quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O Politicamente Correto e a Distorção da Verdade

Polêmica por declarações do General Óscar Gómez sobre homicídios
Ilustração: por Raul Zuleta - El Colombiano 
por Camilo Trujillo Villa
Uma queixa recorrente dos cidadãos é a de que muitos delinquentes e homicidas terminam livres ou pagando penas irrisórias por falhas do sistema judicial. Razão pela qual alguns se alegram e até celebram ao inteirar-se que um infrator da lei foi morto pelas autoridades ou assassinado nas disputas que se dão entre os grupos criminais.
É comum ver nas redes sociais frases alusivas ao uso de força letal para defender-se de um ladrão ou ler como justificam a morte de alguém considerado “malandro”, seja qual for a circunstância.
A conduta de fazer justiça pelas próprias mãos tem que ver, de acordo com Jairo Andrés Cárdenas, psicólogo e docente da Universidade Católica do Norte, na crença de que cada pessoa pode reclamar o direito de estabelecer uma norma social.
“Falta reconhecer o outro como individuo. E isso está se apagando. A impulsividade é a primeira que vige”, assegura.
A socióloga e especialista em Família, Ana Victoria Bedoya expõe que já se perdeu o respeito pela vida e a dignidade dos demais e que as novas tecnologias facilitam esse sentimento.
“A gente julga sem conhecer o contexto social das pessoas. Muitos aproveitam as plataformas virtuais para desafogar-se, destilar ódio e dizer o que não são capazes de sustentar pessoalmente”, comentou Bedoya.
Acrescentou que alguns aproveitam a oportunidade de anonimato proporcionadas por algumas redes sociais para expressar o [mal estar] que lhes causam as injustiças que vivem ou presenciam diariamente.

Mas quando é dito por um General
O que realmente surpreende, é ouvir o General Óscar Gómez Heredia, Comandante da Policía Metropolitana do Vale de Aburrá, dizer que “aquí não assassinam gente de bem, os que estão sendo mortos são aqueles que tem problemas judiciais”.
Essas declarações buscavam argumentar que os golpes que a Instituição tem provocado na criminalidade, tem como consequência um aumento nos homicídios, os quais, segundo o alto oficial, não tem conexão entre si.
A frase não foi bem recebida pela opinião pública.

Legitima a violência 
O sociólogo Max Yuri Gil Ramírez, presidente da Corporação Región, qualifica essa declaração como desafortunada e que a mesma deve gerar um alto nível de preocupação na cidadania. 
“Há três problemas com as palavras do General: primeiro, é como se nos dissesse que há uma espécie de pena de morte para os que tem antecedentes judiciais. Segundo, geram uma legitimação nesta modalidade de violência que tanto dano tem feito ao nosso país; a mal chamada limpeza social, porque faz o jogo dos que sustentam que é aos delinquentes que estão matando e isso está correto, quando [na verdade] é tudo ao contrario. E terceiro, é que estendem um manto de dúvida e de suspeita sobre todas as pessoas que foram assassinadas; esta é uma forma de re-vitimizar os familiares da pessoa que sofreu o homicídio”, manifestou Gil Ramírez.

Esfriar o debate 
O antropólogo Gregorio Henríquez considera que um cidadão pode interpretar as declarações do Comandante da Polícia Metropolitana como uma motivação à celebração de atos violentos. 
“Ainda que sempre há uma opinião pessoal e esta se debe respeitar, se espera que ante os meios de comunicação seja a institucionalidade que pese. Há que se conter ao falar, porque nunca se saberá de que maneira as pessoas entenderão o expressado”, opinou Henríquez. 
O antropólogo sugeriu que se baixe a temperatura do debate, já que o General Gómez Heredia tem sido um oficial muito racional em suas opiniões e que a ele se deve muito da recuperação de espaços que são importantes para a capital antioquenha. 
“Tampouco devemos começar a julgar por declarações que tem um contexto [específico]. E, se houve equivoco, também tem o direito a se retificar. O importante é esclarecer, para que isto não se preste a que algumas pessoas pensem ou digam: ‘se foi dito pelo Comandante da Polícia, é porque é certo ou é o que se deve fazer”, concluiu Henríquez.

Papel das mídias 
Para Diego Sierra, do Observatório de Direitos Humanos e Paz do Instituto Popular de Capacitação, a afirmação não tem fundamento e é muito grave, já que é uma postura que criminaliza a pobreza e “seria como justificar a pena de morte”. 
Considera, ainda, que os meios de comunicação deveriam fazer um esforço em saber o que se informa e o que não. 
“Muitas vezes, por ‘chiva’ [troça], algumas declarações podem gerar incerteza e insegurança em alguns setores da opinião pública. Devemos antepor a segurança e a vida, para que não nos volte a passar o que ocorreu nos anos noventa. A institucionalidade pública tem que estar em função disto, acompanhado pela cidadania”, assegurou Sierra. 
Também sustenta que é obrigação de todos nos manifestarmos contra o que limita a liberdade de participação política e comunitária.

Respeito pela vida 
O prefeito de Medellín, Federico Gutiérrez Zuluaga, expressou que “é um horror seguir contando mais mortes, temos que falar do respeito pela vida, isto sempre será o mais importante”.

O que se diz sobre os homicídios em Medellin 
O General Óscar Gómez Heredia está a sete meses como comandante da PoliMetro.
O Sistema de Informação para a Segurança e Convivência (SISC), classifica em oito as causas dos homicídios que se apresentam em Medellin:
- associados a furtos, 
- associados a grupos delinquenciais organizados, 
- convivência, 
- violência de gênero, 
- violência intra-familiar, 
- procedimentos da força pública, 
- homicídio culposo, e
- em processo por categorizar (causas diferentes das anteriores). 
Os homicídios associados aos grupos delinquenciais organizados (147 em 2017) são os que lideram a estatística, seguido pelos de convivência e os associados a furtos. 
As comunas de Medellín onde mais se apresentam assassinatos são: Candelaria, Castilla, Doce de Octubre, Robledo, San Javier, Belén e Aranjuez. 
Fonte: tradução livre de El Colombiano
COMENTO: Isso mesmo colombianos, reforcem o "garantismo" dos direitos dos bandidos! No Brasil, tivemos o início de movimentos guerrilheiros nos anos 70 e eles foram liquidados rapidamente com o uso de força bruta! Por outro lado, vocês evitaram usar a força contra os bandoleiros das FARC em seu início. Ainda sofrem as dores dessa decisão, sendo até mesmo obrigados a "negociar" com os narcoterroristas que querem anistias e direitos até mesmo políticos. Por aqui, também fomos - e ainda somos - generosos para com os direitos de cidadania dos facínoras ao mesmo tempo em que depreciamos, admoestamos e reprovamos as Polícias e suas ações. O resultado é uma criminalidade totalmente fora de controle, com números de mortes violentas nunca antes alcançados e nossas polícias desmotivadas e tolhidas em seu atuar por leis e críticas de políticos, imprensa mais comprometida com o sensacionalismo que com a verdade, e um sem número de "especialistas" como os citados no texto, criticando a violência policial desde seus escritórios com ar condicionado, sem conhecerem de perto o assunto de que tratam.
Para coroar o ridículo do vezo crítico da notícia, no mesmo dia foi noticiado que o General Gómez se retratou do que havia dito.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Informação e Desinformação: Aspectos da Guerra Híbrida

.
por Flávio César Montebello Fabri
O DefesaNet têm corretamente não somente alertado mas, principalmente, orientado, a respeito do cenário atual vivido a respeito de Guerra Híbrida. Tema que aparentemente é alusivo (a um leigo) somente como uma atuação militar, vivido por forças singulares, na “terra de ninguém”, mais do que nunca tem sido experimentado pelas forças policiais e pela sociedade civil como um todo, sendo extremamente complexo.
Até pouco tempo atrás, em outubro de 2015, vivenciamos em São Paulo (principalmente na capital), a ocupação de mais de 200 escolas, durante a “reorganização” proposta pelo Estado. Poucos se lembraram do evento ocorrido no Chile em 2006, conhecido como Rebelião dos Pinguins (com documentário disponível no site YouTube), com mais de 600.000 estudantes envolvidos, onde se falava muito do “amadurecimento do movimento estudantil”.
Poucos também leram a obra de Gene Sharp, Da Ditadura à Democracia (ou o documentário “Como Iniciar uma Revolução”), enquanto tentavam olhar um pouco mais atentamente a respeito das grandes manifestações populares que ocorriam, também, em passado recente.
Deixemos um pouco de lado conceitos doutrinários a respeito de Inteligência (que segundo a ABIN, Agência Brasileira de Inteligência, é o “exercício de ações especializadas para obtenção e análise de dados, produção de conhecimentos e proteção de conhecimentos para o país”) e Contrainteligência (de uma forma singela, o foco na proteção contra espionagem, por exemplo e produção de conhecimentos, realização de ações voltadas para a proteção de dados, conhecimentos etc.). Passemos a falar sobre a atividade de obtenção de informações e, mais propriamente, da desinformação.
Imagem – Atividade de Contrainteligência, segundo a ABIN 
Mas antes que pareça algo extremamente atual ou romântico (como em muitos filmes sobre espiões), gostaria de lembrar que, do ponto de vista histórico, a Sagrada Escritura (Bíblia) é rica em assuntos que ainda hoje parecem surpreendentes. Como a Bíblia é praticamente encontrada em todos os cantões do planeta, não é difícil efetuar consulta.
A não ser em relação aos meios utilizados e a refinamentos táticos, a primeira ação conhecida com típicas características de emprego de Forças Especiais, se encontra no Livro de Juízes, no seu capítulo 7. Gideão deslocou sob a cobertura da noite e do silêncio uma fração extremamente bem treinada para um acampamento adversário, que possuía um contingente muito maior que a força enviada. Tochas escondidas em cântaros (que foram posteriormente arremessados violentamente ao solo, produzindo som alto) ofuscaram e desorientaram os oponentes, que foram posteriormente abatidos.
A vitória de Gideão pouco difere em doutrina, técnica ou tática às operações do LRDG (Long Range Desert Group) britânico na África Saariana ou a equipe SEAL (Sea Air Land - U.S. Navy, sendo que a equipe 6 é denominada como United States Naval Special Warfare Development Group) desdobrada na Operação Arpão de Netuno, no Paquistão, em maio de 2011, que culminou com a morte do terrorista Osama Bin Laden. Também, a Bíblia menciona a importância do levantamento de informações, precedendo uma ação “ostensiva” propriamente dita. No Livro de Números 13:1-2 (capítulo treze, versículos um e dois) se lê: “E falou o SENHOR a Moisés, dizendo: Envia homens que espiem a terra de Canaã...”. Sucessor de Moisés, Josué fez uso de “espias” com a finalidade de angariar informações a respeito da situação em localidades, particularmente Jericó. Lemos em Josué 2:1-5 (capítulo dois, versículos de um a cinco) que:Então Josué enviou dois espiões dali onde se encontrava o campo israelita em Sitim, para que passassem o rio e se dessem conta secretamente de qual era a situação no outro lado, especialmente em Jericó”.
No versículo 3 que: “São espias...foram mandados pelos chefes israelitas para estudarem a melhor forma de nos atacarem (grifo nosso)”. Em Hebreus 11:31 (capítulo onze, versículo trinta e um) lemos: “Pela fé Raabe... acolheu em paz os espias”. 
Ressalto novamente que no comparativo entre ações, que se deve levar em consideração fatores como “quando ocorreu” e “com quais meios disponíveis”. Também me desculpo com aqueles que são conhecedores a respeito de temas bíblicos, por alguma incorreção de minha parte.
Estudar o objetivo, em vários outros pontos, são condições a serem avaliadas pela inteligência, podendo preceder uma ação onde, de uma forma ou de outra, se fará conhecer as reais intenções de um grupo. John Keegan, famoso historiador militar inglês, em sua obra Inteligência na Guerra: conhecendo o inimigo, de Napoleão à Al-Qaeda (Companhia das Letras, 2006), falando sobre a inteligência, cita o pensamento de George Washington de queA necessidade de obter informações de qualidade é evidente e não precisa ser objeto de debate”. Ainda, Keegan ensina que “a conquista da Gália por César decorreu de seu melhor uso de informações...”.
A arte da observação e dedução também foi sendo desenvolvida com o passar do tempo. As regras de observação mencionavam, inclusive, a análise quando da visualização da poeira e reflexos de luz como indicação de ações de tropas adversárias. Keegan explica queuma nuvem generalizada de poeira indicava geralmente a presença de saqueadores inimigos ... colunas densas e isoladas de pó demonstravam que as hostes estavam em marcha”, tão como, citando o Marechal de Saxe, que “nos dias claros, os reflexos de sol nas baionetas e espadas podia ser interpretado a distâncias de até 1600 metros...se os raios forem perpendiculares, significa que o inimigo avança em nossa direção; quando intermitentes e infrequentes, indicam retirada”.
Pois bem. Não necessariamente nos cenários de Guerra Híbrida, um objetivo (ou grupo envolvido) fica evidente. Da mesma forma, além de obter informações de interesse (e resguardar as mesmas quando necessário), DESINFORMAR também garante resultados quando se fala em mobilização de grupos, formar opiniões, fragilizar instituições, ocultar fatos etc. Aplicativos como o WhatsApp, Telegram, como tantos outros, feitos para facilitar o contato entre pessoas, podem ser utilizados para propagar em curtíssimo espaço de tempo boatos e informações distorcidas causando comoção, sendo que nem todos os usuários, antes de compartilharem algo que receberam, se preocupam em verificar a veracidade ou contexto.
Até que seja esclarecida que a informação recebida não era verídica ou possuía um caráter outro que não o mero esclarecimento a respeito de um fato, a mensagem já produziu seu efeito: DESINFORMAR.
O professor Guy Durandin, em seu livro As Mentiras na Propaganda e na Publicidade (JSN Editora, 1997) já alertava que “quanto ao grau de informação, evidentemente é mais fácil enganar uma população pouco informada do que uma bem informada. Para ilustrar, falaremos apenas de duas situações. Nos regimes totalitários, o governo se esforça para controlar totalmente a informação, ao ponto de se tornar impossível distingui-la da propaganda.
A população, recebendo tudo da mesma fonte, não tem dados para exercer seu espírito crítico, e corre o risco de acreditar em mentiras, ou então, depois de decepções acumuladas, tornar-se totalmente cética”. Na obra, exemplos como Goebbels (um artista da desinformação) e vários outros, são citados. Este livro é de leitura quase obrigatória, principalmente nos dias atuais.
Sobre informar e desinformar vi duas circunstâncias totalmente diversas em relação a uma pessoa próxima: meu filho. Um dia, uma de suas professoras comentou a respeito das vantagens de países democráticos. Citou como exemplo ... Cuba (!!!). Meu filho recebeu uma informação brevemente, não ocorreu debate ou pesquisa sobre, sendo que ao chegar em casa comentou estar fascinado com o que foi descrito. Conversamos longamente e foi exposto outro ponto de vista pessoal de minha parte. Deixo a convicção a respeito do tema com ele, desde que pesquise, tenha acesso a mais referências e outros posicionamentos.
Por outro lado, em outro ambiente (Capítulo DeMolay Sagrada Aliança Nº 791 – São Paulo / SP), testemunhei a pesquisa e debate, sem paixões exacerbadas, a respeito de temas atuais. Informações sobre determinado assunto foram expostas, ocorreram perguntas e, de forma salutar, uma conversa entre os jovens. Felizmente cada um deles tinha um posicionamento pessoal, que foi respeitado, celebrando-se as diferenças. Com uma vantagem: cada um deles, mesmo tendo uma opinião própria, teve acesso a mais informações.
Acompanhar o tema Guerra Híbrida, é um assunto mais complexo e de difícil compreensão do que aparenta. Com a velocidade que proporciona a dispersão de informações, é muito fácil, caso não se pesquise, se deixar levar por fatos parciais ou interesses que não são evidentes. Talvez, em outra oportunidade, possamos comentar mais a respeito de desinformação.
Fonte:  Defesanet