Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador educação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Direitos da Sociedade x Direitos dos Indivíduos

.
É questionável que o plano de vida pouco edificante de alguns cidadãos se torne referencia pública: exemplo rodeado de álcool e drogas que não é o melhor para crianças e jovens.
Imagem: Internet - Foto de Juarez Santos / Fotos Públicas - Jornal Metro
Editorial
É certo que o Estado e suas instituições não podem usufruir uma super-autoridade que lhes permita assumir a atribuição de conceber, com proibições e repressões, o plano de vida dos cidadãos. Mas não é menos pertinente que a ordem social proposta, disposta com base em princípios diretores a Constituição , evite que o livre desenvolvimento da personalidade de alguns indivíduos se converta no espelho em que deve mirar-se e da qual deve tomar exemplo cotidianamente a maioria da sociedade, especialmente suas crianças e jovens.
Em um país que busca garantir liberdades, não se pode confundir o respeito aos direitos individuais com uma permissividade tal que faça com que a escolha de consumir álcool e drogas seja parte do cenário público, como se tratasse de simples paisagem, em um contexto contaminado de ilegalidade e ameaças contra a vida, a honra e os bens dos cidadãos.
É como se o Bronx, em Bogotá, ou as Cuevas, em Medellín (NT: ou a Cracolândia, em São Paulo), vistos desde a ótica dos consumidores
esqueçamos as máfias que os gravitam por um segundo fossem opções prometedoras e edificantes para nossa sociedade. Por fortuna, essas “panelas” de vicio já foram demolidas e recuperadas (NT: na Colômbia, pois a Cracolândia paulista encontra-se em plena atividade).
Há que agregar que hoje as redes de distribuição de drogas, seguramente ilegais e criminosas, acossam crianças e adolescentes desde as cercanias dos centros educativos. Pensar na ideia de ruas, parques e praças do país, abertos ao consumo indiscriminado e permanente de drogas e álcool, não se entende como una perspectiva condizente a melhorar as condições de ordem pública e convivência, para proveito geral e coletivo.
Compreende-se que a Corte Constitucional assuma a interpretação e aplicação dos princípios constitucionais com uma ótica de paz, de tolerância, de diversidade e de respeito a maiorias e minorias. Mas a ordem prática de sua doutrina, neste caso, se choca contra a realidade de um país cheio de limitações para garantir que o consumo de drogas e álcool no espaço público, sem restrições, não se converta em uma fonte de discórdia, inseguridade, abusos e desordens.
A Corte Constitucional tem batalhado por conquistas substanciais em matéria de direitos e liberdades para os colombianos, inclusive às vezes incompreendida no ofício de entender, interpretar e garantir igualdade no complexo e diverso espectro de um país tão heterogêneo. São muito elogiáveis sua existência e trabalho, capaz de distinguir caprichos, taras e preconceitos morais e políticos e de corrigir lacunas legais, mas esta não é a ocasião. Proibir esse tipo de consumos no espaço público, a favor do direito coletivo a um ambiente são e seguro, não significa anular liberdades individuais.
Não é lugar comum recordar que em países desenvolvidos e garantistas dos direitos civis e humanos (EE.UU., Rússia e França), é proibido o consumo de drogas e/ou álcool em espaço público (parques, praças e ruas, essencialmente; inclusive em veículos), por razões de ordem prática: impedir que essa escolha e “gosto” individual se imponham no cotidiano da maioria dos usuários do espaço público e que sejam um risco a essa maioria.
O direito consuetudinário, baseado na práxis e nos exemplos de cada caso, ensina que é melhor antecipar essas circunstâncias de vulnerabilidade da ordem pública, a que são tão propensos os indivíduos sob o efeito de substancias estimulantes, psicoativas. Por isso o consumo é permitido, mas é reduzido, ordenado, e restringido ao espaço privado, ao de um ambiente no qual esse cidadão, com legítimo direito ao desenvolvimento de sua livre personalidade, não arrisque os direitos de outros.
Não há consumo sem venda. Não há demanda sem oferta. Buscar a prevalência da ordem pública não é defesa do proibicionismo. Simpatizar e defender a segurança, a tranquilidade, a salubridade e a moralidade nos espaços de uso geral, públicos, não rivaliza com que cada um viva e exerça sua livre personalidade, com amplitude, nos espaços e lugares adequados para que sua escolha não se imponha a outros, em especial às crianças e aos jovens, sem a maturidade, assistência e proteção suficientes do Estado, da sociedade e da família, para definir seus planos de vida.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
COMENTO: o texto se refere a uma possível liberação legal, na Colômbia, do uso de bebidas alcoólicas e drogas em locais públicos, que era proibido. Na verdade, a Suprema Corte de lá não "liberou" essas ações, mas repassou para as autoridades municipais a função de legislar sobre o assunto. Diferente do nosso STF — useiro e vezeiro na imposição de sentenças que nem sempre atendem aos interesses da coletividade —, os magistrados colombianos evitaram "legislar" sobre o assunto, conferindo essa atribuição aos legisladores municipais, que melhor conhecem as idiossincrasias de suas urbes.
.

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Crime Cometido Para Ocultar Uma Descoberta Matemática?

.
Um dos descobrimentos mais importantes da ciência, em sua época, era uma ameaça.
Foto:   ¿O formoso cenário de um horrendo crime?
por Dalia Ventura - BBC Mundo 
04 Mar 2019
Contam que em uma manhã em meados do século VI A.C. um homem foi jogado ao mar aberto frente à costa da Grécia.
desafortunado se chamava Hipaso de Metaponto e era matemático, teórico da música e filósofo pré-socrático.
Foi abandonado a sua sorte, e sua sorte não podia ser outra que a morte.

Como ocorre frequentemente com conhecimentos do mundo antigo, há quem tenha certeza de que isso aconteceu, enquanto outros questionam o relato.
Ninguém ainda pode comprovar se essa parte da historia é verdadeira.
Mas, a outra parte é a mais interessante: a razão pela qual queriam mata-lo.
É que poucos assassinatos têm uma motivação tão assombrosa como o descobrimento da incomensurabilidade e da irracionalidade, matematicamente falando.

Uma estrela da antiguidade
Esta historia começa com uma das celebridades da antiga Grécia, Pitágoras de Samos (cerca 580 — 500 A.C.), a quem se atribui o inicio da transformação da matemática de uma ferramenta para a contabilidade em uma ciência analítica.
Mesmo havendo aqueles que o refutariam.
Pitágoras é, de fato, um personagem polêmico. Como não deixou escritos matemáticos, muitos se perguntam se realmente fez o que dele se diz (incluindo alguns de seus teoremas).
Há evidência somente de que ele tenha  fundado uma escola, ainda que seus ensinamentos fossem considerados suspeitos e seus seguidores, estranhos.
Uma característica incomum no mundo antigo é a de que eles aceitavam mulheres.

Os pitagóricos
As escolas de pitagóricos se assemelhavam mais a uma seita, pois não só compartiam conhecimento.
Os estudantes levavam uma vida estruturada de estudos e exercícios, inspirados em uma filosofia baseada na matemática.
Os primeiros pitagóricos eram de classe media alta e politicamente ativos.
Formaram uma elite moral que se esforçou por aperfeiçoar sua forma física nesta vida para obter a imortalidade na seguinte.
Segundo os pitagóricos, para libertar a alma e alcançar a imortalidade, o corpo mortal tinha que ser rigorosamente disciplinado de maneira que se mantivesse moralmente puro e livre da natureza básica.
Se não conseguisse, a alma se reencarnaria repetidamente, ou "transmigraria", até que se libertasse por mérito acumulado.
Os pitagóricos também acreditavam no cosmos, que nesse momento se referia a uma ideia de uma perfeita ordem e beleza em todo o Universo.
Embora provavelmente seguissem o politeísmo grego clássico, tinham fé em uma divindade superior, que estava sobre todas as demais.
Tinham uma serie de tabus, que incluíam a carne e os feijão, e viviam de acordo com uma serie de regras que regiam todos os aspectos da vida.

Triângulos e quadrados
Outra coisa é certa: Pitágoras é sinônimo de entender as propriedades dos triângulos retângulos, algo que iludiu os egípcios e os babilônios.
O teorema de Pitágoras estabelece que se tomarmos um triângulo retângulo e fizermos quadrados em todos os seus lados, a área do quadrado maior é igual à soma dos quadrados dos dois lados menores.
Em outras palavras, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos outros dois lados (catetos).
É um teorema que ilustra uma das características da matemática grega: em vez de depender somente dos números, apelavam a belos argumentos geométricos.

Melódico
Ainda que muitos descobrimentos que lhe creditaram tenham sido contestados, há uma teoria matemática que ainda lhe atribuem e tem  que ver com a música.
Contam que um dia, ao passar por uma ferraria, Pitágoras ouviu as notas produzidas pelos golpes nas bigornas e notou que soavam em perfeita harmonia.
Ao buscar una explicação racional para entender essa qualidade tão cativadora, recorreu à matemática e descobriu que os intervalos entre as notas musicais harmoniosas sempre se apresentavam em proporções de números inteiros.
Contam que Pitágoras ficou tão emocionado com o descobrimento que chegou à conclusão de que todo o Universo havia sido construído a partir de números.

Tudo é um número
Sua doutrina de que "todas as coisas são números" foi importante para a historia da filosofia e a ciência.
Queria dizer que a essência e a estrutura de todas as coisas se podem determinar ao encontrar as relações numéricas que as expressam.
Originalmente, se tratava de uma generalização ampla baseada em observações como...
  • que as mesmas harmonias podem produzir-se com diferentes instrumentos por meio das mesmas relaciones numéricas  — 1:2, 2:3, 3:4 — em extensões unidimensionais; 
  • que existem certas regularidades nos movimentos dos corpos celestes; 
  • que a forma de um triângulo está determinada pela relação dos comprimentos de seus lados.

Mas os seguidores de Pitágoras tentaram aplicar seus princípios em todos lugares com maior precisão.
Na tentativa, se depararam com um desafio inquietante a esta visão do mundo, que surgiu de suas próprias fileiras e envolveu o teorema de Pitágoras.

A ameaça
Um dos membros mais prestigiados da Escola pitagórica era precisamente Hipaso, aquele que havíamos deixado afogando-se nas águas do Mar Mediterrâneo no principio desta historia.
Sem nenhuma má intenção, Hipaso se dispôs a encontrar o comprimento da diagonal de um triângulo retângulo com dois lados que meçam uma unidade.
Talvez uma ilustração nos ajude a calcular: eis aqui um quadrado e cada um de seus lados tem 1 unidade (metro, centímetro, quilômetro, etc) de comprimento.
¿Quanto mede a diagonal do quadrado?
Graças ao teorema de Pitágoras, podemos calcular o quadrado do comprimento do lado maior de um triângulo retângulo somando os quadrados dos outros dois lados.
Então o tamanho da diagonal ao quadrado é (1×1)+(1×1) = 2, ou seja a medida da diagonal é √2. Ou, o número que multiplicado por si mesmo resulta em 2.
¿Mas, qual é esse número? A raiz quadrada de 2 não é 1 porque 1x1 é 1. E não é 2, porque 2x2 é 4. É alguma coisa intermediária.
Algo que os babilônios haviam gravado na tábua de Yale, ainda que não o tenham compreendido.









Esse algo era um número irracional,
(como π, o número de Euler e o número áureo o 'pí').
Foi um dos descobrimentos mais importantes da historia da ciência: o lado e a diagonal de figuras simples como o quadrado e o pentágono regular são incomensuráveis, ou seja, sua relação quantitativa não pode ser expressa como uma relação de números inteiros.

O segredo
Esses números irracionais não encaixavam na visão de mundo pitagórica.
Mais, o descobrimento ameaçava destruir a base de toda a filosofia pitagórica.
Implicava que os seguidores do famoso filósofo e matemático já não eram possuidores de uma verdade: o dogma de que tudo possui sua medida era falso e o poder que haviam atribuído aos números, também.
Se os números naturais, que para os pitagóricos constituíam a essência da realidade, nem sempre serviam para achar a medida das coisas, tampouco eram o caminho para conquistar um saber divino.
Os comentaristas gregos contam que Pitágoras fez com que sua escola jurasse não revelar o descobrimento.
No entanto, Hipaso insistia em divulgar a natureza do comensurável e o incomensurável, o conhecimento dos "perigosos" números irracionais.
Esse teria sido o motivo do suposto crime: silencia-lo.
Provavelmente nunca saberemos se esse realmente foi o final da historia de Hipaso de Metaponto.
O que podemos ter certeza é de que não o foi para os números irracionais.
Não obstante, a historia sugere um fim: o da sacralização do saber.
Fonte:  tradução livre de El Tiempo
COMENTO:  como diz o próprio texto, não há como comprovar a veracidade da "estória" contada. Mas podemos tomar como lição a confirmação da assertiva de que "conhecimento é poder— mesmo quando esse conhecimento não reflita a Verdade — e quem os detém (conhecimento e poder) é capaz de muitas coisas para mantê-los.
.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A Ordem de Cristo e o Descobrimento do Brasil

.
Um dos fatos da história oculta do descobrimento do Brasil envolve a famosa Ordem de Cristo. Na Idade Média foi criada a Ordem dos Cavaleiros Templários, que tantas páginas da história preencheram. Dissolvida violentamente em 1312 pelo Papa, a Ordem continuou existindo em Portugal  um dos reinos mais tolerantes naquele momento  e albergou aqueles que fugiam da atroz perseguição em outros domínios europeus.
O rei português D. Dinis foi o mentor da fundação da Ordem de Cristo, que na realidade era uma fachada para ocultar os verdadeiros templários os que outrora haviam protegido os caminhos de peregrinação europeus até Jerusalém conquistada pelas Cruzadas.
A Ordem de Cristo originalmente era uma ordem religiosa e militar, criada a 14 de Março de 1319 pela Bula Papal Ad ea ex-quibus de João XXII, que, deste modo, acedia ao pedidos do rei português Dom Dinis. Recebeu o nome de Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo e foi herdeira das propriedades e privilégios da Ordem do Templo.
Em Maio desse mesmo ano, numa cerimônia solene que contou com a participação do Arcebispo de Évora, do Alferes-Mor do Reino D. Afonso de Albuquerque e de outros membros da cúria régia, o rei Dom Dinis ratificou, em Santarém, a criação da nova Ordem.
Outro personagem célebre, o Infante D. Henrique, conhecido como “O Navegante” e fundador da Escola de Sagres (de técnicas e descobrimentos náuticos) foi o líder da Ordem de Cristo. Os ideais da expansão cristã reacenderam-se no século XV quando seu Grão-Mestre, Infante D. Henrique, investiu os rendimentos da Ordem na exploração marítima. O emblema da ordem, a Cruz da Ordem de Cristo, adornava as velas das caravelas que exploravam os mares desconhecidos.
Em dezembro de 1498, uma frota de oito navios, sob o comando de Duarte Pacheco Pereira, atingiu o litoral brasileiro e chegou a explorá-lo, à altura dos atuais Estados do Pará e do Maranhão. Essa primeira chegada dos portugueses ao continente sul-americano foi mantida em rigoroso segredo. Estadistas hábeis, os dois últimos reis de Portugal entre os séculos 15 e 16  D. João II e D. Manuel I  procuravam impedir que os espanhóis tivessem conhecimento de seus projetos.
***
Domingo, 8 de março de 1500, Lisboa. Terminada a missa campal, o rei d. Manuel I sobe ao altar, montado no cais da Torre de Belém, toma a bandeira da Ordem de Cristo e a entrega a Pedro Álvares Cabral.
O capitão vai içá-la na principal nave da frota que partirá daí a pouco para a Índia. Era uma esquadra respeitável, a maior já montada em Portugal com treze navios e 1.500 homens. Além, do tamanho, tinha outro detalhe incomum.
O comandante não possuía a menor experiência como navegador. Cabral só estava no comando da esquadra porque era cavaleiro da Ordem de Cristo e, como tal, tinha duas missões: criar uma feitoria na Índia e, no caminho, tomar posse de uma terra já conhecida, o Brasil. A bordo do navio de Cabral, estavam presentes alguns dos mais experientes navegadores portugueses, como Bartolomeu Dias, o mesmo que dobrou o cabo da Boa Esperança, atingindo pela primeira vez o oceano Índico e o navegante Duarte Pacheco que estava a bordo do navio para mostrar o caminho em direção ao Brasil.
A presença de Cabral à frente do empreendimento era indispensável, porque só a Ordem de Cristo, uma companhia religiosa-militar autônoma do Estado e herdeira da misteriosa Ordem dos Templários, tinha autorização papal para ocupar  tal como nas Cruzadas  os territórios tomados dos infiéis (no caso brasileiro, os índios).
No dia 26 de abril de 1500, quatro dias depois de avistar a costa brasileira, o cavaleiro Pedro Álvares Cabral cumpriu a primeira parte da sua tarefa. Levantou onde hoje é Porto Seguro a bandeira da Ordem e mandou rezar a primeira missa no novo território. O futuro país estava sendo formalmente incorporado às propriedades da organização.
O escrivão Pero Vaz de Caminha, que reparava em tudo, escreveu para o rei sobre a solenidade:
"Ali estava com o capitão à bandeira da Ordem de Cristo, com a qual saíra de Belém, e que sempre esteve alta."
Para o monarca português, a primazia da Ordem era conveniente. É que atrás das descobertas dos novos Cruzados vinham as riquezas que faziam a grandeza e a glória, do reino de Portugal.
Alguns historiadores acreditam que o infante e seus navegantes, conheceram o Brasil antes que Cabral. O próprio Cabral havia se tornado membro da ordem no ano de 1495, portanto pouco antes de realizar a sua viagem para o Brasil.
Muitos pesquisadores acreditam que caso Cabral não tivesse aderido a Ordem de Cristo, ele jamais teria sido encarregado dessa viagem.
E enfrentando dificuldades não pequenas, os reis de Portugal, num trabalho contínuo através dos séculos, conseguiram promover a povoação e a civilização de um país de dimensões continentais, assentando solidamente as bases para o surgimento de um grande Império, unido na fé, na cultura e nos costumes.
O certo é que o Brasil fez parte do patrimônio da Ordem durante muito tempo. As caravelas que aqui chegaram traziam abertas as velas com a cruz templária, símbolo máximo da instituição.
Bibliografia:
— BRAGANÇA, José Vicente de. As Ordens Honoríficas Portuguesas, in «Museu da Presidência da República». Museu da P.R./C.T.T., Lisboa, 2004
— CHANCELARIA DAS ORDENS HONORÍFICAS PORTUGUESAS. Ordens Honoríficas Portuguesas. Imprensa Nacional, Lisboa, 1968
— ESTRELA, Paulo Jorge. Ordens e Condecorações Portuguesas 1793-1824. Tribuna da História, Lisboa, 2008
— MELO, Olímpio de. Ordens Militares Portuguesas e outras Condecorações. Imprensa Nacional, Lisboa, 1922
— BURMAN, Edward. Templários, Os Cavaleiros de Deus. Trad. Paula Rosas. Rio de Janeiro: Record, Nova Era, 2005.
— DEMURGER, Alain. Os Templários, uma cavalaria cristã na idade Média. Trad. Karina Jannini. Rio de Janeiro: DIFEL, 2007.
— STODDART, William. Lembrar-se num mundo de Esquecimento. São José dos Campos: Kalon 2013.
— SCHUON, Frithjof. O Homem no Universo. São Paulo: Perspectiva, 2001.
— SOARES DE AZEVEDO, Mateus. A Inteligência da Fé: Cristianismo, Islã, Judaísmo. Rio de Janeiro: Record, 2006.
COMENTO: as origens portuguesas e, particularmente, de membros da Ordem de Cristo, reforçam a característica de forte ligação com a fé cristã que marcou o "nascimento" de nosso país. Me vejo, ainda na obrigação de compartilhar trecho de texto publicado pelo jornalista Alexandre Garcia em sua página no Facebook:
O pesquisador Lenine Barros Pinto escreve que Vasco da Gama reabasteceu sua frota em direção às índias, de água fresca e frutas, no saliente nordestino. Era uma rota secreta portuguesa, que evitava calmarias e piratas da costa africana. Afirma que que Cabral, antes de seguir para as índias, fora mandado chantar (plantar) marcos portugueses, com a Cruz da Ordem de Cristo, para assinalar a posse, prevenindo-se dos espanhóis, que já haviam chegado no novo continente. Fez isso por “2 mil milhas de costa”. O último marco está em Cananéia/São Paulo. Contada essa distância para o norte, vai dar em Touros/RN, e não em Porto Seguro, como pensava o historiador Varnhagen. O Cabugi vê-se do mar; o Monte Pascoal, não. Ao fim dessas memórias sobre nosso passado, deixo aqui a polêmica, para que busquemos a verdade sobre nosso nascimento.
Assunto para os bons historiadores e pesquisadores de nossa História!
.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Golpe ou Contrarrevolução? - 1964: Verdades Inconvenientes

por Flávio Gordon
“É inegável que o golpe militar e civil foi empreendido sob bandeiras defensivas. Não para construir um novo regime. O que a maioria desejava era salvar a democracia, a família, o direito, a lei, a Constituição…”
(Daniel Aarão Reis. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à Constituição de 1988)
Clique na imagem para aumentar a visualização
Na madrugada de 27 de novembro de 1962, um Boeing 707-441 (prefixo PP-VJB) decolou do Rio de Janeiro levando 80 passageiros e 17 tripulantes. Era o voo 810 da Varig, com destino a Los Angeles, e escalas em Lima, Bogotá e Cidade do México. Pouco antes de aterrissar no Aeroporto Internacional Jorge Chávez, em Lima, a aeronave colidiu com uma montanha e explodiu, matando todos a bordo.
Entre as vítimas fatais, estava Raúl Cepero Bonilla, que substituíra Ernesto Che Guevara na presidência do Banco Nacional de Cuba, e que, à frente de uma grande delegação cubana, viera ao Brasil sob o pretexto formal de participar da 7ª Conferência da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). Informalmente, Bonilla fora enviado por Fidel Castro para tratar de um assunto delicado com o presidente brasileiro João Goulart.
A história começara meses antes do acidente aéreo, quando o coronel getulista e veterano da FEB Nicolau José Seixas, nomeado por Goulart para a chefia do Serviço de Repressão ao Contrabando, obteve informações sobre a chegada recorrente de grandes caixotes com geladeiras a uma fazenda em Dianópolis (à época, Goiás; hoje, Tocantins). Como não houvesse sequer energia elétrica naquele lugar ermo, Seixas desconfiou que o conteúdo dos caixotes fossem armas contrabandeadas por latifundiários da região. Tendo reunido seus homens de confiança, numa madrugada, o coronel comandou uma batida surpresa à fazenda. Assustados, e sem oferecer resistência, os ocupantes fugiram para o mato, deixando para trás todos os pertences, incluindo as tais “geladeiras”. Ao inspecionar a carga, Seixas e seus comandados tiveram uma surpresa.
Com efeito, havia ali armas contrabandeadas, mas não só. Junto a elas, muitas bandeiras cubanas, retratos e textos de discursos de Fidel Castro e do deputado pernambucano Francisco Julião (o líder das Ligas Camponesas), manuais de instrução de combate e planos para a construção de novos focos de guerrilha rural. Além disso, havia também planilhas detalhando a polpuda contribuição financeira enviada por Cuba ao movimento revolucionário de Julião. Sim, sem desconfiar de nada, o coronel Seixas acabara de desbaratar um campo de treinamento militar das Ligas Camponesas, que, em plena vigência da democracia no país (o ano era 1962, recorde-se), pretendia derrubar o governo por meio das armas, instaurando aqui um regime comunista nos moldes cubanos.
Em vez de comunicar sobre o material subversivo ao serviço de inteligência do Exército, como seria o mais comum, o coronel Seixas entregou-o diretamente a João Goulart, que, diante da grave ameaça estrangeira ao seu governo, tomou uma decisão muito estranha. Sem nada comunicar aos seus ministros, ao Congresso, ao STF ou à imprensa, o presidente foi se queixar com o embaixador de Cuba, dizendo-se “traído”. E é nesse contexto que, dias depois, Fidel Castro envia Raúl Cepero Bonilla para se haver com Goulart.
Em reunião sigilosa no Palácio do Planalto, e depois de conversarem sabe-se lá o que, o ministro cubano recebeu das mãos do presidente brasileiro todo o material apreendido em Dianópolis. Com esse gesto discreto e conciliador, Goulart dava o caso por encerrado, pretendendo que ninguém mais soubesse do ocorrido. Para seu azar, contudo, a pasta de couro em que Bonilla levava a documentação de volta a Cuba foi encontrada intacta entre os destroços do Boeing 707-441. O material acabou nas mãos da CIA, que tornou público o seu conteúdo.
Convém esclarecer: a história relatada acima não brotou da cabeça de nenhum bolsonarista radical, intervencionista ou saudosista do regime militar. Ela está no livro Memórias do Esquecimento, do ex-guerrilheiro Flávio Tavares, um dos 15 presos políticos libertados por ocasião do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. E, muito embora Tavares tenha se limitado a relatar os fatos, furtando-se a uma conclusão inconveniente à versão esquerdista da história, ela me parece inescapável.
Ao devolver discretamente à nação inimiga os planos de um levante armado contra o seu governo, sem nada informar às Forças Armadas e aos demais poderes da República, o presidente João Goulart cometeu um ato de traição à pátria. Que tenha, ele próprio, se declarado “traído” ao embaixador cubano é altamente significativo nesse contexto, um sinal evidente de que esperava lealdade de Cuba, e de que, portanto, algo em troca fazia para merecê-la. Talvez jamais venhamos a saber exatamente que algo era esse, mas o simples acerto sigiloso com Fidel já seria motivo mais que justificado para a sua deposição.
Eis o tipo de fato que a esquerda brasileira, solidamente aquartelada na grande imprensa, não deseja que seja mais conhecido por parte do público, uma vez que ameaça a sua mitologia particular sobre o 31 de março de 1964. Se, entre outras coisas, fosse comprovada a existência de focos de guerrilha no país antes da queda de João Goulart (e, ademais, com o patrocínio da ditadura socialista cubana), cairia por terra a lenda segundo a qual a opção pela luta armada foi apenas uma reação de setores da esquerda ao regime militar, e não parte de uma estratégia de tomada violenta do poder.
Foi para impedir que os leitores nutrissem qualquer impulso de questionar a lenda que, por exemplo, a revista Super Interessante publicou em outubro do ano passado (em plena corrida eleitoral, portanto) uma matéria com o título “Mito: os militares impediram um golpe comunista em 1964”, cujo lead exibia o dogma inquestionável: “A verdade: Jango era um político trabalhista, não comunista. E a luta armada só ganhou adeptos depois do golpe”. No corpo da matéria, lia-se ainda: “Embora a revolução cubana e a figura romântica de Che Guevara pudessem inspirar jovens idealistas, a luta armada estava fora dos planos das esquerdas brasileiras Enquanto o Brasil foi uma democracia, a luta armada ficou de fora. Em vez disso, a esquerda abraçava a estratégia pacífica do PCB de se aliar a Jango e pressionar por reformas nas ruas. Foi somente com o golpe de 1964 que grupos debandaram do Partidão e abraçaram o modelo de revolução de Fidel Castro. Se essas pequenas e malsucedidas guerrilhas tentaram fazer do Brasil uma segunda Cuba, foi em grande parte em reação ao próprio golpe”.
Trata-se de um exemplo típico das tentativas da esquerda de emplacar sua narrativa mistificadora, com base num curioso non sequitur, segundo o qual o fracasso circunstancial do projeto de luta armada serviria como prova do seu caráter essencialmente inofensivo, com o qual só mesmo um anticomunista paranoico poderia se preocupar. Ora, decerto ninguém esperava que um redator da Super Interessante abandonasse sua refeição vegana ou a balada com os amigos para se aprofundar na historiografia do período antes de lhe dedicar uma matéria, sobretudo quando o objetivo não é informar o público, mas jogar água no moinho da esquerda. Mas o fato é que, hoje, temos fartas evidências mostrando que a ameaça de uma revolução armada já se fazia presente muito antes da derrubada de João Goulart. E, de novo, tais evidências não provêm de fanáticos bolsonaristas, mas de estudiosos simpáticos à esquerda, como, por exemplo, a historiadora Denise Rollemberg, da Universidade Federal Fluminense.
No livro O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil, a autora confirma o relato de Tavares, deixando claro que a narrativa habitual da esquerda simplesmente inverte a ordem dos fatores: antes que consequência do assim chamado golpe de 1964, a opção da esquerda pela revolução armada foi uma de suas causas. Escreve Rollemberg: “Quanto à revolução brasileira, Cuba apoiou a formação de guerrilheiros, desde o momento em que assumiu a função de exportar a revolução, quando o Brasil vivia sob o regime democrático do governo João Goulart, ou seja, antes da instauração da ditadura… Cuba apoiou, concretamente, os brasileiros em três momentos bem diferentes. O primeiro, como disse, foi anterior ao golpe civil-militar. Nesse momento, o contato do governo cubano era com as Ligas Camponesas… Cuba viu nesse movimento e nos seus dirigentes o caminho para subverter a ordem no maior país da América Latina”. E conclui: “A relação das Ligas com Cuba evidencia a definição de uma parte da esquerda pela luta armada no Brasil, em pleno governo democrático, bem antes da implantação da ditadura civil-militar. Embora não se trate de uma novidade, o fato é que, após 1964, a esquerda tendeu  e tende ainda  a construir a memória de sua luta, sobretudo, como de resistência ao autoritarismo do novo regime. É claro que o golpe e a ditadura redefiniram o quadro político. No entanto, a interpretação da luta armada como, essencialmente, de resistência deixa à sombra aspectos centrais da experiência dos embates travados pelos movimentos sociais de esquerda no período anterior a 1964”.
É preciso lembrar ainda que, ao falar de interferência cubana na política brasileira, estamos falando necessariamente da URSS. Desde o início da Guerra Fria, os dirigentes soviéticos estavam convencidos de que precisavam estender os seus tentáculos sobre o Terceiro Mundo. Em meados de 1960, por exemplo, o comando central da KGB já tratava Cuba como um Avanpost  ou, em jargão militar, “cabeça-de-ponte”  para a conquista da América Latina. Em julho do ano seguinte, o então chefe da KGB, Alexander Shelepin, enviou a Kruschev um plano para explorar a nova posição. A ideia era financiar os movimentos de libertação nacional do Terceiro Mundo para que conduzissem levantes armados contra governos considerados “reacionários” ou “pró-americanos”. Como observou certa feita Nikolai Leonov, alto oficial de inteligência soviético, havia à época a convicção de queo destino do enfrentamento mundial entre os EUA e a URSS, entre capitalismo e socialismo, seria decidido no Terceiro Mundo”.
Quando o redator da Super Interessante afirma a não existência de uma ameaça de revolução comunista no Brasil da época, com base no argumento de que “Jango não era comunista. Marxistas ortodoxos defendem o fim da propriedade privada dos meios de produção. Já Jango era um advogado proprietário de terras gaúchas”, ele demonstra total ignorância do modus operandi da Internacional Comunista.
Em primeiro lugar, há aí uma confusão primária entre a definição enciclopédica de uma doutrina política e a sua realidade histórica concreta. Que marxistas defendessem doutrinariamente, e em abstrato, o fim da propriedade privada, não significa que tenham abdicado dela para a conquista e manutenção do poder (o que, aliás, seria materialmente impossível). Como mostrei em artigo passado, os dirigentes comunistas sempre foram os grandes proprietários nas nações em que chegaram ao poder. Defendiam o fim da propriedade privada alheia, evidentemente, não o da sua própria. Ora, se adotássemos o critério infanto-juvenil do redator da matéria, seríamos forçados a concluir que jamais houve no mundo um comunistazinho sequer, pois todos eles foram proprietários (de terras, de imóveis, de moeda, de artigos de luxo etc.).
Em segundo lugar, para os objetivos da Internacional Comunista, pouco importava o que Jango era, ou seja, quais as suas convicções político-ideológicas pessoais. Era preferível, aliás, que os líderes das nações-alvo do projeto expansionista soviético não fossem membros formais dos partidos comunistas locais. É o que consta expressamente, por exemplo, num dos documentos dos arquivos da StB (o serviço de inteligência tcheca que atuava como braço da KGB), citado no meu livro A Corrupção da Inteligência, em que se descrevem alguns dos objetivos da espionagem comunista no Terceiro Mundo: “Ambos os serviços de inteligência [i.e., KGB e StB] efetuarão medidas ativas com o objetivo de garantir ativistas progressistas (fora dos partidos comunistas) nos países da África, América Latina e Ásia, que possuam condições para, no momento determinado, assumir o controle de movimentos de liberação nacional”. O referido documento data de 1961, mesmo ano em que João Goulart  um dos “ativistas progressistas” alvos das medidas ativas soviéticas  assumia a presidência.
Segundo o historiador britânico Christopher Andrew, que realizou pesquisa nos arquivos pessoais do dissidente soviético e ex-agente da KGB Vasili Mitrokhin: “O papel da KGB na política soviética para o Terceiro Mundo foi mesmo mais importante do que o desempenhado pela CIA na política americana. Por um quarto de século, e ao contrário da CIA, a KGB acreditou que o Terceiro Mundo era a arena na qual poderia vencer a Guerra Fria”. Graças à abertura dos arquivos da StB, hoje sabemos, entre outras coisas, que, já em 1961, a URSS planejava “causar guerra civil no Brasil”.
Por décadas, a classe falante de esquerda, hegemônica na imprensa e na academia, impediu que essas informações fossem conhecidas do público. Hoje, quando o muro de silêncio sobre fatos politicamente inconvenientes começa a ruir, não é de se espantar que a esquerda reaja com verdadeiro pavor. Afinal, é preciso manter a todo custo o consenso dos bem-pensantes sobre o período, a saber: a preocupação demonstrada pelo governo americano  e, internamente, pelas forças políticas ditas conservadoras  com a expansão do comunismo na América Latina durante a Guerra Fria não passou de paranoia motivada por um anticomunismo patológico (“macarthista”), histérico e desprovido de razão.
O pânico de ver aquele consenso desmascarado aos olhos da população resultou na mais recente e desesperada tentativa de censura praticada pela intelligentsia de esquerda no Brasil, que tudo fez para desacreditar e reduzir o alcance do documentário 1964: o Brasil entre Armas e Livros, iniciativa do portal Brasil Paralelo. Por trazer dados históricos relevantes e até hoje ocultados do grande público por força do maquinário de hegemonia narrativa operado por nossa esquerda cultural, o filme não poderia mesmo ser tolerado pela intelligentsia progressista. Como digo no meu livro, há um constante desejo de que a história de 1964 continue a ser muito mal contada…
COMENTO:  a história da descoberta dos documentos no acidente do avião no Peru foi tratada aqui. Também foi relatada pelo insuspeito Tarzan de Castro, um dos líderes guerrilheiros ligado ao PCdoB e atuante junto às Ligas Camponesas de Francisco Julião. Assim foi descrito o fato em entrevista ao Jornal Opção: sobre seu livro de memórias “Vida, Lutas e Sonhos” (Ed. Kelps, 357 páginas):
"Ao ouvir que a história do acampamento guerrilheiro, já mapeado pelo governo de João Goulart, poderia “resultar num escândalo internacional”, Miguel Brugueras [Nota: Miguel Brugueras del Valle, embaixador de Cuba no Brasil] “ficou muito assustado”. “Marcamos um encontro na Praça Marechal Deodoro, em Ipanema, e elaboramos um minucioso relatório com os nomes dos integrantes, os locais e as circunstâncias de cada campo. Foi tudo detalhado, com a promessa de que as informações seriam criptografadas antes de seguirem um caminho seguro até as mãos de Fidel. Afinal, aquele era um relatório-bomba, um verdadeiro raio X das operações das Ligas Camponesas. O diplomata sugeriu que eu fosse pessoalmente a Cuba explicar toda a história, e eu aceitei, mas pedi um tempo para voltar a Dianópolis e reportar ao Carlos Montarroyo e aos outros [Joaquim Carvalho, Gilvan Rocha] as providências tomadas”, revela Tarzan de Castro. 
No encontro seguinte, Miguel Brugueras informa que havia entregue o relatório para Raúl Cepero Bonilha, presidente do Banco Central de Cuba e membro da direção executiva do Partido Comunista Cubano. “Sem graça”, o diplomata contou a Tarzan de Castro que “o avião da Varig que levava Bonilla e a delegação cubana caiu nos Andes, próximo à capital peruana, no dia 27 de novembro de 1962. Não houve sobreviventes”.
Ao informar que faria outro relatório, até mais minucioso, Tarzan de Castro percebeu que o cubano estampou um sorriso “amarelo”. “Sem jeito, explicou-me que o relatório não havia sido destruído — a mala diplomática fora encontrada intacta.”
A mala foi apreendida logo pela CIA. Ante um cubano desconcertado, Tarzan de Castro disse que, como as informações estavam criptografadas, os agentes dos Estados Unidos demorariam a decifrá-las. Os guerrilheiros teriam tempo “para desfazer os campos e destruir as evidências”. O sorriso do diplomata, que passara de amarelo para verde, desapareceu de seu rosto. “Ninguém criptografou as mensagens”, admitiu o cubano.

“Todos os documentos encontrados pela CIA foram entregues ao governo brasileiro. E a bomba explodiu no nosso colo. A imprensa brasileira publicou uma bateria de reportagens contando tudo sobre os futuros focos de guerrilha no Brasil. A revista ‘O Cruzeiro’, na edição de 22 de dezembro de 1962, estampou em sua capa: ‘Guerrilha descoberta no Brasil Central’”, relata Tarzan de Castro.
"

.

sábado, 8 de setembro de 2018

Para a Ciência Sobreviver no Brasil, Só Se For de Ferro

.
Eu não vou falar muito sobre o incêndio do Museu Nacional, a mídia já publicou tudo que é possível ser dito, só me restaria xingar os responsáveis e a lista é imensa, cobrindo décadas. Hoje vamos conhecer uma historinha que representa muito da relação do Brasil com ciência, nossa teimosia, burrice e malandragem. Com vocês a Saga do Meteorito de Bendegó, a Pedra Que Queimou Duas Vezes.
O Bendegó é um meteorito de ferro/níquel, com 5,3 toneladas de peso, 2,2 metros de comprimento, 1,45 m de largura e 58 cm de altura. É um dos maiores meteoritos do mundo, e por bilhões de anos vagou pelo Sistema Solar até que encontrou Wellington, um asteroide amigo que deu a dica: “Você já foi à Bahia, nego? Então vá!”. Com esse empurrão que faltava, sua órbita se alterou e ele entrou em rota de colisão, e alguns milhares de anos atrás causou uma explosão considerável e um clarão que seria imediatamente registrado na história dos índios, se eles tivessem inventado a escrita, claro.
Por séculos o meteorito ficou curtindo o clima de Monte Santo, na Bahia, até que sua paz foi atrapalhada por um jovem pastor chamado Domingos da Motta Botelho, mas quem ficou com o crédito foi o pai, Joaquim da Motta Botelho.

A pedra era muito estranha, aparentemente indestrutível e se tornou uma curiosidade no sertão da Bahia de 1784, e logo a notícia chegou até o governador, que querendo dar uma olhada na pedra, fez o que todo político acomodado faria: mandou alguém buscar.
Usando o máximo de tecnologia da época no Brasil, tentaram colocar o Bendegó em um carro de boi, puxado por 12 juntas de obviamente bois. Obviamente o planejamento foi feito nas coxas, a pedra escorregou por um barranco e foi parar no leito do rio Bendegó. Bernardo Carvalho da Cunha, o responsável pelo transporte da pedra viu que daria trabalho, lembrou que era brasileiro e deixou pra lá.
Bendegó na beira do Rio Bendegó, onde ficou por 100 anos.
O Bendegó foi abandonado e ficou enferrujando no rio por CEM ANOS, o único interessado nesse período foi um químico inglês chamado Aristides Franklin Mornay, ele trabalhava pro governo da Bahia procurando fontes de água mineral, ouviu a história da pedra e foi atrás.
Como bom cientista ele fez desenhos detalhados do meteorito, colheu amostras e as enviou para laboratórios na civilização.
Mornay suspeitou que o meteorito fosse um meteorito, suspeita essa confirmada pelos exames feitos por William Hyde Wollaston, da Sociedade Geológica Real de Londres. Mornay em 1816 publicou suas pesquisas sobre o meteorito no paper An Account of the Discovery of a Mass of Native Iron in Brazil (Bendego), Philosophical Transactions of the Royal Society of London Vol. 106 (1816), pp. 270-280, e se você ainda duvida que a internet é uma ferramenta incrivelmente maravilhosa, você pode ler o paper original de Mornay aqui.
Em 1820 dois naturalistas, Carl Friedrich Philipp Von Martius e Johann Baptist Von Spix foram estudar o meteorito e para conseguir retirar amostras acenderam uma fogueira em torno do Bendegó por 24 horas. Ou seja: o incêndio de 2018 não foi a primeira vez que o Bendegó fez cosplay de picanha.
Bendegó em vibe Juma Marruá, tomando banho de rio.
A ideia de um meteoro valiosíssimo para a Ciência ficar jogado no interior da Bahia não era agradável, e em 1883 o diretor da Seção de Mineralogia do Museu Nacional, Orville Adelbert Derby alertou que o bendegó poderia ser coberto por terra, durante a cheia do rio e ter sua localização perdida.
Obviamente ninguém ligou, e a coisa só andou em 1886, quando Dom Pedro II, o Imperador Nerd estava na França e tomou conhecimento da existência do Bendegó, quando membros da Academia de Ciências de Paris, que não tinham NENHUMA capacidade de profecia, disseram que seria mais seguro remover o meteorito para um museu.
1887
No começo de 1887 foi nomeada uma comissão para planejar a transferência do meteorito, que só começou em 7 de setembro, quando inauguraram … um marco comemorativo da empreitada, em Monte Santo. O transporte mesmo só começou em 1888, quando a extensão de um ramal ferroviário colocou trilhos de trem a 108 km do meteorito.

A tecnologia utilizada? Como isso aqui é Brasil, obviamente nada mudou em 100 anos. Colocaram o bendegó em um carro de boi, e depois de 126 dias de viagem, ele chegou a uma estação ferroviária em Itiúba, de onde foi para Salvador. Curiosidade: o transporte ferroviário foi gratuito, a Companhia Inglesa da Estrada de Ferro doou o transporte, bem como o vapor Arlindo, que seguiu para Recife e depois Rio de Janeiro.
Lembra que NENHUM ministro compareceu à Cerimônia dos 200 anos do Museu Nacional, e que o último presidente a visitar o Museu foi Juscelino Kubitschek? Pois é. Quem recebeu o Bendegó quando ele chegou ao Rio foi ninguém menos que a Princesa Isabel.
Levado para o Arsenal de Marinha, um pedaço de 60 kg do meteorito foi cortado para estudos e dividido para ser enviado a 14 museus pelo mundo. Entre outros 3,675 kg estão em Munique, 2,491 kg estão em Londres, 2,317 kg estão em Viena, 190 g estão em Berlim, 180 g em Erlanger e 500 g em Copenhague.
O Meteorito de Bendegó ficou então exposto no primeiro prédio do Museu Nacional, no Campo de Santana, depois foi movido para o Palácio Imperial. Lá teve períodos de altos e baixos, perdendo e ganhando de volta seu lugar de destaque na entrada do museu, aonde está ainda hoje, resistindo ao descaso de décadas, talvez séculos, mas correndo risco de ser roubado e derretido tal qual a taça Jules Rimet ou as Vigas da Perimetral.
De resto, nada mudará e nada será feito, pois a única constante é que o Brasil Odeia Ciência. Hoje, Sempre e em 1888 o Nordeste passou por uma grande seca, a população da região achou que a estiagem era uma maldição pela retirada da pedra e destruíram o obelisco celebrando o feito.
A lição que tiramos disso é que a única forma da Ciência sobreviver no Brasil é ela ser feita de pedra, e essa pedra, ser feita de ferro.
Fonte:  Meio Bit
.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

A Nova Cavalaria

Maj Cav Salgueiro Maia – Exército Português
Deve-se a Carlos VII, rei da França, o aparecimento da Cavalaria como Arma. Foi ele que, por volta de 1445, instituiu o primeiro exército permanente, constituído por duas Armas: a Cavalaria e a Infantaria.
Devido à evolução dos armamentos no final do século XV, começaram a aparecer unidades de Cavalaria com armas de fogo, e no século seguinte a Cavalaria passa a ser constituída por três tipos de unidades: COURACEIROS (Cavalaria pesada), HUSSARDOS (Cavalaria ligeira) e DRAGÕES (Cavalaria apta a combater a pé e a cavalo).
Com o século XVII, devido à ação de Gustavo Adolfo, a Cavalaria como arma alcança vários êxitos, em especial na batalha de Breitenfeld, junto a Leipzig (guerra dos Trinta Anos). Esses êxitos são devidos à justa utilização da Arma, aproveitando a sua aptidão para o reconhecimento, ação de choque e a perseguição. Podemos definir a Cavalaria desta época pelas palavras do Marechal de Saxe: “A Cavalaria deve ser lesta, deve ser montada sobre cavalos próprios para suportar a fadiga, deve ter poucas equipagens, e sobretudo não deve ter cavalos gordos”. Nem todos compreenderam assim a ação da Cavalaria, continuando-se a fazer o fogo a cavalo, numa ação conhecida como “caracolada”, que consistia em carregar sobre o inimigo, disparar as armas de determinada distancia, fazer uma pirueta, e voltar à retaguarda para carregar as armas, com vistas a desenvolver novamente a mesma ação.
Foi na Prússia, com Frederico II, que a Cavalaria começou a traçar caminho certo. Bem apoiado em seus generais Zeithen e Sedlitz, Frederico II abandona o fogo a cavalo, criando a Artilharia a cavalo, tendo por missão apoiar a ação das cargas da Cavalaria, mantendo as demais peças fixas da Artilharia para fazer o fogo de cobertura. Frederico II determina que as cargas se façam a galope, que os cavaleiros continuem a usar mosquetes e espingardas para o combate a peado; utilizou ainda largamente, a Cavalaria no reconhecimento, dizendo que ela era “os olhos e ouvidos do Exército”.
A influência da ação de Frederico II, estendeu-se a França, onde cimentou as bases do que seria a famosa Cavalaria Napoleônica, que fica definida através das palavras do seu chefe Napoleão: “A Cavalaria de linha só pode ser eficaz em grandes massas, tanto no começo, como no decorrer, como no fim do combate, conforme as circunstâncias; deve ser independente das outras armas para poder ser empenhada oportuna e independentemente delas, concorrendo no entanto com elas para o fim comum. Deve pertencer por isso à reserva do Exército”. Napoleão criou um Corpo de Cavalaria de 28.000 homens, o “Corpo Murat”, com dois Regimentos de Cavalaria Ligeira; o primeiro, antecessor das unidades blindadas e o segundo, das unidades mecanizadas. Com Napoleão a cavalaria passou a ser a Arma do ataque decisivo, explorando a brecha que a Artilharia preparava. Assim ele atuou em Wagron, Moscou, Essling e Iéna.
A intervenção em massa do Corpo de Cavalaria (Corpo Murat), era caracterizada pela velocidade e violência, em ligação com a Artilharia. O Corpo de Cavalaria estava organizado para poder atuar isoladamente (reconhecimento e perseguição). Com a substituição das armas de repetição por armas de maior cadencia de tiro, chegou-se na guerra de 1870, entre a França e a Prússia, à conclusão de que o emprego da carga a cavalo com grandes massas era impraticável no campo de batalha. A agravar a situação, a Cavalaria estava sendo utilizada junto com a Infantaria, não tirando proveito de sua mobilidade, passando a desempenhar só ações de reconhecimento e cobertura.
Quando em 1914 se iniciaram as operações, a Cavalaria francesa estava possuída de um alto espírito ofensivo e desejosa de tirar a desforra das ações de 1870. Assim, a Cavalaria francesa procura a todo o instante o encontro à arma branca, enquanto a Cavalaria alemã a atrai e espera, sob a ação de seu fogo.
A Cavalaria alemã atua em cooperação com ciclistas, metralhadoras e Artilharia, sem abandonar o combate a cavalo e à arma branca. Com a estabilização da frente, a Alemanha quase abandona a Cavalaria, enquanto que a França lhe dá meios mais potentes, sem lhe tirar a mobilidade. Desta maneira, quando a guerra termina, de um lado quase não há Cavalaria, do outro existe a Cavalaria pronta para passar à exploração do sucesso.
Com o desenvolvimento dos armamentos, e com a guerra de posição que foi a guerra de 1914/1918, foi necessário criar algo, que pudesse atuar fora das trincheiras, protegido dos fogos do inimigo; baseados em máquinas agrícolas idealizadas para o trabalho em todo o terreno, constroem-se viaturas com blindagem suficiente para anular os efeitos dos fogos contrários, surgem assim as primeiras viaturas blindadas.
Em outubro de 1914, um Oficial inglês, o Ten Cel Stern, segundo uns, ou o Ten Cel Swinton segundo outros, apresenta o projeto da construção de uma viatura blindada, capaz de transportar pessoal através do campo de batalha, abrigado da ação das armas ligeiras e estilhaços das granadas de Artilharia. Como meio de locomoção seria utilizado o sistema de lagartas usado pelos tratores, que podiam deslocar-se por terrenos onde viaturas com rodas ficavam detidas. Os resultados dessas ideias depressa se concretizam e, em 20 de novembro de 1917, na ofensiva de Cambrai, 500 carros de combate sob o comando do Brigadeiro H. J. Elles, realizam a ruptura da Linha Hindemburgo, numa profundidade de 15 km, com a captura de 8.000 homens e 100 peças de Artilharia, em cerca de 12 horas de combate, com um volume de perdas e um gasto de munição muito menor, quando comparado com operações anteriores de idênticos resultados. Essas viaturas viriam a desempenhar as funções para as quais foi criada a Cavalaria a cavalo: o reconhecimento, a ruptura e a exploração do sucesso. Foram essas viaturas para a Cavalaria as sucessoras dos cavalos, para que a arma pudesse continuar a cumprir as missões para que fora criada.
Depois da Primeira Grande Guerra, voltaram a ser aplicados os conceitos de Napoleão sobre a ação da Cavalaria, agora aplicados ao novo material e às novas situações. Defendendo estes conceitos, surge na França o Cel Charles de Gaulle e na América o Gen Chaffe. Infelizmente ambos não foram compreendidos e suas Pátrias somente anos mais tarde vieram a lhes dar razão, quando a Alemanha surgia cheia de força, concretizando os princípios por eles defendidos.
Na Alemanha, o Cel Heinz Guderian, tornou-se o orientador da nova Cavalaria, criando as Panzerdivisionen, nos moldes preconizados por de Gaulle. Von Guderian seria o pai das unidades blindadas alemãs e o invasor da Rússia; soube conjugar grandes massas de blindados, acompanhados por Infantaria motorizada, apoiados por Artilharia autopropulsada e pela nova arma, a aviação, através dos seus aviões de caça, de proteção, e de outros, construídos essencialmente obedecendo às novas necessidades, tais como os célebres Stukas (aviões de assalto idealizados para fazerem o acompanhamento dos blindados pelo fogo).
A máquina de guerra da Alemanha, ensaiada durante a guerra civil da Espanha, surgiu plena de mobilidade e poder de choque, baseada numa Cavalaria que soube aproveitar as possibilidades, do que foi e será sempre uma Arma ofensiva. São de assinalar as palavras do Marechal Montgomery, ao constituir o Corpo de Reserva do VIII Exército na Líbia: “Este Corpo, praticamente formado de Divisões Blindadas, deverá ser preparado para constituir a ponta de lança da nossa ação ofensiva e nunca deverá ser empregado para defender posições estáticas”.
Depois da guerra de 1939/1945, com o advento da guerra nuclear, maior desenvolvimento sofreram as unidades de Cavalaria, tornando-se mais móveis, flexíveis e com maior poder ofensivo, para manter a possibilidade de facilmente se concentrar para um ataque , e dispersar depois deste, com vistas a não oferecer um objetivo compensador a um bombardeio nuclear, aperfeiçoando as suas blindagens para agora se protegerem também da ação das poeiras radioativas.
No fundo, todas as alterações são superficiais, visto que permanecem imutáveis os dois tipos essenciais de unidades de Cavalaria, os blindados para desenvolver a ação de choque, ruptura e a exploração do sucesso, e as unidades de Cavalaria Mecanizada, empregando meios terrestres e aéreos, para garantir o reconhecimento.
Como contraste verificamos que sempre o papel da Cavalaria se eleva ou apaga através dos tempos, conforme é respeitada ou esquecida a sua doutrina de emprego.
Fonte: Facebook
.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

A Perene Revolução Socialista no Brasil

General R1 Luiz Eduardo Rocha Paiva
O lançamento do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, em 1848, contribuiu para expandir a ideologia comunista. Anos depois, foram criadas organizações afins nas sucessivas Internacionais Socialistas, que reuniam distintas tendências da revolução socialista mundial.
A III Internacional, realizada em Moscou em 1919, ficou conhecida como a Internacional Comunista (IC). Ela criou o Comitê Internacional (Comintern), órgão do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) encarregado de disseminar a revolução socialista, criando partidos afins em diversos países. Em 1922, nasceu a Seção Brasileira da Internacional Comunista, origem do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de sua futura dissidência, o Partido Comunista do Brasil, após a cisão em 1962.
Para se filiar à IC, a Seção aceitou as 21 condições impostas pelo Comintern. Algumas determinavam que os PC combinariam ações legais com ilegais, fariam campanhas de agitação e propaganda com foco nos exércitos, seriam partidos internacionais subordinados ao PCUS e renunciariam ao patriotismo e à paz social. Por tudo isso, e com o PCB submisso à União Soviética, o socialismo já nasceu incompatibilizado com as Forças Armadas brasileiras, instituições exclusivamente leais à nação, legalistas, patrióticas e fiadoras da paz interna.
A revolução socialista faz um trabalho permanente de acumulação de forças, que culmina com tentativas de tomada do poder quando o partido revolucionário considera ter alcançado condições objetivas para tanto. Foram três tentativas frustradas e a quarta está em pleno e exitoso andamento.
A primeira foi a Intentona Comunista em 1935. O traidor Luiz Carlos Prestes liderou uma frente ampla - Aliança Nacional Libertadora (ANL) - constituída pelo PCB e setores da esquerda. O golpe foi autorizado pelo PCUS e seguiu o modelo bolchevista russo de 1917, ou seja, um golpe de Estado imediato e violento. No Manifesto Revolucionário, convocando a nação, constavam os slogans: todo o poder à ANL; e pão, terra e liberdade. Na revolução bolchevista, os slogans eram: todo o poder aos soviets; e pão, paz e terra. Coincidência?
A segunda iniciativa se intensificou de 1961 a 1964 e usou a via pacífica preconizada pela URSS a partir de 1956. O golpe foi paulatinamente preparado por meio da infiltração em instituições e setores estratégicos, a fim de viabilizar pressões de base e de cúpula para desestabiliza-los, e por meio da subversão (agitação e propaganda), para criar o clima revolucionário e motivar a sociedade para o golpe. Em 1963, Luiz Carlos Prestes declarara que o Brasil disputava a glória de ser o segundo país do continente a implantar o socialismo e que o PCB estava no governo, mas ainda não tinha o poder.
A terceira tentativa foi preparada desde o início dos anos 1960 e se intensificou a partir de 1966. Empregou a forma violenta (linha maoísta) - luta armada prolongada - modelo fortalecido após o fracasso da via pacífica de linha soviética. A revolução socialista recebeu outro duro golpe, mas atrasou por dez anos a redemocratização almejada pela nação. A esquerda revolucionária não teve o reconhecimento de nenhuma democracia e de nenhum organismo internacional de que lutasse por democracia ou representasse parte do povo brasileiro. A redemocratização, em 1978, não foi obra da luta armada, então totalmente desmantelada, mas sim do governo militar, da oposição legal e da sociedade civil ordeira.
Porém, a revolução socialista é perene e, hoje, ela acumula forças para a quarta tentativa de conquistar o poder. Emprega a via pacífica de linha gramcista, estratégia de longo prazo que vem desde os anos 1960. O PT, substituto do PCB e do PCdoB na liderança da revolução, pretende a hegemonia sobre a sociedade para controla-la; e neutralizar o aparato de segurança do Estado, de modo a tomar o poder, destruir o Estado burguês e implantar o regime socialista. A investida sofreu um revés com a saída do PT do governo, mas ele manteve o controle de setores importantes de uma sociedade enfraquecida pela destruição de valores atiçada, há décadas, pela revolução socialista. O PT é um partido socialista, de acordo com os seus próprios documentos, e o fato de muitos de seus líderes terem sido corrompidos pela ganância de poder e riqueza não significa que ele não seja ideológico. É um partido ideológico-fisiológico.
Países com grave divisão ideológica têm altos índices de instabilidade, insegurança interna, debilidade no cenário externo e o futuro comprometido. Isso acontece, em prazos mais curtos, com nações politicamente imaturas e não desenvolvidas, cujas sociedades têm baixos níveis de educação, cultura e civismo. Da mesma forma, o paulatino enfraquecimento das potências ocidentais se explica pela crescente cisão ideológica interna e perda de valores tradicionais, cívicos e cristãos após a introdução da ideologia socialista, particularmente, com sua exitosa pregação da contracultura em suas sociedades. A queda das grandes potências é algo histórico e começa pela decadência moral. No entanto, quando uma nação alcança um alto nível de desenvolvimento e superioridade militar e científico-tecnológica a decadência se arrasta por décadas ou séculos, como foi com Roma, Reino Unido e URSS.
O Brasil tem duas forças internas destrutivas. A liderança política fisiológica, não discutida nesse artigo, e a da revolução socialista permanente, ambas incompetentes para governar, corruptoras, corrompidas e aliadas de 2003 a 2016. A permanência da primeira ou a volta da segunda ao poder comprometerão a paz social, a unidade política, a grandeza moral e o futuro do Brasil.
Nunca antes na história desse país, uma aliança lhe causou tanto mal.
Fonte:   Ternuma