teria ocorrido o mesmo. Ele antes de fazer a denuncia já havia comentado com alguns jornalistas, era assunto sabido.
- ¿E tu, por que te salvastes?
- Porque não puderam me encontrar, me fui a tempo.
- Quer dizer que foi o governo de Cristina que o mandou te matar.
- Isso!
- ¿Suspeita da figura de Lagomarsino?
- Eu suspeito de todos.
- Tu fostes o último a quem Nisman telefonou, mas não o atendestes. ¿Por que?
- Porque não escutei o telefone, estava no modo vibrador.
- Nisman e Arroyo Salgado foram aliados de Cristina. Sem ir mais lonje, Arroyo Salgado foi quem mandou tirar as calcinhas da filha de Herrera de Noble. ¿Que houve?
- Isso não tem nada que ver, eles cumpriam com seu trabalho. Eu também já tirei pentes de casas para tratar de identificar filhos de desaparecidos. Alberto era uma pessoa muito inteligente, muito bom no que fazia. Ele investigou o que pediram, encontrou evidencias contra o Governo e as fez públicas.
- ¿Acreditas que vão esclarecer a morte de Nisman?
- Creio que em algum momento vamos saber. A Alberto lhe inventaram uma "estória" depois de falecido, trataram de desmerecer tudo o que havia feito. Agora que já não estão no poder, a "estória" se esvai.
- Dizem que tu armavas os "carpetazos" para Néstor e Cristina, contra os opositores...
- Isso é mentira, eu não armava nenhum "carpetazo", eu não entendo de política, eu fazia outras coisas: me ocupava de coisas exteriores, de inteligência, contrainteligência, terrorismo. Os Kirchner não utilizavam a SIDE porque tinham seus serviços paralelos, com gente que investigava para eles e lhes armava seus próprios "carpetazos".
- ¿Quem estava a cargo desse serviço de inteligencia paralelo?
- Isso eu direi quando me chame a Justiça.
- ¿Oscar Parrilli?
- Parrilli é um palhaço, não podia manejar nada.
- ¿Conheceu a Néstor e Cristina?
- A ela, a vi uma vez somente, a ele nunca o vi.
- As escutas passarão de novo para a AFI (Agência Federal de Inteligência). ¿Qual tua opinião?
- Que nada muda. Não é um buraco negro, como todos dizem. O sistema funciona assim: há uma central que grava as conversações, o "grampo" se pede por ordem da Justiça às companhias telefônicas, que as desviam à "ojota" (Direção de Observações Judiciais -  central de interceptações).
- ¿Tu nunca grampeastes telefones ilegalmente?
- Tem que ter um equipamento especial. Não contávamos com esse equipamento, mas esse serviço de inteligência paralelo manejado por Cristina o possuía.
- ¿Qual tua opinião sobre a detenção de Pérez Corradi?
- Me parece que é um peão. Eu detive o verdadeiro rei da efedrina, Mario Segovia, em 2008; e aí estourou o tema da mafia dos medicamentos. De todo modo, a mim nunca deram ordem de buscar a Pérez Corradi.
- ¿Acredita que Aníbal Fernández está implicado?
- (Dando de ombros.) O que eu tenha que dizer farei na Justiça.
- Dizem que fostes tu quem informou sobre o dinheiro de José López, e que por isso o pegaram.
- Não, eu não tenho nada que ver. Agora aparecem todas estas coisas porque Cristina já não tem o aparato do Estado e não pode forçar o silenciamento.
- ¿Por que te removeram da SI?
- Quiseram fazer crer que eu era o demônio e que com minha saída tudo seria transparente. O problema foi que começaram a aparecer as denuncias contra Cristina e isso a incomodou; através da mídia fez recair em mim uma serie de acusações.
- ¿Que sabes de Cristina para que tenha se enfurecido tanto?
- Pergunte a ela.
- ¿Mudou a situação com a criação da AFI?
- A AFI segue sendo o mesmo que antes era a SIDE, porém com gente de Cristina, que agora suponho será gente de Macri. Me tiraram, a mim e a muitos que estávamos desde bastante tempo para poder por a sua gente.
- ¿Conhece a Aníbal Fernández?
- O vi em um par de oportunidades. Uma vez com Alberto (Nisman), e ele estava nos gravando. Aníbal era um dos que mais queriam, junto com Cristina, que eu voltasse ao país para me assassinar. Agora que estão fora do governo não veio me visitar. Ninguém veio me visitar. Eles pensaram que seriam eternos, já não tem poder, não tem o aparato do Estado.
- ¿Cristina não tem poder?
- ¿Te parece que sim? Já era, agora é só uma mulher louca, sem força, sem o aparato do Estado.
Fonte: tradução livre de  La Nación
COMENTO:   para melhor entender este tema, recomendo as leituras nos atalhos que se seguem. 

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Guerra de Bugios na Eleição Gaúcha Ilumina Caso Obscuro de Nossa História

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O problema representado pela existência de filhos fora da união conjugal, ou de filhos cuja paternidade não é reconhecida, é muito mais frequente do que aparenta. Já tivemos divulgados pela imprensa diferentes modelos de comportamento, como o do "Rei" Roberto Carlos, cuja juventude foi pródiga de casos amorosos dos quais alguns geraram filhos que, posteriormente o procuraram e, ele de forma extremamente honesta e louvável, após a comprovação dos laços sanguíneos por exames, não titubeou no reconhecimento de sua prole. Já outro denominado "Rei", conhecido por seu talento futebolístico e por sua "luta em prol das criancinhas", não teve o mesmo comportamento, causando extremo desgosto em uma filha que terminou sucumbindo, atacada por mortal doença, sem ser reconhecida oficialmente por seu pai biológico. Outros casos similares ocorridos com gente famosa são do conhecimento público. Tivemos um ex presidente que, contam, terminou metendo os pés pelas mãos ao não aceitar como seu o filho de uma serviçal de sua casa, mas reconheceu suas obrigações para com o rebento de uma jornalista que, posteriormente, foi comprovado não ser seu filho. Para não prolongar essa lista, também tivemos o caso do Vice-presidente bacanão, grande empresário, que além de não reconhecer oficialmente sua responsabilidade para com uma filha gerada na juventude, teve a atitude covarde e desonrosa de adjetivar como 'prostituta" a genitora da mesma, o que posteriormente foi comprovada como perversa e indecente mentira. O destino soube puni-lo devidamente!
Com um pouco de paciência poderíamos encontrar muitos mais casos semelhantes de dignidade ou de covardia moral.
E as épocas de campanha política são muito propícias para que surjam essas histórias, divulgadas com o propósito de manchar a reputação de candidatos, mesmo que já se tenha comprovado que fatos desse jaez pouco influenciam na decisão dos eleitores.
Até mesmo o atual senador Collor de Melo usou golpe semelhante em campanha contra outro patife cujo nome evito citar em função do asco que me provoca.
Assim, não espanta muito a divulgação do suposto casal de filhos ilegítimos atribuídos a Olívio Dutra, figura política da pior parte da história do Rio Grande do Sul.
Como eu não iria mesmo votar no sujeito, sob hipótese alguma, seus problemas familiares não me interessam. Nem de forma negativa, muito menos positiva. Acredito que seja problema a ser discutido em seu âmbito familiar.
Todavia, o mesmo texto que apresentou ao distinto público essa história, nos trouxe outros dados que estão passando em brancas nuvens ante a importância que está sendo dada ao que alguns pensam tratar-se de uma falha moral merecedora de análise no caso do candidato ao Senado.
Me refiro à afirmação de que "a uruguaia Inês Graciela Abelenda Buzo chegou com nome falso a Porto Alegre em 1982. Era militante do Partido de La Voluntad Del Pueblo (Tupamaros) e veio substituir Lilian Celiberti, que foi sequestrada pelo DOPS gaúcho em 1979. Sua tarefa era a de dar instrução revolucionária a sindicalistas".
Mais detalhes sobre a atuação das uruguaias podem ser lidos no blog Navegando pelos Pensamentos.
Aos mais jovens, conto em resumo que Lilian Celiberti Rosas de Casariego e Universindo Rodriguez Diaz formavam um casal de uruguaios residente em Porto Alegre cuja detenção era solicitada pelas autoridades do Uruguai por envolvimento com a "luta armada" naquele país. Em novembro de 1978, alguns agentes de órgãos de segurança gaúchos resolveram colaborar com seus colegas orientais driblando os procedimentos burocráticos. O casal foi preso em Porto Alegre e entregue a agentes uruguaios na fronteira entre os dois países, que os apresentaram como tendo sido presos naquele país. Não deixava de ser verdadeiro, só estava sendo omitido que o ingresso dos dois na ROU havia ocorrido de forma pouco volitiva, na companhia dos agentes brasileiros.
Por falha na execução ou por acaso do destino, dois jornalistas acabaram descobrindo a "operação" e a revelaram jornalisticamente, causando um enorme rebuliço ao acusarem o "sequestro do casal de refugiados". A imprensa repercutiu a gritaria sobre o gravíssimo crime, reclamando providências diplomáticas para a libertação do inocente casal e punição severa aos sequestradores. Organizações de Direitos Humanos somaram-se aos protestos contra o ato criminoso de entregar os pobres jovens à sanha assassina dos militares orientais. Identificados, dois dos "sequestradores" tiveram suas vidas infernizadas. O caso foi desenterrado incontáveis vezes como forma de crítica ao regime militar que vigeu no Brasil até 1985 e como "prova" de que havia colaboração entre órgãos de segurança sul americanos com o objetivo de perseguir simples cidadãos da região.
Agora, surge um detalhe pequeno no relato da aventura romântica de Olívio Dutra, que ilumina uma parte obscura do caso do casal uruguaio. Lilian Celiberti não era somente uma pobre jovem refugiada em Porto Alegre. Ela era militante de uma organização terrorista e cumpria "tarefas revolucionárias" em solo brasileiro. Com a cumplicidade de organizações sindicais gaúchas. Temos, assim, o típico caso de alguém, no caso o jornalista, que atirou no que viu e atingiu o que não viu.
Como escrevi acima, a responsabilidade assumida ou não da paternidade da prole do velho "Bigode" é um assunto que não me interessa.
Prefiro que me expliquem melhor essa história de dona Lilian Celiberti cumprir tarefas para os Tupamaros no Brasil e ter sido substituída nessas missões pela outra jovem uruguaia. Então, havia uma conexão entre os grupos que realizavam "luta armada" no Uruguai e no Brasil (pena não poder mostrar minha cara de espanto irônico)? Então aquela gritaria feita em função da defenestração do casal uruguaio atendia interesses outros que não os direitos humanitários individuais deles? Então, mesmo depois do episódio do casal, os citados grupos revolucionários continuaram suas práticas além-fronteiras? Com o apoio do PT e sindicatos?
Abstraindo os entraves legais, burocráticos e ideológicos que foram driblados pelos agentes poderíamos concluir que, ao fim e ao cabo, eles agiram corretamente? Ou será que podemos concluir que solidariedade além fronteira para cometer crimes são condenáveis para alguns atores e perdoáveis para outros?

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Por que Nossos “Espiões” Têm que Ficar no Brasil?

por Fábio Pereira Ribeiro
Alguns anos venho estudando a área de inteligência e o impacto dos serviços secretos nas relações internacionais, e considerando todo o peso do Brasil no cenário internacional, suas condicionantes políticas e todo problema de segurança internacional e crime organizado transnacional, me pergunto todos os dias, por que o Brasil não tem uma estrutura efetiva de analistas de Inteligência no exterior?
Ao mesmo tempo me pergunto, por que a nossa agência de Inteligência (ABIN) ainda é jungida a um General de Exército, ou a um Gabinete de Segurança Institucional? Não seria mais prudente, e até mesmo inteligente, que a ABIN estivesse vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos?
Depois de tantos anos de Estado ditatorial, o Brasil já teve história suficiente para aprender que a atividade de inteligência não é sinônimo de “porão”, e que a falta da mesma gera reflexos extremamente perigosos para a Nação.
Se analisarmos profundamente os impactos da violência pública que tanto cresce no Brasil, perceberemos que boa parte dos impactos são causados diretamente pela falta de ações de inteligência do Brasil em suas fronteiras, das falhas de integração entre os diversos núcleos de inteligência que alimentam o Sistema Brasileiro de Inteligência (SISBIN) e da falta de oficiais de inteligência nas diversas embaixadas brasileiras espalhadas pelo mundo. Sem contar que a falta de estrutura de inteligência no exterior deixa o Brasil desguarnecido de informações estratégicas sobre economia e geopolítica.
Nossos analistas de inteligência, além de toda estrutura operacional, vivem em geladeiras de informações. O país sofrendo com riscos estruturais do crime organizado transnacional, fluxo migratório de imigrantes (humanitários e criminosos), narcotráfico, contrabando de armas, máfias, espionagem internacional, bio-pirataria, africanos tomando posições em sub-prefeituras em grandes centros, somalianos em território nacional (com apoio de células terroristas), haitianos se perdendo nos rincões (prato cheio para o crime organizado por uma questão puramente natural), até quando trataremos inteligência como burrice operacional?
Não precisamos do romantismo “a lá James Bond”, mas com certeza precisamos de uma estrutura de inteligência que realmente possa dar condições de segurança e competitividade para o país.
O Brasil precisa avançar com a sua agenda de inteligência exterior. Não precisamos de espiões lendo jornais dentro do território nacional, precisamos de oficiais de Inteligência nas fronteiras e nos grandes centros estratégicos para as relações exteriores com o Brasil.
Praticamente nossas operações no exterior acontecem entre Buenos Aires e Caracas. Mas por que não temos ninguém em Nova York, Washington, Paris, Londres, Shangai, Luanda, Bogotá, Jerusalém, Moscou, Nova Déli, entre outros grandes centros estratégicos para produção de inteligência, troca de tecnologia, economia, além das questões de segurança internacional.
O caso Snowden escancarou o descaso político e governamental com as questões de inteligência. A nossa contra-espionagem sofre em proteger o mínimo, e nossos políticos confirmam o quanto piegas são em relação às questões de segurança internacional.
Temos um grupo bom de analistas de Inteligência, mas lógico que sempre tem algum “aloprado ideológico”. O problema que com o tempo, o descaso político irá afastar os analistas, e óbvio, que até na Inteligência a fuga de cérebros é uma questão mais do que evidente.
Que os presidenciáveis se atentem para esta agenda. E que a Política Nacional de Inteligência (PNI) avance, pois assim o controle da atividade estará assegurado, e a funcionalidade da inteligência realmente atenda os anseios da Nação.
Fábio Pereira Ribeiro é Diretor
Fonte:  Brasil no Mundo
COMENTO:  apesar de algumas falhas de concordância na redação, o texto aponta para um grave lapso no nosso Sistema de Inteligência e alerta os candidatos ao cargo máximo da Nação para que atentem para a questão. Por outro lado, manifesto aqui que a crítica que o autor faz à subordinação da ABIN ao estamento militar não procede pois a Atividade de Inteligência, desde sua origem histórica, foi balizada por objetivos de manutenção ou aquisição de Poder Estatal, isto é, propósitos que em última instância podem ser considerados militares (conhecimento em tempo útil de ameaças, vulnerabilidades e possibilidades possíveis de uso nos campos geográfico, militar, político e psicossocial). Posteriormente, foram agregadas as necessidades sobre os aspectos econômicos e de infra estrutura. Assim, Inteligência é uma atividade com a qual os militares sempre conviveram, por necessidade, e com base na qual formulam seus planos e estratégias, sendo, por isso, os melhores gestores da mesma.
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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

"Combateremos o Terrorismo Onde Ele Estiver ..."

Carlos Alberto Montaner é um jornalista e escritor cubano, autor do clássico e imperdível Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano, em parceria com o peruano Alvaro Vargas Llosa e o colombiano Plínio Apuleyo Mendonza. Em sua coluna no Miami Herald, ele conta que um antigo embaixador americano lhe confidenciou porque o governo Dilma é espionado pelo governo americano.
Sua resposta não poderia ser mais franca e direta:
Do ponto de vista de Washington, o governo brasileiro não é exatamente amigável. Por definição e história, o Brasil é um país amigo que ficou do nosso lado durante a II Guerra Mundial e na Coreia, mas seu atual governo não é.
O embaixador pediu para não ter seu nome revelado, pois isso iria gerar um grande problema para ele. Mas autorizou que o jornalista, de quem é amigo, transcrevesse a conversa, sem citar a fonte. O embaixador conhece mais o nosso governo do que nossa imprensa, pelo visto. Diz ele (tradução livre):
Tudo que você tem a fazer é ler os registros do Foro de São Paulo e observar a conduta do governo brasileiro. Os amigos de Luis Inácio Lula da Silva, de Dilma Rousseff e do Partido dos Trabalhadores são os inimigos dos Estados Unidos: a Venezuela chavista, pela primeira vez com (Hugo) Chávez e agora com (Nicolás) Maduro; Cuba de Raúl Castro, Irã, a Bolívia de Evo Morales, Líbia nos tempos de Kadafi; Síria de Bashar Assad.
Em quase todos os conflitos, o governo brasileiro concorda com as linhas políticas da Rússia e da China, em oposição à perspectiva do Departamento de Estado dos EUA e da Casa Branca. Sua família ideológica mais parecida é a dos BRICS, com quem ele tenta conciliar sua política externa.
A grande nação sul-americana não tem nem manifesta a menor vontade de defender os princípios democráticos que são sistematicamente violados em Cuba. Pelo contrário, o ex-presidente Lula da Silva, muitas vezes leva investidores a ilha para fortalecer a ditadura dos Castro. O dinheiro investido pelos brasileiros no desenvolvimento do super-porto de Mariel, próximo a Havana, é estimado em US$ 1 bilhão.
A influência cubana no Brasil é secreta, mas muito intensa. José Dirceu, ex-chefe de gabinete e o ministro mais influente de Lula da Silva, tinha sido um agente dos serviços de inteligência cubanos. No exílio em Cuba, ele teve o rosto cirurgicamente alterado. Ele voltou para o Brasil com uma nova identidade e funcionou nessa condição até que a democracia foi restaurada. De mãos dadas com Lula, ele colocou o Brasil entre os principais colaboradores com a ditadura cubana. Ele caiu em desgraça porque ele era corrupto, mas nunca recuou um centímetro de suas preferências ideológicas e de sua cumplicidade com Havana.
Algo semelhante está acontecendo com o professor Marco Aurélio Garcia, atual assessor de política externa de Dilma Rousseff. Ele é um contumaz anti-ianque, pior do que Dirceu mesmo, porque ele é mais inteligente e teve uma melhor formação. Ele fará tudo o que puder para frustrar os Estados Unidos.
Para o Itamaraty, essa Chancelaria que tem tanto prestigio pela qualidade de seus diplomatas, geralmente poliglotas e bem educados, a Carta Democrática firmada em 2001 em Lima é um simples papelucho carente de importância. O governo, simplesmente, ignora as fraudes eleitorais levadas a cabo na Venezuela ou na Nicarágua, e é totalmente indiferente ante as agressões à liberdade de imprensa.
Mas isso não é tudo. Há outras duas questões sobre as quais os Estados Unidos querem ser informados sobre tudo o que acontece no Brasil, pois, de uma forma ou de outra, elas afetam a segurança dos Estados Unidos: a corrupção e as drogas.
O Brasil é um país notoriamente corrupto e tais práticas afetam as leis dos Estados Unidos de duas maneiras: quando os brasileiros utilizam o sistema financeiro americano e quando eles competem de forma desleal com empresas norte-americanas, recorrendo a subornos ou comissões ilegais.
A questão das drogas é diferente. A produção de coca boliviana se multiplicou cinco vezes desde que Evo Morales assumiu a presidência, e a saída para essa substância é o Brasil. Quase tudo acaba na Europa, e os nossos aliados nos pediram para obter informações. Essa informação, por vezes, está nas mãos de políticos brasileiros.
A pergunta final feita por Montaner foi se o governo americano continuaria espionando o brasileiro. A resposta do embaixador não poderia ser mais objetiva: “Claro, é nossa responsabilidade para com a sociedade americana”.
Nota do Editor 1: Na tradução acima, da Veja, faltaram os seguintes parágrafos:
- Minhas duas perguntas finais são inevitáveis. "Washington irá apoiar o desejo do Brasil de se tornar um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU?"
- “Se você perguntar a mim, não”, disse ele. “Nós já temos dois adversários permanentes: Rússia e China. Nós não precisamos de um terceiro.
Nota do Editor 2: o original do texto em espanhol está aqui e a versão publicada pelo site do jornal Miami Herald está aqui.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Patriotada ou Viadagem Solidária?

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Curtindo um bom passeio e um afastamento da rede mundial por dificuldades de conexão - acreditem, apesar do ufanismo de dona Dilma e do marido de dona Gleise, aliados à inoperância do ministério do Turismo, há lugares "neçapaíz" em que internet não é coisa para quem está fora de casa - tive que me esforçar e buscar contato com o mundo para tratar de um assunto que vem "dominando" o noticiário. 
Pelo terceiro ou quarto dia consecutivo a "grande imprensa" - jornalões, e redes Globo, Band e Record de televisão - continua dando importância desmedida à retenção de um "estudante brasileiro" pelas autoridades policiais britânicas. Efetivamente, abusos de autoridade praticados por policiais não são bom sinal de respeito aos direitos humanos mas neste caso há um componente que me escapa a compreensão.
O fato vem sendo destacado, também, por jornalistas internacionais que aproveitam para não deixar que o caso da "espionagem mundial" atribuída a Barack Obama saia das manchetes. Até aí, nada de anormal. Imprensa vive de audiência e o assunto chama a atenção mundialmente.
Como escrevi, abusos de autoridade não devem ser tolerados como rotineiros, por outro lado, detenções para averiguações nem sempre devem ser consideradas abuso. Isso depende da motivação que conduz ao fato.
No caso em questão, o pano de fundo são as denúncias que um traidor do serviço secreto yankee fez sobre os métodos usados por seu país para obter os dados que julga necessários para estabelecer a segurança de sua sociedade.
Um dos fundamentos da teoria do Estado apregoa que "os cidadãos abrem mão de parte de sua liberdade em troca da segurança proporcionada pelo Estado". Concordemos ou não com esse axioma, a verdade é que o Estado, para bem desempenhar seu papel, tem que ter alguma ascendência sobre a individualidade de seus cidadãos. Não adianta achar ruim! A sobrevivência do coletivo tem que ser superior aos interesses individuais.
Aí temos um grande problema que aflige o serviço de Inteligência de qualquer Nação: como bem executar sua atividade sem ultrapassar os limites legais? Somente os muito ingênuos podem acreditar que um país com pretensões mínimas de sobreviver no conjunto internacional de nações abre mão das atividades ilegais executadas por seu serviço de Inteligência. O Brasil está repleto desses ingênuos, inclusive fazendo parte de sua Agência de Inteligência, que mais aparenta ser um enclave burocrático destinado a catar na imprensa e na internet - fontes obviamente nem sempre confiáveis - os dados que necessita.
Os Estados Unidos, ainda a maior potência econômica e militar deste planeta, obviamente utiliza da melhor forma que lhe parece possível os seus serviços de Inteligência ou, se quiserem, a espionagem. As demais grandes potências, da mesma forma possuem e usam serviços de espionagem. E nessa atividade, há somente um crime: ser descoberto.
Daí, outra grande dicotomia. O espião bem sucedido, apesar de não ter seu sucesso divulgado oficialmente, é considerado um herói nacional em seu país, seja ele qual for. Temos aí exemplos que nos vem desde os tempos bíblicos, passando por tempos de guerra aberta e chegando aos nossos dias em que a maior guerra se dá no aspecto econômico. Não há outra saída. Ou se progride ou se é absorvido. Em outras palavras: ou come ou é comido! 
E a função da espionagem se dá, prioritariamente em duas vias paralelas: buscar dados que conduzam a informações sobre novidades que propiciem oportunidades de crescimento; e proteção de dados e informações que proporcionem vantagens a concorrentes, nem sempre inimigos em termos de conflito violento, mas sempre adversários em termos político-econômicos.
Mas não podemos perdoar o espião que falha, esteja ele do nosso lado ou do lado adversário. E ao profissional dessa atividade que se transfere para para o lado adversário não há outro adjetivo: é um traidor. Ele trai sua profissão, seus colegas, sua atividade e, em última instância, seu país ao colocar a imagem deste em cheque perante as demais nações.
Aí temos o problema do norte-americano Snowden que decidiu "anunciar ao mundo" o que faz seu país em termos de espionagem.
Como se todo mundo já não soubesse. Na falta de outro assunto que sobrepuje o interesse, a imprensa e os governos de muitos países aproveitam para colocar os EUA contra as cordas. Até mesmo o governo brasileiro, incapaz de definir sequer um programa que defina o que lhe interessa em termos de Inteligência, foi aos holofotes bradando contra a suposta invasão de seus segredos.
Pura palhaçada mas que se liga à importância dada ao "namorado brasileiro" de um americano com ligações a Snowden! Quem garantiria que o tal brasileiro não havia viajado com a intenção de recolher novos dados a serem divulgados? Pode-se criticar que tenham tentado conferir a respeito dessa dúvida ser valida ou não? Havendo essa possibilidade, deveriam os norte-americanos e seus aliados britânicos deixar de verificar sua veracidade em nome dos "direitos individuais"? Ou deveriam se portar como os inocentes idiotas (não necessariamente nessa ordem) brasileiros que se recusam a importunar os integrantes das inúmeras ONGs que nos extraem riquezas em forma de conhecimento, para não ofender os outros países? Pura hipocrisia. Mas como escrevi, o crime é ser apanhado com a mão na cumbuca. O estudante brasileiro escapou, deixando a polícia britânica com o ônus de explicar o que não tem explicação. Caso que poderia ser encerrado com um pedido formal de desculpas! Mas não! A honra nacional foi conspurcada e devemos todos bradar por vingança - e, quem sabe uma indenizaçãozinha pecuniária, pois ninguém é de ferro!
Mas o que me parece muito fora do contexto é a atenção que me parece desproporcional dada pelos jornalistas brasileiros. Os mesmos meios que não conseguiram noticiar com oportunidade a invasão e inspeção de um avião militar brasileiro na Bolívia - o caso só veio à tona dois anos depois - e ficaram suficientemente satisfeitos com uma nota medíocre do presidente cocaleiro qualificam o caso do detido em Londres como uma agressão diplomática. Esses mesmos veículos de informação se omitem ou pouca importância dão aos brasileiros - dezenas deles - que frequentemente são retidos e detidos em aeroportos portugueses e espanhóis, às vezes por períodos superiores a 24 horas, sem direito a advogados, apoio de representantes diplomáticos ou mesmo uma alimentação minimamente razoável - quando não são privados até de medicação regular de que necessitem. Também é raro se ver alguma nota ou comentário, ou novidades, ou pressão mesmo, a respeito do político boliviano em situação carcerária na embaixada brasileira em La Paz.
Mas a retenção do brasileiro "namorado" de um jornalista norte-americano tem tido boa divulgação, sendo elevada à condição de "agressão à liberdade de imprensa", com direito a foto de capa na Folha mostrando o emocionado reencontro do casal.
Mas, o ápice do caso me pareceu a emotiva participação do ministro-auxiliar de relações exteriores brasileiro. O tal de Patriota, cujo patriotismo aparentemente se resume ao sobrenome, correu célere para os holofotes em defesa da honra brasileira, parecendo até que ia declarar guerra aos britânicos, numa repetição cômica da fanfarronada argentina por ocasião da Guerra das Malvinas.
O que motivaria essa pantomima toda?
Uma reação de indignação contra todos os maus-tratos feitos contra brasileiros, em todas as épocas? Uma tentativa a mais de desviar as atenções dos acontecimentos nacionais que teimam em desnudar a incapacidade administrativa do desgoverno? Uma manifestação temporã de "anglofobia"? Ou somente uma inocente manifestação de solidariedade "homoafetiva" dos nossos editores noticiosos e diplomatas para com o brasileiro e seu par yankee?  
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terça-feira, 13 de agosto de 2013

Segredos Brasileiros São Bisbilhotados Há Décadas

por Mário Chimanovitch
A denúncia do ex-técnico da NSA Edward Snowden de que os EUA usam métodos sofisticados para nos espionar, que gerou furor nos meios governamentais, não deveria ter causado tanta comoção.
Casos ocorridos nos anos 80 e 90, e até antes, mostram que os segredos políticos e tecnológicos do Brasil são bisbilhotados há décadas não só pelos americanos, mas também por franceses, israelenses e sabe-se lá quem mais.
Documentos ultraconfidenciais do extinto Serviço Nacional de Informações revelam que várias instituições do governo e indústrias estratégicas foram alvo permanente de espionagem externa – os mais visados eram o CTA (Centro Técnico Aeroespacial) e o Instituto de Estudos Avançados da Aeronáutica, em São José dos Campos (SP).
Com o SNI voltado para o “inimigo interno”, a atividade de contraespionagem era praticamente nula no Brasil. Mesmo assim, vez por outra, investigavam-se agentes de “países amigos”, como John James Gilbride Jr., que também utilizava os nomes John Gilbraith ou Jack O’Brian.
Credenciado como vice-cônsul para assuntos econômicos, fachada comumente usada pela CIA no exterior, operou no Brasil de 1988 a 1992, nos consulados dos EUA no Rio e em São Paulo.
Estava empenhado em recrutar cientistas e pesquisadores do CTA, principalmente do programa aeroespacial. Deixou o país quando já estava “queimado” – ou seja, identificado como agente empenhado em ações prejudiciais a interesses brasileiros.
Apurou-se que Gilbride nunca fora diplomata de carreira. O assunto foi encoberto, já que o governo do Brasil queria evitar a eclosão de um escândalo diplomático.
O espião americano marcara almoço com importante cientista brasileiro numa churrascaria da alameda Santos (SP). Os agentes brasileiros que o vigiavam descobriram ser impossível pôr escutas no local devido à fortíssima interferência das antenas de rádio e TV. Terminado o almoço, o americano despistou nada menos que 11 agentes.
O interesse estrangeiro recaía também sobre os centros de pesquisa de universidades como a Unicamp e a USP, com tentativas persistentes de aliciar técnicos e cientistas.
Entre 1983 e 1985, a então Telesp, hoje Vivo, teve roubados carros e macacões dos serviços de manutenção. Após os furtos, a Polícia Federal localizou gravadores em postes do Vale do Paraíba.
Esses grampos – especulou-se – objetivavam registrar telefonemas de pessoas ligados ao setor aeroespacial.

Morte Misteriosa
A misteriosa morte do tenente-coronel José Alberto Albano do Amarante, da Aeronáutica, em 3 de outubro de 1981, evidenciou a atuação de um espião do Mossad, o célebre serviço secreto de Israel.
Nos anos 70, o Brasil desenvolvia secretamente um programa nuclear para fins militares. Parceria com o Iraque assegurava os altos recursos financeiros necessários à sua execução; em troca, os iraquianos teriam acesso aos conhecimentos tecnológicos dos cientistas brasileiros.
O responsável pelo programa na Aeronáutica era Amarante, engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica visto como o pai da pesquisa nuclear no país.
Em outubro de 1981, ele foi atacado por uma leucemia galopante: morreu em dez dias. Sua morte passou a ser investigada pela Aeronáutica – teria sido contaminado de propósito por radiação.
A família acreditava que o cientista fora morto pelos serviços secretos de EUA e Israel, mas nada se comprovou. Na época, a mulher de Amarante contou que ele se queixava de ser seguido quando ia a SP ou ao Rio. Depois, quando seus restos mortais foram exumados para novo enterro no Rio, a família constatou sinais de violação da sepultura.
Amarante fundara o Laboratório de Estudos Avançados, grande centro de estudos destinado a se constituir na espinha dorsal da pesquisa nuclear do país. Seu objetivo era ambicioso: desenvolver o enriquecimento de urânio por raios laser (usados para detonar a reação nuclear), em vez do sistema de centrífugas, mais oneroso e lento.
No exterior, cresciam as suspeitas de que as experiências objetivavam desenvolver armas nucleares, o que sempre foi negado pelo Brasil.

Escutas no Hotel
As investigações sobre a morte de Amarante revelaram a existência de um misterioso personagem, Samuel Giliad ou Guesten Zang, um israelense nascido na Polônia, que lutara contra os alemães na Segunda Guerra.
O israelense, apelidado de “Mister Pipe” por fumar cachimbo, chegou a São José em 1979 para gerir o Hotel Eldorado, o principal da cidade, que hospedava muitos estrangeiros, civis e militares, envolvidos em atividades industriais e científicas na área.
Extremamente simpático, Giliad mancava de uma perna devido a um tiro levado na guerra, contava. Hábil, instituiu no Eldorado reuniões sociais de secretárias e gerentes de indústrias, gente solitária capaz de soltar a língua estimulada por drinques. Assim, tinha acesso a informações valiosas: sabia quais delegações visitavam quais indústrias da região e, sempre que possível, a razão das visitas.
O israelense tentou se aproximar de Amarante, mas o oficial o repelia: nunca atendeu a nenhum convite. Passou a frequentar o dentista que atendia Amarante, procurando marcar horários logo depois dos do oficial.
O coronel aborrecia-se com a insistência, e suas suspeitas cresceram quando o dentista o alertou das perguntas que Giliad fazia: “O que é que a Aeronáutica está construindo em Cachimbo (Pará)? Ouvi dizer que se trata de uma grande pista de pouso. Mas para que servirá, se já existem as de Manaus e Belém?”.
Era em Cachimbo que estava sendo preparado o local para a primeira experiência do projeto nuclear brasileiro.
Diante dessas perguntas, o alarme foi dado, e Giliad passou a ser vigiado de perto. Descobriu-se que ele tinha cinco passaportes com nomes diferentes e instalara escutas nos quartos e demais dependências do hotel, para ouvir hóspedes e empregados.
Após dois anos, o israelense bateu em retirada de forma hábil quando percebeu que a vigilância crescia: publicou anúncio num jornal local procurando uma acompanhante para dividir despesas numa viagem à Argentina.
O Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica errou ao responder ao anúncio enviando um agente (homem). Percebendo que fora desmascarado, Giliad deixou a cidade e desapareceu.
Foi durante a ação do agente israelense em São José que a mídia internacional revelou que o Brasil fazia remessas secretas de urânio enriquecido ao Iraque, disfarçadas em material bélico da Avibrás.
Foi também durante a sua estada na região que o “Latin America Weekly Report” noticiou a misteriosa morte de Amarante, expondo suas atividades secretas com impressionante riqueza de detalhes.
Finalmente, quando se divulgou, em 1981, a história das remessas secretas, o Mossad já sabia de tudo e as documentara com fotos. O episódio brasileiro, acreditam os especialistas, serviu como manipulação da opinião pública para que Israel justificasse seu bem-sucedido ataque aéreo ao complexo atômico de Tamuz, no Iraque.
COMENTO: texto interessante, mas o autor não tem bons conhecimentos sobre a atividade de contrainteligência desenvolvida no Brasil pré-ABIN. Para quem quer saber um pouco do trabalho nessa área, recomendo a leitura do excelente livro “A Contra-espionagem Brasileira na Guerra Fria”, escrito por JORGE DA SILVA BESSA, agente brasileiro aposentado.
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