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domingo, 21 de outubro de 2018

Povo Dominado por Fake News é Povo Escravo

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UMA SOCIEDADE QUE NÃO ENTENDE SUA REALIDADE É ESCRAVA DE SUA ESTUPIDEZ
Editorial
O excesso de dados que a sociedade recebe nos dias de hoje obriga cada indivíduo a escolher com cuidado e critério suas fontes informativas se quiser tomar decisões de maneira inteligente. Hoje é usual encontrar pessoas que pensam que, ao conhecer um dado ou o título de uma notícia já possuem tudo o que necessitam para serem cultas, mas a realidade é que se não se aprofundarem neles dificilmente poderão entende-los, e portanto, gerar conhecimento para si mesmos, uma opinião qualificada e uma ação inteligente; menos ainda, utiliza-los como conhecimento para transformar, criar e inovar.
Outro risco no consumo de dados e informação é o seu uso sem uma observação disciplinada do redator ou assinante. O primeiro erro comum é confundir fontes com as plataformas - Google, Facebook, Twitter, etc - ferramentas geniais mas não autoras. Expressões como: "eu li/vi/escutei nas redes" delata a ignorância e a pouca profundidade do narrador sobre um tema específico, já que evidencia que não conhece as qualificações do responsável pela informação que está compartilhando ou debatendo. O qual é, portanto, irresponsável.
Existem fontes anônimas, manipulações tecnológicas, mas também há autores e meios reconhecidos por sua trajetória com ética, respeitando os valores jornalísticos, que assinam cada produção, utilizam metodologias próprias do ofício e são regulados por normas legislativas, nacionais e internacionais. Temos que reconhecer que esses meios, apesar do seu rigor, não são infalíveis, mas sua busca diária é servir sua audiência com a verdade, mesmo que isto signifique incomodar setores da sociedade e inclusive por em risco suas vidas.
É lamentável que a classe política desminta qualquer notícia na qual é citada ou as questione com a  velha desculpa de que são notícias falsas ou que está ocorrendo uma campanha suja. O líder da maior potência mundial, Donald Trump, tem adjetivado a mídia como "inimigos", o ex candidato colombiano Gustavo Petro chegou a ameaçar na campanha empresas do setor e utilizou notícias falsas contra elas, incluído El Colombiano. Mais, ainda, os piores casos temos atualmente na Venezuela, onde a censura, fechamento e compra da midia por parte do governo "bolivariano" tem retirado do povo a liberdade de imprensa. O diário The Washington Post anunciou que Trump dizia 16 falsidades ou "meias verdades" diariamente. ¿Que tipo de transparência e lealdade ao povo pode ter um presidente com esse comportamento?
É tamanho o perigo dessa estratégia que em 16 de agosto passado mais de 350 periódicos de 49 estados atenderam ao convite do The Boston Globe em seu país para criticarem de maneira autônoma o comportamento do presidente norte-americano frente à liberdade de imprensa; pois o perigo dessas posições radicais, e das notícias falsas, é quando estas essas mentiras chegam em comunidades sem capacitação de discernimento que, além de tudo, repetem constantemente as inverdades e as ditas "afirmações" terminam sendo aceitas e aprovadas, trazendo como consequência danos à verdade, difíceis de reparar. É escandaloso que um estudo realizado pela empresa Ipsus Poll diga que 13% dos cidadãos da potência do norte concordem que Trump tenha autoridade para fechar órgãos de imprensa; que 48% compartilhe a afirmação do mandatário de que "a imprensa é inimiga dos estadunidenses"; e 43% considere que o Chefe de Estado deve ter a capacidade de "fechar agências de notícias envolvidas em mau comportamento".
"O inimigo é a desinformação que estamos vivendo nos Estados Unidos", expressou Marcela Garcia, editorialista do The Boston Globe a El Colombiano em entrevista na semana passada. Na Colômbia, como em todo o mundo, o risco é grande porque os alarmes são eloquentes, por isso convidamos a sociedade a defender e exigir jornalismo de qualidade, a não cair em frivolidades e por em evidência as manipulações de interesses políticos.  Uma sociedade que não entenda sua realidade, pelo mecanismo que escolhe, está destinada à estupidez.
Fonte:  tradução livre de  El Colombiano
COMENTO:  o autor do texto, colombiano, trata das mazelas da falta de honestidade na divulgação das mentiras - denominadas "fake news" -, mas não perde a oportunidade de fustigar o presidente dos EUA, atualmente repelido por onze em cada dez jornalistas de viés esquerdista do mundo. Parece que a isenção seja uma coisa impossível no mundo dos que tem a capacidade de influenciar opiniões alheias. Nos dias atuais a mídia brasileira se esmera na divulgação de "campanha" no sentido de evitar a proliferação de "fake news" mas não se furta de emitir mentiras, notícias sensacionalistas sem o mínimo fundamento, e meias verdades, omitindo-se de esclarecer seus pontos obscuros. 
A atual campanha eleitoral em desenvolvimento é o maior exemplo de hipocrisia e falta de honestidade de sedizentes "jornalistas e empresas de informação". A tomada de posição em favor de um candidato em detrimento do outro é visível. Mentiras e "ameaças à democracia" são destacadas e não desmentidas, sem o menor constrangimento.  Mas todos juram seu "compromisso com a verdade".  Certamente o conceito que eles tem de "verdade" não corresponde ao entendimento que as pessoas decentes tem da palavra. E tais "profissionais" se espantam quando verificam que boa parte da população, mesmo abraçando a causa da liberdade de imprensa, concorde que maus jornalistas sejam devidamente punidos. Jornalista mentiroso deve ser expurgado do meio profissional, pois usa o prestígio da atividade informativa para ludibriar seu público. É uma atitude criminosa!
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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

50 Anos do Assassinato do Capitão Chandler - Esquecer Também é Trair

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Em 12 de outubro de 1968, foi assassinado, friamente, na frente da família, quando saía de casa, em São Paulo, o Capitão do Exército dos Estados Unidos Charles Rodney Chandler, vítima de sua cidadania (ver relato completo no ORVIL – Tentativas de Tomada do Poder, págs. 285, 306,308, 309, 310, 311 e 312).
Charles Rodney Chandler cursava a Escola de Sociologia e Política da Fundação Álvares Penteado, foi morto na porta de sua residência, no Sumaré, na frente da esposa e de um filho de 9 anos, a tiros de metralhadora, por Marco Antonio Brás de Carvalho, Pedro Lobo de Oliveira e Diógenes José Carvalho de Oliveira, todos da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Marco Antonio Braz de Carvalho, o “Marquito”, era o homem de confiança de Marighella, que dirigia o Agrupamento Comunista de São Paulo e que fazia ligação com a VPR. Em setembro, ele levou para Onofre Pinto, então coordenador-geral da VPR, a possibilidade de ser realizada a ação de “justiçamento” do Capitão do Exército dos Estados Unidos da América, Charles Rodney Chandler, aluno bolsista da Escola de Sociologia e Política, da Fundação Alvares Penteado, e que morava em São Paulo com a esposa e dois filhos pequenos. Segundo os “guerrilheiros”, Chandler era um “agente da CIA” e “encontrava-se no Brasil com a missão de assessorar a ditadura militar na repressão”.
No início de outubro, um “tribunal revolucionário”, integrado por três dirigentes da VPR, ou seja, Onofre Pinto, como presidente, João Carlos Kfouri Quartim de Morais e Ladislas Dowbor, como membros, condenou o Capitão Chandler à morte. Graças a levantamentos realizados por Dulce de Souza Maia, sobre a vítima apurou-se os horários habituais de entrada e saída de casa, costumes, roupas que costumava usar, aspectos da personalidade, dados sobre os familiares e sobre o local em que residia, na casa da Rua Petrópolis no 375, no tranquilo bairro do Sumaré, em São Paulo.
Escolhido o “grupo de execução”, integrado por Pedro Lobo de Oliveira, Diógenes José Carvalho de Oliveira e Marco Antonio Braz de Carvalho, nada é mais convincente, para demonstrar a frieza do assassinato do que transcrever trechos do depoimento de Pedro Lobo de Oliveira, um dos criminosos, publicado no livro - Caso, Antonio: “A Esquerda Armada no Brasil”, Moraes Editores, Lisboa-Portugal, 1976, pág 162:
“Como já relatei, o grupo executor ficou integrado por três companheiros: um deles levaria uma pistola-metralhadora INA, com três carregadores de trinta balas cada um; o outro, um revólver; e eu, que seria o motorista, uma granada e outro revólver. Além disso, no carro, estaria também uma carabina M-2, a ser utilizada se fôssemos perseguidos pela força repressiva do regime. Consideramos desnecessária cobertura armada para aquela ação. 
Tratava-se de uma ação simples. Três combatentes revolucionários decididos são suficientes para realizar uma ação de ‘justiçamento’ nessas condições. Considerando o nível em que se encontrava a repressão, naquela altura, entendemos que não era necessária a cobertura armada”.
A data escolhida para o crime foi o dia 8 de outubro, que assinalava o primeiro aniversário da morte de Guevara. Entretanto, nesse dia, Chandler não saiu de casa, e os três terroristas decidiram suspender a ação. Quatro dias depois, em 12 de outubro de 1968, chegaram ao local às 7 horas. Às 8 horas e 15 minutos, Chandler dirigiu-se para a garagem e retirou o seu carro, em macha à ré. Enquanto seu filho, de 9 anos, abria o portão, sua esposa aguardava na porta da casa, para dar-lhe adeus. Não sabia que seria o último.
Os terroristas avançaram com o Volkswagen, roubado antes, e bloquearam o caminho do carro de Chandler. No relato de Pedro Lobo (idem, pág 164),nesse instante, um de meus companheiros saltou do Volks, revólver na mão, e disparou contra Chandler”. Era Diógenes José Carvalho de Oliveira, que descarregava, à queima roupa, os seis tiros do seu Taurus de calibre .38.
E prossegue Pedro Lobo (ibidem, pág 164-165), que dirigia o carro:
Quando o primeiro companheiro deixou de disparar, o outro aproximou-se com a metralhadora INA e desferiu uma rajada. Foram catorze tiros. A décima quinta bala não deflagrou, e o mecanismo automático da metralhadora engasgou (deixou de funcionar). Não havia necessidade de continuar disparando. Chandler já estava morto. Quando recebeu a rajada de metralhadora, emitiu uma espécie de ronco, um estertor, e então demo-nos conta de que estava morto”.
Quem portava a metralhadora era Marco Antonio Braz de Carvalho.
A esposa e o filho de Chandler gritaram. Diógenes apontou o revólver para o menino que, apavorado, fugiu correndo para a casa da vizinha. Após Pedro Lobo ter lançado os panfletos, nos quais era dito que o assassinato fora cometido em nome da revolução brasileira, os três terroristas fugiram no Volks, em desabalada carreira.

É interessante observarmos o destino dos sete envolvidos no crime:
Marco Antonio Braz de Carvalho (“Marquito”), que deu a rajada de metralhadora, viria a falecer, em 26 de janeiro de 1969, após troca de tiros com a polícia.
Onofre Pinto, o presidente do “tribunal revolucionário” que condenou Chandler à morte. Ex-sargento do Exército, foi preso em 2 de março de 1969 e banido para o México, em 5 de setembro, trocado pelo Embaixador dos Estados Unidos, que havia sido sequestrado. Em outubro, foi a Cuba onde ficou quase dois anos, tendo feito cursos de guerrilha. Em junho de 1971, foi para o Chile, com cerca de 20 mil dólares. Em maio de 1973, foi expulso da VPR, tendo sido acusado de “conivência com a infiltração policial no nordeste”, com referência às quedas dessa organização em dezembro de 1972. Temendo ser “justiçado” pela VPR, fugiu para a Argentina onde desapareceu, misteriosamente, em meados de 1974.
João Carlos Kfouri Quartim de Morais, um dos membros do “tribunal revolucionário”, foi expulso da VPR, em janeiro de 1969, alguns meses depois, fugiu do Brasil, com dinheiro da organização. Radicou-se em Paris, onde foi um dos fundadores da revista “Debate”. Professor universitário e jornalista, ele regressou a São Paulo após a anistia, sendo um dos diretores da sucursal da Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Em 1983, foi nomeado Secretário de Imprensa do Governo de Franco Montoro, em São Paulo.
Ladislas Dowbor (“Jamil”), também membro do “tribunal”, foi preso, em 21 de abril de 1970, e banido, em 15 de junho, para a Argélia, em troca do Embaixador alemão, outro sequestrado. No exterior, casou-se com Maria de Fátima da Costa Freire, filha do educador comunista Paulo Freire. Após passar por vários países, dentre os quais, Suíça, Itália, Polônia, Chile, Portugal, Cuba e Guiné-Bissau, retornou ao Brasil, após a anistia, e aqui leciona Economia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e na Universidade de Campinas.
Dulce de Souza Maia, que realizou os levantamentos sobre Chandler, foi presa, em 27 de janeiro de 1969, e banida para a Argélia, em 15 de junho. Tem curso em Cuba e percorreu diversos países, tais como, Chile, México, Itália e Guiné-Bissau, onde passou a trabalhar para o seu governo. Retornou a São Paulo em agosto de 1979, passando a desenvolver atividades em movimentos pacifistas, tendo sido eleita, em 1980, presidente do “Comitê de Solidariedade aos Povos do Cone Sul”.
Pedro Lobo de Oliveira, o motorista da ação criminosa, foi preso em 23 de janeiro de 1969, quando pintava um caminhão com as cores do Exército, para o assalto ao quartel do 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna. Em 15 de julho de 1970, foi banido para a Argélia, em troca do Embaixador alemão. Em fins daquele ano, foi para Cuba, onde fez curso de guerrilha. Após passar por vários países, dentre os quais Chile, Peru, Portugal e República Democrática alemã, ele voltou a São Paulo, em novembro de 1980, indo trabalhar como gerente de um sítio em Pariquera-Açú, de propriedade da família de Luiz Eduardo Greenhalgh, advogado de subversivos e um dos dirigentes nacionais do Partido dos Trabalhadores.
Finalmente, Diógenes José Carvalho de Oliveira (“Luiz”), que descarregou o seu revólver em Chandler, foi preso em 30 de janeiro de 1969, quando desenvolvia um trabalho de campo em Paranaíba, em Mato Grosso. Em 14 de março, foi banido para o México, trocado pelo Cônsul japonês (mais um dos diplomatas estrangeiros sequestrados), indo, logo após, para Cuba. Em junho de 1971, radicou-se no Chile. Com a queda de Allende, em setembro de 1973, foi para o México e, daí para a Itália, Bélgica e Portugal. Em 1976, passou a trabalhar para o governo da Guiné-Bissau, junto com Dulce de Souza Maia, sua amásia. Após a anistia, retornou ao Brasil, indo residir em Porto Alegre, onde vive com a advogada Marilinda Fernandes. Trabalhou como assessor do vereador do Partido Democrático Trabalhista (PDT), Valneri Neves Antunes, antigo companheiro de militância da VPR, até outubro de 1986, quando este faleceu, vítima de acidente de auto.
Fonte: adaptado do Blog do Lício Maciel

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

EsSA - Concurso/2018 - CFS 2019/2020

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Passado o período de Exame Intelectual do Concurso aos Cursos de Formação de Sargentos do Exército Brasileiro que funcionarão em 2019 e 2020, podemos aqui manifestar alguns pontos de opinião, atualizando postagem feita em 2014.
De acordo com o edital publicado no Diário Oficial, são 1.070 vagas dividas nas áreas de aviação e geral, em que 910 são destinadas ao sexo masculino e 100, para o feminino; e, outras 60 são para área da Saúde, destinadas para técnicos de enfermagem. 
Com aproximadamente 94.000 candidatos inscritos no Concurso de Admissão 2018 aos Cursos de Formação de Sargentos 2019-20, a concorrência por área é a seguinte:
- 75 candidatos/vaga para a ÁREA Geral/Aviação (Masculino);
- 171 candidatos/vaga para a ÁREA Geral/Aviação (Feminino);
- 78 candidatos/vaga para a ÁREA Música; e,
- 93 candidatos/vaga para a ÁREA Saúde.

Uma demanda considerável, se comparada a outros concursos para cargos em função pública. 
Neste ano de 2018 houve um acréscimo de quase 100% de candidatos em relação a 2014, quando houve 48.173 candidatos confirmados.
Temos então que, apesar do esforço de algumas 'otoridades' - infelizmente com o apoio da grande mídia - em desmoralizar e desmotivar os profissionais das armas, a carreira militar continua a encantar nossos jovens que amam o Brasil e não temem sair de sob as asas dos seus pais.
Espero que entre os candidatos aprovados não haja quem espere "levar vantagem", pois se houver vai se decepcionar. A carreira castrense é para quem se sujeita a uma vida de sacrifícios com remuneração somente suficiente para a sobrevivência familiar.
Aos que tiverem sucesso nas provas, alguns pequenos esclarecimentos que não é costume serem feitos, mas que eu os faço previamente para que, mais tarde, não usem o argumento covarde de que não sabiam direito o que estavam fazendo:


- Diferentemente do que ocorre em Concursos para Cargos Públicos Civis, preparem-se para começar a "mostrar serviço" depois de frequentarem o Curso de Formação, quando começarem efetivamente sua carreira profissional; e isso vai continuar por 30 anos de serviço, no mínimo. É costume dizer que Sargentos devem provar a cada dia que são bons profissionais.
- Preparem-se, também, para permanecerem por sete ou oito anos na graduação de 3º Sargento, com vencimentos brutos mensais, após 01 Jan 2019, por volta de R$ 5.050,00. A isto podem ser agregados mais 10 ou 20% do soldo (R$ 382,50 ou R$ 765,00) se forem servir em regiões consideradas inóspitas.
- Preparem-se, ainda - também diferentemente das funções públicas civis -, para serem destinados para servir em qualquer parte do território nacional, independentemente dos interesses familiares (casa própria, emprego da esposa, curso universitário, doenças de pais, avós, sogros, etc).

- Depois do Curso, no exercício das funções de Sargento as condições profissionais continuarão difíceis (passar frio, cansaço, acampamentos em condições precárias, escalas de serviço apertadas - sem direito a recebimento de "horas extras" -, formaturas, exercícios físicos, "tempo zero" para estudos fora do EB, etc), acrescidas da responsabilidade de repassar seus conhecimentos, com os devidos cuidados de segurança, para seus subordinados (os Soldados incorporados anualmente para o Serviço Militar Inicial).
- Quanto aos aspectos financeiros, a cada promoção terão um acréscimo de 15 a 20% em seus vencimentos, chegando à graduação de Subtenente com o vencimento bruto, também a partir de 01 Jan 2019) valendo aproximadamente R$ 8.360,00.
Caso alcancem o oficialato, poderão chegar ao posto de Capitão, que terão vencimentos brutos, após 01 Jan 2019, por volta de R$ 14.700,00. Ao vislumbrar esses valores, a grosso modo, deve ser calculado o abatimento de cerca de 11%, a título de descontos obrigatórios para atendimentos de saúde e para o fundo que financiará, no futuro, a Pensão de sua viúva. Depois desse desconto, ainda tem que prestar contas com o famigerado e faminto Leão do Imposto de Renda.
- Os que não prestaram o Serviço Militar Inicial devem atentar para um detalhe importantíssimo: se acharem que as condições oferecidas durante o Curso de Formação não lhe agradaram, não insista. Se você teve capacidade para ser aprovado no Concurso do CFS, certamente tem capacidade para fazer outros concursos para atividades profissionais onde se sinta melhor. 
Se não gostou do Curso, não irá gostar do dia-a-dia da caserna, assim, busque sua felicidade seguindo outra carreira e não se torne um mau profissional (desmotivado, mal-humorado, dos que só enxergam motivos para reclamar e criticar, desagregador, sem disposição para consertar ou melhorar seu ambiente de trabalho).
- Aos que entenderem que podem passar seus dias dedicando-se às atividades castrenses, sejam bem vindos! Terão trinta e poucos anos de atividade profissional extremamente gratificante, em um ambiente que tem por característica principal a camaradagem!
Aproveito para citar cinco princípios a serem seguidos para um bom desempenho profissional:
- Conheça sua profissão (saiba qual seu papel na sociedade como profissional);
- Interesse-se por sua profissão (busque conhecimentos sobre como melhorar seu desempenho profissional);
- Conheça seus subordinados (identifique as características pessoais de cada um, a fim de melhor destinar missões, recompensas e sanções);
- Mantenha seus subordinados bem informados (só assim, eles poderão desenvolver sua iniciativa no sentido de melhor cumprir suas missões); e
- Interesse-se, verdadeiramente, pelo bem estar de seus subordinados.
Essas regras, que parecem simples, na realidade são difíceis de serem seguidas, pois são as que diferenciam os Líderes dos Chefes. E uma das principais características exigidas ao Sargento é ser Líder.
E sejam Sargentos, profissionais conscientes de pertencerem a uma das Instituições mais respeitadas por nossa população decente!

Imagens: "Futuro Sargento do EB"  no Facebook
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sexta-feira, 20 de julho de 2018

O Paraíso das Mutretas

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Aproveitando o rescaldo da Copa do Mundo:
por José Luiz Prévidi
Do livro "A Revolução da Minha Janela", de dezembro de 2008:
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O futebol no Brasil sempre foi integrado por todo tipo de gente. Escroques, cafajestes, bandidos de um modo geral sempre estiveram comandando os clubes. Raras exceções, é verdade, mas a imensa maioria se aboleta em cargos de mando para enriquecer, em função do valor dos jogadores. Antes, em valores modestos, mas nos últimos anos todas as transações giram em torno de um milhão de dólares, para começo de conversa.
O símbolo dessa gente é o ex-presidente do Vasco da Gama, Eurico Miranda. Como ainda não está preso é um grande mistério do nosso país. Também foi deputado federal, eleito pela “nação vascaína”.
Por todo este Brasil, se os clubes são geridos por gente assim, imagine-se que os dirigentes nos Estados sejam da mesma cepa. E a suprema entidade do futebol não fugiria da regra. Normal. Tão normal que o brasileiro se acostumou com esta situação.
Repito: em qualquer das esferas sempre há exceções. Excelentes pessoas que, apaixonadas pelos clubes e mesmo pelo futebol, são exemplos de integridade.
Sem entrar em detalhes, é comum até mesmo clubes pequenos venderem por milhares de dólares jogadores para o exterior. Os 10 grandes clubes brasileiros fazem negócios de milhões de dólares ou euros. E os noticiários diários falam da quebradeira generalizada. Só mesmo os ingênuos podem acreditar em má administração.
Acompanho com algum interesse o noticiário sobre futebol. E digo que jamais ouvi um dirigente falar assim: vendemos o jogador por tantos milhões de dólares. Pagamos tanto de impostos e o restante vai ser aplicado no pagamento disso, daquilo e naquilo. Jamais! Eles nunca explicam onde é aplicado o dinheiro de uma transação milionária.
E tudo é normal do futebol.
Todos sabem que tem sacanagem, mas a impressão que fica é que estas mutretagens fazem parte do esporte. E assim deve pensar quem faz parte do dia-a-dia dos clubes, como os integrantes da chamada “crônica esportiva”. Sabem que existe a sacanagem, mas não podem provar. O estranho é que quando um “dissidente” da chamada crônica decide fazer uma matéria a respeito de uma, apenas uma das mutretas, é chamado de louco ou de estar “a serviço da oposição ao presidente do clube”.
Nos últimos anos alguém se lembra de alguma denúncia que tenha parado na Justiça comum? E no que deu a CPI do Futebol? Ricardo Teixeira, presidente da CBF, foi acusado de crimes como lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, apropriação indébita e evasão de divisas.
Foi preso ou continua por aí, posando como celebridade?
O futebol brasileiro é coalhado de sacripantas, biltres e sujeitos sem qualificação moral. Se reunissem todos esses dirigentes, apenas os que atuaram neste século, em um plenário, qualquer composição do Congresso Nacional, desde o início do século XX, seria considerado um conclave de meninotes colegiais aburguesados.
O mais triste é que os dirigentes de futebol levam uma ampla vantagem em relação a deputados e senadores: mexem com a paixão dos brasileiros. Por isso, por mais que o torcedor desconfie de negociatas e até eventualmente tenha conhecimento de alguma mutreta, releva em nome do objeto de uma paixão arrebatadora.
Tudo colabora com o sucesso dessa gente que controla o futebol brasileiro, em todas as esferas. Rigorosamente tudo.
Jogadores e técnicos são conhecedores das grandes negociatas, mas se calam porque ou estão envolvidos ou têm a perspectiva de sobrar um bom dinheiro em alguma negociação futura.
Colabora muito com este quadro amplamente favorável às tretas a participação direta e indireta dos meios de comunicação. Pela ordem, TV, rádio e jornal. Mesmo que esporadicamente ceda espaços para alguma denúncia de descalabros, a chamada mídia brasileira ganha muito dinheiro com o futebol e, por isso, leva livre esta súcia de mandantes.
Uma mão lava a outra – a malta do futebol enche os cofres dos donos da mídia e estes dão generosos espaços para o jogo dos biltres. Todos ganham cada um em seu espaço.
É desnecessário dizer a razão de nossos denodados donos dos veículos de comunicação liberarem seus jornalistas/investigadores para vasculhar a vida de deputados, senadores, prefeitos e vereadores. Afinal, as verbas publicitárias desses poderes são ínfimas diante do universo do futebol. Mesmo que às vezes os donos das mídias precisem dos políticos para conseguirem concretizar projetos, escusos ou não.
E, por favor, nada contra o poder judiciário – é uma ordem generalizada em TVs, rádios e jornais.
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Deve-se fazer justiça a alguns raros jornalistas que tentaram denunciar as tradicionais falcatruas patrocinadas por dirigentes de futebol. E até mesmo profissionais que trabalharam diretamente com canalhas e pústulas conhecidas e também decidiram fazer denúncias. Todos, rigorosamente todos tiveram como recompensa uma enxurrada de processos. Passam, infelizmente, por rabugentos.
O mais triste de todo este quadro de falcatruas é o papel de radialistas e jornalistas que trabalham na chamada “crônica esportiva”. Todos sabem que existem inúmeros embustes, assim como os integrantes das editorias políticas de jornais, rádios e TVs sabem de mutretas nos legislativos e executivos e os que trabalham nas editorias de economia dos veículos de comunicação sabem de inúmeras fraudes consideradas comuns – sonegação de impostos, caixa 2, etc.
Em todas essas áreas do jornalismo é difícil comprovar qualquer tipo de irregularidade. Todos sabem que existe, mas não há um documento, por exemplo. O simples torcedor, o mais sisudo magistrado tem conhecimento de descaradas roubalheiras. Numa operação em que um craque é vendido por cinco milhões de euros, por exemplo, os principais dirigentes embolsam qual porcentagem a título de comissão? Dez por cento?
Para os que desconhecem este tipo de prática, é bom que saibam que não há, por parte dos governos, nenhum controle sobre dólares e euros que ingressam, em princípio – vejam bem, em princípio –, para um clube de futebol.
Guarde isso: não existe controle do que sai da conta de um investidor baseado no exterior e o que entra na contabilidade do clube. E nenhum torcedor fica sabendo, nem mesmo aqueles repórteres que acompanham o dia-a-dia dos clubes. Não é à toa que dirigentes de grandes clubes de futebol deixam suas profissões – grande parte se dedicava a escritórios de advocacia – para “se entregarem de corpo e alma ao seu clube do coração”.
Já notou que todo dirigente de grande clube é ou está próximo de se tornar milionário?
Há dois casos emblemáticos no RS, dirigentes de dois grandes clubes. Um, ex-funcionário público, está milionário à frente de um escritório de advocacia onde apenas empresta o seu “famoso nome”. O outro, com dinheiro jorrando “pelo ladrão”, se deu ao luxo de fechar o seu escritório de advocacia – afinal a impunidade é total para quem administra o circo da plebe.
O mais triste, em relação a jornalistas e radialistas que acompanham o futebol, é o cinismo e o deboche com que agem.
Um desses comentaristas, que se acha uma sumidade, disse assim: “Não entendo como este clube tem tanto dinheiro para fazer investimentos”.
Ora, o cínico “profissional” sabe que há bastante tempo o tal clube está fazendo muitos negócios excelentes, tendo “mexido” com algo em torno de 100 milhões de dólares. E a camarilha embolsou, mais ou menos, 10 milhões de dólares.
Sabe o que deve ter ganho o comentarista baba-ovo? No máximo, uma costela gorda para o churrasco com a família.
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A mais impressionante CPI da história do Congresso Nacional investigou sonegação de impostos, contribuições previdenciárias e irregularidades na venda de jogadores para o exterior e em contratos com patrocinadores.
Ninguém foi preso, mas consta que as denúncias “ajudaram a derrubar o técnico Luxemburgo da seleção e a minar o poder do cartola Eurico Miranda”.
Em dezembro de 2001, o Senado aprovou o relatório final da CPI do Futebol, apontando fraudes dos principais cartolas, incriminou 17 pessoas e foi aprovado pelos 12 membros da Comissão.
Entre os indiciados: empresários como Reinaldo Pitta, que fez fortuna comprando jogadores e depois os vendendo a clubes estrangeiros. Dirigentes de times, como o então deputado federal Eurico Miranda, do Vasco, e Edmundo Santos Silva, do Flamengo. Presidentes de federações estaduais, como Eduardo José Farah, de São Paulo, Elmer Guilherme, de Minas Gerais, e Eduardo Viana, do Rio de Janeiro.
O campeão de acusações foi o presidente da CBF, Ricardo Teixeira. Lavagem de dinheiro, sonegação, apropriação indébita e evasão de divisas – algumas das acusações que pesaram contra a celebridade.
Escreveu, na época, a Veja: Como a documentação à disposição dos senadores era farta, nenhum dos integrantes da CPI ficou contra o indiciamento da cartolagem. Apenas o senador Gilvam Borges, do PMDB do Amapá, amigão de Ricardo Teixeira, criticou o relatório. Ainda assim, acabou votando a favor. "A verdade é demolidora. Não há resistência capaz de suportar provas documentais incontestáveis", afirmou o senador Álvaro Dias, do PDT do Paraná, que presidiu a CPI.
"Nem os aliados de Ricardo Teixeira tiveram coragem de defendê-lo", comemorou o senador Geraldo Althoff, do PFL de Santa Catarina, que relatou o caso. Nesta semana, a papelada será encaminhada ao procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que deverá processar criminalmente os acusados. Era o que Ricardo Teixeira mais temia. Se for considerado culpado de todos os crimes dos quais é acusado, o cartola será condenado a, no mínimo, nove anos e seis meses de cadeia. Pior: já condenado a seis anos de prisão por sonegação, sentença da qual está recorrendo, Teixeira perde o benefício da liberdade concedido aos réus primários. Se sair sentença incriminando-o, vai mesmo para o xilindró.
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Há muitos anos, esporadicamente, os veículos de comunicação tratam do lado mutreteiro do futebol. A revista Placar é a mais insistente em desvendar as sacanagens. O problema é que além de lidar com a paixão dos torcedores o futebol envolve milhões e milhões de dólares e euros. É um dinheiro farto e o risco é mínimo.
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O que diferencia o Clube dos 13 do MST? O primeiro tem CNPJ.
Pode ser até compreensível que algumas esferas da Justiça, tão ciosas em descobrir maracutaias em alguns setores da sociedade, não entrem no “mundo do futebol”. Investigar os Malufs da vida é uma barbada, porque são notórios picaretas.
É complicado pegar no pé, investigar uma máfia.
E, claro, não sou eu quem vai entrar nesse jogo.
Não gostaria de deixar de acordar, com a boca cheia de formigas.
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sexta-feira, 25 de maio de 2018

Colômbia - Historias de Infiltrados no Crime - Parte 2/2

Um triunfo para a missão, mas uma derrota para o infiltrado
Em 22 de setembro de 2010 foi morto Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”, durante um bombardeio a seu acampamento em La Macarena, Meta. FOTO: Archivo
por Nelson Matta C. e Javier Alexánder Macías
Quando um servidor público atua como agente encoberto, sabe que está em jogo muito mais que o êxito de uma missão.
Entre as histórias de hoje, com que concluímos a postagem sobre os Infiltrados no Crime, a de um militar que terminou aleijado depois de estar 12 anos vivendo com o inimigo.
Nem sempre o Estado recompensa a esses agentes. A norma não distingue seu trabalho e, ao aposentar-se, recebem uma pensão igual a qualquer outro”, conta o especialista em segurança, Coronel (Res) John Marulanda.
Ele conclui que “a inteligência técnica tem um grande desenvolvimento, mas grupos irregulares, como guerrilhas ou o Estado Islâmico, se blindam usando sistemas antigos de comunicação, como cartas e mensageiros. Em troca, nem sempre logram detetar o trabalho da inteligência humana


O Capitão Que Ganhou a Confiança de Um Chefe das FARC
Em 13 de maio de 1996, Mejía(*), um Capitão especialista em infiltrar-se nas guerrilhas, recebeu a ordem que temeu por mais de seis meses: deveria internar-se nas selvas de Meta para buscar a quem na época se considerava como um dos comandantes mais temidos das FARC: Víctor Suárez, vulgo “Mono Jojoy”.
Mejía, acostumado a lidar com guerrilheiros rasos, não sabia como chegar até a região de El Borugo, uma localidade em Meta que servia de bastião ao comandante do Bloco Oriental, e onde mais tarde se instalariam as jaulas nas quais mantiveram os soldados e policiais sequestrados, imagens que deram volta ao mundo e mostraram o lado mais desumano de “Jojoy”.
Nesse dia fui para casa pensando em como chegar. ¿Que proposta levar a meus comandantes no outro dia para começar a infiltração? Me senti pressionado”, recorda o Capitão.
Essa noite se fez eterna pensando na missão. O sono o venceu pelas 3:30 a.m. e sentiu que o mundo se acabava. Atrás ficaria sua família, por um trabalho do qual nem sabia se poderia regressar.
Um vendedor de cacarecos
Em 13 de agosto de 1996 no parque de La Macarena, Meta, um sujeito com um carrinho de mão percorreu as vielas poeirentas desse município encravado no verdor da selva oriental colombiana. Eram umas duas da tarde e através de um megafone, sua voz oferecia todo tipo de coisas: “compre chinelos, compre sabão, potes para azeite...”.
Chegou vestido de “malandro”. “Me lembro que vesti uma camisa branca guayabera, uma calça café e mocassim. Nesse dia no armazém, eu os ensinei como fazer durar mais as baterias para os rádios”, relata.
Se enturmou no local com essa estória e outros truques de mecânica aprendidos no Exército. Ninguém entendia como nesse povoado afundado no abandono estatal, no qual se chegava por avião em viagens semanais, um antioquenho fosse vender objetos que se conseguia em qualquer esquina. Ele foi posto sob observação. A guerrilha vigiava cada passada de seu carrinho.
Comecei a ver que me seguiam e questionavam por que vendia coisas que eles tinham nessa vila afastada de tudo, então dei mais realismo ao meu trabalho e comecei a vender tênis e roupa que conseguia em Medellín e me chegavam por encomenda, com o avião, a cada duas semanas em La Macarena”.

Conta o Capitão Mejía que o negócio cresceu tanto, que até os guerrilheiros saíam dos acampamentos para comprar meias, roupa intima, calças e camisas para sair de vez em quando para tomar trago nas poucas cantinas que existiam no lugar. “Foi o melhor que me sucedeu, porque assim pude identificar quem era guerrilheiro e quem não era. Em muitas ocasiões eu os via com as camisas quadriculadas que lhes vendia. E dessa forma pude viajar até o acampamento do ‘Mono Jojoy’”.
“Pondo 'Jojoy' a estrear a camisa”
Quatro meses depois de chegar a La Macarena, o Capitão revelou seu nome de infiltrado. Disse a um guerrilheiro que foi busca-lo porque tinha uma razão especial. Seu comandante “Mono Jojoy” queria que “o paisa que vende camisas” lhe levasse uma em especial.
— “¿E como é que tu te chamas?”.
— “Iván Darío Pinzón”, respondeu o militar ao insurgente.
— “A cédula”, replicou o guerrilheiro.
— “Aqui está”, disse o Capitão.
Verificado o número de identidade, o subversivo soltou a pérola esperada por quatro meses:
— “O Mono quer duas camisetas, uma número 24 e outra 31. E uma garrafa de uísque e duas galinhas. Será que tu podes conseguir?”, perguntou.
— “Eu trago tudo que seja”.

E assim foi. Viajou a Bogotá com a missão de trazer o que foi pedido pelo comandante do Bloco  Oriental. Antes da viagem, o Capitão solicitou falar com o chefe guerrilheiro para saber exatamente o que ele queria.
Me levaram ao seu acampamento. Estava gordo e enfermo. Pediu uma camisa xadrez e uma camiseta branca”. Esta viagem foi o primeiro contato com seus superiores em quatro meses de ausência. Dali em diante, a estratégia mudaria para chegar ao “Mono Jojoy”.
Servindo de enfermeiro
O Capitão Mejía regressou com tudo o que pediu “Jojoy”. Se hospedou em um hotel de La Macarena, cuja dona preparava pratos diferentes para “Mono”. — Esse cara mandava fazer até 200 tamales por semana para  distribuir na população —, conta.
Com a entrada livre ao acampamento, Mejía  ganhou a confiança do comandante. Cuidou o  diabetes dele, aplicava a insulina que conseguia em Villavicencio e levava uísque para que se emborrachasse recordando sua terra natal: Chaparral, Tolima.
Mejía, com a desculpa de trazer encomendas de  “Jojoy”, saia para a vila mais próxima, e de um telefone público dava informações a seus superiores. Foi assim que se inteiraram que este comandante era bondoso com os guerrilheiros rasos, que estudava todos os dias até as 12 da noite, se levantava às 5:00 a.m., tomava um café e enviava correspondências eletrônicas ao Secretariado das FARC.
Ganhei tanto sua confiança que inclusive revisava tudo o que lhe chegava e administrei uma de suas granjas na zona de distensão durante as conversações com o governo de Andrés Pastrana”.
Entre 1996 e 2008, o Capitão Mejía entregou informações às Forças Militares que ajudaram a fechar o cerco sobre o “Mono Jojoy”. Foi seu cozinheiro, assessor, enfermeiro e provador de bebidas.
Vi muitas coisas nesses 12 anos infiltrado. O que mais me doeu foi ver cair os meus companheiros e depois ver muitos deles nessas jaulas. Algumas vezes quis me ir, mas pensava que fazia por eles e desistia da ideia”, recorda Mejía.
Enfrentando a morte
Quieto hijueputa o se muere. Yo sí sabía que era un sapo”, disse o guerrilheiro “Oswaldo” quando encontrou o Capitão Mejía transmitindo um relatório sobre o “Mono Jojoy”, em 22 de junho de 2008. Ele dava as coordenadas para uma  primeira operação.
Vinham seguindo ele há um mês e comprovaram suas suspeitas quando pediu permissão para ir buscar umas botas para o chefe subversivo e foi telefonar. Ao se ver descoberto, o Capitão Mejía se pôs a correr montanha abaixo sob uma torrente de balas. Ferido, se jogou no rio Guayabero e nadou até sentir desvanecer sua vida. Foi resgatado por uma patrulha do Exército que o levou à base e dali foi transladado ao Hospital Militar. Hoje o Capitão Mejía passa seus dias em uma cadeira de rodas. Perdeu a mobilidade de suas pernas, mas sente que valeu a pena dar tudo pela pátria que o viu nascer.



Perdeu sua Família por Desmantelar Uma Rede de Narcos
Por seu trabalho de 12 anos, em que se infiltrou varias vezes na máfia como negociador de armas e drogas, o Departamento Administrativo de Segurança (DAS) escolheu o detetive Gabriel(*) para a missão.
O caso surgiu desde a Embaixada da Austrália, segundo a qual havia uma organização clandestina traficando cocaína desde a Colômbia para a Oceania. Era a primeira vez que escutávamos sobre uma rota de narcos para esse destino”, recordou um dos agentes que conheceu a operação.
A pedido da Polícia Federal Australiana (AFP), Gabriel devia atuar como agente encoberto para identificar os integrantes da rede. Segundo consta no Relatório Anual de Operações Controladas da AFP (2010-11), dali em diante o denominaram “Undercover Operative 57189”.
Este foi o primeiro caso documentado em nosso país, com base no novo Código Penal (Ley 906 de 2004), onde um juiz de controle de garantias autorizou um procedimento deste tipo.
Os australianos sabiam que no mercado negro havia gente buscando estupefacientes em Bogotá para enviar a Melbourne, e essa era a oportunidade que deviam aproveitar. Gabriel não tinha claro quanto duraria a missão. Em novembro de 2006 se despediu de sua esposa e seus dois filhos pequenos, e não voltou a sua casa nem a seu escritório.
Devia deixar para trás sua vida cotidiana e transformar-se em comerciante de um dos San Andrecito [feiras de produtos estrangeiros] de Bogotá. “Uma quadrilha de extorsionistas era dona de uma loja de roupas. Pressionamos para que nos entregassem esse espaço, em troca de não captura-los. Em questões de Inteligência, às vezes há que fazer tratos com bandidos”, indicou a fonte.
Gabriel apareceu como o novo dono do negocio e tinha como empregada uma vendedora que ignorava a trama de fundo. Para fortalecer sua fachada, a embaixada arrendou um apartamento de luxo na localidade de Usaquén e lhe entregou, junto com um Chevrolet Aveo, um automóvel que naquele momento era una novidade na Colômbia.

Os detetives identificaram o encarregado que buscava a droga. Gabriel fez contato e disse que estava em condições de conseguir uma carga de alta qualidade e se pactuou uma reunião deste e o comprador no apartamento de Usaquén. O DAS instalou câmaras e microfones na sala, cozinha e sala de jantar, e na rua em frente permanecia uma caminhonete de Inteligência Técnica, com a aparência de uma ambulância, registrando cada movimento.
Para surpresa de todos, o comprador era um jovem de apenas 24 anos, que chegou em um automóvel Bora e se fazia chamar “Iguano”. “Era um jovem aparentando boa vida, roupas de marca, com corpo 'malhado', 1.80 metros de estatura, despreocupado, desses que acordam às dez da manhã”.

Como teste, foi vendido um quilo de cocaína de alta pureza. O estupefaciente foi fornecido pela embaixada, produto de uma apreensão anterior. "Iguano" viajaria com a encomenda por via aérea, e assim Gabriel entregou a mercadoria em uma caixa de papelão com um minúsculo dispositivo GPS escondido em sua parede corrugada. A droga partiu do aeroporto Eldorado e fez escala no Chile, para depois chegar a Melbourne. Dessa maneira, o DAS e a AFP começaram a decifrar a rota.
Aos 35 anos, o agente 57189 era um pai de família abnegado, que ia à ciclovia com as crianças, ao mercado com a esposa e comia em quiosques. Mas para entrar no círculo de confiança do “Iguano” devia aparentar o estilo de vida de um playboy solteiro.
No apartamento houve ao menos oito festas, com mulheres e trago para todo lado. Também festas eternas em discotecas da moda, onde se tomavam uísque sem piedade,
para que o rapaz soltasse a língua.
Nas manhãs, Gabriel ia ao San Andrecito para receber o balanço das vendas, fazia pedidos e saudava os demais comerciantes com normalidade. Nas tardes seguia a dramatização, almoçando com garotas estonteantes em restaurantes tão caros que os agentes de apoio que o seguiam à sombra nem entravam, por falta de orçamento.

Nessa época, funcionários públicos como Gabriel não ganhavam mais que $1’500.000 mensais (cerca de 1500 reais). Agora, com uma conta de gastos reservados alimentada pelas arcas da embaixada, o agente podia fingir, ao menos por algum tempo, que era um ricaço.

Ausências que doem
O teatro deu seus frutos. O “Iguano” começou a tratá-lo como amigo e o convidou para ser acionista nas encomendas. O detetive forneceu dinheiro, com o qual foi comprada droga nas Planícies do Leste. Assim aprendeu outra rota de envios por mar: Buenaventura-Tahití-Ilhas Cook-Australia. E também soube o nome real de seu sócio: Fabio Esneider Rodríguez Mora, dono de lojas em outro San Andrecito.
Os avanços no caso tiveram um alto preço na vida pessoal de Gabriel, que durante oito meses, não pode visitar sua família. A equipe de apoio, que o vigiava em cada deslocamento, percebeu que havia homens suspeitos que o seguiam em motos. Era claro que os traficantes queriam saber com quem estavam lidando. Quando isso sucedia, o DAS coordenava uma falsa detenção com a estação policial mais próxima. Se pedia como favor aos patrulheiros que o detivessem na via e, sob o pretexto de verificar seus documentos, o levavam ao comando. Em uma dessas ocasiões, Gabriel havia prometido a seus filhos que iria visita-los, mas no caminho seus colegas detectaram a perseguição e ordenaram sua detenção e traslado à estação de Suba [bairro de Bogotá].
A falta de seus seres queridos começou a lhe afetar. Queria abraça-los, estar com eles. Uma noite, bêbado e em plena festa com “Iguano”, ligou por telefone à sua esposa. Desejava escutar sua voz, mas seu personagem o traiu e ele chamou sua mulher pelo nome de outra, desencadeando uma forte discussão do casal.
A missão concluiu em julho de 2007, quando já estavam identificados os comerciantes da cocaína na Austrália. Segundo consta nos jornais daquele país - The Age e The Herald Sun -,  em Bogotá
foi capturado o “Iguano” e, em Melbourne caíram seu tio José Arturo Quiroga e os sócios Carlos Hernán Torres Ortegón, Cenk Van e Paul Pavlou.
Gabriel voltou para casa, onde a ferida de sua ausência já não fechava. Alguns companheiros intercederam, falaram com a esposa, mas não podiam revelar em que missão ele esteve. Ela não acreditou, “vocês se cobrem com o mesmo cobertor”, replicava. A historia terminou em divorcio.
A Gabriel foi concedido uma menção honorífica, sigilosa, na Diretoria do DAS em Bogotá. Depois de sacrificar seu lar na luta contra o crime, foi só o que recebeu.

(*) Os nomes dos agentes foram modificados para proteger sua segurança.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
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domingo, 29 de abril de 2018

Garantistas – Há Sinceridade Nisso?

por Gilberto Pimentel
Se dermos uma olhada mais atenta na biografia e no desempenho dos magistrados do STF que um colunista definiu como “garantistas” referindo-se àqueles juízes que pretendem assegurar irrestritamente o que está na Constituição, ser um escravo dos princípios fundamentais da legalidade, da presunção da inocência, do contraditório, do devido processo legal e, sobretudo, da dignidade da pessoa humana, poderemos não ter tanta certeza da nobreza e sequer das suas reais motivações.
Dentre eles, estão aqueles que pretendem rever a possibilidade de prisão a partir da segunda instância, os que abominam a prisão preventiva ou provisória, os que enxergam como ato de tortura a delação premiada, os que desejam a todo custo assegurar imunidades sem limites, os que colocam o habeas-corpus como símbolo da liberdade individual não importa de quem ou porquê, os que pretendem ignorar a opinião pública, os que entendem que os juízes de Curitiba inauguraram um novo código de Direito no País e os que sonham detonar a Operação Lava Jato.
Tudo isso na contramão de todo o esforço que o Brasil necessita da Justiça, hoje, para eliminar a praga da corrupção, punir os criminosos do colarinho branco, dentre governantes, políticos e poderosos empresários que arrasaram a economia do país e frustaram tantas esperanças. Na contramão também daquilo que em todo o mundo vem sendo feito para combater a criminalidade institucionalizada.
Mas para agravar, como disse acima, quando atentamos para a trajetória desses chamados “garantistas”, não sentimos segurança alguma quanto as reais intenções que os movem. Para ser sinceros não damos um tostão furado por elas. Enxergamos condenáveis preferências político-partidárias em alguns, perigosas ligações com políticos e poderosos grupos empresariais em outros e todos esses protegidos, sempre, com contas sérias e pesadas a ajustar com a lei; e até mesmo alguns exemplos de nem tanto apego assim às normas constitucionais vigentes poderiam ser invocados dentre esses juízes. Aqui bastaria lembrar o episódio da ex-presidente cassada que não teve seus direitos políticos suspensos, como exigido pela lei, por conta da interpretação marota do texto constitucional do presidente do Senado com o aval de um chamado “garantista”. Um escândalo que ainda poderá ter sérias consequências nas próximas eleições.
Portanto, amigos, todo o nosso apoio, hoje, aos chamados pelo colunista de juízes consequencialistas, pragmáticos no sentido não pejorativo do termo, que querem julgar com base em fatos, e não em pretensas teses idealistas. Estão movidos pelo desejo maior de terminar com a impunidade dos poderosos. Estão com a Lava Jato. É disso que o Brasil precisa.
É General da Reserva
COMENTO: Esses que se dizem "garantistas", são os mesmos que apregoam que "prende-se muito" no Brasil. A resposta a esse pessoal pode ser feita com base nas pesquisas que apontam que menos de 20% dos crimes (de todos os tipos) que ocorrem no país tem sua autoria determinada em inquéritos policiais. Só isto significa que 80% dos criminosos sequer são identificados, e aí estão inclusos os que cometem mais de 60.000 assassinatos anuais. Ou seja, se a grande maioria dos criminosos não é identificada, muito menos são presos. O que invalida a tese de que se prende muito, pelo contrário, mostra que somos um país com muitos bandidos e que o que está faltando são presídios!

sábado, 21 de abril de 2018

Colômbia - Historias de Infiltrados no Crime - Parte 1/2

por Nelson Matta Colorado
Em tempos de ataques com drones, espionagem satelital e hackeamento eletrônico, a inteligência humana segue tendo um valor incalculável. E de modo particular, aquela realizada por agentes encobertos, homens e mulheres que estão atrás das linhas inimigas, metidos na boca do lobo. 
Na Colômbia, a DNI (Dirección Nacional de Inteligencia), a Polícia e as Forças Militares realizam Operações encobertas. Os procedimentos são regulamentados pela Lei de Inteligência e Contrainteligência (Lei nº 1.621, de 2013), pelo Código de Processo Penal (Art 242), por diretrizes ministeriais e decisões da JIC (Junta de Inteligência Conjunta).  
Graças à coragem desses agentes, importantes golpes tem sido dados nas guerrilhas, cartéis e quadrilhas que afligem o país há décadas.
Na sequência, apresentaremos quatro histórias de membros das Forças de Segurança que se infiltraram em grupos criminosos. Uns conseguiram alcançar seus objetivos e saíram ilesos, outros só sacrificaram suas vidas e seus lares na empreitada.

O policial interiorano que se infiltrou no Clã do Golfo
Alvo:  “Tommy”
Entre os integrantes da quadrilha, diziam que se pegassem um 'sapo' ("boca grande"), o penalizavam. Eu não acreditava, até que me contaram a historia de ‘Willy’, um antigo companheiro deles, e me mostraram por celular as fotos de suas pernas, braços e partes esquartejadas. Aí engoli em seco e pensei que o mesmo me podia acontecer se me descobrissem”.
O Policial Meléndez(*), de 29 anos, tem vivo na memória essa experiência, pois esteve 12 meses como agente encoberto na organização criminosa "Clã do Golfo". Foram tempos brutais, em que sua vida esteve a borda do precipício. Seu relato continua assim:
Me designaram a missão em junho de 2016. O objetivo era identificar os cabeças e membros da "frente Jorge Iván Arboleda", uma subestrutura do Clã que delinque no Nordeste e no Magdalena Médio, na Antioquía e se dedica às extorsões, narcotráfico, sicariato e mineração ilegal de ouro.
A cobertura era entrar na zona como empregado de chácara. Fui escolhido porque conhecia esses municípios e me criei em uma picada com camponeses, conheço os trabalhos do campo.
Cheguei pedindo trabalho e me ajudaram em uma granja. A jornada era das sete às dezesseis horas, ordenhando vacas, remediando terneiros, consertando cercas e arando terras.
Uma vez, chegou na granja uma esquadra composta por 'Hernán', o chefe da equipe, e sete seguranças. Descansaram ali. Foi a primeira vez que o vi, e reportei ao meu Oficial de Controle o tipo de armamento que portavam e suas descrições físicas.
Em quatro meses, já conhecia os 'pontos', assim denominam as pessoas que fazem a vigilância em lugares fixos. Para ganhar a confiança deles, eu lhes avisava quando via policiais ou gente diferente no povoado.
Quando completou seis meses que estava na zona e eles estavam acostumados à minha presença, me ofereceram $480.000 (cerca de 480 reais) para ser olheiro. Este foi o meu ingresso na organização. Com o tempo, me deixaram ir aos acampamentos e assim conheci o 'Tomy', o comandante da 'frente', e a seu irmão 'Brandon'". 

Mais um deles
“Me recrutaram em janeiro de 2017, por um pagamento de $800.000 mensais, e me tornei patrulheiro do Clã do Golfo no monte. Também servia de 'pássaro', que é como eles denominam os escoltas de civil, e acompanhava a ‘Hernán’ a todas partes, fazia compras e buscava as prostitutas que chegavam de Medellín em Vegachí , garotas entre 18 e 23 anos, não muito bonitas.
A rotina com eles não era fácil. Havia ex-paramilitares impiedosos que não tinham coração, e alguns membros que foram recrutados mediante engôdos choravam porque se desertassem eram homens mortos. Quando já formava fila na esquadra, vi como castigavam sem piedade a sua tropa. A um garoto, acusaram de 'sapo' e lhe deram o castigo: o comandante o golpeava a coronhadas de fuzil, pontapés, socos e com paus, ou o enforcavam até que desmaiava;  quem quisesse podia unir-se à surra. Eu me mantive quieto, olhando como seis deles batiam no rapaz.
Um dos momentos de maior risco foi em março de 2017, quando nos ordenaram ir a Yondó lutar contra o ELN, para recuperar o controle desse município. Nos deslocamos durante 15 dias, com armamento pesado, e eu pensava ‘¿que vou fazer agora?’. Havia probabilidade de morrer, porque na Força Pública ao menos há um apoio, e aqui sequer sabíamos o que fazer. Por sorte, quando estávamos em Puerto Berrío, mudaram a ordem e mandaram outra 'frente'.
Toda vez que podia, me comunicava com o Oficial de Controle, via chat de celular, para informar o que se passava. Eu tinha uma bolsa e uma mochila equipadas com câmaras diminutas, e um localizador satelital em uma bota. Com isso, marcava as coordenadas dos lugares onde acampávamos.
Por volta de junho de 2017 já havia identificado a 60 integrantes. Minha missão chegava ao fim, mas minha fuga ainda estava pendente. ¿Como ia fazer para não levantar suspeitas?
O Oficial de Controle me advertiu que uns pelotões do Exército estavam chegando à área. O medo era que se armasse um tiroteio, porque aí ninguém pergunta quem é quem. Tinha que me ir já, fosse como fosse.
Por pura coincidência, estávamos fazendo um deslocamento pela selva, caí e torci o tornozelo. Aproveitei a situação, exagerei a dor e disse ao chefe de esquadra que não podia caminhar. Me disse que eu era um fraco, um 'cu-de-cachorro' e me deu socos no estômago. Me chutou no chão, me tirou a arma e o uniforme camuflado, deixando-me descalço e de bermudas.
Quando se foram e me deixaram, caminhei varias horas e saí em uma picada de Maceo. Cheguei a uma granja onde me deram botas e um moletom, mas por medo, porque sabiam que eu era do Clã do Golfo. Depois fui ao distrito La Susana, onde estava o Exército, e me entreguei, simulando uma desmobilização para que a estória ficasse redonda. Estando na guarnição militar liguei para meu chefe e este esclareceu a situação ao Coronel do Batalhão, e meus companheiros foram recolher-me com o pretexto de me processar. Assim pude sair da zona.
Graças à informação que consegui durante esse ano de encoberto, a Polícia fez quatro operações contra a 'frente Jorge Iván Grisales'. Em 14 de maio de 2017, em Yalí, foi capturado Heder Cabrera Quejada, vulgo ‘Hernán’, com sete subalternos e um arsenal; em 19 de junho seguinte detivemos a outros nove em Yolombó e San Roque, ainda que nesse procedimento eles nos mataram o patrulheiro Luis Javier Ruiz Palomino.
Em 18 de janeiro de 2018, em uma chácara da vereda La Alondra de Yalí, foi morto o chefe William Soto Salcedo (’Tomy’) e um escolta que chamavam de ‘Gorra’. E em 9 de março capturamos a Heiner Soto Salcedo (’Brandon’), nesse mesmo município.
“Tomy” (no destaque) e seu escolta “Gorra” morreram em um enfrentamento com a Polícia, em Yalí.
FOTO CORTESÍA
Me lembro que nas reuniões, ‘Tomy’ sempre dizia que não se deixaria prender, que antes se mataria. Ninguém se alegra pela morte de alguém, mas eu sou do campo, sei como sofrem os campesinos por culpa desses grupos. Por isso, completar esta missão foi gratificante”.

Uma Traição Transforma a Operação em Armadilha Mortal
Alvo:   “Megateo”
A operação foi planejada corretamente, o problema é que se rompeu o sigilo”, confessou o então diretor do DAS (Departamento Administrativo de Seguridad - extinto em 2011), Andrés Peñate, assumindo a responsabilidade por uma das maiores calamidades que já atingiram a Inteligência colombiana em sua historia.
A tragédia começou quando o informante Óscar Murillo se acercou do organismo estatal, em janeiro de 2006, dizendo que podia facilitar a captura do ex-guerrilheiro e narcotraficante Víctor Ramón Navarro Serrano, vulgo “Megateo”, chefe da "frente Libardo Mora Toro", uma dissidência do EPL. Este homem delinquía na região do Catatumbo, limítrofe com Venezuela, uma zona de ordem pública complexa, onde também atuavam as FARC e o ELN. Entrar ali era muito difícil, por isso não se podia perder esta oportunidade.
O caso foi destinado ao meu companheiro José Elvar Cárdenas Bedoya. Ele era de meia idade, de muita experiência, com uns 17 anos de serviço”, relata o detetive Pares(*), que conheceu os detalhes do sucedido.
José Elvar, por intermédio do informante Murillo, contatou “Megateo”. Sua "cobertura" era a de um traficante de armas, e depois de varias semanas de negociação, foi pactuada a venda de um lote de 50 fuzis.
O plano do DAS era capturar o alvo durante a entrega do arsenal, em 20 de abril de 2006. Para o procedimento selecionaram 10 detetives com treinamento tático de combate e seis militares das Forças Especiais, que se reuniram um dia antes no Batalhão Santander, em Ocaña.
Na base acondicionaram o "cavalo de Troia": um caminhão com carroceria gradeada de transporte de caixotes, no meio dos quais ia acondicionado um caixão blindado. Dentro desse cofre iriam os soldados e oito agentes armados até os dentes, cada um com 15 carregadores de munição.
O caixão blindado havia sido usado antes, dentro de um caminhão-tanque de leite. Saíamos a caçar barreiras da guerrilha na estrada de Florencia a San Vicente, em Caquetá”, detalha o funcionário.
Se tudo saísse segundo planejado, “Megateo” chegaria com dois escoltas ao ponto de encontro, e aí seriam capturados. No caso de haver um tiroteio, os uniformizados poderiam aguentar 10 minutos dentro da cápsula encouraçada, até que chegasse o apoio. Perto do local estariam três pelotões da Brigada 30 do Exército e outros 30 detetives, como reforço ao grupo principal.
Ao amanhecer do dia definido, o caminhão partiu ao seu destino, uma paragem rural no município de Hacarí, Norte de Santander. O condutor era o investigador Jesús Antonio Rodríguez e de co-piloto ia José Elvar.
Às 9:30 a.m. passavam por uma estrada de terra do setor Mesa Rica, quando duas bombas sacudiram o mundo. O veículo se destruiu como una casca de ovo em um punho fechado. Ninguém sobreviveu.
As equipes de reação acudiram de imediato, porém explodiu uma terceira bomba a 500 metros da detonação inicial. A onda jogou pelos ares um tronco de árvore, que acertou o pescoço e a cabeça do Cabo-Segundo Jorge Ayure Rátiva, tirando-lhe a vida. Logo se armou um tiroteio com os dissidentes, que durou até o crepúsculo e deixou três feridos.
Quando, por fim, chegaram ao ponto da tragédia, encontraram as latas retorcidas do caminhão, incrustadas na ladeira da montanha. O estado dos corpos era indescritível. As lâminas blindadas ficaram separadas por toda a cena e, sobre uma delas, os verdugos deixaram sua assinatura com spray vermelho: EPL.
O que sobrou do caminhão em que se deslocavam os 10 detetives e seis militares que iam capturar “Megateo” (destaque), en Hacarí, Norte de Santander. FOTOS: CORTESÍAS
Segundo arquivos da imprensa, as vítimas, além de José Elvar, Jesús Antonio e o Cabo Ayure, foram os detetives José Acosta, Alexis López, Dubián Moncada, Oliverio Cañón, Luis Albarracín, John Castellanos, Rubén Vacca e José González; o Sargento-Segundo Alfonso Catalán, o Cabo Norberto Burgos e os Soldados Luis Gutiérrez, Julio Ochoa, Edwin Ramírez e Carlos Cordero.
Recursos Humanos mandaram psicólogos a todos os grupos do DAS. Foi um momento muito difícil”, acresce Pares.

O Contragolpe
Era claro que o ocorrido em Hacarí havia sido uma armadilha, ¿mas onde houve a fuga de informação? Nos meses seguintes, vários agentes encobertos foram enviados à zona, uns como camponeses, outros de transportadores e comerciantes. O primeiro achado foi o corpo do informante Murillo, que estava como "NN" em um cemitério de Ocaña. Seus assassinos o torturaram, queimaram seus dedos para apagar as impressões digitais e arrancaram seu rosto.
A segunda pista obtida no terreno foi que um sujeito apelidado “Rastrillo” havia vendido a “Megateo” a informação sobre o plano de captura, para que o 'capo' pudesse preparar a armadilha mortal.
“Rastrillo” era um olheiro que trabalhava para quem melhor pagasse. Fingia cooperar com o Exército, inclusive saia fardado com a tropa para conduzi-la a depósitos e laboratórios de drogas no Catatumbo, mas também passava segredos ao inimigo.
No dia em que os funcionários prepararam o caminhão, ele estava presente no Batalhão Santander, e assim se inteirou da trama.
Eu estava lá quando capturamos ‘Rastrillo’ no batalhão, em dezembro de 2006. Ia sair com os soldados, mas o chamamos ao gabinete do comandante e lá o algemamos. Depois o levamos a um quiosque, enquanto aguardávamos a chegada do transporte. Me tocou ver como chegaram vários companheiros e, um a um, lhe esbofetearam”, disse a fonte.
Na mesma operação foram detidos 15 integrantes da rede de apoio de “Megateo”, mas ele escapou nesse momento e em outras duas oportunidades: em um choque armado sobreviveu a um disparo no abdome; e quando se jogou da traseira de uma caminhonete em que o levavam algemado.
O DAS o perseguiu até o último dia, até que o Governo desmantelou a instituição em 2012”, observa Pares.
Por fim, “Megateo” não se saiu bem. Nove anos mais tarde outros agentes encobertos do Exército infiltraram seu anel de segurança, desta vez com o disfarce de vendedores de explosivos. Em 2 de outubro de 2015 combinaram um encontro em um prédio na vila San José del Tarra, em Hacarí. E quando estava dentro de uma casa que funcionava como armaria, fizeram explodir uma das bombas que lhe prometiam vender.
Quando foi divulgada essa morte, o DAS já não existia, mas restavam as marcas daquele brutal atentado em seus antigos integrantes. Pares não pode evitar sentir-se aliviado.

(*) Os nomes dos agentes foram modificados para proteger sua segurança.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
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