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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

A Explosão da Sede do Serviço Secreto Colombiano — 30 Anos Atrás

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O atentado de 6 de dezembro de 1989 tinha como alvo o General Miguel Maza Marques, mas matou sessenta pessoas e feriu outras quinhentas, sem alcançar seu objetivo.
O contexto do fato se conheceu quase trinta anos depois.
Imagem: El Colombiano
O Atentado
Quinhentos quilos de dinamite de amônia, detonados nove andares abaixo, provocaram apenas um estremecimento que empurrou a cadeira do general Miguel Maza Márquez, diretor do Departamento Administrativo de Segurança (DAS), e fez com que o piso ficasse coberto com pedaços de reboco e vidro de segurança. 
Fora do escritório blindado, no entanto, a imagem era diferente: eram 7h37 da manhã de 6 de dezembro de 1989 e no cruzamento da Carrera (Avenida) 28 com a Calle (Rua) 18A em Bogotá, no bairro Paloquemao, havia ocorrido o mais forte ataque explosivo da história da Colômbia. Sessenta pessoas morreram e 600 ficaram feridas. Documentos dos arquivos dos tribunais, cuja sede era vizinha do DAS, caíam como uma chuva de papel sobre a rua, onde 34 carros que passavam foram reduzidos a esqueletos em chamas e uma cratera de 4 metros de profundidade por 13 de diâmetro arrematavam a cena de um campo de batalha.
Imagem da Internet
Poucos segundos antes da detonação, o local central do buraco gigante era ocupado por um ônibus modelo 1986 da Companhia de Aqueduto de Bogotá, de placas SB6765, roubado uma semana antes por membros do cartel de Medellín, que planejavam o ataque sob as ordens de Pablo Escobar e de Gonzalo Rodríguez Gacha, também conhecido como “el Mexicano”. 
Imagem da Internet
Mas o alvo, Maza, deixou ileso o escritório às 7h45 e começou a descer pelo que restava do prédio, entre escombros e corpos. No caminho — ele contou à agência Colprensa —, encontrou o corpo de uma de suas secretárias. Às 8 da manhã, o ministro do governo, Carlos Lemos, enviou uma mensagem pela linha direta que ele mantinha com o presidente Virgilio Barco, em visita oficial ao Japão: "Maza está vivo". Era o segundo ataque de que o general se salvava naquele ano. Em maio, 100 quilos de dinamite explodiram na passagem de seu carro blindado na esquina da Carrera 7ª com a Calle 57, também em Bogotá. Sete transeuntes morreram.
Imagem da Internet
Neste segundo ataque, "Los Extraditables" — o grupo criminoso criado por Escobar para fazer guerra contra um julgamento nos EUA — usaram em frente à sede do DAS cinco vezes mais explosivos, mas em vez de matar Maza, apenas multiplicaram o número de vítimas. Muitos ainda estavam sob os escombros às 9 da manhã, quando Pilar Lozano, uma repórter do El País da Espanha, chegou ao local e viu a rua transformada em um purgatório de almas com dor que murmuravam: “Não quero olhar, não quero ver minha família despedaçada". Um homem que passava viu os jornalistas reunidos e gritou para eles: "Digam que odiamos os narcotraficantes". Essa rejeição popular foi retomada por Maza horas depois, quando ele deu suas declarações à imprensa: "Esta é uma guerra contra o povo colombiano", disse ele.
Imagem da Internet
"Temos que seguir adiante até acordar desse pesadelo." O despertar do palestrante demorou quase 30 anos e acabou tomando seu lugar na história. Naquele dia 6 de dezembro, ninguém duvidava que Maza fosse o maior inimigo do cartel de Medellín, mas isso mudou em 24 de novembro de 2016, quando ele foi condenado pelo Supremo Tribunal de Justiça por ter colaborado — em uma aliança tripla entre o DAS, o narcotráfico. e as Forças de Autodefesa de Magdalena Médio — com o assassinato do candidato liberal Luis Carlos Galán, em 18 de agosto de 1989. Só então ficou claro até que ponto os atingidos pela bomba naquele dia, desprotegidos fora do gabinete blindado do general, desconheciam a guerra pela qual morreram.

Ligações de Maza com o crime
A Suprema Corte destacou, em sua sentença, a relação entre o então diretor do DAS, Miguel Maza, com Henry Pérez Durán, comandante das Forças de Autodefesa do Magdalena Médio. Segundo os depoimentos recolhidos na decisão, Maza acusou Pérez de "trabalhos sujos" relacionados ao combate dos guerrilheiros em sua área de influência. Por sua vez, o diretor do DAS colaborou não perseguindo Pérez. Na prática, isso serviu de ponte entre dois inimigos: Maza e Pablo Escobar, por sua relação com o cartel de Medellín.
Imagem da Internet
O Sobrevivente — William Ortiz González
Aos 10 anos, ele soube que tudo ao seu redor poderia acabar subitamente. Que, qualquer dia, enquanto esperava o café da manhã, por exemplo, as paredes poderiam desabar, os vidros saltarem de suas janelas e o barulho das sirenes e os gritos se tornarem o único som audível.
Foi em 6 de dezembro de 1989. William esperava em uma lanchonete por sua mãe, María Elena, que havia ido a duas quadras dali para deixar sua bolsa em seu escritório no prédio do Departamento Administrativo de Segurança (DAS).
Em algum local, entre o prato colocado sobre a mesa e a bolsa deixada na cadeira, 500 quilos de dinamite explodiram. Tudo mudou do lugar onde deveria estar: os objetos saíram das prateleiras, as mesas viraram, os corpos voaram e aterrissaram, vivos ou mortos, em outro lugar. William levantou-se e caminhou os dois quarteirões que o separavam do prédio do DAS, apenas reparando a cratera de 4 metros no chão, olhando para a porta pela qual, para ele, todas as pessoas do mundo saíam, exceto a sua mãe. Ele demorou a reconhecer a mulher transfigurada pelos escombros que apareceu entre a multidão. Ambos se aproximaram, primeiro em silêncio e andando, depois correndo e gritando, até se estreitarem como nunca antes. O que fazer depois daquele abraço? O que acontece no instante imediatamente após o fim do mundo conhecido? Naquele dia, William e Maria Elena deixaram o palco da guerra, pegaram um táxi e chegaram à casa deles. Mais tarde, ela foi ao hospital e soube que, embora uma viga a tivesse protegido de receber a onda de choque principal, uma parte da pressão entrara em seus ouvidos, danificando completamente um e 50% do outro. O dano a William foi diferente. O que o ataque lhe tirou foi a confiança elementar de que o que o rodeia permanecerá de pé, a tranquilidade de viver sem esperar um estouro. Seu fardo, diz ele, é suficiente para acrescentar o rancor. "Há muito tempo perdoei Pablo Escobar, e a Popeye", diz ele. “Se eu os visse, a única coisa que exigiria seria que olhassem para mim, que me vissem nos olhos".
Fonte: tradução livre de El Colombiano

Por esses fatos, em 1994 um juiz condenou Guillermo Alfonso Gómez Hincapié a 8 anos de prisão e a 9 anos de cárcere a Eduardo Tribín Cárdenas, as pequenas penas foram produto de benefícios pela política de colaboração com a justiça.
Segundo as investigações, Gómez tinha uma relação afetiva com uma secretaria do DAS e teria aproveitado essa situação para fazer espionagem para a mafia. Enquanto que Tribín foi contratado por Gómez para alugar o imóvel no sul de Bogotá, onde armazenaram os explosivos usados no atentado.
Isto foi o que sobrou do chassi do ônibus utilizado no atentado. Foto:   arquivo El Tiempo
Posteriormente, Carlos Mario Alzate Urquijo, vulgo "Arete", jagunço de Pablo Escobar condenado pelo ataque ao avião da Avianca, ocorrido uma semana antes ao do DAS, assumiu sua responsabilidade no atentado à sede do órgão.
Alzate Urquijo, foi condenado a 20 anos pelo atentado à Avianca, mas também obteve benefícios por sua colaboração com a justiça e foi libertado em 27 de novembro de 2001. Ao sair da prisão de Itagüí, Antioquia, um sicário o atingiu com dois tiros. Hoje, ‘Arete’ estaria vivendo na Espanha.
Fontes da Fiscalia (Procuradoria) indicaram que atualmente não há nenhuma investigação por este atentado.

Os autores intelectuais: mortos
A investigação aponta como um dos autores intelectuais dos fatos a Pablo Escobar, que financiou o atentado com o qual buscava matar Maza Márquez. Na época, as investigações do próprio DAS sobre o ataque mostraram que Pablo Escobar destinou 1.000 milhões de pesos (cerca de um milhão de reais) para aquele atentado. Escobar foi abatido pela Polícia em 2 de dezembro de 1993 em Medellín.
Também é assinalado outro chefe do cartel de Medellín, Gonzalo Rodríguez Gacha, o 'Mexicano', que contratou o traficante de explosivos no Equador para fornecer ao cartel de Medellín a dinamite utilizada nos atentados em questão. O 'Mexicano' foi abatido em Coveñas, Sucre, em 15 de dezembro de 1989.
John Jairo Arias Tascón, o Pinina, jagunço de confiança de Escobar e um dos chefes do bando ‘los Priscos’, também está citado neste caso. Ele manejava as contas de Escobar desde onde saiu o dinheiro para financiar o ataque ao edifício do DAS. A Polícia abateu o vulgo 'Pinina' em 14 de junho de 1990.
Por último, as autoridades indicaram Gonzalo Chalo Marín, que era integrante do cartel de Medellín e se encarregava de transmitir as ordens de Escobar para realizar atentados com carros bomba. Morreu assassinado em princípios de 1990.
A explosão deixou uma cratera de mais de 10 metros de diámetro. Foto:  Arquivo/El Tiempo
O avião pequeno
"Sabíamos que o DAS e seu diretor eram duas das obsessões de Escobar", lembra um funcionário importante da agência que concordou em revelar informações sigilosas, desde que seu nome não seja divulgado.
Por meios técnicos e fontes humanas soubemos que Escobar queria atentar contra o general Maza usando uma aeronave pequena. O escritório do Diretor ficava no 9º andar e, ainda que fosse blindada, era o jeito mais certeiro para causar a sua morte”, explica.
E segue:O plano se frustrou porque apesar de terem localizado pacientes terminais, dispostos a morrer em um atentado em troca de uma boa quantia, nenhum era piloto”.
Escobar, então, optou por reforçar o chassis de um ônibus — identificado com os logos da empresa de Acueducto y Alcantarillado (Água e Esgotos) de Bogotá, previamente roubado — o qual foi carregado com os 500 Kg de dinamite. E encarregou a Jhon Jairo Arias Tascón, vulgo Pinina, seu assassino de confiança, para que executasse o plano terrorista.
O ônibus-bomba explodiu de maneira controlada, enquanto rodava, o que confirma que o condutor morreu junto a civis e membros do DAS. Mas nunca ninguém soube quem conduziu o veículo, e em alguns casos foi difícil identificar os mortos.
A identificação dos cadáveres se tornou penosa e devastadora. Um par de famílias receberam somente pequenos cofres simbólicos do que seriam os restos de seus defuntos.
Vários dos feridos terminaram com lascas de madeira — e vidro — incrustados em seus corpos ou com lesões internas, produto dos golpes secos que receberam contra as paredes como consequência da onda expansiva da explosão.
Dez quadras ao redor resultaram praticamente destruídas. As instalações e edificações da chamada zona industrial de Paloquemao — na Calle 19, um par de quadras acima da Carrera 30 — começaram a desabar, e até escritórios do complexo judicial vizinho foram atingidos. Se calcula que pelo menos 300 empresas tiveram que encerrar suas atividades pelos efeitos do ato terrorista, assim como 30 corporações financeiras.

Mas o alvo de Escobar sobreviveu.
Destruíram o edifício, mas não os homens que trabalham no DAS”,  disse  à imprensa Manuel Antonio González, um dos chefes de segurança, após percorrer os 11 andares do prédio destruído.
Imagem: Arquivo de El Tiempo
Diana Margarita Fonseca, uma secretaria designada à Interpol, se salvou por segundos de morrer, junto com o filho que esperava.
No entanto, a bela mulher, coroada como rainha da simpatia do DAS alguns anos antes, esteve vários meses atrás das grades.
Descobrimos que seu parceiro era Guillermo Alfonso Gómez Hincapié, o mesmo que havia ajudado a alugar o galpão onde havíamos encontrado a dinamite: estava a serviço de Escobar, recorda o funcionário.
E acrescenta que é falso que Carlos Castaño — então lugar-tenente de Escobar e depois chefe paramilitar — tivesse dado informação sobre a localização do galpão: “Tivemos que fazer vigilâncias no bairro por dias. Nessa época, Policia Judiciária, técnicos em explosivos e a Inteligencia do DAS, fazíamos turnos de 24 horas”.
Outro dos ‘duros’ da Inteligencia disse a El Tiempo a única certeza é a de que Castaño obteve informação privilegiada de gente de dentro do DAS e que a pode ter entregue a Escobar para o planejamento deste atentado e o do avião da Avianca, uma semana antes.
Se suspeita que foi assim que souberam que César Gaviria planejava viajar a Cali usando voo comercial.
Alberto Romero Otero, diretor de Inteligencia do DAS, admitiu ante a Fiscalia (Procuradoria) que o informante de codinome Alekos, que informava dados sobre o cartel, era realmente Castaño. Mas seus homens asseguram que Romero era incorruptível e que cortou a comunicação com Alekos quando soube que o informante era Castaño.
Calcula-se que para executar o atentado foram movimentados cerca de 40.000 milhões de pesos da época, por meio de treze contas bancarias.
Gonzalo Rodríguez Gacha, vulgo el Mexicano, foi quem se encarregou de adquirir a dinamite por intermédio de Julio César Riofrío Orozco, um cidadão equatoriano. Este trouxe a explosiva carga desde seu país e a introduziu na Colômbia pela fronteira com Equador; seguiu até Medellín e finalmente chegou a Bogotá.
Gómez Hincapié, companheiro da linda secretaria do DAS, recebeu 10 milhões de pesos pelo trabalho sujo e criminoso e, depois de jurar que a ex-Rainha Simpatia não havia tido nada que ver com o episódio, conseguiu que a pusessem em liberdade.
A ele, um juiz regional de Antioquia condenou a oito anos de cárcere e a seu cúmplice, Eduardo Tribín Cárdenas, a 9 anos e 8 meses. As ridículas penas obedeceram a os benefícios previstos no Decreto 2047 de 1990 e a que ambos colaboraram com suposta informação sobre os atentados de Escobar.
Por isso, ninguém duvida que o sujeito que apareceu morto em 3 de julho de 1998, identificado como Guillermo Hincapié, um empregado do mafioso Leonidas Vargas, é o mesmo do ataque ao DAS.

‘Los Magníficos’
Na instituição se falava que um grupo de seus melhores agentes, conhecidos como ‘Los Magníficos’, se dedicou a vingar o atentado, em uma espécie de ponto de honra.
Só posso dizer que ajudamos a capturar a vários sicários de Escobar, incluído o vulgo 'el Zarco'. Recordo que naquele dia a camioneta do DAS deu pane, e o bandido zombou de nós dizendo que seu patrão sim metia grana na guerra contra o Estado. E sobre o mito das atuações dos ‘Magníficos’ só posso dizer que sempre será 'segredo profissional', disse o funcionário sobrevivente.
Fonte: tradução livre de El Tiempo
COMENTO: de tudo o que foi relatado, fica a lição de que nunca é demais o cuidado no trato com Informantes não pertencentes aos quadros de um órgão de Inteligência, para não fornecer dados ao invés de obtê-los. Pequenas indiscrições sempre se transformam em dados significativos nas mãos de bons analistas adversários. A vaidade de mostrar-se "bem informado" quase sempre é paga com grandes decepções. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O Silêncio do Populismo

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Imagem da Internet
por Renato Sant'Ana
Ela era mulher, negra, jovem e estava mais para pobre que para classe média: recebia o modesto salário em parcelas e atrasado. Marciele Renata dos Santos Alves, 28 anos, policial militar, foi assassinada em ação, no enfrentamento com uma quadrilha no Vale do Rio Pardo, RS.
O que vão dizer agora os "coletivos" que se julgam detentores de mandato para falar em nome das mulheres, dos negros e dos pobres? Cadê o ruidoso (e "fake") ativismo dos direitos humanos?
Quando a vereadora Marielle Franco foi assassinada, um crime repulsivo, claro, em poucas horas, graças à mobilização frenética de certos "movimentos" e com o auxílio inestimável da extrema-imprensa, viu-se a mais agressiva tentativa de provocar comoção e de construir um mito.
Ela morreu na noite de 14/03/2018 com seu motorista, Anderson Gomes. Duas horas após o fato, segundo Rute de Aquino (O Globo, 17/03/18), "eram registrados 594 tuítes por minuto". Até parecia que os "movimentos" estavam de plantão a espera de um cadáver.
Levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV/DAPP), apurou que, das 21h de 14/03/18 (logo após o crime) às 10h30min de 16/03/18, para efeito de impulsionamento de conteúdo nas redes sociais (um truque de manipulação), foram usados 1.833 robôs nos tuítes publicados sobre a morte da vereadora.
O resultado foi considerável. Embora ninguém conhecesse a motivação nem a autoria do crime, em menos de 12 horas, já havia pessoas por todo o país que, jamais tendo ouvido falar no nome dela, se sentiam de luto e até apontavam culpados. E, claro, como esponjas, absorviam o conteúdo subliminar das "narrativas" de redes sociais.
Naqueles dias, inumeráveis crônicas e artigos lembraram o caso da juíza Patrícia Acioli, assassinada com 21 tiros numa emboscada em Niterói.
Tudo para dizer que a comoção pela morte de Marielle foi muito maior.
A juíza, nos últimos 10 de seus 47 anos, mandou para a cadeia cerca de 60 bandidos da Baixada Fluminense ( inclusive policiais e milicianos).
Seu nome entrou numa lista de 12 pessoas que o crime organizado
pretendia executar. Ela, sim, foi testada em sua coragem. E jamais recuou. Patricia Acioli passou à história como "juíza linha dura".
Mas para Samira Bueno, então diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, "Se alguém carregava em si toda a representação do que é a vulnerabilidade gerada pela violência, essa pessoa era ela [Marielle]", isso porque era mulher, negra, de origem simples, "militante" dos direitos humanos e lésbica.
Patricia Acioli não era essa polivítima. Logo, não servia para, de uma só tacada, propagandear as agendas que a esquerda roubou das mulheres, dos negros, dos pobres, dos homossexuais, etc.
A comparação entre Patrícia e Marielle foi um tiro que saiu pela culatra, servindo para desmascarar o planejado "culto à personalidade" da vereadora e o propósito populista desse expediente.
Cada vez mais, mulheres, negros, homossexuais e pobres do país rejeitam a credencial de vítima que a esquerda lhes oferece.
E é cada vez mais ampla a consciência de que bondade, egoísmo, dignidade, estupidez, respeito e propensão ao abuso nada têm a ver com sexo, cor da pele nem classe social.
E a isto chegamos: hoje, apesar da tremenda mobilização inicial e de o nome de Marielle seguir sendo usado a torto e a direito pela mídia amestrada, por estudantes de passeata e assemelhados, a invenção de um Che Guevara de saia não vingou.
De Marciele Renata dos Santos Alves, sabe-se que não vai interessar a "movimentos" populistas. Era uma mulher de ação. Não incorporava o vitimismo. E deu iniludíveis provas de coragem.
Como disse o governador Eduardo Leite, Marciele "Levou ao limite o seu juramento colocando a própria vida em risco para proteger a sociedade."
Ela tem o reconhecimento e a homenagem desta coluna, porque seu exemplo ilumina e inspira.
Renato Sant'Ana é Advogado e Psicólogo.
E-mail: sentinela.rs@uol.com.br
Fonte:  Blog do Políbio Braga

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Direitos da Sociedade x Direitos dos Indivíduos

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É questionável que o plano de vida pouco edificante de alguns cidadãos se torne referencia pública: exemplo rodeado de álcool e drogas que não é o melhor para crianças e jovens.
Imagem: Internet - Foto de Juarez Santos / Fotos Públicas - Jornal Metro
Editorial
É certo que o Estado e suas instituições não podem usufruir uma super-autoridade que lhes permita assumir a atribuição de conceber, com proibições e repressões, o plano de vida dos cidadãos. Mas não é menos pertinente que a ordem social proposta, disposta com base em princípios diretores a Constituição , evite que o livre desenvolvimento da personalidade de alguns indivíduos se converta no espelho em que deve mirar-se e da qual deve tomar exemplo cotidianamente a maioria da sociedade, especialmente suas crianças e jovens.
Em um país que busca garantir liberdades, não se pode confundir o respeito aos direitos individuais com uma permissividade tal que faça com que a escolha de consumir álcool e drogas seja parte do cenário público, como se tratasse de simples paisagem, em um contexto contaminado de ilegalidade e ameaças contra a vida, a honra e os bens dos cidadãos.
É como se o Bronx, em Bogotá, ou as Cuevas, em Medellín (NT: ou a Cracolândia, em São Paulo), vistos desde a ótica dos consumidores
esqueçamos as máfias que os gravitam por um segundo fossem opções prometedoras e edificantes para nossa sociedade. Por fortuna, essas “panelas” de vicio já foram demolidas e recuperadas (NT: na Colômbia, pois a Cracolândia paulista encontra-se em plena atividade).
Há que agregar que hoje as redes de distribuição de drogas, seguramente ilegais e criminosas, acossam crianças e adolescentes desde as cercanias dos centros educativos. Pensar na ideia de ruas, parques e praças do país, abertos ao consumo indiscriminado e permanente de drogas e álcool, não se entende como una perspectiva condizente a melhorar as condições de ordem pública e convivência, para proveito geral e coletivo.
Compreende-se que a Corte Constitucional assuma a interpretação e aplicação dos princípios constitucionais com uma ótica de paz, de tolerância, de diversidade e de respeito a maiorias e minorias. Mas a ordem prática de sua doutrina, neste caso, se choca contra a realidade de um país cheio de limitações para garantir que o consumo de drogas e álcool no espaço público, sem restrições, não se converta em uma fonte de discórdia, inseguridade, abusos e desordens.
A Corte Constitucional tem batalhado por conquistas substanciais em matéria de direitos e liberdades para os colombianos, inclusive às vezes incompreendida no ofício de entender, interpretar e garantir igualdade no complexo e diverso espectro de um país tão heterogêneo. São muito elogiáveis sua existência e trabalho, capaz de distinguir caprichos, taras e preconceitos morais e políticos e de corrigir lacunas legais, mas esta não é a ocasião. Proibir esse tipo de consumos no espaço público, a favor do direito coletivo a um ambiente são e seguro, não significa anular liberdades individuais.
Não é lugar comum recordar que em países desenvolvidos e garantistas dos direitos civis e humanos (EE.UU., Rússia e França), é proibido o consumo de drogas e/ou álcool em espaço público (parques, praças e ruas, essencialmente; inclusive em veículos), por razões de ordem prática: impedir que essa escolha e “gosto” individual se imponham no cotidiano da maioria dos usuários do espaço público e que sejam um risco a essa maioria.
O direito consuetudinário, baseado na práxis e nos exemplos de cada caso, ensina que é melhor antecipar essas circunstâncias de vulnerabilidade da ordem pública, a que são tão propensos os indivíduos sob o efeito de substancias estimulantes, psicoativas. Por isso o consumo é permitido, mas é reduzido, ordenado, e restringido ao espaço privado, ao de um ambiente no qual esse cidadão, com legítimo direito ao desenvolvimento de sua livre personalidade, não arrisque os direitos de outros.
Não há consumo sem venda. Não há demanda sem oferta. Buscar a prevalência da ordem pública não é defesa do proibicionismo. Simpatizar e defender a segurança, a tranquilidade, a salubridade e a moralidade nos espaços de uso geral, públicos, não rivaliza com que cada um viva e exerça sua livre personalidade, com amplitude, nos espaços e lugares adequados para que sua escolha não se imponha a outros, em especial às crianças e aos jovens, sem a maturidade, assistência e proteção suficientes do Estado, da sociedade e da família, para definir seus planos de vida.
Fonte:  tradução livre de El Colombiano
COMENTO: o texto se refere a uma possível liberação legal, na Colômbia, do uso de bebidas alcoólicas e drogas em locais públicos, que era proibido. Na verdade, a Suprema Corte de lá não "liberou" essas ações, mas repassou para as autoridades municipais a função de legislar sobre o assunto. Diferente do nosso STF — useiro e vezeiro na imposição de sentenças que nem sempre atendem aos interesses da coletividade —, os magistrados colombianos evitaram "legislar" sobre o assunto, conferindo essa atribuição aos legisladores municipais, que melhor conhecem as idiossincrasias de suas urbes.
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terça-feira, 20 de agosto de 2019

Crime Cometido Para Ocultar Uma Descoberta Matemática?

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Um dos descobrimentos mais importantes da ciência, em sua época, era uma ameaça.
Foto:   ¿O formoso cenário de um horrendo crime?
por Dalia Ventura - BBC Mundo 
04 Mar 2019
Contam que em uma manhã em meados do século VI A.C. um homem foi jogado ao mar aberto frente à costa da Grécia.
desafortunado se chamava Hipaso de Metaponto e era matemático, teórico da música e filósofo pré-socrático.
Foi abandonado a sua sorte, e sua sorte não podia ser outra que a morte.

Como ocorre frequentemente com conhecimentos do mundo antigo, há quem tenha certeza de que isso aconteceu, enquanto outros questionam o relato.
Ninguém ainda pode comprovar se essa parte da historia é verdadeira.
Mas, a outra parte é a mais interessante: a razão pela qual queriam mata-lo.
É que poucos assassinatos têm uma motivação tão assombrosa como o descobrimento da incomensurabilidade e da irracionalidade, matematicamente falando.

Uma estrela da antiguidade
Esta historia começa com uma das celebridades da antiga Grécia, Pitágoras de Samos (cerca 580 — 500 A.C.), a quem se atribui o inicio da transformação da matemática de uma ferramenta para a contabilidade em uma ciência analítica.
Mesmo havendo aqueles que o refutariam.
Pitágoras é, de fato, um personagem polêmico. Como não deixou escritos matemáticos, muitos se perguntam se realmente fez o que dele se diz (incluindo alguns de seus teoremas).
Há evidência somente de que ele tenha  fundado uma escola, ainda que seus ensinamentos fossem considerados suspeitos e seus seguidores, estranhos.
Uma característica incomum no mundo antigo é a de que eles aceitavam mulheres.

Os pitagóricos
As escolas de pitagóricos se assemelhavam mais a uma seita, pois não só compartiam conhecimento.
Os estudantes levavam uma vida estruturada de estudos e exercícios, inspirados em uma filosofia baseada na matemática.
Os primeiros pitagóricos eram de classe media alta e politicamente ativos.
Formaram uma elite moral que se esforçou por aperfeiçoar sua forma física nesta vida para obter a imortalidade na seguinte.
Segundo os pitagóricos, para libertar a alma e alcançar a imortalidade, o corpo mortal tinha que ser rigorosamente disciplinado de maneira que se mantivesse moralmente puro e livre da natureza básica.
Se não conseguisse, a alma se reencarnaria repetidamente, ou "transmigraria", até que se libertasse por mérito acumulado.
Os pitagóricos também acreditavam no cosmos, que nesse momento se referia a uma ideia de uma perfeita ordem e beleza em todo o Universo.
Embora provavelmente seguissem o politeísmo grego clássico, tinham fé em uma divindade superior, que estava sobre todas as demais.
Tinham uma serie de tabus, que incluíam a carne e os feijão, e viviam de acordo com uma serie de regras que regiam todos os aspectos da vida.

Triângulos e quadrados
Outra coisa é certa: Pitágoras é sinônimo de entender as propriedades dos triângulos retângulos, algo que iludiu os egípcios e os babilônios.
O teorema de Pitágoras estabelece que se tomarmos um triângulo retângulo e fizermos quadrados em todos os seus lados, a área do quadrado maior é igual à soma dos quadrados dos dois lados menores.
Em outras palavras, o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos outros dois lados (catetos).
É um teorema que ilustra uma das características da matemática grega: em vez de depender somente dos números, apelavam a belos argumentos geométricos.

Melódico
Ainda que muitos descobrimentos que lhe creditaram tenham sido contestados, há uma teoria matemática que ainda lhe atribuem e tem  que ver com a música.
Contam que um dia, ao passar por uma ferraria, Pitágoras ouviu as notas produzidas pelos golpes nas bigornas e notou que soavam em perfeita harmonia.
Ao buscar una explicação racional para entender essa qualidade tão cativadora, recorreu à matemática e descobriu que os intervalos entre as notas musicais harmoniosas sempre se apresentavam em proporções de números inteiros.
Contam que Pitágoras ficou tão emocionado com o descobrimento que chegou à conclusão de que todo o Universo havia sido construído a partir de números.

Tudo é um número
Sua doutrina de que "todas as coisas são números" foi importante para a historia da filosofia e a ciência.
Queria dizer que a essência e a estrutura de todas as coisas se podem determinar ao encontrar as relações numéricas que as expressam.
Originalmente, se tratava de uma generalização ampla baseada em observações como...
  • que as mesmas harmonias podem produzir-se com diferentes instrumentos por meio das mesmas relaciones numéricas  — 1:2, 2:3, 3:4 — em extensões unidimensionais; 
  • que existem certas regularidades nos movimentos dos corpos celestes; 
  • que a forma de um triângulo está determinada pela relação dos comprimentos de seus lados.

Mas os seguidores de Pitágoras tentaram aplicar seus princípios em todos lugares com maior precisão.
Na tentativa, se depararam com um desafio inquietante a esta visão do mundo, que surgiu de suas próprias fileiras e envolveu o teorema de Pitágoras.

A ameaça
Um dos membros mais prestigiados da Escola pitagórica era precisamente Hipaso, aquele que havíamos deixado afogando-se nas águas do Mar Mediterrâneo no principio desta historia.
Sem nenhuma má intenção, Hipaso se dispôs a encontrar o comprimento da diagonal de um triângulo retângulo com dois lados que meçam uma unidade.
Talvez uma ilustração nos ajude a calcular: eis aqui um quadrado e cada um de seus lados tem 1 unidade (metro, centímetro, quilômetro, etc) de comprimento.
¿Quanto mede a diagonal do quadrado?
Graças ao teorema de Pitágoras, podemos calcular o quadrado do comprimento do lado maior de um triângulo retângulo somando os quadrados dos outros dois lados.
Então o tamanho da diagonal ao quadrado é (1×1)+(1×1) = 2, ou seja a medida da diagonal é √2. Ou, o número que multiplicado por si mesmo resulta em 2.
¿Mas, qual é esse número? A raiz quadrada de 2 não é 1 porque 1x1 é 1. E não é 2, porque 2x2 é 4. É alguma coisa intermediária.
Algo que os babilônios haviam gravado na tábua de Yale, ainda que não o tenham compreendido.









Esse algo era um número irracional,
(como π, o número de Euler e o número áureo o 'pí').
Foi um dos descobrimentos mais importantes da historia da ciência: o lado e a diagonal de figuras simples como o quadrado e o pentágono regular são incomensuráveis, ou seja, sua relação quantitativa não pode ser expressa como uma relação de números inteiros.

O segredo
Esses números irracionais não encaixavam na visão de mundo pitagórica.
Mais, o descobrimento ameaçava destruir a base de toda a filosofia pitagórica.
Implicava que os seguidores do famoso filósofo e matemático já não eram possuidores de uma verdade: o dogma de que tudo possui sua medida era falso e o poder que haviam atribuído aos números, também.
Se os números naturais, que para os pitagóricos constituíam a essência da realidade, nem sempre serviam para achar a medida das coisas, tampouco eram o caminho para conquistar um saber divino.
Os comentaristas gregos contam que Pitágoras fez com que sua escola jurasse não revelar o descobrimento.
No entanto, Hipaso insistia em divulgar a natureza do comensurável e o incomensurável, o conhecimento dos "perigosos" números irracionais.
Esse teria sido o motivo do suposto crime: silencia-lo.
Provavelmente nunca saberemos se esse realmente foi o final da historia de Hipaso de Metaponto.
O que podemos ter certeza é de que não o foi para os números irracionais.
Não obstante, a historia sugere um fim: o da sacralização do saber.
Fonte:  tradução livre de El Tiempo
COMENTO:  como diz o próprio texto, não há como comprovar a veracidade da "estória" contada. Mas podemos tomar como lição a confirmação da assertiva de que "conhecimento é poder— mesmo quando esse conhecimento não reflita a Verdade — e quem os detém (conhecimento e poder) é capaz de muitas coisas para mantê-los.
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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Golpe ou Contrarrevolução? - 1964: Verdades Inconvenientes

por Flávio Gordon
“É inegável que o golpe militar e civil foi empreendido sob bandeiras defensivas. Não para construir um novo regime. O que a maioria desejava era salvar a democracia, a família, o direito, a lei, a Constituição…”
(Daniel Aarão Reis. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à Constituição de 1988)
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Na madrugada de 27 de novembro de 1962, um Boeing 707-441 (prefixo PP-VJB) decolou do Rio de Janeiro levando 80 passageiros e 17 tripulantes. Era o voo 810 da Varig, com destino a Los Angeles, e escalas em Lima, Bogotá e Cidade do México. Pouco antes de aterrissar no Aeroporto Internacional Jorge Chávez, em Lima, a aeronave colidiu com uma montanha e explodiu, matando todos a bordo.
Entre as vítimas fatais, estava Raúl Cepero Bonilla, que substituíra Ernesto Che Guevara na presidência do Banco Nacional de Cuba, e que, à frente de uma grande delegação cubana, viera ao Brasil sob o pretexto formal de participar da 7ª Conferência da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). Informalmente, Bonilla fora enviado por Fidel Castro para tratar de um assunto delicado com o presidente brasileiro João Goulart.
A história começara meses antes do acidente aéreo, quando o coronel getulista e veterano da FEB Nicolau José Seixas, nomeado por Goulart para a chefia do Serviço de Repressão ao Contrabando, obteve informações sobre a chegada recorrente de grandes caixotes com geladeiras a uma fazenda em Dianópolis (à época, Goiás; hoje, Tocantins). Como não houvesse sequer energia elétrica naquele lugar ermo, Seixas desconfiou que o conteúdo dos caixotes fossem armas contrabandeadas por latifundiários da região. Tendo reunido seus homens de confiança, numa madrugada, o coronel comandou uma batida surpresa à fazenda. Assustados, e sem oferecer resistência, os ocupantes fugiram para o mato, deixando para trás todos os pertences, incluindo as tais “geladeiras”. Ao inspecionar a carga, Seixas e seus comandados tiveram uma surpresa.
Com efeito, havia ali armas contrabandeadas, mas não só. Junto a elas, muitas bandeiras cubanas, retratos e textos de discursos de Fidel Castro e do deputado pernambucano Francisco Julião (o líder das Ligas Camponesas), manuais de instrução de combate e planos para a construção de novos focos de guerrilha rural. Além disso, havia também planilhas detalhando a polpuda contribuição financeira enviada por Cuba ao movimento revolucionário de Julião. Sim, sem desconfiar de nada, o coronel Seixas acabara de desbaratar um campo de treinamento militar das Ligas Camponesas, que, em plena vigência da democracia no país (o ano era 1962, recorde-se), pretendia derrubar o governo por meio das armas, instaurando aqui um regime comunista nos moldes cubanos.
Em vez de comunicar sobre o material subversivo ao serviço de inteligência do Exército, como seria o mais comum, o coronel Seixas entregou-o diretamente a João Goulart, que, diante da grave ameaça estrangeira ao seu governo, tomou uma decisão muito estranha. Sem nada comunicar aos seus ministros, ao Congresso, ao STF ou à imprensa, o presidente foi se queixar com o embaixador de Cuba, dizendo-se “traído”. E é nesse contexto que, dias depois, Fidel Castro envia Raúl Cepero Bonilla para se haver com Goulart.
Em reunião sigilosa no Palácio do Planalto, e depois de conversarem sabe-se lá o que, o ministro cubano recebeu das mãos do presidente brasileiro todo o material apreendido em Dianópolis. Com esse gesto discreto e conciliador, Goulart dava o caso por encerrado, pretendendo que ninguém mais soubesse do ocorrido. Para seu azar, contudo, a pasta de couro em que Bonilla levava a documentação de volta a Cuba foi encontrada intacta entre os destroços do Boeing 707-441. O material acabou nas mãos da CIA, que tornou público o seu conteúdo.
Convém esclarecer: a história relatada acima não brotou da cabeça de nenhum bolsonarista radical, intervencionista ou saudosista do regime militar. Ela está no livro Memórias do Esquecimento, do ex-guerrilheiro Flávio Tavares, um dos 15 presos políticos libertados por ocasião do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick. E, muito embora Tavares tenha se limitado a relatar os fatos, furtando-se a uma conclusão inconveniente à versão esquerdista da história, ela me parece inescapável.
Ao devolver discretamente à nação inimiga os planos de um levante armado contra o seu governo, sem nada informar às Forças Armadas e aos demais poderes da República, o presidente João Goulart cometeu um ato de traição à pátria. Que tenha, ele próprio, se declarado “traído” ao embaixador cubano é altamente significativo nesse contexto, um sinal evidente de que esperava lealdade de Cuba, e de que, portanto, algo em troca fazia para merecê-la. Talvez jamais venhamos a saber exatamente que algo era esse, mas o simples acerto sigiloso com Fidel já seria motivo mais que justificado para a sua deposição.
Eis o tipo de fato que a esquerda brasileira, solidamente aquartelada na grande imprensa, não deseja que seja mais conhecido por parte do público, uma vez que ameaça a sua mitologia particular sobre o 31 de março de 1964. Se, entre outras coisas, fosse comprovada a existência de focos de guerrilha no país antes da queda de João Goulart (e, ademais, com o patrocínio da ditadura socialista cubana), cairia por terra a lenda segundo a qual a opção pela luta armada foi apenas uma reação de setores da esquerda ao regime militar, e não parte de uma estratégia de tomada violenta do poder.
Foi para impedir que os leitores nutrissem qualquer impulso de questionar a lenda que, por exemplo, a revista Super Interessante publicou em outubro do ano passado (em plena corrida eleitoral, portanto) uma matéria com o título “Mito: os militares impediram um golpe comunista em 1964”, cujo lead exibia o dogma inquestionável: “A verdade: Jango era um político trabalhista, não comunista. E a luta armada só ganhou adeptos depois do golpe”. No corpo da matéria, lia-se ainda: “Embora a revolução cubana e a figura romântica de Che Guevara pudessem inspirar jovens idealistas, a luta armada estava fora dos planos das esquerdas brasileiras Enquanto o Brasil foi uma democracia, a luta armada ficou de fora. Em vez disso, a esquerda abraçava a estratégia pacífica do PCB de se aliar a Jango e pressionar por reformas nas ruas. Foi somente com o golpe de 1964 que grupos debandaram do Partidão e abraçaram o modelo de revolução de Fidel Castro. Se essas pequenas e malsucedidas guerrilhas tentaram fazer do Brasil uma segunda Cuba, foi em grande parte em reação ao próprio golpe”.
Trata-se de um exemplo típico das tentativas da esquerda de emplacar sua narrativa mistificadora, com base num curioso non sequitur, segundo o qual o fracasso circunstancial do projeto de luta armada serviria como prova do seu caráter essencialmente inofensivo, com o qual só mesmo um anticomunista paranoico poderia se preocupar. Ora, decerto ninguém esperava que um redator da Super Interessante abandonasse sua refeição vegana ou a balada com os amigos para se aprofundar na historiografia do período antes de lhe dedicar uma matéria, sobretudo quando o objetivo não é informar o público, mas jogar água no moinho da esquerda. Mas o fato é que, hoje, temos fartas evidências mostrando que a ameaça de uma revolução armada já se fazia presente muito antes da derrubada de João Goulart. E, de novo, tais evidências não provêm de fanáticos bolsonaristas, mas de estudiosos simpáticos à esquerda, como, por exemplo, a historiadora Denise Rollemberg, da Universidade Federal Fluminense.
No livro O Apoio de Cuba à Luta Armada no Brasil, a autora confirma o relato de Tavares, deixando claro que a narrativa habitual da esquerda simplesmente inverte a ordem dos fatores: antes que consequência do assim chamado golpe de 1964, a opção da esquerda pela revolução armada foi uma de suas causas. Escreve Rollemberg: “Quanto à revolução brasileira, Cuba apoiou a formação de guerrilheiros, desde o momento em que assumiu a função de exportar a revolução, quando o Brasil vivia sob o regime democrático do governo João Goulart, ou seja, antes da instauração da ditadura… Cuba apoiou, concretamente, os brasileiros em três momentos bem diferentes. O primeiro, como disse, foi anterior ao golpe civil-militar. Nesse momento, o contato do governo cubano era com as Ligas Camponesas… Cuba viu nesse movimento e nos seus dirigentes o caminho para subverter a ordem no maior país da América Latina”. E conclui: “A relação das Ligas com Cuba evidencia a definição de uma parte da esquerda pela luta armada no Brasil, em pleno governo democrático, bem antes da implantação da ditadura civil-militar. Embora não se trate de uma novidade, o fato é que, após 1964, a esquerda tendeu  e tende ainda  a construir a memória de sua luta, sobretudo, como de resistência ao autoritarismo do novo regime. É claro que o golpe e a ditadura redefiniram o quadro político. No entanto, a interpretação da luta armada como, essencialmente, de resistência deixa à sombra aspectos centrais da experiência dos embates travados pelos movimentos sociais de esquerda no período anterior a 1964”.
É preciso lembrar ainda que, ao falar de interferência cubana na política brasileira, estamos falando necessariamente da URSS. Desde o início da Guerra Fria, os dirigentes soviéticos estavam convencidos de que precisavam estender os seus tentáculos sobre o Terceiro Mundo. Em meados de 1960, por exemplo, o comando central da KGB já tratava Cuba como um Avanpost  ou, em jargão militar, “cabeça-de-ponte”  para a conquista da América Latina. Em julho do ano seguinte, o então chefe da KGB, Alexander Shelepin, enviou a Kruschev um plano para explorar a nova posição. A ideia era financiar os movimentos de libertação nacional do Terceiro Mundo para que conduzissem levantes armados contra governos considerados “reacionários” ou “pró-americanos”. Como observou certa feita Nikolai Leonov, alto oficial de inteligência soviético, havia à época a convicção de queo destino do enfrentamento mundial entre os EUA e a URSS, entre capitalismo e socialismo, seria decidido no Terceiro Mundo”.
Quando o redator da Super Interessante afirma a não existência de uma ameaça de revolução comunista no Brasil da época, com base no argumento de que “Jango não era comunista. Marxistas ortodoxos defendem o fim da propriedade privada dos meios de produção. Já Jango era um advogado proprietário de terras gaúchas”, ele demonstra total ignorância do modus operandi da Internacional Comunista.
Em primeiro lugar, há aí uma confusão primária entre a definição enciclopédica de uma doutrina política e a sua realidade histórica concreta. Que marxistas defendessem doutrinariamente, e em abstrato, o fim da propriedade privada, não significa que tenham abdicado dela para a conquista e manutenção do poder (o que, aliás, seria materialmente impossível). Como mostrei em artigo passado, os dirigentes comunistas sempre foram os grandes proprietários nas nações em que chegaram ao poder. Defendiam o fim da propriedade privada alheia, evidentemente, não o da sua própria. Ora, se adotássemos o critério infanto-juvenil do redator da matéria, seríamos forçados a concluir que jamais houve no mundo um comunistazinho sequer, pois todos eles foram proprietários (de terras, de imóveis, de moeda, de artigos de luxo etc.).
Em segundo lugar, para os objetivos da Internacional Comunista, pouco importava o que Jango era, ou seja, quais as suas convicções político-ideológicas pessoais. Era preferível, aliás, que os líderes das nações-alvo do projeto expansionista soviético não fossem membros formais dos partidos comunistas locais. É o que consta expressamente, por exemplo, num dos documentos dos arquivos da StB (o serviço de inteligência tcheca que atuava como braço da KGB), citado no meu livro A Corrupção da Inteligência, em que se descrevem alguns dos objetivos da espionagem comunista no Terceiro Mundo: “Ambos os serviços de inteligência [i.e., KGB e StB] efetuarão medidas ativas com o objetivo de garantir ativistas progressistas (fora dos partidos comunistas) nos países da África, América Latina e Ásia, que possuam condições para, no momento determinado, assumir o controle de movimentos de liberação nacional”. O referido documento data de 1961, mesmo ano em que João Goulart  um dos “ativistas progressistas” alvos das medidas ativas soviéticas  assumia a presidência.
Segundo o historiador britânico Christopher Andrew, que realizou pesquisa nos arquivos pessoais do dissidente soviético e ex-agente da KGB Vasili Mitrokhin: “O papel da KGB na política soviética para o Terceiro Mundo foi mesmo mais importante do que o desempenhado pela CIA na política americana. Por um quarto de século, e ao contrário da CIA, a KGB acreditou que o Terceiro Mundo era a arena na qual poderia vencer a Guerra Fria”. Graças à abertura dos arquivos da StB, hoje sabemos, entre outras coisas, que, já em 1961, a URSS planejava “causar guerra civil no Brasil”.
Por décadas, a classe falante de esquerda, hegemônica na imprensa e na academia, impediu que essas informações fossem conhecidas do público. Hoje, quando o muro de silêncio sobre fatos politicamente inconvenientes começa a ruir, não é de se espantar que a esquerda reaja com verdadeiro pavor. Afinal, é preciso manter a todo custo o consenso dos bem-pensantes sobre o período, a saber: a preocupação demonstrada pelo governo americano  e, internamente, pelas forças políticas ditas conservadoras  com a expansão do comunismo na América Latina durante a Guerra Fria não passou de paranoia motivada por um anticomunismo patológico (“macarthista”), histérico e desprovido de razão.
O pânico de ver aquele consenso desmascarado aos olhos da população resultou na mais recente e desesperada tentativa de censura praticada pela intelligentsia de esquerda no Brasil, que tudo fez para desacreditar e reduzir o alcance do documentário 1964: o Brasil entre Armas e Livros, iniciativa do portal Brasil Paralelo. Por trazer dados históricos relevantes e até hoje ocultados do grande público por força do maquinário de hegemonia narrativa operado por nossa esquerda cultural, o filme não poderia mesmo ser tolerado pela intelligentsia progressista. Como digo no meu livro, há um constante desejo de que a história de 1964 continue a ser muito mal contada…
COMENTO:  a história da descoberta dos documentos no acidente do avião no Peru foi tratada aqui. Também foi relatada pelo insuspeito Tarzan de Castro, um dos líderes guerrilheiros ligado ao PCdoB e atuante junto às Ligas Camponesas de Francisco Julião. Assim foi descrito o fato em entrevista ao Jornal Opção: sobre seu livro de memórias “Vida, Lutas e Sonhos” (Ed. Kelps, 357 páginas):
"Ao ouvir que a história do acampamento guerrilheiro, já mapeado pelo governo de João Goulart, poderia “resultar num escândalo internacional”, Miguel Brugueras [Nota: Miguel Brugueras del Valle, embaixador de Cuba no Brasil] “ficou muito assustado”. “Marcamos um encontro na Praça Marechal Deodoro, em Ipanema, e elaboramos um minucioso relatório com os nomes dos integrantes, os locais e as circunstâncias de cada campo. Foi tudo detalhado, com a promessa de que as informações seriam criptografadas antes de seguirem um caminho seguro até as mãos de Fidel. Afinal, aquele era um relatório-bomba, um verdadeiro raio X das operações das Ligas Camponesas. O diplomata sugeriu que eu fosse pessoalmente a Cuba explicar toda a história, e eu aceitei, mas pedi um tempo para voltar a Dianópolis e reportar ao Carlos Montarroyo e aos outros [Joaquim Carvalho, Gilvan Rocha] as providências tomadas”, revela Tarzan de Castro. 
No encontro seguinte, Miguel Brugueras informa que havia entregue o relatório para Raúl Cepero Bonilha, presidente do Banco Central de Cuba e membro da direção executiva do Partido Comunista Cubano. “Sem graça”, o diplomata contou a Tarzan de Castro que “o avião da Varig que levava Bonilla e a delegação cubana caiu nos Andes, próximo à capital peruana, no dia 27 de novembro de 1962. Não houve sobreviventes”.
Ao informar que faria outro relatório, até mais minucioso, Tarzan de Castro percebeu que o cubano estampou um sorriso “amarelo”. “Sem jeito, explicou-me que o relatório não havia sido destruído — a mala diplomática fora encontrada intacta.”
A mala foi apreendida logo pela CIA. Ante um cubano desconcertado, Tarzan de Castro disse que, como as informações estavam criptografadas, os agentes dos Estados Unidos demorariam a decifrá-las. Os guerrilheiros teriam tempo “para desfazer os campos e destruir as evidências”. O sorriso do diplomata, que passara de amarelo para verde, desapareceu de seu rosto. “Ninguém criptografou as mensagens”, admitiu o cubano.

“Todos os documentos encontrados pela CIA foram entregues ao governo brasileiro. E a bomba explodiu no nosso colo. A imprensa brasileira publicou uma bateria de reportagens contando tudo sobre os futuros focos de guerrilha no Brasil. A revista ‘O Cruzeiro’, na edição de 22 de dezembro de 1962, estampou em sua capa: ‘Guerrilha descoberta no Brasil Central’”, relata Tarzan de Castro.
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