sexta-feira, 22 de junho de 2018

"Trigon" - Espiões Passeando na Noite

.
Aleksandr Ogorodnik 
(codinome: Trigon)
Em 22 de junho de 1977 [41 anos atrás],  Aleksandr Ogorodnik, (Trigon), matou-se com uma pílula de veneno fornecida pela CIA, após a KGB detê-lo com base em informes fornecidos por um infiltrado na Agência. Cerca de três semanas depois, a Agente da CIA Martha (Marti) Peterson  sem saber sobre a morte de Aleksandr  foi presa em uma emboscada da KGB enquanto realizava um "dead drop" (Comunicação Sigilosa) em Moscou.
As ruas de Moscou foram um dos mais importantes e perigosos campos de batalha durante a Guerra Fria. Agentes de Inteligência dos EUA como Marti trabalhavam nas sombras com  informantes como Aleksandr, coletando segredos soviéticos. Os soviéticos, por sua vez, vigiavam de perto todos os estrangeiros e os seus próprios cidadãos em busca de sinais de espionagem.
"Trigon" e sua  mini-câmera T-100. 
Credit: SPYCRAFT,
 by Robert Wallace & H Keith Melton.
Embora a história de Trigon tenha terminado tragicamente, os dados que Aleksandr forneceu deram aos analistas dos EUA uma ampla visão sobre planos e intenções da União Soviética (URSS) para sua política externa. E foram esses conhecimentos que ajudaram os EUA vencerem a Guerra Fria.
Recrutamento de um Espião
Aleksandr Ogorodnil era um funcionário de nível médio no Ministério de Relações Exteriores (MFA) da URSS servindo na América Latina, tendo acesso às informações a respeito das intenções soviéticas para a região. Ele gostava de sua vida ao estilo ocidental, considerando-a melhor que o sistema vigente na URSS, que ele considerava opressivo.
A CIA recrutou Aleksandr na América do Sul — Bogotá, Colômbia  em 1973. Ao aceitar espionar para a Agência, ele recebeu o codinome "Trigon".
Ele escamoteava documentos da Embaixada e os levava a um esconderijo, onde eram fotografados por agentes da Agência. O material que ele forneceu deu uma visão incomum sobre as políticas soviéticas na América Latina, incluindo planos para influenciar outros governos.
Retorno à Pátria-Mãe 
Antecipando seu retorno a Moscou, Agentes da CIA ensinaram Métodos e Técnicas Operacionais a Trigon. Ele recebeu treinamento em escrita secreta, uso de códigos de criptografia e procedimentos de "dead drop" (recipiente fixo). Uma das primeiras agentes femininas da CIA a servir por trás da Cortina de Ferro, Marti Peterson, foi enviada a Moscou para ser a controladora de Trigon. Na época, a KGB menosprezava a capacidade feminina de realizar Operações de Inteligência, assim, Marti trabalhou despercebida por mais de 18 meses. 
Instruções de "dead drop" para Trigon
Credito: SPYCRAFT.
O valor de Trigon cresceu expressivamente após o seu retorno a Moscou em Outubro de 1974. Ele concordou em continuar a espionar para a Agência, mas condicionou isto a que o governo dos EUA abrigasse sua namorada que estava grávida. Antes de partir para a União Soviética, Trigon solicitou algum dispositivo para suicídio para o caso de ser pego. Após discussões de alto nível em Langley, seus controladores da CIA relutantemente lhe entregaram uma caneta-tinteiro contendo uma cápsula de cianeto.
Alguns meses depois, conforme suas instruções para recontato, Trigon deu um "sinal de vida" em fevereiro de 1975. Como encontros face a face eram muito perigosos, encontros impessoais operacionais — usando marcas de sinalização, mensagens de rádio, dispositivos de ocultamento, "dead drops— começaram em outubro, sendo repetidos mensalmente.
Por aproximadamente dois anos em que trabalharam juntos, Marti e Trigon nunca se encontraram pessoalmente. Eles foram somente dois espiões "passeando na noite".
Ratos Mortos nos "Dead Drops"
Moscou era um ambiente operacional desafiador. Até mesmo encontrar um simples endereço na cidade era difícil devido aos mapas lá produzidos serem deliberadamente imprecisos. A Agência teve que ser criativa para comunicar-se com seus Agentes, o que regularmente incluía o uso de "dead drops".
Simulacro de pedra para uso em
 "Dead drop". Credit SPYCRAFT.
"Dead drops" era o meio pelo qual o pessoal de Inteligência  recebia ou passava itens de forma sigilosa aos Informantes sem a necessidade de ter um encontro direto.  Costumeiramente, coisas como um tijolo ou uma pedra falsa podem ser usadas como um "dead drop". Contendo mensagens ou suprimentos, esses artefatos podem ser depositados em locais pré definidos, como um canteiro de obras, para posterior recolhimento pelo destinatário.
Um dos mais surpreendentes dispositivos de ocultação usados pela CIA eram ratos mortos. A cavidade de seus corpos era suficientemente grande para conter um maço de dinheiro ou um rolo de filme fotográfico. Um pouco de molho de pimenta-do-reino mantinha os gatos afastados, após o "rato morto" ser jogado pela janela de um carro em um ponto combinado previamente de uma estrada.
Bolsa de Marti Peterson, usada
 nos "dead drop" em Moscow.
Marti usou uma bolsa para esconder suprimentos e equipamentos que ela transferiu a Trigon em coberturas de pontos de "dead drops".  Por causa do preconceito da KGB em relação à atuação feminina, a bolsa, assim como a própria Marti, não atraíram suspeitas.
A Toupeira ou O Infiltrado
Trigon logo conseguiu um cargo no Departamento de Assuntos Globais do MFA que lhe dava acesso a mensagens enviadas e recebidas das embaixadas soviéticas em todo o mundo. Ele forneceu dados sensíveis de Inteligência sobre planos e objetivos da política externa da URSS. Suas resenhas chegaram ao Presidente e altos elaboradores da política norte-americana.
Enquanto isso, Karl Koecher, cidadão norte-americano naturalizado, trabalhava na CIA como tradutor e funcionário contratado. Sem o conhecimento da CIA, ele também trabalhava simultaneamente para o Serviço de Inteligência da República Tcheca. Ele teve acesso a informações sobre as primeiras negociações da Trigon com a Agência e informou a seu serviço de inteligência, que então notificou a KGB.
Ponte Krasnoluzhskiy Most,
em Moscow local de dead drop
Credit SPYCRAFT.
Não se sabe quando isso ocorreu, nem em que época o KGB iniciou a investigar Trigon. No início de 1977, todavia, os Encarregados de Caso começaram a notar indicações — principalmente um declínio acentuado na qualidade das fotografias — de que ele havia sido comprometido e estava sob controle da KGB.
A Ponte Krasnoluzhskiy
Trigon nunca compareceu ao encontro agendado para 28 Jun 1977, assim, foi marcado outro por mensagem de rádio, para duas semanas depois.
Em 15 de julho, Marti foi até Krasnoluhskiy Most — uma ponte ferroviária próxima ao Estádio Central Lenin — para efetuar um "dead drop". A ponte atravessa o Rio Moscou e tem uma passarela para pedestres ao longo de um dos lados dos trilhos. Um local havia sido preparado para que Trigon pudesse pegar uma "encomenda" de Marti, e deixar um pacote que seria recolhido por ela mais tarde, naquela mesma noite.
Marti presa. 
Credit SPYCRAFT.
Quando a noite caiu sobre Moscou, Marti deixou um artefato disfarçado em uma estreita janela dentro da torre de pedras na Krasnoluzhskiy Most. Era uma armadilha.
Uma equipe de vigilância da KGB estava esperando e deteve Marti. Eles a levaram para a prisão de Lyubianka, onde ela foi interrogada por horas e fotografada com alguns equipamentos de espionagem que Agentes, e Trigon, costumam usar. Ela foi declarada "persona non grata" (uma pessoa indesejável) e enviada de volta aos EUA imediatamente.
Mais tarde, a Agência descobriu que Alexander Ogorodnik havia se suicidado um mês antes da detenção de Marti. Ele teria dito à KGB que faria uma confissão por escrito e, para isto, pediu sua própria caneta. Marti escreveu em seu livro de memórias, "The Widow Spy", que ele "abriu sua caneta como se fosse iniciar a escrever e mordeu o reservatório, expirando instantaneamente em frente aos seus interrogadores do KGB. Estes estavam tão concentrados em sua confissão que nunca suspeitaram que o reservatório de tinta da caneta continha veneno ... Trigon morreu à sua própria maneira, como um herói,"
Fonte: tradução livre de CIA
COMENTO: por tratar-se de um texto contendo expressões técnicas, pode ter ocorrido algum equívoco devido ao meu precário domínio da língua inglesa.  Um termo que pode gerar dúvidas é o "dead drop", cuja melhor tradução seria "receptáculo fixo", mas que eu preferi deixar como o original.  Qualquer colaboração no sentido de melhorar a compreensão do texto será bem-vinda.
.

domingo, 10 de junho de 2018

Ali Soufan: O Agente Muçulmano do FBI Que Perseguiu a Al Qaeda

.
Sua história chegou às telas com a série The Looming Tower (A Torre Elevada)
Soufan e sua Thompson, que o FBI presenteia a seus agentes que se aposentam
Pouco se conhece a seu respeito a não ser que trabalhou no FBI. Sim, Ali Soufan era um dos agentes que perseguiram a Al Qaeda. Mas é muito mais que isso. Se trata de um imigrante muçulmano que fugiu da guerra para alcançar seu sonho americano.
Ele nasceu no Líbano, há 46 anos, durante uma brutal guerra civil que golpeou o país entre 1975 e 1990. Emigrou para os Estados Unidos quando era adolescente, foi presidente de grêmio estudantil na universidade e sonhava fazer um doutorado em Cambridge, Inglaterra.
Enquanto perseguia esse sonho, ele enfrentou um desafio: candidatou-se a um trabalho no FBI e foi o único de seus amigos que resultou selecionado.
Soufan era o único conhecedor da língua árabe no Grupo Especial Antiterrorismo do FBI em Nova York. 

Danos no USS Cole
A ele foi encomendada a missão de investigar a Al Qaeda após os bombardeios das embaixadas norte-americanas no leste africano - em Nairobi, no Quénia, e em Dar es Salaam, na Tanzânia - em 1998 e o ataque ao destróier USS Cole no Iêmen em 2000.Viajou pelo mundo interrogando suspeitos, mas a Inteligência dos EUA não conseguiu impedir os ataques de 11 de setembro de 2001 que mataram quase 3.000 pessoas nos Estados Unidos. Uma das vítimas foi o ex chefe de Soufan, John O'Neill.
Ele viu os ataques pela televisão quando estava no Iêmen, e os descreve como "o momento mais devastador" de sua vida. Depois lhe entregaram um envelope pardo com as informações de Inteligência que estava pedindo desde novembro de 2000. Soufan acredita que, se houvesse recebido esses dados antes, poderia ter impedido os ataques.
"Não sei se irritado é a melhor palavra. Destroçado. Não conheço o sentimento. Não conheço o melhor termo para descreve-lo, inclusive hoje", disse à AFP em uma recente entrevista em seu escritório de Nova York, com uma bandeira dos EUA por detrás dele.
A amarga rivalidade entre a CIA e o FBI que inadvertidamente abriu caminho ao "11 de Setembro" é dissecada em "The Looming Tower" (A Torre Elevada), uma nova minissérie televisiva transmitida pelas plataformas Hulu e Amazon Prime. É uma adaptação do livro homônimo de Lawrence Wright que ganhou o Pulitzer e é um êxito de vendas.Mais que uma serie de TV
Na televisão, Soufan é interpretado pelo ator francês Tahar Rahim - os dois se tornaram amigos - e seu chefe do FBI John O'Neill por Jeff Daniels.
Soufan se sente muito gratificado pelo fato de o programa educar uma nova geração sobre o "11 de Setembro", desafiar os estereótipos muçulmanos e enviar uma mensagem aos jovens, em particular aqueles que têm origem imigrante e podem se sentir discriminados.
"Isto não é só uma serie de TV. Este é um serviço público", diz.
"Há tantos jovens crescendo em comunidades nos Estados Unidos, em Paris, em Bruxelas, em Londres e sentindo que não se encaixam... Estamos tratando de chegar neles e dizer que não deixem que o cinismo os liquide, não acreditem na Al Qaeda ou no ISIS (EI) e suas narrativas", acresce.
Na vida real, Soufan é um brincalhão de extrema inteligência que pede desculpas por não estar vestido de terno e gravata para as câmaras.
Mostra contente uma metralhadora Thompson, o primeiro tipo de arma que o FBI usou contra a máfia nos anos 1930, e que hoje são entregues como regalo aos que se aposentam da instituição.
"Agora temos coisas sofisticadas", brinca Soufan. "Sofisticadas e muito efetivas".
Soufan se opunha à tortura e deixou o FBI em 2005. Dois anos depois, fundou uma empresa de segurança que trabalha com governos de todo o mundo.
"Nunca me senti discriminado"
"Era hora", diz sobre sua decisão. "Não tens que estar dentro para fazer do mundo um lugar melhor, e isso é o que tratamos de fazer aqui".
O Soufan Group, que emprega funcionários inativados da CIA e do FBI, oferece consultoria e treinamento a governos, corporações, agencias policiais e de Inteligência através do mundo.
Reconhecido especialista em segurança e autor, Soufan considera que a principal ameaça é a cibernética. Mas também tem dificuldades em imaginar a um jovem muçulmano do Oriente Médio que se adapte tão facilmente aos Estados Unidos polarizados de hoje.
"Creio que Estados Unidos foi muito bom comigo em tantos sentidos diferentes. Mesmo quando era uma criança e um jovem, nunca me senti discriminado".
Defensor da imigração, entende a necessidade de tratar o tema dos indocumentados, mas garante que isolar as comunidades não é a solução.
Em seu escritório há uma foto sua com Barack Obama, mas nunca falou com Donald Trump.
¿O que diria a ele se vocês se encontrassem? "Creio que o trabalho de um líder é liderar, não confundir", responde.
Fonte: AFP
Fonte: tradução livre de El Observador